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Posts Tagged ‘Transgeneridade’

Nos três últimos anos, a cada novo ano eu fazia um movimento de olhar em retrospectiva o que ocorrera em meu blog no ano anterior. Tudo começou por uma novidade do WordPress, que fez relatórios anuais de 2014 e 2015. Creio que a iniciativa não tenha tido muita adesão, pois não houve relatório sobre o ano de 2016 (e nem 2017). Isso não impediu, no entanto, que eu me voltasse para os números daquele ano (como faço novamente agora, em relação a 2017). Além disso, foi a oportunidade de pensar nos novos rumos que eu pretendia dar ao blog em 2017.

Os números de 2016 me pareceram extraordinários no início de 2017. Foi o ano com o maior número de visitantes (contados apenas a partir de dezembro de 2012) e o segundo maior, até então, em número de visualizações. Foi ainda (aliás, ainda é) o ano com o maior número de publicações neste espaço: 42 posts.

Quando escrevi sobre os números de 2016, imaginava que os números de 2017 nem de longe seria comparáveis. Era fim de janeiro, e os números de janeiro de 2017 só não foram mais modestos do que os de janeiro de 2011. Além disso, em 2017 minha resolução foi abolir as publicações periódicas. Passaria a escrever eventualmente. Minha única resolução era não deixar de escrever ao menos uma vez por mês (embora eu tenha falhado em fevereiro do ano passado, um mês em que, após muito tempo, não houve nenhum post por aqui).

No entanto, 2017 apresentou números ainda mais surpreendentes do que os de 2016. E mais, os números mais surpreendentes de visualizações e visitas de toda a história do blog nessa plataforma. Durante o ano passado, esse espaço teve 4370 visualizações e 2681 visitantes. Isso apesar de a publicação de textos ter sido a menor desde 2014. Foram 25 textos, contra 42 em 2016 (ano com o maior número de publicações no blog), 28 em 2015 e 36 em 2014.

Nada indicava isso nos três primeiros meses do ano. Foi o segundo pior janeiro em acessos (perdendo apenas para 2011). Nos meses seguintes, números também modestos, que só aumentaram um pouco em abril. Mesmo assim, até junho, nada diria que os números de 2017 seriam inigualáveis (ao menos, até agora). Em julho, a surpresa de obter o maior número de visualizações num único mês: 546 — número que ainda seria superado em outubro, com incríveis 725. De julho a dezembro, todos os números foram os melhores da história do blog naquele mês.

Eu me questiono se 2018 reservará números semelhantes, ou se essa incrível alta será momentânea. Embora seja muito cedo para fazer qualquer previsão, 2018 já registrou os melhores números da breve história desse espaço nos meses de janeiro e fevereiro (com dados até 27/2).

Dados de 27/2/2018, às 14h.

Todos os anos, eu desconsidero os números obtidos pelo texto “O meu coração é um músculo involuntário e ele pulsa por você“. Em todos os anos, ele é o texto mais visualizado certamente pela involuntária “isca” da famosa canção, que faz com que muita acabe caindo nele por mecanismos de buscas. No ano passado, diferente do que ocorria desde 2014, o texto mais lido (com essa exceção do texto-isca), não foi produzido em 2017. Mas fiquei feliz de ver que o texto mais lido do ano foi o “Cisgeneridade: a suposta natureza é um silêncio“. A alta leitura desse texto, publicado em 2015 no Dia da Visibilidade Trans, parece indicar a importância do tema da transexualidade em 2017. O segundo texto mais lido também dialoga bastante com alguns dos temas em alta em 2017: trata-se da resenha, escrita em abril de 2016 do livro “Olhos d’Água”, da Conceição Evaristo, autora destaque da Flip de 2017. Esse texto, aliás, havia sido o mais lido no ano em que foi escrito.

Dentre os textos escritos no ano passado, o mais lido foi “Pânicos morais e o poder das artes ‘degeneradas’“, outro texto em consonância com temas importantes de 2017. Nele, eu discutia as diversas tentativas de censura a obras de artes, desde o episódio do fechamento da exposição “Queermuseu”, em Porto Alegre. Na sequência dos mais lidos, o poema “Jogos herméticos“, escrito no dia do meu aniversário, após assistir ao show de um outro aniversariante do dia: Hermeto Pascoal. A terceira publicação mais visualizada escrita no ano passado foi “Por uma política do afeto“, texto que nasceu a partir de reflexões feitas pela minha esposa, a Fabi, a partir de uma conversa que tivemos sobre acolhimento como o ato político que nos resta nos tempos atuais. Completam os cinco textos mais lidos, publicados no ano passado, a postagem da entrevista que eu dei sobre o meu livroTrítonos – intervalos do delírio” (Editora Patuá), para o canal “LiteraTamy”, e uma narrativa sobre como eu “conheci” o Raduan Nassar.

Dados de 27/2/2018, às 14h.

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Acabo de ler admirado um artigo da Judith Butler sobre os acontecimentos em torno de sua vinda ao Brasil. Penso que se é possível discordar frontal ou parcialmente de sua leitura de mundo, pois, no olhar que lançamos à complexidade de tudo que há, estarão nossas certezas (ou incertezas) e nossos valores. Mesmo compreendendo discordâncias, tenho dificuldade de também compreender como se pode acusar de promover a pedofilia (aqui entendida como uma violência imensa contra alguém que, sendo criança, não é capaz de se defender), alguém que afirma o seguinte:

“Liberdade não é — nunca é — a liberdade de fazer o mal. Se uma ação faz mal a outra pessoa ou a priva de liberdade, essa ação não pode ser qualificada como livre — ela se torna uma ação lesiva.”

Acho que o que mais me admirou neste artigo foi o esforço de tentar compreender as razões e as consequências de uma violência sofrida por si própria. E, a partir disso, reafirmar seu compromisso e sua luta por um mundo com mais liberdade e mais alegria.

Destaco abaixo um dos trechos do artigo da Judith Butler, publicado neste domingo (19/11), que mais me chamaram a atenção. Mas a leitura do artigo todo, para mim, só aumenta a potência das palavras abaixo.

“Embora apenas minha efígie tenha sido queimada, e eu mesma tenha saído ilesa, fiquei horrorizada com a ação.

Nem tanto por interesse próprio, mas em solidariedade às corajosas feministas e pessoas queer no Brasil que estão batalhando por maior liberdade e igualdade, que buscam defender e realizar uma democracia na qual os direitos sexuais sejam afirmados e a violência contra minorias sexuais e de gênero seja abominada.

Aquele gesto simbólico de queimar minha imagem transmitiu uma mensagem aterrorizante e ameaçadora para todos que acreditam na igualdade das mulheres e no direito de mulheres, gays e lésbicas, pessoas trans e travestis serem protegidos contra violência e assassinato.

Pessoas que acreditam no direito dos jovens exercerem a liberdade de encontrar seu desejo e viverem num mundo que se recusa a ameaçar, criminalizar, patologizar ou matar aqueles cuja identidade de gênero ou forma de amar não fere ninguém.”

Para ler a íntegra do artigo, clique aqui.

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Já torturamos blasfemos e apóstatas, queimamos bruxas, hereges e livros em praça pública, já chamamos de degenerada a arte que questionava seus fundamentos e abria a porta para a criação de novas percepções e sensibilidades. Devo me corrigir. Continuamos torturando e matando bruxas, hereges, blasfemos e apóstatas – esses são crimes oficialmente passíveis de morte em vários países do mundo.

Talvez o peso de toda incapacidade histórica (e contínua, e atual) de acolhermos o Outro em sua profunda alteridade seja o que mais me aterra na sequência de acontecimentos ligados ao desejo de banir manifestações artísticas “degeneradas” (impossível, diante desses episódios, não lembrar do conceito de Arte Degenerada na Alemanha Nazista). Esses acontecimentos começaram no domingo (10/9), quando, por meio de pressão de um movimento que se define como liberal, a exposição “Queermuseu” – que estava aberta ao público desde o dia 8 de agosto em Porto Alegre – foi encerrada prematuramente por um museu mantido por um grande banco.

Cruzando Jesus Cristo com o Deus Shiva – Fernando Baril – uma das obras da exposição Queermuseu.

Na quinta-feira (14/9), quatro dias depois o encerramento da exposição “Queermuseu”, parlamentares da Assembleia Legislativa do Mato Grosso do Sul registraram um boletim de ocorrência, por apologia ao estupro de vulnerável (pedofilia), contra a artista plástica mineira Alessandra Cunha, que tinha obras expostas no Museu de Arte Contemporânea de Campo Grande. A denúncia foi feita por causa de um quadro chamado “Pedofilia”, em que se vê uma espécie de sombra de uma figura masculina, com um pênis ereto, próximo a uma menina de olhos arregalados e assustados. No quadro, pode-se ler duas vezes a frase “O machismo mata, violenta, humilha”. Os deputados classificaram a obra da artista como promoção “de sacanagens e desrespeito à família e aos bons costumes”. Com base nessa denúncia, um delegado de polícia julgou que, como no quadro aparece a figura de um homem com o pênis muito próximo de uma criança, teria havido o crime de apologia e apreendeu o quadro (apesar de ser bastante óbvia a crítica que a obra faz desse ato), além de ter intimado a coordenadora do museu a depor sobre a exposição “Cadafalso”, da artista mineira.

Pedofilia - Alessandra Cunha - obra da exposição Cadafalso.

Pedofilia – Alessandra Cunha – obra da exposição Cadafalso.

Para coroar a semana de pânicos morais em relação a manifestações artísticas “degeneradas”, na sexta-feira (15/9), decisão liminar de um juiz proibiu a apresentação, no Sesc de Jundiaí (SP), da peça de teatro “O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu”, em que Jesus Cristo é representado por (e como) uma travesti. A liminar foi concedida em ação movida por uma advogada para quem “a peça afeta a dignidade cristã, expondo ao ridículo símbolos como a cruz e a religiosidade que ela representa” (Processo n° 10164228620178260309 – Primeira Vara Cível da Comarca de Jundiaí/SP).

O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu – apresentação no Sesc de Jundiaí foi cancelada por decisão judicial (retirado da página do espetáculo).

Existe uma linha tênue que marca a diferença entre o caso do cancelamento da exposição “Queermuseu” e os outros dois casos ocorridos nessa semana. O cancelamento do “Queermuseu” foi fruto da pressão de movimentos que se insurgiram, por causa de certo pânico moral, fazendo com que indivíduos, assumindo o lugar de cruzados morais, se levantassem para acusar uma determinada manifestação artística, fazendo com que a instituição que a apoiava deixasse de fazê-lo. Já nos casos de quinta e sexta-feira, há uma intervenção direta de poderes públicos (a polícia ou o judiciário) contra a liberdade de expressão. O que ocorreu em Campo Grande, aliás, guarda muitas semelhanças a histórias contadas pelo Stanislaw Ponte Preta (pseudônimo de Sérgio Porto) na série de livros chamados “Febeapá – Festival de Besteiras que Assola o País”. Li o Febeapá na adolescência, durante a primeira metade da década de 90, e naquela época não podia imaginar que eu veria histórias como aquelas se repetindo. Nunca me esqueci de uma dessas histórias, em que um delegado de polícia havia apreendido todos os exemplares de uma encíclica papal, por se tratar de material pornográfico. Aquilo era tão absurdo – mesmo para os padrões do período da ditadura militar, em que o nonsense e o medo imperavam irmanados –, que ele foi questionado sobre como aquilo era possível. Mas o delegado respondeu, com uma truculência que perdura até os dias de hoje entre os que exercem poder policial, que quem entendia de literatura era a polícia… E hoje, na literatura contemporânea, temos o exemplo de um autor (Ricardo Lísias) que teve problemas com a Justiça por polêmicas relacionadas a pelo menos duas obras suas. Numa delas, Lísias teve de explicar à Polícia Federal algo óbvio: que uma decisão judicial dentro da obra Delegado Tobias era apenas ficção, e não uma falsificação documental.

No entanto, há também uma clara linha de continuidade nos três casos. Apenas quando uma parcela significativa da população clama por censura é que os poderes públicos têm o espaço necessário para exercê-la. Foi assim no nazismo. Foi assim no regime stalinista. Foi assim também em todas as ditaduras latino-americanas, durante a Guerra Fria. A decisão que proibiu a exibição da peça em Jundiaí, por exemplo, veio precedida, segundo a própria diretora do espetáculo censurado, por “ameaças de censura, ameaça física, insultos e difamação na internet” no decorrer de um ano que a peça está em cartaz – embora esta tenha sido a primeira vez em que o espetáculo foi impedido de acontecer. Já no caso da denúncia contra a autora do quadro “Pedofilia”, é sintomático que, antes de ela ocorrer, os deputados estivessem discutindo exatamente a exposição encerrada precocemente em Porto Alegre.

Inevitável pensar que as críticas que aparecem em meu livro “Trítonos – intervalos do delírio” a uma concepção divina dominada pelo masculino também podem ser vistas como degenerações, levando certos grupos a querer censurá-las um dia. Ali, invento uma obra perdida da filósofa Hipátia em que ela diz que, havendo um deus trino que criou o homem e a mulher a sua imagem e semelhança, sendo Jesus um homem e o Espírito Santo a relação de amor entre Jesus e a divindade criadora, essa primeira pessoa divina só poderia ser uma mulher, uma deusa mãe. No conceito de arte degenerada da Alemanha Nazista, fica muito claro que determinado tipo de arte era associada a certos grupos de pessoas. Por essa razão, me parece que proibir a arte é um limite tão extremo e perigoso, que tende sempre ao fracasso. Dizer que uma arte não pode ser feita significa que um determinado tipo de pessoas não deveria existir. Embora o estatuto do artístico dê – ou ao menos devesse dar – a possibilidade de abordar tabus sem fazer apologia, o discurso da arte não é panfleto e contém em si também a própria crítica. Assim, de uma certa forma não há assunto proibido à arte – e talvez aí resida seu maior poder.

Mas celebro uma constatação, talvez óbvia, diante de tudo isso: a força avassaladora da arte. A arte mobiliza as pessoas, funda sensibilidades, provoca e expõe as entranhas dúbias, inclusive, dos poderes. Numa semana como a última, em que três manifestações artísticas, em três pontos distintos desse imenso país, sofreram com perseguição e censura, há um pequeno alento em me dar conta de que as artes são uma forma de poder, nas mãos daqueles em que me reconheço.

Heronimus Bosch - O Jardim das Delícias Terrenas

O Jardim das Delícias Terrenas – Hieronymus Bosch – Arte Degenerada no fim da Idade Média?

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Em 2014, me lancei um desafio. Escrever periodicamente neste blog. Num primeiro momento, a ideia era fazer publicações semanais. Não tive fôlego para isso e, logo no início, alterei a periodicidade para quinzenal.

Esses três anos mantendo esse projeto revitalizaram meu blog, fazendo com que se ampliassem os acessos e as leituras. Basta constatar que entre 2014 e 2016, publiquei 106, dos 165 textos aqui publicados (contando este). Nesse período, terminei a escrita e lancei (em dezembro de 2015) o meu livro “Trítonos – intervalos do delírio“. Muitas das publicações feitas aqui entre fins de 2015 até dezembro do ano passado ecoam esse livro.

Os resultados dessas publicações periódicas já se evidenciaram em 2014. Foram 36 textos publicados, 1386 visitas e 2027 visualizações. Em 2015, os números foram ligeiramente mais modestos: 28 textos publicados, 1276 visitas e 1930 visualizações.

Em contrapartida, 2016 foi um ano talvez inigualável para esse modesto “lugar de ensaiar com as palavras”. No ano passado, eu fiz 42 publicações. O blog alcançou incríveis 1812 visitas e 2777 visualizações. Dezembro foi o mês com o maior número de visualizações (284) e o segundo maior número de visitas (195). O maior número de visitas no ano passado foi alcançado em setembro (198), que foi o segundo melhor em visualizações (282).

A resenha que fiz sobre o livro de contos “Olhos d´Água“, da Conceição Evaristo, publicada em abril, foi o texto mais acessado do ano passado. Com uma diferença de somente um acesso, o poema “Se eu acreditasse num deus“, publicado no fim de novembro, ficou em segundo lugar. Talvez pelo tema (questionamentos sobre o sagrado, a fé e a dúvida), ele acabou se tornando um fenômeno de acessos em pouco tempo.

O terceiro post mais acessado também foi um fenômeno de acessos em um prazo curto de tempo. Ele foi feito em comemoração a um ano de lançamento do meu livroTrítonos“, pela Editora Patuá. Lá, eu compartilho uma playlist de músicas tocadas pelo personagem Demian no conto “Gritos do açafrão” – conto que acabou me levando a encontrar o nome e a forma do livro, que estão interligadas.

Na sequência, temos um poema de amor escrito para minha esposa, Fabiana Turci, quando completamos cinco anos de casados (o “Cinco variações sobre um tema amoroso“), escrito em janeiro. Por fim, empatados na quinta colocação, se encontram um texto sobre os caminhos nebulosos da nossa política e da nossa democracia, escrito ainda março, quando um diálogo entre a então presidenta Dilma e o Lula foi divulgado de forma indevida (ou, no mínimo, questionável) pelo juiz Sérgio Moro (“O dia de hoje nos livros de História“), e um poema-resposta à leitura do último livro de Pedro Tostes (o post tem o mesmo nome do livro: “Jardim minado“).

Além desses seis textos mais acessados, há outros dois textos que merecem destaque. O primeiro é “Cisgeneridade: a suposta natureza é um silêncio“, que foi texto escrito em 2015 mais acessado naquele ano, foi o segundo texto não escrito em 2016 mais acessado do ano, ficando imediatamente atrás do “Cinco variações sobre um tema amoroso”. O segundo destaque tem relação direta com os primeiros dias de 2017. Todo ano, o texto mais acessado é sempre “O meu coração é um músculo involuntário e ele pulsa por você” (certamente por causa da música, de cujos versos retirei esse título), escrito em 2006 ainda no antigo blog, e posteriormente migrado para o blog atual. Em 2016 não foi diferente. Mas nos primeiros 28 dias de 2017, o texto até agora mais acessado foi “Fúria Travesti“, escrito ano passado após a morte da ativista argentina Lohana Berkins. Como amanhã (29 de janeiro) é o Dia da Visibibilidade Trans, não podia deixar de destacar esses dois textos. O primeiro deles, inclusive, foi especialmente escrito para ser publicado no Dia da Visibilidade Trans de 2015 (veja a mobilização desse ano em torno da #VisibilidadeTRANS no Youtube, no Facebook e no Twitter).

Em 2017, haverá uma mudança de rumos por aqui, afinal os caminhos aqui se inventam sob os pés que os percorrem. Não continuarei com as publicações quinzenais. Tenho projetos literários me esperando, dois livros que estão sendo escritos e outros projetos ainda em fase de primeiras notas. E para poder me dedicar mais a essa escrita, vou reduzir a frequência de textos no blog. Meu objetivo então será o de fazer, pelo menos, uma publicação por mês aqui no Ensaio Aberto. Isso porque alguns outros ensaios com as palavras não podem ser tão abertos assim…

2017criarocaminho

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Uma das primeiras notícias que me chegou no sábado de carnaval antecipava as cinzas da então distante e futura quarta-feira. No dia anterior (5 de fevereiro), morria Lohana Berkins, uma das principais referências do movimento de travestis e transexuais na Argentina. A informação me chegou por um texto da Daniela Andrade.

Ao saber do ocorrido, lembrei do assombro e da admiração que senti quando li pela primeira vez sobre Lohana. Era uma reportagem sobre a Escola Cooperativa Têxtil Nadia Echazú, fundada por ela, repleta de análises contundentes sobre preconceito e exclusão da população trans*. No entanto, com mensagens capazes de aflorar esperança e desejo de lutar por uma outra realidade possível.

Lohana Berkins, fundadora da Escola Cooperativa Têxtil Nadia Echazú, para Travestis e Transexuais

Lohana Berkins, fundadora da Escola Cooperativa Têxtil Nadia Echazú, para Travestis e Transexuais.

Tomar ciência de sua morte acabou me dando o ensejo, no entanto, de conhecer um pouco mais da história, das ideias e do legado dessa travesti que foi expulsa de casa e, com isso, obrigada a se prostituir a partir dos treze anos de idade para sobreviver. Mesmo com uma trajetória de luta e rebeldia, Lohana foi ainda a primeira travesti a se tornar funcionária do Estado, na assembleia de Buenos Aires, ao ser contratada pelo então legislador portenho Patricio Echegaray.

Sua trajetória incomum, capaz de agregar apoio de tantas pessoas em torno de uma causa, já é motivo de admiração. Mas a leitura de algumas palavras de Lohana Berkins me impeliu a dar início às publicações quinzenais de 2016 com este texto, neste meu “lugar de ensaiar com as palavras”. Meu objetivo aqui é celebrar sua memória de luta e resistência, e fazer com que pessoas que eventualmente leem o que escrevo e não ouviram falar dela, quando ainda era viva, possam conhecê-la.

“Si pudiera nacer de nuevo y elegir, elegiría ser travesti” – A militância de Lohana tem destaque desde pelo menos 1994, quando fundou a Associação de Luta pela Identidade Travesti e Transexual (ALITT). Foi a partir dessa organização que a questão do direito à identidade de gênero começou a ganhar visibilidade na Argentina.

Em 2000, sua notoriedade alcançou uma esfera além do movimento trans*, quando enviou uma carta à então secretária de Promoção Social do governo da cidade de Buenos Aires, solicitando uma audiência. O presidente argentino na época, Fernando de la Rúa, havia dito que queria acabar com a prostituição nas ruas da cidade. Lohana viu nessa afirmação um excelente motivo para exigir trabalho e dar visibilidade à discriminação contra as travestis no mercado de trabalho formal.

A carta enviada por Lohana contou com assinatura de apoio de mais de duzentas pessoas, entre as quais Nora Cortiña, cofundadora e hoje atual presidenta da Associação Mães da Praça de Maio, o escritor David Viñas e o artista plástico León Ferrari. Nela, Lohana ressaltava que

El motivo de mi carta responde a que jamás pude acceder a un trabajo. Posiblemente, esta misma le resulte familiar como todas las que usted recibe a diario. Pero yo me atrevería a decirle que no. Mi situación de no ocupada no radica tan sólo en la falta de trabajo, sino que por mi condición de travesti me veo obligada a ejercer la prostitución callejera… (1)

Em uma entrevista posterior ao diário Página 12, ela disse estar convencida de que o Estado legitima a discriminação contra a população trans. Tanto que era possível um político prometer, em campanha eleitoral, “uma cidade sem travestis”, ao mesmo tempo em que os meios de comunicação incitavam as pessoas a se organizarem para varrer mulheres e pessoas trans que exerciam a prostituição em determinados bairros de Buenos Aires.

Nadie hace el mínimo intento por ocultar su travestofobia. (…). Si un cartel dijera por una ciudad sin judíos, sin discapacitados, o sin mujeres, ¿cuántos hubiesen saltado a repeler la barbarie? (2)

Nesse mesmo ano, ao ser entrevistada pelo jornal do Partido dos Trabalhadores Socialistas, Lohana fez um comovente balanço de sua vida de lutas:

Mi vida fue muy dura pero, a pesar de todo esto, si pudiera nacer de nuevo y elegir, elegiría ser travesti. Sería travesti, negra, boliviana, judía, la que se hizo abortos, la mujer golpeada, asesinada por el policía, la que encarcelaron. Elegiría todo eso de nuevo. Porque el triunfo más grande que voy a tener al final de mi vida es que voy a tener la seguridad de que jamás, mientras fui consciente, soporté una discriminación, una exclusión, ni en público ni en privado. Me rebelo a todo esto. Contra la discriminación, la exclusión, la represión seguiré luchando el resto de mi vida… (3)

Após toda projeção de suas reivindicações, Lohana foi contratada como assessora do legislador portenho Patricio Echegaray, tendo trabalhado nessa função até 2002. Nesse ano, foi aprovada, mas impedida de se inscrever, com seu nome social, para ser professora em uma escola pública. Isso lhe deu ensejo para que fizesse uma denúncia à Defensoria Pública de Buenos Aires, que conseguiu uma ordem para que as autoridades respeitassem sua identidade de gênero.

Lohana Berkins morreu, mas sua fúria travesti segue viva.

Lohana Berkins morreu, mas sua fúria travesti segue viva.

“Somos traidoras del patriarcado” – Com um forte discurso feminista, Lohana provocava as estruturas da sociedade ao analisar as condições de vida das travestis e mulheres transexuais, frequentemente vítimas de exclusão e de constantes agressões, vivendo à margem da sociedade, impelidas à prostituição e com baixíssima expectativa de vida.

Somos traidoras del patriarcado y muchas veces pagamos esto con nuestra vida. Brevemente dicho, las travestis sufrimos dos tipos de opresión. Por un lado, la opresión social basada en el imaginario colectivo de lo que es una travesti: misterio, ocultamiento, perversión, contagio, etc. El patriarcado nos castiga por “renegar” de los privilegios de la dominación que nos adjudican los genitales con los cuales nacemos. (4)

Mesmo tendo vivido boa parte de sua vida à margem da sociedade, jamais desistiu de exigir do Estado o reconhecimento de sua existência e de sua identidade. Em 2010, foi uma das importantes lideranças da Frente Nacional pela Lei de Identidade de Gênero, uma aliança de diversas organizações que impulsionou a aprovação da Lei de Identidade de Gênero da Argentina, uma das mais avançadas do mundo, aprovada pelo parlamento em maio de 2012.

Lançamento da Frente Nacional pela Lei de Identidade de Gênero, em 2010.

Lançamento da Frente Nacional pela Lei de Identidade de Gênero, em 2010.

“El motor de cambio es el amor” – Lohana Berkins esteve internada durante várias semanas numa clínica de Buenos Aires, antes de seu falecimento. Diante do agravamento de seu quadro de saúde, ela divulgou uma carta, por meio de uma companheira de militância. Como Lohana morreria no dia seguinte, aquelas foram suas últimas palavras. Deixo-as ecoando, à espera do tempo da revolução – que é agora –, também convencido de que o motor da mudança é o amor:

Queridas compañeras, mi estado de salud es muy crítico y no me permite reunirme personalmente con ustedes. Por eso quiero agradecerles sus muestras de cariño y transmitirles unas palabras por medio de la compañera Marlene Wayar, a quien lego esta posta. Muchos son los triunfos que obtuvimos en estos años. Ahora es tiempo de resistir, de luchar por su continuidad. El tiempo de la revolución es ahora, porque a la cárcel no volvemos nunca más. Estoy convencida de que el motor de cambio es el amor. El amor que nos negaron es nuestro impulso para cambiar el mundo. Todos los golpes y el desprecio que sufrí, no se comparan con el amor infinito que me rodea en estos momentos. Furia Travesti Siempre. Un abrazo. (5)

"Hay que tener mucho coraje", desenho de Andrea D’Atri.

“Hay que tener mucho coraje”, desenho de Andrea D’Atri.

Notas
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(1)
La Izquierda Diario: Lohana Berkins: “Si pudiera nacer de nuevo, elegiría ser travesti”. 6 de febrero de 2016. Disponível em http://laizquierdadiario.com/Lohana-Berkins-Si-pudiera-nacer-de-nuevo-elegiria-ser-travesti/.

(2)
Página 12: El drama de buscar vida nueva. 23 de abril de 2000. Disponível em: http://www.pagina12.com.ar/2000/00-04/00-04-23/pag22.htm.

(3)
La Izquierda Diario: “¿No es una obscenidad una Constitución que defiende la propiedad privada antes que la vida?”. Reprodución de la entrevista de Lohana Berkins publicada en La Verdad Obrera Nº 64, la prensa partidaria del Partido de los Trabajadores Socialistas, del 17 de mayo del 2000. 6 de febrero de 2016. Disponível em  http://laizquierdadiario.com/No-es-una-obscenidad-una-Constitucion-que-defiende-la-propiedad-privada-antes-que-la-vida.

(4)
Lohana Berkins. Un itinerario político del travestismo. In: Diana Maffía (compiladora): Sexualidades migrantes – Género y transgénero. Páginas 127 a 137. 2003. Disponível em: http://dianamaffia.com.ar/archivos/sexualidadesmigrantesdm.pdf.

(5)
La Nacion: Murió la activista trans Lohana Berkins. 5 de febrero de 2016. Disponível em: http://www.lanacion.com.ar/1868550-murio-la-activista-trans-lohana-berkins.

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Em 2015 foram 28 publicações em meu blog Ensaio Aberto. Dentre todas, as de novembro anunciavam aquele que certamente foi o momento mais importante do ano, para mim: a publicação de meu livro Trítonos – intervalos do delírio, lançado no dia 2 de dezembro. O texto que escrevi sobre o livro pouco antes de seu lançamento, numa publicação do dia 22 de novembro, testemunha essa espera e foi a segunda que mais teve visualizações, entre as publicadas em 2015.

A frente dela, ficou apenas o texto “Cisgeneridade: a suposta natureza é um silêncio“, que publiquei no dia 29 de janeiro por ocasião do “Dia da Visibilidade Trans*“. Neste texto, no propósito de me unir às vozes e às pautas trans*, esbarrei numa questão: em que poderia eu, um homem cisgênero, casado com uma mulher também cisgênera, contribuir com a questão? E, sobretudo, o que poderia eu falar da condição transgênera? Temendo cair em abismos, pensei que talvez o melhor que eu poderia fazer seria falar sobre a cisgeneridade, que é o meu lugar de fala no mundo, e sobre o meu espanto ao descobrir que existe um desconforto de pessoas cis em serem identificadas como cisgêneras. Torço para que esse esforço tenha sido (ou ainda seja) de alguma valia.

A terceira publicação com mais visualizações em 2015, que está prestes a completar um ano no dia 5 de janeiro, celebra o amor. Foi um poema que escrevi para minha amada Fabiana Turci, para comemorar seus trinta anos de vida.

Poemas e artigos publicados aqui, com reflexões sobre temas diversos, não testemunham completamente minha escrita no ano de 2015. Mas eles dão a ver esse Ensaio Aberto que estabeleço com as palavras e seus eventuais leitores aqui neste blog. Sejam todos bem-vindos em 2016!

Clique aqui para ver o relatório estatístico completo.

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Neste dia 29 de janeiro, quero me juntar a vozes quotidianamente caladas que pedem ouvidos que ouçam. Vozes de pessoas que passam invisíveis por nós, sem que tenhamos olhos de vê-las. Gostaria que este texto conseguisse propagar, por transdução, esse grito contido — levando adiante a força e a emissão dessas vozes sem alterá-las.

Hoje, celebra-se o Dia da Visibilidade Trans*, data que alude ao lançamento da primeira campanha contra a transfobia no país. Aproximei-me das pautas de pessoas trangêneras ao começar a pesquisar sobre o tema, por causa de um projeto literário. Mas conhecer as questões ligadas às chamadas identidades trans* é — que bom! — um caminho sem retorno. Em primeiro lugar, por ser impossível a indiferença ao conhecermos a urgência de suas pautas e a negação sistemática (ou, melhor dizendo, “cistemática”) de quase todos os aspectos ligados à sua cidadania. Em segundo lugar, por tornar-se impossível aceitar como natureza os diversos elementos que engendram nossa identidade e nosso ser no mundo.

No propósito de me unir às vozes e às pautas trans*, esbarrei numa questão: em que poderia eu, um homem cisgênero, casado com uma mulher também cisgênera, contribuir com a questão? E, sobretudo, o que poderia eu falar da condição transgênera? Temendo cair em abismos, pensei que talvez o melhor que eu poderia fazer seria falar sobre a cisgeneridade, que é o meu lugar de fala no mundo, e sobre o meu espanto ao descobrir que existe um desconforto de pessoas cis em serem identificadas como cisgêneras.

Até há bem pouco tempo, eu não me sabia um homem cisgênero. Como a maior parte das pessoas cis, eu simplesmente ignorava esse termo. Isso equivale a dizer que, aos meus olhos, a minha identidade era experimentada como uma espécie de natureza. Isso não quer, no entanto, dizer que eu ignorasse que houvesse homens e mulheres trans*.

Para mim, reconhecer a cisgeneridade é um ato político. É compreender, em primeiro lugar, que eu ocupo um lugar específico no mundo, que tenho privilégios específicos por conta disso e que é a partir desse lugar discursivo que meu olhar se conforma. É, ainda, não aceitar como uma natureza a construção de minha identidade. E é, também, reconhecer minha liberdade para me determinar perante o mundo.

Eu sou alguém a quem todos sempre identificaram como pertencente ao gênero masculino e me identifico dessa forma. Mas, ao reconhecer que isso é uma construção, ganho ferramentas para questionar certos papéis que me são atribuídos pelo simples fato de eu ser homem cisgênero e heterossexual. Papéis esses que fazem com que alguns direitos que tenho, e que deveriam ser comuns a toda e qualquer pessoa, sejam, na verdade, privilégios.

Para mulheres ligadas às pautas feministas, esses questionamentos não são uma novidade, uma vez que o feminismo também questiona a suposta natureza feminina e os papéis de gênero designados a homens e mulheres. Essa, inclusive, não é uma discussão nova no feminismo. Logo no início de “O Segundo Sexo”, Simone de Beauvoir já aborda questão:

“Se a função de fêmea não basta para definir a mulher, se nos recusamos também a explicá-la pelo “eterno feminino” e se, no entanto, admitimos, ainda que provisoriamente, que há mulheres na terra, teremos que formular a pergunta: o que é uma mulher?”

O mesmo também me parece valer para o movimento gay. A homossexualidade já foi considerada um crime e isso se refletia na linguagem. O mundo que via a prática homossexual como delito costumava se referir a ela pelo termo pederastia. Como homossexualismo, figurou na Classificação Internacional de Doenças (CID) da Organização Mundial de Saúde, sob o número 320.0, até 1990, ou seja, até há muito pouco tempo. E o desejo por alguém do mesmo gênero não seria um comportamento esperado, pelos papéis heteronormativos destinados a homens e mulheres. Contra a naturalização da heteronormatividade se insurge o movimento gay.

É neste ponto que o meu espanto pela oposição ao termo cisgênero se dá. Existe um discurso dominante transfóbico que desconsidera a existência de homens e mulheres trans*. Essa lógica, espalhada e naturalizada pelo senso comum, considera que homens trans* seriam falsos homens, assim como mulheres trans* seriam falsas mulheres. Esse tipo de pensamento está impregnado na fala quotidiana. Mas também, de forma mais sutil, está presente no discurso médico cissexista, que designa como doente mental ou transtornada a pessoa que apresenta uma identidade transgênera — ou seja, uma identidade desconforme com o gênero que lhe foi atribuído ao nascer.

Vejo o uso do termo cisgênero, que teve início no interior da comunidade trans*, como um fenômeno linguístico que abre a possibilidade de contestação da normatividade cisgênera — ou cisnormatividade. E os diversos modos de tentar silenciar esse uso contribuem para a oposição de pessoas transgêneras a pessoas normais. Por isso, não consigo entender que pessoas cisgêneras, aparentemente inseridas em lutas a favor de grupos oprimidos, recusem o termo cisgênero como se ele fosse um absurdo, ou até uma ofensa, sem atentar para as consequências disso. Deslegitimar o termo cisgeneridade é continuar aceitando que existam as pessoas trans* e as… biológicas! Uma outra forma de dizer normais, opondo a suposta “natureza” da pessoa cisgênera a uma espécie de engodo ou artificialidade dos corpos das pessoas trans.

Quando não aceitamos a cisgeneridade, reafirmamos discursivamente que pessoas trans* são anormais, doentes. Ou ainda, lhes negamos mais uma vez o direito à existência. Aliás, existe toda uma construção social que aceita a cisgeneridade (essa coisa sobre a qual não se deve falar!) como uma norma compulsória — ou um “cistema”, como dizem as pessoas ligadas ao movimento trans*. Esse mesmo cistema que aceita como evidência natural a cisgeneridade compulsória designa as identidades trans* como uma doença. Sim, a transexualidade (designada patologicamente como transexualismo) é ainda considerada um transtorno mental e tem um número na atual Classificação Internacional de Doenças (CID-10): F64.0.

Quem argumenta que o termo cisgênero engendra um novo par opositivo (cisgênero/transgênero), construído de forma hierárquica e dicotômica, ou então que não seria possível designar a pessoa cisgênera como aquela que se adéqua às suas expectativas de gênero porque ninguém se encaixa totalmente a elas — como se o termo cisgênero significasse isso — me parece ignorar tanto onde se irrompe a noção de cisgeneridade quanto seu significado usual. Essa noção se movimenta dentro de discursos que consideram fluidas as categorias de gênero e que reconhecem a autodeterminação como um direito humano.

O termo cisgênero simplesmente designa o sujeito que se identifica como pertencente ao gênero que lhe foi designado ao nascer. Ele circuscreve a alteridade para o transgênero. Define o “Outro” e, por oposição, o próprio sujeito que fala. E, o que é mais importante, ele sinaliza que as pessoas trangêneras são sujeitos do discurso sobre si mesmas, e não objetos de análise definidos de fora de suas vivências.

Além disso, diferente do que algumas críticas costumam afirmar, a cisgeneridade não se refere a pessoas que se adequam à expectativa de seu gênero. Até porque o discurso de onde essa palavra emerge compreende o gênero como uma construção. Ele é, portanto, amplo e plural para sujeitos cisgêneros, trangêneros ou não-binários. O que frequentemente ocorre, porém, é que nós nos esquecemos de que nossa identidade nunca é fixa, que se trata sim de uma construção contínua, o que é válido tanto para pessoas cis como para trans*. Mas as pessoas que têm formas de proceder ou identidades esperadas e naturalizadas não são questionadas sobre quando se perceberam ou se tornaram aquilo que são.

Site Transfeminismo.com

Site Transfeminismo.com

Não vejo como é possível conceber e aceitar como naturais a exclusão e a invisibilidade das identidades trans*. E, para mim, o silêncio em torno da cisgeneridade está intimamente ligado a isso. Como aponta a Bia Bagagli num texto intitulado Cisgeneridade e Silêncio, “podemos entender que o silêncio funda a cisgeneridade”. “Esse silêncio”, ela aponta, “se dá ao mesmo tempo em que produz coerências e inteligibilidades às identidades dos sujeitos cisgêneros e interdições à plena identificação de gênero aos sujeitos transgêneros”.

Conhecer minimamente a transfobia generalizada em nossa sociedade me impele à luta pela quebra desse silêncio. Por essa razão, me uno hoje à blogagem coletiva pela visibilidade trans*, convocada pelo site Transfeminismo. Porque reconheço os privilégios advindos de minha posição de homem cisgênero heterossexual e sei da exclusão e da violência diariamente enfrentadas por pessoas transgêneras, julgo que não tenho o direito de lavar as minhas mãos e contribuir com a perpetuação desse silêncio…

Chamada de uma blogagem coletiva pela visibilidade trans*, feita pelo site Transfeminismo.com

Veja a chamada para uma blogagem coletiva pela visibilidade trans*, feita pelo site Transfeminismo.com


Nota: Reconheço aqui minha dívida, durante a escritura deste texto, à leitura ou à releitura de alguns escritos da Bia Pagliarini Bagagli, da Hailey Kaas e da Viviane V., no site Transferminismo.com, e da Leila Dumaresq no blog Transliteração, que abordam o tema da cisgeneridade. Muito obrigado a elas e a tantas outras pessoas que tenho lido ultimamente e que me dão a oportunidade de compreender um pouco melhor sobre as vivências trans*.

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“Corpo, cubismos, ventos metálicos, dialéticas pontuais. Ao teu aforismo solar anarquiza o meu desaforismo lunar.”
(Laysa Carolina Machado – A Morada Transitória)

Corpo em transe
não é corpo
errado,
pois não há outro eu
fora da carne.
Qualquer um procede
à constante transliteração
da pele que habita.

Corpo em trânsito
é o lugar
do ser no mundo.
Transitar pelo próprio
constructo corpóreo
é ato contínuo
de toda gente.

Corpo à margem
cumpre sentença
condenatória,
se for transtornado
de acordo com o juízo
dos contrassensos comuns.
Como se toda pessoa
não fosse transeunte.

Corpo transigente
ao que transborda
guarda em si
a herança
de seus muitos pretéritos.
Nele há rastos
de quilombos transeculares,
de povos em holocausto,
de bicho, de floras
e de rubros oceanos primevos.

Corpo transido
no traslado da vida
também vive —
palpitante.
O corpo é
morada
transitória
e única.

Corpo transformado
pelo tempo, pela ciência
ou pelas técnicas
arcaicas
do êxtase
é o que nos apresenta
ao mundo.
Somos somas.

Corpo é o transcurso
da identidade.


O título deste poema me chegou ao ver uma amiga do Facebook compartilhar uma notícia sobre o documentário A Morada Transitória (para assistir ao filme, clique aqui e digite a senha amoratrans), que aborda a história da atriz e professora Laysa Carolina Machado, primeira mulher transexual no País eleita para dirigir uma escola. Os muitos caminhos cibernéticos me levaram ainda ao vídeo de uma performance com trechos de um monólogo com o mesmo título, escrito e encenado por Laysa, de onde retirei a epígrafe do poema.

Esta publicação abre alas ao Dia da Visibilidade Trans*, celebrado no dia 29 de janeiro. A data alude ao lançamento pelo governo federal, em 29 de janeiro de 2004, da primeira campanha contra a transfobia no país: Travesti e respeito. Ela foi realizada em parceria com ativistas e organizações de pessoas trans* de todo país. Na ocasião, excepcionalmente, o quinzenário será antecipado, para falar do tema e lembra a data. Até lá!

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Por influência de dois professores anarquistas no ensino médio (2º grau, na época), desde a primeira eleição em que votei tenho uma grande desconfiança em relação ao nosso sistema político. Nas eleições majoritárias, em geral espera-se que o chefe do executivo faça o que pode e o que não pode. Já em relação às eleições proporcionais, o voto é um tiro no escuro. Podemos até ter um bom candidato na mira, mas a verdade é que não temos ideia de quem o nosso voto ajuda a eleger, já que o voto se dilui no partido ou legenda. Essa desconfiança sempre me levou a anular o voto, para me abster de ser cúmplice nalgum crime.

Hoje, no entanto, vejo que o mesmo Estado que falha ao atender as necessidades da população vem sendo estimulado a manter ou aumentar sua intervenção sobre a vida particular do indivíduo. Os legislativos não só avançam a passos lentos na garantia de diversos direitos humanos, como perigam retroceder em relação a muitos direitos conquistados — alguns deles em caráter precário, provisório ou parcial.

Acompanhando os debates políticos, vejo que proliferam candidatos que ameaçam ou não defendem as famílias e a própria vida humana. Por conta disso, decidi arriscar meu voto, dando-o, na próxima semana, a candidatos e candidatas que vão lutar em defesa dessas causas.

Meus candidatos e minhas candidatas desejam reconhecer como família uma grande pluralidade de arranjos, são favoráveis ao casamento civil igualitário para homossexuais e à adoção de crianças por casais formados por pessoas do mesmo sexo, querem criminalizar a transfobia e a homofobia, buscam aprovar uma lei de identidade de gênero que garanta o direito básico à identidade para pessoas transgêneras, são a favor da descriminalização do aborto e tendem a ser favoráveis também à das drogas.

Meus candidatos e minhas candidatas defendem um conceito abrangente de família, que inclui muitas possibilidades de arranjo. As crenças, num estado laico — que deve garantir a pluralidade delas –, não podem impedir o reconhecimento de direitos que até hoje são negados a casais homossexuais, não obstante os avanços que já tivemos. E é preciso ainda defender a família de um possível retrocesso que pode acontecer em função de candidatos que fazem uma política totalmente subordinada a noções religiosas endurecidas por discursos de ódio.

Meus candidatos e minhas candidatas também defendem políticas que têm o potencial de aumentar o número de adoções de crianças abandonadas ou órfãs. Isso porque eles e elas não veem razão para negar que casais homossexuais possam adotar crianças. Com isso, meus candidatos e minhas candidatas se colocam em defesa das novas famílias que aptas a surgirem por causa dessa possibilidade.

Meus candidatos e minhas candidatas também defendem a família da dissolução causada pelos preconceitos, em especial pela transfobia e pela homofobia. Defendem ainda a vida de pessoas constantemente ameaçadas por esses preconceitos. Não é incomum que pessoas sejam agredidas, humilhadas e muitas vezes expulsas de casa por serem travestis, transexuais ou gays. Também não é raro que famílias percam um ente querido por crimes de ódio contra orientação sexual ou identidade de gênero fora da cis-hétero-normatividade. Contra isso, meus candidatos e minhas candidatas defendem não só a criminalização da homofobia e da transfobia, mas também políticas de conscientização e educação para a diversidade.

Meu candidatos e minhas candidatas querem ver aprovado o Projeto de Lei 5002/2013 (Lei João W Nery), que dispõe sobre o direito à identidade de gênero, garantindo o direito básico à identidade a pessoas transgêneras. Hoje, além de terem de aceitar um diagnóstico de doença mental para isso, essas pessoas ainda dependem do entendimento — e, eventualmente, dos conceitos pré-estabelecidos — de um juiz ou um tribunal, e das burocracias do sistema judiciário, para que o Estado reconheça sua identidade. A dicotomia entre os documentos e a imagem passada, além de causar diversos constrangimentos e as expor a riscos derivados do preconceito, faz com que elas tenham reduzida suas chances de encontrar empregos formais, o que não raro as empurra ao subemprego ou mesmo à prostituição para sobreviver. Vale lembrar que, de acordo com dados da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), 90% das travestis e transexuais brasileiras se prostituem. Por isso, votarei também em quem se compromete a defender a vida e a dignidade humana dessas pessoas ainda condenadas à invisibilidade.

Meus candidatos e minhas candidatas também são contra o fato de que cerca de 800 mil mulheres que já recorreram o aborto no país sejam consideradas criminosas e possam vir a ser presas, impactando seriamente o núcleo familiar dos quais elas fazem parte. Também são contra o risco de famílias perderem uma integrante que, para fazer o aborto, tem de recorrer, na melhor das hipóteses, a clínicas clandestinas. São contra a submeter essas mulheres (em geral as mais pobres) a métodos que põem em risco suas vidas. E são contra uma estrutura que as condena ao medo de procurar atendimento quando algo sai errado, sob o risco de terem o atendimento negado ou serem presas. Portanto, em defesa da família e da vida de milhares de mulheres, meus candidatos são contra a criminalização do aborto.

Meus candidatos e minhas candidatas não acreditam na falácia de que um Estado mais policialesco — e, portanto, mais repressivo — aumente a segurança dos cidadãos e das cidadãs. Não desejam ampliar o uso da violência por esse Estado, que concentra em suas mãos a prerrogativa de seu uso legal. Eles e elas tendem a ser favoráveis a experiências que sigam no caminho da descriminalização das drogas. Veem que o dinheiro que deixaria de ser investido no combate insano às drogas seria usado em políticas educacionais e de inclusão social. Meus candidatos e minhas candidatas não estão fechados à ideia de que, permitindo a comercialização legal de drogas hoje ilegais, organizações criminosas dedicadas ao tráfico tenderiam a ser enfraquecidas, diminuindo a violência contra as famílias e a ameaça à vida de tantos. Além disso, enxergam o dinheiro arrecadado com a tributação do comércio legal e mais seguro das drogas, que deverá atender a exigências mínimas que hoje não têm sequer como ser observadas, também poderia ser investido em programas educacionais de prevenção ao uso de drogas e a programas de inclusão. Eles e elas creem que não é com mais polícia que se amplia a segurança pública, mas como menos abismos e disparidades dentro do tecido social.

Sobre esse último assunto, faço uma pequena digressão para lembrar o que ocorreu durante o período da chamada Lei Seca norte-americana (implementada, sob forte pressão de movimentos religiosos, por meio da emenda constitucional 18/1919), que se estendeu de 1920 a 1933. Apesar de reduzir o consumo de álcool, a Lei foi um grande fracasso, aumentando a violência e a corrupção — a década de 20, que foi a década dos gângsteres nos EUA, levou mais de 500 mil pessoas a trabalharem em atividades clandestinas ligadas ao comércio ilegal de bebidas e aumentou em 30% a taxa de assassinatos no país. Além disso, a falta de controle sobre as bebidas produzidas clandestinamente ocasionou danos permanentes à saúde de, pelo menos, 100 mil americanos e fez com que os casos de morte por cirrose praticamente não diminuíssem durante a Lei Seca, apesar da redução do consumo de álcool. Ela foi revogada em 1933 pela emenda constitucional 21/1933, o que acabou deixando a estados e municípios norte-americanos a competência para legislar sobre a questão.

Foi o típico caso de uma lei que buscava legislar sobre o que seria moralmente aceitável no comportamento das pessoas, embora se mascarasse como uma lei que visava a combater os efeitos sociais e físicos deletérios causados pelo abuso do álcool. Da mesma forma vejo a proibição que atinge a diversas drogas hoje. São leis morais, dão ao Estado a prerrogativa de definir o que é moralmente aceito no comportamento particular dos cidadãos e das cidadãs, não obstante as discussões médicas e sociais que envolvem — e que também se aplicam às “drogas legais”, como o álcool e o cigarro.

Voltando à questão eleitoral, não alimento qualquer presunção de que as pessoas em quem votarei vão resolver, se eleitas, todos os diversos problemas que existem em nosso país — alguns dos quais abordei neste breve texto. Mudanças estruturais e de pensamento são lentas, gradativas, e necessitam de pessoas engajadas a elas. Mas diante dos rumos que os legislativos podem tomar, decidi votar em candidatos e candidatas que defendam um conjunto de lutas e valores relacionados aos direitos humanos, se opondo a fundamentos religiosos que visem a limitar esses direitos. Eles e elas serão contrapontos necessários a um conservadorismo que deseja legislar os costumes e a moral, e que vem gradativamente aumentando seu poder na política brasileira. Mas com um sistema eleitoral perverso, que faz a escolha de candidatos nas eleições proporcionais um tiro no escuro, não bastava escolher candidatos que defendessem essas bandeiras. Era necessário escolher candidatos e candidatas de um partido que, além de agregar as lutas que eu também defendo, se recusasse a fazer coligações que as contradissessem e que trouxessem nomes que defendem exatamente bandeiras opostas. Um partido que também não mantivesse entre suas fileiras ou as de seus coligados uma extensa lista de fichas-suja. Como as regras eleitorais permitem arranjos diferentes em cada Estado, posso falar apenas que, naquele em que moro, encontrei candidatos e candidatas com essas características e decidi arriscar meu voto.

E, por tudo que apontei até aqui, reafirmo: meus candidatos e minhas candidatas defendem as famílias e a vida humana. E os seus?

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(em diálogo com Beatriz Pagliarini Bagagli)

Habitar com o corpo
uma falha discursiva
e resistir

mesmo que tudo diga que assim
não pode, não deve
existir.

Manter-se na pólis,
ainda que tacitamente
decretos de exílio

estejam publicados
na boca do povo,
na voz de um deus.

Lutar contra o controle
da singularidade dos sujeitos
sujeitando corpos – indóceis? –  a padrões

e domando a política dos quereres.
Permanecer atento para escutar
o que costura as bordas do Fora.

Opor-se ao arbítrio de normas,
interdições e regramentos
que não digam respeito às margens
de convívio com os outros.
Estar no Outro,

no diverso e no estranho.
Ser o provisório
universo do desejo,
o verso vermelho de carne
que sangra palavras.

Apropriar-se de si.

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Publicado originalmente no Transfeminismo.com.

Quem acompanha o blog já deve ter percebido como a questão da linguagem para nós não é secundária. Desnaturalizar a transfobia significa questionar certos efeitos de sentidos que tomamos como evidência: sobre homens, mulheres e “os trans”. E toda vez que questionamos certos sentidos já dados sobre essas categorias (ou poderia dizer, identidades) a questão da língua entra inevitavelmente. E isso não significa que estamos falando sobre algum sentido sobre as palavras que estaria escondido que seria em última instância verdadeiro, e que a língua portanto seria uma abstração virtual que comportaria esse sentido unívoco para a prática política. Ao contrário, a política se dá na exata medida em que a língua é capaz de falhas. O que significa também entender que a prática política – assim como o discurso – é um processo sem começo nem fim pré-determinados.

Decidi que seria interessante publicar dois comentários que Teofilo Tostes Daniel fez em uma publicação pública no facebook de Daniela Andrade em uma discussão sobre a imagem da página Era de Cisperar. Apaguei algumas marcas de interlocução (os seus nomes) no texto a quem Teofilo estava se dirigindo, já que ele estava dialogando com outras pessoas no post. Mesmo assim, como podem ver, trata-se de um texto que merecia ser publicado para além dos efêmeros comentários do facebook.

Bia Pagliarini Bagagli

***

Retirado da página "Era de Cisperar"

Retirado da página “Era de Cisperar”

Minha leitura dessa imagem não me remete a possíveis erros, que certamente ocorrem, causados por desconhecimento — embora a língua não seja neutra e ela também guarda, em sua estrutura, os preconceitos da sociedade (basta lembrar que palavras como ídolo e gênio não têm feminino, e que, ao nos referirmos a um coletivo com pessoas variadas, utilizamos sempre marcas linguísticas no masculino). Eu sou uma pessoa cisgênera. Mesmo não estando no lugar de quem pode falar com alguma autoridade — pois não tenho a vivência transgênera, ou entre-gêneros –, vejo muitos estudos acadêmicos, supostamente sérios, reproduzindo… a ignorância.

Vale lembrar que as pessoas transgêneras sofrem de uma permanente invisibilidade em relação a vários aspectos da vida quotidiana. Aspectos que a nós, cisgêneros, parecem ‘normais’, como o fato de ninguém estranhar que meu nome na identidade difere da imagem que eu tenho e passo às pessoas no convívio social. Aliás, para ser o que sou não preciso de um atestado médico falando… que eu tenho um transtorno psiquiátrico!

E no caso da figura, há um agravante: a exclusão de pessoas trans* do espectro de homens e mulheres. Homens trans* são homens e mulheres trans* são mulheres. Parece tautológico ter de repetir isso, mas no atual estado de coisas, não é ainda. Claro, há também pessoas não-binárias. Mas trans* não são, necessariamente, uma categoria, ou um outro gênero, fora do gênero masculino ou feminino. Agora, se alguém “foi lá falar sobre gênero” — e eu leio esse lá da figura como o lugar do “legítimo” saber, do poder de dizer da taxonomia do mundo, lugar esse que comumente é ocupado por pessoas cisgêneras –, talvez fosse de “cisperar” que essa pessoa ao menos não reproduzisse o preconceito do senso-comum.

Além disso, a língua é uma construção, ela não muda por decreto. Muitas vezes alternativas irrompem para responder a um silêncio, a uma não-nomeação de algo que demanda um nome. Por exemplo, o termo cisgênero. Eu aprendi pela linguagem que tinha à época — cresci nos anos oitenta — que a oposição às pessoas transgêneras — que eu basicamente identificava como travestis — eram as pessoas… normais. Particularmente, eu não achava as travestis anormais. Mas minha estrutura de pensamento não dispunha senão do repertório linguístico que reproduzia a ideia de que as travestis — e, na verdade, qualquer pessoa transgênera — não era normal. Faltava-me exatamente a palavra cisgênero! Aliás, é sintomático que o corretor ortográfico automático do meu Google Chrome grife como errada a palavra cisgênero e não aponte erro na palavra transgênero. Tocando essa questão, vale muito a leitura desse texto magnífico, que mostra a relação entre o irrompimento da noção de cisgeneridade e a possibilidade (política) de contestação da normatividade cisgênera.

No caso dessa imagem do post: Por que alguém que vai falar sobre gênero não poderia dizer, por exemplo, “os homens, as mulheres e as pessoas não-binárias”? Simples, direto, inclusivo e, me parece, mais respeitoso com o estar-sendo de cada um.

Longe de mim dizer o que é certo e errado, sobretudo no campo da linguagem. Em especial no que deve ser ou não dito para se referir a pessoas trangêneras, tendo em vista que eu sou uma pessoa cisgênera e o que me cabe nesse campo, se eu quiser respeitar as pessoas trans* — e minha opção é sempre pelo respeito –, é estar atento a como as pessoas pedem que eu me refira a elas.

Vamos voltar um pouco no tempo, num tempo em que eu não era sequer nascido. No tempo dos meus avós, quando era comum pais esconderem em casa filhos deficientes — sobretudo com deficiência mental ou graves problemas físicos. Nesse tempo, era “aceitável” se referir a deficientes físicos como aleijados, coxos, mancos, aleijões, etc. E a deficientes mentais como retardados, mongóis, débeis, entre outras coisas.

Eu sou deficiente físico. Como cresci nos anos oitenta, só se referiam a mim como aleijado quando queriam me xingar — e há crueldade também entre as crianças. No entanto, não era sequer aceitável que numa conversa educada, alguém falasse de mim como “aquele aleijado”, ou “aquele coxo”. Mas nesse tempo, ainda não era tão incomum as pessoas se referirem, em conversas normais, a um deficiente mental como “mongol”, “débil” e até “retardado”. Hoje isso não é aceitável, e o comum é falar que alguém tem “deficiência mental”, ou designando pelo tipo de deficiência, como “down”, etc. Lendo o livro Holocausto Brasileiro, que conta a história do manicômio de Barbacena, o maior hospício do país no Século XX, onde mais de 60 mil internos morreram das formas mais horríveis — frio, fome, choque, etc. — é possível intuir sobre o porquê esse estigma perdurou mais.

Coincidentemente, com a mudança no uso quotidiano das palavras, vemos o crescimento da preocupação com a acessibilidade e com a educação inclusiva. E mesmo que estejamos muito longe de estarmos num mundo acessível, é nítido que as pessoas se constrangem quando se defrontam com a inacessibilidade dentro de seus próprios espaços — lojas, supermercados, etc.

Agora vamos pensar na forma de nos referirmos à homossexualidade. Esse paralelo que traço é para pensar grupos que sofrem com estigmas. Nos anos 80, era bem comum dizer que fulano era bicha, por exemplo. E também gay — que é uma palavra aceita, leve e que não tem um sentido de xingamento. Lésbicas eram invisíveis — conheci pessoas que sustentavam seriamente que não existiam lésbicas, e era só um “homem de verdade” chegar nelas, que elas “cederiam”.

Em contrapartida, a dicotomia não era entre os gays/bichas e os héteros, mas entre os gays e os normais. Lembro que em meados dos anos 90 é que os termos homo e heterossexuais passaram a ser mais usados. A primeira vez que eu ouvi o termo homofobia, por exemplo, deve ter sido lá para 96 e 97 — não estou falando do seu surgimento, claro, que eu nem sequer sei como foi. E é claro que, sendo hétero, provavelmente eu deva ter conhecido esse termo depois dos meus amigos gays.

Obviamente, ainda existe muito preconceito contra os homossexuais, que só recentemente vêm tendo alguma paridade (ainda precária) de direitos, em suas uniões, com relação às uniões heterossexuais. Mas é de se notar que a popularização dos termos hétero e homossexuais se deu de forma mais ou menos concomitante com o crescimento do movimento que ainda em meados dos anos 2000 eu conhecia como GLS, que não só lutou contra a homofobia, mas também pela conquista de uma série de direitos negados. Essa popularização levou, inclusive, a setores mais conservadores da sociedade a inventarem a bizarrice do “orgulho hétero”, algo que seria impensável nos anos 80 porque os gays, na fala popular, não estavam em dicotomia com os héteros, mas com os “normais”.

Adentrando agora ao campo da transgeneridade — ou da cisgeneridade compulsória, sempre invisível e condenando pessoas transgêneras a serem opostas conceitualmente às pessoas “normais”: Além de a conquista de direitos estar ainda engatinhando — e não existir uma lei que permita e simplifique a mudança de nome é um índice do quanto os direitos básicos são negados a essa parcela da população –, as referências desrespeitosas às pessoas transgêneras ainda são socialmente aceitas. Não raro se fala “as travas”, “os travecos”, “as/os trans”, “o transexual” (quando se trata de uma mulher trans), etc.

E sobre a questão que a Daniela levantou, de que ela não é uma trans, isso faz muito sentido. A Daniela realmente não é uma trans, mas sim uma mulher. Uma mulher trans. Quando alguém se refere a ela como uma trans, há o apagamento do fato de ela ser uma mulher e, eu arriscaria até, o apagamento de que ela é uma pessoa. Metonimicamente, ela se torna apenas algo que a caracteriza, que a constitui. Deixa de ser um todo e se torna uma parte. E, “coincidentemente”, a parte considerada pela sociedade como “abjeta”. Em contraposição, eu jamais serei o cis — e nem qualquer mulher cisgênera será a cis. Quem se referir a mim, falará “daquele homem”. Sim, é verdade que há uma elipse quando nos referimos a alguém como “a trans”, mas existe uma construção social que leva a essa elipse que reforça preconceitos. E eu arriscaria dizer, mesmo sendo uma pessoa cis e não tendo a vivência da experiência transgênera, que essa elipse tende a significar o apagamento ou a desumanização da pessoa trans. A elipse de seu ser no mundo.

E os exemplos que ela usa são ótimos. Alguém fala que “a cis foi à praia”? É tão nonsense, que não dá sequer para imaginar isso. No entanto, com mulheres trans, isso deveria ser aceitável? Por quê? Aliás, a maior parte das pessoas cisgêneras nem sabem o que isso significa. E há também quem, sabendo o que é, se recusa a aceitar essa categorização, como se ela fosse um absurdo, ou até uma ofensa. Afinal, haveria, por exemplo, as mulheres trans e as… biológicas? Uma nova forma de dizer normais, opondo a suposta “natureza” da pessoa cisgênera a uma espécie de engodo ou artificialidade dos corpos das pessoas trans? Isso não se parece, inclusive, com um discurso religioso fundamentalista?

Bom, eu acho que não dá para ignorar o poder das palavras e da nominação do mundo. Poder dizer o que as coisas são é uma forma de poder. Por isso, existem disputas de nomenclaturas. Existe o esforço de precisão ou rejeição de termos. Não fossem as palavras tão importantes, no distópico 1984 George Orwell não conceberia um mundo capaz de criar a novilíngua — e muito menos pensar no que politicamente isso significa. Essa minha visão, porém, pode ser um defeito do olhar de quem trabalha com palavras…

Transfeminismo

Quem acompanha o blog já deve ter percebido como a questão da linguagem para nós não é secundária. Desnaturalizar a transfobia significa questionar certos efeitos de sentidos que tomamos como evidência: sobre homens, mulheres e “os trans”. E toda vez que questionamos certos sentidos já dados sobre essas categorias (ou poderia dizer, identidades) a questão da língua entra inevitavelmente. E isso não significa que estamos falando sobre algum sentido sobre as palavras que estaria escondido que seria em última instância verdadeiro, e que a língua portanto seria uma abstração virtual que comportaria esse sentido unívoco para a prática política. Ao contrário, a política se dá na exata medida em que a língua é capaz de falhas. O que significa também entender que a prática política – assim como o discurso – é um processo sem começo nem fim pré-determinados.

Decidi que seria interessante publicar dois comentários que Teofilo Tostes Daniel…

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O que somos é construído pelo sedimento de nossas experiências, em nossa viagem solitária pela vida. Se por um lado existe algo que pareça uno em nossa identidade, ao ponto de podermos dizer “eu” e sentirmos estar sendo o mesmo numa contínua progressão, por outro é fácil reconhecer que nunca somos fixamente esse mesmo, e que o outro nos habita e faz com que hoje sejamos diferentes do que já estivemos sendo.

Para quem, como eu, vive uma relação identitária esperada e naturalizada, não é comum que se questione sobre o outro que aflora em si. Dessa forma, quando me transformo e me modifico, seja porque amadureço, me amedronto, envelheço ou mudo um juízo sobre algo, sou ainda percebido como um contínuo. Há, no entanto, aqueles a quem sempre se pergunta quando foi que se tornaram o que são. Aqueles que têm suas identidades interditas, em algum grau, pelo confronto com o que nossa cultura estabeleceu como natural — embora não seja possível saber no humano aquilo que é natureza, pois somos demasiado humanos. Talvez pela patente e necessária luta por afirmar sua diferença e, em muitos casos, construir sua identidade, estes, a quem se pergunta tais questões ligadas ao devir, são vistos como não naturais. Como se pessoas com identidades ditas naturais — ou seja, naturalizadas pelas convenções aceitas pela sociedade — também não se inventassem a cada dia.

Embora eu me invente quotidianamente, já que sou, como todos, rondado pelo outro que me constitui, ninguém jamais me perguntou, por exemplo, quando foi que decidi permanecer cis ou me descobri hétero. E essas explicações, para mim, estariam na ordem do indizível, das coisas que não têm nome. Sou criado, porém, de uma forma a acreditar na ilusão de que essas características seriam uma espécie natureza, não levando em conta todas as construções simbólicas, de origens múltiplas, agregadas ao que venho sendo.

Na última semana de fevereiro concluí um livro que testemunha a história de alguém cuja identidade frequentemente é vista como um desvio do “natural”. A autobiografia de alguém a quem certamente sempre se pergunta como foi que se tornou aquilo que é. E que responde, em muitos sentidos, a essa pergunta que lhe deve ter sido lançada inúmeras vezes. Lendo sua história, numa narrativa impressionante, fluida, vertiginosa e envolvente, pude ver que ele é um homem como eu. Na narrativa de suas memórias estão inscritos também seus valores. Percebo então que partilhamos muitas de nossas visões de mundo, embora não nos conheçamos, tenhamos histórias de vida bem distintas e sejamos de gerações diferentes — ele é um pouco mais velho do que meu pai seria hoje, se estivesse vivo. Creio que essa identificação de valores e de concepções de mundo acentue ainda mais a visão que se forma: ele é um homem como eu.

Mas há nele algo, que é da ordem de sua história de vida, que nossa sociedade tende a enxergar como uma diferença de substância, uma outra natureza. Não é. Tanto a minha identidade quanto a dele são construídas nesse caldo simbólico chamado cultura. Mas como eu sou um homem cis, sou interpretado como natural. Já ele é um homem trans.

Ele é João W. Nery. E seu livro, Viagem solitária: memórias de um transexual trinta anos depois, é uma releitura de sua própria história. Uma releitura, pois é a segunda autobiografia que ele escreve. Em 1984 publicou o livro Erro de Pessoa: João ou Joana?, que narrava seu périplo da infância até a chamada cirurgia de redesignação sexual, a que se submeteu em 1977. Viagem solitária inclui também a narrativa de sua vida desde então.

João foi o primeiro trans-homem a se submeter a um procedimento desse tipo no Brasil, quando tais cirurgias eram consideradas ilegais. Tanto que o cirurgião Roberto Farina, que o operou, e que foi o primeiro médico brasileiro a operar uma transmulher em 1971, foi condenado por lesão corporal grave por conta de uma cirurgia feita em Waldirene Nogueira. Ela, cujo nome de batismo era Waldir Nogueira, foi operada por Farina e, após a operação, fez um pedido de retificação de seu registro civil na Justiça paulista em 1975, o que foi negado. O fato chamou atenção da opinião pública, uma vez que ela havia se submentido a um procedimento cirúrgico não previsto em lei como lícito.

“A ironia era precisar de um rótulo, do que todos tentam fugir”, escreve João. O leitor que acompanha as narrativas dessa viagem sente a angústia de alguém que se vê sem lugar no mundo, dessemelhante a todos que o circundam. Mas também se maravilha com a força desse mesmo alguém que, ante a premente necessidade de se reinventar, efetivamente se refaz.

“Iluminando o silêncio das coisas sem nome”, como diz o belo e preciso verso de um poema escrito pelo autor, Viagem solitária é a partilha de uma experiência, feita com grande coragem e generosidade por um homem de mente inquieta. Um homem que descobriu “que há várias masculinidades diferentes e que são construídas também pelas tecnologias da cultura dominante”. Alguém que abriu à força de muita luta veredas para transitar pelos papéis designados a um homem, que era o lugar em que sempre se viu. Que ainda luta contra a invisibilidade a que as pessoas trans são relegadas, nos mais diversos aspectos da vida — no plano legal, no plano social, no plano simbólico… E que, mesmo com todas as lutas empreendidas, fez questão de continuar dócil e afetivo, e de transmitir, como pai, essa doçura e essa afetividade a seu filho adotivo. Ao ponto de escrever, já no final da viagem pela qual conduz seus leitores, que sentiu que sua paternidade tinha valido a pena e, sobretudo, que seu filho se tornara o seu “acerto” na vida.

Vale para Viagem solitária o que Antônio Houaiss escreveu no prefácio do primeiro livro de João W. Nery, Erro de Pessoa: “é um livro imprescindível para a todos os que queiram ver melhor o espanto que é o ser humano”. Vale também a exortação que Houaiss deixa ao fim deste prefácio: “Leiam-no e humanizem-se”. João conta que perdeu o medo das palavras com o antropólogo Darcy Ribeiro, com quem costumava conversar na adolescência e que se tornara uma espécie de mentor intelectual. Ao viajar pelos sendeiros abertos por sua escrita, o leitor constata que ele aprendeu bem essa lição…

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