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Posts Tagged ‘TV’


Minto um pouco quando falo que não gosto de televisão. Ou talvez haja, de fato, uma inexatidão em minhas palavras. Porque se é verdade que havia pelo menos uns dois meses eu não ligava a TV aqui em casa, também é verdade que nesta semana a liguei de quarta a sábado.

E que extraordinário motivo me levou a fazê-lo? Capitu. Perdi o primeiro capítulo na terça, que acabei vendo pela internet na quarta-feira de manhã, antes de ir para o trabalho.

Desde o filme ‘Lavoura Arcaica’, acompanho o trabalho de Luiz Fernando Carvalho. Na verdade, os primeiros capítulos de uma novela do início da década de 90, chamada ‘Renascer’, já me foram arrebatadores. A minissérie ‘Os Maias’ — a que acabei não assistindo inteira, apenas por contingências, não por falta de interesse — também foi irretocável. Mas é a partir de seu longa que conheço e acompanho o trabalho desse diretor, que atualmente tem enveredado, na TV, por uma linguagem própria desde a microssérie ‘Hoje é Dia de Maria’.

Depois de alguns problemas na execução de ‘A Pedra do Reino’, que achei hermética demais para quem não lera o livro de intrincado enredo de Ariano Suassuna, embora tenha sido uma encantadora explosão de sensações que o livro provoca a quem o lê, veio Capitu. Portanto, se em ‘A Pedra do Reino’ Luiz Fernando Carvalho acabou fazendo uma alegoria do livro, quase como uma pintura que tenta sintetizar uma história cheia de peripécias; uma pintura bela, mas cujo significado, cujo entendimento se guarda a poucos, em Capitu ele conseguiu uma adaptação perfeita. Talvez o próprio livro tenha ajudado, já que ‘O Romance d’A Pedra do Reino’ tem um enredo muito complexo, e pouco foi o tempo destinado a ele na TV.

Agora, em ‘Capitu’… Deparei-me com as mesmas impressões de quando li ‘Dom Casmurro’, aliás, devorei-o em quatro dias, há pouco mais de dez anos, no início de 1998. Em quatro dias li o livro. Em cinco Luiz Fernando Carvalho o reconta na TV. A microssérie, no início, traz a mesma pulsação juvenil do início do livro, alternando outra pulsação, outro ritmo, quando no terço final da história ocorrem os fatos pelos quais o livro é famoso. Minto, os fatos não ocorrem. Bentinho não os narra. Ele nos apresenta a sua dúvida. Mas não sem nos fazer apaixonar pela sua Capitu, sobretudo a menina, com a qual ele crescera junto.

Mais uma vez o diretor lança mão de sua linguagem, personalíssima, que faz a televisão ser outra coisa daquilo que geralmente é. Assistir às suas obras nos últimos anos tem sido assemelhado à experiência de ir ao teatro, exceto pelo fato de não haver proximidade com os atores. Aqui também minto um pouco. Na verdade, assemelha-se à experiência de assistir a algumas peças específicas. E, principalmente, aproxima-se de modo colossal da experiência que é conviver com o processo de criação de um autor/diretor/ator ainda desconhecido das grandes platéias, mas rico em imagens e poesia.

E eu tive a honra de trabalhar com ele, com esse ainda desconhecido das grandes platéias, durante muito tempo. Tive a honra de ter sido um dos fundadores de sua companhia e um dos primeiros co-investigadores do seu método. Em ‘Esquadros ou O Paraíso’ usamos Madredeus antes de ‘Os Maias’, Quinteto Armorial antes de ‘A Pedra do Reino’ e o teatro dança, muito semelhante àquela dança que Escobar faz sobre a mesa do seminário. Digo isso para mostrar o paralelo desses dois universos “extasiantes”. E digo mais: quem assistir a esta Capitu jovem de Luiz Fernando Carvalho e porventura conheça a obra desse autor, logo se lembrará de uma personagem como Rosália, de ‘Hóstia e Absinto’.

Por isso, a beleza deste e de outros trabalhos de Luiz Fernando Carvalho, para mim, confirmam todo talento que há quase quinze anos eu enxergo num outro autor/ator/diretor, que também é, para minha felicidade, um grande amigo, irmão e companheiro. E este se chama Marcelo Tosta. Um talento com o qual já trabalhei diversas vezes e cujo processo de criação conheço muito bem, por já ter criado tantas e tantas vezes junto com ele, mais extasiado como platéia e escriba, do que propriamente como criador.

Capitu é a segunda das quatro obras previstas para serem adaptadas no Projeto Quadrante. As outras duas obras não as li. E essas duas primeiras (‘O Romance d’A Pedra do Reino’ e ‘Dom Casmurro’), coincidentemente, li na mesma época, no já um pouco longínquo ano de 1998.

Certamente, todos que assistiram à microssérie Capitu ficarão saudosos daqueles olhos de ressaca (ou seriam olhos de cigana oblíqua e dissimulada(?)?) de Letícia Persiles e de Maria Fernanda Cândido.

Site da Microssérie Capitu
http://capitu.globo.com/
Site do Projeto Quadrante
http://quadrante.globo.com/Quadrante/0,,8624,00.html

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