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Posts Tagged ‘Solidão’

Frequento orvalhos,
essas formas úmidas
do silêncio.

Habito a pele das folhas.
Na hora mais silente da madrugada
eu me banho do escuro da noite.

Exalo aromas ressonantes,
quando fio o avesso do verbo
que cria o que sou.

Enquanto sou,
soa um silêncio essencial
chamado solidão.

Invento só,
banhado por minhas noites.
Mas a matéria espessa

dos silêncios consonantes

fundamenta auroras
e solares sentires.

quinzenario0049

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Dia a dia, são diásporas
que transmutam as entranhas
das cidades. Megalópoles
erigem distâncias tantas,
fundam tribos sem contato
e sem qualquer vizinhança.

A carne da multidão
se esvai em sangue no cinza
asfalto, donde não rompem
quaisquer flores improváveis.
Célere, transita a vida
sem chegar a não-lugares.

Faustos, beatos, pactários,
faunos, putas, cramulhões,
rábulas, cegos, senhores,
indigentes e doutores:
os frágeis pés dessas gentes
acumulam pó das ruas.

Os pés passam desfilando
o transitório das gentes
sobre o pó de todo espaço.
Público. Local de encontro,
concerto ou desacerto
de almas sempre sozinhas.

Solidão em SP - Foto: Frederico Antonio Ferreira
Solidão em SP
Foto: Frederico Antonio Ferreira

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E as vinte palavras recolhidas
nas águas salgadas do poeta
e de que se servirá o poeta
em sua máquina útil.

Vinte palavras sempre as mesmas
de que conhece o funcionamento,
a evaporação, a densidade
menor que a do ar.
(João Cabral de Melo Neto – A Lição de Poesia)

(…)

borboleta
Ente híbrido, entre animal e papiro, em cujas asas estão inscritas respostas para perguntas que nunca foram feitas. Trata-se de um palimpsesto que testemunhou a escritura de todos os absolutos e traz, em diversas camadas, a grafia do indizível. Ao experimentar o estado de solidão existencial, conhece a intimidade da impermanência, caminhando em direção ao outro da forma. Ela não nasce ente híbrido, mas aprende a tornar-se aquilo que se é. Sua existência é também o seu devir. Certo sábio urbano, disfarçado de criança, ao visitar o campo e vê-la pela primeira vez, definiu-a como uma cor voando.

(…)

flor
Ente vegetal que é, na verdade, uma borboleta imóvel e fixa. É frequentemente descrita como um códice cujas folhas acabaram de encarar as mil e uma faces noturnas do silêncio. Nascida do cruzamento entre o encanto e a finitude, tornou-se um tipo de lugar-comum poético, como a lua e o amor. Mesmo assim, certos poetas contemporâneos ainda recorrem a ela. Um poeta gauche certa vez descreveu uma estranha espécie nascida no asfalto. Sim, ela é dividida em várias espécies. Uma delas, habitualmente sacrificada e ofertada às dúzias num ritual em favor de amantes ou amadas, teve seus cinco motivos cantados por uma poetisa moderna e atemporal. Outra, imponente e xântica, conserva ainda algo de borboleta, por se mover no sentido da luz, e aparece convulsa e obsessivamente nas telas de um atormentado pintor que se matou quase dois anos depois de cortar a própria orelha para oferecê-la de presente a uma prostituta.

(…)

história
Ente conceitual formado por um encadeamento de instantes ordenados de modo a constituir uma narrativa. Quando escrita com inicial maiúscula, trata de realidades ou instantes pretéritos pretensamente acontecidos, o que faz com que seja considerada verdadeira. Os supersticiosos costumam atribuir sua autoria à irmandade formada pela solidão, a serenidade e o silêncio.

(…)

Paracoccidioides brasiliensis

Poetas são, às vezes, arbitrários.
Elegem sem motivo certos seres
e os enchem de poéticos poderes,
inscrevendo-os em raros relicários.

Porém, uma cientista que também
é poeta não pode distinguir
dos entes de poético existir
um certo fungo conhecido bem.

Bem conhecido dela, pois poetas
se consideram sempre bons estetas.
Preferem borboletas e condores.

Mesmo por males têm predileções.
Sabem tudo das próprias depressões,
mas nada dos imunodepressores.

(…)

solidão
Ente sentimental que o senso comum associa a tristeza, amargura, angústia e outros entes sentimentais negativos. Ela, no entanto, é uma condição da existência, formando com a serenidade e o silêncio uma antiga irmandade que regia a destinação de deuses, homens e outros entes. Entre os antigos, foi identificada como Cloto, a fiandeira. Os demais entes dessa irmandade também conheceram outras nominações: Láquesis era aquela que mansamente enovelava o fio para sortear o nome de quem teria o silente encontro com Átropos, a quem cabia cortar, inflexível, o fio tecido por Cloto. Há quem sustente que o sozinho de cada ser seja o fundamento de seu sentir.

(…)

verdade
Ente conceitual constituído a partir de uma narrativa pela qual as pessoas podem jurar.

(…)  

*

Escrito para a Oficina Escrevivendo: Poesia, ministrada por Fabiana Turci na Casa das Rosas.

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