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Posts Tagged ‘Silêncio’

(in memoriam de Roberta Carmona)

Partir é sempre precoce.
O peso de uma ausência
dói nos ombros de todos que a suportam.
E quanto mais ombros,
mais a dor se alastra.

A dor partilhada pela palavra,
encharcada de Verbo,
move tudo junto.
Comove.

Mesmo se a presença
foi só potência,
uma ausência pode pesar.
Fica uma lacuna aberta
sobre o silêncio da impossibilidade.

Partir é sempre precoce.
Por isso agora, claudicante,
eu tateio palavras
sentindo que nenhuma me veste.

___
Não cheguei a conhecer pessoalmente a Roberta Carmona. Eu só a vi uma vez, no Patuscada, quando ela entrevistava algum escritor que não cheguei a ver quem era. Pretendia falar com ela, pois lhe havia enviado meu livro pouco tempo antes, mas acabei não tendo oportunidade para isso. Eu a conheci pelo Literatórios, e quando nos adicionamos ela logo me disse que queria ler meu Trítonos. Sempre que interagimos, foi pela palavra, tanto nas redes sociais quanto nos comentários aos seus vídeos.

Hoje, ao entrar neste espaço, vi muitos escritores amigos lamentando a sua perda. Nosso mundo sempre fica mais pobre quando alguém se vai. E hoje a literatura também. Pela simpatia a Roberta despertava em mim – e certamente em todos – fui imediatamente tocado por sua ausência. Tão tocado que não consegui deixar de escrever. Mesmo sentindo que “hoje nenhuma palavra me serve”, como a Paula Fábrio escreveu e de quem roubei a ideia da frase para fechar isso acima que escrevi e agora partilho em memória da Roberta.

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Trítonos – intervalos do delírio“, cujo lançamento faz hoje um ano, começou a tomar sua forma definitiva enquanto seu segundo conto, “Gritos do açafrão”, era escrito. Nele, há um personagem que é pianista. As pesquisas sobre música que fiz por causa dele acabaram me fazendo encontrar a metáfora central desse livro: a vida como dissonância.

Encontrar conceito do trítono também me fez encontrar a forma do livro, com três grandes narrativas, dispostas como uma espécie de programa de concerto, intercalando dissonância e consonância. Um jogo que culmina no trítono – o intervalo mais dissonante, em música – para depois voltar ao tom inicial do livro-delírio.

Pensando na importância da música nesse livro, compartilho uma sequência narrativa/musical, com as peças tocadas por Demian, o pianista do segundo conto, e os trechos correspondentes aos instantes em que elas soam dentro do conto. Basta assistir à playlist abaixo, criada no Youtube, e ler o trecho selecionado.

O livro “Trítonos – intervalos do delírio” foi lançado em 2015 pela Editora Patuá e pode ser adquirido no endereço http://bit.ly/tritonos.

Saciados do comer e do beber, cada um segundo sua fome, a mulher, após agradecer-lhe, perguntou se ele poderia tocar um pouco para ela. Ele sorriu e perguntou de seus gostos. Mais uma vez ela se esquivou de dar direção a qualquer coisa que fosse. Disse que queria ouvir coisas às quais não estivesse habituada, quase como se desejasse, sem o saber, refundar seu campo da escuta.

Demian sentou-se ao piano. Anunciou que iria tocar duas músicas de Eric Satie. Começaria por uma chamada Gymnospédie n° 1, nome derivado de um antigo ritual grego ao deus Apolo, em que jovens dançavam nus ao som de flauta e lira. Ela esperava um som insano, como aquele que invadiu seus ouvidos enquanto escutava as músicas judaicas. No entanto, do piano de cauda saiu um som lento, grave, suave, quase doloroso. Mas também agradável como uma luz leitosa de fim de tarde. Enquanto ele tocava, ela fechou as cortinas da sala, até chegar na luminância que sua mente imaginou para a música. Lenta e grave, tirou toda a roupa e começou a dançar, completamente nua, sobre o suave tapete da sala, até deitar-se nele, para ouvir os últimos acordes de olhos fechados.

Ela não acreditava que estava ali deitada, nua, na sala de um estranho, ouvindo aquela música que a furtava do presente e remetia à eternidade. Após ouvir o último acorde, sentiu uma imensa vontade de chorar. Um choro sem nome, sem sentimento. Mas não teve tempo. Ainda de olhos fechados, ouviu um barulho inominado. Abriu os olhos e viu o tampo das cordas fechado. Demian já estava praticamente ao seu lado. Levantou-a em seus braços, enquanto dizia que ela teria uma experiência de audição diversa. A ideia lhe havia surgido graças ao nome da próxima música de Satie que ele tocaria: Gnossienne nº 1, palavra provavelmente derivada de gnosis, inventada pelo compositor para nomear uma sequência de sete peças.

E o que ela experimentou foi uma nova forma de conhecer. Aquele quase deus da música deitou-a com rara delicadeza sobre o piano, com a cabeça virada para as cordas graves. Estava deitada como um horizonte ofertado aos olhos do pianista. Ela olhou os ornamentos do teto e ruborizou pensando que ele iria divisar detalhes de seu corpo que ela mesma indistinguia. Com sua voz aveludada, como se acariciasse seus ouvidos com o silêncio que mora nas entranhas de cada som, Demian pediu que ela fechasse os olhos e apenas mirasse o dentro de si. E se deixasse levar pelo imaginado, pela trama sonora e abstrata das músicas que iria tocar.

Alguns breves instantes silentes se seguiram após a mulher do apartamento 11 ter fechado os olhos. Sentiu-se esvaziar de todo, estimulada pelo silêncio e pela escuridão de suas pálpebras. Antes que formulasse pensamento, sentiu a primeira nota grave da música ressonando em seu tronco. Os arpejos passeavam pela longitude de seu corpo. Sentia-se capaz de distinguir a complexa estrutura das ondas sonoras que vibravam, também dentro dela. Diferençava timbres e alturas, pulsos e amplitudes, harmonia e melodia. Estremeceu assim que um fortíssimo fez reverberar todo o seu ente. Foi invadida, penetrada pelo som. Seu ventre se contraiu ao sabor da imaginação. Sentiu-se tocada pela mão forte e macia daquele homem, que fazia vibrar o corpo de madeira do piano que percutia em seu corpo. Imaginava, excitava-se, exercitava-se em silêncios.

Não sabia mais onde estava, quando ouviu as últimas notas daquela música ressonando ao longe e dentro. Ouviu uma voz que parecia sussurrar o nome de Chopin, acompanhado das palavras Estudo, dó, menor, Révolutionnaire, Noturno, mi e bemol. Aquilo parecia alguma poesia mística, cujos sentidos exatos ela não compreendia. Súbito, foi percorrida dos pés à cabeça por escalas rápidas e voragens arpejadas no seu corpo pelo corpo vibrante do instrumento. Aos poucos, uma melodia começou a se destacar, repetindo-se num registro agudo e noutro mais grave, levando-a a sobrevoar um campo muito verde montada num cavalo negro. Não entendeu a imagem. Aquele verde absoluto, com um veio d’água ao centro, sendo visto de cima. Ela, quase tocando nuvens… Aos poucos, os caminhos foram escurecendo, assim como a música, que parecia morrer lentamente, até uma nova escala descendente fazê-la estremecer. Dois acordes finais, graves, vibraram em seu peito.

Em alguns instantes de silêncio, percebeu-se ofegante. Quis abrir os olhos. Mas antes que o fizesse, uma melodia muito triste a invadiu. Ela já a tinha ouvido, mas nunca havia sentido sua imensidão. Invadida por aquele Noturno, não conteve as lágrimas. Chorou a alegria triste trazida por aquele som. Aquilo era um sentimento bom e nostálgico. Sentia saudade de coisas que sequer supunha existir. Seu ventre ainda se contraía, mas não apenas por gozo. Era também o pranto trazido pela paisagem sonora que estava dentro de si. Pela primeira vez em sua vida ela entendeu que tudo o que há vibra, desde a mais densa matéria até os raios cósmicos mais imperceptíveis. Chorava a pequenez de sua existência, diante de tanta amplidão… Era o que sinalizavam os compassos finais daquele Noturno, que ela já tinha ouvido outras vezes várias, numa escuta indistinta, abafada em meio a tanto ruído.

O silêncio após aquele noturno foi um pouco maior. Atrás do silêncio, um tênue ruído branco, grávido das possibilidades do som, escapava de todos os cantos da vida. Ouvia os próprios soluços, a própria respiração ofegante, o ranger do banco em que Demian estava sentado, passos no apartamento vizinho, o elevador em movimento… Ruídos ainda mais débeis ela conseguia perceber, como o barulho da geladeira, que vinha da cozinha, ou um murmúrio indistinto, que vinha da rua.

Domando o caos sonoro em que estava imersa, a voz quase sussurrante daquele homem mil vezes desejável suspendeu o instante, pronunciando coisas meio indistintas, sem um sentido fixo. Variação 18, rapsódia, Paganini… ou seria Rachmaninov? Juntos? Sentiu um arpejado muito suave, pianíssimo, percorrer-lhe as vértebras. De repente… sim, conhecia aquela música. Num longo hausto, compreendeu a amplitude daquilo, como que intuindo a beleza reversa de uma melodia espelhada nas entranhas daquela que agora ouvia. Provavelmente, já fora tema de filme. Sim, em algum lugar, no passado, ouvira aquela melodia. Antes, parecia-lhe o extremo de uma tristeza. Agora não. Trazia-lhe uma bem-aventurança, uma bem-avinda plenitude. Aquilo se elevava, se elevava, se elevava… indefinidamente. Quando não cabia mais em si, a música fez um diminuendo e adentrou de novo na melodia, levemente modificada. E tudo isso se conduziu a um acorde final que ficou vibrando dentro dela durante o silêncio de alguns pulsos.

A voz daquele homem que não se cansava de extasiá-la anunciou então dois prelúdios de Chopin. Um, em mi menor; outro, em ré menor. Já nos primeiros compassos, um choro incontido brotou, fazendo cair grossas lágrimas no corpo de madeira daquele piano. Chopin novamente? Como era triste, como era doído esse piano de Chopin! De repente, a melodia pareceu sufocar. Sufocá-la. Sentiu-se a chama de uma vela que é tampada por um pote. Pouco a pouco, o oxigênio vai embora e seu brilho vai apagando, apagando, até, num suspiro sufocante… morrer.

Só nos breves segundos de silêncio ela percebeu haver perdido a respiração. De repente, sentiu como que um jorro de notas percorrer-lhe o corpo. Toda umidade existida nele pareceu evidenciar-se para ela. Só ali relembrou que estava nua. Sentia um frio delicioso, como se estivesse em meio a uma tempestade de sons e sentidos. Parecia correr numa floresta tropical. Desejava Demian perdido na umidade de suas matas. Aquele Chopin era violento e terminava violento. Os graves do piano ressonavam todos em suas costas. Abriu os olhos e viu o teto ornado de pássaros e notas. Olhou, rápida e fugaz, para o pianista que, de olhos fechados, sorvia o soar daquele último acorde, repetido uma segunda vez. Fechou novamente os olhos e mudou, ligeiramente, de posição. Já não sabia precisar se o frio ou o calor fazia seu corpo arrepiar-se. Ou se era o terceiro ressoar daquele acorde que concluía, como um trovão, a fúria de uma tempestade feita de notas jorradas dos dedos daquele homem.

Aqueles três acordes ainda ecoavam dentro de si, quando ouviu as palavras Bach, fuga, cromática, ré e menor. Uma melodia simples apareceu sobre a fusão que eram seu corpo e o corpo negro, de madeira, daquele piano. Soavam quase infantis aquelas notas. Tinham gosto de pão quente com manteiga, café com leite, bolo e entardecer. Ressonavam como o cheiro dos brinquedos de meninice. Saltitantes. Sem que se esperasse, aquela melodia mudava de lugar. Como numa brincadeira de pique, alternavam-se outras melodias, polifônicas. Não era possível distinguir figura melódica de fundo harmônico. Às vezes a melodia se escondia em outros recantos do som e voltava, travessa. Carrosséis, abraços de mãe e pequenos tesouros guardados num baú pareciam voltar, evocados por aquela fantasia de Bach. Vinham e se punham em fuga, para dar lugar a outras fantasias, outras lembranças.

Ela não sabia novamente onde estava. Sorria. Aos poucos, começou a se sentir adolescente. As brincadeiras evocadas foram perdendo a inocência. Lembrou-se de desejos e amores eternos que ficaram cristalizados no tempo. Sorria ainda mais, sem sentir nem saber onde o real habitava. Aquela sonoridade vibrando em seu corpo despertava muitas memórias, vividas e imaginadas. Quando o ritmo da música prenunciou o último arpejo e os últimos acordes, recobrou a consciência de quem realmente era. Era ainda aquela menina que fora, crescida e incrivelmente só. A solidão da última nota grave, soando vários tempos, falava-lhe que o sozinho de cada ser é o fundamento de seu sentir. Seu íntimo exultava por conhecer e reconhecer-se através da música.

Ao fim da reverberação da última nota, ecoando mais dentro de si e de seu corpo-piano do que no aéreo espaço das ondas sonoras, seguiu-se um hiato preenchido com imensos silêncios. Foi um tempo suficiente para manter suspensos os cinco sentidos daquela mulher, mas exíguo para exigir-lhe qualquer coisa além da fruição do instante. Bastava-lhe sorver a matéria-prima de todo som em reverência extática, estética, estésica ao som há pouco extinto. Bastava-lhe a recordação sonora em todas as instâncias de seu corpo, das profundas lembranças à epiderme.

(Do livro “Trítonos – intervalos do delírio“, páginas 62 a 67)

Capa do livro "Trítonos - intervalos do delírio"

Capa do livro “Trítonos – intervalos do delírio”, lançado em 2015 pela Editora Patuá

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Frequento orvalhos,
essas formas úmidas
do silêncio.

Habito a pele das folhas.
Na hora mais silente da madrugada
eu me banho do escuro da noite.

Exalo aromas ressonantes,
quando fio o avesso do verbo
que cria o que sou.

Enquanto sou,
soa um silêncio essencial
chamado solidão.

Invento só,
banhado por minhas noites.
Mas a matéria espessa

dos silêncios consonantes

fundamenta auroras
e solares sentires.

quinzenario0049

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correntezas

não gosto de aquarela
ele disse :
é impossível domar
a água.

quando cheguei em casa
as paredes estavam desenhadas de giz
e eu ao centro dessa secura fértil
tentando cerzir correntezas.

lembrou da minha taquicardia e
no lugar da assinatura :
os desenhos são silenciosos.

também os finais
como afogamentos.

(Bruna Mitrano & Teofilo Tostes Daniel)

***
Poema a quatro mãos, publicado originalmente na mallarmagens revista de poesia e arte contemporânea.

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A fúria indômita das águas

Vi que a fúria da água é incontida.
Ela invade em silêncio a concretude
de paredes. Alastra-se amiúde.
Não encontra represa nem na vida.

Eu sei que a água em fúria é impelida
a seguir, sem que nunca nada mude
seu ímpeto envolvente. Na inquietude
de seu fluxo, ela quase nos convida

ao seu íntimo, num afogamento.
E não cabem recusas nesta teia
que é, de fato, ordem líquida ou tormento.

Essas vagas arrasam coisas, mágoas
e construções, que somem como areia
cedendo à fúria indômita das águas.

Claude Joseph Vernet - Un naufrage en mer agitée sur la côte

Claude Joseph Vernet – Un naufrage en mer agitée sur la côte

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(para Helena Stewat)

Porque o verso mora na repetição
obsessiva dos poetas,
nessa mania, nessa vocação
de juntar as tranqueiras da estrada,
é preciso celebrá-lo
como quem celebra a vida;
exaltar a plenitude do verso
com a lágrima luxuriante do riso.

Porque a poesia enxerga que é mais belo
no mundo aquilo que não vemos,
é preciso lançá-la nas águas
correntes de todo rio.
Quem sabe ela não é o lenitivo
daqueles enfermos da alma,
a alma daqueles sem alma,
o céu daqueles sem deus?

Porque a poética é avalanche
de estímulos, de sentires,
as sinestesias voam lépidas.
Porque a poesia tem residido
no caminho entre o som e o sentido,
a razão é apenas parte
daquilo a que usualmente
chamamos compreensão.

O silêncio sem altura das pedras
é aprendido neles: poetas-versos-poemas,
com a mesma alegria nostálgica que medra
e desperta o aventureiro que não pude ser.
No lido os não vividos se executam,
pois no lido, nos livros, pude recolher
as vidas que sempre quis viver,
as máscaras que sobre mim labutam.

Nem sempre me olham aqueles
que dialogam comigo, distantes
de mim na dimensão ou no instante
(de versos suas falas são compostas!)
Olhos helênicos me enxergam
(menino torto e sem luz)?
Não sei saber bem ao certo a resposta
que o silêncio da pedra traduz.

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(para Sândrio Cândido)

Chamo a Deus
No semblante amorfo da música.
(Hirondina Joshua – “Ignoto Deo”)

Meu sagrado
não tem nome
nem forma,
desconhece teologias
e templos.
Seu altar é erguido sobre o corpo
da dúvida.

Invoco as incertezas
para louvar o que não sei.
Meus deuses se irmanam ao mistério
do impronunciável.
São fugazes como hipóteses e colcheias.
Ressoam na beleza, na dissonância
ou num acorde imperfeito e menor.

Minha divindade
é aquilo que sou:
um cosmo parido do caos.
Ela se alimenta à insaciedade
do que sinto e penso,
e goza os espasmos efêmeros
de nossa finitude.

Gozo santo
antes do silêncio
— ou simplesmente vida —
é um dos nomes disso
que adoro.
A fecundidade de cada palavra
ejacula a existência de um deus.

Encontro a transitoriedade do divino
no sorriso ou no abandono,
no júbilo ou na lágrima.
Acendo velas
e esboço litanias
para o que se esconde
atrás da amplidão do horizonte.

Cultuo pela agnosia
essa divindade multiface,
engendrada plural e corpórea,
que faz dançar a poeira e o tempo.
Dela, só se aproximam,
por um impalpável êxtase,
os hesitantes.

Os impronunciáveis nomes do que venero
se afugentam de dogmas
e se velam
atrás de manhãs
ou de epifanias,
onde comungo meu culto incréu
com místicos e hereges.

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Neste dia 29 de janeiro, quero me juntar a vozes quotidianamente caladas que pedem ouvidos que ouçam. Vozes de pessoas que passam invisíveis por nós, sem que tenhamos olhos de vê-las. Gostaria que este texto conseguisse propagar, por transdução, esse grito contido — levando adiante a força e a emissão dessas vozes sem alterá-las.

Hoje, celebra-se o Dia da Visibilidade Trans*, data que alude ao lançamento da primeira campanha contra a transfobia no país. Aproximei-me das pautas de pessoas trangêneras ao começar a pesquisar sobre o tema, por causa de um projeto literário. Mas conhecer as questões ligadas às chamadas identidades trans* é — que bom! — um caminho sem retorno. Em primeiro lugar, por ser impossível a indiferença ao conhecermos a urgência de suas pautas e a negação sistemática (ou, melhor dizendo, “cistemática”) de quase todos os aspectos ligados à sua cidadania. Em segundo lugar, por tornar-se impossível aceitar como natureza os diversos elementos que engendram nossa identidade e nosso ser no mundo.

No propósito de me unir às vozes e às pautas trans*, esbarrei numa questão: em que poderia eu, um homem cisgênero, casado com uma mulher também cisgênera, contribuir com a questão? E, sobretudo, o que poderia eu falar da condição transgênera? Temendo cair em abismos, pensei que talvez o melhor que eu poderia fazer seria falar sobre a cisgeneridade, que é o meu lugar de fala no mundo, e sobre o meu espanto ao descobrir que existe um desconforto de pessoas cis em serem identificadas como cisgêneras.

Até há bem pouco tempo, eu não me sabia um homem cisgênero. Como a maior parte das pessoas cis, eu simplesmente ignorava esse termo. Isso equivale a dizer que, aos meus olhos, a minha identidade era experimentada como uma espécie de natureza. Isso não quer, no entanto, dizer que eu ignorasse que houvesse homens e mulheres trans*.

Para mim, reconhecer a cisgeneridade é um ato político. É compreender, em primeiro lugar, que eu ocupo um lugar específico no mundo, que tenho privilégios específicos por conta disso e que é a partir desse lugar discursivo que meu olhar se conforma. É, ainda, não aceitar como uma natureza a construção de minha identidade. E é, também, reconhecer minha liberdade para me determinar perante o mundo.

Eu sou alguém a quem todos sempre identificaram como pertencente ao gênero masculino e me identifico dessa forma. Mas, ao reconhecer que isso é uma construção, ganho ferramentas para questionar certos papéis que me são atribuídos pelo simples fato de eu ser homem cisgênero e heterossexual. Papéis esses que fazem com que alguns direitos que tenho, e que deveriam ser comuns a toda e qualquer pessoa, sejam, na verdade, privilégios.

Para mulheres ligadas às pautas feministas, esses questionamentos não são uma novidade, uma vez que o feminismo também questiona a suposta natureza feminina e os papéis de gênero designados a homens e mulheres. Essa, inclusive, não é uma discussão nova no feminismo. Logo no início de “O Segundo Sexo”, Simone de Beauvoir já aborda questão:

“Se a função de fêmea não basta para definir a mulher, se nos recusamos também a explicá-la pelo “eterno feminino” e se, no entanto, admitimos, ainda que provisoriamente, que há mulheres na terra, teremos que formular a pergunta: o que é uma mulher?”

O mesmo também me parece valer para o movimento gay. A homossexualidade já foi considerada um crime e isso se refletia na linguagem. O mundo que via a prática homossexual como delito costumava se referir a ela pelo termo pederastia. Como homossexualismo, figurou na Classificação Internacional de Doenças (CID) da Organização Mundial de Saúde, sob o número 320.0, até 1990, ou seja, até há muito pouco tempo. E o desejo por alguém do mesmo gênero não seria um comportamento esperado, pelos papéis heteronormativos destinados a homens e mulheres. Contra a naturalização da heteronormatividade se insurge o movimento gay.

É neste ponto que o meu espanto pela oposição ao termo cisgênero se dá. Existe um discurso dominante transfóbico que desconsidera a existência de homens e mulheres trans*. Essa lógica, espalhada e naturalizada pelo senso comum, considera que homens trans* seriam falsos homens, assim como mulheres trans* seriam falsas mulheres. Esse tipo de pensamento está impregnado na fala quotidiana. Mas também, de forma mais sutil, está presente no discurso médico cissexista, que designa como doente mental ou transtornada a pessoa que apresenta uma identidade transgênera — ou seja, uma identidade desconforme com o gênero que lhe foi atribuído ao nascer.

Vejo o uso do termo cisgênero, que teve início no interior da comunidade trans*, como um fenômeno linguístico que abre a possibilidade de contestação da normatividade cisgênera — ou cisnormatividade. E os diversos modos de tentar silenciar esse uso contribuem para a oposição de pessoas transgêneras a pessoas normais. Por isso, não consigo entender que pessoas cisgêneras, aparentemente inseridas em lutas a favor de grupos oprimidos, recusem o termo cisgênero como se ele fosse um absurdo, ou até uma ofensa, sem atentar para as consequências disso. Deslegitimar o termo cisgeneridade é continuar aceitando que existam as pessoas trans* e as… biológicas! Uma outra forma de dizer normais, opondo a suposta “natureza” da pessoa cisgênera a uma espécie de engodo ou artificialidade dos corpos das pessoas trans.

Quando não aceitamos a cisgeneridade, reafirmamos discursivamente que pessoas trans* são anormais, doentes. Ou ainda, lhes negamos mais uma vez o direito à existência. Aliás, existe toda uma construção social que aceita a cisgeneridade (essa coisa sobre a qual não se deve falar!) como uma norma compulsória — ou um “cistema”, como dizem as pessoas ligadas ao movimento trans*. Esse mesmo cistema que aceita como evidência natural a cisgeneridade compulsória designa as identidades trans* como uma doença. Sim, a transexualidade (designada patologicamente como transexualismo) é ainda considerada um transtorno mental e tem um número na atual Classificação Internacional de Doenças (CID-10): F64.0.

Quem argumenta que o termo cisgênero engendra um novo par opositivo (cisgênero/transgênero), construído de forma hierárquica e dicotômica, ou então que não seria possível designar a pessoa cisgênera como aquela que se adéqua às suas expectativas de gênero porque ninguém se encaixa totalmente a elas — como se o termo cisgênero significasse isso — me parece ignorar tanto onde se irrompe a noção de cisgeneridade quanto seu significado usual. Essa noção se movimenta dentro de discursos que consideram fluidas as categorias de gênero e que reconhecem a autodeterminação como um direito humano.

O termo cisgênero simplesmente designa o sujeito que se identifica como pertencente ao gênero que lhe foi designado ao nascer. Ele circuscreve a alteridade para o transgênero. Define o “Outro” e, por oposição, o próprio sujeito que fala. E, o que é mais importante, ele sinaliza que as pessoas trangêneras são sujeitos do discurso sobre si mesmas, e não objetos de análise definidos de fora de suas vivências.

Além disso, diferente do que algumas críticas costumam afirmar, a cisgeneridade não se refere a pessoas que se adequam à expectativa de seu gênero. Até porque o discurso de onde essa palavra emerge compreende o gênero como uma construção. Ele é, portanto, amplo e plural para sujeitos cisgêneros, trangêneros ou não-binários. O que frequentemente ocorre, porém, é que nós nos esquecemos de que nossa identidade nunca é fixa, que se trata sim de uma construção contínua, o que é válido tanto para pessoas cis como para trans*. Mas as pessoas que têm formas de proceder ou identidades esperadas e naturalizadas não são questionadas sobre quando se perceberam ou se tornaram aquilo que são.

Site Transfeminismo.com

Site Transfeminismo.com

Não vejo como é possível conceber e aceitar como naturais a exclusão e a invisibilidade das identidades trans*. E, para mim, o silêncio em torno da cisgeneridade está intimamente ligado a isso. Como aponta a Bia Bagagli num texto intitulado Cisgeneridade e Silêncio, “podemos entender que o silêncio funda a cisgeneridade”. “Esse silêncio”, ela aponta, “se dá ao mesmo tempo em que produz coerências e inteligibilidades às identidades dos sujeitos cisgêneros e interdições à plena identificação de gênero aos sujeitos transgêneros”.

Conhecer minimamente a transfobia generalizada em nossa sociedade me impele à luta pela quebra desse silêncio. Por essa razão, me uno hoje à blogagem coletiva pela visibilidade trans*, convocada pelo site Transfeminismo. Porque reconheço os privilégios advindos de minha posição de homem cisgênero heterossexual e sei da exclusão e da violência diariamente enfrentadas por pessoas transgêneras, julgo que não tenho o direito de lavar as minhas mãos e contribuir com a perpetuação desse silêncio…

Chamada de uma blogagem coletiva pela visibilidade trans*, feita pelo site Transfeminismo.com

Veja a chamada para uma blogagem coletiva pela visibilidade trans*, feita pelo site Transfeminismo.com


Nota: Reconheço aqui minha dívida, durante a escritura deste texto, à leitura ou à releitura de alguns escritos da Bia Pagliarini Bagagli, da Hailey Kaas e da Viviane V., no site Transferminismo.com, e da Leila Dumaresq no blog Transliteração, que abordam o tema da cisgeneridade. Muito obrigado a elas e a tantas outras pessoas que tenho lido ultimamente e que me dão a oportunidade de compreender um pouco melhor sobre as vivências trans*.

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Recorro ao silêncio
sempre que busco a palavra
exata que fale do que sinto.
Nele
cabem todas
as possibilidades do sentir,
as perplexidades da existência,
as plenitudes do prazer,
os pesares do quotidiano.

As palavras brotam
depois que a líquida sensação
evapora e, cíclica,
se precipita no meu
solo.
Assim se renova
o húmus daquilo
que me concede
estar sendo Eu.

Minha tristeza
tem um filtro de nostalgia
colorindo suas paragens.
Minha alegria
tem um tom de inteireza
temperando sua afinação.

Assim eu sinto
o sabor das coisas longínquas,
o amargor dos finais
e o olor das manhãs
me fazendo outro

e o mesmo de mim.

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Tendo por detrás um mundo arrasado, ele segue adiante. Leva em si uma síntese de toda a humanidade, capitaneada por uma brincante esperança — crer no amanhã é um jogo de todos os dias.

A loucura estúpida da guerra transmutou em pó e ruínas o concreto de seus dias. O céu absurdamente azul agride o cinza fumegante dos escombros e a rubra ideia de vermelho do sangue derramado. Ainda assim, ele ostenta um frágil sorriso. E brinca com a leveza e o equilíbrio precário de um balão rosa jogado no ar.

Sua imagem me chegou sem aviso e exigiu de mim o silêncio que há em cada palavra. Pediu ainda o vazio do espaço não preenchido dentro e entre cada letra. E foi um silente pedido com urgências. Pedido perdido de assombro, de espanto. Do espanto que produz palavras que não logram alcançar a delicada dureza da imagem sobre a qual falam.

Quem é? Está sozinho? Tem nome? Tem sonhos? Não ouso sequer dar-lhe uma história. Suponho antes da palavra. Imagino que, talvez, a dele já lhe pese um tanto, como a de todos nós, que tateamos finitudes. E prefiro ficar com o instantâneo de sua alegria lúcida e de sua lúdica ação comum a todo infante — e que bem poderia também ser comum a todos nós, homines ludens: ganhar alturas com o arremesso de uma bola.

Foto: القدس - alquds (Periódico)

Foto: القدس – alquds (Periódico)

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Aos deuses e às deusas de todas as crenças e incertezas eu invoco, para o caso de haver um ou mais que, eventualmente existindo, possam me ouvir.

Rogo-lhes que santifiquem minhas dúvidas, que multipliquem em meus olhos perguntas e questionamentos. E que a incerteza me livre de dizer como verdades perpétuas e imutáveis os seus incognoscíveis nomes, ou de tomar alguma explicação provisória como um absoluto.

Para isso, que minha fome de eternidade se aplaque com o efêmero da beleza, e não com o dogma de suas inexistências. Ou de suas presenças constantes ao redor do mundo, no fundamento mítico de toda cultura e de toda palavra.

Por amor a tudo quanto é sagrado e a tudo quanto é profano, que a frágil liberdade de ser me guie por todo onde. E que criemos tantas terras e tantos céus quantos nossa potência criadora, nossas linguagens e nossos verbos puderem fundar.

Possa eu sempre repartir liberdade e palavra como quem reparte o pão. Porque o corpóreo desejo de encontro pode criar conversas infinitas. Se hoje me engajo na conversa de tantos que já inexistem na carne, possa eu também semear uma precária eternidade pelo sopro de minhas palavras.

Que eu lute pelos meus princípios, e tenha a coragem de abandoná-los caso encontre outros que me pareçam melhores. Que eles me bastem enquanto me servirem ao íntimo. E que eu tenha a sorte de partilhá-los, nunca os infligir. Mas que minha ética jamais consinta em silenciamentos.

E peço que eu não seja submetido à tentação de achar que meus princípios devam mudar o mundo. Preservem-me desse engodo, deuses e deusas de toda descrença. Afastem-me ainda de todo dever-ser que eu possa tencionar impor a quem quer que seja.

Mas mesmo me mantendo longe do engodo de mudar o mundo, livrem-me também da indiferença e da apatia. Para que eu prossiga contando histórias buscando tocar, quiçá, alguns corações. E para que eu siga desejando, ardentemente, o impossível…

Amém!

Jean Benner (1836–1906) – Êxtase

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Seus deuses? Seus orixás? Suas figuras do sagrado? Seus templos? Não são válidos, pois você não acredita numa verdadeira religião. E se você tem fé, ela é sem fundamentos. Sem razões de ser. Afinal, onde está sua escritura sagrada?

Em uma pessoa, essa visão indica um fechamento que pode ser lamentado por uns, mas que também será louvado pelos que contrapõem uma verdadeira religião — a própria — às outras, falsas. É esperado que pessoas digam que só há um verdadeiro deus: o meu; e uma verdadeira religião: a minha. Não há nada de errado nisso. Elas podem dizer isso com respeito, ou atacando o que veem como o caráter nocivo daquilo que julgam falso, errado, canhoto ou demoníaco. E mais, pessoas eventualmente podem ter preconceitos, e não considerarem algumas manifestações de fé como religiões. É uma visão cega à pluralidade do mundo. Porém, quando manifesta individualmente, é apenas algo que se pode lamentar.

Mas, e quando é o Estado que afirma esse tipo de coisa? Um Estado que se diz laico? Que não tem religião oficial desde 1891, com a primeira Constituição Republicana? Se isso acontece — ou, pior, quando isso acontece — o que se percebe é que somos continuamente convocados a agir em favor das vozes que são, de algum modo, caladas. Somos convocados a não consentir em silenciamentos. E a lembrar ao Estado que ele deve garantir a igualdade.

Há igualdade? Uma igualdade formal, legal, escrita na letra morta das leis. Mas que está longe de existir nas práticas discursivas. Nas práticas discursivas do próprio Estado, inclusive. Por essa razão, não é possível se calar quando o Estado toma partido ou retira direitos, sob o risco de sermos cúmplices.

Um juiz de direito, ao julgar um pedido feito numa Ação Civil Pública do Ministério Público Federal que requer a retirada de vídeos do Youtube que promoveriam a intolerância e a discriminação religiosas, manifestou em nome do Estado um preconceito que nega a pluralidade do mundo. O que é inaceitável. No processo 0004747-33.2014.4.02.5101, o juiz Eugenio Rosa de Araújo, da 17ª Vara Federal do Rio, assinou uma decisão, de 28 de abril, em que afirmou que os cultos afro-brasileiros não contêm traços necessários de uma religião, que seriam um texto-base (cujos exemplos ele cita o corão e bíblia), uma estrutura hierárquica e um Deus a ser venerado.

O MPF, na ação, pede a retirada de vídeos que, ao criticarem as práticas dessas religiões, disseminariam discursos de ódio e desprezo a religiões de origem africana. E solicitava antecipação desse pedido, o que foi negado pelo juiz. Para fundamentar sua decisão, o magistrado fez um enviesado raciocínio. A ação do MPF contraporia dois direitos fundamentais: a liberdade de opinião e a liberdade de religião. No entanto, segundo a decisão, “as manifestações religiosas afro-brasileiras não se constituem em religiões”, só restando à Justiça negar o pedido do Ministério Público, para garantir a liberdade de opinião, que em momento algum estaria colidindo com a liberdade de religião, já que a opinião não era direcionada a nenhuma religião.

O fato de um agente público afirmar, em nome do Estado, que os cultos afro-brasileiros não são religiões provocou uma onda de justas críticas. Era realmente espantoso que alguém, em nome de um poder do estado brasileiro, dissesse algo assim. O repúdio à decisão não veio apenas dos adeptos das religiões desconsideradas ou de operadores do direito. Líderes religiosos diversos, dentre os quais um pastor evangélico, também criticaram com justiça a decisão.

O MPF moveu um recurso em que o procurador regional dos direitos do cidadão do Rio de Janeiro, Jaime Mitropoulos, deixa manifesta sua perplexidade pelo fato de o juiz “dizer o que é e o que não pode ser considerado religião, chegando a ponto de estabelecer, de acordo com sua compreensão, que as manifestações afro-brasileiras não são religiões”. “Como assim, Excelências!?”, questiona o procurador, e muitas outras vozes. Embora o recurso trate da retirada dos vídeos, uma boa parte dele era dedicada a mostrar como a argumentação do juiz colide com uma série de estudos e tratados internacionais que tratam da matéria.

“Equivoca-se a decisão, tendo em vista que as religiões de matrizes africanas são sim sistemas de crenças, possuem liturgias, corpos com alguma estrutura sacerdotal organizada hierarquicamente, cerimônias, altares, fiéis, ritos, templos (embora via de regra sem suntuosidade, muitos sobre o chão de terra batida, o que em hipótese alguma lhes retira o caráter sagrado) e, essencialmente, a fé em divindades que são cultuadas (adoradas e veneradas, como queira), não obstante possam destoar do padrão hegemônico das religiões majoritárias que a decisão pretende usar como paradigma para restringir o seu alcance.” Esse foi, na minha opinião, o contraponto mais tocante de todo o recurso contra o absurdo proferido pelo juiz da 17ª Vara Federal do Rio de Janeiro. Tocante porque eu já estive, para contemplação estética do rito, num centro desses, que ficava na zona rural de uma pequena cidade, e testemunhei com meus próprios olhos como um pedaço de chão de terra batida se transfigura em solo sagrado.

A repercussão do que ele escreveu na sentença foi tão negativa que o juiz voltou atrás e, no dia 20 de junho — alguns dias após o MPF mover seu recurso –, assinou uma nova decisão, em que destacava o forte apelo da mídia e da sociedade civil contra a sua decisão. No novo documento, ele registrou que sua percepção agora era de que os cultos afro-brasileiros se tratam, sim, de religiões. E, ainda que de forma rasa e superficial, ele enfim contrapôs a liberdade religiosa à liberdade de opinião. E manteve sua decisão de indeferir a liminar pedida pelo MPF, sob o argumento de que a liberdade de opinião estaria sendo regularmente exercida.

Pode-se discordar desse julgamento, como certamente discorda o autor da ação, mas dessa vez o juiz conseguiu se aproximar do tema que deveria ser discutido na ação: quando a liberdade de opinião deve sofrer alguma restrição para resguardar outras liberdades, como, no caso, a de religião? Essa é uma discussão difícil, pois as religiões podem criticar os fundamentos e as práticas umas das outras, demonstrando aos fiéis porque aquela é a religião verdadeira. Além disso, também não são incomuns os discursos contrários às religiões de um modo mais amplo.

É habitual religiões protestantes criticarem o catolicismo — e nem sempre o desrespeitando da mesma forma como um pastor da Universal fez quando chutou, num programa de televisão, uma santa católica — por adorarem imagens. Católicos criticam os protestantes por não seguirem a tradição apostólica dos primeiros cristãos, nem crerem na igreja fundada por Cristo e confiada a Pedro e seus sucessores. Católicos e protestante criticam o espiritismo por evocarem os mortos. O espiritismo diz que a besta do apocalipse é a figura do papa no período em que vigorava o dogma da infalibilidade papal (de 610 a 1870), e que o próprio número da besta estaria presente em cada soma dos algarismos romanos encontrados nos títulos que o papa ostentava nesse período: VICARIVS GENERALIS DEI IN TERRIS (Vigário Geral de Deus na Terra), VICARIVS FILII DEI (Vigário do Filho de Deus) ou DVX CLERI (Príncipe do Clero). O espiritismo também critica o candomblé, afirmando que suas práticas muitas vezes estimulam espíritos obsessores. Todo movimento comunista costuma repetir que a religião é o ópio do povo. E Richard Dawkins, uma espécie de profeta do ateísmo, afirma que crer em Deus não é apenas inútil e supérfluo, mas também prejudicial. Tais opiniões podem soar agressivas para quem crê naquilo que é criticado, mas dificilmente poderiam fundamentar decisões contra a difusão desses conteúdos.

No caso da ação do MPF, a análise do contexto é fundamental. De acordo com o mapeamento das casas de religiões de matriz africana no Rio feito pelo Núcleo Interdisciplinar de Reflexão e Memória Afrodescendente (Nirema) da PUC-Rio, e que deu origem ao livro Presença do Axé, lançado este ano, 430 das 847 casas pesquisadas desde 2008 relataram episódios de intolerância religiosa contra seus centros ou seguidores. E como não há limites para o absurdo, terreiros são fechados e seguidores de religiões afro vêm sendo expulsos de favelas do Rio por traficantes evangélicos, numa versão da realidade que faria inveja à Ionesco. Coincidentemente, entre os vídeos apontados pelo MPF na ação, existe um que me parece justificá-la, em que um pastor diz aos fiéis: “toca no irmão do teu lado e diz, você pode fechar todos os terreiros de macumba do teu bairro”. Ainda assim, não é fácil encontrar o limite entre o que são críticas a uma outra religião e o que é discurso de ódio e intolerância. Mas, talvez para fugir à dificuldade de sopesar dois direitos fundamentais colidentes, a decisão do juiz só perpetua a intolerância.

Esse tipo de apagamento do outro muito me choca, bem como qualquer prática violenta contra aqueles que existem na diferença da maioria. Assim como me choca que num estado laico, uma autoridade oficial ainda se arrogue o direito de dizer que religiões são só as monoteístas. E quanto ao resto, talvez sejam apenas bonitas mitologias. Em minha posição agnóstica, só me resta rezar aos deuses que não sei se existem por tempos melhores.

quinzenario0008

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“É assim que você gosta dos sons e sinais de uma língua: venenosos como escorpiões.”
(Ismail Kadaré – Concerto no fim do inverno)

No interior de cada palavra, não existem coisas. Há um agregado de noções e substâncias unificadas, evocadas numa nomeação. E mais a ausência da concretude, da coisa mesma e de suas particularidades singulares. Dessa forma, a língua envenena o mundo, ao construir e sedimentar uma forma abstrata de apreendê-lo, por meio de ausências. Dos silêncios por trás dos nomes.

Ouça o nome do vermelho. Por estar ligado à ideia de vermelhidão, é provável que esse conjunto de sons ou de sinais nos pareça tingido. Não há nada carmim nele, no entanto. Mas é difícil ver o neutro das palavras. Atingir o cerne dessa construção, desse artifício. Compreender o doce veneno dos signos enfeitiçando o mundo. O fetiche das línguas. Línguas que criam sempre um modo específico de apreensão do real.

Num livro de Borges, descobri a ideia de que cada palavra é uma metáfora morta. Em algum lugar, que em minha mente está mais obscuro que um labirinto borgeano, deparei-me ainda com a ideia um pouco menos inquietante de que mais ou menos três quartos de nossa linguagem são constituídos de metáforas desgastadas.

Nesse ponto, brota das pedras da linguagem cotidiana, esterilizada pela secura dos usos rotineiros e pelo esquecimento das metáforas, a louvação da poesia. Da linguagem poética, de que é capaz a literatura, e também outros saberes —  Zaratustra, aliás, é um livro de prosa poética, ou de filosofia? Ela desperta nossos olhos adormecido para as construções e potências das línguas. Ela desampara o homem de suas certezas estanques. Ela alimenta a peçonha de sons e sinais das línguas, tornando-as venenosas como escorpiões. Sedutoras como abismos…

quinzenario0006

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I – Saudade

“Saudade é um mosaico
De tudo que eu deixo de mim,
Nada mais.”
(Edu Lobo / Paulo César Pinheiro)

Esparso, disperso,
procuro-me nos chãos que pisei:
eu sou feito desse caminhar.
Meu rosto invisível
Desenha-se nos sulcos das pedras
por sobre as quais passaram meus pés.

Não chego a saber
se o que de fato me constitui
é o pó que acumulo das estradas
ou é o que deixei
de mim. Se sou história ou lembrança.
Se saudade é o que falta ou o que levo.

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II – Multidão

“Que a vida é pra se navegar
O que muda é o convés”
(Edu Lobo / Paulo César Pinheiro)

Em mim o mar é.
O meu sangue carrega o primevo
oceano, rubro como a cor
pouco antes do nome.
Eu mesmo sou barco e travessia;
borrasca, caos, cais e calmaria.

Corpo é multidão,
mesmo imerso em silêncio, e na noite.
O múltiplo me habita inclusive
quando estou sozinho.
Sei que quem canta na minha voz
e mais me sabe é o próprio universo.

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Entro no ônibus praguejando contra quem o projetou. Além de não ser acessível – todos os que servem essa linha também não são –, este possui ainda mais um obstáculo: uma barra bem no meio do último degrau, parecida com essas de fazer pole dance. Aquele requinte de inacessibilidade já era capaz de atrapalhar quem estivesse entrando com uma mochila um pouquinho maior. Com muletas, então, subir no ônibus é uma batalha.

Vou me sentar na cadeira isolada antes da roleta e não tem como, pois simplesmente não há espaço. Olho o símbolo que diz que o assento é preferencial e quase gargalho com aquela mentira. Um pouco aturdido, volto para procurar um lugar vago nas poltronas duplas, enquanto desvio dos passageiros que seguem atrás de mim, para pagar ao cobrador a passagem. Demoro alguns instantes imprecisos a me habituar ao pequeno caos e finalmente vislumbro onde vou sentar. Noto haver um lugar vago ao corredor, na poltrona mais próxima. O senhor que está sentado à janela faz menção de se levantar, para me ceder o seu lugar. Incisivo, falo que não precisa, que prefiro mesmo um lugar ao corredor, e me sento.

Nem bem me acomodo e já percebo certa ansiedade do meu companheiro de trajeto. Agradeço-lhe a intenção de me ceder o lugar na janela, mas novamente lhe explico que no corredor é melhor para minhas pernas. Logo em seguida, ele me pergunta para onde vou. Desconfiado, menciono a avenida principal perto de casa, que é grande o suficiente para manter a inexatidão.

Constatando que vou descer antes, ele explica que vai para Santo Amaro e me indaga se eu sei se aquele ônibus passa numa rua que não conheço. Revelo minha ignorância sobre o itinerário posterior ao meu. Ele busca se acalmar, dizendo-me que se não passar, ele pode descer na Avenida. E logo me revela que está indo para uma clínica que faz um tal exame de sono.

Na sequência, comenta sobre um assunto incontornável em São Paulo: o trânsito. Lamenta que o trânsito esteja caótico – e, naquele dia em especial, agravado pela chuva que caíra pouco antes. Conta que saiu de casa às 17h, pegou um ônibus, metrô e depois aquele ônibus em que estamos, e está com receio de não chegar a tempo – seu horário na clínica é às 20h30. Diz que em 1959, quando fez dezoito anos e começou a dirigir como chofer de táxi, quase não havia carros nas ruas.

Teria a opção de ir de trem, mas naquele horário seria impraticável para ele fazer várias baldeações, já com 71 anos. E para qualquer pessoa com um pouco mais de dificuldades. Lembro-me de já ter estado, pouco antes das 18h, numa das linhas que ele teria de pegar para chegar ao seu destino e, na hora de descer, foi quase uma operação de guerra. Hoje, eu também não teria condições… Mal termino o pensamento, num átimo, e atino que meu companheiro agora lamenta que hoje não exista mais uma linha direta que servia à região onde ele mora.

– Sabe aquela música que fala “moro em Jaçanã”? Então, eu pegava esse trem. Moro ainda depois de Jaçanã.

Não sei por meio de que conexão, ele dá início a uma ode ao seu tempo, quando os filhos tinham “medo e respeito” pelos pais. Lamenta que hoje os pais não possam ser firmes, não possam mais bater e educar seus filhos. Reclama então de seu neto, que não tem compromisso com nada e é muito mimado. Abstenho-me, nesse ponto, de participar da conversa, limitando-me a vagos monossílabos. Em geral, tenho grande resistência a toda louvação de um tempo em que certamente eu não estaria vivo. Só posso existir hoje. É o tempo que tenho, e é dele que devo fazer, para mim, o melhor dos tempos.

Em seguida, me relatou que deixou o táxi, tornou-se caminhoneiro e depois marinheiro para, então, voltar a ser taxista, que foi como se aposentou. Só quando diz ter sido marinheiro é que reparo numa enorme tatuagem que cobre todo seu antebraço direito.

Talvez por se deparar com sua vida em perspectiva, estanca a fala, reflexivo, como que olhando para dentro. Após um fundo suspiro, sem qualquer sinal de pompa ou encenação, exclama:

– Eu tive uma vida muito boa!

Tocado mais pelo tom de sua voz, que conferia às palavras quase banais uma verdade palpável, fiquei um tempo em silêncio. Compartindo o silêncio do meu companheiro de trajeto. Não sei precisar como e quem o quebrou, mas aproveitei o interesse despertado por sua fala anterior, para mudar o rumo da prosa. Em vez de denegrir o presente em nome de um passado repleto apenas de laivos de duvidosas idealizações, interessavam-me suas memórias.

Perguntei-lhe algo sobre como era a vida de marinheiro. Ele contou que havia conhecido metade do mundo nesse período. Esteve em diversos portos na América, na Europa e em alguns no Oriente Médio. Revelou-me que tinha medo de ir para os lados do Vietnã, por causa da guerra. Ficou quatro anos embarcando e desembarcando mercadorias em Lloyds brasileiros. Deixou a marinha mercante após se casar. A dura vida de marinheiro e, em especial, o fato de passar três a quatro meses embarcado a cada viagem foram decisivos para que tomasse essa decisão.

Viramos na grande avenida que passa perto da minha casa. Ali, me mostrou que naquela transversal funcionava a Metalúrgica Barbará, que seria, na época, do genro de Jucelino. Ele, como caminhoneiro, carregava material de construção ali, para levar a Brasília – que, embora já inaugurada, ainda era um canteiro de obras. Segundo o meu companheiro de trajeto, o dinheiro que se desviou daquela construção teria dado para construir “dez Brasílias”. Exageros à parte, não deixo de crer naquela testemunha e sua verossímil história. Infelizmente, não há como supor que a corrupção endêmica do país seja uma invenção dos dias atuais.

Nem bem nos afastamos do cruzamento com a antiga metalúrgica, ele diz, quase surpreso de si mesmo:

– Eu não tenho dinheiro nenhum, que é coisa que fica para provocar briga depois que a gente vai, mas tenho muitas histórias. Minha vida daria um livro…

Pergunto se ele não teria vontade de escrever um livro com suas memórias. Ele me diz que seus filhos insistem para que o faça. Seu tom reticente, no entanto, me revela que não, ele prefere contá-las a ter de escrevê-las.

Só então me dou conta de que já estou quase chegando no meu destino. Levanto-me para passar o bilhete e rodar a roleta. O trânsito lento me dá ainda alguns minutos de conversa. De pé, detenho-me junto ao banco em que estava sentado.

– Você já deve estar cansado de tanto me ouvir falar, não?

– Imagina! Estou é lamentando ter que descer agora e interromper a conversa – respondo.

Seu sorriso me revela que ele captou a verdade do que lhe disse. Despedimo-nos. Por algum motivo, o motorista perde a entrada de seu trajeto habitual e acaba entrando na minha rua. Desço, contente com o erro, embora novamente me veja praguejando contra o projetista daquele ônibus e seus requintes de inacessibilidade.

Enquanto ando os poucos metros entre o ponto de ônibus e minha casa, me dou conta de que não perguntei o nome de meu companheiro de trajeto. Cogito tentar alcançar o ônibus, para perguntar-lhe da janela, mas a ideia vã desvanece quando vejo o ônibus dobrar a esquina. Apesar de inominados um para o outro, levo comigo algumas de suas histórias, a parcela de sua herança que ele deixou para mim…

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Amanhã é um dia para não ser celebrado. Mas é preciso lembrá-lo e, sobretudo, é preciso enxergar seus revérberos contínuos em nossos dias. Saber que o silêncio e a impunidade continuam a gerar silêncio e impunidade, tortura institucionalizada e dor.

É imprescindível olhar para trás com o incômodo de termos permitido que criminosos anistiassem a sim próprios. Não há alívio. Sabemos que houve torturas, mortes, execuções, crimes imprescritíveis. Existem vítimas. Mas dos criminosos não se dizem os nomes. Não se pode falar quem torturou, quem matou. Torturou-se, matou-se — indeterminando os sujeitos de tais atrocidades.

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Além das verdades do senso-comum, muito pouca coisa há. Arquivos inteiros ainda permanecem sob sigilo. É sintoma desse silêncio reinante que uma comissão da verdade tenha sido instituída somente quarenta e oito anos depois do golpe. Assim como é sintoma desse silêncio, e de tanta verdade ocultada, que um dos maiores jornais do país tenha chamado, num editorial de 2009 — poucos meses após a Constituição de 1988 completar 20 anos –, a ditadura militar brasileira de “ditabranda”. Os ecos desse passado silente também estão nas ações policiais contra cada manifestação popular, desde aquela que vimos ano passado contra o aumento nas tarifas do transporte público, até aquelas que não são relatadas — e que terminam em violências maiores, embora invisíveis.

E certamente é um fruto desse silêncio a mera possibilidade, no entanto bastante concreta, de policiais militares correrem quase em fuga pelas ruas da segunda maior cidade do país — a cidade em que nasci –, arrastando o corpo (morto?) de uma pessoa. Inocente. Executada por eles? Socorro policial que induz à morte. Um caso isolado? Em que medida as polícias militares herdam suas práticas dos grupos de extermínio notórios durante o regime de exceção e das práticas de tortura usadas nos chamados porões da ditadura?

O golpe do dia 31 de março de 1964 encontrou apoio de setores da sociedade, que lhe deram sustentação. O clamor por mais ordem, a noção de que a família tradicional e o temor a Deus deveriam ser preservados, além do medo de uma suposta ameaça comunista no contexto da guerra fria foram determinantes para o êxito do golpe. Ao recordar isso, é impossível não se perguntar sobre quais são os clamores alarmistas do tempo presente. Os militares, que diziam assumir provisoriamente o governo para “garantir” a democracia e livrar o país do perigo comunista, ficaram no poder durante 8019 noites, ou 21 anos, 11 meses e 15 dias. Os detalhes dessa história, no entanto, permanecem desconhecidos. O silêncio impera. E esse silêncio que ainda perdura não é uma resposta…

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Li em algum lugar que “uma leitura que surpreende é aquela que nos faz ver o que estava posto, mas não sabíamos nomear”. Qualquer leitura, pois não lemos apenas textos. Lemos imagens, movimentos, sons, gestos. Lemos até sorrisos.

Particularmente, aprecio leituras que me desarticulam da palavra. Que me pedem silêncio para absorver o que dizem, pelo impacto sobre a sensibilidade, o intelecto, as emoções…

Gosto de leituras que me deixam a tatear imprecisões. Que trazem à boca uma palavra que ainda não tem nome. Ou umas tantas. Linhas que aquecem dúvidas, como um delírio de sol. Que expandem o que há dentro para dilatar os afetos, embora sem substância definível — afinal, onde é a sede dos sentimentos que nos acometem?

Persigo, no ato de ler, aquilo que apenas reverbera. Aquilo que se entreouve no incerto. Aquilo que escapa, a esperar o que não pode ter fim. E que saiba na boca como voo ou mergulho.

Sigo empós o desvelar das estruturas do silêncio. Sim, preciso de leituras que me encham de silêncio. Que me ensinem a ouvi-lo. Veredas lógicas que desvelem sons e sentidos. E que ressoem como a música de Pärt.

Preciso de leituras que me façam inconclusivo. Que agucem o desejo de ir. Além… Além de mim, além do homem. Procuro discursos que me provoquem. Desafiem-me. Enovelem-me, para que eu possa me entretecer em textos… Seguindo o fio de Ariadne, no percurso entre Cloto e Átropos.

Pawel Kuczynski - Book Jumping

Pawel Kuczynski – Book Jumping

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(para meu avô Fernando Daniel)

Foi assim: sem nem adeus.
E o silêncio desses dias
cheios de pequenas coisas
agora fica pesando.

Isso demonstra que o tempo
não está ao meu dispor.
Isso comprova que urgente
é só o tempo do afeto.

Espero que esse silêncio
seja logo perdoado.
Não por ele. Mas por mim.
Ele aqui já não está.

Só sei que nesta manhã
ele se foi. Circunstâncias
ainda não me chegaram.
Foi assim: sem nem adeus.


————————–
Fernando Daniel

* 17/12/1923
+ 26/07/2012

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Recebo, dos jardins de minha casa,
lições sobre os silêncios desse tempo
imperscrutável. Insondável. Íntimo.
Vasculho a intimidade dessa terra
com água, fazendo evolar seus cheiros.
Ouço os marulhos úmidos do chão.
Ouço os sussurros líquidos da terra
a brincar com raízes, e moldando-as.
A agudeza de inumeráveis folhas
represa luminâncias lá do sol.
Com elas e dejetos desse solo
perfaz toda matéria de seus corpos.

Na escuridão de cova bem profunda
a raiz retrabalha seus clarões.
No dentro, a luz se torna seiva bruta.
O silêncio voraz dessa alquimia
verdeja o mundo inteiro. Cora as flores.
Forja até a doçura do que é fruto.
E nódoa a nódoa o tronco então se faz
mais lenhoso, se passa mais o tempo
e bem mais se acumulam primaveras.
Sonhados por sementes, os percursos
dos galhos, das raízes e das folhas
delineiam as vastidões dos bosques.

E é meu. E é infinito meu jardim
forjado pelos sonhos das sementes.
Cada espécime vive os próprios ciclos
além da vida una à própria espécie.
E todo ser brotante à minha volta
leciona-me os ensinos de estações:
o cansaço, o hibernal recolhimento,
as brotações e a exuberância quente;
a seminal latência e a floração.
Vejo que mesmo as plantas sobrevivem
às violências, e também se tornam
outras, já bem diversas de si mesmas.

As lições dos jardins de minha casa
são onde tempo e espaço se conjugam,
onde espera e labor se moldam, mútuos,
na história e direção de cada galho.
Nesses jardins eu flagro o ser maduro
forjando seu caráter inda verde,
indicando seu êthos ao brotar,
ganhando e dividindo o próprio chão.
Nessa terra tão íntima e fecunda,
tão limitada e imensa, brota a flora
que flagro dar-se a mim, enquanto rego,
observo, adubo, moldo, amo e narro.

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(para Fabiana Turci)

I

Quase toco tua ausência
ao meu lado.
O lugar está vazio.
Vazia está
a sala de concertos,
vazada por uns semitons.

Não comentamos a beleza
da decoração do hall de entrada.
Não viste suas flores
nem tua pele se iluminou
por suas velas.

Quando a última nota da sinfonia
soou,
não me olhaste
nem teus lábios me sorriram.

II

Não me iludo
com esse caminho de ausências.
Essa falta,
essa impossibilidade
e esse silêncio
alimentam o desejo do encontro.

Em nossas fronteiras
não nos confundimos.
Nós nos fundimos,

nos fodemos,
fecundos.

III

Em ti, aprendo
que em nós germinam mundos inteiros,
abertos às mil possibilidades
do tornar-se.

Entorno-me
dentro de ti.

IV

Gosto de ser teu homem
sem solenidades,
rituais
ou formalidades civis
exteriores a nós mesmos.

Gosto que sejas minha mulher
bastando, para isso, o teu querer
dar-se e dar a mim
na presença de nossos deuses.

“Eu vos declaro
homem e mulher”…

V

As portas de nossa casa
estão abertas ao acaso do mundo.

Eu me caso contigo
todo novo dia.
Celebro nossos ritos,
venero nossos mitos
em derredor do amor.


(Fotos: Luiz Henrique de Nadal)

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