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Posts Tagged ‘Sagrado’

Seus deuses? Seus orixás? Suas figuras do sagrado? Seus templos? Não são válidos, pois você não acredita numa verdadeira religião. E se você tem fé, ela é sem fundamentos. Sem razões de ser. Afinal, onde está sua escritura sagrada?

Em uma pessoa, essa visão indica um fechamento que pode ser lamentado por uns, mas que também será louvado pelos que contrapõem uma verdadeira religião — a própria — às outras, falsas. É esperado que pessoas digam que só há um verdadeiro deus: o meu; e uma verdadeira religião: a minha. Não há nada de errado nisso. Elas podem dizer isso com respeito, ou atacando o que veem como o caráter nocivo daquilo que julgam falso, errado, canhoto ou demoníaco. E mais, pessoas eventualmente podem ter preconceitos, e não considerarem algumas manifestações de fé como religiões. É uma visão cega à pluralidade do mundo. Porém, quando manifesta individualmente, é apenas algo que se pode lamentar.

Mas, e quando é o Estado que afirma esse tipo de coisa? Um Estado que se diz laico? Que não tem religião oficial desde 1891, com a primeira Constituição Republicana? Se isso acontece — ou, pior, quando isso acontece — o que se percebe é que somos continuamente convocados a agir em favor das vozes que são, de algum modo, caladas. Somos convocados a não consentir em silenciamentos. E a lembrar ao Estado que ele deve garantir a igualdade.

Há igualdade? Uma igualdade formal, legal, escrita na letra morta das leis. Mas que está longe de existir nas práticas discursivas. Nas práticas discursivas do próprio Estado, inclusive. Por essa razão, não é possível se calar quando o Estado toma partido ou retira direitos, sob o risco de sermos cúmplices.

Um juiz de direito, ao julgar um pedido feito numa Ação Civil Pública do Ministério Público Federal que requer a retirada de vídeos do Youtube que promoveriam a intolerância e a discriminação religiosas, manifestou em nome do Estado um preconceito que nega a pluralidade do mundo. O que é inaceitável. No processo 0004747-33.2014.4.02.5101, o juiz Eugenio Rosa de Araújo, da 17ª Vara Federal do Rio, assinou uma decisão, de 28 de abril, em que afirmou que os cultos afro-brasileiros não contêm traços necessários de uma religião, que seriam um texto-base (cujos exemplos ele cita o corão e bíblia), uma estrutura hierárquica e um Deus a ser venerado.

O MPF, na ação, pede a retirada de vídeos que, ao criticarem as práticas dessas religiões, disseminariam discursos de ódio e desprezo a religiões de origem africana. E solicitava antecipação desse pedido, o que foi negado pelo juiz. Para fundamentar sua decisão, o magistrado fez um enviesado raciocínio. A ação do MPF contraporia dois direitos fundamentais: a liberdade de opinião e a liberdade de religião. No entanto, segundo a decisão, “as manifestações religiosas afro-brasileiras não se constituem em religiões”, só restando à Justiça negar o pedido do Ministério Público, para garantir a liberdade de opinião, que em momento algum estaria colidindo com a liberdade de religião, já que a opinião não era direcionada a nenhuma religião.

O fato de um agente público afirmar, em nome do Estado, que os cultos afro-brasileiros não são religiões provocou uma onda de justas críticas. Era realmente espantoso que alguém, em nome de um poder do estado brasileiro, dissesse algo assim. O repúdio à decisão não veio apenas dos adeptos das religiões desconsideradas ou de operadores do direito. Líderes religiosos diversos, dentre os quais um pastor evangélico, também criticaram com justiça a decisão.

O MPF moveu um recurso em que o procurador regional dos direitos do cidadão do Rio de Janeiro, Jaime Mitropoulos, deixa manifesta sua perplexidade pelo fato de o juiz “dizer o que é e o que não pode ser considerado religião, chegando a ponto de estabelecer, de acordo com sua compreensão, que as manifestações afro-brasileiras não são religiões”. “Como assim, Excelências!?”, questiona o procurador, e muitas outras vozes. Embora o recurso trate da retirada dos vídeos, uma boa parte dele era dedicada a mostrar como a argumentação do juiz colide com uma série de estudos e tratados internacionais que tratam da matéria.

“Equivoca-se a decisão, tendo em vista que as religiões de matrizes africanas são sim sistemas de crenças, possuem liturgias, corpos com alguma estrutura sacerdotal organizada hierarquicamente, cerimônias, altares, fiéis, ritos, templos (embora via de regra sem suntuosidade, muitos sobre o chão de terra batida, o que em hipótese alguma lhes retira o caráter sagrado) e, essencialmente, a fé em divindades que são cultuadas (adoradas e veneradas, como queira), não obstante possam destoar do padrão hegemônico das religiões majoritárias que a decisão pretende usar como paradigma para restringir o seu alcance.” Esse foi, na minha opinião, o contraponto mais tocante de todo o recurso contra o absurdo proferido pelo juiz da 17ª Vara Federal do Rio de Janeiro. Tocante porque eu já estive, para contemplação estética do rito, num centro desses, que ficava na zona rural de uma pequena cidade, e testemunhei com meus próprios olhos como um pedaço de chão de terra batida se transfigura em solo sagrado.

A repercussão do que ele escreveu na sentença foi tão negativa que o juiz voltou atrás e, no dia 20 de junho — alguns dias após o MPF mover seu recurso –, assinou uma nova decisão, em que destacava o forte apelo da mídia e da sociedade civil contra a sua decisão. No novo documento, ele registrou que sua percepção agora era de que os cultos afro-brasileiros se tratam, sim, de religiões. E, ainda que de forma rasa e superficial, ele enfim contrapôs a liberdade religiosa à liberdade de opinião. E manteve sua decisão de indeferir a liminar pedida pelo MPF, sob o argumento de que a liberdade de opinião estaria sendo regularmente exercida.

Pode-se discordar desse julgamento, como certamente discorda o autor da ação, mas dessa vez o juiz conseguiu se aproximar do tema que deveria ser discutido na ação: quando a liberdade de opinião deve sofrer alguma restrição para resguardar outras liberdades, como, no caso, a de religião? Essa é uma discussão difícil, pois as religiões podem criticar os fundamentos e as práticas umas das outras, demonstrando aos fiéis porque aquela é a religião verdadeira. Além disso, também não são incomuns os discursos contrários às religiões de um modo mais amplo.

É habitual religiões protestantes criticarem o catolicismo — e nem sempre o desrespeitando da mesma forma como um pastor da Universal fez quando chutou, num programa de televisão, uma santa católica — por adorarem imagens. Católicos criticam os protestantes por não seguirem a tradição apostólica dos primeiros cristãos, nem crerem na igreja fundada por Cristo e confiada a Pedro e seus sucessores. Católicos e protestante criticam o espiritismo por evocarem os mortos. O espiritismo diz que a besta do apocalipse é a figura do papa no período em que vigorava o dogma da infalibilidade papal (de 610 a 1870), e que o próprio número da besta estaria presente em cada soma dos algarismos romanos encontrados nos títulos que o papa ostentava nesse período: VICARIVS GENERALIS DEI IN TERRIS (Vigário Geral de Deus na Terra), VICARIVS FILII DEI (Vigário do Filho de Deus) ou DVX CLERI (Príncipe do Clero). O espiritismo também critica o candomblé, afirmando que suas práticas muitas vezes estimulam espíritos obsessores. Todo movimento comunista costuma repetir que a religião é o ópio do povo. E Richard Dawkins, uma espécie de profeta do ateísmo, afirma que crer em Deus não é apenas inútil e supérfluo, mas também prejudicial. Tais opiniões podem soar agressivas para quem crê naquilo que é criticado, mas dificilmente poderiam fundamentar decisões contra a difusão desses conteúdos.

No caso da ação do MPF, a análise do contexto é fundamental. De acordo com o mapeamento das casas de religiões de matriz africana no Rio feito pelo Núcleo Interdisciplinar de Reflexão e Memória Afrodescendente (Nirema) da PUC-Rio, e que deu origem ao livro Presença do Axé, lançado este ano, 430 das 847 casas pesquisadas desde 2008 relataram episódios de intolerância religiosa contra seus centros ou seguidores. E como não há limites para o absurdo, terreiros são fechados e seguidores de religiões afro vêm sendo expulsos de favelas do Rio por traficantes evangélicos, numa versão da realidade que faria inveja à Ionesco. Coincidentemente, entre os vídeos apontados pelo MPF na ação, existe um que me parece justificá-la, em que um pastor diz aos fiéis: “toca no irmão do teu lado e diz, você pode fechar todos os terreiros de macumba do teu bairro”. Ainda assim, não é fácil encontrar o limite entre o que são críticas a uma outra religião e o que é discurso de ódio e intolerância. Mas, talvez para fugir à dificuldade de sopesar dois direitos fundamentais colidentes, a decisão do juiz só perpetua a intolerância.

Esse tipo de apagamento do outro muito me choca, bem como qualquer prática violenta contra aqueles que existem na diferença da maioria. Assim como me choca que num estado laico, uma autoridade oficial ainda se arrogue o direito de dizer que religiões são só as monoteístas. E quanto ao resto, talvez sejam apenas bonitas mitologias. Em minha posição agnóstica, só me resta rezar aos deuses que não sei se existem por tempos melhores.

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Para ter a experiência primeva da chuva, talvez seja necessário esvaziá-la do nome. E apenas abandonar o corpo às águas que caem do alto do céu terrestre. Como bicho, dar-se à umidade do dia. Como infante, abrir os braços transido de encantamento e espanto.

Creio ser preciso ter passos vacilantes para viver a chuva. Não dizê-la: gritá-la. Não sabê-la: intuí-la. Não analisá-la: cantá-la em ritos pagãos. Diluir a água do próprio corpo nas águas vindas dos céus. Invocar seus pingos como se evocam deuses. Ou espíritos ancestrais. E dançar uma amplidão que se derrama em todo onde. Quiçá eu tenha aprendido isso quando fui chuva…

Não existem chuvas inocentes, no entanto. Elas são potências da natureza. São alento ou tempestade. Afetam-se pelo humano. E afetam o homem… Mas estão além de nossas forças para contê-la ou evocá-la. Carregam em si os gérmens da fecundidade e do terror. Aplacam sedes ancestrais, mas também arrasam casas. Fazem evolar a fertilidade da terra, mas também destroem plantações. Alimentam os corpos de toda vida, mas podem apodrecer raízes. E o humano intui isso antes do verbo, à maneira dos bichos.

Vivemos hoje, porém, um tempo que deseja ardentemente por chuva. Água se espalhando pelos desvãos da secura. Fecundando chãos e ideias. Alimentando raízes e horizontes. Creio que, por isso, toda chuva soe como dádiva. E todo encantamento do corpo ante o aquoso do mundo ressoe como êxtase.

Uns versos me revelam: “e quando faz sol — brilha / desejo de chuva”*. Neste momento, evoco-os como quem invoca, das nuvens, a água rara que transita pelos céus. Ou o deus dos sem deuses.

______

*Nydia Bonetti

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(para Fabiana Turci)

I

Quase toco tua ausência
ao meu lado.
O lugar está vazio.
Vazia está
a sala de concertos,
vazada por uns semitons.

Não comentamos a beleza
da decoração do hall de entrada.
Não viste suas flores
nem tua pele se iluminou
por suas velas.

Quando a última nota da sinfonia
soou,
não me olhaste
nem teus lábios me sorriram.

II

Não me iludo
com esse caminho de ausências.
Essa falta,
essa impossibilidade
e esse silêncio
alimentam o desejo do encontro.

Em nossas fronteiras
não nos confundimos.
Nós nos fundimos,

nos fodemos,
fecundos.

III

Em ti, aprendo
que em nós germinam mundos inteiros,
abertos às mil possibilidades
do tornar-se.

Entorno-me
dentro de ti.

IV

Gosto de ser teu homem
sem solenidades,
rituais
ou formalidades civis
exteriores a nós mesmos.

Gosto que sejas minha mulher
bastando, para isso, o teu querer
dar-se e dar a mim
na presença de nossos deuses.

“Eu vos declaro
homem e mulher”…

V

As portas de nossa casa
estão abertas ao acaso do mundo.

Eu me caso contigo
todo novo dia.
Celebro nossos ritos,
venero nossos mitos
em derredor do amor.


(Fotos: Luiz Henrique de Nadal)

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3 Laudate eum in sono tubæ; laudate eum in psalterio et cithara. 4 Laudate eum in tympano et choro; laudate eum in chordis et organo. 5 Laudate eum in cymbalis benesonantibus; laudate eum in cymbalis jubilationis.
(Psalmus CL, vv 3-5)

perfeito maior
acorde soando inaugura
a tonalidade
ou sua
relativa menor

modula o tom
e leva para outros
……………………………..cantos
outros cânticos

a música
é uma égua bravia
que se pode montar

melisma cromático
desliza sons

a voz do instrumento
…………………………………..de carne
…………………………………………………..madeira
…………………………………………………………………corda
……………………………………………………………………………ou metal
…………………………………………………………………………………………..arpeja
o tema
a coda
o trítono
a resolução

o resultado
em sua inapreensível fugacidade
percute um mistério

que silencia o dentro

se há um deus
ele soa
e só

_
Escrito para a Oficina Escrevivendo: Falas de Amor, ministrada por Fabiana Turci na Casa das Rosas
.

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“O que Pina Bausch conta no palco e na plateia é um teatro que liberta todas as inibições, é festa, jogo, sonho, símbolo, recordação, antecipação, cerimônia. É um conforto que se destrói doce e insidiosamente, porque o que a gente quer é que toda essa harmonia, toda essa leveza, todo esse encantamento não se acabe jamais e que a vida seja assim.”
Federico Fellini

Poderia começar esse texto contando histórias do Balé “A Sagração da Primavera”, escrito por Stravinsky sob a encomenda do empresário Serguei Daghilev, coreografada por Vaslav Nijinsky e vaiada sonoramente em sua estreia no “Théâtre des Champs Élysées”, em Paris. Aliás, não exatamente vaiada. O “Théâtre des Champs Élysées” assistiu naquele início da primavera de 1913 a um tipo de batalha campal entre detratores e defensores da obra, entre aqueles que reclamavam a quebra dos paradigmas artísticos vigentes no Século XIX e os que desejavam uma nova arte para os novos tempos trazidos pelo Século XX.

Poderia também decidir-me falar não da “Sagração da Primavera”, mas de Pina Bausch e de seu grupo Tanztheater Wuppertal. De como a coreógrafa alemã, com sua dança-teatro, tornou-se uma das artistas mais importantes do século XX. Dizer ainda de sua aparição no “Hable con ella”, de Almodovar, ou de sua participação em “E la nave va”, de Federico Fellini. Falar ainda da admiração que sua figura causava sobre tantos, citar as palavras que servem de epígrafe a este texto, do mesmo Fellini, de quem interpretou a princesa austro-húngara Lherimia. Ou então, poderia evocar outras palavras inúmeras que foram proferidas por tantas outras gentes após sua morte recente, pouco depois de o inverno deste ano ter início (não, pouco depois de o verão deste ano ter início em seu hemisfério).

Poderia ainda fornecer um contexto mais geral e falar da Temporada de Dança 2009 do Teatro Alfa. Falar que os ingressos para as apresentações do Tanztheater Wuppertal Pina Bausch se esgotaram antes mesmo de a temporada começar, com o Grupo Corpo. Contar como, na ânsia de assistir a pelo menos uma apresentação, tive o privilégio de ir vê-la duas vezes, uma das quais no dia 22 de setembro, às vésperas do início da primavera.

Poderia dizer muitas coisas externas à própria coisa em si. Mas quando, ao som de uma melopeia conhecida de cor, entoada por um instrumento de sopro que creio ser um clarinete, a luz desnuda o corpo vestido de uma bailarina deitada sobre um pano vermelho vibrante num chão de terra marrom escura, tudo o que eu poderia dizer perde a importância ante o que é. Importa a coisa em si, assim como importam os rastros de luz que vão se acendendo, trazendo luminâncias para os caminhos das outras bailarinas que chegam para compor o imenso corpo de baile que vai sagrar a chegada da primavera, cujo início dista do tempo de então poucos instantes apenas.

Afinal, o que poderia eu acrescentar ao tempo sem quando, tempo ancestral e póstero, presentificado no ritual? Que palavras minhas substituiriam os pés dos bailarinos que sulcam a terra, terreno onde se enterra a semente da estupefação? Como descrever os movimentos que alteram também a minha respiração e dilatam meu existir para o interior de uma experiência sem nome (e a que, por falta de outra melhor nominação, chamo de fruição da beleza)? De que forma poderia eu anunciar os augúrios da primavera, quando fêmeas golpeiam o próprio ventre com a força de duas plenitudes, trazendo assombro e vigorosa esperança, se as profecias cíclicas do tempo de semeadura e colheita, de enunciado e recepção, são feitas de não-palavras, são corpo e som, gesto e música?

Não é possível descrever a exatidão de sincronias e diacronias, síncopes e espasmos, equilíbrios e assimetrias. Nem é provável que eu consiga escrever uma história do tempo cíclico, das mil mortes e renascimentos de tudo quanto há, com a minha noção de tempo encerrada numa nave chamada instante, que trafega incessantemente do ontem para o porvir. Fui apenas testemunha da dança das adolescentes, da dança da terra, do rito de adoração da terra. Mas sou uma testemunha sem a linguagem própria para reproduzir as rondas da primavera, os círculos místicos do interior dos quais surgirá a eleita.

“A Sagração da Primavera” é a descrição gesto-sonora do terrível. Trata-se de um sacrifício ritual, situado antes e depois de qualquer tempo em que haja alguma humanidade. Nesta época indeterminada, que pode ser agora, durante ritos de consagração da chegada da primavera, para permitir sua vinda uma adolescente é sacrificada. A vida nasce da morte. Após o fim de todas as coisas, a bênção da fecundidade garante o recomeço. “Sonhei com um rito pagão, um dia em que sacerdotes, sentados em círculo, assistiam à dança de uma jovem até a sua morte. Tratava-se de um sacrifício ao deus da primavera”. A gênese de sua partitura, concebida como uma convulsão imensa, foi assim revelada por Stravinsky, que dizia ser a primavera o acontecimento mais maravilhoso de sua infância.

Antes, contudo, de se entregar ao ritual extremo, a eleita precisou ser glorificada. Somente os olhos que testemunharam esse rito e sua lancinante beleza, sua violenta sensualidade, são capazes de emudecer diante de sua lembrança. Por isso, não ouso descrever essa glorificação, durante a qual a eleita é vestida com o signo vermelho brilhante, sobre o qual uma bailarina havia inaugurado o rito de sagração.

Uma vez escolhida a eleita, é necessário evocar os ancestrais. A ancestralidade é a presentificação de toda a memória daquela comunidade. A ação ritual dos ancestrais é o encontro da história e da presença dos que precederam com a incerteza e o desejo de que muitas gerações se sucedam. Neste ponto, os bailarinos já se contaminaram pelo cenário, já que todo o espetáculo se oferece sobre um palco coberto de terra. A terra nos corpos e nas vestes parece lembrar o lugar que ocupam aqueles que já se foram. A eleita resiste olhar para a ancestralidade, pois sabe que em breve lhe fará companhia. Será a semente de toda terra e a garantia de seu cio.

Se alguma língua é capaz de descrever a dança do sacrifício, ela não se articula por meio de palavras. Ela é feita de música e dança. Somente ao testemunhar esses elementos é que o íntimo dimensiona a extensão terrível da beleza. Talvez uns versos de Rilke (que não foi testemunha dessa dança que sagrou a primavera que hoje se inicia em meu hemisfério e, quem sabe por isso mesmo, tenha sido exato em sua premonição) tateiem a descrição dessa dança:

Quem, se eu gritasse, ouvir-me-ia na hierarquia
dos anjos? E mesmo que um deles me apertasse,
de repente, ao seu coração: eu padeceria perante sua
existência mais forte. Pois o Belo nada mais é
do que o começo do Terrível que ainda suportamos;
e o admiramos porque, sereno, desdenha
destruir-nos. Todo anjo é terrível.

(Reiner Maria Rilke: Elegias de Duíno – fragmento da primeira elegia)

Essas são as palavras não ditas (ou mal ditas) no íntimo de quem está na plateia. Porque no centro do ritual, a jovem se entrega à destruição. Talvez ela mesma se transfigure, pouco a pouco, neste anjo terrível que desdenha destruir-nos e garante a fecundidade solar da terra e dos corpos. Não sem antes bailar toda sua dança, na qual (assim como na música) parecem estar presentes duas dimensões. Uma é a dimensão individual, que sente o temor e o horror da morte. A outra é a dimensão ancestral do rito que impõe o sacrifício. A segunda dimensão suplanta totalmente a primeira, não sem extenuar o corpo, os gestos, os movimentos e as expressões da eleita. Ela, rubra, se lança aos espasmos e às convulsões de uma dança que só será interrompida quando a dimensão incomunicável da vida ascender, como uma espécie de alma, junto à última nota aguda gritada pela flauta, e a dimensão perecível do corpo tombar na terra junto à derradeira massa sonora emitida pela orquestra. Seu corpo adubará a terra e sua alma, a ancestralidade.

Depois de ser testemunha inerte dessa crueldade, desse “belo pesadelo”, tive a sensação de que um anjo terrível me habitava. Ao contrário do que aconteceu no ensaio aberto a que assisti no domingo, ontem mal consegui aplaudir, ao fim do espetáculo. Sentia-me extenuado, como se fizesse parte do corpo de baile que agradece os meus parcos e fracos aplausos (e os sonoros e entusiasmados aplausos do público). Sentia-me possuído por minhas lembranças. Pelos ecos dos pés que sulcaram a terra. Pelos espasmos da donzela que bailou até cair morta.

Aproveitei a justificação de deixar descer a massa e me coloquei de pé, num ponto mais tranquilo, para que eu não fosse incomodado pela pressa de ir embora. Encarei o palco vazio. A terra marcada, vincada por tantos pés. Sei que muito da terra impregnou-se nos corpos dos que dançaram o ritual. Mas compreendo que muito dos corpos se impregnou naquela terra. Precisava de algum tempo em silêncio, contemplando aquele vazio tão repleto.

A primavera estava sagrada dentro de mim, nalgum desvão que desconfio ser íntimo. Se pudesse, me sentaria em alguma daquelas cadeiras então vazias e contemplaria o palco até o apagar de todas as luzes. E mesmo por trás da cortina do escuro eu o continuaria a ver, pois o que olhava naquele repleto palco vazio estava dentro de mim. Nalguma região impalpável, imarcescível, nominada memória. Compreendo que a morte de Pina Bausch guarda semelhanças com a morte da eleita. Ambas perpetuam a fecundidade do mundo. A companhia Tanztheater Wuppertal terá de aprender a frutificar sem ela, mas por meio dela e de sua incomunicável ausência. Acho que os semblantes silentes que recebiam tantos aplausos e o meu silêncio (que era também uma forma de aplaudir) sentiam, de certa forma, isso.

sacre-baush

Eu deveria ser justo e escrever com o mesmo fôlego sobre a primeira parte do programa: “Café Müller”. Uma coreografia tão forte que a reconheci, no domingo, imediatamente, sem saber de onde. Um jogo cênico que vi por alguns breves instantes num filme do Almodovar (algo que só “descobri” no dia seguinte) e que se instalou numa região, até então, inacessível da memória.

Verdade seja dita, no entanto. A força da coreografia só se revelou em plenitude na apresentação de ontem. No ensaio aberto, faltou algum vigor e a coreografia me chegou lacunar. Trata-se de uma das poucas coreografias que Pina Bausch dançava na companhia. E foi depois de ver aquela coreografia que Fellini conheceu Pina Bausch e a convidou para fazer seu filme “E la nave va”.

A apresentação, nessa semana, de “Cafe Müller” (obra para seis bailarinos) e “A Sagração da Primavera” (obra para 42 bailarinos) parece encerrar um ciclo da coreógrafa. Ou, pelo menos, encerrar um ciclo no País, junto ao público brasileiro. Foi com elas (e mais uma chamada “Pátio de encontros”) que a companhia de Pina dançou pela primeira vez, em 1980, no Brasil. O País a influenciaria em suas obras seguintes, ambas de 1982: “Valsas” e “Cravos”. Pina Bausch considerava “Valsas”, que trazia onze músicas brasileiras, um espetáculo sobre o Brasil. A outra coreografia lançada no mesmo ano, “Cravos”, trazia ainda três músicas brasileiras.

Pois bem, eu deveria escrever também sobre “Café Müller”. Mas, assim como acontece com a “Sagração da Primavera”, minhas palavras jamais substituiriam a experiência de testemunhar o próprio espetáculo. Ainda mais num caso em que se corporificam os abismos da incomunicabilidade. A perturbação provocada pelas recorrências e a assombrosa beleza de certas imagens só se registram na retina… e nos ouvidos. Não nas palavras. E como já as usei em demasia, neste ponto eu me calo.

cafemiler-pina

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Sobre fé

Alhures escreveu Rousseau — e já tomei nota de suas palavras — compreender “porque os que moram em cidades, e só vêem paredes, ruas e crimes, têm pouca fé (ROUSSEAU, J. J. As Confissões. Livro XII, p. 582). Tais palavras muito me impressionaram e julgo cada vez mais ter a nítida percepção do seu sentido.

A fé evaporara no seio de uma grande metrópole, entre paredes, asfalto e concreto. A fé esmoreceu ao sentir a frieza das pessoas, a distância mantida fechada atrás das portas dos apartamentos; ao ver o céu entrecortado de janelas dos edifícios e pouco da amplidão azul para ser admirada.

Não tenho certeza se o concreto dos edifícios, a artificialidade da orla aterrada, tão simétrica, tão geométrica, tão distante de suas naturais sinuosidades, são responsáveis por essa descrença adquirida no livro das imanências, essa desconfiança, essa incerteza até em relação às coisas que podem ser vistas e tocadas, que são sólidas, mas se desmancham no ar das desilusões. Não sei se, quando o olhar está imerso somente no universo humano, na materialidade dos problemas estruturais, das descrições físicas, biológicas, sociológicas das massas (de matéria, de células e das gentes), o olho perde a capacidade de perguntar às coisas sobre o Criador, “consisitindo a pergunta em contemplá-las e a resposta em sua beleza” (AGOSTINHO, St. Confissões. Livro X Cap. 6). Isso porque contemplar a cidade não é contemplar só a genialidade do gênero humano, mas também a utilitária forma das coisas, onde nem sempre assiste a beleza, posto não haver beleza utilitária, uma vez que a beleza se dá gratuitamente à contemplação dos sentidos dispostos a contemplá-la.

Não sei se o fato de meus pés já há muito desconhecerem a textura de um chão de — terra ou areia –, só experimentarem a lisa indiferenciação de pavimentos e não poderem se sentir raízes para penetrarem e se irmanarem à terra contribui para a descrença. Quem não tem raízes pode também não ter certezas.

Onde minhas certezas telúricas?

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