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Posts Tagged ‘Reiner Maria Rilke’

Há livros que temos o privilégio de ler antes que ele se torne a obra que será. Lemos antecipadamente esses livros porque recebemos o presente de falarmos a futuros leitores do nosso testemunho de leitura. Neste ano, dois livros me chegaram como um presente, para que eu desse esse testemunho de leitura antecipada, e comungasse da espera de suas autoras para que aquelas páginas ganhem a concretude de papel e tinta: “Vísceras”, da Clara Baccarin, que deverá sair no ano que vem, e “Azul caixão”, da Julia Bicalho Mendes, que deve estar chegando logo por aí.

Faço essa digressão para dizer que ano passado, acompanhei o nascimento de um livro que espero há muitos anos, desde que ele habitava as planícies do sem nome, onde são depositados os projetos futuros. Posso dizer que espero pelo primeiro livro da Beta Tostes, minhas irmã, pelo menos desde 2000 ou 2001, quando a escrita tornou-se uma de suas marcas. Já planejamos, eu e a Fabi Turci, lançarmos esse livro-hipótese-desejo pela breve editora que tivemos nos idos de 2012 (a Vagamundo), finada com após um belo livro lançado.

Foi no ano passado que esse livro ganhou corpo de obra. Em pouco mais de um mês, a Beta cerziu das várias centenas de obras de seu (excelente!) blog, o Sede em Frente ao Mar (https://sedemfrenteaomar.com/), junto a poemas inéditos, o corpo poético de seu primeiro livro. Um livro que se escrevia há pelo menos quinze anos, habitou vários projetos possíveis, e amadureceu sob as intempéries dos tempos presentes. Um livro fundante e fundamental, poético e político. Essa erupção vulcânica nasceu. E do lugar de leitor e irmão, além de acompanhar e participar da estruturação do livro, que ganhou o nome lindo de “Uma casa perto do vulcão“, escrevi-lhe o prefácio (cujos primeiros parágrafos deixo abaixo, apenas para dizer um pouco mais do que virá).

Ontem, a Beta estava no ônibus, vindo para nossa casa aqui São Paulo, quando recebeu a capa do livro, para aprovar ou sugerir mudanças. Mas diante de uma erupção vulcânica, não há o que fazer, senão contemplar-lhe — se estamos protegidos — a beleza e a potência, o imenso terror de entranhas da terra (semelhante ao terror despertado pela beleza que, segundo Rilke, seria “o começo do Terrível que ainda suportamos”). A capa que chegou era uma leitura generosa e precisa dessa poesia imensa e imersa em delicadezas vulcânicas. Não havia o que refazer. Havia muito pelo que sorrir e comemorar.

Não imaginávamos que era apenas o início de um período de preciosas surpresas. Uma vez aprovada a capa, vista e aprovada ontem, o livro já está em pré-venda lá no site da Editora Patuá. Aguarda leitores — muitos! — que há anos — e muitos — andam ávidos por essa ebulição poética.


Há muitas coisas que cabem nos laços de irmandade. Irmãos geralmente partilham as primeiras memórias que os conformam como seres no mundo. Dividem histórias colhidas nos caminhos e veredas por que passaram. Repartem brincadeiras, segredos e amigos. Compartem ainda gostos, descobertas e alumbramentos.

Entre mim e minha irmã, há ainda uma partilha fundante de nossa experiência no mundo: o rito da escrita. Descobrimos juntos, embora por caminhos paralelos, esse sacro ofício de cultuar palavras. Éramos crianças, quando ela inventou sua primeira cerimônia de sagração da linguagem, num caderno dedicado à escrita de histórias – geralmente um pouco trágicas. Uma poeta que teve sua infância na prosa, redescobriu-se “um animal, no ermo / da linguagem” com a prosa poética e, por fim, assenhorou-se dos versos. Apropriei-me também desse rito brincante e, com onze ou doze anos, inventei-me poeta – somente muitos anos depois é que fui invocar as energias e os fluxos da prosa.

Durante toda essa trajetória, partilhar os ritos da escrita formou esse laço que participa dos fundamentos de nossa experiência de irmandade. Sempre fomos leitores um do outro. Muitas vezes, isso suplantava silêncios impostos pelo hábito – sobretudo meu, que sempre fui um animal silencioso e sempre usei a escrita também como um escudo, onde tentava realizar a impossível tarefa de esconder fragilidades. Não pude deixar de pensar no silêncio – e na escrita esgarçando sons e, por vezes, dissonâncias nas entranhas dele – ao ler os versos “Foi preciso muita palavra / até arrancar deste silêncio / um lugar seguro.”

(…)

(trecho de “Nas camadas vulcânicas da palavra” – prefácio de “Uma casa perto do vulcão)

Uma casa perto de um vulcão – Roberta Tostes Daniel

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“O que Pina Bausch conta no palco e na plateia é um teatro que liberta todas as inibições, é festa, jogo, sonho, símbolo, recordação, antecipação, cerimônia. É um conforto que se destrói doce e insidiosamente, porque o que a gente quer é que toda essa harmonia, toda essa leveza, todo esse encantamento não se acabe jamais e que a vida seja assim.”
Federico Fellini

Poderia começar esse texto contando histórias do Balé “A Sagração da Primavera”, escrito por Stravinsky sob a encomenda do empresário Serguei Daghilev, coreografada por Vaslav Nijinsky e vaiada sonoramente em sua estreia no “Théâtre des Champs Élysées”, em Paris. Aliás, não exatamente vaiada. O “Théâtre des Champs Élysées” assistiu naquele início da primavera de 1913 a um tipo de batalha campal entre detratores e defensores da obra, entre aqueles que reclamavam a quebra dos paradigmas artísticos vigentes no Século XIX e os que desejavam uma nova arte para os novos tempos trazidos pelo Século XX.

Poderia também decidir-me falar não da “Sagração da Primavera”, mas de Pina Bausch e de seu grupo Tanztheater Wuppertal. De como a coreógrafa alemã, com sua dança-teatro, tornou-se uma das artistas mais importantes do século XX. Dizer ainda de sua aparição no “Hable con ella”, de Almodovar, ou de sua participação em “E la nave va”, de Federico Fellini. Falar ainda da admiração que sua figura causava sobre tantos, citar as palavras que servem de epígrafe a este texto, do mesmo Fellini, de quem interpretou a princesa austro-húngara Lherimia. Ou então, poderia evocar outras palavras inúmeras que foram proferidas por tantas outras gentes após sua morte recente, pouco depois de o inverno deste ano ter início (não, pouco depois de o verão deste ano ter início em seu hemisfério).

Poderia ainda fornecer um contexto mais geral e falar da Temporada de Dança 2009 do Teatro Alfa. Falar que os ingressos para as apresentações do Tanztheater Wuppertal Pina Bausch se esgotaram antes mesmo de a temporada começar, com o Grupo Corpo. Contar como, na ânsia de assistir a pelo menos uma apresentação, tive o privilégio de ir vê-la duas vezes, uma das quais no dia 22 de setembro, às vésperas do início da primavera.

Poderia dizer muitas coisas externas à própria coisa em si. Mas quando, ao som de uma melopeia conhecida de cor, entoada por um instrumento de sopro que creio ser um clarinete, a luz desnuda o corpo vestido de uma bailarina deitada sobre um pano vermelho vibrante num chão de terra marrom escura, tudo o que eu poderia dizer perde a importância ante o que é. Importa a coisa em si, assim como importam os rastros de luz que vão se acendendo, trazendo luminâncias para os caminhos das outras bailarinas que chegam para compor o imenso corpo de baile que vai sagrar a chegada da primavera, cujo início dista do tempo de então poucos instantes apenas.

Afinal, o que poderia eu acrescentar ao tempo sem quando, tempo ancestral e póstero, presentificado no ritual? Que palavras minhas substituiriam os pés dos bailarinos que sulcam a terra, terreno onde se enterra a semente da estupefação? Como descrever os movimentos que alteram também a minha respiração e dilatam meu existir para o interior de uma experiência sem nome (e a que, por falta de outra melhor nominação, chamo de fruição da beleza)? De que forma poderia eu anunciar os augúrios da primavera, quando fêmeas golpeiam o próprio ventre com a força de duas plenitudes, trazendo assombro e vigorosa esperança, se as profecias cíclicas do tempo de semeadura e colheita, de enunciado e recepção, são feitas de não-palavras, são corpo e som, gesto e música?

Não é possível descrever a exatidão de sincronias e diacronias, síncopes e espasmos, equilíbrios e assimetrias. Nem é provável que eu consiga escrever uma história do tempo cíclico, das mil mortes e renascimentos de tudo quanto há, com a minha noção de tempo encerrada numa nave chamada instante, que trafega incessantemente do ontem para o porvir. Fui apenas testemunha da dança das adolescentes, da dança da terra, do rito de adoração da terra. Mas sou uma testemunha sem a linguagem própria para reproduzir as rondas da primavera, os círculos místicos do interior dos quais surgirá a eleita.

“A Sagração da Primavera” é a descrição gesto-sonora do terrível. Trata-se de um sacrifício ritual, situado antes e depois de qualquer tempo em que haja alguma humanidade. Nesta época indeterminada, que pode ser agora, durante ritos de consagração da chegada da primavera, para permitir sua vinda uma adolescente é sacrificada. A vida nasce da morte. Após o fim de todas as coisas, a bênção da fecundidade garante o recomeço. “Sonhei com um rito pagão, um dia em que sacerdotes, sentados em círculo, assistiam à dança de uma jovem até a sua morte. Tratava-se de um sacrifício ao deus da primavera”. A gênese de sua partitura, concebida como uma convulsão imensa, foi assim revelada por Stravinsky, que dizia ser a primavera o acontecimento mais maravilhoso de sua infância.

Antes, contudo, de se entregar ao ritual extremo, a eleita precisou ser glorificada. Somente os olhos que testemunharam esse rito e sua lancinante beleza, sua violenta sensualidade, são capazes de emudecer diante de sua lembrança. Por isso, não ouso descrever essa glorificação, durante a qual a eleita é vestida com o signo vermelho brilhante, sobre o qual uma bailarina havia inaugurado o rito de sagração.

Uma vez escolhida a eleita, é necessário evocar os ancestrais. A ancestralidade é a presentificação de toda a memória daquela comunidade. A ação ritual dos ancestrais é o encontro da história e da presença dos que precederam com a incerteza e o desejo de que muitas gerações se sucedam. Neste ponto, os bailarinos já se contaminaram pelo cenário, já que todo o espetáculo se oferece sobre um palco coberto de terra. A terra nos corpos e nas vestes parece lembrar o lugar que ocupam aqueles que já se foram. A eleita resiste olhar para a ancestralidade, pois sabe que em breve lhe fará companhia. Será a semente de toda terra e a garantia de seu cio.

Se alguma língua é capaz de descrever a dança do sacrifício, ela não se articula por meio de palavras. Ela é feita de música e dança. Somente ao testemunhar esses elementos é que o íntimo dimensiona a extensão terrível da beleza. Talvez uns versos de Rilke (que não foi testemunha dessa dança que sagrou a primavera que hoje se inicia em meu hemisfério e, quem sabe por isso mesmo, tenha sido exato em sua premonição) tateiem a descrição dessa dança:

Quem, se eu gritasse, ouvir-me-ia na hierarquia
dos anjos? E mesmo que um deles me apertasse,
de repente, ao seu coração: eu padeceria perante sua
existência mais forte. Pois o Belo nada mais é
do que o começo do Terrível que ainda suportamos;
e o admiramos porque, sereno, desdenha
destruir-nos. Todo anjo é terrível.

(Reiner Maria Rilke: Elegias de Duíno – fragmento da primeira elegia)

Essas são as palavras não ditas (ou mal ditas) no íntimo de quem está na plateia. Porque no centro do ritual, a jovem se entrega à destruição. Talvez ela mesma se transfigure, pouco a pouco, neste anjo terrível que desdenha destruir-nos e garante a fecundidade solar da terra e dos corpos. Não sem antes bailar toda sua dança, na qual (assim como na música) parecem estar presentes duas dimensões. Uma é a dimensão individual, que sente o temor e o horror da morte. A outra é a dimensão ancestral do rito que impõe o sacrifício. A segunda dimensão suplanta totalmente a primeira, não sem extenuar o corpo, os gestos, os movimentos e as expressões da eleita. Ela, rubra, se lança aos espasmos e às convulsões de uma dança que só será interrompida quando a dimensão incomunicável da vida ascender, como uma espécie de alma, junto à última nota aguda gritada pela flauta, e a dimensão perecível do corpo tombar na terra junto à derradeira massa sonora emitida pela orquestra. Seu corpo adubará a terra e sua alma, a ancestralidade.

Depois de ser testemunha inerte dessa crueldade, desse “belo pesadelo”, tive a sensação de que um anjo terrível me habitava. Ao contrário do que aconteceu no ensaio aberto a que assisti no domingo, ontem mal consegui aplaudir, ao fim do espetáculo. Sentia-me extenuado, como se fizesse parte do corpo de baile que agradece os meus parcos e fracos aplausos (e os sonoros e entusiasmados aplausos do público). Sentia-me possuído por minhas lembranças. Pelos ecos dos pés que sulcaram a terra. Pelos espasmos da donzela que bailou até cair morta.

Aproveitei a justificação de deixar descer a massa e me coloquei de pé, num ponto mais tranquilo, para que eu não fosse incomodado pela pressa de ir embora. Encarei o palco vazio. A terra marcada, vincada por tantos pés. Sei que muito da terra impregnou-se nos corpos dos que dançaram o ritual. Mas compreendo que muito dos corpos se impregnou naquela terra. Precisava de algum tempo em silêncio, contemplando aquele vazio tão repleto.

A primavera estava sagrada dentro de mim, nalgum desvão que desconfio ser íntimo. Se pudesse, me sentaria em alguma daquelas cadeiras então vazias e contemplaria o palco até o apagar de todas as luzes. E mesmo por trás da cortina do escuro eu o continuaria a ver, pois o que olhava naquele repleto palco vazio estava dentro de mim. Nalguma região impalpável, imarcescível, nominada memória. Compreendo que a morte de Pina Bausch guarda semelhanças com a morte da eleita. Ambas perpetuam a fecundidade do mundo. A companhia Tanztheater Wuppertal terá de aprender a frutificar sem ela, mas por meio dela e de sua incomunicável ausência. Acho que os semblantes silentes que recebiam tantos aplausos e o meu silêncio (que era também uma forma de aplaudir) sentiam, de certa forma, isso.

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Eu deveria ser justo e escrever com o mesmo fôlego sobre a primeira parte do programa: “Café Müller”. Uma coreografia tão forte que a reconheci, no domingo, imediatamente, sem saber de onde. Um jogo cênico que vi por alguns breves instantes num filme do Almodovar (algo que só “descobri” no dia seguinte) e que se instalou numa região, até então, inacessível da memória.

Verdade seja dita, no entanto. A força da coreografia só se revelou em plenitude na apresentação de ontem. No ensaio aberto, faltou algum vigor e a coreografia me chegou lacunar. Trata-se de uma das poucas coreografias que Pina Bausch dançava na companhia. E foi depois de ver aquela coreografia que Fellini conheceu Pina Bausch e a convidou para fazer seu filme “E la nave va”.

A apresentação, nessa semana, de “Cafe Müller” (obra para seis bailarinos) e “A Sagração da Primavera” (obra para 42 bailarinos) parece encerrar um ciclo da coreógrafa. Ou, pelo menos, encerrar um ciclo no País, junto ao público brasileiro. Foi com elas (e mais uma chamada “Pátio de encontros”) que a companhia de Pina dançou pela primeira vez, em 1980, no Brasil. O País a influenciaria em suas obras seguintes, ambas de 1982: “Valsas” e “Cravos”. Pina Bausch considerava “Valsas”, que trazia onze músicas brasileiras, um espetáculo sobre o Brasil. A outra coreografia lançada no mesmo ano, “Cravos”, trazia ainda três músicas brasileiras.

Pois bem, eu deveria escrever também sobre “Café Müller”. Mas, assim como acontece com a “Sagração da Primavera”, minhas palavras jamais substituiriam a experiência de testemunhar o próprio espetáculo. Ainda mais num caso em que se corporificam os abismos da incomunicabilidade. A perturbação provocada pelas recorrências e a assombrosa beleza de certas imagens só se registram na retina… e nos ouvidos. Não nas palavras. E como já as usei em demasia, neste ponto eu me calo.

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