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Posts Tagged ‘Vídeo’

Por vezes, há presentes que o mundo espalha e vamos recebê-los depois, embora antes mesmo que soubéssemos eles já estavam ali. Como um fruto já maduro, aguardando as mãos que vão colhê-lo!

Cada leitura que recebo, recebo como um presente. Afinal, é um presente que alguém dedique seu tempo e seus olhos às palavras que escrevemos. E no dia de ontem, me deparei com um presente que já estava pronto para ser colhido desde o dia 17 de julho: uma generosa partilha de leitura do meu Trítonos – intervalos do delírio (à venda no site da Editora Patuá, no endereço http://bit.ly/teofilopatua), feita pela Carol Miranda em seu canal no Youtube. No vídeo, aliás, meu Trítonos está apenas com excelentes companhias!

Porque cada leitura é um presente, e cada partilha que testemunha a leitura é uma forma de multiplicar esse presente que recebo, com minha gratidão imensa divido esse presente por aqui:

https://www.youtube.com/watch?v=UUDIHaJNNuU&t=228s

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Se perguntássemos a cem escritores o porquê de escreverem, certamente obteríamos cem respostas diferentes. Mas posso dizer que uma das razões que me levam à escrita é o desejo de encontro e de diálogo que a leitura propicia. Um evento como o de sábado é uma excelente oportunidade de exercício desse diálogo a partir da escrita, mas que se estende com a presença física, repleta de expressões, tons de vozes e sorrisos.

Fiquei feliz com cada abraço, cada dedo de prosa trocada, ainda que brevemente (era grande o desejo que o tempo não passasse e fosse possível conversar detidamente com todos). Fiquei muito feliz pelo interesse de muitos dos autores que me fazem companhia nesta coletânea tiveram em meu livro, lançado há um ano e meio pela Editora Patuá (saí com cinco novos potenciais leitores de meu Trítonos – intervalos do delírio!).

Compartilho aqui algumas lembranças fotográficas do lançamento pela Editora Oito e Meio da coletânea de contos Tabu (clique aqui para mais informações), da qual faço parte. O livro foi organizado pela Flávia Iriarte com integrantes do curso de escrita criativa do Carreira Literária.

Além das fotos, a Fabi (que, por ser a fotógrafa, acabou não saindo em nenhuma foto comigo) fez um vídeo lindo, para o canal do Laboratório dos Sentidos, sobre nossa viagem para o Rio de Janeiro. Deixo aqui também:

Lançamento do coletânea "Tabu" - 15 de julho de 2017.

Lançamento do coletânea “Tabu” – 15 de julho de 2017.

Lançamento do coletânea “Tabu” – 15 de julho de 2017.

Lançamento do coletânea “Tabu” – 15 de julho de 2017.

Lançamento do coletânea “Tabu” – 15 de julho de 2017.

Lançamento do coletânea “Tabu” – 15 de julho de 2017.

Lançamento do coletânea “Tabu”, com Marisa Tostes Daniel (mamãe) – 15 de julho de 2017.

Lançamento do coletânea “Tabu” – 15 de julho de 2017.

Lançamento do coletânea “Tabu” – 15 de julho de 2017.

Lançamento do coletânea “Tabu” – 15 de julho de 2017.

Lançamento do coletânea “Tabu” – 15 de julho de 2017.

Lançamento do coletânea “Tabu” – 15 de julho de 2017.

Lançamento do coletânea “Tabu” – 15 de julho de 2017.

Lançamento do coletânea “Tabu” – 15 de julho de 2017.

Lançamento do coletânea “Tabu”, com André Balbo – 15 de julho de 2017.

Lançamento do coletânea “Tabu”, com André Balbo e Samir Oliveira Ramos – 15 de julho de 2017.

Lançamento do coletânea “Tabu, com Samir Oliveira Ramos” – 15 de julho de 2017.

Lançamento do coletânea “Tabu”, com Paula Giannini e Táscia Souza – 15 de julho de 2017.

Lançamento do coletânea “Tabu” – 15 de julho de 2017.

Lançamento do coletânea “Tabu” – 15 de julho de 2017.

Lançamento do coletânea “Tabu”, com Nuno Rau – 15 de julho de 2017.

Lançamento do coletânea “Tabu”, com Fernando Sousa Andrade e Nuno Rau – 15 de julho de 2017.

Lançamento do coletânea “Tabu”, com Nuno Rau – 15 de julho de 2017.

Lançamento do coletânea “Tabu” – 15 de julho de 2017.

Lançamento do coletânea “Tabu” – 15 de julho de 2017.

Lançamento do coletânea “Tabu” – 15 de julho de 2017.

Lançamento do coletânea “Tabu” – 15 de julho de 2017.

Lançamento do coletânea “Tabu” – 15 de julho de 2017.

Lançamento do coletânea “Tabu” – 15 de julho de 2017.

Lançamento do coletânea “Tabu” – 15 de julho de 2017.

Lançamento do coletânea “Tabu” – 15 de julho de 2017.

Lançamento do coletânea “Tabu” – 15 de julho de 2017.

Lançamento do livro "Tabu" no sábado (15/7), na sede da Editora Oito e Meio.

Lançamento do livro “Tabu” no sábado (15/7), na sede da Editora Oito e Meio.

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Veredas do Tempo

(Teofilo Tostes Daniel)

Intro.: Am E7 (2x)

__ Am ______________ E7
Eu corro pelas veredas do tempo
__ Am _______________ A7
Tecendo caminhos com meus pés
Dm ____________ C C5+/7+
Eu que desenho as paisagens
_______ F _________________ E
Que transporto em minhas próprias viagens
_______ F ____________ E E7
Que transbordo em minhas marés

Am ____________ E7
Escrevo no ventre do vento
Am ____________ A7
Sussurros que fazem soar
Dm ___________ C C5+/7+
O que o silêncio me fala
______ F ________ E
Que não cala no peito e faz vibrar o ar
____ F _______________ E
E permite que eu construa em mim um lar

_ Am __ E7
O corpo é guardião da memória
_______ F ______ E
Em meus pés eu levo as estradas, trajetórias
_____ F ___________ E ___________ E7
E sob a pele habitam-me as canções e as histórias

__ Am _____________ E7
Percorro as incertezas do tempo
___ Am _____________ A7
Que trago sozinho em meu revés
Dm _____________ C C5+/7+
Eu que consinto em miragens
____ F _____________ E
E naufrago em meus personagens
_____ F __________________ E
Mas renasço em minhas próprias marés

_ Am __ E7
O corpo é celebração da minha história
_______ F _________ E
Em meus céus eu guardo as miradas, desmemórias
_____ F ________ E _____ E7
E sob a pele deliram sensações

Am

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Sempre sinto uma enorme gratidão quando sou lido. Receber de alguém os olhos e o tempo, focados em palavras que coloquei no mundo, é algo muito especial. Afinal, o sonho de toda escritura é alucinar nos olhos de leitores.

Neste fim de ano, recebo esse presente: uma leitura! E uma generosa resenha em vídeo da Mell Ferraz, do Canal e Blog Literature-se, sobre o meu Trítonos – intervalos do delírio. Resenha essa que, com enorme alegria, compartilho aqui.

E para quem tiver interesse no livro, ele está à venda no site da Editora Patuá, em http://bit.ly/teofilopatua.

Foto: Mell Ferraz - Blog e Canal Literature-se (Divulgação)

Foto: Mell Ferraz – Blog e Canal Literature-se (Divulgação)

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A ideia primeira desse vídeo era apenas apresentar essa música para divulgar minha participação no último “Desconcertos de Poesia” de 2016 no dia 6 de dezembro, evento promovido pelo amigo, escritor e poeta Claudinei Vieira no Patuscada – Livraria, bar & café. Neste evento, para o qual tive a honra de ser convidado para mostrar um pouco da minha escrita e também um pouco de música, vou cantar algumas canções ciganas, entre as quais esta.

Mas ser casado com uma Youtuber abre possibilidades que para mim, menos habituado à linguagem audiovisual, são impensáveis. A partir das gravações feitas, minha amada Fabi Turci, autora do site (https://laboratoriodossentidos.com/) e do canal (https://www.youtube.com/c/laboratoriodossentidos) Laboratório dos sentidos editou esse vídeo incrível usando não só as gravações que ela fez comigo cantando, mas também com inserções de imagens tiradas dos documentários “Cobra Gypsies”, “Los olvidados – Palestina una historia de resistência” e “Al otro lado – la vida en palestina dividida por el muro israeli”, todos disponíveis aqui no Youtube.

‘Naci en Alamo’ é uma canção cigana, de autoria de Giorgos Katsaris e Dionisis Tsaknis, que descobri na voz de uma cantora de origem judaica (sefardita), chamada Yasmin Levy. Ela é um lamento de povos apátridas e/ou que têm experiências de um nomadismo forçado. Cabe hoje na voz e na história de ciganos, de palestinos, de curdos (especialmente os yazidis), de congoleses, de sírios etc, assim como também de judeus, sobretudo antes de 1948. Descobri a versão ‘Naci en Palestina’ na voz de uma excepcional cantora tunisiana que conheci recentemente, Emel Mathlouthi.

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Trítonos – intervalos do delírio“, cujo lançamento faz hoje um ano, começou a tomar sua forma definitiva enquanto seu segundo conto, “Gritos do açafrão”, era escrito. Nele, há um personagem que é pianista. As pesquisas sobre música que fiz por causa dele acabaram me fazendo encontrar a metáfora central desse livro: a vida como dissonância.

Encontrar conceito do trítono também me fez encontrar a forma do livro, com três grandes narrativas, dispostas como uma espécie de programa de concerto, intercalando dissonância e consonância. Um jogo que culmina no trítono – o intervalo mais dissonante, em música – para depois voltar ao tom inicial do livro-delírio.

Pensando na importância da música nesse livro, compartilho uma sequência narrativa/musical, com as peças tocadas por Demian, o pianista do segundo conto, e os trechos correspondentes aos instantes em que elas soam dentro do conto. Basta assistir à playlist abaixo, criada no Youtube, e ler o trecho selecionado.

O livro “Trítonos – intervalos do delírio” foi lançado em 2015 pela Editora Patuá e pode ser adquirido no endereço http://bit.ly/teofilopatua.

Saciados do comer e do beber, cada um segundo sua fome, a mulher, após agradecer-lhe, perguntou se ele poderia tocar um pouco para ela. Ele sorriu e perguntou de seus gostos. Mais uma vez ela se esquivou de dar direção a qualquer coisa que fosse. Disse que queria ouvir coisas às quais não estivesse habituada, quase como se desejasse, sem o saber, refundar seu campo da escuta.

Demian sentou-se ao piano. Anunciou que iria tocar duas músicas de Eric Satie. Começaria por uma chamada Gymnospédie n° 1, nome derivado de um antigo ritual grego ao deus Apolo, em que jovens dançavam nus ao som de flauta e lira. Ela esperava um som insano, como aquele que invadiu seus ouvidos enquanto escutava as músicas judaicas. No entanto, do piano de cauda saiu um som lento, grave, suave, quase doloroso. Mas também agradável como uma luz leitosa de fim de tarde. Enquanto ele tocava, ela fechou as cortinas da sala, até chegar na luminância que sua mente imaginou para a música. Lenta e grave, tirou toda a roupa e começou a dançar, completamente nua, sobre o suave tapete da sala, até deitar-se nele, para ouvir os últimos acordes de olhos fechados.

Ela não acreditava que estava ali deitada, nua, na sala de um estranho, ouvindo aquela música que a furtava do presente e remetia à eternidade. Após ouvir o último acorde, sentiu uma imensa vontade de chorar. Um choro sem nome, sem sentimento. Mas não teve tempo. Ainda de olhos fechados, ouviu um barulho inominado. Abriu os olhos e viu o tampo das cordas fechado. Demian já estava praticamente ao seu lado. Levantou-a em seus braços, enquanto dizia que ela teria uma experiência de audição diversa. A ideia lhe havia surgido graças ao nome da próxima música de Satie que ele tocaria: Gnossienne nº 1, palavra provavelmente derivada de gnosis, inventada pelo compositor para nomear uma sequência de sete peças.

E o que ela experimentou foi uma nova forma de conhecer. Aquele quase deus da música deitou-a com rara delicadeza sobre o piano, com a cabeça virada para as cordas graves. Estava deitada como um horizonte ofertado aos olhos do pianista. Ela olhou os ornamentos do teto e ruborizou pensando que ele iria divisar detalhes de seu corpo que ela mesma indistinguia. Com sua voz aveludada, como se acariciasse seus ouvidos com o silêncio que mora nas entranhas de cada som, Demian pediu que ela fechasse os olhos e apenas mirasse o dentro de si. E se deixasse levar pelo imaginado, pela trama sonora e abstrata das músicas que iria tocar.

Alguns breves instantes silentes se seguiram após a mulher do apartamento 11 ter fechado os olhos. Sentiu-se esvaziar de todo, estimulada pelo silêncio e pela escuridão de suas pálpebras. Antes que formulasse pensamento, sentiu a primeira nota grave da música ressonando em seu tronco. Os arpejos passeavam pela longitude de seu corpo. Sentia-se capaz de distinguir a complexa estrutura das ondas sonoras que vibravam, também dentro dela. Diferençava timbres e alturas, pulsos e amplitudes, harmonia e melodia. Estremeceu assim que um fortíssimo fez reverberar todo o seu ente. Foi invadida, penetrada pelo som. Seu ventre se contraiu ao sabor da imaginação. Sentiu-se tocada pela mão forte e macia daquele homem, que fazia vibrar o corpo de madeira do piano que percutia em seu corpo. Imaginava, excitava-se, exercitava-se em silêncios.

Não sabia mais onde estava, quando ouviu as últimas notas daquela música ressonando ao longe e dentro. Ouviu uma voz que parecia sussurrar o nome de Chopin, acompanhado das palavras Estudo, dó, menor, Révolutionnaire, Noturno, mi e bemol. Aquilo parecia alguma poesia mística, cujos sentidos exatos ela não compreendia. Súbito, foi percorrida dos pés à cabeça por escalas rápidas e voragens arpejadas no seu corpo pelo corpo vibrante do instrumento. Aos poucos, uma melodia começou a se destacar, repetindo-se num registro agudo e noutro mais grave, levando-a a sobrevoar um campo muito verde montada num cavalo negro. Não entendeu a imagem. Aquele verde absoluto, com um veio d’água ao centro, sendo visto de cima. Ela, quase tocando nuvens… Aos poucos, os caminhos foram escurecendo, assim como a música, que parecia morrer lentamente, até uma nova escala descendente fazê-la estremecer. Dois acordes finais, graves, vibraram em seu peito.

Em alguns instantes de silêncio, percebeu-se ofegante. Quis abrir os olhos. Mas antes que o fizesse, uma melodia muito triste a invadiu. Ela já a tinha ouvido, mas nunca havia sentido sua imensidão. Invadida por aquele Noturno, não conteve as lágrimas. Chorou a alegria triste trazida por aquele som. Aquilo era um sentimento bom e nostálgico. Sentia saudade de coisas que sequer supunha existir. Seu ventre ainda se contraía, mas não apenas por gozo. Era também o pranto trazido pela paisagem sonora que estava dentro de si. Pela primeira vez em sua vida ela entendeu que tudo o que há vibra, desde a mais densa matéria até os raios cósmicos mais imperceptíveis. Chorava a pequenez de sua existência, diante de tanta amplidão… Era o que sinalizavam os compassos finais daquele Noturno, que ela já tinha ouvido outras vezes várias, numa escuta indistinta, abafada em meio a tanto ruído.

O silêncio após aquele noturno foi um pouco maior. Atrás do silêncio, um tênue ruído branco, grávido das possibilidades do som, escapava de todos os cantos da vida. Ouvia os próprios soluços, a própria respiração ofegante, o ranger do banco em que Demian estava sentado, passos no apartamento vizinho, o elevador em movimento… Ruídos ainda mais débeis ela conseguia perceber, como o barulho da geladeira, que vinha da cozinha, ou um murmúrio indistinto, que vinha da rua.

Domando o caos sonoro em que estava imersa, a voz quase sussurrante daquele homem mil vezes desejável suspendeu o instante, pronunciando coisas meio indistintas, sem um sentido fixo. Variação 18, rapsódia, Paganini… ou seria Rachmaninov? Juntos? Sentiu um arpejado muito suave, pianíssimo, percorrer-lhe as vértebras. De repente… sim, conhecia aquela música. Num longo hausto, compreendeu a amplitude daquilo, como que intuindo a beleza reversa de uma melodia espelhada nas entranhas daquela que agora ouvia. Provavelmente, já fora tema de filme. Sim, em algum lugar, no passado, ouvira aquela melodia. Antes, parecia-lhe o extremo de uma tristeza. Agora não. Trazia-lhe uma bem-aventurança, uma bem-avinda plenitude. Aquilo se elevava, se elevava, se elevava… indefinidamente. Quando não cabia mais em si, a música fez um diminuendo e adentrou de novo na melodia, levemente modificada. E tudo isso se conduziu a um acorde final que ficou vibrando dentro dela durante o silêncio de alguns pulsos.

A voz daquele homem que não se cansava de extasiá-la anunciou então dois prelúdios de Chopin. Um, em mi menor; outro, em ré menor. Já nos primeiros compassos, um choro incontido brotou, fazendo cair grossas lágrimas no corpo de madeira daquele piano. Chopin novamente? Como era triste, como era doído esse piano de Chopin! De repente, a melodia pareceu sufocar. Sufocá-la. Sentiu-se a chama de uma vela que é tampada por um pote. Pouco a pouco, o oxigênio vai embora e seu brilho vai apagando, apagando, até, num suspiro sufocante… morrer.

Só nos breves segundos de silêncio ela percebeu haver perdido a respiração. De repente, sentiu como que um jorro de notas percorrer-lhe o corpo. Toda umidade existida nele pareceu evidenciar-se para ela. Só ali relembrou que estava nua. Sentia um frio delicioso, como se estivesse em meio a uma tempestade de sons e sentidos. Parecia correr numa floresta tropical. Desejava Demian perdido na umidade de suas matas. Aquele Chopin era violento e terminava violento. Os graves do piano ressonavam todos em suas costas. Abriu os olhos e viu o teto ornado de pássaros e notas. Olhou, rápida e fugaz, para o pianista que, de olhos fechados, sorvia o soar daquele último acorde, repetido uma segunda vez. Fechou novamente os olhos e mudou, ligeiramente, de posição. Já não sabia precisar se o frio ou o calor fazia seu corpo arrepiar-se. Ou se era o terceiro ressoar daquele acorde que concluía, como um trovão, a fúria de uma tempestade feita de notas jorradas dos dedos daquele homem.

Aqueles três acordes ainda ecoavam dentro de si, quando ouviu as palavras Bach, fuga, cromática, ré e menor. Uma melodia simples apareceu sobre a fusão que eram seu corpo e o corpo negro, de madeira, daquele piano. Soavam quase infantis aquelas notas. Tinham gosto de pão quente com manteiga, café com leite, bolo e entardecer. Ressonavam como o cheiro dos brinquedos de meninice. Saltitantes. Sem que se esperasse, aquela melodia mudava de lugar. Como numa brincadeira de pique, alternavam-se outras melodias, polifônicas. Não era possível distinguir figura melódica de fundo harmônico. Às vezes a melodia se escondia em outros recantos do som e voltava, travessa. Carrosséis, abraços de mãe e pequenos tesouros guardados num baú pareciam voltar, evocados por aquela fantasia de Bach. Vinham e se punham em fuga, para dar lugar a outras fantasias, outras lembranças.

Ela não sabia novamente onde estava. Sorria. Aos poucos, começou a se sentir adolescente. As brincadeiras evocadas foram perdendo a inocência. Lembrou-se de desejos e amores eternos que ficaram cristalizados no tempo. Sorria ainda mais, sem sentir nem saber onde o real habitava. Aquela sonoridade vibrando em seu corpo despertava muitas memórias, vividas e imaginadas. Quando o ritmo da música prenunciou o último arpejo e os últimos acordes, recobrou a consciência de quem realmente era. Era ainda aquela menina que fora, crescida e incrivelmente só. A solidão da última nota grave, soando vários tempos, falava-lhe que o sozinho de cada ser é o fundamento de seu sentir. Seu íntimo exultava por conhecer e reconhecer-se através da música.

Ao fim da reverberação da última nota, ecoando mais dentro de si e de seu corpo-piano do que no aéreo espaço das ondas sonoras, seguiu-se um hiato preenchido com imensos silêncios. Foi um tempo suficiente para manter suspensos os cinco sentidos daquela mulher, mas exíguo para exigir-lhe qualquer coisa além da fruição do instante. Bastava-lhe sorver a matéria-prima de todo som em reverência extática, estética, estésica ao som há pouco extinto. Bastava-lhe a recordação sonora em todas as instâncias de seu corpo, das profundas lembranças à epiderme.

(Do livro “Trítonos – intervalos do delírio“, páginas 62 a 67)

Capa do livro "Trítonos - intervalos do delírio"

Capa do livro “Trítonos – intervalos do delírio”, lançado em 2015 pela Editora Patuá

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Veja no endereço https://www.youtube.com/watch?v=4bT_X1RRO0w

Sobre Todas as Coisas
Voz: Teofilo Tostes Daniel | Piano: Camila Brioli

de O Grande Circo Místico
17 de julho de 2016 | Espaço Núcleo
Concepção: André Estevez & Angélica Menezes


Sobre Todas As Coisas
Chico Buarque & Edu Lobo

Pelo amor de Deus
Não vê que isso é pecado, desprezar quem lhe quer bem
Não vê que Deus até fica zangado vendo alguém
Abandonado pelo amor de Deus

Ao Nosso Senhor
Pergunte se Ele produziu nas trevas o esplendor
Se tudo foi criado – o macho, a fêmea, o bicho, a flor
Criado pra adorar o Criador

E se o Criador
Inventou a criatura por favor
Se do barro fez alguém com tanto amor
Para amar Nosso Senhor

Não, Nosso Senhor
Não há de ter lançado em movimento terra e céu
Estrelas percorrendo o firmamento em carrossel
Pra circular em torno ao Criador

Ou será que o Deus
Que criou nosso desejo é tão cruel
Mostra os vales onde jorra o leite e o mel
E esses vales são de Deus

Pelo amor de Deus
Não vê que isso é pecado, desprezar quem lhe quer bem
Não vê que Deus até fica zangado vendo alguém
Abandonado pelo amor de Deus

ograndecircomistico-cartaz

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