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Posts Tagged ‘Potestade’

A alegria é o presente do amor. A tristeza é o preço do amor. A raiva é a força que o protege. Esta foi minha terceira lição de amor revolucionário. Nós amamos a nós mesmos quando respiramos no fogo da dor e recusamos a deixá-la transformar-se em ódio (1).
– Valarie Kaur

Há exatamente uma semana, Marielle Franco foi executada. E até hoje, eu não havia conseguido digerir em palavras essa dor política. A dor de uma morte violenta choca sempre, especialmente num país em que os números da violência urbana superam os números de países em guerra. Abre a chaga latente que nos faz sentir que estamos todos vulneráveis. Uns bem mais do que outros, é verdade.

Escrevo agora, não apenas por Marielle, ou por Anderson, seu motorista que também se tornou alvo incidental. Eles já foram mortos covardemente e nenhuma palavra poderá fazer o tempo retroceder. Não escrevo por suas famílias, que lidam com a dor íntima da perda e a lacuna que a partida de uma pessoa querida deixa. Desde os primeiros momentos, eles lidam com o desafio de viver o recolhimento de um luto que também tem uma dimensão pública. Tampouco escrevo por uma obrigação de dizer qualquer coisa. Vozes mais qualificadas e representativas vêm ecoando a luta e o luto por Marielle. Escrevo para fazer o exercício fundamental que sempre foi a escrita para mim: a oportunidade de colocar as ideias no lugar, diante do assombro. Seja o assombro diante do sublime (que frequentemente me leva à literatura), seja diante do absurdo, que encontra não apenas na literatura, mas em textos tateantes como este, uma forma de dar vazão e significado ao que não tem sentido, nem nunca terá. Porque nossos olhos sempre ardem por compreender e interpretar as coisas. E assim cosemos nossas precárias explicações sobre o mundo.

Há uma semana eu estava trabalhado no computador e entrei num site de notícias e li uma matéria, publicada mais ou menos naquela hora, que falava da morte de uma vereadora do PSOL. Naquele momento (sempre somos bastante autorreferentes), meu primeiro susto foi o local, relativamente próximo de dois locais em que morei no Rio, um deles em que minha mãe e minha irmã moram até hoje.

Mas o espanto ao ler a matéria se transformou. Pelo que estava escrito, havia indícios de que se tratava de uma execução, o que se confirmou depois. Era, portanto, um crime que vinha em resposta à atuação política da ex-vereadora. O leque de suspeitos é grande, de policiais que cometeram abuso de poder e foram denunciados a milicianos.

Os dias que se seguiram prolongaram o assombro. Foram dias de peso e perplexidade. Pelo ocorrido e pelos desdobramentos dessa morte. Pois à dor pessoal de quem perdeu Marielle se somou a dor política de uma parcela do país que anda sedenta por justiça e paz. Um luto de milhões acabou invadindo o luto particular da filha, da companheira, da irmã, dos pais e dos amigos de Marielle. A família, certamente, sofre a impossibilidade do recolhimento, nesse momento de dor tão íntima. Mas segue lutando, para dar sentido à essa perda. Ou muitos sentidos.

Por mais que até o momento não se tenha nenhuma certeza sobre quem seriam os responsáveis por esse crime, as investigações mostraram claramente que o carro em que estava a vereadora foi seguido desde o evento de que ela participou, na Lapa (região central do Rio de Janeiro), até o local da execução, a cerca de quatro quilômetros. A munição usada foi comprada originalmente pela Polícia Federal e desviada, sabe-se lá sob que circunstâncias. O que se sabe é que se trata do mesmo lote de munições usadas em crimes nos locais mais variados, tanto no Rio de Janeiro quanto fora do estado. O principal deles foi a chacina de Osasco, a maior ocorrida no estado de São Paulo. Cometida por policiais militares (e um guarda civil) que teriam vendido parte dessa munição para PMs do Rio.

Mas a perplexidade não estancou aí, na morte brutal e premeditada, e na proliferação de suspeitos. Depois de morta, Marielle não esteve imune ao ódio que parece se alastrar como praga pelo país. Não basta matar a mulher. Muitos querem também apagar sua memória. Na falta de fatos concretos, proliferam mentiras. Numa ampla campanha difamatória, afirmaram que ela era ex-esposa de um traficante, teria sido eleita com apoio do tráfico e que sua morte estaria ligada a uma suposta troca de facção criminosa. Quando não apelam para mentiras, se valem de lógica deturpada. Como a afirmação de que, por defender bandido, ela acabou sendo morta por eles, num claro movimento de responsabilizar Marielle pela própria morte.

Toda essa campanha difamatória acaba apagando o caráter político de sua morte. Além disso, ela funciona como uma espécie de recado velado a toda pessoa que defende os direitos humanos, um alerta insinuando que “o próximo pode ser você”. Isso é extremamente preocupante, ainda mais nesse momento, pouco mais de um mês depois de o comandante do Exército, o general Villas Boas, declarar que os militares precisam ter garantia para agir sem o risco de surgir uma nova Comissão da Verdade. Isso no início de uma intervenção federal no Rio de Janeiro da qual o presidente em exercício pretende obter ganhos eleitorais.

Há ainda uma terceiro aspecto que essa campanha difamatória cumpre, que eu só compreendi ao assistir a um vídeo (que reproduzo aqui, ao fim deste texto) de uma ativista norte-americana, de origem indiana, chamada Valarie Kaur. Cheguei a esse vídeo também pela Fabi, que o assistiu no dia seguinte à morte de Marielle. Ela disse que passou todo o dia com um nó na garganta, pensando em como seguir, e então foi atravessada pelo vídeo e voltou a respirar. No vídeo, Valarie diz o seguinte:

“As histórias podem criar o milagre que transforma estranhos em irmãs e irmãos. Esta foi a minha primeira lição do amor revolucionário – que as histórias podem nos ajudar a não vermos estranhos.” (2)

Essa foi a chave que me fez ver que é um risco, para um sistema de pensamento pautado pela raiva, tomar contato com a história do outro, que pensa e age de forma distinta. Pois isso pode minar essa raiva, dissipar esse ódio. Encontrar a humanidade nessa alteridade pode parecer inaceitável. Por isso também é tão importante destruir reputações. Se eu vejo uma pessoa como Marielle, que milita em favor dos direitos humanos, como oponente, eu não posso descobrir que ela é tão semelhante a mim em seus sonhos, seus medos, suas alegrias. Não posso sentir como legítimas as lágrimas de quem chora por sua partida. Preciso desqualificar a memória de quem parte e o luto de quem chora essa perda. Além de desencorajar quem segue pelo mesmo caminho.

Como alguém que é atingido por esse recado que desqualifica a dimensão política da morte de Marielle, me vi impelido a tentar ouvir essas críticas e refletir sobre sua origem. Sobre que mundo é esse, que torna possível a articulação desses discursos.

Quem defende os Direitos Humanos defende bandidos?

Uma das primeiras tentativas que vi de culpar Marielle pela própria morte foi uma imagem amplamente compartilhada (inclusive por um vereador de São Leopoldo pelo MDB), com uma foto da ex-vereadora e os seguintes dizeres: “Trate bandido como vítima e um dia a vítima será você”. Essa frase tem como pressuposto que quem defende o respeito aos direitos humanos é contra a punição a quem comete crimes. E tem um segundo pressuposto, ainda mais complicado, que é o de que a criminalidade estaria ligada à pobreza. Os dois pressupostos são, no entanto, falsos.

Quem defende os direitos humanos se opõe à execução de culpados (e, não custa lembrar, também inocentes) por agentes que detêm o monopólio do uso legal da força (a polícia). Ou seja, defende que quando se flagra alguém cometendo um crime, o criminoso deve responder por seu ato perante a justiça. No entanto, num país com alto índice de violência e forte sensação de impunidade, defender o devido processo legal soa como defender que criminosos não paguem pelo que fizeram.

Opor-se a execuções por grupos de extermínio ou ao linchamento (no Brasil, algumas fontes apontam a média de um linchamento por dia) é ser contrário à prática do justiçamento, da vingança. E defender que mesmo quem comete um crime deve ter alguns direitos básicos garantidos, como o direito à vida, o direito de não ser considerado culpado sem um devido processo legal, o de não sofrer tortura e outras penas cruéis e desumanas, entre outros.

Quem defende os direitos humanos não defende a impunidade e, muito menos, supõe que bandidos sejam vítimas da sociedade. Afinal, há criminosos ricos e pobres. A ausência de Estado em locais mais periféricos apenas permite que criminosos ajam com mais liberdade, aumentando a sensação geral de insegurança e submissão ao crime. Mas muito dificilmente na mais violenta das favelas a porcentagem de ligadas a atividades criminosas será maior do que, por exemplo, no Congresso Nacional. Portanto, bandidos não são vistos como vítimas da sociedade por quem defende os direitos humanos. Mas é evidente que quem milita nessa área vai se opor à criminalização da pobreza.

Aqui, lembro a crítica tecida por um procurador do Ministério Público Federal sobre quem se podem tecer várias críticas, menos a de ser a favor da impunidade. Deltan Dallagnol, coordenador da força-tarefa da Lava Jata no Paraná, foi uma das muitas vozes que se insurgiu contra o absurdo mandado de prisão coletivo que se pretendia expedir em determinadas regiões (pobres) do Rio de Janeiro, no começo da intervenção no Rio. Seguindo a tradição de defesa dos direitos humanos, que marca o MPF, o procurador declarou que “se cabem buscas e apreensões gerais nas favelas do Rio, cabem também nos gabinetes do Congresso”.

Quem defende os direitos humanos não liga quando morre um policial?

Outra crítica comum contra militantes e organismos que trabalham em favor dos direitos humanos é que esses organismos e essas pessoas agiriam quando se executa um bandido, mas não fazem nada em relação aos policiais que morrem. Esse tipo de crítica frequentemente é feita por quem não costuma se engajar quando ocorre a morte de policiais e certamente não sabe que no Rio (estado que tem a segunda polícia que mais mata e a primeira que mais morre no país), a Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa realiza um trabalho de apoio aos parentes de policiais mortos. A própria Marielle, quando era assessora do deputado estadual Marcelo Freixo, trabalhou nessa comissão. O ex-chefe do estado-maior da PM no Rio, que acompanhou e incentivou esse trabalho desde o início, se manifestou homenageando Marielle Franco e pedindo que cessassem as tentativas de macular sua memória com boatos e notícias falsas.

Quem defende os direitos humanos não está preocupado com quem é vítima da violência?

Não é raro ouvir que quem defende os direitos humanos cobra investigação quando um bandido é morto, mas ignora as pessoas que morrem vítimas da violência urbana. Essa crítica talvez se fundamente no fato de que vítimas de crime buscam amparo nas forças de estado (polícia e judiciário), enquanto militantes em prol de direitos humanos costumam ser mais ouvidos quando é um agente de estado que comente um crime (o que pode deixar a vítima desse crime órfã de amparo). No entanto, pessoas que defendem os direitos humanos têm forte preocupação acerca de que modelos de segurança pública o país utiliza. Isso porque é impossível conceber um estado que garanta os direitos humanos se os direitos básicos à vida e à segurança não são garantidos.

Evidentemente, os modelos de segurança podem divergir. Mesmo entre os grupos que militam em prol dos direitos humanos. Em geral, no entanto, esses grupos tentem a preferir uma polícia desmilitarizada ou, no mínimo, com uma melhor formação para o respeito aos direitos humanos (a desmilitarização foi recomendada em 2012 pelo Conselho de Direitos Humanos da ONU, num relatório que continha 170 recomendações diversas ao país — mas essa recomendação sobre a política não foi aceita pelo então governo). Também tendem a apoiar restrições ao porte e uso de armas pela população e a progressiva descriminalização das drogas. E contrários, em geral, à pena de morte. Até aqui, há o espaço para divergências, pois se trata de modelos de políticas de segurança pública. No âmbito do inegociável, esses grupos costumam defender de forma incisiva os cidadãos contra torturas, execuções, abusos de autoridade, buscando proteger o cidadão quando este é perseguido por agentes estatais e perde o amparo do próprio estado.

Sinto-me impelido a escrever sobre direitos humanos, pois o fato de Marielle Franco ter sido uma ativista dessa causa foi visto por muitas pessoas como motivo suficiente para questionar a gravidade de sua morte, ou para responsabilizar parcialmente a própria vítima pelo ocorrido. Além disso, há a difamação, que tem sido tão grave que um grupo de advogadas se uniu para rastrear os boatos contra a ex-vereadora, para encaminhá-los à Delegacia de Repressão contra Crimes de Informática. Elas pedem o seguinte:

“Se você se deparar com algum post de ódio ou que contenha alguma afirmação que difame a vereadora, salve uma cópia do material com o máximo de informações que puder, como o nome de quem fez o compartilhamento, link da postagem e do perfil da pessoa. Se tiver sido por WhatsApp, adicione também o número do telefone que te encaminhou a mensagem. Envie as informações para contato @ ejsadvogadas.com.br.”

Nos primeiros dois dias desse anúncio, mais de duas mil denúncias foram encaminhadas a esse grupo. Não devemos nos alarmar, pensando no alcance potencial das mentiras inventas. Essas duas mil denúncias testemunham algo poderoso, que é a intensa mobilização em torno da preservação de uma memória de luta.

Vivemos um tempo em que ter esperança é um exercício diário. Somos chamados a prosseguir e cada uma de nossas escolhas determina o lugar que ocupamos (ou desejamos ocupar) no mundo. Dá um alento saber que a morte de Marielle não produziu silêncio, e que atos se espalham pelo país. Enquanto vejo a dimensão dessas manifestações, canto mentalmente uma nova letra para uma velha canção. Quase ouço uma voz indistinta, entoando que “Mais que nunca é preciso cantar. / É preciso cantar e tomar as cidades.”

Se uma voz poderosa se cala, precisamos de dez novas que ressoem numa defesa intransigente das garantias e direitos que vêm sendo negados a tantos. Há tanto tempo! Vozes que se recusem a se deixar transformar em ódio. Que ocupem ruas, praças, tribunas e tribunais. Talvez nesses encontros surjam algumas dessas vozes.

Penso que é primordial aprender a usar os mecanismos de vigilância a nosso favor. Cada cidadão, hoje, tem a possibilidade de fiscalizar atos de agentes que detêm o monopólio da força. É importante que se saiba e se propague que qualquer cidadão tem o direito de filmar uma abordagem policial. Sabemos do risco de algo assim, pois forças autoritárias inventam regras que não existem para não serem fiscalizadas. Mas se estivermos em segurança, não precisamos hesitar de fazê-lo. Talvez estejamos contribuindo para criar uma cultura em que agentes públicos que detêm o monopólio da força sintam medo de infringir a lei. Como qualquer cidadão.

Certamente há ainda muitos caminhos a percorrer e a se inventar. Mas, por fim, registro que hoje fiquei feliz quando, conversando com a Fabi, ela me contou que há diversos grupos que vêm fazendo um resgate do trabalho e da memória de ativistas vivos. Contando histórias como a de Marielle, que infelizmente só se tornou conhecida após sua morte. E, como sabemos, “as histórias podem criar o milagre que transforma estranhos em irmãs e irmãos”.

____
(1) No original: “Joy is the gift of love. Grief is the price of love. Anger is the force that protects it. This was my third lesson in revolutionary love. We love ourselves when we breathe through the fire of pain and refuse to let it harden into hate.”

(2) No original: “Stories can create the wonder that turns strangers into sisters and brothers. This was my first lesson in revolutionary love – that stories can help us see no stranger.”

Marielle Presente! Atos se espalham pelo país.

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os coturnos ecoam até aqui
manchando as ruas de terríveis
reminiscências

ouve a marcha dos soldados?
assinaram um papel
autorizando o emprego das forças

armadas
para quem não marchar direito

enquanto isso o concreto modernista
fincado na caatinga
por suaves linhas repletas
de eufemismos

pega fogo

no dia anterior
derrubaram um prédio
com gente dentro

quase gente talvez

e todo dia
pega fogo
chumbo quente
e bala dirigida
teleguiada, mas nunca

perdida
em distâncias tão vizinhas

o tempo é de temor
pois jamais nos recuperamos
de 1964

São Paulo, 25 de maio de 2017.

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se eu acreditasse
num deus

não seria no seu

que se vinga para sempre
da ignorância
e da fragilidade humanas

que demanda louvores uníssonos
ou destina quarenta virgens
para serem eternamente
estupradas por assassinos
que explodem pessoas aleatórias
e o próprio templo-corpo
em nome da pureza da fé

que é menos capaz
de acolher o múltiplo e o diverso
do que a própria humanidade

que não ri condescendente
das estranhezas do comportamento humano
como pais riem
dos pensamentos pueris
de seus filhos pequenos

se eu fosse tocado pela graça
de crer em alguma coisa para além
da agnosia
minha divindade seria

mais mãe do que pai
mais Gaia do que Yahweh
mais terra do que céu
mais água do que fogo
mais fecundidade do que ascese
mais mística do que dogma
mais andrógina do que máscula

mais amor

do que o amor condicional
dos deuses
em que jamais fui capaz de crer

 

Gaia - Desktopography 2012, by TheLGX

Gaia – Desktopography 2012, by TheLGX

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I – Armagedon

É todo dia que ocorre
a luta do fim dos tempos,
quando bombas e agressões,
lamas tóxicas, misérias
e execuções calam vidas.

É que o juízo final
também acontece agora.
Todo instante então povoa
o tempo do apocalipse
presente em cada morte.
.

II – Gênesis

No sem-fim desse universo
que talvez seja espelhado
ou até caleidoscópico,
um deus qualquer faz a luz
que sai de um buraco negro.

A cada vida que surge,
o princípio de algum verbo,
no próprio dia primeiro
de alguma criação qualquer,
abre um eterno retorno.

quinzenario0035

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A fúria indômita das águas

Vi que a fúria da água é incontida.
Ela invade em silêncio a concretude
de paredes. Alastra-se amiúde.
Não encontra represa nem na vida.

Eu sei que a água em fúria é impelida
a seguir, sem que nunca nada mude
seu ímpeto envolvente. Na inquietude
de seu fluxo, ela quase nos convida

ao seu íntimo, num afogamento.
E não cabem recusas nesta teia
que é, de fato, ordem líquida ou tormento.

Essas vagas arrasam coisas, mágoas
e construções, que somem como areia
cedendo à fúria indômita das águas.

Claude Joseph Vernet - Un naufrage en mer agitée sur la côte

Claude Joseph Vernet – Un naufrage en mer agitée sur la côte

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Panorámica de la Mano del Desierto - Desierto de Atacama (Chile)

Panorámica de la Mano del Desierto – Desierto de Atacama (Chile)

É preciso olhar lá fora. Há pólvora e palavras inflamáveis por todo lado. Uma dureza nos olhos dos passantes, um desejo inominado de vingança contra o que não tem rosto ou voz.

De onde vem tanta gente saudosa de disciplinar os corpos? Desejosa de impor suas normas? Empenhada em converter o mundo à sua moral? Uma moral que não acolhe, mas extirpa a diferença.

As feiticeiras continuam sendo assassinadas pela turba raivosa. Ainda que seus atos sejam boatos. As cicatrizes da História ainda estão expostas sobre a pele dos dias. Em tempos de fria desesperança, elas doem mais.

A humanidade olha para os lados, perdida. O pó das utopias é insuficiente. Não direciona os passos nem promete coisa alguma. Apenas testemunha o que ruiu.

Resta perguntar: para onde vamos? Com espanto, não com cinismo. Talvez da incerteza surja algum alento. Talvez nalgum asfalto brote uma flor. Talvez uma resposta poética desafie nossa era de eficácias momentâneas. Talvez, talvez, talvez.

É preciso olhar lá fora. Há pólvora e palavras inflamáveis por todo lado. Uma dureza nos olhos dos passantes, um desejo inominado de vingança contra o que não tem rosto ou voz. Mas há também enormes desertos nos entremeios do ódio, demandando os contrapontos da presença, do afeto e do acolhimento. Se bem que isso nunca deixou de ser.

Agora resta habitá-los.

Imagem alterada da contracapa do LP "A Rosa do Povo", de Martinho da Vila

Imagem alterada da contracapa do LP “A Rosa do Povo”, de Martinho da Vila

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(em diálogo com Beatriz Pagliarini Bagagli)

Habitar com o corpo
uma falha discursiva
e resistir

mesmo que tudo diga que assim
não pode, não deve
existir.

Manter-se na pólis,
ainda que tacitamente
decretos de exílio

estejam publicados
na boca do povo,
na voz de um deus.

Lutar contra o controle
da singularidade dos sujeitos
sujeitando corpos – indóceis? –  a padrões

e domando a política dos quereres.
Permanecer atento para escutar
o que costura as bordas do Fora.

Opor-se ao arbítrio de normas,
interdições e regramentos
que não digam respeito às margens
de convívio com os outros.
Estar no Outro,

no diverso e no estranho.
Ser o provisório
universo do desejo,
o verso vermelho de carne
que sangra palavras.

Apropriar-se de si.

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Publicado originalmente no Transfeminismo.com.

Quem acompanha o blog já deve ter percebido como a questão da linguagem para nós não é secundária. Desnaturalizar a transfobia significa questionar certos efeitos de sentidos que tomamos como evidência: sobre homens, mulheres e “os trans”. E toda vez que questionamos certos sentidos já dados sobre essas categorias (ou poderia dizer, identidades) a questão da língua entra inevitavelmente. E isso não significa que estamos falando sobre algum sentido sobre as palavras que estaria escondido que seria em última instância verdadeiro, e que a língua portanto seria uma abstração virtual que comportaria esse sentido unívoco para a prática política. Ao contrário, a política se dá na exata medida em que a língua é capaz de falhas. O que significa também entender que a prática política – assim como o discurso – é um processo sem começo nem fim pré-determinados.

Decidi que seria interessante publicar dois comentários que Teofilo Tostes Daniel fez em uma publicação pública no facebook de Daniela Andrade em uma discussão sobre a imagem da página Era de Cisperar. Apaguei algumas marcas de interlocução (os seus nomes) no texto a quem Teofilo estava se dirigindo, já que ele estava dialogando com outras pessoas no post. Mesmo assim, como podem ver, trata-se de um texto que merecia ser publicado para além dos efêmeros comentários do facebook.

Bia Pagliarini Bagagli

***

Retirado da página "Era de Cisperar"

Retirado da página “Era de Cisperar”

Minha leitura dessa imagem não me remete a possíveis erros, que certamente ocorrem, causados por desconhecimento — embora a língua não seja neutra e ela também guarda, em sua estrutura, os preconceitos da sociedade (basta lembrar que palavras como ídolo e gênio não têm feminino, e que, ao nos referirmos a um coletivo com pessoas variadas, utilizamos sempre marcas linguísticas no masculino). Eu sou uma pessoa cisgênera. Mesmo não estando no lugar de quem pode falar com alguma autoridade — pois não tenho a vivência transgênera, ou entre-gêneros –, vejo muitos estudos acadêmicos, supostamente sérios, reproduzindo… a ignorância.

Vale lembrar que as pessoas transgêneras sofrem de uma permanente invisibilidade em relação a vários aspectos da vida quotidiana. Aspectos que a nós, cisgêneros, parecem ‘normais’, como o fato de ninguém estranhar que meu nome na identidade difere da imagem que eu tenho e passo às pessoas no convívio social. Aliás, para ser o que sou não preciso de um atestado médico falando… que eu tenho um transtorno psiquiátrico!

E no caso da figura, há um agravante: a exclusão de pessoas trans* do espectro de homens e mulheres. Homens trans* são homens e mulheres trans* são mulheres. Parece tautológico ter de repetir isso, mas no atual estado de coisas, não é ainda. Claro, há também pessoas não-binárias. Mas trans* não são, necessariamente, uma categoria, ou um outro gênero, fora do gênero masculino ou feminino. Agora, se alguém “foi lá falar sobre gênero” — e eu leio esse lá da figura como o lugar do “legítimo” saber, do poder de dizer da taxonomia do mundo, lugar esse que comumente é ocupado por pessoas cisgêneras –, talvez fosse de “cisperar” que essa pessoa ao menos não reproduzisse o preconceito do senso-comum.

Além disso, a língua é uma construção, ela não muda por decreto. Muitas vezes alternativas irrompem para responder a um silêncio, a uma não-nomeação de algo que demanda um nome. Por exemplo, o termo cisgênero. Eu aprendi pela linguagem que tinha à época — cresci nos anos oitenta — que a oposição às pessoas transgêneras — que eu basicamente identificava como travestis — eram as pessoas… normais. Particularmente, eu não achava as travestis anormais. Mas minha estrutura de pensamento não dispunha senão do repertório linguístico que reproduzia a ideia de que as travestis — e, na verdade, qualquer pessoa transgênera — não era normal. Faltava-me exatamente a palavra cisgênero! Aliás, é sintomático que o corretor ortográfico automático do meu Google Chrome grife como errada a palavra cisgênero e não aponte erro na palavra transgênero. Tocando essa questão, vale muito a leitura desse texto magnífico, que mostra a relação entre o irrompimento da noção de cisgeneridade e a possibilidade (política) de contestação da normatividade cisgênera.

No caso dessa imagem do post: Por que alguém que vai falar sobre gênero não poderia dizer, por exemplo, “os homens, as mulheres e as pessoas não-binárias”? Simples, direto, inclusivo e, me parece, mais respeitoso com o estar-sendo de cada um.

Longe de mim dizer o que é certo e errado, sobretudo no campo da linguagem. Em especial no que deve ser ou não dito para se referir a pessoas trangêneras, tendo em vista que eu sou uma pessoa cisgênera e o que me cabe nesse campo, se eu quiser respeitar as pessoas trans* — e minha opção é sempre pelo respeito –, é estar atento a como as pessoas pedem que eu me refira a elas.

Vamos voltar um pouco no tempo, num tempo em que eu não era sequer nascido. No tempo dos meus avós, quando era comum pais esconderem em casa filhos deficientes — sobretudo com deficiência mental ou graves problemas físicos. Nesse tempo, era “aceitável” se referir a deficientes físicos como aleijados, coxos, mancos, aleijões, etc. E a deficientes mentais como retardados, mongóis, débeis, entre outras coisas.

Eu sou deficiente físico. Como cresci nos anos oitenta, só se referiam a mim como aleijado quando queriam me xingar — e há crueldade também entre as crianças. No entanto, não era sequer aceitável que numa conversa educada, alguém falasse de mim como “aquele aleijado”, ou “aquele coxo”. Mas nesse tempo, ainda não era tão incomum as pessoas se referirem, em conversas normais, a um deficiente mental como “mongol”, “débil” e até “retardado”. Hoje isso não é aceitável, e o comum é falar que alguém tem “deficiência mental”, ou designando pelo tipo de deficiência, como “down”, etc. Lendo o livro Holocausto Brasileiro, que conta a história do manicômio de Barbacena, o maior hospício do país no Século XX, onde mais de 60 mil internos morreram das formas mais horríveis — frio, fome, choque, etc. — é possível intuir sobre o porquê esse estigma perdurou mais.

Coincidentemente, com a mudança no uso quotidiano das palavras, vemos o crescimento da preocupação com a acessibilidade e com a educação inclusiva. E mesmo que estejamos muito longe de estarmos num mundo acessível, é nítido que as pessoas se constrangem quando se defrontam com a inacessibilidade dentro de seus próprios espaços — lojas, supermercados, etc.

Agora vamos pensar na forma de nos referirmos à homossexualidade. Esse paralelo que traço é para pensar grupos que sofrem com estigmas. Nos anos 80, era bem comum dizer que fulano era bicha, por exemplo. E também gay — que é uma palavra aceita, leve e que não tem um sentido de xingamento. Lésbicas eram invisíveis — conheci pessoas que sustentavam seriamente que não existiam lésbicas, e era só um “homem de verdade” chegar nelas, que elas “cederiam”.

Em contrapartida, a dicotomia não era entre os gays/bichas e os héteros, mas entre os gays e os normais. Lembro que em meados dos anos 90 é que os termos homo e heterossexuais passaram a ser mais usados. A primeira vez que eu ouvi o termo homofobia, por exemplo, deve ter sido lá para 96 e 97 — não estou falando do seu surgimento, claro, que eu nem sequer sei como foi. E é claro que, sendo hétero, provavelmente eu deva ter conhecido esse termo depois dos meus amigos gays.

Obviamente, ainda existe muito preconceito contra os homossexuais, que só recentemente vêm tendo alguma paridade (ainda precária) de direitos, em suas uniões, com relação às uniões heterossexuais. Mas é de se notar que a popularização dos termos hétero e homossexuais se deu de forma mais ou menos concomitante com o crescimento do movimento que ainda em meados dos anos 2000 eu conhecia como GLS, que não só lutou contra a homofobia, mas também pela conquista de uma série de direitos negados. Essa popularização levou, inclusive, a setores mais conservadores da sociedade a inventarem a bizarrice do “orgulho hétero”, algo que seria impensável nos anos 80 porque os gays, na fala popular, não estavam em dicotomia com os héteros, mas com os “normais”.

Adentrando agora ao campo da transgeneridade — ou da cisgeneridade compulsória, sempre invisível e condenando pessoas transgêneras a serem opostas conceitualmente às pessoas “normais”: Além de a conquista de direitos estar ainda engatinhando — e não existir uma lei que permita e simplifique a mudança de nome é um índice do quanto os direitos básicos são negados a essa parcela da população –, as referências desrespeitosas às pessoas transgêneras ainda são socialmente aceitas. Não raro se fala “as travas”, “os travecos”, “as/os trans”, “o transexual” (quando se trata de uma mulher trans), etc.

E sobre a questão que a Daniela levantou, de que ela não é uma trans, isso faz muito sentido. A Daniela realmente não é uma trans, mas sim uma mulher. Uma mulher trans. Quando alguém se refere a ela como uma trans, há o apagamento do fato de ela ser uma mulher e, eu arriscaria até, o apagamento de que ela é uma pessoa. Metonimicamente, ela se torna apenas algo que a caracteriza, que a constitui. Deixa de ser um todo e se torna uma parte. E, “coincidentemente”, a parte considerada pela sociedade como “abjeta”. Em contraposição, eu jamais serei o cis — e nem qualquer mulher cisgênera será a cis. Quem se referir a mim, falará “daquele homem”. Sim, é verdade que há uma elipse quando nos referimos a alguém como “a trans”, mas existe uma construção social que leva a essa elipse que reforça preconceitos. E eu arriscaria dizer, mesmo sendo uma pessoa cis e não tendo a vivência da experiência transgênera, que essa elipse tende a significar o apagamento ou a desumanização da pessoa trans. A elipse de seu ser no mundo.

E os exemplos que ela usa são ótimos. Alguém fala que “a cis foi à praia”? É tão nonsense, que não dá sequer para imaginar isso. No entanto, com mulheres trans, isso deveria ser aceitável? Por quê? Aliás, a maior parte das pessoas cisgêneras nem sabem o que isso significa. E há também quem, sabendo o que é, se recusa a aceitar essa categorização, como se ela fosse um absurdo, ou até uma ofensa. Afinal, haveria, por exemplo, as mulheres trans e as… biológicas? Uma nova forma de dizer normais, opondo a suposta “natureza” da pessoa cisgênera a uma espécie de engodo ou artificialidade dos corpos das pessoas trans? Isso não se parece, inclusive, com um discurso religioso fundamentalista?

Bom, eu acho que não dá para ignorar o poder das palavras e da nominação do mundo. Poder dizer o que as coisas são é uma forma de poder. Por isso, existem disputas de nomenclaturas. Existe o esforço de precisão ou rejeição de termos. Não fossem as palavras tão importantes, no distópico 1984 George Orwell não conceberia um mundo capaz de criar a novilíngua — e muito menos pensar no que politicamente isso significa. Essa minha visão, porém, pode ser um defeito do olhar de quem trabalha com palavras…

Transfeminismo

Quem acompanha o blog já deve ter percebido como a questão da linguagem para nós não é secundária. Desnaturalizar a transfobia significa questionar certos efeitos de sentidos que tomamos como evidência: sobre homens, mulheres e “os trans”. E toda vez que questionamos certos sentidos já dados sobre essas categorias (ou poderia dizer, identidades) a questão da língua entra inevitavelmente. E isso não significa que estamos falando sobre algum sentido sobre as palavras que estaria escondido que seria em última instância verdadeiro, e que a língua portanto seria uma abstração virtual que comportaria esse sentido unívoco para a prática política. Ao contrário, a política se dá na exata medida em que a língua é capaz de falhas. O que significa também entender que a prática política – assim como o discurso – é um processo sem começo nem fim pré-determinados.

Decidi que seria interessante publicar dois comentários que Teofilo Tostes Daniel…

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É tempo de silenciar e viver
da falaciosa segurança que nos aprisiona
em nosso ódio,
em nossa impotência,
em nossa indiferença,

em nossos medos.

É tempo de mascar o ópio festivo
da ordem,
da normalidade,
do progresso,

da mediocridade do ouro.

É tempo de seguir a jurisprudência da desumanização
que permite a injustiça,
que garante o arbítrio da força,
que indefere a escrita

de um poema para nossos tempos.

É tempo de permitir, em nome da paz,
que atirem bombas em nossa rua,
que invadam nossa casa,
que sujem nossas mãos com as armas do crime,
que violem nossos corpos

para que se celebre a violência inominada
de nossa omissão.

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Amanhã é um dia para não ser celebrado. Mas é preciso lembrá-lo e, sobretudo, é preciso enxergar seus revérberos contínuos em nossos dias. Saber que o silêncio e a impunidade continuam a gerar silêncio e impunidade, tortura institucionalizada e dor.

É imprescindível olhar para trás com o incômodo de termos permitido que criminosos anistiassem a sim próprios. Não há alívio. Sabemos que houve torturas, mortes, execuções, crimes imprescritíveis. Existem vítimas. Mas dos criminosos não se dizem os nomes. Não se pode falar quem torturou, quem matou. Torturou-se, matou-se — indeterminando os sujeitos de tais atrocidades.

quinzenario0007

Além das verdades do senso-comum, muito pouca coisa há. Arquivos inteiros ainda permanecem sob sigilo. É sintoma desse silêncio reinante que uma comissão da verdade tenha sido instituída somente quarenta e oito anos depois do golpe. Assim como é sintoma desse silêncio, e de tanta verdade ocultada, que um dos maiores jornais do país tenha chamado, num editorial de 2009 — poucos meses após a Constituição de 1988 completar 20 anos –, a ditadura militar brasileira de “ditabranda”. Os ecos desse passado silente também estão nas ações policiais contra cada manifestação popular, desde aquela que vimos ano passado contra o aumento nas tarifas do transporte público, até aquelas que não são relatadas — e que terminam em violências maiores, embora invisíveis.

E certamente é um fruto desse silêncio a mera possibilidade, no entanto bastante concreta, de policiais militares correrem quase em fuga pelas ruas da segunda maior cidade do país — a cidade em que nasci –, arrastando o corpo (morto?) de uma pessoa. Inocente. Executada por eles? Socorro policial que induz à morte. Um caso isolado? Em que medida as polícias militares herdam suas práticas dos grupos de extermínio notórios durante o regime de exceção e das práticas de tortura usadas nos chamados porões da ditadura?

O golpe do dia 31 de março de 1964 encontrou apoio de setores da sociedade, que lhe deram sustentação. O clamor por mais ordem, a noção de que a família tradicional e o temor a Deus deveriam ser preservados, além do medo de uma suposta ameaça comunista no contexto da guerra fria foram determinantes para o êxito do golpe. Ao recordar isso, é impossível não se perguntar sobre quais são os clamores alarmistas do tempo presente. Os militares, que diziam assumir provisoriamente o governo para “garantir” a democracia e livrar o país do perigo comunista, ficaram no poder durante 8019 noites, ou 21 anos, 11 meses e 15 dias. Os detalhes dessa história, no entanto, permanecem desconhecidos. O silêncio impera. E esse silêncio que ainda perdura não é uma resposta…

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Para ter a experiência primeva da chuva, talvez seja necessário esvaziá-la do nome. E apenas abandonar o corpo às águas que caem do alto do céu terrestre. Como bicho, dar-se à umidade do dia. Como infante, abrir os braços transido de encantamento e espanto.

Creio ser preciso ter passos vacilantes para viver a chuva. Não dizê-la: gritá-la. Não sabê-la: intuí-la. Não analisá-la: cantá-la em ritos pagãos. Diluir a água do próprio corpo nas águas vindas dos céus. Invocar seus pingos como se evocam deuses. Ou espíritos ancestrais. E dançar uma amplidão que se derrama em todo onde. Quiçá eu tenha aprendido isso quando fui chuva…

Não existem chuvas inocentes, no entanto. Elas são potências da natureza. São alento ou tempestade. Afetam-se pelo humano. E afetam o homem… Mas estão além de nossas forças para contê-la ou evocá-la. Carregam em si os gérmens da fecundidade e do terror. Aplacam sedes ancestrais, mas também arrasam casas. Fazem evolar a fertilidade da terra, mas também destroem plantações. Alimentam os corpos de toda vida, mas podem apodrecer raízes. E o humano intui isso antes do verbo, à maneira dos bichos.

Vivemos hoje, porém, um tempo que deseja ardentemente por chuva. Água se espalhando pelos desvãos da secura. Fecundando chãos e ideias. Alimentando raízes e horizontes. Creio que, por isso, toda chuva soe como dádiva. E todo encantamento do corpo ante o aquoso do mundo ressoe como êxtase.

Uns versos me revelam: “e quando faz sol — brilha / desejo de chuva”*. Neste momento, evoco-os como quem invoca, das nuvens, a água rara que transita pelos céus. Ou o deus dos sem deuses.

______

*Nydia Bonetti

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A dez dias de um grande evento desportivo, irrompe numa praça da cidade um protesto reunindo um número considerável de descontentes. Além daquele na iminência de acontecer, o país sediará, dois anos depois, outro grande evento esportivo de natureza diversa, mas de semelhantes proporções. A tensão no ar se sente, no entanto, desde antes. Aquele dia é precedido por meses de instabilidade política que, certamente, não é admitida — embora seja patente. Milhares de manifestantes tomam as ruas.

Quando cai a noite, ao menos cinco mil pessoas permanecem reunidas naquela praça para o que deveria ser uma manifestação pacífica. Mas o exército e a polícia, equipados com carros blindados e tanques, cercaram a praça e abriram fogo contra a multidão. Manifestantes e transeuntes foram apanhados pelos disparos. Fontes governamentais se referem a apenas quatro mortos e vinte feridos. Mas o saldo verdadeiro permanece incerto: algumas fontes chegam a falar em mil mortos, embora a maior parte chegue a um consenso de que em torno de duas ou três centenas de pessoas tenham perdido a vida.

A descrição acima não é uma previsão pessimista e, quero crer, exagerada do que poderia acontecer em alguma cidade do Brasil em junho deste ano. Isso aconteceu no dia 2 de outubro de 1968 na Plaza de las Tres Culturas em Tlatelolco, na Cidade do México. No dia 12, tinham início os Jogos Olímpicos de 1968, na capital mexicana. Dois anos depois, o Brasil se sagraria tricampeão mundial de futebol na mesma cidade, consolidando-se, no pior período da ditadura militar brasileira, como a pátria de chuteiras. O ufanismo permitia que generais gritassem seu slogan de ordem (e progresso?). “Brasil: ame-o ou deixe-o!”

Pawel Kuczynski - Soccer

Pawel Kuczynski – Soccer

Desde 1968, certamente para garantir o sucesso dos grandes eventos e o silêncio dos descontentes, uma política de exceção foi sendo, pouco a pouco, implantada. Era necessário mostrar ao mundo que tudo estava sob controle, mesmo que para isso o México se tornasse um repressivo e violento estado policial e apagasse uma parcela de direitos básicos da população. Deparei-me com o tamanho da minha ignorância sobre as relações de opressão recentes na América Latina nesta terça-feira (11), ao ler sobre esse fato num breve comentário feito pelo escritor Ricardo Lísias. A morte do cinegrafista da Band Santiago Andrade, atingido por um rojão enquanto registrava o confronto entre manifestantes e policiais no Rio, durante um protesto contra o aumento de ônibus, ainda reverberava. Ele havia sido ferido na quinta-feira (06) e morrera na segunda (10).

Estarreci-me pelas semelhanças com a atual conjuntura brasileira. O Brasil, como o México entre 1968 e 1970, também será sede, no intervalo de dois anos, dos dois maiores — e mais caros — eventos esportivos do planeta. No caso brasileiro, só se inverte a ordem: primeiro a Copa do Mundo e depois as Olimpíadas. Estarreci-me também porque me lembrei que os recentes episódios envolvendo a morte do cinegrafista certamente fariam o Legislativo tentar acelerar a aprovação da lei antiterror (PLS nº 499 de 2013), que me parece mais o próprio terror encarnado, ou em vias de.

Estarreci-me ainda ao constatar, enquanto escrevia este texto, que o projeto foi proposto em novembro de 2013, sob o eco das manifestações do ano passado, certamente para tentar controlá-las esse ano. E o projeto da lei antiterror — que em alguns pontos é mais dura do que a Lei de Segurança Nacional promulgada durante a ditadura — não foi a única ação do poder público no sentido de mutilar direitos para impedir protestos. Em julho de 2013, o governo do Rio de Janeiro publicou o Decreto nº 44.302/2013, com um texto claramente inconstitucional. O decreto, que criava a Comissão Especial de Investigação de Atos de Vandalismo em Manifestações Públicas (CEIV), dava poder à comissão para quebra de sigilo de dados telefônicos e de informática sem autorização judicial, o que era uma flagrante afronta à Constituição.

Neste ponto, permito-me uma breve digressão para me declarar contrário a qualquer estratégia de manifestação que considere o uso da violência como arma legítima. E tenho duas razões para isso: uma ética e outra estratégica. Eticamente, enxergo que o uso da violência para fazer valer nossa recusa a algum tipo de opressão — exceto em casos de legítima defesa — nos iguala aos opressores. E, estrategicamente, buscar o confronto físico ou bélico contra a polícia e o exército, que são estruturas existentes em qualquer lugar do mundo para massacrar, não me parece uma opção sensata para se fazer ouvir. Parece-me somente uma tática suicida. O que eu apoio são as táticas que expõem o ridículo e o absurdo da violência oficial, que mina as estruturas de poder pela não colaboração, pelo boicote, pela recusa e pela ocupação dos espaços públicos.

Portanto, lançar uma pedra ou um morteiro em direção à polícia, atinjam eles um policial, um cinegrafista, um traseunte, ou ninguém, é sempre uma ação injustificável para mim. Ele difere essencialmente de ocupar uma via pública, recusar-se a sair dela e demonstrar, por exemplo, que sem ela a cidade para, porque simplesmente o transporte público é insuficiente para atender à população. E ocupar uma via pública e recusar-se a sair dela agride o direito de ir e vir da mesma forma que uma multidão de carros parados num engarrafamento, embora os discursos a favor da ordem tendam a dizer o contrário: que ocupar as ruas de gente agride o verdadeiro direito de ir e vir, que é o direito daqueles que vêm e vão no conforto de seus automóveis.

Ilustração de Pawel Kuczynski

Ilustração de Pawel Kuczynski

Voltando à questão da lei antiterror, é injustificável a pressa e o clamor que se criou em torno de uma suposta necessidade de se conter uma inexistente escalada de terrorismo no Brasil. Ao me indagar sobre o último grande ato terrorista no País, a resposta que me vem é imediata: abril de 1981. Portanto, há mais de 30 anos, ainda durante o governo Figueiredo — aquele general que disse que quem fosse contra a abertura, ele prenderia e arrebentaria. Apesar dessa ameaça, o atentado do Riocentro foi arquitetado por uma ala radical de militares descontentes com os rumos da “lenta e gradual” abertura. Ele acabou dando errado e uma bomba, que deveria ter sido explodida sabe-se lá onde durante um show que comemorava o Dia do Trabalhador, acabou explodindo dentro do carro parado no estacionamento do local, no colo de um dos militares que executavam o ato.

Anúncio do show de 1º de Maio no Riocentro

Cartaz anuncia o show de 1º de Maio no Riocentro

Ainda assim, o Inquérito Militar tratou, primeiramente, o militar morto e o ferido na explosão como vítimas. O governo, na ocasião, chegou a culpar radicais de esquerda pelo atentado. A hipótese oficial já não tinha sustentação na época e o fracasso nas investigações do atentado acabou levando à renúncia do ministro-chefe da Casa Civil, o general Golbery do Couto e Silva. O caso foi arquivado e só foi reaberto em 1999, quando o ex-chefe do Serviço Nacional de Informações (SNI), general Octávio de Medeiros, disse que soube do atentado horas antes que acontecesse, declarando posteriormente que a informação lhe fora dada pelo general linha-dura Newton Cruz. Apesar de o crime não estar prescrito, o Superior Tribunal Militar (STM) rejeitou, em maio de 2000, a retomada da apuração sobre o caso sob o fundamento que em 1988 o próprio STM já havia decidido aplicar para ele a Lei de Anistia, que era de 1979 e anistiava os “crimes” ocorridos até aquela data.

Curiosamente, mesmo com o fracasso na execução do atentado do Riocentro, em 1983 foi promulgada a Lei 7.170/83, conhecida como Lei de Segurança Nacional. Ela foi publicada em pleno período das grandes manifestações pelas Diretas Já. Essa lei definia “os crimes contra a segurança nacional, a ordem política e social, estabelece seu processo e julgamento”.

Com essas palavras, não quero espalhar o terror, mas apenas chamar a atenção para o fato de que é necessário olharmos as similitudes entre o hoje e nosso passado recente, para evitarmos recair nos mesmos erros. Chamar a atenção para a necessidade de defendermos constantemente nossos direitos, nossas conquistas. Até porque o clamor por um Estado mais autoritário nunca gerou bons frutos na História. E, certamente, não seria hoje que esse clamor daria certo…

Capa do jornal "Correio Braziliense", de 12 de fevereiro de 2014. Um exagero?

Capa do jornal “Correio Braziliense”, de 12 de fevereiro de 2014. Um exagero?

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Gesú: Mãe, vamos no shopping tomar sorvete?

Maria: Minha Nossa Senhora! Ô Zuzinho, sossega. Vamos na sorveteria aqui da esquina, mesmo.

G: Mas tá quente, mãe. E no shopping tem arzinho gelado.

M: Não podemos, filho.

G: Ah! Por favor, mãe!

M: Um doutor proibiu. Agora, é mais fácil conseguir empréstimo em banco do que comprovar renda pra entrar em shopping.

G: Ah! Mas é rapidinho, mãe. A gente toma um sorvete, dá um rolezinho e volta.

M: Menino, não fale uma coisa dessas! Foi isso mesmo que o doutor proibiu: rolezinho no shopping.

G: Por quê?

M: Sei lá eu. Acho que tava dando confusão. Só sei é que a polícia agora fica lá pra vigiar e pegar o comprovante de renda de quem entra no shopping. Se não comprovar renda, é preso.

G: Mas a polícia pega de todo mundo que vai dar um rolezinho?

M: De todo mundo não. Só de quem tem cara de pobre. Se a polícia me pega e descobre que eu não tenho como comprovar renda, que eu faço faxina na casa dos outros… Melhor nem pensar nisso!

G: Mas como a polícia sabe quem tem cara de pobre? Como é cara de pobre, mãe?

M: Ai, como você é perguntador, menino. Não sei explicar essas coisas difíceis, não. Cara de pobre é uma cara assim, que nem a nossa.

G: E a gente nunca mais vai poder ir no shopping?

M: Só se a gente mudar de cara, moleque! (Risos. Depois, silêncio reflexivo.) Não, Zuzinho, só enquanto o pessoal tiver falando disso. Daqui a pouco, tudo volta ao normal, aí a gente vai poder ir no shopping de novo.

G: Ah! Mas quem tirou as coisas do normal justo no calor? Queria ir lá hoje tomar sorvete.

M: Filho, presta atenção numa coisa. Você é pequeno, mas é de pequenino que se torce o pepino. Então aprende que gente como a gente tem de saber o nosso lugar…

G: E qual é o nosso lugar, mãe?

M: Deixa de fazer perguntas difíceis, menino! Mas aprende isso: pobre que não sabe o seu lugar vira bandido. E eu não quero criar filho meu pra virar bandido, não, viu?

G: Vi, mãe!

M: Promete?

G: Prometo! (Silêncio.) Mas no próximo verão a gente vai poder ir no shopping tomar sorvete?

Observação: O diálogo acima pode ser inverossímil. Mas a realidade é bem mais (ver processo 1001597-90.2014.8.26.0100 e íntegra da decisão). E, por fim, não há como não lembrar do Gonzaguinha, numa hora dessas:

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Tinha noção da desvalia de seu voto. Se com efeito escolhesse alguém, fatalmente se tornaria cúmplice de crimes que não conseguia sequer supor. Mas essa sensação era embaçada. Permanecia velada. Sombra assombrosa assombrando o não-pensar.

Na prática, tinha o claro desejo de não eleger ninguém. Sem, no entanto, anular o voto ou votar em branco. Puro capricho de quem não se sente, de fato, emanante do poder. Para isso, criou uma metodologia intrincada e de eficácia duvidosa. Dentre os candidatos para os cargos cujos números têm dois dígitos, votava sempre nos que estivessem menos bem colocados, de acordo com os institutos de pesquisa. Mesmo numa época em que tais estatísticas – e suas margens de erro – têm andado tão desacreditadas e incertas, a chance de seu voto para esses cargos eleger um candidato era bem remota, se não impossível. Quanto aos candidatos cujos números tinham três, quatro, ou cinco dígitos, só havia uma forma de decidir o voto: mesclando a sorte com a avaliação, o aleatório com a escolha.

Fizera isso nas três ou quatro eleições anteriores e teve a sorte de não eleger nenhum dos candidatos nos quais votou. Saia no dia da eleição a procurar no chão, entre os milhares de folhetos jogados, os candidatos nos quais votaria. Se simpatizasse com a figura, as cores e o número do candidato, o levaria consigo para a urna. Precisava, ainda, ser alguém que lhe fosse completamente desconhecido. Qualquer familiaridade no rosto da persona em questão, o candidato era prontamente descartado. Era uma escolha estética e empática. Das outras vezes havia dado certo – embora nas últimas eleições gerais quase tenha elegido um candidato de três dígitos. Para piorar a situação, dessa vez era ainda mais difícil. Tinha de escolher dois desses candidatos, quando da outra vez fora apenas um.

Lamentava essa extensa procura. Era tão mais fácil quando as eleições eram em ano de Olimpíadas. Tinha de votar em apenas dois candidatos. Em ano de Copa do Mundo, as coisas se complicavam muito. Tinha de escolher quatro ou cinco candidatos. Se bem que pior do que isso era quando havia o tal segundo turno. Seu voto sempre corria o risco iminente de ir para o candidato eleito. Ficava de olho em todas as pesquisas, até às vésperas do pleito. Em dúvidas muito cruciais, chegava a anular o voto – o que era contra seus métodos, mais do que contra seus princípios. Não se lembrava bem, mas tinha a impressão de que, na última vez em que votara com alguma esperança, o Brasil foi campeão mundial de futebol.

Naquele domingo, como em todas as últimas eleições, saiu já de manhã à procura de seus candidatos. Como eram escolhas aleatórias, estéticas e empáticas, havia necessidade de muito tempo para fazê-las. A combinação de cores do folheto, as expressões do rosto do candidato, tudo influenciava em sua decisão, que sempre trazia, no entanto, o risco quase certo de compactuar com algum crime, algum delito, algum embuste. Era assim que sentia. Era assim o seu temor.

Presto passou o dia. Eram mais de quatro horas da tarde e ainda estava à procura. Além dos últimos colocados nas pesquisas para os cargos de dois dígitos, já havia escolhido os dois candidatos para o cargo de três dígitos e um para o cargo de quatro. Todos absolutamente incógnitos – ao menos para si. Faltava ainda o candidato para o cargo de cinco dígitos. E como havia chovido, estava cada vez mais difícil encontrar folhetos apresentáveis. Uns estavam rasgados, outros desbotados. Muitos estampavam candidatos reles demais, conhecidos demais, familiares demais. Havia também diversos amálgamas desses chamados “santinhos”, numa indecifrável mixórdia de massas, cores, rostos e números.

Começou a se afligir. Em menos de uma hora se encerraria a votação. Não gostaria de se abster, bem como não gostaria de votar em branco ou anular seu voto. Puro capricho de quem não se sente, de fato, emanante do poder. Aquela chuva fora de hora parecia pôr fim a seu método, cultivado com tanto empenho, durante tantas eleições. Não se lembrava de ter votado num dia de chuva. Talvez, no ano em que o Brasil ganhou a Copa do Mundo. Quem sabe? Mas nesse ano, nessas eleições de agora, mais uma vez a seleção não havia ganhado nada. Não havia esperanças carmesins com que vencer os temores. Ao menos era assim que via as coisa. E elas se mostravam com um feitio seco, oco, fatigado.

Não havia jeito. Precisava se dirigir a sua seção eleitoral. Era urgente votar, mesmo faltando aqueles cinco dígitos. Os dígitos que abririam a votação. Começar votando assim era sinal de mau agouro. Era assim que estremecia diante do imprevisto.

Com passos irresolutos, se aproximava da escola em que votava. Não se sabe se por conta de um buraco na calçada, de seu próprio andar vacilante, ou da providência divina, tropeçou e caiu, estatelando-se na calçada. A rua, àquela hora deserta, não abrigava uma testemunha sequer daquela queda ridícula. Ralou um pouco mãos e joelhos. Mas não se importou. Não reclamou sequer. E nem teve tempo para isso. O “santinho” que lhe faltava estava na sua frente. Uma paleta de cores perfeita, um número digno de confiança e, principalmente, um candidato de rosto simpático.

No entanto, talvez pela perturbação da queda ou pela turbação da pressa, não percebeu que o “santinho” era mais um desses amálgamas forjados pelas águas de muita chuva. A metade do número era de um candidato e a outra metade, de um candidato outro. O nome e a foto, de um terceiro candidato não identificável. A paleta de cores era resultante da fusão dos três folhetos, impressos em papel de qualidade duvidosa.

Sem notar esses pormenores, o achado devolveu-lhe a confiança, a incisividade dos passos. Rapidamente chegou ao local de votação, já quase vazio. Em sua seção, além de si apenas dois eleitores – um deles já na urna – e os mesários. Esperou pouco menos do que cinco minutos. Na urna, o primeiro número que digitaria era aquele último, achado ao acaso há poucos minutos.

Concluídos os cinco dígitos que figuravam naquele folheto, a surpresa: o número não existia. O voto seria nulo, caso o confirmasse. Só então percebeu que o “santinho” que tinha em mãos era um mistifório forjado pela união de três ou mais folhetos fundidos pluviosamente num único e ilusório exemplar. Percebeu que a própria técnica de fugir ao logro que lhe parecia ser o processo eleitoral, com seu sistema proporcional temperado pelo voto obrigatório, lhe ludibriara.

Experimentou um sentimento contraditório, uma espécie de desespero agradável, ao se ver naquela situação sem saída. Era profundamente antagônico tudo quanto sentia ali, diante daquela urna que, eletronicamente, demandava um voto impossível. Uma desesperança sem medo se apossava de tudo. Foi quando imaginou que aquele seria o número do candidato no qual gostaria de votar. O candidato ideal. Irreal. Imaginou e confirmou. Cortando sempre os últimos dígitos, foi votando em outros candidatos daquele mesmo partido nulo. Inexistente.

Decidiu ali os votos daquela e, muito provavelmente, das próximas eleições. Nunca mais correria o risco de eleger alguém que não quisesse. Votaria sempre naquele partido fictício cujo número – sugestivo – é 69. Puro capricho de quem não se sente, de fato, emanante do poder.

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Em novembro de 2005, em Natal, após o término de um congresso, eu e alguns colegas saímos e fomos a um barzinho, ‘bebemorar’. Ao lado de nossa mesa, a não mais do que cinco passos de nós, algumas meninas, que não deviam ter mais do que vinte e quatro anos (algumas poderiam ser até menores), se prostituíam. Seus fregueses pareciam europeus, e provavelmente o fossem.

Enquanto andava os cerca de trezentos metros entre minha casa e o colégio em que funcionava a 259ª Zona Eleitoral de São Paulo, onde fui votar, lembrava dessas meninas. Numa família em que as filhas logo cedo vêem como caminho a venda do próprio corpo, a venda do voto deve ser algo absolutamente normal. Porque a perversa combinação de voto obrigatório e o estado de permanente carência em que vive grande parte da população é a primeira peça que engendra a corrupção do sistema político: a corrupção eleitoral, pela formação dos chamados currais eleitorais.

O ministro Marco Aurélio, do TSE, num julgamento sobre se o eleitor poderia usar camisa de seu candidato para ir votar (a chamada ‘manifestação individual e silenciosa’), disse que “daqui a pouco estaremos exigindo que o eleitor vá votar de luto”. Aproveitando a ironia do ministro como uma sugestão, saí de preto, de luto, para ir votar. De luto pelo simulacro que é nossa democracia, onde somos paradoxalmente obrigados a exercer nossa liberdade de escolha. Em luto pelo Brasil que está diante de nós e pelo Brasil que sairá hoje das urnas, pois não tenho nenhum motivo para esperar que algo diferente e melhor venha emergir nestas eleições.

Em 2002, eu não votei; justifiquei meu voto. Diante do grande entusiasmo popular com a vitória de Lula, eu olhava tudo com certo distanciamento e grande desconfiança. Que aliança era aquela entre o PT e o PL, de Crivela, Waldemar da Costa Neto (então presidente do PL) e uma das figuras mais execráveis da política nacional, o então chamado Bispo Rodrigues? Esta era apenas uma das muitas alianças espúrias que foram se descortinando depois, ante os meus olhos, que envolviam até o PP, de Maluf. Eram, obviamente, partidos que estariam com o poder, estivesse o poder onde estivesse.

Com isso, após ter votado, não sei se exerci um direito, cumpri um dever ou cometi um crime. Talvez os limiares destas três categorias não estejam bem delimitados em nosso arremedo de democracia.

Abaixo, um texto que recebi por email, cuja relação com o dia de hoje é bastante óbvia:

………………………………………………………………….
O VÍDEO DA CICARELLI

No país em que o caminho para a reeleição é embalado por medidas como um cartão do Bolsa Família que permite sacar R$ 120 apareceu um débil mental com R$ 1,7 milhão — com nota em cima de nota — para pagar por um conjunto de papéis com denúncias contra tucanos de São Paulo.

Óbvio que o tal do dinheiro virou um escândalo. O retardado com a mala carregava no carro dinheiro de um prêmio de loteria para pagar por meia dúzia de papéis. Merece colocar na cadeia quem carrega e quem pagou pela compra.

Isso posto, vamos aos tais dos documentos. Enfim, o que havia nos papéis que valiam R$ 1,7 milhão ????

Qualquer informação com esse preço merece ser investigada, com boa chance de chegar a uma conclusão óbvia: assim como o picareta que iria pagar pelos documentos — e o que iria vender — provavelmente iria aparecer algum tucano como forte candidato a puxar um tempo de cana também.

Mas é difícil acreditar que Lula perca a reeleição, que Serra não seja eleito ou que algum cacique petista ou tucano acabe na cadeia por essa história.

Mas enquanto o escândalo todo explode na cara do país, quatro notícias sobre um vídeo da apresentadora e modelo Daniella Cicarelli namorando em uma praia da Espanha lideram a lista dos cinco textos mais lidos no site do maior jornal do país, a Folha de S.Paulo.

Agora considere que em torno de 10% da população tem acesso à Internet, um público qualificado. Desses uma minoria, algo ínfimo, deve estar lendo jornais, menos ainda especificamente a Folha. E o tema preferido é o vídeo da Cicarelli.

Não se trata de julgamento moral ou de condenar quem quis ver o tal do vídeo. Mas transformar em prioridade tudo o que se falou sobre o vídeo depois da notícia principal deixa larga diferença.

Tão larga a ponto de justificar como um débil mental a serviço do principal grupo político do país paga R$ 1,7 milhão em notas por meia dúzia de papéis com denúncias gravíssimas contra o segundo grupo político do país e nenhum deles vai ser punido.

Pior, já se fala até em acordos de bastidores entre os dois grupos para facilitar os mandatos de um lado e de outro. Enquanto o país pára pra ver o que namorado fez com a Cicarelli, estão fazendo coisa muito mais obscena com o cidadão.

Rogério Martinez – 21-09-2006

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