Feeds:
Posts
Comentários

Posts Tagged ‘Sociedade’

Acabo de ler admirado um artigo da Judith Butler sobre os acontecimentos em torno de sua vinda ao Brasil. Penso que se é possível discordar frontal ou parcialmente de sua leitura de mundo, pois, no olhar que lançamos à complexidade de tudo que há, estarão nossas certezas (ou incertezas) e nossos valores. Mesmo compreendendo discordâncias, tenho dificuldade de também compreender como se pode acusar de promover a pedofilia (aqui entendida como uma violência imensa contra alguém que, sendo criança, não é capaz de se defender), alguém que afirma o seguinte:

“Liberdade não é — nunca é — a liberdade de fazer o mal. Se uma ação faz mal a outra pessoa ou a priva de liberdade, essa ação não pode ser qualificada como livre — ela se torna uma ação lesiva.”

Acho que o que mais me admirou neste artigo foi o esforço de tentar compreender as razões e as consequências de uma violência sofrida por si própria. E, a partir disso, reafirmar seu compromisso e sua luta por um mundo com mais liberdade e mais alegria.

Destaco abaixo um dos trechos do artigo da Judith Butler, publicado neste domingo (19/11), que mais me chamaram a atenção. Mas a leitura do artigo todo, para mim, só aumenta a potência das palavras abaixo.

“Embora apenas minha efígie tenha sido queimada, e eu mesma tenha saído ilesa, fiquei horrorizada com a ação.

Nem tanto por interesse próprio, mas em solidariedade às corajosas feministas e pessoas queer no Brasil que estão batalhando por maior liberdade e igualdade, que buscam defender e realizar uma democracia na qual os direitos sexuais sejam afirmados e a violência contra minorias sexuais e de gênero seja abominada.

Aquele gesto simbólico de queimar minha imagem transmitiu uma mensagem aterrorizante e ameaçadora para todos que acreditam na igualdade das mulheres e no direito de mulheres, gays e lésbicas, pessoas trans e travestis serem protegidos contra violência e assassinato.

Pessoas que acreditam no direito dos jovens exercerem a liberdade de encontrar seu desejo e viverem num mundo que se recusa a ameaçar, criminalizar, patologizar ou matar aqueles cuja identidade de gênero ou forma de amar não fere ninguém.”

Para ler a íntegra do artigo, clique aqui.

Anúncios

Read Full Post »

(em diálogo com Priscilla Menezes)

Eu ouço a balbúrdia
de uma multidão
singrando veredas
com tochas nas mãos.

“Que queimem as bruxas!”
E sei que essa história
soa mais antiga
que a própria memória.

As férteis potências
medram muito os homens
e suas ciências.

Quem celebra a guerra
sempre irá temer
as bruxas e a terra.

 

Hans Baldung – O Sabá das Bruxas

Manifestantes queimam boneca com rosto de Judith Butler em frente ao Sesc Pompeia. Foto: Felipe Faverani.

Read Full Post »

Acolher talvez seja o ato político que nos resta. Perceber que, assim como eu, o Outro também vive a perplexidade de habitar um mundo impossível de compreender. A frustração de ter demandas urgentes que não são atendidas. E o medo decorrente do incerto. Essa foi a constatação que minha esposa, a Fabi, dividiu ontem comigo. Uma constatação precisa, quando olhamos os fluxos discursivos que nos cercam.

Pensei em como venho lidando com as diferenças que se evidenciam cada vez mais nos dias de hoje. Tenho buscado identificar o que há de comum para, então, oferecer meu ponto de vista em contraponto. Uma herança da ideia de alteridade evidenciada no diálogo, em que se movem pontos de vista e visões de mundo distintos. Mas a Fabi me apontou que iniciar um diálogo a partir das semelhanças para depois pontuar as diferenças ainda é uma busca por convencer o Outro. E é sobre a falência dessa pretensão que ela estava falando.

Ela me questionava qual era o resultado efetivo de tentar demover alguém de uma ideia, de um valor, de uma convicção? O que foi possível construir por meio desse tipo de prática? Que tipo de mundo e de sociedade é possível se criar quando alguém, do alto de seu saber verdadeiro, busca convencer o Outro do equívoco de seus valores? E eu não tenho respostas para essas questões.

Evidentemente, eu tenho meus valores, minhas convicções. Mas durante a conversa com minha esposa, o que ressoou fundo foi que talvez eu precise de esforço para compreender que eles não são universais – por mais que eu pudesse desejar que o fossem. Há muitas pessoas que se pautam por valores distintos, que têm demandas e projetos diferentes, visões de mundo e de sociedade, por vezes, contrárias. Se minha primeira reação, quase instintiva, é a de dizer que isso não me demoverá dos meus valores, por que posso julgar correta minha pretensão de demover o outro dos valores que lhes são caros?

Toda conversa de ontem me sinalizou que talvez o projeto político do esclarecimento não tenha dado certo exatamente porque pressupõe que haja uma visão correta de mundo que deva ser propagada. O embate dialético em busca do bem comum não me parece ter resistido à multiplicidade de desejos distintos, que não foram atendidos. E hoje o que acabamos testemunhando é um mundo em que muitos gritam e ninguém (se) ouve.

Reproduzo as ideias desse diálogo e divido essas percepções, não com a pretensão de quem afirma uma verdade categórica. São apenas impressões colhidas no instante. Reverberam uma forma nova como consigo ler o mundo de hoje, a partir do atravessamento das ideias trazidas pela Fabi. E só podemos pautar nossa ética em nossa forma de ler, ouvir e compreender o mundo ao redor. Assim como cada uma dos bilhões e bilhões de pessoas que habitam esse vasto e diverso mundo.

Essa nova percepção de nossos tempos me faz abrir mão de pretender convencer qualquer pessoa de qualquer coisa que seja. Porque não importam muito meus valores, minhas escolhas, minhas opiniões. Isso jamais será capaz de me aproximar do Outro. E quando me refiro ao Outro, falo daquele que pensa, age e se conduz no mundo de forma bastante distinta da minha. Porque aqueles com quem partilho valores, experiências e opiniões já fazem parte de um grupo que eu poderia chamar de Comuns. Com esses, eu comungo do mesmo corpus, e essa comunhão forja o conceito de comunidade – e há comunidades geográficas ou imaginadas, há vizinhanças físicas ou semânticas.

O que desejamos formular a partir daqui é uma ideia sobre como nos portar diante do Outro. Daquele que, quando ouvimos, pensamos que ele não deveria pensar como pensa nem agir como age. Teríamos o direito de também julgar que ele não deveria sentir como sente? Insistir com esse Outro que ele está errado e nós (supostamente) certos o fará pensar como pensamos? O estado de coisas ao redor parece sinalizar que não.

Love - Alexander Milov

Love – Alexander Milov

Percebi ontem que o maior desafio para aqueles que, como eu, defendem que a alteridade e a diversidade devem ser respeitadas e protegidas é abrir-se para verdadeiramente ouvir o Outro, aquele que tem valores opostos. Escutar suas demandas, seus medos, seus sonhos, seus desejos e ver a legitimidade de tudo isso. Porque são essas coisas que fundamentam aquilo que o Outro defende. Ouvir sem tentar demovê-lo de suas ideias. Mas também sem anuir com comportamentos e ações que firam meus princípios. Equilibrar-se nessa difícil corda bamba da alteridade parece urgente. Porque, como sociedade, estamos todos repletos de raiva e ódio. E, como a Fabi me disse, essa raiva, esse ódio não têm espaço de acolhimento nos imperativos do nosso mundo, pois não há espaços para acolher o que o Outro sente. Em geral, a raiva e o ódio são insuflados pela suposta confirmação das razões pelas quais se odeia, dada tanto por quem aplaude quanto por quem argumenta contra o que o Outro diz.

A nossa aposta é que pela escuta empática, por esse ato raro num mundo de ouvidos moucos, recuperemos nossa capacidade humana de conexão com o Outro, que anda perdida nos campos de batalha da vida. E assim substituir a política do convencimento por uma política do afeto, em que levar o Outro à (nossa) verdade dê lugar a acolher o Outro em seus sentimentos. Minha incapacidade para manejar as armas do ódio quer crer que, quando o Outro for acolhido por quem tem princípios e valores diferentes, talvez ele deixe de ver a diferença como um inimigo a se combater e destruir.

Read Full Post »

Ontem essa indagação não me saiu da cabeça: a mitificação de alguém é uma forma de desumanizá-lo? Que processos nos levam a apagar o lado humano de alguém que admiramos demais, para torná-lo uma espécie de semideus?

Anteontem à noite (25/5), fui ao lançamento do livro Estórias autênticas (Editora Patuá), do querido André Balbo, no Patuscada. Ainda não havia conseguido que o André autografasse o meu exemplar (sim, uma ótima notícia: o lançamento foi bem concorrido!), quando o Edu (Eduardo Lacerda) comenta comigo que haviam dito que o Raduan Nassar estava lá.

Meu primeiro sentimento foi um misto de incredulidade e espanto. O Raduan Nassar habita, ao lado de outros quatro escritores, uma parede da minha casa, dedicada às referências literárias mais importantes, comuns a mim e à minha esposa. Um conjunto pensado há sete anos, quando planejávamos os detalhes de como seria a nossa casa. Num tempo em que a matéria da vida quotidiana se modificava e ganhava novos significados projetados pelas emanações de sonhos em comum. Alguns dos cinco quadros que existiam originalmente na casa da Fabi emoldurariam novas fotos.

Foram conversas várias para que chegássemos a cinco nomes. Havia uma projeção de que novos quadros poderiam vir, aumentar esse conjunto, mas isso não ocorreu. Claro que certos autores já então cogitados se agigantaram ainda mais (como no caso de Ítalo Calvino) e outros surgiram assombrosamente (como Ismail Kadaré). Mas acredito que ali habitam a base do que me forma como leitor, e boa parte do que forma a Fabi (que vai muito além de mim) como leitora. Não consigo imaginar minhas palavras sem tê-los encontrado um dia. Estão lá Drummond, sentado modestamente no chão a folhear um livro próprio; Hilda Hilst abraçada com ternura a um cão; Borges com um olhar de tempestade, voltado para a incerteza; Guimarães Rosa acariciando um excêntrico rinoceronte. E, no centro, sentado numa cadeira sob uma árvore, talvez em sua mítica terra que o fez abandonar a escrita, Raduan Nassar.

Drummond, Hilda Hilst, Borges, Guimarães Rosa e Raduan Nassar habitam nossa cozinha, o lugar mais sagrado da casa.

Isso significa que aquela espécie de entidade que habita nossa cozinha, que é o lugar mais sagrado da casa, estava ali. Devo muito da minha linguagem à leitura dos livros de Raduan. Mas não teria como dizer isso a ele. Não teria como contar o alumbramento perplexo suas palavras me causaram. O quanto elas foram fundantes para o prosador que sou, e que desejo me tornar. Também não teria como dizer que a fala de um dos personagens do meu Trítonos tem toda fala construída como um fluxo, um jorro, como o vi fazendo em “Um Copo de Cólera”. E que nessa mesma fala há uma espécie de incorporação de uma trecho do “Lavoura Arcaica”, em que o personagem diz que será o profeta da própria história.

Quando fui buscar o autógrafo do meu exemplar do livro do André, numa sala mais reservada, aquela figura deixou de ser apenas um quadro na parede, e um nome na capa de livros essenciais. Diante de mim estava ele: Raduan! Desde então, fui meio que levado pelos acontecimentos. Ainda não acredito que autografei e dei um exemplar do meu Trítonos – intervalos do delírio para Raduan Nassar. Era como conhecer uma entidade mítica. E a perplexidade paralisa. Ao lado de Raduan, outra figura conhecida. Embora longe de ser mítica, é alguém que, em tempos de uma política desumana que a administração da cidade vem adotando, deixa saudoso o cidadão político que sou: Fernando Haddad.

No entanto, num primeiro momento, só consegui ver o escritor e mito. Em vão tentei balbuciar algo absolutamente banal, falando do quanto era difícil de acreditar naquele momento. Mas eu sabia que quaisquer palavras eram insuficientes. Voltei para casa eufórico, como se tivesse vivido uma experiência sobrenatural. Repleto de uma emoção difícil de explicar, mas plenamente possível de entender. Ao mesmo tempo, porém, pensava no quanto aquela euforia e aquele maravilhamento, que quase me emudeceram, nasciam da mitificação de um homem. Ao entrar naquela sala, vi um homem frágil, talvez um pouco menor que eu, feito de carne e osso, sentimentos e incertezas. Mas essa dimensão havia se apagado. Meus olhos viam apenas a figura mítica, o escritor desmedido e o personagem repleto de idiossincrasias, que largou a literatura para cuidar da terra e seus maravilhamentos. E essa figura me parecia desumanizar o Raduan homem.

Longe da emoção, penso que talvez eu devesse ter falado que sabia que toda aquela situação talvez fosse um pouco constrangedora para ele, mas que certamente ele também entendia que, como leitor, me era impossível não lhe dizer o quanto o admirava. Afinal, era ele: Raduan Nassar. Há seis anos ele habita o espaço mais sagrado da minha casa. Suas palavras me habitam há pelo menos uns quinze. E era lindo conhecê-lo ali na Patuscada, pois aquele lugar também é, um pouco, uma espécie de casa para mim…

Fernando Haddad, Raduan Nassar, Edson Valente, Eduardo Lacerda e eu.

Read Full Post »

os coturnos ecoam até aqui
manchando as ruas de terríveis
reminiscências

ouve a marcha dos soldados?
assinaram um papel
autorizando o emprego das forças

armadas
para quem não marchar direito

enquanto isso o concreto modernista
fincado na caatinga
por suaves linhas repletas
de eufemismos

pega fogo

no dia anterior
derrubaram um prédio
com gente dentro

quase gente talvez

e todo dia
pega fogo
chumbo quente
e bala dirigida
teleguiada, mas nunca

perdida
em distâncias tão vizinhas

o tempo é de temor
pois jamais nos recuperamos
de 1964

São Paulo, 25 de maio de 2017.

Read Full Post »

___

A ideia primeira desse vídeo era apenas apresentar essa música para divulgar minha participação no último “Desconcertos de Poesia” de 2016 no dia 6 de dezembro, evento promovido pelo amigo, escritor e poeta Claudinei Vieira no Patuscada – Livraria, bar & café. Neste evento, para o qual tive a honra de ser convidado para mostrar um pouco da minha escrita e também um pouco de música, vou cantar algumas canções ciganas, entre as quais esta.

Mas ser casado com uma Youtuber abre possibilidades que para mim, menos habituado à linguagem audiovisual, são impensáveis. A partir das gravações feitas, minha amada Fabi Turci, autora do site (https://laboratoriodossentidos.com/) e do canal (https://www.youtube.com/c/laboratoriodossentidos) Laboratório dos sentidos editou esse vídeo incrível usando não só as gravações que ela fez comigo cantando, mas também com inserções de imagens tiradas dos documentários “Cobra Gypsies”, “Los olvidados – Palestina una historia de resistência” e “Al otro lado – la vida en palestina dividida por el muro israeli”, todos disponíveis aqui no Youtube.

‘Naci en Alamo’ é uma canção cigana, de autoria de Giorgos Katsaris e Dionisis Tsaknis, que descobri na voz de uma cantora de origem judaica (sefardita), chamada Yasmin Levy. Ela é um lamento de povos apátridas e/ou que têm experiências de um nomadismo forçado. Cabe hoje na voz e na história de ciganos, de palestinos, de curdos (especialmente os yazidis), de congoleses, de sírios etc, assim como também de judeus, sobretudo antes de 1948. Descobri a versão ‘Naci en Palestina’ na voz de uma excepcional cantora tunisiana que conheci recentemente, Emel Mathlouthi.

Read Full Post »

Agosto termina deixando um abismo de dúvidas e receios sobre os rumos do país. Abismos, aliás, que nunca se fecharam. Talvez por isso, o dia hoje tentou seguir a normalidade. Mulheres e homens saíram para trabalhar, crianças foram para as escolas, os ônibus circularam normalmente, lojas e restaurantes abriram. Mas uma tensão — presente nos ares do país durante todo esse ano — não se dissipava. A chuva que caia desde cedo na cidade em que habito não lavava a alma de ninguém. Talvez os céus apenas chorassem por essa herança de incertezas.

Mas o que vivemos hoje está longe de ser uma exceção em nossa história. Olhando para trás, é possível constatar que “o maior eixo de continuidade da história recente do Brasil é a instabilidade”. Se pensarmos a história recente do país a partir da chamada Era Vargas, vamos perceber que tivemos somente onze eleições diretas para presidente desde 1930. Por isso, temos hoje estranhas configurações de pais que votaram para presidente o mesmo número de vezes que seus filhos. Mesmo no meu caso, minha mãe só votou para presidente duas vezes a mais do que eu.

Dos oito presidentes eleitos nessas onze eleições que tivemos nos últimos 86 anos de nossa história, somente quatro conseguiram terminar seus mandatos. E em 127 anos de República, apenas 12 presidentes foram eleitos por voto direto, tomaram posse e governaram até o final, incluindo nesse cálculo a presidenta Dilma Rousseff no primeiro mandato. Constatar isso de forma quase didática é um pouco assustador… Ainda mais pelo fato de termos vivido os últimos vinte (e um?) anos com uma ilusão de estabilidade, derruída no decorrer de 2016. Realmente torço para que meus temores sejam exagerados, mas a história me mostra que a junção de um descrédito generalizado em relação à democracia com um crescimento preocupante de diversos discursos de ódio jamais produziu bons frutos.

Desde 1930 apenas quatro presidentes eleitos diretamente para exercer esse cargo conseguiram terminar seus mandatos. Apesar das diferentes conjunturas de cada um desses períodos históricos, podemos tirar algumas conclusões. Uma dela é que, Infelizmente, o maior eixo de continuidade da historia recente do Brasil é a instabilidade. - André Mendes Pini

Desde 1930 apenas quatro presidentes eleitos diretamente para exercer esse cargo conseguiram terminar seus mandatos. Apesar das diferentes conjunturas de cada um desses períodos históricos, podemos tirar algumas conclusões. Uma dela é que, Infelizmente, o maior eixo de continuidade da historia recente do Brasil é a instabilidade. – André Mendes Pini.

Read Full Post »

Older Posts »

%d blogueiros gostam disto: