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Posts Tagged ‘Pólis’

Acabo de ler admirado um artigo da Judith Butler sobre os acontecimentos em torno de sua vinda ao Brasil. Penso que se é possível discordar frontal ou parcialmente de sua leitura de mundo, pois, no olhar que lançamos à complexidade de tudo que há, estarão nossas certezas (ou incertezas) e nossos valores. Mesmo compreendendo discordâncias, tenho dificuldade de também compreender como se pode acusar de promover a pedofilia (aqui entendida como uma violência imensa contra alguém que, sendo criança, não é capaz de se defender), alguém que afirma o seguinte:

“Liberdade não é — nunca é — a liberdade de fazer o mal. Se uma ação faz mal a outra pessoa ou a priva de liberdade, essa ação não pode ser qualificada como livre — ela se torna uma ação lesiva.”

Acho que o que mais me admirou neste artigo foi o esforço de tentar compreender as razões e as consequências de uma violência sofrida por si própria. E, a partir disso, reafirmar seu compromisso e sua luta por um mundo com mais liberdade e mais alegria.

Destaco abaixo um dos trechos do artigo da Judith Butler, publicado neste domingo (19/11), que mais me chamaram a atenção. Mas a leitura do artigo todo, para mim, só aumenta a potência das palavras abaixo.

“Embora apenas minha efígie tenha sido queimada, e eu mesma tenha saído ilesa, fiquei horrorizada com a ação.

Nem tanto por interesse próprio, mas em solidariedade às corajosas feministas e pessoas queer no Brasil que estão batalhando por maior liberdade e igualdade, que buscam defender e realizar uma democracia na qual os direitos sexuais sejam afirmados e a violência contra minorias sexuais e de gênero seja abominada.

Aquele gesto simbólico de queimar minha imagem transmitiu uma mensagem aterrorizante e ameaçadora para todos que acreditam na igualdade das mulheres e no direito de mulheres, gays e lésbicas, pessoas trans e travestis serem protegidos contra violência e assassinato.

Pessoas que acreditam no direito dos jovens exercerem a liberdade de encontrar seu desejo e viverem num mundo que se recusa a ameaçar, criminalizar, patologizar ou matar aqueles cuja identidade de gênero ou forma de amar não fere ninguém.”

Para ler a íntegra do artigo, clique aqui.

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Ontem essa indagação não me saiu da cabeça: a mitificação de alguém é uma forma de desumanizá-lo? Que processos nos levam a apagar o lado humano de alguém que admiramos demais, para torná-lo uma espécie de semideus?

Anteontem à noite (25/5), fui ao lançamento do livro Estórias autênticas (Editora Patuá), do querido André Balbo, no Patuscada. Ainda não havia conseguido que o André autografasse o meu exemplar (sim, uma ótima notícia: o lançamento foi bem concorrido!), quando o Edu (Eduardo Lacerda) comenta comigo que haviam dito que o Raduan Nassar estava lá.

Meu primeiro sentimento foi um misto de incredulidade e espanto. O Raduan Nassar habita, ao lado de outros quatro escritores, uma parede da minha casa, dedicada às referências literárias mais importantes, comuns a mim e à minha esposa. Um conjunto pensado há sete anos, quando planejávamos os detalhes de como seria a nossa casa. Num tempo em que a matéria da vida quotidiana se modificava e ganhava novos significados projetados pelas emanações de sonhos em comum. Alguns dos cinco quadros que existiam originalmente na casa da Fabi emoldurariam novas fotos.

Foram conversas várias para que chegássemos a cinco nomes. Havia uma projeção de que novos quadros poderiam vir, aumentar esse conjunto, mas isso não ocorreu. Claro que certos autores já então cogitados se agigantaram ainda mais (como no caso de Ítalo Calvino) e outros surgiram assombrosamente (como Ismail Kadaré). Mas acredito que ali habitam a base do que me forma como leitor, e boa parte do que forma a Fabi (que vai muito além de mim) como leitora. Não consigo imaginar minhas palavras sem tê-los encontrado um dia. Estão lá Drummond, sentado modestamente no chão a folhear um livro próprio; Hilda Hilst abraçada com ternura a um cão; Borges com um olhar de tempestade, voltado para a incerteza; Guimarães Rosa acariciando um excêntrico rinoceronte. E, no centro, sentado numa cadeira sob uma árvore, talvez em sua mítica terra que o fez abandonar a escrita, Raduan Nassar.

Drummond, Hilda Hilst, Borges, Guimarães Rosa e Raduan Nassar habitam nossa cozinha, o lugar mais sagrado da casa.

Isso significa que aquela espécie de entidade que habita nossa cozinha, que é o lugar mais sagrado da casa, estava ali. Devo muito da minha linguagem à leitura dos livros de Raduan. Mas não teria como dizer isso a ele. Não teria como contar o alumbramento perplexo suas palavras me causaram. O quanto elas foram fundantes para o prosador que sou, e que desejo me tornar. Também não teria como dizer que a fala de um dos personagens do meu Trítonos tem toda fala construída como um fluxo, um jorro, como o vi fazendo em “Um Copo de Cólera”. E que nessa mesma fala há uma espécie de incorporação de uma trecho do “Lavoura Arcaica”, em que o personagem diz que será o profeta da própria história.

Quando fui buscar o autógrafo do meu exemplar do livro do André, numa sala mais reservada, aquela figura deixou de ser apenas um quadro na parede, e um nome na capa de livros essenciais. Diante de mim estava ele: Raduan! Desde então, fui meio que levado pelos acontecimentos. Ainda não acredito que autografei e dei um exemplar do meu Trítonos – intervalos do delírio para Raduan Nassar. Era como conhecer uma entidade mítica. E a perplexidade paralisa. Ao lado de Raduan, outra figura conhecida. Embora longe de ser mítica, é alguém que, em tempos de uma política desumana que a administração da cidade vem adotando, deixa saudoso o cidadão político que sou: Fernando Haddad.

No entanto, num primeiro momento, só consegui ver o escritor e mito. Em vão tentei balbuciar algo absolutamente banal, falando do quanto era difícil de acreditar naquele momento. Mas eu sabia que quaisquer palavras eram insuficientes. Voltei para casa eufórico, como se tivesse vivido uma experiência sobrenatural. Repleto de uma emoção difícil de explicar, mas plenamente possível de entender. Ao mesmo tempo, porém, pensava no quanto aquela euforia e aquele maravilhamento, que quase me emudeceram, nasciam da mitificação de um homem. Ao entrar naquela sala, vi um homem frágil, talvez um pouco menor que eu, feito de carne e osso, sentimentos e incertezas. Mas essa dimensão havia se apagado. Meus olhos viam apenas a figura mítica, o escritor desmedido e o personagem repleto de idiossincrasias, que largou a literatura para cuidar da terra e seus maravilhamentos. E essa figura me parecia desumanizar o Raduan homem.

Longe da emoção, penso que talvez eu devesse ter falado que sabia que toda aquela situação talvez fosse um pouco constrangedora para ele, mas que certamente ele também entendia que, como leitor, me era impossível não lhe dizer o quanto o admirava. Afinal, era ele: Raduan Nassar. Há seis anos ele habita o espaço mais sagrado da minha casa. Suas palavras me habitam há pelo menos uns quinze. E era lindo conhecê-lo ali na Patuscada, pois aquele lugar também é, um pouco, uma espécie de casa para mim…

Fernando Haddad, Raduan Nassar, Edson Valente, Eduardo Lacerda e eu.

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os coturnos ecoam até aqui
manchando as ruas de terríveis
reminiscências

ouve a marcha dos soldados?
assinaram um papel
autorizando o emprego das forças

armadas
para quem não marchar direito

enquanto isso o concreto modernista
fincado na caatinga
por suaves linhas repletas
de eufemismos

pega fogo

no dia anterior
derrubaram um prédio
com gente dentro

quase gente talvez

e todo dia
pega fogo
chumbo quente
e bala dirigida
teleguiada, mas nunca

perdida
em distâncias tão vizinhas

o tempo é de temor
pois jamais nos recuperamos
de 1964

São Paulo, 25 de maio de 2017.

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Em 2014, me lancei um desafio. Escrever periodicamente neste blog. Num primeiro momento, a ideia era fazer publicações semanais. Não tive fôlego para isso e, logo no início, alterei a periodicidade para quinzenal.

Esses três anos mantendo esse projeto revitalizaram meu blog, fazendo com que se ampliassem os acessos e as leituras. Basta constatar que entre 2014 e 2016, publiquei 106, dos 165 textos aqui publicados (contando este). Nesse período, terminei a escrita e lancei (em dezembro de 2015) o meu livro “Trítonos – intervalos do delírio“. Muitas das publicações feitas aqui entre fins de 2015 até dezembro do ano passado ecoam esse livro.

Os resultados dessas publicações periódicas já se evidenciaram em 2014. Foram 36 textos publicados, 1386 visitas e 2027 visualizações. Em 2015, os números foram ligeiramente mais modestos: 28 textos publicados, 1276 visitas e 1930 visualizações.

Em contrapartida, 2016 foi um ano talvez inigualável para esse modesto “lugar de ensaiar com as palavras”. No ano passado, eu fiz 42 publicações. O blog alcançou incríveis 1812 visitas e 2777 visualizações. Dezembro foi o mês com o maior número de visualizações (284) e o segundo maior número de visitas (195). O maior número de visitas no ano passado foi alcançado em setembro (198), que foi o segundo melhor em visualizações (282).

A resenha que fiz sobre o livro de contos “Olhos d´Água“, da Conceição Evaristo, publicada em abril, foi o texto mais acessado do ano passado. Com uma diferença de somente um acesso, o poema “Se eu acreditasse num deus“, publicado no fim de novembro, ficou em segundo lugar. Talvez pelo tema (questionamentos sobre o sagrado, a fé e a dúvida), ele acabou se tornando um fenômeno de acessos em pouco tempo.

O terceiro post mais acessado também foi um fenômeno de acessos em um prazo curto de tempo. Ele foi feito em comemoração a um ano de lançamento do meu livroTrítonos“, pela Editora Patuá. Lá, eu compartilho uma playlist de músicas tocadas pelo personagem Demian no conto “Gritos do açafrão” – conto que acabou me levando a encontrar o nome e a forma do livro, que estão interligadas.

Na sequência, temos um poema de amor escrito para minha esposa, Fabiana Turci, quando completamos cinco anos de casados (o “Cinco variações sobre um tema amoroso“), escrito em janeiro. Por fim, empatados na quinta colocação, se encontram um texto sobre os caminhos nebulosos da nossa política e da nossa democracia, escrito ainda março, quando um diálogo entre a então presidenta Dilma e o Lula foi divulgado de forma indevida (ou, no mínimo, questionável) pelo juiz Sérgio Moro (“O dia de hoje nos livros de História“), e um poema-resposta à leitura do último livro de Pedro Tostes (o post tem o mesmo nome do livro: “Jardim minado“).

Além desses seis textos mais acessados, há outros dois textos que merecem destaque. O primeiro é “Cisgeneridade: a suposta natureza é um silêncio“, que foi texto escrito em 2015 mais acessado naquele ano, foi o segundo texto não escrito em 2016 mais acessado do ano, ficando imediatamente atrás do “Cinco variações sobre um tema amoroso”. O segundo destaque tem relação direta com os primeiros dias de 2017. Todo ano, o texto mais acessado é sempre “O meu coração é um músculo involuntário e ele pulsa por você” (certamente por causa da música, de cujos versos retirei esse título), escrito em 2006 ainda no antigo blog, e posteriormente migrado para o blog atual. Em 2016 não foi diferente. Mas nos primeiros 28 dias de 2017, o texto até agora mais acessado foi “Fúria Travesti“, escrito ano passado após a morte da ativista argentina Lohana Berkins. Como amanhã (29 de janeiro) é o Dia da Visibibilidade Trans, não podia deixar de destacar esses dois textos. O primeiro deles, inclusive, foi especialmente escrito para ser publicado no Dia da Visibilidade Trans de 2015 (veja a mobilização desse ano em torno da #VisibilidadeTRANS no Youtube, no Facebook e no Twitter).

Em 2017, haverá uma mudança de rumos por aqui, afinal os caminhos aqui se inventam sob os pés que os percorrem. Não continuarei com as publicações quinzenais. Tenho projetos literários me esperando, dois livros que estão sendo escritos e outros projetos ainda em fase de primeiras notas. E para poder me dedicar mais a essa escrita, vou reduzir a frequência de textos no blog. Meu objetivo então será o de fazer, pelo menos, uma publicação por mês aqui no Ensaio Aberto. Isso porque alguns outros ensaios com as palavras não podem ser tão abertos assim…

2017criarocaminho

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Agosto termina deixando um abismo de dúvidas e receios sobre os rumos do país. Abismos, aliás, que nunca se fecharam. Talvez por isso, o dia hoje tentou seguir a normalidade. Mulheres e homens saíram para trabalhar, crianças foram para as escolas, os ônibus circularam normalmente, lojas e restaurantes abriram. Mas uma tensão — presente nos ares do país durante todo esse ano — não se dissipava. A chuva que caia desde cedo na cidade em que habito não lavava a alma de ninguém. Talvez os céus apenas chorassem por essa herança de incertezas.

Mas o que vivemos hoje está longe de ser uma exceção em nossa história. Olhando para trás, é possível constatar que “o maior eixo de continuidade da história recente do Brasil é a instabilidade”. Se pensarmos a história recente do país a partir da chamada Era Vargas, vamos perceber que tivemos somente onze eleições diretas para presidente desde 1930. Por isso, temos hoje estranhas configurações de pais que votaram para presidente o mesmo número de vezes que seus filhos. Mesmo no meu caso, minha mãe só votou para presidente duas vezes a mais do que eu.

Dos oito presidentes eleitos nessas onze eleições que tivemos nos últimos 86 anos de nossa história, somente quatro conseguiram terminar seus mandatos. E em 127 anos de República, apenas 12 presidentes foram eleitos por voto direto, tomaram posse e governaram até o final, incluindo nesse cálculo a presidenta Dilma Rousseff no primeiro mandato. Constatar isso de forma quase didática é um pouco assustador… Ainda mais pelo fato de termos vivido os últimos vinte (e um?) anos com uma ilusão de estabilidade, derruída no decorrer de 2016. Realmente torço para que meus temores sejam exagerados, mas a história me mostra que a junção de um descrédito generalizado em relação à democracia com um crescimento preocupante de diversos discursos de ódio jamais produziu bons frutos.

Desde 1930 apenas quatro presidentes eleitos diretamente para exercer esse cargo conseguiram terminar seus mandatos. Apesar das diferentes conjunturas de cada um desses períodos históricos, podemos tirar algumas conclusões. Uma dela é que, Infelizmente, o maior eixo de continuidade da historia recente do Brasil é a instabilidade. - André Mendes Pini

Desde 1930 apenas quatro presidentes eleitos diretamente para exercer esse cargo conseguiram terminar seus mandatos. Apesar das diferentes conjunturas de cada um desses períodos históricos, podemos tirar algumas conclusões. Uma dela é que, Infelizmente, o maior eixo de continuidade da historia recente do Brasil é a instabilidade. – André Mendes Pini.

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“Tu deviens responsable pour toujours de ce avec que tu as allié”
(Nicolas Machiavel – Le Petit Prince¹)

Partir somente quando já naufraga,
Miserável, a louca embarcação.
Dizer adeus prevendo que uma vaga
Basta a todos os ratos do porão.

___

(1) Apud. MARX E HEGEL. Por que estamos envergonhados? Autos PIC 94.0002.0007273/2015-6: São Paulo, 2016.

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Os três parágrafos abaixo, escritos por João Paulo Cuenca, abordam de forma quase precisa a inquietação que os acontecimentos do dia de hoje me trouxeram. Por isso mesmo, não poderia me furtar a dividir, com uma tristeza perplexa, tais reflexões aqui. Vem-me à cabeça a indagação sobre como o dia de hoje será narrado nos livros de história daqui a vinte e poucos anos (espero que ainda haja livros, história e humanidade até lá!). Espero quase fervorosamente que não seja como o antecedente de um golpe que pôs fim ao mais longo período democrático do país.

Há algo em jogo para além das disputas partidárias ou do apoio e da queda de um governo: são os rumos da República, ou melhor, da própria democracia. E para mim a atitude do juiz alçado à condição de herói despreza esse valor, ao divulgar grampos avidamente, atropelando a justiça com fins partidários — e não com fins políticos, posto que essa crítica me parece imprecisa já que o Judiciário É POLÍTICO, pois é um dos poderes da República.

Pois bem, ao tornar pública a conversa da pessoa que ocupa a presidência da nação, o juiz federal Sergio Fernando Moro, pelo pouco que sei de direito como leigo, cometeu um ato ilegal (veja mais aqui sobre essa questão). Uma vez que na interceptação existe o envolvimento de uma pessoa com prerrogativa de foro, não caberia ao juiz suspender o sigilo das interceptações telefônicas, mas sim remetê-la ao tribunal competente — no caso, o Supremo Tribunal Federal. Não estou nem pensando na questão da ilegalidade da própria interceptação, caso ela tenha sido feita após a própria ordem de interrupção da medida. A parcialidade do juiz me parece evidente quando se constata que esse é provavelmente o último ato dele antes de remeter toda investigação ao Supremo, em razão da prerrogativa de foro que ganharia um dos investigados, ou talvez o principal deles, chamado Luiz Inácio Lula da Silva. E Moro decide — ao meu ver, além de parcial, ilegalmente, divulgar tudo, sabendo bem das consequências políticas e sociais dessa divulgação.

Sei que isso dificilmente me livraria de argumentos ad hominem contra minhas breves reflexões, mas mesmo assim não custa afirmar aqui que acho que o PT, para se manter no poder, tomou muitos rumos desastrosos. Alianças com antagonistas históricos (como Maluf e Collor), distanciamento de pautas histórias em favor dos direitos humanos, desastrosas políticas ambientais e indigenistas, e repressão violenta ao direito de manifestação são os pontos mais tristes desses rumos fronteiriços ao desastre.

Por João Paulo Cuenca

A questão agora não é estar ou não com o PT. Não é ser “fora Dilma” ou “fica Dilma”. Eu nunca votei na Dilma, por exemplo, e acho seu governo desastroso. E daí? Essa não é a questão agora. Já deixou de ser há meses e vocês ainda não entenderam.

A questão é que o Juiz Moro não é imparcial e atropela a justiça com fins políticos, numa operação conjunta à grande parte da imprensa, partidos políticos e corporações. A imprensa não pode ser um partido político. O Judiciário não pode ser um partido político.

Entendam: o que está em jogo é algo muito mais importante do que quem ocupará ou não a cadeira de Presidente da República do Brasil. O que está em jogo é a própria cadeira. E a República.

(Publicado originalmente aqui.)

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Vivemos tempos estranhos. Em dois protestos contra o governo federal, ocorridos nos dias 15 de março e 12 de abril, manifestantes tiram selfs com as PMs. Como atos de cidadania, são protestos legítimos. Chama a atenção, no entanto, a cordialidade das polícias nestas manifestações. Dada a história de truculência de nossas polícias, talvez fosse de se esperar algum tipo de repressão em atos tão grandes contra um governo e contra uma ordem vigente — as manifestações abrigaram diversos lunáticos pedindo intervenção militar. Pouco menos de duas semanas depois do segundo desses protestos, porém, numa grande passeata de professores em São Paulo (bom, é verdade que os números, como usualmente ocorre, variam de acordo com quem conta…), um enorme contingente policial bem menos amistoso claramente intimida quem vai às ruas.

Mas o paroxismo chega ao máximo quando vemos as imagens da recente brutalidade — que alguns insistem em chamar de “confronto” — cometida pela PM paranaense contra professores que se manifestavam, também contra um governo, mas dessa vez o governo local. As imagens chocam o país, embora infelizmente só mostrem a polícia sendo… polícia. Infelizmente, o ocorrido não é uma exceção. Num outro caso recente, com menor repercussão — e certamente menos aparatos de guerra — a guarda municipal agiu de forma assemelhada, na prefeitura de Goiânia, contra professores em greve. E vendo os vídeos e as imagens mais recentes da repressão policial em Curitiba, talvez não seja tão difícil entender que, em manifestações que pedem algumas sandices como “basta de Paulo Freire”, os manifestantes se animem em aplaudir e tirar fotos com a polícia.

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Non, pas Charlie… Pardonnez-moi.

Algumas vozes veem que o “confronto” (essa detestável palavra eufemística para repressão policial) entre professores e a PM é mais um motivo de louvar os manifestantes dos dias 15 de março e 12 de abril, que não precisariam entrar em confronto com a polícia para lutar por um Brasil melhor — sim, em algum lugar cheguei a ler isso! Essas mesmas vozes questionam, num indisfarçável tom inquisitorial, se isso que aconteceu no dia 29 de abril é que seria uma manifestação “pacífica” de “professores” — as aspas aqui não são minhas. Curiosamente, entretanto, as manifestações de 12 março e 15 de abril foram marcadas por um tom bem raivoso e testemunhou — não poucas! — hostilidades contra vozes discordantes. Talvez até agressões contra portadores involuntários de cores dissonantes, de acordo com certo relato insólito de suposta agressão a um cachorro com um lenço vermelho — relato que pode até ser falso, mas vivemos tempos em que não é possível distinguir bem a realidade de certos absurdos

Mas não há como negar que as manifestações contra o governo federal foram bem pacíficas, se comparadas com tantas outras ocorridas nos últimos tempos — das primeiras do Movimento Passe Livre em 2013 às recentes dos professores paranaenses. Para mim, isso demonstra que manifestações podem ser bastante violentas especialmente se um determinado agente se empenhar em disseminar o “vandalismo” e o terror. Esse agente é a própria polícia.

Em 2013, quando a polícia paulista resolveu se retirar de cena, talvez apostando que sem sua presença os protestos acabariam ficando incontroláveis, o que se viu foi exatamente o contrário. Já nas recentes manifestações, a simpatia mútua entre PM e manifestantes, nas passeatas de 12 de março e 15 de abril, permitiu que, mesmo estando exaltados os ânimos, os incidentes violentos não tomassem grandes proporções.

Quando falo assim da polícia, não estou falando particularmente contra um ou outro policial. Afinal, sempre esperamos encontrar exceções. Aliás, de acordo com informações imprecisas, prontamente negadas pelas autoridades, 17 policiais paranaenses neste recente episódio de violência policial mereceriam não só aplausos, mas também assistência da sociedade para se defenderem da própria PM, ao supostamente serem presos por se recusarem a cumprir ordens. Ao dizer que os verdadeiros “vândalos” em manifestações são as forças policiais, o que critico é essa máquina de obediência cega que estrutura nossas polícias militares, o que favorece a disseminação da banalidade do mal. Talvez contra professores (nesta semana), contra jornalistas e contra estudantes (em 2013) a ação da polícia cause assombro e comoção. Mas essa forma de agir faz parte de sua lógica. E os massacres diários da polícia contra a parcela mais vulnerável da população, em especial contra pessoas negras, confirmam isso. A permanência da tortura como método de investigação também.

Nesta semana, a PM ensinou aos professores no Paraná uma dolorosa lição que certamente eles já conheciam. Na carne dos professores, foi novamente demonstrado que violência é o outro nome do trabalho das PMs. Ficou claro ainda que elas existem para coagir. E não para garantir alguma segurança a todos. Claro que quem está no poder busca minimizar o absurdo. O governador do Paraná, Beto Richa, ainda tentou defender o injustificável. “Os policiais ficaram parados protegendo um prédio público, conforme determinação do Judiciário. Na medida em que os manifestantes avançam nos policiais, eles têm de reagir, até numa proteção de sua própria vida”, afirmou. Faltou apenas combinar com os fatos, para que eles não desmentissem tão claramente sua fantasia. Acho que a eloquência do vídeo abaixo basta para evidenciar isso.

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Depois deste texto, não voltarei a escrever sobre eleições neste ano. Mesmo com o segundo turno da eleição presidencial em aberto, não me interessa explorar seus desdobramentos e as eventuais diferenças entre os dois candidatos que permanecem na disputa nacional. Digo apenas que não voto no PSDB de forma alguma — minto, votaria no Aécio em pavorosas e remotas hipóteses como, por exemplo, se ele estivesse no segundo turno com o Levy Fidélix ou com o Everaldo (Pastor).

Este ano, o que me moveu a escolher meus candidatos e me posicionar publicamente sobre minhas escolhas tem pouca relação com a eleição presidencial — que frequentemente ocupa a centralidade das preocupações de grande maioria, como se ao presidente fosse possível mudar todo o país, se quisesse. Minha preocupação principal estava voltada a que tipo de parlamento iria se formar, tendo em vista os posicionamentos extremamente reacionários que vejo ganhando cada vez mais força em nossa sociedade.

Buscarei externar minha perplexidade por ver uma significativa vitória, nas eleições proporcionais, de projetos aos quais me opus com os meus votos. Uma vitória que não sei sequer mensurar, tendo em vista que meu escopo de análise se firmou apenas nos cinco candidatos a deputado federal mais votados no Brasil, todos do eixo Rio-São Paulo. Foram eles, por ordem de votação:

1º Celso Russomanno (PRB-SP) – 1.524.361
2º Tiririca (PR-SP) – 1.016.796
3º Jair Bolsonaro (PP-RJ) – 464.572
4º Pastor Marco Feliciano (PSC-SP) – 398.087
5º Bruno Covas (PSDB-SP) – 352.708

Para mim, a grande surpresa foi a expressiva votação de Russomano. Minha dificuldade inicial de entender essa votação acabou se esvaindo, quando me dei conta de que ele teve uma boa exposição num programa da TV Record após as eleições de 2012, e que ele se elegeu pelo mesmo partido do Marcelo Crivella — sobrinho do Edir Macedo, senador pelo Rio de Janeiro que disputa o segundo turno para governador naquele Estado.

Por mais que se possa inferir algumas tendências parlamentares de Russomano, tendo em vista seu partido e o claro apoio que ele recebeu da Igreja Universal em 2012, eu não teria como dizer que seu discurso se afina no anverso exato das bandeiras dos direitos humanos e das minorias, que são as bandeiras em que votei. Pode ser que boa parte de seus mais de um milhão e meio de eleitores defenda, por exemplo, que direitos humanos são para humanos direitos e clame por um estado mais policialesco. É bem provável ainda que uma parcela deles se oponha a temas da ordem particular e que dizem respeito ao comportamento moral de cidadãos e cidadãs, como o casamento igualitário, a lei de identidade de gênero, a legalização do aborto e experiências de legalização das drogas. Mas não tenho hoje elementos irrefutáveis para associar todas essas opiniões ao candidato.

Dos cinco mais votados do país, porém, se pode saber, com exatidão, a pauta extremamente conservadora de dois deles: Bolsonaro e Feliciano. Juntos, os dois tiveram 862.659 votos. Além de levarem consigo outros parlamentares com algum tipo de afinidade por suas propostas, sei que a votação significativa dos dois certamente ecoa na eleição de outros políticos com pensamentos semelhantes, mas com votações menores.

Bolsonaro e Feliciano tiveram mais votos do que a soma dos cinco deputados eleitos pelo partido em que votei nas eleições proporcionais (730.097 votos). Veja a votação desses deputados federais abaixo:

Edmilson Rodrigues (PSOL-PA) – 170.604
Chico Alencar (PSOL-RJ) – 195.964
Jean Willys (PSOL-RJ) – 144.770
Cabo Daciolo (PSOL-RJ) – 49.831
Ivan Valente (PSOL-SP) – 168.928

Evidentemente, o PSOL não é o único partido que congrega candidatos que defendem essas pautas. Além disso, tenho grandes e fundadas dúvidas sobre se o deputado menos votado desse grupo se afina com as lutas dos demais eleitos. Mesmo assim, apenas a título de comparação, considerei a soma de voto dos cinco candidatos eleitos deputados federais pelo partido. Do mesmo modo, também é claro que não são apenas Bolsonaro e Feliciano que concentram o voto dos eleitores extremamente conservadores do país. Mas tanto os parâmetros de comparação superficiais que usei como o notório crescimento das bancadas de partidos, grupos e candidatos eleitos com pautas declaradamente reacionárias me assustam.

E por que me assustam? Acho que o temor com esses resultados vem de uma constatação inegável: ao contrário de uma possível alienação política visível em quem vota, por exemplo, num candidato como o Tiririca, os votos em favor da dupla Bolsonaro e Feliciano são conscientes. Eles dizem respeito a um tipo de sociedade que esses eleitores desejam construir. E não tenho como não lamentar essa escolha, tão antagônica à minha. Eu desejo construir uma sociedade que acolha a diversidade e se esforce por promover a justiça. Uma sociedade que entenda que o corpo e os aspectos particulares da vida de cada pessoa devem ser ingovernáveis, e que os conflitos advindos dos diversos desejos precisam ser resolvidos buscando promover o máximo de igualdade possível. Não quero, ainda, que os direitos que eu tenho sejam privilégios, negados a outros grupos ou pessoas. E não quero um Estado que me dite a moral e os bons costumes, como ousam defender alguns grupos.

Li numa rede social uma postagem de um colega dos tempos de colégio que fazia a comparação entre a votação de Bolsonaro e de Jean Willys (candidato em quem eu votaria, caso ainda morasse no Rio de Janeiro). Demorei um pouquinho para me dar conta de que a postagem não lamentava a alta votação de Bolsonaro, mas a celebrava. Diante do fato de o candidato do PP ter recebido três vezes mais votos do que o do PSOL, o autor dessa publicação comentava, sob a forma de pergunta: “E agora quem representa o pensamento da sociedade brasileira?”. Mesmo com o pequeno crescimento da bancada do PSOL, amargo a impressão de que o pensamento da sociedade brasileira parece estar mais próximo ao do Bolsonaro do que ao do Jean Willys.

Lamento sim, mas respeito as escolhas das quais discordo frontalmente. Sei que elas retratam o país em que vivemos. Continuarei, claro, me opondo a elas, tendo em vista que o processo democrático é construído dentro da diversidade e da pluralidade de opiniões, e tem como sua condição de possibilidade a não opressão às minorias . O processo democrático não se faz só pelo voto. Ele amadurece quando os eleitores cobram, fiscalizam, respeitam a pluralidade de visões e buscam interlocução com aqueles que receberam, pelo voto, um mandato para representar as bandeiras que defendem.

Mesmo pensando assim, assombra-me o abismo de minha própria perplexidade com os legislativos eleitos este ano. Segundo campanha veiculada pela Justiça Eleitoral, o domingo passado teria sido o dia da “Festa da Democracia”. Porém, diante da onda conservadora que vejo se alastrar pelas legislaturas estaduais e federal, o dia 5 de outubro de 2014 pode significar muitas coisas. Mas nenhum de seus significados está no mesmo campo semântico da noção que eu tenho de festa.

Textos referidos pelos links (por ordem de aparição):
» Meus candidatos e minhas candidatas defendem as famílias e a vida. E os seus? – Teofilo Tostes Daniel
» O Congresso não ficou pior. Apenas está mais parecido com o Brasil – Leonardo Sakamoto
» Congresso eleito é o mais conservador desde 1964, afirma Diap – Estadão / Política / Eleições 2014 (autor: João Carlos Magalhães)
» Mais conservadora, Câmara deve barrar ações liberalizantes – Folha de São Paulo / Eleições 2014 (autores: Nivaldo Souza e Bernardo Caram)

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Por influência de dois professores anarquistas no ensino médio (2º grau, na época), desde a primeira eleição em que votei tenho uma grande desconfiança em relação ao nosso sistema político. Nas eleições majoritárias, em geral espera-se que o chefe do executivo faça o que pode e o que não pode. Já em relação às eleições proporcionais, o voto é um tiro no escuro. Podemos até ter um bom candidato na mira, mas a verdade é que não temos ideia de quem o nosso voto ajuda a eleger, já que o voto se dilui no partido ou legenda. Essa desconfiança sempre me levou a anular o voto, para me abster de ser cúmplice nalgum crime.

Hoje, no entanto, vejo que o mesmo Estado que falha ao atender as necessidades da população vem sendo estimulado a manter ou aumentar sua intervenção sobre a vida particular do indivíduo. Os legislativos não só avançam a passos lentos na garantia de diversos direitos humanos, como perigam retroceder em relação a muitos direitos conquistados — alguns deles em caráter precário, provisório ou parcial.

Acompanhando os debates políticos, vejo que proliferam candidatos que ameaçam ou não defendem as famílias e a própria vida humana. Por conta disso, decidi arriscar meu voto, dando-o, na próxima semana, a candidatos e candidatas que vão lutar em defesa dessas causas.

Meus candidatos e minhas candidatas desejam reconhecer como família uma grande pluralidade de arranjos, são favoráveis ao casamento civil igualitário para homossexuais e à adoção de crianças por casais formados por pessoas do mesmo sexo, querem criminalizar a transfobia e a homofobia, buscam aprovar uma lei de identidade de gênero que garanta o direito básico à identidade para pessoas transgêneras, são a favor da descriminalização do aborto e tendem a ser favoráveis também à das drogas.

Meus candidatos e minhas candidatas defendem um conceito abrangente de família, que inclui muitas possibilidades de arranjo. As crenças, num estado laico — que deve garantir a pluralidade delas –, não podem impedir o reconhecimento de direitos que até hoje são negados a casais homossexuais, não obstante os avanços que já tivemos. E é preciso ainda defender a família de um possível retrocesso que pode acontecer em função de candidatos que fazem uma política totalmente subordinada a noções religiosas endurecidas por discursos de ódio.

Meus candidatos e minhas candidatas também defendem políticas que têm o potencial de aumentar o número de adoções de crianças abandonadas ou órfãs. Isso porque eles e elas não veem razão para negar que casais homossexuais possam adotar crianças. Com isso, meus candidatos e minhas candidatas se colocam em defesa das novas famílias que aptas a surgirem por causa dessa possibilidade.

Meus candidatos e minhas candidatas também defendem a família da dissolução causada pelos preconceitos, em especial pela transfobia e pela homofobia. Defendem ainda a vida de pessoas constantemente ameaçadas por esses preconceitos. Não é incomum que pessoas sejam agredidas, humilhadas e muitas vezes expulsas de casa por serem travestis, transexuais ou gays. Também não é raro que famílias percam um ente querido por crimes de ódio contra orientação sexual ou identidade de gênero fora da cis-hétero-normatividade. Contra isso, meus candidatos e minhas candidatas defendem não só a criminalização da homofobia e da transfobia, mas também políticas de conscientização e educação para a diversidade.

Meu candidatos e minhas candidatas querem ver aprovado o Projeto de Lei 5002/2013 (Lei João W Nery), que dispõe sobre o direito à identidade de gênero, garantindo o direito básico à identidade a pessoas transgêneras. Hoje, além de terem de aceitar um diagnóstico de doença mental para isso, essas pessoas ainda dependem do entendimento — e, eventualmente, dos conceitos pré-estabelecidos — de um juiz ou um tribunal, e das burocracias do sistema judiciário, para que o Estado reconheça sua identidade. A dicotomia entre os documentos e a imagem passada, além de causar diversos constrangimentos e as expor a riscos derivados do preconceito, faz com que elas tenham reduzida suas chances de encontrar empregos formais, o que não raro as empurra ao subemprego ou mesmo à prostituição para sobreviver. Vale lembrar que, de acordo com dados da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), 90% das travestis e transexuais brasileiras se prostituem. Por isso, votarei também em quem se compromete a defender a vida e a dignidade humana dessas pessoas ainda condenadas à invisibilidade.

Meus candidatos e minhas candidatas também são contra o fato de que cerca de 800 mil mulheres que já recorreram o aborto no país sejam consideradas criminosas e possam vir a ser presas, impactando seriamente o núcleo familiar dos quais elas fazem parte. Também são contra o risco de famílias perderem uma integrante que, para fazer o aborto, tem de recorrer, na melhor das hipóteses, a clínicas clandestinas. São contra a submeter essas mulheres (em geral as mais pobres) a métodos que põem em risco suas vidas. E são contra uma estrutura que as condena ao medo de procurar atendimento quando algo sai errado, sob o risco de terem o atendimento negado ou serem presas. Portanto, em defesa da família e da vida de milhares de mulheres, meus candidatos são contra a criminalização do aborto.

Meus candidatos e minhas candidatas não acreditam na falácia de que um Estado mais policialesco — e, portanto, mais repressivo — aumente a segurança dos cidadãos e das cidadãs. Não desejam ampliar o uso da violência por esse Estado, que concentra em suas mãos a prerrogativa de seu uso legal. Eles e elas tendem a ser favoráveis a experiências que sigam no caminho da descriminalização das drogas. Veem que o dinheiro que deixaria de ser investido no combate insano às drogas seria usado em políticas educacionais e de inclusão social. Meus candidatos e minhas candidatas não estão fechados à ideia de que, permitindo a comercialização legal de drogas hoje ilegais, organizações criminosas dedicadas ao tráfico tenderiam a ser enfraquecidas, diminuindo a violência contra as famílias e a ameaça à vida de tantos. Além disso, enxergam o dinheiro arrecadado com a tributação do comércio legal e mais seguro das drogas, que deverá atender a exigências mínimas que hoje não têm sequer como ser observadas, também poderia ser investido em programas educacionais de prevenção ao uso de drogas e a programas de inclusão. Eles e elas creem que não é com mais polícia que se amplia a segurança pública, mas como menos abismos e disparidades dentro do tecido social.

Sobre esse último assunto, faço uma pequena digressão para lembrar o que ocorreu durante o período da chamada Lei Seca norte-americana (implementada, sob forte pressão de movimentos religiosos, por meio da emenda constitucional 18/1919), que se estendeu de 1920 a 1933. Apesar de reduzir o consumo de álcool, a Lei foi um grande fracasso, aumentando a violência e a corrupção — a década de 20, que foi a década dos gângsteres nos EUA, levou mais de 500 mil pessoas a trabalharem em atividades clandestinas ligadas ao comércio ilegal de bebidas e aumentou em 30% a taxa de assassinatos no país. Além disso, a falta de controle sobre as bebidas produzidas clandestinamente ocasionou danos permanentes à saúde de, pelo menos, 100 mil americanos e fez com que os casos de morte por cirrose praticamente não diminuíssem durante a Lei Seca, apesar da redução do consumo de álcool. Ela foi revogada em 1933 pela emenda constitucional 21/1933, o que acabou deixando a estados e municípios norte-americanos a competência para legislar sobre a questão.

Foi o típico caso de uma lei que buscava legislar sobre o que seria moralmente aceitável no comportamento das pessoas, embora se mascarasse como uma lei que visava a combater os efeitos sociais e físicos deletérios causados pelo abuso do álcool. Da mesma forma vejo a proibição que atinge a diversas drogas hoje. São leis morais, dão ao Estado a prerrogativa de definir o que é moralmente aceito no comportamento particular dos cidadãos e das cidadãs, não obstante as discussões médicas e sociais que envolvem — e que também se aplicam às “drogas legais”, como o álcool e o cigarro.

Voltando à questão eleitoral, não alimento qualquer presunção de que as pessoas em quem votarei vão resolver, se eleitas, todos os diversos problemas que existem em nosso país — alguns dos quais abordei neste breve texto. Mudanças estruturais e de pensamento são lentas, gradativas, e necessitam de pessoas engajadas a elas. Mas diante dos rumos que os legislativos podem tomar, decidi votar em candidatos e candidatas que defendam um conjunto de lutas e valores relacionados aos direitos humanos, se opondo a fundamentos religiosos que visem a limitar esses direitos. Eles e elas serão contrapontos necessários a um conservadorismo que deseja legislar os costumes e a moral, e que vem gradativamente aumentando seu poder na política brasileira. Mas com um sistema eleitoral perverso, que faz a escolha de candidatos nas eleições proporcionais um tiro no escuro, não bastava escolher candidatos que defendessem essas bandeiras. Era necessário escolher candidatos e candidatas de um partido que, além de agregar as lutas que eu também defendo, se recusasse a fazer coligações que as contradissessem e que trouxessem nomes que defendem exatamente bandeiras opostas. Um partido que também não mantivesse entre suas fileiras ou as de seus coligados uma extensa lista de fichas-suja. Como as regras eleitorais permitem arranjos diferentes em cada Estado, posso falar apenas que, naquele em que moro, encontrei candidatos e candidatas com essas características e decidi arriscar meu voto.

E, por tudo que apontei até aqui, reafirmo: meus candidatos e minhas candidatas defendem as famílias e a vida humana. E os seus?

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Pessoas vindas não se sabe donde
não podiam ficar perambulando,
sujando o espaço público. Também
deviam entender que elas não podem
ter filhos livremente, propagando
a inocentes, heranças de miséria.

Que treinemos então nossas milícias
para que nos defendam bem daqueles
que não querem servir, pois são culpados
enquanto não provarem o contrário.
Direitos se conquistam e não valem
aos que se atiram sem perdão no lixo.

Quem está condenado na existência
não deve ameaçar a segurança
dos que gozam as bênçãos de seus méritos.
Prendam mesmo as crianças e as grávidas.
Como somos de bem, porém, clamamos:
protejam fetos; domestiquem bichos!

Foto: Nilton Fukuda / Estadao

Foto: Nilton Fukuda / Estadão


(Triste poema do dia de hoje, em que a conhecida violência policial — contra os que não têm — continua sendo aplaudida. Versos tortos feitos a partir do seguinte e estarrecedor comentário deixado numa notícia intitulada “Polícia volta a atirar bombas para dispersar multidão no centro de SP”, publicada pelo maior Portal de Internet do Brasil:
“A verdade é que são pessoas vindas não se sabede onde que ficam perambulando pelo centro, sujando tudo. O centro de SP está irreconhecível. Piorou muito. Se os governantes não agem decentemente, com os impostos que eu pago, que a Justiça e a polícia ajam. Tem o meu apoio. Borracha nos baderneiros e desocupados. São dois focos a atingir:educação, para a pessoa entender que só podem ter filhos se tiver condições para tal e legal, não pode ocupar o que não é seu.Fora desocupados.SP não merece isso” (sic) — de um comentarista escondido sob o codinome de “Fundamental”.)

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(em diálogo com Beatriz Pagliarini Bagagli)

Habitar com o corpo
uma falha discursiva
e resistir

mesmo que tudo diga que assim
não pode, não deve
existir.

Manter-se na pólis,
ainda que tacitamente
decretos de exílio

estejam publicados
na boca do povo,
na voz de um deus.

Lutar contra o controle
da singularidade dos sujeitos
sujeitando corpos – indóceis? –  a padrões

e domando a política dos quereres.
Permanecer atento para escutar
o que costura as bordas do Fora.

Opor-se ao arbítrio de normas,
interdições e regramentos
que não digam respeito às margens
de convívio com os outros.
Estar no Outro,

no diverso e no estranho.
Ser o provisório
universo do desejo,
o verso vermelho de carne
que sangra palavras.

Apropriar-se de si.

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É tempo de silenciar e viver
da falaciosa segurança que nos aprisiona
em nosso ódio,
em nossa impotência,
em nossa indiferença,

em nossos medos.

É tempo de mascar o ópio festivo
da ordem,
da normalidade,
do progresso,

da mediocridade do ouro.

É tempo de seguir a jurisprudência da desumanização
que permite a injustiça,
que garante o arbítrio da força,
que indefere a escrita

de um poema para nossos tempos.

É tempo de permitir, em nome da paz,
que atirem bombas em nossa rua,
que invadam nossa casa,
que sujem nossas mãos com as armas do crime,
que violem nossos corpos

para que se celebre a violência inominada
de nossa omissão.

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Seus deuses? Seus orixás? Suas figuras do sagrado? Seus templos? Não são válidos, pois você não acredita numa verdadeira religião. E se você tem fé, ela é sem fundamentos. Sem razões de ser. Afinal, onde está sua escritura sagrada?

Em uma pessoa, essa visão indica um fechamento que pode ser lamentado por uns, mas que também será louvado pelos que contrapõem uma verdadeira religião — a própria — às outras, falsas. É esperado que pessoas digam que só há um verdadeiro deus: o meu; e uma verdadeira religião: a minha. Não há nada de errado nisso. Elas podem dizer isso com respeito, ou atacando o que veem como o caráter nocivo daquilo que julgam falso, errado, canhoto ou demoníaco. E mais, pessoas eventualmente podem ter preconceitos, e não considerarem algumas manifestações de fé como religiões. É uma visão cega à pluralidade do mundo. Porém, quando manifesta individualmente, é apenas algo que se pode lamentar.

Mas, e quando é o Estado que afirma esse tipo de coisa? Um Estado que se diz laico? Que não tem religião oficial desde 1891, com a primeira Constituição Republicana? Se isso acontece — ou, pior, quando isso acontece — o que se percebe é que somos continuamente convocados a agir em favor das vozes que são, de algum modo, caladas. Somos convocados a não consentir em silenciamentos. E a lembrar ao Estado que ele deve garantir a igualdade.

Há igualdade? Uma igualdade formal, legal, escrita na letra morta das leis. Mas que está longe de existir nas práticas discursivas. Nas práticas discursivas do próprio Estado, inclusive. Por essa razão, não é possível se calar quando o Estado toma partido ou retira direitos, sob o risco de sermos cúmplices.

Um juiz de direito, ao julgar um pedido feito numa Ação Civil Pública do Ministério Público Federal que requer a retirada de vídeos do Youtube que promoveriam a intolerância e a discriminação religiosas, manifestou em nome do Estado um preconceito que nega a pluralidade do mundo. O que é inaceitável. No processo 0004747-33.2014.4.02.5101, o juiz Eugenio Rosa de Araújo, da 17ª Vara Federal do Rio, assinou uma decisão, de 28 de abril, em que afirmou que os cultos afro-brasileiros não contêm traços necessários de uma religião, que seriam um texto-base (cujos exemplos ele cita o corão e bíblia), uma estrutura hierárquica e um Deus a ser venerado.

O MPF, na ação, pede a retirada de vídeos que, ao criticarem as práticas dessas religiões, disseminariam discursos de ódio e desprezo a religiões de origem africana. E solicitava antecipação desse pedido, o que foi negado pelo juiz. Para fundamentar sua decisão, o magistrado fez um enviesado raciocínio. A ação do MPF contraporia dois direitos fundamentais: a liberdade de opinião e a liberdade de religião. No entanto, segundo a decisão, “as manifestações religiosas afro-brasileiras não se constituem em religiões”, só restando à Justiça negar o pedido do Ministério Público, para garantir a liberdade de opinião, que em momento algum estaria colidindo com a liberdade de religião, já que a opinião não era direcionada a nenhuma religião.

O fato de um agente público afirmar, em nome do Estado, que os cultos afro-brasileiros não são religiões provocou uma onda de justas críticas. Era realmente espantoso que alguém, em nome de um poder do estado brasileiro, dissesse algo assim. O repúdio à decisão não veio apenas dos adeptos das religiões desconsideradas ou de operadores do direito. Líderes religiosos diversos, dentre os quais um pastor evangélico, também criticaram com justiça a decisão.

O MPF moveu um recurso em que o procurador regional dos direitos do cidadão do Rio de Janeiro, Jaime Mitropoulos, deixa manifesta sua perplexidade pelo fato de o juiz “dizer o que é e o que não pode ser considerado religião, chegando a ponto de estabelecer, de acordo com sua compreensão, que as manifestações afro-brasileiras não são religiões”. “Como assim, Excelências!?”, questiona o procurador, e muitas outras vozes. Embora o recurso trate da retirada dos vídeos, uma boa parte dele era dedicada a mostrar como a argumentação do juiz colide com uma série de estudos e tratados internacionais que tratam da matéria.

“Equivoca-se a decisão, tendo em vista que as religiões de matrizes africanas são sim sistemas de crenças, possuem liturgias, corpos com alguma estrutura sacerdotal organizada hierarquicamente, cerimônias, altares, fiéis, ritos, templos (embora via de regra sem suntuosidade, muitos sobre o chão de terra batida, o que em hipótese alguma lhes retira o caráter sagrado) e, essencialmente, a fé em divindades que são cultuadas (adoradas e veneradas, como queira), não obstante possam destoar do padrão hegemônico das religiões majoritárias que a decisão pretende usar como paradigma para restringir o seu alcance.” Esse foi, na minha opinião, o contraponto mais tocante de todo o recurso contra o absurdo proferido pelo juiz da 17ª Vara Federal do Rio de Janeiro. Tocante porque eu já estive, para contemplação estética do rito, num centro desses, que ficava na zona rural de uma pequena cidade, e testemunhei com meus próprios olhos como um pedaço de chão de terra batida se transfigura em solo sagrado.

A repercussão do que ele escreveu na sentença foi tão negativa que o juiz voltou atrás e, no dia 20 de junho — alguns dias após o MPF mover seu recurso –, assinou uma nova decisão, em que destacava o forte apelo da mídia e da sociedade civil contra a sua decisão. No novo documento, ele registrou que sua percepção agora era de que os cultos afro-brasileiros se tratam, sim, de religiões. E, ainda que de forma rasa e superficial, ele enfim contrapôs a liberdade religiosa à liberdade de opinião. E manteve sua decisão de indeferir a liminar pedida pelo MPF, sob o argumento de que a liberdade de opinião estaria sendo regularmente exercida.

Pode-se discordar desse julgamento, como certamente discorda o autor da ação, mas dessa vez o juiz conseguiu se aproximar do tema que deveria ser discutido na ação: quando a liberdade de opinião deve sofrer alguma restrição para resguardar outras liberdades, como, no caso, a de religião? Essa é uma discussão difícil, pois as religiões podem criticar os fundamentos e as práticas umas das outras, demonstrando aos fiéis porque aquela é a religião verdadeira. Além disso, também não são incomuns os discursos contrários às religiões de um modo mais amplo.

É habitual religiões protestantes criticarem o catolicismo — e nem sempre o desrespeitando da mesma forma como um pastor da Universal fez quando chutou, num programa de televisão, uma santa católica — por adorarem imagens. Católicos criticam os protestantes por não seguirem a tradição apostólica dos primeiros cristãos, nem crerem na igreja fundada por Cristo e confiada a Pedro e seus sucessores. Católicos e protestante criticam o espiritismo por evocarem os mortos. O espiritismo diz que a besta do apocalipse é a figura do papa no período em que vigorava o dogma da infalibilidade papal (de 610 a 1870), e que o próprio número da besta estaria presente em cada soma dos algarismos romanos encontrados nos títulos que o papa ostentava nesse período: VICARIVS GENERALIS DEI IN TERRIS (Vigário Geral de Deus na Terra), VICARIVS FILII DEI (Vigário do Filho de Deus) ou DVX CLERI (Príncipe do Clero). O espiritismo também critica o candomblé, afirmando que suas práticas muitas vezes estimulam espíritos obsessores. Todo movimento comunista costuma repetir que a religião é o ópio do povo. E Richard Dawkins, uma espécie de profeta do ateísmo, afirma que crer em Deus não é apenas inútil e supérfluo, mas também prejudicial. Tais opiniões podem soar agressivas para quem crê naquilo que é criticado, mas dificilmente poderiam fundamentar decisões contra a difusão desses conteúdos.

No caso da ação do MPF, a análise do contexto é fundamental. De acordo com o mapeamento das casas de religiões de matriz africana no Rio feito pelo Núcleo Interdisciplinar de Reflexão e Memória Afrodescendente (Nirema) da PUC-Rio, e que deu origem ao livro Presença do Axé, lançado este ano, 430 das 847 casas pesquisadas desde 2008 relataram episódios de intolerância religiosa contra seus centros ou seguidores. E como não há limites para o absurdo, terreiros são fechados e seguidores de religiões afro vêm sendo expulsos de favelas do Rio por traficantes evangélicos, numa versão da realidade que faria inveja à Ionesco. Coincidentemente, entre os vídeos apontados pelo MPF na ação, existe um que me parece justificá-la, em que um pastor diz aos fiéis: “toca no irmão do teu lado e diz, você pode fechar todos os terreiros de macumba do teu bairro”. Ainda assim, não é fácil encontrar o limite entre o que são críticas a uma outra religião e o que é discurso de ódio e intolerância. Mas, talvez para fugir à dificuldade de sopesar dois direitos fundamentais colidentes, a decisão do juiz só perpetua a intolerância.

Esse tipo de apagamento do outro muito me choca, bem como qualquer prática violenta contra aqueles que existem na diferença da maioria. Assim como me choca que num estado laico, uma autoridade oficial ainda se arrogue o direito de dizer que religiões são só as monoteístas. E quanto ao resto, talvez sejam apenas bonitas mitologias. Em minha posição agnóstica, só me resta rezar aos deuses que não sei se existem por tempos melhores.

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Entro no ônibus praguejando contra quem o projetou. Além de não ser acessível – todos os que servem essa linha também não são –, este possui ainda mais um obstáculo: uma barra bem no meio do último degrau, parecida com essas de fazer pole dance. Aquele requinte de inacessibilidade já era capaz de atrapalhar quem estivesse entrando com uma mochila um pouquinho maior. Com muletas, então, subir no ônibus é uma batalha.

Vou me sentar na cadeira isolada antes da roleta e não tem como, pois simplesmente não há espaço. Olho o símbolo que diz que o assento é preferencial e quase gargalho com aquela mentira. Um pouco aturdido, volto para procurar um lugar vago nas poltronas duplas, enquanto desvio dos passageiros que seguem atrás de mim, para pagar ao cobrador a passagem. Demoro alguns instantes imprecisos a me habituar ao pequeno caos e finalmente vislumbro onde vou sentar. Noto haver um lugar vago ao corredor, na poltrona mais próxima. O senhor que está sentado à janela faz menção de se levantar, para me ceder o seu lugar. Incisivo, falo que não precisa, que prefiro mesmo um lugar ao corredor, e me sento.

Nem bem me acomodo e já percebo certa ansiedade do meu companheiro de trajeto. Agradeço-lhe a intenção de me ceder o lugar na janela, mas novamente lhe explico que no corredor é melhor para minhas pernas. Logo em seguida, ele me pergunta para onde vou. Desconfiado, menciono a avenida principal perto de casa, que é grande o suficiente para manter a inexatidão.

Constatando que vou descer antes, ele explica que vai para Santo Amaro e me indaga se eu sei se aquele ônibus passa numa rua que não conheço. Revelo minha ignorância sobre o itinerário posterior ao meu. Ele busca se acalmar, dizendo-me que se não passar, ele pode descer na Avenida. E logo me revela que está indo para uma clínica que faz um tal exame de sono.

Na sequência, comenta sobre um assunto incontornável em São Paulo: o trânsito. Lamenta que o trânsito esteja caótico – e, naquele dia em especial, agravado pela chuva que caíra pouco antes. Conta que saiu de casa às 17h, pegou um ônibus, metrô e depois aquele ônibus em que estamos, e está com receio de não chegar a tempo – seu horário na clínica é às 20h30. Diz que em 1959, quando fez dezoito anos e começou a dirigir como chofer de táxi, quase não havia carros nas ruas.

Teria a opção de ir de trem, mas naquele horário seria impraticável para ele fazer várias baldeações, já com 71 anos. E para qualquer pessoa com um pouco mais de dificuldades. Lembro-me de já ter estado, pouco antes das 18h, numa das linhas que ele teria de pegar para chegar ao seu destino e, na hora de descer, foi quase uma operação de guerra. Hoje, eu também não teria condições… Mal termino o pensamento, num átimo, e atino que meu companheiro agora lamenta que hoje não exista mais uma linha direta que servia à região onde ele mora.

– Sabe aquela música que fala “moro em Jaçanã”? Então, eu pegava esse trem. Moro ainda depois de Jaçanã.

Não sei por meio de que conexão, ele dá início a uma ode ao seu tempo, quando os filhos tinham “medo e respeito” pelos pais. Lamenta que hoje os pais não possam ser firmes, não possam mais bater e educar seus filhos. Reclama então de seu neto, que não tem compromisso com nada e é muito mimado. Abstenho-me, nesse ponto, de participar da conversa, limitando-me a vagos monossílabos. Em geral, tenho grande resistência a toda louvação de um tempo em que certamente eu não estaria vivo. Só posso existir hoje. É o tempo que tenho, e é dele que devo fazer, para mim, o melhor dos tempos.

Em seguida, me relatou que deixou o táxi, tornou-se caminhoneiro e depois marinheiro para, então, voltar a ser taxista, que foi como se aposentou. Só quando diz ter sido marinheiro é que reparo numa enorme tatuagem que cobre todo seu antebraço direito.

Talvez por se deparar com sua vida em perspectiva, estanca a fala, reflexivo, como que olhando para dentro. Após um fundo suspiro, sem qualquer sinal de pompa ou encenação, exclama:

– Eu tive uma vida muito boa!

Tocado mais pelo tom de sua voz, que conferia às palavras quase banais uma verdade palpável, fiquei um tempo em silêncio. Compartindo o silêncio do meu companheiro de trajeto. Não sei precisar como e quem o quebrou, mas aproveitei o interesse despertado por sua fala anterior, para mudar o rumo da prosa. Em vez de denegrir o presente em nome de um passado repleto apenas de laivos de duvidosas idealizações, interessavam-me suas memórias.

Perguntei-lhe algo sobre como era a vida de marinheiro. Ele contou que havia conhecido metade do mundo nesse período. Esteve em diversos portos na América, na Europa e em alguns no Oriente Médio. Revelou-me que tinha medo de ir para os lados do Vietnã, por causa da guerra. Ficou quatro anos embarcando e desembarcando mercadorias em Lloyds brasileiros. Deixou a marinha mercante após se casar. A dura vida de marinheiro e, em especial, o fato de passar três a quatro meses embarcado a cada viagem foram decisivos para que tomasse essa decisão.

Viramos na grande avenida que passa perto da minha casa. Ali, me mostrou que naquela transversal funcionava a Metalúrgica Barbará, que seria, na época, do genro de Jucelino. Ele, como caminhoneiro, carregava material de construção ali, para levar a Brasília – que, embora já inaugurada, ainda era um canteiro de obras. Segundo o meu companheiro de trajeto, o dinheiro que se desviou daquela construção teria dado para construir “dez Brasílias”. Exageros à parte, não deixo de crer naquela testemunha e sua verossímil história. Infelizmente, não há como supor que a corrupção endêmica do país seja uma invenção dos dias atuais.

Nem bem nos afastamos do cruzamento com a antiga metalúrgica, ele diz, quase surpreso de si mesmo:

– Eu não tenho dinheiro nenhum, que é coisa que fica para provocar briga depois que a gente vai, mas tenho muitas histórias. Minha vida daria um livro…

Pergunto se ele não teria vontade de escrever um livro com suas memórias. Ele me diz que seus filhos insistem para que o faça. Seu tom reticente, no entanto, me revela que não, ele prefere contá-las a ter de escrevê-las.

Só então me dou conta de que já estou quase chegando no meu destino. Levanto-me para passar o bilhete e rodar a roleta. O trânsito lento me dá ainda alguns minutos de conversa. De pé, detenho-me junto ao banco em que estava sentado.

– Você já deve estar cansado de tanto me ouvir falar, não?

– Imagina! Estou é lamentando ter que descer agora e interromper a conversa – respondo.

Seu sorriso me revela que ele captou a verdade do que lhe disse. Despedimo-nos. Por algum motivo, o motorista perde a entrada de seu trajeto habitual e acaba entrando na minha rua. Desço, contente com o erro, embora novamente me veja praguejando contra o projetista daquele ônibus e seus requintes de inacessibilidade.

Enquanto ando os poucos metros entre o ponto de ônibus e minha casa, me dou conta de que não perguntei o nome de meu companheiro de trajeto. Cogito tentar alcançar o ônibus, para perguntar-lhe da janela, mas a ideia vã desvanece quando vejo o ônibus dobrar a esquina. Apesar de inominados um para o outro, levo comigo algumas de suas histórias, a parcela de sua herança que ele deixou para mim…

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Amanhã é um dia para não ser celebrado. Mas é preciso lembrá-lo e, sobretudo, é preciso enxergar seus revérberos contínuos em nossos dias. Saber que o silêncio e a impunidade continuam a gerar silêncio e impunidade, tortura institucionalizada e dor.

É imprescindível olhar para trás com o incômodo de termos permitido que criminosos anistiassem a sim próprios. Não há alívio. Sabemos que houve torturas, mortes, execuções, crimes imprescritíveis. Existem vítimas. Mas dos criminosos não se dizem os nomes. Não se pode falar quem torturou, quem matou. Torturou-se, matou-se — indeterminando os sujeitos de tais atrocidades.

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Além das verdades do senso-comum, muito pouca coisa há. Arquivos inteiros ainda permanecem sob sigilo. É sintoma desse silêncio reinante que uma comissão da verdade tenha sido instituída somente quarenta e oito anos depois do golpe. Assim como é sintoma desse silêncio, e de tanta verdade ocultada, que um dos maiores jornais do país tenha chamado, num editorial de 2009 — poucos meses após a Constituição de 1988 completar 20 anos –, a ditadura militar brasileira de “ditabranda”. Os ecos desse passado silente também estão nas ações policiais contra cada manifestação popular, desde aquela que vimos ano passado contra o aumento nas tarifas do transporte público, até aquelas que não são relatadas — e que terminam em violências maiores, embora invisíveis.

E certamente é um fruto desse silêncio a mera possibilidade, no entanto bastante concreta, de policiais militares correrem quase em fuga pelas ruas da segunda maior cidade do país — a cidade em que nasci –, arrastando o corpo (morto?) de uma pessoa. Inocente. Executada por eles? Socorro policial que induz à morte. Um caso isolado? Em que medida as polícias militares herdam suas práticas dos grupos de extermínio notórios durante o regime de exceção e das práticas de tortura usadas nos chamados porões da ditadura?

O golpe do dia 31 de março de 1964 encontrou apoio de setores da sociedade, que lhe deram sustentação. O clamor por mais ordem, a noção de que a família tradicional e o temor a Deus deveriam ser preservados, além do medo de uma suposta ameaça comunista no contexto da guerra fria foram determinantes para o êxito do golpe. Ao recordar isso, é impossível não se perguntar sobre quais são os clamores alarmistas do tempo presente. Os militares, que diziam assumir provisoriamente o governo para “garantir” a democracia e livrar o país do perigo comunista, ficaram no poder durante 8019 noites, ou 21 anos, 11 meses e 15 dias. Os detalhes dessa história, no entanto, permanecem desconhecidos. O silêncio impera. E esse silêncio que ainda perdura não é uma resposta…

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A dez dias de um grande evento desportivo, irrompe numa praça da cidade um protesto reunindo um número considerável de descontentes. Além daquele na iminência de acontecer, o país sediará, dois anos depois, outro grande evento esportivo de natureza diversa, mas de semelhantes proporções. A tensão no ar se sente, no entanto, desde antes. Aquele dia é precedido por meses de instabilidade política que, certamente, não é admitida — embora seja patente. Milhares de manifestantes tomam as ruas.

Quando cai a noite, ao menos cinco mil pessoas permanecem reunidas naquela praça para o que deveria ser uma manifestação pacífica. Mas o exército e a polícia, equipados com carros blindados e tanques, cercaram a praça e abriram fogo contra a multidão. Manifestantes e transeuntes foram apanhados pelos disparos. Fontes governamentais se referem a apenas quatro mortos e vinte feridos. Mas o saldo verdadeiro permanece incerto: algumas fontes chegam a falar em mil mortos, embora a maior parte chegue a um consenso de que em torno de duas ou três centenas de pessoas tenham perdido a vida.

A descrição acima não é uma previsão pessimista e, quero crer, exagerada do que poderia acontecer em alguma cidade do Brasil em junho deste ano. Isso aconteceu no dia 2 de outubro de 1968 na Plaza de las Tres Culturas em Tlatelolco, na Cidade do México. No dia 12, tinham início os Jogos Olímpicos de 1968, na capital mexicana. Dois anos depois, o Brasil se sagraria tricampeão mundial de futebol na mesma cidade, consolidando-se, no pior período da ditadura militar brasileira, como a pátria de chuteiras. O ufanismo permitia que generais gritassem seu slogan de ordem (e progresso?). “Brasil: ame-o ou deixe-o!”

Pawel Kuczynski - Soccer

Pawel Kuczynski – Soccer

Desde 1968, certamente para garantir o sucesso dos grandes eventos e o silêncio dos descontentes, uma política de exceção foi sendo, pouco a pouco, implantada. Era necessário mostrar ao mundo que tudo estava sob controle, mesmo que para isso o México se tornasse um repressivo e violento estado policial e apagasse uma parcela de direitos básicos da população. Deparei-me com o tamanho da minha ignorância sobre as relações de opressão recentes na América Latina nesta terça-feira (11), ao ler sobre esse fato num breve comentário feito pelo escritor Ricardo Lísias. A morte do cinegrafista da Band Santiago Andrade, atingido por um rojão enquanto registrava o confronto entre manifestantes e policiais no Rio, durante um protesto contra o aumento de ônibus, ainda reverberava. Ele havia sido ferido na quinta-feira (06) e morrera na segunda (10).

Estarreci-me pelas semelhanças com a atual conjuntura brasileira. O Brasil, como o México entre 1968 e 1970, também será sede, no intervalo de dois anos, dos dois maiores — e mais caros — eventos esportivos do planeta. No caso brasileiro, só se inverte a ordem: primeiro a Copa do Mundo e depois as Olimpíadas. Estarreci-me também porque me lembrei que os recentes episódios envolvendo a morte do cinegrafista certamente fariam o Legislativo tentar acelerar a aprovação da lei antiterror (PLS nº 499 de 2013), que me parece mais o próprio terror encarnado, ou em vias de.

Estarreci-me ainda ao constatar, enquanto escrevia este texto, que o projeto foi proposto em novembro de 2013, sob o eco das manifestações do ano passado, certamente para tentar controlá-las esse ano. E o projeto da lei antiterror — que em alguns pontos é mais dura do que a Lei de Segurança Nacional promulgada durante a ditadura — não foi a única ação do poder público no sentido de mutilar direitos para impedir protestos. Em julho de 2013, o governo do Rio de Janeiro publicou o Decreto nº 44.302/2013, com um texto claramente inconstitucional. O decreto, que criava a Comissão Especial de Investigação de Atos de Vandalismo em Manifestações Públicas (CEIV), dava poder à comissão para quebra de sigilo de dados telefônicos e de informática sem autorização judicial, o que era uma flagrante afronta à Constituição.

Neste ponto, permito-me uma breve digressão para me declarar contrário a qualquer estratégia de manifestação que considere o uso da violência como arma legítima. E tenho duas razões para isso: uma ética e outra estratégica. Eticamente, enxergo que o uso da violência para fazer valer nossa recusa a algum tipo de opressão — exceto em casos de legítima defesa — nos iguala aos opressores. E, estrategicamente, buscar o confronto físico ou bélico contra a polícia e o exército, que são estruturas existentes em qualquer lugar do mundo para massacrar, não me parece uma opção sensata para se fazer ouvir. Parece-me somente uma tática suicida. O que eu apoio são as táticas que expõem o ridículo e o absurdo da violência oficial, que mina as estruturas de poder pela não colaboração, pelo boicote, pela recusa e pela ocupação dos espaços públicos.

Portanto, lançar uma pedra ou um morteiro em direção à polícia, atinjam eles um policial, um cinegrafista, um traseunte, ou ninguém, é sempre uma ação injustificável para mim. Ele difere essencialmente de ocupar uma via pública, recusar-se a sair dela e demonstrar, por exemplo, que sem ela a cidade para, porque simplesmente o transporte público é insuficiente para atender à população. E ocupar uma via pública e recusar-se a sair dela agride o direito de ir e vir da mesma forma que uma multidão de carros parados num engarrafamento, embora os discursos a favor da ordem tendam a dizer o contrário: que ocupar as ruas de gente agride o verdadeiro direito de ir e vir, que é o direito daqueles que vêm e vão no conforto de seus automóveis.

Ilustração de Pawel Kuczynski

Ilustração de Pawel Kuczynski

Voltando à questão da lei antiterror, é injustificável a pressa e o clamor que se criou em torno de uma suposta necessidade de se conter uma inexistente escalada de terrorismo no Brasil. Ao me indagar sobre o último grande ato terrorista no País, a resposta que me vem é imediata: abril de 1981. Portanto, há mais de 30 anos, ainda durante o governo Figueiredo — aquele general que disse que quem fosse contra a abertura, ele prenderia e arrebentaria. Apesar dessa ameaça, o atentado do Riocentro foi arquitetado por uma ala radical de militares descontentes com os rumos da “lenta e gradual” abertura. Ele acabou dando errado e uma bomba, que deveria ter sido explodida sabe-se lá onde durante um show que comemorava o Dia do Trabalhador, acabou explodindo dentro do carro parado no estacionamento do local, no colo de um dos militares que executavam o ato.

Anúncio do show de 1º de Maio no Riocentro

Cartaz anuncia o show de 1º de Maio no Riocentro

Ainda assim, o Inquérito Militar tratou, primeiramente, o militar morto e o ferido na explosão como vítimas. O governo, na ocasião, chegou a culpar radicais de esquerda pelo atentado. A hipótese oficial já não tinha sustentação na época e o fracasso nas investigações do atentado acabou levando à renúncia do ministro-chefe da Casa Civil, o general Golbery do Couto e Silva. O caso foi arquivado e só foi reaberto em 1999, quando o ex-chefe do Serviço Nacional de Informações (SNI), general Octávio de Medeiros, disse que soube do atentado horas antes que acontecesse, declarando posteriormente que a informação lhe fora dada pelo general linha-dura Newton Cruz. Apesar de o crime não estar prescrito, o Superior Tribunal Militar (STM) rejeitou, em maio de 2000, a retomada da apuração sobre o caso sob o fundamento que em 1988 o próprio STM já havia decidido aplicar para ele a Lei de Anistia, que era de 1979 e anistiava os “crimes” ocorridos até aquela data.

Curiosamente, mesmo com o fracasso na execução do atentado do Riocentro, em 1983 foi promulgada a Lei 7.170/83, conhecida como Lei de Segurança Nacional. Ela foi publicada em pleno período das grandes manifestações pelas Diretas Já. Essa lei definia “os crimes contra a segurança nacional, a ordem política e social, estabelece seu processo e julgamento”.

Com essas palavras, não quero espalhar o terror, mas apenas chamar a atenção para o fato de que é necessário olharmos as similitudes entre o hoje e nosso passado recente, para evitarmos recair nos mesmos erros. Chamar a atenção para a necessidade de defendermos constantemente nossos direitos, nossas conquistas. Até porque o clamor por um Estado mais autoritário nunca gerou bons frutos na História. E, certamente, não seria hoje que esse clamor daria certo…

Capa do jornal "Correio Braziliense", de 12 de fevereiro de 2014. Um exagero?

Capa do jornal “Correio Braziliense”, de 12 de fevereiro de 2014. Um exagero?

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O primeiro mês de 2014 mal se esvai, e os comentários sobre a passagem do tempo parecem um eterno dejá vu: “O ano nem começou e janeiro já foi embora!”, “O ano só começa depois do Carnaval”.

Neste ano, no entanto, é comum ouvir desde o início que o ano só começará depois da Copa. O que significa que seis meses de 2014 seriam apenas de espera. Pelo quê? Godot? Se uma Copa do Mundo já altera a agenda brasileira, uma Copa no Brasil talvez seja capaz de instaurar um caos ainda maior nos calendários da nação. Mas o impacto, sobre a economia brasileira, dos dias em que o Brasil parar para ver os jogos da seleção, assunto sempre explorado por algum tipo de especialista, certamente ficará diluído, neste ano, pelo assunto geral do impacto econômico da Copa de 2014.

Como ocorre desde 1994, para completar a incompletude dos anos de Copa do Mundo, alguns meses após a competição ainda haverá eleições gerais. Com isso, um novo estado de espera se instaura. Uma espera de outra natureza que, por incrível que seja, parece mover menos os cidadãos. Talvez porque a crescente descrença adquirida não autorize hoje qualquer esperança vencendo o medo. Mas é fato que as políticas públicas — e os noticiários políticos — viverão uma espécie de suspensão, no aguardo dos próximos mandatários.

E nossas eleições têm essa característica estranha: parecem incapazes de mobilizar os cidadãos — ao contrário da Copa. Aparentemente, ao menos são descoladas do que acontece nos campos de futebol, já que desde a retomada da democracia, os reveses da seleção foram sucedidos por vitória do grupo que já estava no poder, e a vitória da seleção em 2002 antecedeu uma ruptura. A única exceção foi o ano de 1994, justamente quando se inaugurou a era de Copas do Mundo somadas a Eleições Gerais.

Outra característica de nossas eleições é a primazia da atenção para os cargos executivos — talvez na espera de algum herói que mude a realidade, embora a figura do herói que arrebanha esperanças me pareça ter esmaecido imensamente após 2002, ou seja, não me parece hoje viável. Esquecemo-nos sempre, entretanto, de quem faz as leis. E nesse terreno, na verdade, não temos qualquer controle sobre quem elegemos. Por mais que escolhamos o menos pior, ou até, com alguma sorte, um bom candidato, não temos verdadeiramente como votar nele. Votamos necessariamente no partido.

Nas eleições de 2010, por exemplo, apenas 35 dos 513 deputados foram eleitos com os próprios votos, ou seja, alcançaram individualmente o quociente eleitoral em seus estados, sem precisarem dos votos de suas coligações. Se ainda sei alguma coisa de matemática, isso representa 6,8% dos deputados que foram para o Congresso. Os outros 93,2% foram eleitos “indiretamente”. Esse fator, conjugado à crise na noção da representação política e ao voto obrigatório, engendra um sistema feito para perpetuar essa indiferença e essa invisibilidade relacionada às eleições legislativas. Mas como os que fazem as leis se beneficiam desse sistema, resta pouca esperança de que qualquer reforma política séria seja feita.

E, após as eleições, já nos encaminharemos, consumindo os dias e consumidos por eles, para o fim de um ano que talvez nem mesmo tenha começado. Pelo menos para quem deposita fora de si o tempo de qualquer realização. Mas para quem não alheia o próprio desejo, a própria vontade, sempre é o tempo. “Os dias nunca são iguais / quando a inocência se desfaz”…

Pawel Kuczynski - Calendar

Pawel Kuczynski – Calendar

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Gesú: Mãe, vamos no shopping tomar sorvete?

Maria: Minha Nossa Senhora! Ô Zuzinho, sossega. Vamos na sorveteria aqui da esquina, mesmo.

G: Mas tá quente, mãe. E no shopping tem arzinho gelado.

M: Não podemos, filho.

G: Ah! Por favor, mãe!

M: Um doutor proibiu. Agora, é mais fácil conseguir empréstimo em banco do que comprovar renda pra entrar em shopping.

G: Ah! Mas é rapidinho, mãe. A gente toma um sorvete, dá um rolezinho e volta.

M: Menino, não fale uma coisa dessas! Foi isso mesmo que o doutor proibiu: rolezinho no shopping.

G: Por quê?

M: Sei lá eu. Acho que tava dando confusão. Só sei é que a polícia agora fica lá pra vigiar e pegar o comprovante de renda de quem entra no shopping. Se não comprovar renda, é preso.

G: Mas a polícia pega de todo mundo que vai dar um rolezinho?

M: De todo mundo não. Só de quem tem cara de pobre. Se a polícia me pega e descobre que eu não tenho como comprovar renda, que eu faço faxina na casa dos outros… Melhor nem pensar nisso!

G: Mas como a polícia sabe quem tem cara de pobre? Como é cara de pobre, mãe?

M: Ai, como você é perguntador, menino. Não sei explicar essas coisas difíceis, não. Cara de pobre é uma cara assim, que nem a nossa.

G: E a gente nunca mais vai poder ir no shopping?

M: Só se a gente mudar de cara, moleque! (Risos. Depois, silêncio reflexivo.) Não, Zuzinho, só enquanto o pessoal tiver falando disso. Daqui a pouco, tudo volta ao normal, aí a gente vai poder ir no shopping de novo.

G: Ah! Mas quem tirou as coisas do normal justo no calor? Queria ir lá hoje tomar sorvete.

M: Filho, presta atenção numa coisa. Você é pequeno, mas é de pequenino que se torce o pepino. Então aprende que gente como a gente tem de saber o nosso lugar…

G: E qual é o nosso lugar, mãe?

M: Deixa de fazer perguntas difíceis, menino! Mas aprende isso: pobre que não sabe o seu lugar vira bandido. E eu não quero criar filho meu pra virar bandido, não, viu?

G: Vi, mãe!

M: Promete?

G: Prometo! (Silêncio.) Mas no próximo verão a gente vai poder ir no shopping tomar sorvete?

Observação: O diálogo acima pode ser inverossímil. Mas a realidade é bem mais (ver processo 1001597-90.2014.8.26.0100 e íntegra da decisão). E, por fim, não há como não lembrar do Gonzaguinha, numa hora dessas:

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