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Posts Tagged ‘Primavera’

Nesse tempo setembrino

Peço que o ritmo do verso
me setembre, e que floresça
em meus dedos todo espanto,
me alçando às portas do êxtase.

Que o sorriso em mim verdeje
e crie raízes fortes
no que eu chamo de meu cerne –
mais palpável do que essência.

Que o sal da terra tempere
os usos de minha língua
bem ao gosto do destino.

E, por fim, que primavere
em meu veio a própria vida
nesse tempo setembrino.

Primavera - Giuseppe Arcimboldo

Primavera – Giuseppe Arcimboldo

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Primavera dos seres

O fato é que muitas vezes
existir é um delírio,
noutras tantas um martírio
determinado por deuses.

Para fugir desta lida,
nós somos o que queremos,
nós somos o que fazemos
das horas de nossa vida.

Condenados à existência,
engendramos resistência
nos gozos e nos prazeres.

Desejamos ser loucura:
luzes de uma noite escura
e a primavera dos seres.

Foto: Fabiana Turci | Laboratório dos Sentidos

Foto: Fabiana Turci | Laboratório dos Sentidos

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Na entranha da terra,
um raio de amor
por tudo se alastra.
Eu já posso ouvir
a sacra quentura
do fecundo chão

enchendo horizontes
de vivos tons verdes.
Vencendo o impossível
dos tempos cinzentos,
das eras sem luz,
o corpo floresce.

Por isso, os mistérios
de cada equinócio
foram celebrados
desde que a linguagem
fez sua morada
nas bocas humanas.

No ventre vermelho
de Gaia se gestam
as cores, as flores
que existem, resistem
e insistem tomar
seu quinhão de mundo.

E desta coragem
viva na semente
de tudo que somos,
ficamos sabendo:
a revolução
é na primavera.

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Imagem

Recebo, dos jardins de minha casa,
lições sobre os silêncios desse tempo
imperscrutável. Insondável. Íntimo.
Vasculho a intimidade dessa terra
com água, fazendo evolar seus cheiros.
Ouço os marulhos úmidos do chão.
Ouço os sussurros líquidos da terra
a brincar com raízes, e moldando-as.
A agudeza de inumeráveis folhas
represa luminâncias lá do sol.
Com elas e dejetos desse solo
perfaz toda matéria de seus corpos.

Na escuridão de cova bem profunda
a raiz retrabalha seus clarões.
No dentro, a luz se torna seiva bruta.
O silêncio voraz dessa alquimia
verdeja o mundo inteiro. Cora as flores.
Forja até a doçura do que é fruto.
E nódoa a nódoa o tronco então se faz
mais lenhoso, se passa mais o tempo
e bem mais se acumulam primaveras.
Sonhados por sementes, os percursos
dos galhos, das raízes e das folhas
delineiam as vastidões dos bosques.

E é meu. E é infinito meu jardim
forjado pelos sonhos das sementes.
Cada espécime vive os próprios ciclos
além da vida una à própria espécie.
E todo ser brotante à minha volta
leciona-me os ensinos de estações:
o cansaço, o hibernal recolhimento,
as brotações e a exuberância quente;
a seminal latência e a floração.
Vejo que mesmo as plantas sobrevivem
às violências, e também se tornam
outras, já bem diversas de si mesmas.

As lições dos jardins de minha casa
são onde tempo e espaço se conjugam,
onde espera e labor se moldam, mútuos,
na história e direção de cada galho.
Nesses jardins eu flagro o ser maduro
forjando seu caráter inda verde,
indicando seu êthos ao brotar,
ganhando e dividindo o próprio chão.
Nessa terra tão íntima e fecunda,
tão limitada e imensa, brota a flora
que flagro dar-se a mim, enquanto rego,
observo, adubo, moldo, amo e narro.

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