Feeds:
Posts
Comentários

Posts Tagged ‘Poesia’

Vislumbres

Vem do fruto proibido
nossa herança original —
esse dom de presciência
da implacável finitude

contra a qual, porém, lutamos.
Se tudo são incertezas,
é demasiado humano
nossa luta por sentidos.

O corpo de nosso tempo
não está ao nosso alcance —
só se dá em perspectiva.

Caos são pequenos vislumbres
dessa máquina de instantes
que é o espírito do tempo.

quinzenario0047

Read Full Post »

(para Marcelo Tosta)

Tão doce é correr estrelas!
Doce é tocá-las, é vê-las
nos sonhos em profusão.
Todas elas, ao meu lado,
vêm-me trazer o pecado
na forma de contrição.

Doces são esses teus olhos
que vêm banhados com óleos
de sagrada inspiração.
Quero retirar das lavras
que são as tuas palavras
os sonhos que me virão.

Cada ato, cada cena
dessa vida é um poema
perdido na viração.
Desde o proscênio à ribalta
tua vida verde salta;
vermelhos, teus sonhos vão…

Das ostras que pelos mares
ou rios tu espalhares
(filhas de padre elas são!)
as histórias quero ouvir.
Com as ostras desejo ir
conduzido pela mão.

Ouvir tuas filhas nuas
segredando-me, nas ruas,
alguma suave canção
é ver que o teu vasto orgasmo
— e com isso é que eu me pasmo —
semeia a tua criação.

– 10 / XII / 1998

[Do livro “Poemas para serem encenados” (Casa do Novo Autor Editora, 2008).]

Marcelo Tosta: "Pedro febril"

Marcelo Tosta: “Pedro febril”

Read Full Post »

Cantares

Canto cada
acaso,
cada canto
da casa.

Cada lágrima
que rio
me deságua
num canto.

Conto a vida
que canto
e o meu conto
é canto

diverso.
Quem versa
sobre o canto
encanta?

Read Full Post »

Do imoral

Defendo a imoralidade
dos passeios à beira-mar,
dos beijos apaixonados em praça pública,
dos ócios do orifício.

Ajunto-me ao que não presta,
ao que é inútil como um verso.
Faço proselitismo de gozos
e prego valores torpes como o riso
…………………………………………….a palavra
…………………………………………….o amor.

Desejo afeto gratuito,
despido da moral dos cínicos
…………………………..dos sádicos
e que desejo nenhum
seja violado.

Que não reine sobre o corpo
o vil metal.
E fogueiras não ameacem
a floração dos quereres,
pois indecente é subornar sorrisos.

Sustento o imoral,
porque a moral
………………………… e os bons costumes
exterminam a faculdade
de não saber
e se perguntar
sobre o porquê das coisas inexplicáveis.

Read Full Post »

(em resposta indireta a Pedro Tostes)

Chamar de puta
o despautério da poesia.
Contar da luta
no cemitério da razão.

Voz desafinando
o coro dos contentes,
onde não cantam aqueles
que mascam balas de borracha
ou que beijam na boca,
bem gostoso,
a própria insanidade.

O verbo fundamenta
a carne das luzes
e das gentes.

Nau a vagar
por um caudaloso rio
que irriga o jardim minado,
onde flores
são sóis ou pequenos universos
que se abrem
a perfumes diversos.

Tomar cicuta
levando a sério uma sentença.
Com a pá – lavra enxuta –,
jogar húmus na semente do verso.

Jardim Minado - Pedro Tostes (Patuá, 2014)

Jardim Minado – Pedro Tostes (Patuá, 2014)

Enquanto leio, costumo ser alcançado pela poesia de duas formas distintas. Há versos que me exigem silêncio, para que eu adentre entorpecido em seus desvãos. E há outros que me pedem resposta imediata, às vezes antes mesmo que eu termine a leitura. Os poemas de Jardim Minado, de Pedro Tostes (Patuá, 2014), pertencem a esse segundo grupo. Seus versos me provocaram a tal ponto que exigiram que eu não me calasse diante deles. Exigiram minha voz, engendrando os sentidos abertos ao leitor a cada estrofe, a cada palavra.

O poema acima foi escrito como uma resposta em versos a esse livro. E para saber mais sobre ele, visite a página do Pedro no site da Editora Patuá.

Read Full Post »

O dia de hoje é cinza.
Assim se tingiram
os céus da cidade
que ontem festejou
com fogos de artifício
artifícios discursivos
– o que há para comemorar?
Indiferente à perplexidade
ante os duros golpes
dos tempos, segue
a luta.

A luta da mulher
que acorda de madrugada
para cruzar a cidade
e garantir seu lugar
à sombra dos patrões,
e depois levar para casa
a comida pouca,
que cozerá com seu cansaço
para alimentar o crescimento
das crianças.

A luta de quem mora
longe – inda que perto de nós –,
onde o estado de
exceção é regra,
e o Estado, uma exceção.
A luta das pessoas
que são governadas,
das que são despojadas
de palavras,
das que não sabem
quanto custa o dólar,
mas contam cada centavo
do trigo.

Há muito foi exilada
a esperança.
Ouço gritos, que ainda
parecem longínquos,
pedindo cárcere de quem
luta por mais do que circo
e pão.

Agora, parece que vão banir
o vermelho das ruas
– quem sangra,
que fique em casa!
O dia de hoje é cinza.

São Paulo, 12 de maio de 2016.

Read Full Post »

antologia-patuscadaHá exatamente um mês foi lançada a “Antologia Inaugural – Patuscada“, na festa de inauguração do “Patuscada – Livraria, bar & café”. Desde então minhas estantes são habitadas por essa obra, que reúne poemas e contos de pouco mais de uma centena de autores que apoiaram esse projeto – entre os quais me orgulho de estar. Meu endereço nela são as páginas 214 e 215, onde podem ser lidos dois poemas meus: “Alumbramento a céu aberto” e “Vaga vida”.

Confesso que a antologia ainda não ocupou seu lugar na taxonomia de meus livros. Mas aguarda paciente, junto a uma pequena congregação livresca de recém-chegados, o tempo em que há de rumar para o seu canto exato. Se eu não cuidar, periga apenas de essa congregação crescer ainda mais e ocupar muitos desvãos nas estantes.

antologiapatuscada1

Penso nessa antologia inaugural, organizada pelos queridos amigos e poetas Eduardo Lacerda, Leonardo MAthias e Ricardo Escudeiro, cumprindo uma função semelhante àquela desempenhada pelo Patuscada: um ponto de encontro, onde pessoas se reúnem ao redor de sonhos. Agregam-se e festejam em derredor da literatura, da poesia, da arte e da amizade. E demonstram que a philía inaugura possibilidades de memória e legado, e também engendra um testemunho para o porvir. O mesmo ocorre na antologia. Ela congrega vozes distintas que se colocam lado a lado. E se oferecem, juntas, ao porvir de leituras e bibliotecas.

Termino essa lembrança dividindo as palavras do colofão da antologia. Quem lê e acompanha os livros da Patuá, sabe do cuidado especial que ela tem com esse pedaço do livro, por vezes tão esquecido. Tais palavras dialogam lindamente com esse espírito aqui evocado. E, curiosamente, também evoca um elemento essencial do meu “Trítonos – intervalos do delírio“, obra que recentemente lancei pela editora.

Para os que acreditam na poesia e nos encontros que a poesia pode promover, nós repetiremos incansavelmente ao modo de Belchior:

amar e mudar as coisas nos interessa mais.

O que buscamos não é só a festa, mas a celebração da poesia e da amizade, o delírio:

amar e mudar as coisas nos interessa mais.

antologiapatuscada2

A “Antologia Inaugural – Patuscada” e o meu livro “Trítonos – intervalos do delírio” podem ser encontrados, junto de diversos outros amuletos, no site da Editora Patuá.

Read Full Post »

Leio em loop infinito os versos que recebi hoje de minha irmã. Releio-os numa felicidade de imensidões. Eu, que me sei poeta e escritor por sua influência. Por desejar também ter cadernos pautados para jogar com a linguagem. Numa desmedida de ternura, quando os todos caminhos parecem abertos e transitáveis. Se bem que já havia tendências nesse tempo, quando você tinha pouco mais do que nove anos e eu, quase doze. Você tinha a altura e a intensidade de uma linguagem esgarçada pelo trágico. Eu arquitetava formas, engendrava desgastadas rimas e me divertia em impor regras para constranger a liberdade absoluta do dizer. Se a poesia em você eram jorros de metáforas dilaceradas nas asas dos pássaros, para mim valia a diversão de pôr palavras num pilão e extrair-lhes os óleos do inabitual.

Que dizer desse caminhar que, ao mesmo tempo, é solidão e partilha? Ouvimos de Drummond um conselho sobre os poemas: “Espera que cada um se realize e consume / com seu poder de palavra / e seu poder de silêncio.” E o silêncio é um outro nome para a solidão. Por isso o poeta das sete faces nos diz também: “Penetra surdamente no reino das palavras.” No entanto, poetas tocam o incomunicável para voltear e dar a ver o lodo das palavras, essas metáforas gastas, repletas de histórias e corruptelas. Para sentar junto na fogueira dos tempos e cantar sobre essas descobertas. A solitária escrita deseja a leitura, almeja o encontro.

E nosso encontro precede à palavra. Nasce anterior ao verbo. Remete a signos ainda cindidos, significantes com cambiantes significados. O logos do afeto nos guiou os passos. E, por graça e obra da vida, caminhamos num mesmo sentido, mesmo que por caminhos diversos. E sob a égide dos versos, das metáforas e da poesia espargida, fizemos o pacto dessa fraternidade. Juntos seguimos. Sempre, sempre, sempre, e cada vez mais.

Com um amor que precede e transcende o verbo, te amo, minha irmã!

Betinha e uma caneta profética vaticinando uma vida entre palavras.

Betinha e uma caneta profética vaticinando uma vida entre palavras.

Irmão

A linguagem nele
irradiou nos seres e nos objetos
concebeu uma gramática
em mim, labiríntica.
Chamei-o estruturalista
porque vejo em modo macro
sondada por sensações.
Minha razão encadeando
elementos assombrados
meu irmão operando ideias
com lógica e afeto.
Razões obsedadas
uma tremenda ternura
capricorniana
confusa confusa
em viver de signos.
Versus
o canceriano imenso
que pensa desde a palavra:
penso desde a palavra.
O mundo fizemos
um pacto
desta fraternidade.

Roberta Tostes Daniel

 

Read Full Post »

“Tu deviens responsable pour toujours de ce avec que tu as allié”
(Nicolas Machiavel – Le Petit Prince¹)

Partir somente quando já naufraga,
Miserável, a louca embarcação.
Dizer adeus prevendo que uma vaga
Basta a todos os ratos do porão.

___

(1) Apud. MARX E HEGEL. Por que estamos envergonhados? Autos PIC 94.0002.0007273/2015-6: São Paulo, 2016.

Read Full Post »

No dia 29 de março, o sarau do coletivo Gente de Palavra homenageará o poeta e editor Eduardo Lacerda, num evento organizado pelos poetas Davi Kinski e Rubens Jardim. Como editor, são dez anos de trabalho dedicado a novos autores (e especialmente a novos poetas), entre fanzines, revistas, jornais e livros. Cinco destes à frente da Editora Patuá, uma das mais importantes editoras independentes do cenário brasileiro, destacada por apostar em novos autores e que hoje possui mais de 300 livros em seu catálogo. Uma editora que festeja a poesia e o desejo de encontro que mora em cada escritura, e que acaba de inaugurar ontem (26/03) a Livraria & Café Patuscada (cujo próprio nome sugere, é um lugar de festa ou de farra).

quinzenario0041

Por vezes, o editor Eduardo Lacerda, esse que celebra tantos novos autores, dando-lhes vez e voz, esconde o poeta Eduardo Lacerda que talvez seja um tanto tímido e injustificadamente reticente em relação à própria poesia. Quando soube da iminente homenagem, pensei especialmente nesse autor escondido, o que me fez resgatar algumas impressões de seu até agora único livro, Outro dia de folia, que tive o prazer de ler em junho de 2014. Evidentemente, após esse hiato, a memória latejante de seus versos já arrefeceu. Ainda assim, busco tracejar um itinerário de leitura e lembrança desbotada dessa obra.

quinzenario0040

Ainda que eu esteja distante do tempo da leitura, ainda consigo tatear algumas coisas de que especialmente gostei naquelas páginas. A primeira, por mais evidente, é o signo de melancolia por trás de toda festa. Segui empós essa chave de leitura, até chegar no poema “Candelabro”, onde encontrei um contracanto, uma segunda voz que me foi muito cara: a presença de uma espécie de culto primitivo retirado do banal da vida. Ali, naquele menino que não acendia velas até que a solidão o levou a evocar seus fantasmas para lhe fazer companhia, deparei-me com mais uma inesperada chave de leitura. Festa e misticismo, nostalgia e solidão… E uma inadequação muda no aceno que encolhe o gesto, no abraço perverso de um inflado sussurro, no balão/grito calado a evocar o céu.

Fui avançando nas páginas e encontrando minha própria antologia, até chegar num poema escuro e misterioso, intitulado “Nunca entendi”, que me ofereceu um imenso alumbramento. Ainda hoje desejo roubar uns versos dele como epígrafe para algo meu, apenas para minha escrita ficar mais bonita, testemunhando que “as frestas das cortinas / ejaculavam sol e / silêncio”.

Mal pude me refazer desse poema e já dei com o patíbulo onde estava “O falso enforcado”, esse arcano em seu próprio jogo e destino, esse poeta maldito e tantas vezes subversivo que canta, mesmo morto, a carta da morte. E, nesse ponto, a sensação que me invadia era a de que o livro crescia. A cada outro dia de folia, ele ganhava amplidões.

Caminhando pelas veredas do livro, me deparei com uma terceira voz. Ela, na verdade, sempre esteve presente, mas se mostrou clara no poema “Ao escuro”: a memória da infância. Neste poema, que me ecoou o dorido “Recordo ainda” do Quintana (em especial o terceto final: “Eu quero os meus brinquedos novamente! / Sou um pobre menino…acreditai… / Que envelheceu, um dia, de repente!…”), o menino melancólico e brincante da capa do livro parecia ganhar corpo e história. Um menino alumbrado e repleto de patuás, editor de seu canto ejaculado de sol e silêncio, equilibrista sobre a carta da morte. Tudo seguia como uma composição a três vozes, ritmada pelo som de livro sendo lido.

Mas o percurso dessas três vozes me conduziram até o momento em que um som de atabaques e uma voz de ogã passou a conduzir o ritual, aberto por Iansã — orixá que hoje habita a estante de livros de minha casa, certamente para ventar ideias. As três vozes não se calaram. Somaram-se a esta quarta voz, forte e ancestral, que incorporou, sob o signo do vento fêmea, todo um chão de signos colhidos até ali. Nesses cantos, “a vida é febre, e também / gelo, espelho / e trevo, / dos comuns”. Os despachos finais me chegaram como a coroação de uma grande obra. Uma festa. Mas não uma “Monofesta”. Um festejo surpreendentemente aberto a outras palavras partícipes. Toda escrita ali desejando diálogo, celebração e reunião.

Tomo parte nessa festa para agradecer pelos versos espraiados em cada página. Para testemunhar a aventura de ser leitor, na melancólica folia dessa obra primeira e ímpar. E para esperar por um Outro dia de folia.

outro-dia-de-folia

Read Full Post »

Que ninguém me descubra em meus poemas,
pois minha vida, mesmo quando escrita,
não importa de fato e nem concita
que a procurem ao longo de meus temas.

Se o que escrevo se faz no mar da história,
a ele não se prende ou se resume.
A linguagem me ausenta e lança lume
somente no leitor e na memória

daquele que se encontra com meu texto.
Pouco vale supor o meu contexto,
pois toda escrita é feita de invenções.

É sempre preferível admitir
que espero o breu das coisas, que há vir
habitar minha voz e meus pulmões.

quinzenario0039

Read Full Post »

Na festa que quatro anos da Editora Patuá (há pouco mais de um ano, portanto), voltei acompanhado por dez amuletos, além de duas garrafas de cerveja. Entre esses amuletos, estava Des. caminhos, o livro de Adri Aleixo. Nessa ocasião, ela me disse que seu livro era para se ler num único ato, numa tarde de sábado — imaginei uma tarde chuvosa, com cheiro de terra subindo e abraçando o olfato acostumado ao asfalto dessa selva de pedras a que hoje chamo de minha cidade, por adoção e no provisório de todo estar. Na primeira folha em branco do livro, sua caligrafia me faz “um convite para des. caminhar entre pétalas e estilhaços”.

Dos amuletos que vieram comigo após a festa de 4 anos da Editora Patuá, em 20 de fevereiro de 2015.

Dos amuletos que vieram comigo após a festa de 4 anos da Editora Patuá, em 20 de fevereiro de 2015.

Já faz algum tempo que respondi a esse convite e me coloquei, des. caminhante, nas estradas impressas dessas páginas. Em setembro terminei o livro e em outubro comecei a escrever esse texto, que acabou interrompido pelo incessante fluxo de dias corridos. Mas lembro bem que adentrei o livro como num orbe repleto de sonhos e quimeras, pétalas e estilhaços, delicadezas e rios… E, claro, de montes, desses típicos dos horizontes dessas Minas Gerais. Logo no início, uma revelação (ou uma re-lembrança)  me preparou para a natureza dos poemas que me esperavam: Poético é o Estado Físico da Matéria.

Os poemas ali devem ser lidos com todo o corpo, com “orvalho no olhar” e “os pés cheios de inundação”. Como leitor, ecoei a súplica desses versos: “me pegue e me leve / para um desses seus / poemas.” Mas a verdade é que eu já estava neles, des.caminhando com os olhos, atendo ao momento nos quais se “desprende um clarão / para sublimar insanos”.

Os versos de Adri me evocavam tardes chuvosas, nas quais a gente vai se “desconhecendo a partir do que falavam / ora pétala / ora erva”. Talvez porque seu livro inteiro me evoque aquela imagem que ela me ofereceu numa conversa: “um livro para se ler inteiro numa tarde de sábado (que imaginei chuvosa). Ainda que eu tenha me deslocado bastante, na ordem prática dos dias, desse ambiente de leitura, ele pulsa no livro inteiro. Encenei meu papel de leitor em três atos, quase cíclicos. O primeiro, numa noite, voltando do trabalho de ônibus. O segundo e maior, numa manhã quente de domingo, enquanto a casa ainda dormia. E o último ato, repetindo o primeiro, também dentro de um ônibus, mas com a leitura terminando antes que eu chegasse ao meu destino — e, com isso, me ficaram reverberando os poemas finais pelo resto do trajeto. No poema Des.caminhos, leio que “Foi refazendo caminhos que me permiti / necessária”. O poema seguiu “Adejando rios / Desfolhando noites.” Fiquei com essas imagens ressonantes, antes de me dirigir ao poema derradeiro, Des.caminhos II — “Coisa de rir e de sonhar”! Deixo-o inteiro aqui:

Na ida todo santo ajuda
mas na volta
houve tanto alumbramento
tanta iluminura.
Coisa de rir e de sonhar.

Esses versos são uma bela metáfora sobre a escrita. Aliás, são muitas as alusões à escrita, à leitura e a linguagem. Inda no primeiro ato de minha leitura, deparei-me com um poema que, sem pudores, ordena: “Tire sua roupa e leia este poema / você tirou os seus sapatos para empinar a pipa / Para que servem as máscaras”. No percurso desse poema, ainda me deparo com a seguinte preocupação: “não deixe amarelar as palavras como se amarelam as flores”. Mal saído desse alumbramento, sou tragado pelo início espantoso de Fonemas: “Ele inaugura linguagens / no percurso do meu corpo”. A poeta, que se diz “Vestida de chuva / e plena de encantos”, anuncia e partilha Do Verbo que se encarna em todo leitor e todo escriba:

A palavra estilhaçou meu peito
e o que pulso
É poesia.

É poesia, pulsante e em estado puro, o que encontrará todo leitor que se aventurar por esses Des. caminhos.

Des. caminhos, de Adri Aleixo (Patuá, 2014).

Des. caminhos, de Adri Aleixo (Patuá, 2014).

Read Full Post »

(para Eduardo Lacerda)

Vejo a poesia espalhada
pelo caminho dos ventos,
pelos meus olhos atentos,
pela cidade asfaltada.

Outro dia de folia,
em que um homem é arcano
de seu destino profano
de se fazer melodia.

Com a corda no pescoço
e os dois pés na corda bamba
se equilibra o utopista.

Aos poucos ergue um colosso
que em tinta e papel descamba –
é o sonho que aqui se avista.

com Eduardo Larcerda, no relançamento de Trítonos - intervalos do delírio, durante a Festa de 5 anos da Editora Patuá.

com Eduardo Larcerda, no relançamento de Trítonos – intervalos do delírio, durante a Festa de 5 anos da Editora Patuá.

Read Full Post »

(para Fabiana Turci,
pelos cinco anos em que dividimos a cama e a vida)

I

É porque o amor é fogo
que precisamos manter
crepitante e em combustão
a chama desse braseiro.
Quero arder contigo a vida
inteira, dada no instante.
O que somos alimenta
o que arde sem se ver:
nossos corpos, nossas horas,
nossas vidas, nossas fomes –

material comburente
ou matéria desejante.

II

Com os tijolos dos dias
e a argamassa do afeto
engendramos a morada
desse fogo que acalenta
minha vida, nossas vidas.
Esse fogo que acalenta

recende em nossos olhos
nossas histórias mais íntimas
de leituras tão diversas
que fazemos nesse mundo.
Quero te dar minhas mãos

para afagar teu calor.

III

Nas avalanches do tempo,
inda engendramos mudanças
e descrevemos silêncios
de uma orquestra de papel.

Quando te despes de ti
teu mínimo eu emerge.
Teu mínimo, eu te amo.

Tateamos incertezas juntos,
pois essa vida é assombro
e espanto. E nos caminhos
da dúvida partilhada

nosso amor se fortalece.

IV

Abrimos as nossas portas
para entrarem as brisas
que afagam as nossas horas
Novos ventos descortinam
vocações adormecidas.

E no meio do caminho
dessa vida, sinto o tempo
quando meu corpo fraqueja.
Mas tuas mãos colhem flores
embriagadas de orvalhos.
Ouves segredos da terra

que nas tuas mãos germinam.

V

Quando o teu corpo fraqueja,
vamos ouvi-lo por dentro
para entender seus processos.
Enquanto isso, tu ouves
murmúrios de muitas flores
e eu escuto em folhas brancas
intervalos do delírio.

Porém, quando há desencontro
nos sons da polifonia
que nos chegam aos ouvidos

resgatamos o silêncio
para ouvirmos um ao outro.

Fabi & Teo

Fabi & Teo

Read Full Post »

I – Armagedon

É todo dia que ocorre
a luta do fim dos tempos,
quando bombas e agressões,
lamas tóxicas, misérias
e execuções calam vidas.

É que o juízo final
também acontece agora.
Todo instante então povoa
o tempo do apocalipse
presente em cada morte.
.

II – Gênesis

No sem-fim desse universo
que talvez seja espelhado
ou até caleidoscópico,
um deus qualquer faz a luz
que sai de um buraco negro.

A cada vida que surge,
o princípio de um verbo,
no próprio dia primeiro
de alguma criação,
abre um eterno retorno.

quinzenario0035

Read Full Post »

(em conversa com Ricardo Escudeiro)

Nas vozes angelicais
ou nas gargalhadas de enxofre,
todas as doze notas
se encontram em rigorosa
correspondência.

O diabo em música
altera apenas
os intervalos.
Seu ludíbrio consiste
em descartar o que não é
inteiro.

A inteireza de três tons
parece desafinar
o mundo todo.
Soa como ruído.
Vida proscrita dos cantos
litúrgicos.

O corpo espera sôfrego
a resolução e repete,
com o ouvido:
trítonos são os intervalos
do delírio.

Hieronymus Bosch - Detalhe de O Inferno da obra Jardim das Delícias Terrenas

Hieronymus Bosch – Detalhe de O Inferno da obra Jardim das Delícias Terrenas

Escrito a partir do poema “quinta diminuta”, publicado em fevereiro deste ano na Mallarmagens — Revista de Poesia e Arte Contemporânea, numa série de três poemas de Ricardo Escudeiro. Faço dele ainda um primeiro chamamento para meu livro Trítonos — intervalos do delírio (Editora Patuá), a ser lançado em breve.

Read Full Post »

Cortar a ideia de lua
com a lâmina da língua.
Dizer o mundo não míngua
porque sempre o perpetua.

Extrair da lua cheia
o sumo que não é dito.
Erigir um monolito
feito de sal, ar e areia.

E adorar, por fim, o pó
daquilo que, na linguagem,
me deixa um pouco mais só.

Se houver alguma poesia,
que a minha voz, em viagem,
leve sua melodia.

Matt Cardy - Supermoon

Matt Cardy – Supermoon

http://www.perotachingo.com.ar/

Read Full Post »

A fúria indômita das águas

Vi que a fúria da água é incontida.
Ela invade em silêncio a concretude
de paredes. Alastra-se amiúde.
Não encontra represa nem na vida.

Eu sei que a água em fúria é impelida
a seguir, sem que nunca nada mude
seu ímpeto envolvente. Na inquietude
de seu fluxo, ela quase nos convida

ao seu íntimo, num afogamento.
E não cabem recusas nesta teia
que é, de fato, ordem líquida ou tormento.

Essas vagas arrasam coisas, mágoas
e construções, que somem como areia
cedendo à fúria indômita das águas.

Claude Joseph Vernet - Un naufrage en mer agitée sur la côte

Claude Joseph Vernet – Un naufrage en mer agitée sur la côte

Read Full Post »

A matéria, reunida
na ampulheta do ano-luz,
aprende e se reproduz,
arquiteta, assim, a vida.

A vida, nalgum momento,
de chofre se vê dobrada.
No cérebro conectada
então cria o pensamento.

Não vejo mais os reflexos
da transcendência etérea
das crenças e das essências.

Pelos caminhos complexos,
eu ando a ler na matéria
o Livro das Imanências.

Nebulosa da Ampulheta (MyCn 18)

Nebulosa da Ampulheta (MyCn 18)

Read Full Post »

« Newer Posts - Older Posts »

%d blogueiros gostam disto: