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Posts Tagged ‘Roberta Tostes Daniel’

Há muitas coisas que cabem nos laços de irmandade. Irmãos geralmente partilham as primeiras memórias que os conformam como seres no mundo. Dividem histórias colhidas nos caminhos e veredas por que passaram. Repartem brincadeiras, segredos e amigos. Compartem ainda gostos, descobertas e alumbramentos.

Entre mim e minha irmã, há ainda uma partilha fundante de nossa experiência no mundo: o rito da escrita. Descobrimos juntos, embora por caminhos paralelos, esse sacro ofício de cultuar palavras. Éramos crianças, quando ela inventou sua primeira cerimônia de sagração da linguagem, num caderno dedicado à escrita de histórias – geralmente um pouco trágicas. Uma poeta que teve sua infância na prosa, redescobriu-se “um animal, no ermo / da linguagem” com a prosa poética e, por fim, assenhorou-se dos versos. Apropriei-me também desse rito brincante e, com onze ou doze anos, inventei-me poeta – somente muitos anos depois é que fui invocar as energias e os fluxos da prosa.

Durante toda essa trajetória, partilhar os ritos da escrita formou esse laço que participa dos fundamentos de nossa experiência de irmandade. Sempre fomos leitores um do outro. Muitas vezes, isso suplantava silêncios impostos pelo hábito – sobretudo meu, que sempre fui um animal silencioso e sempre usei a escrita também como um escudo, onde tentava realizar a impossível tarefa de esconder fragilidades. Não pude deixar de pensar no silêncio – e na escrita esgarçando sons e, por vezes, dissonâncias nas entranhas dele – ao ler os versos “Foi preciso muita palavra / até arrancar deste silêncio / um lugar seguro.”

A leitura é sempre uma experiência pessoal. Aqui neste livro, em especial, é muito frequente eu cometer o “pecado” de inserir na literatura o biográfico. Em diversos momentos, me lembro que uma parte central daquilo que nos tornamos teve início naquela longínqua atividade em que cada um de nós consagrou um caderno somente para a escrita. Vivíamos uma segunda mudança de cidade e, naquele momento em que o movimento parecia mais definitivo – dentro do provisório de todas as coisas –, tomávamos contato com a poesia de nosso pai, junto dos livros da minha mãe que haviam chegado do Rio de Janeiro – e longe dos quais estivemos por mais de um ano. Nosso pai já era uma ausência há alguns anos e, naquele contato com poucos de seus escritos, pudemos buscar uma espécie de diálogo literário para preencher o vazio de sua presença. Sei que essa é uma experiência marcante tanto para minha irmã quanto para mim. São essas histórias, que fundam nossa memória, que são evocadas por um poema como Art is a guaranty of sanity:

A aranha se nivela ao espaço urbano
o rosa é alimentado pelas cavidades orais
dois pedaços de madeira se abraçam
duas pessoas se amam e não se veem.

No refratário masculino ou museu
da imensa colcha de retalhos, almejo
Louise Bourgeois entre pernas mutiladas.

De peles que habitam almodôvares
de casas sobre eus femininos
de lampejos da gritaria

do passado, da máquina do tempo.
Na mania de cheirar o teto
de fotografar as árvores, de olhar o pai morto.

Amantes se deitam ao frio chão da sala
do ano de 2006 onde guarneço devires e cachorros.

Dez anos se passam: o céu se abre aos minaretes
o olhar de um muezim vale o templo
onde a arte é uma garantia de sanidade.

Após mais de vinte e cinco anos de leituras recíprocas, partilhadas desde o fim da infância, acompanho a publicação de Uma casa perto de um vulcão. Para o leitor e o irmão que sou, é um acontecimento muito especial. Se o irmão por vezes acaba lendo por trás de muitos versos os traços biográficos de memórias partilhadas, o leitor vai além, por não identificar na literatura uma escrita confessional. Ainda mais porque aqui encontro a força de um fenômeno da natureza, um derramamento poético diante do qual não é possível estar incólume. Com isso, adentramos noutras camadas vulcânicas da palavra, sendo especialmente tocado pelo trabalho com a linguagem dessa poeta que diz: “mastigo o ermo das palavras / quando não quero dizê-las / estendo os braços, frágeis de sentido / por algo como a luz – ou a fome.”

As lavas de um vulcão, quando emergem de dentro das entranhas da Terra, expõem as infâncias do mundo. O magma é uma espécie de memória, que dá a ver que as paisagens por aqui já foram formadas por ebuliente rocha líquida. Essa memória hoje irrompe, em geral, nas margens de placas tectônicas e quase sempre vem precedida por abalos sísmicos. Por isso, não nos enganemos: a profundeza dos chãos não guarda silêncios.

Pelo trabalho incansável nos meandros da linguagem, é possível exumar os diversos elementos que culminam na constituição da voz. São as lavas arrefecidas que se transformam em terras férteis e abrigam raízes em si. A poesia magmática ganha contornos de uma evocação de diversas formas de ancestralidade. Esse olhar poético voltado às origens (do cosmo, da casa/planeta que habitamos, das coisas, da vida, das estruturas que nos cercam, das referências, da linguagem e de si mesma) já se revela desde o primeiro poema do livro, chamado Infância, que anuncia: “Tenho a idade da Terra”.

Todos esses elementos ancestrais constituem a individualidade da voz em sua enunciação poética. E o tempo dessa condensação de elementos é o presente, ao qual esse livro também volta seu olhar. É possível vislumbrar os olhos frequentemente perplexos ante os absurdos que estruturam as relações de poder em que estamos inseridos. Nesse movimento, os versos se embatem tanto com as estruturas políticas dominantes quanto com a microfísica do poder, dando a ver dissimetrias. E se colocando, politicamente, ao lado daqueles que desejam e lutam e clamam e precisam de mudanças. Vapores é um exemplo expressivo desse movimento, trazendo versos como:

Caminho até a Praça XV
onde a seda vermelha
se enrola à estátua
equestre do general
Osório. Fagulhas
e fumaça alucinógena
fundida com os bronzes
dos canhões roubados
no Paraguai
incensam as acrobacias
das garotas
na manifestação.

Consciente de sua ancestralidade e desejosa de mudanças, a voz poética é permanentemente confrontada com as potências e os limites da linguagem. E, dessa forma, Uma casa perto de um vulcão faz uma incursão pelo pensamento meditativo. Talvez respondendo à constatação de que “Ninguém te ensina / a devassar / o cômodo / do que és”, a poesia adentra no terreno fecundo da reflexão filosófica. Ao lado de um fenômeno como um vulcão, é impossível que o pensamento não seja conclamado para dar conta, não de entender, mas talvez de erigir o mundo. “O mundo é menos / que acaso. Filos, ethos, ente / fatos.”

Esses três movimentos não são estanques. Talvez cada um deles predomine em determinado ponto da obra, mas todos podem ser percebidos constantemente, se fazendo presentes ao mesmo tempo em muitos poemas. E assim o livro se assemelha a um vulcão. O passado do mundo vem à tona na erupção de tudo o que se guarda nas funduras da terra. Esse passado/lava encontra de forma imediata e avassaladora com o presente em torno, a casa perto do vulcão, promovendo o embate e, por vezes até, a destruição das estruturas e a necessidade de novos fundamentos. E, por fim, no tempo mais lento da reflexão e do pensamento, a poesia sedimenta a experiência de perplexidade diante de tudo o que há, como as rochas que, quando resfriadas, deram conformação de eternidade aos últimos momentos de Pompeia e Herculano, após a erupção do Vesúvio.

Nesse sentido, a linguagem do livro recria a própria experiência vulcânica que enuncia. A palavra em ebulição escapa para a superfície da folha e se molda aos contornos da voz – com tudo aquilo que lhe dá um timbre único. Desse vulcão, repleto da densidade de camadas poéticas, irrompe um jorro sempre em busca de fissuras sobre o sólido para emergir, quente e denso, e assim lançar outras novas camadas sobre o mundo. “O futuro / é logo ali” e, para dar conta do vir a ser, é necessário imaginação – essa memória alucinada como um poema. “Um poema sempre um poema / à deriva / da próxima página.”

(O livro está à venda no site da Editora Patuá. Clique aqui.)

Uma casa perto de um vulcão – Roberta Tostes Daniel

 

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Há livros que temos o privilégio de ler antes que ele se torne a obra que será. Lemos antecipadamente esses livros porque recebemos o presente de falarmos a futuros leitores do nosso testemunho de leitura. Neste ano, dois livros me chegaram como um presente, para que eu desse esse testemunho de leitura antecipada, e comungasse da espera de suas autoras para que aquelas páginas ganhem a concretude de papel e tinta: “Vísceras”, da Clara Baccarin, que deverá sair no ano que vem, e “Azul caixão”, da Julia Bicalho Mendes, que deve estar chegando logo por aí.

Faço essa digressão para dizer que ano passado, acompanhei o nascimento de um livro que espero há muitos anos, desde que ele habitava as planícies do sem nome, onde são depositados os projetos futuros. Posso dizer que espero pelo primeiro livro da Beta Tostes, minhas irmã, pelo menos desde 2000 ou 2001, quando a escrita tornou-se uma de suas marcas. Já planejamos, eu e a Fabi Turci, lançarmos esse livro-hipótese-desejo pela breve editora que tivemos nos idos de 2012 (a Vagamundo), finada com após um belo livro lançado.

Foi no ano passado que esse livro ganhou corpo de obra. Em pouco mais de um mês, a Beta cerziu das várias centenas de obras de seu (excelente!) blog, o Sede em Frente ao Mar (https://sedemfrenteaomar.com/), junto a poemas inéditos, o corpo poético de seu primeiro livro. Um livro que se escrevia há pelo menos quinze anos, habitou vários projetos possíveis, e amadureceu sob as intempéries dos tempos presentes. Um livro fundante e fundamental, poético e político. Essa erupção vulcânica nasceu. E do lugar de leitor e irmão, além de acompanhar e participar da estruturação do livro, que ganhou o nome lindo de “Uma casa perto do vulcão“, escrevi-lhe o prefácio (cujos primeiros parágrafos deixo abaixo, apenas para dizer um pouco mais do que virá).

Ontem, a Beta estava no ônibus, vindo para nossa casa aqui São Paulo, quando recebeu a capa do livro, para aprovar ou sugerir mudanças. Mas diante de uma erupção vulcânica, não há o que fazer, senão contemplar-lhe — se estamos protegidos — a beleza e a potência, o imenso terror de entranhas da terra (semelhante ao terror despertado pela beleza que, segundo Rilke, seria “o começo do Terrível que ainda suportamos”). A capa que chegou era uma leitura generosa e precisa dessa poesia imensa e imersa em delicadezas vulcânicas. Não havia o que refazer. Havia muito pelo que sorrir e comemorar.

Não imaginávamos que era apenas o início de um período de preciosas surpresas. Uma vez aprovada a capa, vista e aprovada ontem, o livro já está em pré-venda lá no site da Editora Patuá. Aguarda leitores — muitos! — que há anos — e muitos — andam ávidos por essa ebulição poética.


Há muitas coisas que cabem nos laços de irmandade. Irmãos geralmente partilham as primeiras memórias que os conformam como seres no mundo. Dividem histórias colhidas nos caminhos e veredas por que passaram. Repartem brincadeiras, segredos e amigos. Compartem ainda gostos, descobertas e alumbramentos.

Entre mim e minha irmã, há ainda uma partilha fundante de nossa experiência no mundo: o rito da escrita. Descobrimos juntos, embora por caminhos paralelos, esse sacro ofício de cultuar palavras. Éramos crianças, quando ela inventou sua primeira cerimônia de sagração da linguagem, num caderno dedicado à escrita de histórias – geralmente um pouco trágicas. Uma poeta que teve sua infância na prosa, redescobriu-se “um animal, no ermo / da linguagem” com a prosa poética e, por fim, assenhorou-se dos versos. Apropriei-me também desse rito brincante e, com onze ou doze anos, inventei-me poeta – somente muitos anos depois é que fui invocar as energias e os fluxos da prosa.

Durante toda essa trajetória, partilhar os ritos da escrita formou esse laço que participa dos fundamentos de nossa experiência de irmandade. Sempre fomos leitores um do outro. Muitas vezes, isso suplantava silêncios impostos pelo hábito – sobretudo meu, que sempre fui um animal silencioso e sempre usei a escrita também como um escudo, onde tentava realizar a impossível tarefa de esconder fragilidades. Não pude deixar de pensar no silêncio – e na escrita esgarçando sons e, por vezes, dissonâncias nas entranhas dele – ao ler os versos “Foi preciso muita palavra / até arrancar deste silêncio / um lugar seguro.”

(…)

(trecho de “Nas camadas vulcânicas da palavra” – prefácio de “Uma casa perto do vulcão)

Uma casa perto de um vulcão – Roberta Tostes Daniel

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Entrei nessa sexta-feira no último ano de minha década de 30 particular. Aniversários sempre me despertam memórias e me fazem olhar para trás. E essas memórias podem ter significados diversos e despertar emoções distintas. Há momentos em que resvalam em melancólica saudade, em nostalgia. Noutras, como agora, que me trazem uma alegria e uma gratidão imensas.

Desde que fiz trinta anos de vida, no agora longínquo mês de junho de 2009, tanta vida pulsou, transbordante. Meus pés se fincaram por tantos caminhos. Minha voz ressonou por tantas paragens. Minha escrita encontrou vários leitores – menos do que eu gostaria de ainda conquistar, porém mais do que supunha que teria ao longo desses nove anos.

Foi com trinta anos que lancei meu primeiro livro. Quando ele foi publicado, eu ainda tinha 29, mas levei mais de um ano para lançá-lo. Foi nessa mesma época que comecei a namorar a Fabi, minha esposa, com quem sou casado há sete anos.

Nessa década, tantas coisas aconteceram que seriam necessárias muitas e muitas páginas para dizer tudo. Fiz diversos amigos, assisti à Sagração da Primavera e o Café Miller pouco depois da morte da Pina Bausch, namorei e casei com minha esposa, me mudei de casa duas vezes, mudei meu blog para o lugar em que ele está há oito anos, lancei dois livros – o Trítonos – intervalos do delírio, lançado em 2015 pela Editora Patuá, foi o acontecimento literário da minha vida –, comecei a fazer aulas de canto, passei por quatro coros, abri e fechei uma editora, aprendi rudimentos de edição fazendo um documentário, viajei para alguns lugares, sonhei, esbocei projetos que me esperam pacientemente, realizei outros, descobri diversos autores, venci diversos desafios, senti meu corpo mudando, aprendi a dirigir e comprei um carro muito por causa disso, transformei minha casa numa matilha, “conheci” aquele que talvez seja um dos escritores vivos que mais me assombram – o Raduan Nassar –, comecei a tocar um repertório de música cigana que venho apresentando em saraus da vida, compus duas canções, tenho buscado olhar não para o que falta mas para o que sou, trabalhei – muito! –, escrevi, escrevi, escrevi, escrevi… e amei. Uau!!! E ainda me resta um ano inteirinho dessa década. E ontem combinei com a Fabi que esse seria o ano mais feliz da minha década de 30 – e, por que não?, da nossa vida até agora.

Neste dia em que se iniciou o novo ciclo solar que me levará aos quarenta anos, senti que celebrava a vida com todas as pessoas que me ligaram, escreveram, abraçaram, me deram parabéns ou desejaram felicidades, pessoalmente ou por escrito. Li cada uma das inúmeras mensagens que esperam resposta. E prometo respondê-las todas, aliás.

Envolvido nessa alegria, olhei para meus nove últimos anos tentando pensar o que eles foram. Busquei entender quem era aquele que chegou na casa dos trinta anos em 2009 e chegou agora aos 39 anos nesta sexta-feira. O que viveu esse que sou? Nessa viagem, acabei tentando selecionar dez fotos minhas representativas dessa trajetória – além de uma do dia de quase ontem. Muita coisa ficou de fora. Se fossem cem fotos, ainda faltaria espaço para tanta recordação bonita – vivemos numa era de abundância de imagens. Então nessa madrugada, após ter a linda surpresa da presença da minha mãe e da minha irmã – que agora dormem – aqui celebrando comigo, revisito algumas memórias registradas em fotos. E divido com cada um que, mesmo não estando nessas fotos, está comigo naquilo que estou sendo e tenho sido.

2018: 39 anos.

2009 ou 2010: Entre a publicação e o lançamento de “Poemas para serem encenados”

2011: Open House: Fabi&Teo

2011: Viagem de Lua de Mel – Cartagena das Índias

2011: Vernissage da exposição “Olhos d’Água e de Fogo”, do querido Marcelo Tosta

2012: Lançamento de História Íntima da Leitura na Casa das Rosas

2015: Lançamento de Trítonos – intervalos do delírio, na Casa das Rosas

2015: A matilha.

2017: No dia em que “conheci” Raduan Nassar

2017: No Rio de Janeiro, dissolvendo tabus.

2018: Música cigana no Espaço Núcleo

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trabalho blog além
forma delírio escrita primeiro
intervalos dessa amada leitura
hoje espécie livro
meio poema alegria
anos projeto poesia

leitor ainda

fazer trítonos exatamente palavras
patuá desse ontem
conto vida
publiquei sentidos

editora laboratório

(com Roberta Tostes Daniel, Fabiana Turci, Laboratório dos sentidos, Trítonos – intervalos do delírio e Editora Patuá)

Essas são as palavras que mais uso no Facebook. Quais são as suas?

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Leio em loop infinito os versos que recebi hoje de minha irmã. Releio-os numa felicidade de imensidões. Eu, que me sei poeta e escritor por sua influência. Por desejar também ter cadernos pautados para jogar com a linguagem. Numa desmedida de ternura, quando os todos caminhos parecem abertos e transitáveis. Se bem que já havia tendências nesse tempo, quando você tinha pouco mais do que nove anos e eu, quase doze. Você tinha a altura e a intensidade de uma linguagem esgarçada pelo trágico. Eu arquitetava formas, engendrava desgastadas rimas e me divertia em impor regras para constranger a liberdade absoluta do dizer. Se a poesia em você eram jorros de metáforas dilaceradas nas asas dos pássaros, para mim valia a diversão de pôr palavras num pilão e extrair-lhes os óleos do inabitual.

Que dizer desse caminhar que, ao mesmo tempo, é solidão e partilha? Ouvimos de Drummond um conselho sobre os poemas: “Espera que cada um se realize e consume / com seu poder de palavra / e seu poder de silêncio.” E o silêncio é um outro nome para a solidão. Por isso o poeta das sete faces nos diz também: “Penetra surdamente no reino das palavras.” No entanto, poetas tocam o incomunicável para voltear e dar a ver o lodo das palavras, essas metáforas gastas, repletas de histórias e corruptelas. Para sentar junto na fogueira dos tempos e cantar sobre essas descobertas. A solitária escrita deseja a leitura, almeja o encontro.

E nosso encontro precede à palavra. Nasce anterior ao verbo. Remete a signos ainda cindidos, significantes com cambiantes significados. O logos do afeto nos guiou os passos. E, por graça e obra da vida, caminhamos num mesmo sentido, mesmo que por caminhos diversos. E sob a égide dos versos, das metáforas e da poesia espargida, fizemos o pacto dessa fraternidade. Juntos seguimos. Sempre, sempre, sempre, e cada vez mais.

Com um amor que precede e transcende o verbo, te amo, minha irmã!

Betinha e uma caneta profética vaticinando uma vida entre palavras.

Betinha e uma caneta profética vaticinando uma vida entre palavras.

Irmão

A linguagem nele
irradiou nos seres e nos objetos
concebeu uma gramática
em mim, labiríntica.
Chamei-o estruturalista
porque vejo em modo macro
sondada por sensações.
Minha razão encadeando
elementos assombrados
meu irmão operando ideias
com lógica e afeto.
Razões obsedadas
uma tremenda ternura
capricorniana
confusa confusa
em viver de signos.
Versus
o canceriano imenso
que pensa desde a palavra:
penso desde a palavra.
O mundo fizemos
um pacto
desta fraternidade.

Roberta Tostes Daniel

 

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Lançar um livro depois de oito anos me dedicando a escrevê-lo foi algo transformador. Por isso, não consigo ser o mesmo depois de ter lançado Trítonos – intervalos do delírio. Olho para os meus locais de escrita e noto que eles hoje estão esperando para serem povoados por novas obsessões, novos projetos, novas histórias. É nesse estado de espera que me encontro um pouco desde o lançamento, como se eu ainda estivesse me despindo de meu livro.

Hoje, “Trítonos – intervalos do delírio” é uma linda marca em mim, em minha vida, em minha história… Agradeço demais à Editora Patuá, e ao querido editor e amigo Eduardo Lacerda por isso. Agradeço também à minha amada Fabiana Turci que, como leitora primeira, modificou tantas vezes e tão essencialmente os rumos de minha prosa nesse projeto. E à minha irmã Roberta Tostes Daniel, poeta de grandes alturas que me ofereceu o testemunho poético de sua leitura na linda orelha escrita para meu livro.

Meu livro também se tornou uma linda marca na parede de minha casa. O querido Leonardo MAthias presenteou “Trítonos” com uma capa simplesmente fantástica. Lembro do deslumbramento ao vê-la pela primeira vez. Era diferente de tudo quanto eu havia pensado, em termos de referências visuais. Era uma nova leitura e uma recriação do meu livro, com a distância de um leitor — algo que me era impossível fazer como autor. E, por isso mesmo, era maior do que a minha imaginação poderia projetar. Sim, nesse caso, o real foi de um maravilhamento que desconcertou o imaginado.

Quando adquiri a arte original de minha capa, descobri que o Leo fizera um trabalho incrivelmente plural. Na verdade, são duas imagens distintas, que mudam conforme o lado a partir do qual a obra é observada. Descobri poder usá-la de modos diferentes, se desejo evocar a visão interna de uma sacerdotisa ou as amplas asas de uma harpia. Estava devendo essas fotos para o querido Leo MAthias. Com uma alegria imensa, divido-a com ele e com todos meus amigos. Dividir alegrias e belezas é, na verdade, multiplicá-las. A arte não se cansa de me ensinar isso.

E meu livro está à venda no site da Editora Patuá (acesse aqui). E está muito bem acompanhado, com cerca de 350 títulos de autores contemporâneos. Vale muito explorar seu catálogo!

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Onde faltam palavras, resta a música do delírio. E os mil e um fragmentos de memória, tecidos numa imensa colcha dos afetos. Esse dia reverbera ainda. E continuará reverberando em mim…

Registro minha gratidão imensa a todos que trouxeram suas palavras e seu carinho, pelas várias estradas rasgadas nas infovias. A todos que me povoaram com sua presença. E que alucinarão minha escrita em seus olhos ledores. Gratidão a todos. Gratidão à vida por todos vocês estarem nela.

Algumas lembranças fotográficas desse dia 2 de dezembro de 2015, quando Trítonos – intervalos do delírio deixou de ser o meu livro e ganhou o mundo, graças à Editora Patuá.

Essa foto foi possível porque no dia 30 de novembro, o amigo Délcio Teobaldo me presenteou com um texto incrível (veja aqui) em que falava de sua amizade com meu pai, Guilherme Daniel Neto, e do lançamento de meu livro. Por fim, Délcio pedia que eu colocasse ao meu lado flores, pois ali meu pai estaria presente.

Esta foto foi possível porque no dia 30 de novembro, o amigo Délcio Teobaldo me presenteou com um texto tocante (veja aqui) em que falava de sua amizade com meu pai, Guilherme Daniel Neto, e do lançamento de meu livro. Por fim, Délcio pedia que eu colocasse ao meu lado flores, pois ali meu pai estaria presente.

Correndo para chegar no lançamento. "Corram, poetas, corram!"

Correndo para chegar ao lançamento. “Corram, poetas, corram!”

Lançamento do livro Trítonos - intervalos do delírio, publicado pela Editora Patuá.

Lançamento do livro Trítonos – intervalos do delírio, publicado pela Editora Patuá.

Lançamento do livro Trítonos - intervalos do delírio, publicado pela Editora Patuá.

Lançamento do livro Trítonos – intervalos do delírio, publicado pela Editora Patuá.

Lançamento do livro Trítonos - intervalos do delírio, publicado pela Editora Patuá.

Lançamento do livro Trítonos – intervalos do delírio, publicado pela Editora Patuá.

Lançamento do livro Trítonos - intervalos do delírio, publicado pela Editora Patuá.

♥ – Lançamento do livro Trítonos – intervalos do delírio, publicado pela Editora Patuá.

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♥ – Lançamento do livro Trítonos – intervalos do delírio, publicado pela Editora Patuá.

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Lançamento do livro Trítonos – intervalos do delírio, publicado pela Editora Patuá.

Registro do instante em que vi o livro pela primeira vez, com seu corpo feito de celulose e tinta, palavras e espaços vazios para o leitor.

Registro do instante em que vi o livro pela primeira vez, com seu corpo feito de celulose e tinta, palavras e espaços vazios para o leitor.

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Lançamento do livro Trítonos – intervalos do delírio, publicado pela Editora Patuá.

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Lançamento do livro Trítonos – intervalos do delírio, publicado pela Editora Patuá.

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Lançamento do livro Trítonos – intervalos do delírio, publicado pela Editora Patuá.

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Meu querido amigo e editor, Eduardo Lacerda.

Cavaleiro andante estrela marginal
Sobre o Rocinante escravo de metal
Um acorde rasga o céu
Raio negro a cavalgar o som
E cavalgar sozinho… e cavalgar

Viverá pra sempre em nosso coração
O moinho vento nova geração
Um menino vai crescer
Procurando em cada olhar o amor

(DOM QUIXOTE – César Camargo Mariano & Lula Barbosa)

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♥ – Lançamento do livro Trítonos – intervalos do delírio, publicado pela Editora Patuá.

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Meu querido amigo e editor, Eduardo Lacerda.

Tanta gente se esconde do sonho com o medo de sofrer
Tanta gente se esquece que é preciso viver
Combater moinhos, caminhar entre o medo e o prazer
Somos todos na vida, qualquer um de nós
Vilões e heróis, vilões e heróis

(DOM QUIXOTE – César Camargo Mariano & Lula Barbosa)

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Lançamento do livro Trítonos – intervalos do delírio, publicado pela Editora Patuá.

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No dia do lançamento de Trítonos – intervalos do delírio, a Janaina, o Gilberto, a Olivia e a Larissa, muito queridos, me ofereceram, além da preciosa presença deles, essas lindas hortências. Somente no dia seguinte descobri que junto às flores morava um pequenino ser, que me pareceu ter se interessado pelo meu livro… Premonição? Tomara!!!

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Texto de Délcio Teobaldo, publicado em 30 de novembro de 2015.

1. Um dia ele chegou lá em casa com o gravador já ligado e perguntas na ponta da língua. Queria uma entrevista para a rádio onde era “a voz” do horário de maior audiência. Alto, cabeludo, desleixado e desajeitado, dava a impressão (nunca fez questão que se desfizesse) que metia os pés pelas mãos e vice-versa.

2. Eu havia escrito uma peça de teatro e dirigia os primeiros ensaios, daí a justificativa da entrevista. Dei um passo atrás, mas diante da insistência dele, concordei com a entrevista. Quando ouviu minha voz mudou o objetivo do encontro: “Com esta voz, você ganha fácil, fácil, um horário na rádio”.

3. Daí se dispôs a me ensinar os truques da profissão. Através dele e de outros amigos pacientes e crédulos, conquistei um dos horários nobres (das 17 às 22hs) na Rádio Sociedade de Ponte Nova, MG. Quando decidi vir para o Rio de Janeiro, duas semanas depois ele desembarcou por aqui onde éramos um bando de mineiros aprontando anarquias numa pensão da Ladeira Felipe Neri, Praça Mauá.

4. Poeta, ativista, comunicador brilhante, Guilherme Daniel Neto fez nome no rádio carioca. Quando fui para o jornalismo impresso, nos distanciamos. Viveu em estado de poesia. Morreu no limite dos sonhos e dos desejos. Agora, recente, nos reaproximamos através dos seus dois filhos que descobri por aqui: os poetas Teofilo Tostes Daniel e Roberta Tostes Daniel

5. Leio eles sempre. Identifico aqui e ali a língua lâmina do pai: “A xamã vem em meu socorro com seu bailado, seus aromas e suas canções. Confundo-a com a serpente. Ou com a divindade mãe. Sua mão sobre a minha cabeça é a pata de um jaguar, em cuja pele se inscrevem segredos milenares. Leio o incomunicável dos tempos.“ Trecho de “Primeiro interlúdio” do livro “Trítonos – intervalos do delírio” (Editora Patuá)

6. Nesta quarta, dia 2, meus caros amigos paulistanos, Peter O. Sagae, Sergio Gagliardi-Gag, Antonio Carlos Nogueira, Dolores Prades, May Shuravel, Juliana Rego, Alessandro Buzo… Teofilo lança seu primeiro livro. Fica a vocês o compromisso compadrio de abraçá-lo na minha ausência. A você, poeta, ponha ao seu lado uma cadeira vazia. Sobre ela uma flor qualquer, natural ou de crepom, celofane. Seu pai vai estar aí. Orgulhoso, sim, contemplativo, nunca. Giramundo, inquieto, metendo os pés pelas mãos e vice-versa, sorriso feito o seu, do tamanho do mundo.

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A dez dias do lançamento de meu livro “Trítonos – intervalos do delírio” (Patuá, 2015), além de sentir uma ansiedade boa por ver o corpo do livro feito de celulose e tinta, palavras e espaços vazios para o leitor, é inevitável olhar para trás e me assombrar com a constatação de que esse livro condensa e testemunha oito anos de minha escrita. Não que eu tenha me dedicado exclusivamente, durante todo esse tempo, ao livro que nasce. Nesse período, publiquei “Poemas para serem encenados”, participei da coletânea “História Íntima da Leitura”, escrevi poesia e prosa neste blog – ao qual imprimi uma periodicidade de publicação desde o ano passado – e participei de algumas oficinas de escrita. Além disso, escrevi e tenho escrito coisas inéditas, para projetos futuros. Mas desde 2007 que as três principais histórias desse livro me acompanham. E a partir do dia 2 de dezembro, esse livro deixará de ser exclusivamente meu – e eventualmente das pessoas próximas com quem tenho a alegria de compartilhar meus processos de escritura – para ser do mundo. “Porque a gente desaparece maravilhosamente entre as palavras”, diria um querido amigo que está intimamente ligado ao nascimento das duas primeiras histórias de “Trítonos”.

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Foi na casa em que Marcelo Tosta morava, no centro de São Pedro d’Aldeia, que sugiram os primeiros esboços de “Menina de Aruanda”. Foi lá que li os textos que habitavam o caderno verde de Micheli Coutinho – que hoje é fotógrafa e também mora em São Paulo – de quem roubei o nome e um pouco do êthos de minha personagem principal no primeiro conto deste livro. E numa de minhas idas a São Pedro, no segundo semestre de 2007, fui levado a uma gira num terreiro que funcionava em ermo local no distrito da Cruz – área rural daquela pequena cidade na Região dos Lagos do Rio de Janeiro. Todo esse conjunto de impressões fermentou minha escrita nos meses seguintes, até que eu terminasse a primeira história do livro. O livro, no entanto, ainda não existia. Não da mesma forma, pelo menos. Minha ideia na época era reunir contos que falassem de arte, talvez cada um focado numa das seis artes do mundo clássico (música, artes cênicas, pintura, arquitetura, escultura e literatura).

Ainda envolto nessa ideia primeira para um livro de contos, comecei a segunda história, concebida meio ao acaso a partir de um evento curioso ocorrido em minha casa. Num período em que o Marcelo e uma outra amiga estavam hospedados por lá – essa distância no corpo da escrita diz que não é a mesma casa de hoje –, eu acordo no meio da madrugada com um barulho muito alto – qualquer coisa caindo no chão. Saio do quarto e encontro os dois sentados, um pouco sem jeito. Marcelo me explica que o porteiro havia acabado de interfonar, pois um vizinho havia reclamado – do barulho, penso eu – do cheiro da comida que ele estava fazendo. Ainda com sono, dou uma pequena bronca, mais por causa de ter acordado com a conversa alta e os barulhos que eles estavam fazendo. Vou deitar e penso que aquilo é um ótimo argumento para uma história. Segundo o relato do Marcelo e da Karine, minutos depois eu volto com uma cara de alucinado e anuncio o destino literário daquele fato anedótico. Pego papel e caneta e volto para o quarto, que agora fica com a luz acesa por alguns minutos. Ali começara a nascer “Gritos do Açafrão”. Por alguns meses, escrevi metade da história, mas ela ficou em suspenso por quase um ano porque me faltavam os elementos musicais – já que o personagem principal era um pianista. Foi depois da leitura de “O som e o sentido”, de José Miguel Wisnik, que consegui terminar o conto. O livro me fora apresentado e emprestado pela minha amada Fabiana Turci, antes mesmo de começarmos a namorar. Ainda antes de namorarmos, ela foi a primeira leitora crítica – e, para minha alegria, entusiasta – desse conto.

A última história foi a que conduziu o livro a tornar-se o que hoje ele é. Intui sua ideia inicial após visitar a Oficina Brennand no Recife, em 2009, levado pela querida amiga Marina Barreto Gama e sua irmã Raquel. Mas só três anos depois comecei a escrevê-la. “Paisagens de sal”, o maior dos três grandes contos do livro, consumiu, até sua conclusão, três anos de escrita e pesquisas constantes, além de um mergulho no universo da loucura e o desenvolvimento de um olhar desconfiado em relação às certezas provisórias do discurso psiquiátrico. Por trabalhar com o tema das artes plásticas, mergulhei no universo da arte contemporânea, sobretudo a partir do surrealismo, o que me permitia traçar uma linha de contato com Hieronymus Bosch e suas representações da loucura – especialmente em pinturas como “A extração da pedra da loucura”, “A Nave dos loucos” e, no que diz respeito às angústias e ao delírio, “As Tentações de Santo Antão”, de onde, aliás, extraí a figura do demônio que tortura uma orquestra inteira sob a égide dos trítonos. Mas não bastava uma arte que desse voz ao inconsciente, pois o universo do conto era traçado a partir das narrativas de loucos. Foi inevitável, portanto, me deparar com a figura de Arthur Bispo do Rosário e, a partir dela, conhecer as histórias e mazelas da psiquiatria no Século XX. Como ocorre com meu personagem principal – um psiquiatra – também eu passei, no decorrer do desenvolvimento dessa última história, a desacreditar dos diagnósticos e das profilaxias psiquiátricas. Se os meus motivos interessam menos, os motivos do meu personagem foram alimentados sobretudo com as narrativas dos horrores cometidos no manicômio de Barbacena, narrados em pormenores por Daniela Arbex no livro Holocausto Brasileiro.

Com as três histórias concluídas, a obra me parecia pronta. No entanto, minha amada Fabi ainda me sugeriu acrescentar algo que conduzisse e interligasse os três contos a partir de uma voz que trabalhasse o aspecto feminino evocado nas três histórias. Não dei gênero algum a essa voz, para que qualquer pessoa pudesse se inserir nesse lugar. Pessoalmente, inclusive, não sei sequer apontar quem seria a persona por trás dessa voz – deixo ao leitor trabalhar essas hipóteses. Mas submeti a figura que narra a uma força e uma autoridade, ao mesmo tempo, mística e feminina, permitindo que às experiências dos três contos fossem aderidas novas camadas de significação a partir de uma noção de empoderamento do feminino, num mundo ainda submetido – e desgastado – pela violência da dominância masculina. Faltavam, portanto, serem escritas as quatro narrativas de interlúdio. E só soube definitivamente dessa necessidade quando ficaram prontas. Três delas estão publicadas na Mallarmagens revista de poesia e arte contemporânea. Já a quarta, que fecha o livro, assim como os três grandes contos, estão aguardando os leitores dentro da obra, que será lançada no dia 2 de dezembro, na Casa das Rosas, a partir das 19h. Todos estão convidados a mergulhar nesse labirinto de delírios sussurrados pelo ruído branco a que habitualmente chamamos silêncio.

Divido, por fim, a belíssima orelha do livro, escrita pela minha amada irmã e grande poeta Roberta Tostes Daniel:

“Trítonos – intervalos do delírio” desenha um mapa alucinatório, ponto por ponto, qual partitura, sobrepondo quaisquer linguagens aos ditames da experiência. Segue, ao longo de suas três histórias, um código denso e virulento, insólito e perigoso, expondo traços e máscaras do humano. A vilania incrustada nos despojos da civilização e em arraigados hábitos circunavega a inocência primordial da infância, os cumes da fantasia musical e dos labirintos da loucura, liberando a sordidez da dita normalidade, dos claustros de uma consciência socialmente martirizada. Sua escala chega ao trítono, som impossível porque persecutório, onde só é possível enfrentar a dissonância, e a cada leitor desnudar a obra “para descobri-la em seus próprios termos, sendo que nessa leitura final estará sozinho”. Após a tríade dessas geografias que se entretecem com meticulosidade de aranha, a solidão é uma instância-ritual. Referências se encontram escalavradas, rosários imiscuídos a tradições e povos margeados. A música tenta soar como silêncio ou como fogo? O que é ruído branco? Sendas de impossíveis transcendências de sangue e paisagens de sal. A palavra atenta à ira e à profecia, vacante e grávida de sentido. Levante de desejos plasmados por cheiros e volúpias indizíveis. Um livro dos desatinos, um lugar: corpo, palavra, prosódia. Num ritmo lento ou vertiginoso, sem jamais perder de vista a profundidade do rasgo da pele. Os nomes dos personagens são pistas, talvez falsas. A precisão das informações pode estar chagada pela invenção. A linguagem como o panteão do (im)possível.

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Trítonos – intervalos do delírio
Teofilo Tostes Daniel
Contos
São Paulo: Patuá, 2015
168 p.
Formato: 14×21.
ISBN: 978-85-8297-255-7
Preço: R$ 38,00 + frete
Venda no site da Editora Patuá.

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Hoje leio preces
como se apenas poemas fossem,
poemas fósseis, latejantes
— mais poemas do que atos de fé!
(do meu poema Taxa de locação)

Beata Beatrix — Dante Gabriel Rossetti

Durante cinco meses e dezessete dias, atravessei um livro de poemas. Mas, da noção silente e imaginativa que trago da Liturgia das Horas, eu sei que um breviário não se cruza à galope, mas antes se navega no vagar dos dias e dos instantes, celebrando sem pressa as Laudes, as Meridianas, as Vésperas e as Completas.

O deus Insaciável do início do livro — que “sangra os passos da dúvida”, “eletrocuta a linguagem // diz o nosso nome / quando afundamos no mar” — já me havia demandado uma resposta poética. Invoquei, para isso, o meu sagrado sem nome, cujo altar é erguido sobre o corpo da dúvida. Já o poema inaugural do livro que atravessei — essa espécie de Gênesis — faz da divindade uma “enxada encostada no tempo”. Nele aprendi que “deus tem asas feridas / remendadas com o pano da terra”.

Essa foi minha primeira colheita do livro Epifania, de Sândrio Cândido. Depois dessas primícias, de Passagem, descubro que é “inútil dedilhar poentes /compor manhãs com os retratos desfigurados”. Na sequência, me deparo com uma ideia de oração que se irmana à minha própria. A incendiar essa noção, encontro versos me advertindo para “descalçar os passos da linguagem”, pois “é sagrado entrar no poema / galgar degraus oceânicos na palavra / dissecar o verbo”. Mas porque só tenho “a palavra suja de mundo” e tropeço com “a vida refugiada em goles de esperanças”, essa Oração revela em si a sua própria contradição, ao concluir, em seu último verso, que “é inútil erguer uma prece dentro do poema”.

Escrevi certa vez, noutro lugar, que a heresia é o que mantém viva a possibilidade de surgirem novas religiões, ou novas concepções místicas das que hoje vigoram. Não à toa, os místicos estiveram a um passo da heresia… O que gosto em geral nos místicos é que eles vivem uma experiência tão arrebatadora que acabam se afastando do dogmatismo de suas religiões. E flertam como os limiares da heresia. Mas, ao mesmo tempo, me parece que dificilmente eles — ou , ao menos, aqueles que escaparam das fogueiras e se tornaram santos — dão esse passo em direção ao rompimento. O que fazem é alargar os limiares de suas próprias fés. Penso em figuras como Francisco de Assis, Teresa d’Ávila, João da Cruz ou Rumi — exemplos que viveram esse limiar sem rompê-lo.

A filiação mística do livro Epifania (Editora Patuá, 2014), de Sândrio, se explicita já no quarto poema. Ali, aprendo que “os místicos embriagados de deus / devoram os nós” e me perco no labirinto do “tudo é tanto que não caibo em tudo”, mas sem saber quando “as canetas me escrevem no mundo”. Penso na Noche oscura del alma e já no poema seguinte colho, na conclusão, uma estrofe que diz: “esta noite sou incapaz de te escrever / dobro os joelhos sobre os vocábulos nascentes / peço-te: / — acolha o meu silêncio.”

Ecoando o bailar de Rumi — um antigo dervixe persa que para mim sempre pareceu ter sido mestre de Caeiro — Sândrio, “um verbo conjugado no encontro”, afirma que “em mim os deuses dançam / sentados à mesa da ausência”. Revolvendo a ancestralidade do mundo, constato ainda que “os astros pronunciam meu nome / me faço luz / irradio poeira cósmica” (e isso me evoca demais o poema de Rumi “Vem, / Te direi em segredo / Aonde leva esta dança. // Vê como as partículas do ar / E os grãos de areia do deserto / Giram desnorteados. // Cada átomo / Feliz ou miserável, / Gira apaixonado / Em torno do sol.”). No fim desse primeiro movimento com o poeta de Minas Novas, “regresso agora / trago o tempo enxugado, / alguns poemas. / o efêmero sentido de estar aqui // despenco dentro de outra solidão.”

Cruzando esse bloco, me deparo um poema que tem por epígrafe os versos “Buscamos na vida / a casa dos nossos nomes“, de minha irmã Roberta Tostes Daniel. Nesse poema de Sândrio (Nos meus olhos uma paisagem adormecida), “os telhados desabam nos alicerces do tempo”. Ali, encontro a mim mesmo, e de alguma forma a minha ancestralidade poética, espelhada na poesia de minha irmã caçula. Sigo para um Oásis em que “meu nome é uma canção pronunciada do outro lado”, onde “busco uma lamparina no ventre da morte.” Sigo célere o rastro dos místicos para contemplar o Crepúsculo nas varandas interiores, onde “quero entardecer rasgando miragens / descansar a sede em alguma fonte.” A Contemplação do crepúsculo revolve essa imagem do entardecer, lembrando que “os crepúsculos enfiam os dedos na minha garganta.”

A leitura é também um execício de esperança e espera no poder do que não é comunicável. Afinal “deve haver alguma luz nos escombros do amanhã”. Nesta paragem, contemplo “os templos sumindo dentro do mistério”. Ali me é soprado que também “sou uma igreja velando o horizonte: / minhas paredes murmuram canções arcaicas, / cacos umedecidos, mãos trituradas, incenso, / o perfume das velas. / tudo aponta para um jardim possível.” Na liturgia dessas horas de Epifania, “um monge queda de joelhos / sem conseguir se acasalar com o mistério.” Eu, que duvido dos absolutos da crença e do descrer, me vejo nele.

Ainda assim, em Comunhão, me encontro com “a voz possuída pela ancestralidade do canto / arranco pela raiz a erva solidão / acendo as palavras sobre o nada.” Eu, que “sou um rio escorrendo pelas pálpebras da terra”, sigo os rasgos dessa Claridade, em que “o silêncio é uma pedra tragada pela garganta das aves / um círio de arame aceso no coração do outono / uma varanda aberta no seio do pão.” Sei que “os calendários são ervas / crescem sobre a rosa do instante.” Ainda assim, me fixo neles. Ou por eles sou fixado, pois “o tempo tem fome do meu corpo”. Neste estado, “ergo-me / faço do corpo um monastério”. Ainda assim, “estou me habitando em estado de escavação”.

Isso me leva a pensar no porquê escrevo. Talvez porque Os amigos não cabem no silêncio. Sim, eles são “altares circundando o interior / casa acolhendo as ausências”. Eu escrevo porque “incrível é a graça de entrar em comunhão / estar no outro / contemplar a vida escorrer lentamente”. Ou nem por isso, já que É inútil acordar as palavras e quem escreve este poema, ecoando Cioran, me segreda: “eu, porém, fiquei / habitando o ventre do desespero”. Ele me interroga: “dizer para quê?”, pois “amanhã será inútil acordar as palavras / hoje também.”

Se a ele falta a esperança, a mim falta a fé e, por isso, sigo escrevendo minha dúvida. Divirto-me com ela, com a finitude do meu saber. Ainda assim, sigo e também “sonho uma casa no interior das romãs”. Vejo que “nos límpidos lagos do tempo / cardumes de crianças nadam / segurando a flor luminosa da infância.” Pelo delírio das imagens que a poesia espalha, percebo: também eu “preservo as crianças interiores / essa espécie em extinção!”  Compreendo bem o verso que suplica: “deixa eu me rasgar para a epifania das flores”. Nas palavras, procuro um Lar. Evoco-me como habitação, eu que sou basicamente memória e efemeridade. Acompanho o poeta e “entro pela porta da cozinha / contemplo a chaleira sobre o fogão à lenha, / a felicidade fervendo.” Por motivos oblíquos, lembro de uns versos de Drummond: “Minha vida, nossas vidas / formam um só diamante. / Aprendi novas palavras / e tornei outras mais belas.”

Da Canção Amiga de Drummond — que me habita inteira de cor —, salto para um poema de Sândrio que se abre anunciando que “há canções mortas grudadas no corpo”. Percorro uma Efêmera prece que me lembra que “escrevo para desabitar a solidão”. Nessa prece — poema fóssil? — o poeta suplica: “mas me deixa dizer meu nome em teu nome.” Encontro novamente, então, o nome da minha irmã, e versos dela evocando o navegar: “Desveladas / correntezas / para aportar“, ela me diz. Já Sândrio peregrina por sua travessia de palavras e celebra uma Liturgia do exílio, onde os homens “acendem um círio na eternidade”.

Estanco brevemente o fluxo de minhas palavras, esta circum-navegação em torno do lido, pensando neste meu itinerário de leitura. O que ele diz? E o que me diz o próprio Itinerário da obra de Sândrio, que me conta que alguém “cravou os dentes no útero / abortando a gestação dos passos”? Não sei dizer. Sei é que leitor e autor fazem a obra. Juntos, “somos a comunhão das estradas / conjugamos o infinito em um instante, / no vazio mergulhamos / plantamos os olhos na eternidade.” Essa Contemplação não salva, mas revela “alguma tarde escorrendo / entre os dedos mergulhados no tempo.” Sim, “dentro dos olhos tudo é miragem / silêncio”. A leitura é uma Liturgia do encontro, onde “o verbo espera dentro do forno”. Por ela, pelo lido — esse lugar em que os não-vividos se executam —, “tentei ouvir os gemidos da terra / o êxtase das gotas adentrando o solo.”

As portas da revelação se abrem. Se no princípio havia um deus-verbo Insaciável com o qual os místicos se embriagavam, agora o último poema dessa Epifania me traz o Apocalipse. Nele aprendo sobre a palavra — a que também se pode chamar de “deus”: “posso adormecer sem um amanhã / ser a lamparina acesa em teus lábios / encontrar em teu corpo o instante perdido / nunca mais existir em um tempo / a isto chamo salvação.”

A essas palavras digo muitos améns!

Epifania — Sândrio Cândido

Epifania — Sândrio Cândido

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O lançamento do livro História Íntima da Leitura, que ocorrerá no dia 16 de setembro, das 14h às 18, na Casa das Rosas, marca a estreia da Editora Vagamundo no cenário editorial brasileiro – e na vida dos leitores e dos escritores. A obra, uma coletânea de textos ficcionais de 18 autores sobre as relações entre a leitura e a escrita, apresenta as propostas da nova editora: dar voz a autores contemporâneos nos mais variados gêneros literários e ser uma editora feita por leitores para leitores, apostando na criação de canais de comunicação com o leitor e na publicação de livros de qualidade a preços acessíveis.

O livro traz uma teia de narrativas que forja uma história da literatura a partir da leitura e coloca em tensão e diálogo os papéis de leitores, livros e personagens, enveredando pela construção de uma biblioteca que reinventa a noção de intimidade. História Íntima da Leitura convida também o leitor a deixar suas marcas e inserir-se no texto, reescrevendo, a cada leitura, uma nova história. Nesse ponto, a Editora Vagamundo inova, chamando cada leitor, na última página dessa espécie de livro infinito, a continuá-lo com suas próprias histórias, fazendo do ato da leitura o centro do processo. Para isso, a Vagamundo mantém em seu site o “Espaço do Leitor”, onde as histórias íntimas dos leitores serão publicadas.

Em parceria com a Levante Cultural, a Editora Vagamundo lançou ainda um documentário com os autores da História Íntima da Leitura. O vídeo, bem como a íntegra dos depoimentos dos autores, estão disponíveis no site da editora sob licença Creative Commons. Trata-se de mais um convite para que o leitor possa se inserir na construção de um trabalho colaborativo, legitimando o processo de significação de todo o ato de leitura. No “Espaço do Leitor”, a Vagamundo também vai publicar os trabalhos derivados, em qualquer formato, feitos a partir do material audiovisual relacionado ao projeto.

Lançamento

O evento de comemoração do lançamento da História Íntima da Leitura e da Editora Vagamundo será realizado no dia 16 de setembro, das 14h às 18h, na Casa das Rosas – Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura –, um importante espaço dedicado à literatura, situado na Avenida Paulista, 37.

O livro será vendido a R$ 23,00, valor abaixo da média do mercado, confirmando o compromisso da editora com os seus leitores. Quem quiser garantir seu exemplar durante o lançamento, poderá adquiri-lo mediante o pagamento em dinheiro ou cheque. Após o lançamento, o livro estará disponível no site da Editora Vagamundo, que aceita todos os cartões de crédito e tem como política permanente o envio gratuito para qualquer lugar do Brasil.

Serviço:
Lançamento do livro: História Íntima da Leitura
Quando: 16 de setembro de 2012, das 14h às 18h.
Local: Casa das Rosas – Avenida Paulista, 37 (próximo ao metrô Brigadeiro). Estacionamento pela Alameda Santos, 74.

Editora Vagamundo:
www.editoravagamundo.com.br

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http://www.youtube.com/watch?v=k4NFOemJFuU

http://www.editoravagamundo.com.br | Vídeo sob licença Creative Commons
Documentário com os autores da coletânea “História Íntima da Leitura”.

realização

paulo mainhard
fabiana turci
teofilo tostes daniel

depoimentos

bruna nehring
carlos kiffer
daniel mendonça
fabiana turci
ingrid morandian
isabela michelan
ivan carlos regina
livia lima
luiz de nadal
marcelo tosta
marisa tostes daniel
paulo mainhard
roberta simoni
roberta tostes daniel
sandra schamas
teofilo tostes daniel

edição

fabiana turci
paulo mainhard
teofilo tostes daniel
roberta tostes daniel

câmera

paulo mainhard
teofilo tostes daniel

trilha sonora original

teofilo tostes daniel
fabiana turci
produzida no estúdio lá

São Paulo / Rio de Janeiro – 2012

www.editoravagamundo.com.br
www.levantecultural.com.br

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Há seis anos, pelo que se conta, surgiu aquele espaço que desejava reunir expressões coletivas, mensalmente, em torno das palavras e imagens. Não, não o conheci neste quando. Foi bem mais recentemente, por intermédio de minha irmã, que começou a fazer parte do corpo de palavras daquela revista virtual.

Demorou ainda um pouco para que eu acabasse figurando também por lá. E isso aconteceu pela indicação da minha Fabi. Agora sou mais um dos diversos afins que por lá se reúnem, entre caminhos e palavras. O meu conto “Ay, este azul” participa da 69ª Leva da Revista Diversos Afins. Na prosa, me acompanham José Geraldo Neres e Roberta Simoni. Nesta Leva, ainda estou cercado pelos versos de Mercedes Lorenzo, Clarissa Macedo, Marra Signoreli, Raquel Gaio e Helena Barbagelata. Tudo entremeado pelos traços de Rui Cavaleiro. Acabo de ler hoje, com deslumbramentos vários, todos os contos e poemas que seguem comigo nessa Leva que comemora os seis anos da Diversos Afins. E ainda há o que ler: os artigos de Hilton Valeriano, Sinvaldo Júnior (espécie de heterônimo do escritor Rogers Silva), Ivana Luckesi, Larissa Mendes e Fabrício Brandão, além da “pequena sabatina” à artista Daniela Galdino.

Obrigado à Leila Lopes de Andrade e Fabrício Brandão pelas levas mensais da Diversos Afins. E um agradecimento especial à Leila por ter me convidado a fazer parte da atual leva.

Ay, este azul

69ª Leva

Diversos Afins

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É verdade que a nossa família sempre foi meio hippie. É verdade também que me aproprio (aliás, nos apropriamos) um tanto inadequadamente da palavra “luau”, que, segundo registra o Aurélio, é:

1. Festa havaiana com comidas e danças típicas.
2. P. ext. Festa em praia, inspirada no luau (1), com comidas, bebidas, música, e, às vezes, dança.

Não fomos ao Havaí passar o Natal, nem o passamos na praia. Acho que sequer havia lua neste Natal, o céu coberto de nuvens… Mas nos inspiramos no clima de um luau para montarmos a nossa ceia natalina, que foi também ceia de aniversário da Betinha, minha irmã.

Quase tudo de interessante que inventamos provém do enfrentamento das diversidades. Nosso luau não foi diferente. Aqui em nossa nova casa ainda não temos mesa (há somente uma escrivaninha em meu quarto, que é minha mesa de estudos). Fazer a ceia na escrivaninha não era uma idéia lá muito atraente, em primeiro lugar porque ela não é muito espaçosa e, depois, porque ela não poderia acolher-nos como faria uma mesa real, possuía apenas lugar para uma pessoa que teria de disputar um mísero espaço com as comidas (talvez com a farofa, ou com outro gênero qualquer).

Minha mãe inventou então (toda boa influência hippie em nossa família é responsabilidade dela) de colocar uma bela toalhinha vermelha no chão e fazer a ceia ali mesmo. Aí teria música, depois eu tocaria violão — como de fato se deu — e tudo o mais que uma tradicional ceia de Natal tem de ter (com direito a vinho e aquele negócio negro e gasoso: Coca-cola).

Foi uma ceia aconchegante e diferente, esta que passamos juntos. Há muito os Natais não eram passados nós três, em nossa casa, com a nossa ceia preparada pelas nossas próprias mãos e executadas ao nosso modo e tempo próprios. Tivemos outros belos Natais (sempre com um aniversário da Betinha servindo de prolegômenos) passados com toda família em Cabo Frio, em casa de meus avós maternos, ou em Belo Horizonte, junto aos meus avós paternos — este último acabava tendo um pouco mais cara de nosso, é verdade! Mas desta vez o fomos só nós três — busco na memória e julgo que nunca havíamos passado somente nós três um Natal.

Longe de nos entediarmos, como nos divertimos! Como apertamos os nossos laços — porque é preciso descobrir a especificidade de cada laço que nos liga a cada membro da família. Tiramos tantas fotos (que mais tem cara de fotos de aniversário do que de Natal). Desta vez, inclusive, acho que a comemoração natalina foi um epílogo ao aniversário da Beta e, pelas fotos (que, infelizmente, ainda não pude colocar aqui), ver-se-á que se tratou verdadeiramente de uma Betamania!

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