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Posts Tagged ‘Roland Barthes’

Quando nos lançamos num caminho de leitura, não me parecem valer muito cartografias, mapas e guias de viagem. A experiência de perder-se entre linhas toca o incomunicável. Toda preparação prévia, bem como toda elaboração posterior diante do lido, consegue adicionar novas camadas à experiência. Mas é no encantamento que se tem quando se percorre os caminhos de uma obra que reside o mistério. E cada autor guarda consigo os segredos que adicionam sabores e temperam um texto. Talvez seja o desejo de se aproximar desse encantamento que levou Barthes ao conceito de textoleitura, que diz respeito a uma forma específica de se entregar ao ato de ler. Em lugar de se debruçar na busca das verdades inerentes ao texto e às suas intenções, Barthes propõe “ler levantando a cabeça” para sistematizar as digressões e os momentos em que se interrompeu a leitura para interrogá-la.

Sem vista para o mar“, de Carol Rodrigues – que tem o belo subtítulo “contos de fuga” –, pede isso o tempo todo ao leitor: que ele levante a cabeça e, num assombro, interrogue a obra. É assim desde a primeira frase, quando nos deparamos com a síntese do personagem principal da primeira história: “Ele não existe e de repente ele existe.” Quando enfim é possível sair dessa frase-armadilha, somos informados de que “Faz cinco dias foi jurado.” E acompanhamos um adolescente de uniforme escolar, que segue o mais longe que seu pouco dinheiro e o mapa que tem conseguem lhe levar. O personagem acaba fazendo o caminho da leitura, indo para “Onde acaba o mapa”. Quando termino esse conto o livro me espera, mas estanco após sua leitura. Preciso relê-lo. Não para que o entenda – tudo nele é de uma simplicidade precisa, o roteiro, as estradas e lugarejos, o uniforme de escola pública que o garoto usa, o desfecho, as revelações e os sonhos. E tudo nele é imenso e nos convida à imensidão. Sentimos o mundo reverberando essa história. “Saindo de casa era grande, grande o mapa, sem bordas, só curvas que davam noutras curvas noutros beiços noutros braços”.

Sigo adiante, depois da releitura, pegando carona em histórias e estradas diversas, repletas de delicadezas e brutalidades, sujeiras e sonhos. Alguns contos depois, estanco novamente. No conto que dá título ao livro, acompanho a primeira história que não passa por estradas. Cheia de uma ternura infantil, mas também de uma dureza que atordoa como um ofuscamento, ela nos narra a história de um menininho apaixonado pelo pôr-do-sol. Depois dela, voltamos para a estrada.

Porque é justamente nas estradas que grande parte das histórias de “Sem vista para o mar” acontece. Por elas, passam caminhoneiros, travestis, ladrões de carga, noivas fugidas, criminosos, viciados, aposentados. A partir delas, nos deparamos com ansiedades adolescentes, crueldades, dores, medos, alegrias, sonhos, prazeres, amores, angústias, desesperos, desejos, além de sensações inominadas. E cada história, cada narrativa compõe uma sequência que se encadeira – pensava eu que em redor de estradas e mapas – até que o último conto parece abrir o livro, fazendo os caminhos que se bifurcam cruzarem-se novamente. Como se eu estivesse assistindo a uma sequência de road movies que, no fim, se revelasse uma única e grande viagem.

Ainda que o livro tenha me alertado de que eu estava adentrando no terreno “onde acaba o mapa”, eu segui em busca de indícios que me confirmassem o que eu já sabia sobre o livro. Sabia que “Sem vista para o mar” conquistou, na categoria contos, a 57ª Edição do Prêmio Jabuti e o Prêmio Literário da Biblioteca Nacional. A própria orelha me adiantava informações. Nela, Ivana Arruda Leite sinaliza que os contos “se encadeiam como elos de uma corrente que se fecha no final, circunscrevendo o mundo particularíssimo de Carol Rodrigues”.

Mas o livro é soberano: não existe mapa para a leitura. Tanto que, mesmo sendo alertado sobre o mecanismo do livro, ainda me espanto com o que ocorre em seu ponto (ou conto) de fuga. “Questões ultramarinas” opera uma inversão no ponto de vista, na perspectiva narrativa, trazendo o foco para um personagem que era secundário em contos anteriores. Só ali, me dei conta da recorrência daquele personagem em outras histórias. Fui procurar refazer esse percurso, para constatar o que já me havia sido dado e eu não vi. Senti-me quase que voluntariamente enganado por uma ilusionista que, na minha frente, some com uma moeda e a retira por trás de minha orelha. Onde estava a moeda? Em mim, mas não a senti, a não ser quando ela se evidencia novamente.

“Carol Rodrigues é um assombro” – nos alerta a primeira frase da orelha do livro. Mas ela não vale como alerta, e terminamos o “Sem vista para o mar” cheios de assombro e espanto, por termos vivido uma experiência de leitura avassaladora e repleta de epifanias. Ainda assim, tateio esse texto para organizar minhas impressões, mas tenho certeza de que ele vale pouco em confronto com a experiência de passar pelo livro. Por isso, se posso dizer algo a partir daqui, é: façam essa viagem!

quinzenario0048-semvistaparaomarSem vista para o mar
(contos de fuga)
Carol Rodrigues
V. de Moura Mendonça Livros | Selo Edith – 2014
124 páginas
978-85-66423-19-8
Mais informações: clique aqui.

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O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço.
(Os três mal-amados – João Cabral de Melo Neto)

Era uma mulher desejável antes mesmo de ser uma mulher. Quando ainda estava em vias de, mal saída da infância, já apetecia aos homens. Ariana poderia preencher o lugar da mulher da vida de qualquer um. Era bela, inteligente, vinha de uma família rica. Tinha muitos predicados.

Sempre namorou somente os mais desejáveis. Todos os namorados foram aprovados primeiro pelas amigas, depois pelos pais e familiares. Quando era a vez de ela prová-los, no entanto, o amor se esvaía. Teve os rapazes mais desejáveis de seu colégio e de seu círculo social. Todos belos, lindos, civilizados. Príncipes ou futuros gentlemen, herdeiros ou donos precoces de fortunas, que cheiravam a brilho e a cobre. Todos, modelos de beleza e sucesso. Não que o sucesso fosse lá muito importante, como havia sido para sua mãe, uma mulher de classe média que se casou com o empresário Aristarco do Albuquerque Prado. A mãe de Ariana mentiria se dissesse que a construtora, as fazendas de gado e soja, e os milhões em bancos no país e no exterior não conferiam um charme especial ao pai de sua única filha.

Ariana era filha de um amor de conveniência, mas não havia nascido para desejar o desejável. Havia um fôlego de égua selvagem em si – ainda ignorado – que não a permitiria jamais se contentar com o que todos aprovavam, com o que todos estabeleciam como os contornos precisos e saudáveis do querer. Seus quereres tinham um visgo insólito de insanidade que ainda se havia de descobrir.

Não conseguia ainda formular desse jeito, mas tinha em si uma certeza muda de que só poderia amar um homem que ela também fosse capaz de odiar. Essa certeza a habitava silente, inconfessável dentro de si mesma. E o primeiro passo para esse caminho, que fatalmente a conduziria a se tornar aquilo que era, passava pela solidão.

Quando se viu sozinha na faculdade, sem a influência das amigas, que sempre eram as vozes primeiras das escolhas que ela fazia, pareceu parar de desejar. Passou mais de um ano longe de flertes. E que alívio sentiu ao deixar de entregar seu corpo ao que não lhe despertava nenhum apetite. A solitude lhe deu a oportunidade de assenhorar-se de si e de seu corpo, que parecia, então, jamais ter sido verdadeiramente seu. Com o silêncio, passou a ouvir as urgências da própria carne, da própria pele. A voz material do corpo e dos instintos, sufocada desde cedo nas gentes.

Embora quisesse fazer belas-artes, deu início ao curso de arquitetura. Seu pai jamais lhe havia falado nada a esse respeito, mas não imaginava que ele quisesse uma filha artista. Mas com um ímpeto que era ainda tão desconhecido e lhe parecia estrangeiro, saltava as cercas da própria grade curricular para cursar, com frequência, disciplinas do curso de artes como matérias optativas.

Supunha que estava à beira de se tornar um ser assexuado, quando se inscreveu para fazer aulas com modelos vivos. Durante quase meio semestre, desenhou com esmero belos corpos desejáveis de homens e mulheres que não lhe apeteciam em absoluto. Olhava sem pudor e desenhava com paixão.

Num dia que tinha tudo para ser igual aos outros, entrou na sala em que fazia as aulas de desenho. Mas aquele dia não foi igual. Entre os modelos, já nus e dispostos nas mais diversas posições, estava: ele. Ariana o viu. Tudo ao redor desaparecera. Só restavam aquele homem e um dilúvio inaudito entre as pernas.

Passou duas horas e meia desenhando, com fúria, o próprio desejo incontido. Terminada a aula, fora falar com o estranho de traços indígenas e uma cicatriz no ventre.

– Oi.

– Olá – respondeu, com acentuado sotaque castelhano.

O estranho lhe ofereceu com um sorriso, incentivando que ela continuasse. Era o homem mais belo que já tinha visto na vida. Em seu rosto, se destacavam os fortes traços indígenas. Não parecia qualquer um dos meninos desejáveis com quem já havia ficado. Naquele instante, Ariana procurava palavra e refúgio.

– É que eu queria saber quanto você cobra. Eu não acabei de te desenhar.

Mostrou o desenho para o desconhecido. Um esboço rico em detalhes, ainda sem braços ou pernas. A cicatriz de facada no ventre e o sexo, no entanto, já estavam prontos.

– Eu não sei ainda quanto vou ganhar. Acho que vão me pagar setenta ou oitenta mangos. Foi um amigo que me arranjou esse trabalho. É a primeira vez que faço.

– E você tem tempo? Pago o triplo, se for preciso.

– Tenho todo tempo do mundo.

– Quando?

– Quando quiser.

– Agora?

– Pode ser.

– Então vamos. Eu te levo para meu estúdio – disse, puxando o desconhecido pela mão.

– Só preciso de dois minutos para me vestir. E de meia hora para eu receber o que vão me pagar.

– É verdade, você ainda nem se vestiu. Se sair assim na rua, pode acabar preso – disse tateando um gracejo. – Eu te espero na entrada da faculdade.

– Juan Luna – disse, estendendo a mão.

– Prazer! Ariana – disse-lhe dando dois beijos no rosto enquanto sentia o sexo de Juan roçar-lhe, leve, a coxa direita.

– Encantado!

Por mais óbvio que seja, não custa dizer que Ariana não desenhou nada naquela tarde. Levou Juan para seu pseudoescritório de arquitetura prematuramente montado pelo pai, numa ampla sala comercial perto de sua casa, nominado sacra e secretamente seu estúdio. Ela jamais se dera a ninguém da forma como o fez àquele desconhecido. E jamais gozou tanto na vida. Menos pelos méritos de Juan como amante, embora tivesse qualidades lúbricas, e mais por conta daquilo que descobrira ser capaz de forjar, engendrar, arquitetar nas próprias carnes desejantes.

Naquela mesma tarde, Ariana quis saber o que havia causado a cicatriz que Juan ostentava no ventre.

– Quase morri. Desde então, nunca mais subestimei uma fêmea – disse, ao iniciar o vago relato.

Sem dar muitos detalhes, Juan contou que levou uma facada de uma mulher em fúria, ao ser abandonada. Ele jamais havia suposto, antes, que uma mulher seria capaz de machucá-lo daquela forma.

Juan Luna também contou que descendia de uma nobre estirpe de guerreiros incas. Nascido em Cuzco, considerava-se filho, embora bastardo, do grande império chamado Tawantinsuyu.

– Eu nasci exatamente no umbigo do mundo – explicou, destilando depois palavras em sua estranha e sonora língua ancestral.

Entre os seus ascendentes, também havia, segundo contou, um africano e um espanhol. O africano foi levado à região do Caribe, mas fugiu, subindo a cordilheira, e se casou com a filha de um líder espiritual inca. Havia sido retirado da mesma região onde a mitologia afirma ser a pátria de Mêmnon, herói que era sobrinho de Príamo e filho da Aurora. Quanto ao espanhol, tratava-se de um conquistador que procurava prata na região e estuprou a filha de um guerreiro. Foi capturado e colocado, vivo, para assar. Sua carne foi comida pelos familiares da moça violada e seus ossos, abandonados na selva.

A mãe de Juan descendia dessa violência. Sem conseguir estancá-la, sofreu sem remissão nas mãos do marido violento e autoritário.

– A sorte de meu pai foi ter morrido antes de eu ter idade suficiente para matá-lo – disse, com uma ponta de ódio cortante no céu da boca.

Ariana se encantou com as palavras de Juan em defesa de sua mãe, sem se dar conta do quanto elas eram um eco da mesma violência. Ao fim daquela tarde, ela já sabia ao menos uma dezena de coisas sobre Juan. Mas parecia que quanto mais aquele homem se revelava, mais estranho ficava. Estranheza que culminou quando ele, antes de ir, resolveu cobrar o preço combinado para posar para ela, como se ela o tivesse ficado desenhando apenas.

A cobrança que ele fez havia deixado nela uma sensação incômoda. Tinha ido para casa com a razão extraviada pelo desejo. Sentia como se tivesse comprado o corpo daquele homem – ideia que lhe causava um misto de excitação e vergonha.

No segundo encontro, mais estranheza se acrescentou aos contornos de Juan. Descobriu que ele não era michê, tampouco modelo vivo. Aquela atividade de fachada era só um bom motivo para poder circular entre os estudantes sem levantar suspeitas. Não conseguiu descobrir, no entanto, por que no primeiro encontro ele havia cobrado o preço combinado para posar para ela.

O negócio do peruano era vender drogas no campus da universidade. E o sucesso do empreendimento era garantido, pois não lhe faltava mercado consumidor e a repressão era nenhuma. Aliás, nenhuma ali dentro, já que para chegar com a droga naquele lugar era preciso ter perícia. Entretanto, a partir dali, Ariana se tornara uma espécie de passaporte de Juan para onde ele quisesse ir.

Pouco a pouco, ela foi sendo enredada nos negócios de seu homem. Transportava drogas de todo tipo em seu carro, estocava entorpecentes e armas em seu estúdio. Chegou a viajar com ele para a Bolívia, durante as férias, trazendo drogas e subornando policiais rodoviários no caminho de volta. Quanto mais e mais intensamente amava aquele homem, mais sua relação com esse mundo marginal se estreitava.

O período imediatamente posterior à viagem para a Bolívia foi aquele em que Juan mais faturou. Revendia a droga que haviam trazido, o que elevava às alturas seus lucros. Alguns meses depois, no entanto, começou o período da crise. Nos negócios, não na relação. Em pleno milagre econômico, apreensões de drogas em todo o país fizeram faltar material no mercado. O que se conseguia era de má qualidade e rendia pouco. Além disso, a venda na universidade não estava fácil como antes, com milicos agora ostensivamente o tempo inteiro lá dentro.

– Em ocasiões como essas, é preciso diversificar – sentenciou Juan.

Tal diversificação consistia em agir onde havia brechas. Tinha bons contatos e uma mulher que não levantava suspeitas. Diante do quadro, o sequestro era a opção mais fácil e segura. O casal não atuaria no grupo de frente, que se arrisca para raptar a vítima. Simplesmente tomaria conta dos sequestrados. Com isso, aquela menina rica, nascida e criada numa mansão nos Jardins, passou a habitar barracos e cortiços de diversas periferias. Chegou a dormir em chão de terra batida, em cima de jornais velhos. E realizava fantasias em matagais, represas ou mesmo em chãos diversos. À família, disse simplesmente que passaria a morar em seu escritório, mas raramente era encontrada por lá.

– Essa juventude… – lamentava sua mãe, sem supor qualquer nada.

Até que um dia a polícia estourou o cativeiro de um sequestrado que ela e seu homem vigiavam. Algemada, no camburão, imaginava a proporção nacional do escândalo. “Princesa bandida” ou “patricinha pistoleira” poderiam ser dois epítetos seus a partir dali. Especialistas de toda sorte emitiriam juízos vazios, tentando explicar o incompreensível: como ela, a filha de Aristarco do Albuquerque Prado, pôde ter se envolvido com um bandido daquela laia.

Talvez estivesse chegando perto do momento em que começaria a odiar Juan Luna. Mas nada disso lhe importava agora. Carregava e alimentava em si um filho. Filho bastardo de Tawantinsuyu. E contra tudo – medidas, projetos, possibilidades, evidências, conveniências, conivências, projeções e estatísticas – ela amou. Amou. Amou desbragadamente. E quem ama não sabe calcular.

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Escrito para a Oficina Escrevivendo: Falas de Amor, ministrada por Fabiana Turci na Casa das Rosas
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