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Posts Tagged ‘Poemas’

Ontem (8/7) fez um mês que se abriu uma cisão mágica no tempo e no espaço, cisão capaz de promover profundos encontros e comunhão. Numa sexta-feira, 8 de junho, ocorria a primeira edição do Sarau Verbo Raio, organizada pela Lilian Sais e pelo Marcus Groza. E essas duas potências juntaram outras vozes, promovendo uma polifonia rara e especial. Além de mim e dos curadores do sarau, estiveram também os incríveis artistas (da palavra, do verbo, do som) Alexandre Marinho, Julia Mendes, Luiza Borba e Maria Giulia Pinheiro.

Sarau Verbo Raio

Os cinco primeiros vídeos registram, com as devidas edições, a minha apresentação. Mas para ver a beleza de tudo o que foi, recomendo fortemente assistir ao vídeo inteiro na página da Tapera Taperá, que sediou o evento.

Vídeos:

Trecho do conto “Gritos do açafrão”, de Trítonos – intervalos do delírio.

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Espaço público (poema) + Naci en Palestina (música)

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Corpo cerzido (poema) + Veredas do Tempo (música)

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Se eu acreditasse num deus (poema)

.

Hinech Yafa (música) + Canção profética (poema)

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(À Cia. Coral Mawaca)

I

Quando canto projeto no futuro
cada som que eu desejo permanente.
Mesmo lançando a voz num tempo obscuro,
já me sinto soando lá na frente.

Quando canto eu sei que me aventuro,
pois soando me ligo no presente
de modo mais inteiro e mais seguro.
É na voz que carrego o que é urgente.

Nesse espelho dos tempos que é a vida,
eu sou um eco vago que convida
o agora a se encontrar com o amanhã.

São urdidas num cântico voraz
as longínquas memórias lá de trás,
levadas pelos ventos de Iansã.

II

Quando cantamos, nunca estamos sós.
Na voz levamos nossos ancestrais
e as canções que trouxeram para nós.

Passageiros do ar, são pelos ventos
conduzidos os sons inaugurais,
espelhos de folias e lamentos.

Eu ouço sedimentos de memórias
ressonando em escalas. Ouço vidas
que nos contam e cantam as histórias
que movem nossas forças incontidas.

Meu corpo é instrumento em que se abriga
tudo o que invoco e sinto que é sagrado.
Celebro assim, numa canção antiga,
as vozes e os cantores do passado.


O meu sentimento é de gratidão por tudo o que foi na sexta-feira (6/7), na apresentação da Cia. Coral Mawaca. Pelas músicas que nos atravessaram, pela forma como soamos e pela alegria pulsante em nós.

Desejo agradecer por tanta coisa que é até difícil encontrar palavra para descrever esse tanto. Agradecer pela troca, pela alegria, pelo entusiasmo, pelos sons, pelas danças, pelos abraços, pelos sorrisos… e pelas palavras.

Queria ainda fazer um agradecimento especial à Angélica Leutwiller por suas palavras antes do concerto, que me levaram às lágrimas (e não só a mim). E, porque aprendi tanto com aqueles dizeres, agradeço também a todas as vozes ancestrais que trouxeram todas essas músicas até nós, o que de certa forma permitiu que esse grupo pudesse se encontrar. A partir dessa sexta, passarei sempre a pedir licença a todas essas vozes e povos que cantaram essas músicas, quando eu for cantar.

 

Primeira apresentação da Cia Coral Mawaca, em 6 de julho de 2018.

Primeira apresentação da Cia Coral Mawaca, em 6 de julho de 2018.

Primeira apresentação da Cia Coral Mawaca, em 6 de julho de 2018.

Primeira apresentação da Cia Coral Mawaca, em 6 de julho de 2018.

Primeira apresentação da Cia Coral Mawaca, em 6 de julho de 2018.

Primeira apresentação da Cia Coral Mawaca, em 6 de julho de 2018.

Primeira apresentação da Cia Coral Mawaca, em 6 de julho de 2018.

Primeira apresentação da Cia Coral Mawaca, em 6 de julho de 2018.

Primeira apresentação da Cia Coral Mawaca, em 6 de julho de 2018.

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I

Costuro no ventre do tempo,
sob a forma de palavras,
o testemunho de como minha voz
adentrou no ouvido

da alteridade.

II

Gesto palavras que são afetos.
Palavras do Outro,
que me foram ofertadas
da leitura que fizeram

de mim.

III

Cada anotação que faço
é uma ultrassonografia do poema
que ainda vai nascer.
Cada afeto é uma ponte

que alimenta vindouros versos.

IV
Há fetos de afeto
em cada palavra gestada,
em cada ponte criada.
No solo fecundo e arcaico

do que me ultrapassa.

V

São olhos alheios
que desenham o esboço
de meu rosto.
Palavras que me antecedem

afluem para o que escrevo.

VI

As lembranças do Outro
fundam minha memória.
Com o afeto que recebo
é que aprendo

a sentir.

VII

Enterro palavras
nas entranhas daquilo
que tenho sido:
um corpo impermanente,

uma máquina desejante.

VIII

A sensibilidade da carne
é o que abre a vida
ao mundo das possibilidades.
Ela permite ao indivíduo

inventar-se no fora de si.

IX

Naquilo que sinto,
eu me torno múltiplo.
E assim, em nove movimentos,
estou prestes a parir

o poema recém-nascido.

Birth of Universe – Victoria Merki

Poema escrito durante a Oficina de Escrita Criativa “Entre Vodus e Ciborgues: a escrita como corpo e potência“, ministrada por Geruza Zelnys e Eduardo Guimarães.

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No próximo sábado (20 de janeiro), terei a alegria de participar do Sarau Hilda Hilst: Desejo e Cintilância. Organizado pela querida Geruza Zelnys, o sarau reúne os participantes de um curso que ela conduziu no fim do ano passado sobre a obra de Hilda. No sarau, vou apresentar uma série de dez poemas chamados “Ode fragmentária e pós-mítica para viola e cello, de Dionísio para Ariana”, feitos para minha amada Fabi Turci, que me apresentou, logo que nos conhecemos, a “Ode Descontínua e Remota para Flauta e Oboé – De Ariana para Dionísio“, obra a partir da qual eu conheci a poeta.

Vou ler os poemas de minha ode em resposta aos poemas da ode hilstiana, que serão apresentados pelas queridas Brunna Amicio e Fernanda de Paula. Além disso, poemas e texto de Hilda e outros inspirados em sua obra. Vai ser lindo!!!

Os dois primeiros poemas da ode hilstiana e da minha ode:

I

É bom que seja assim, Dionísio, que não venhas.
Voz e vento apenas
Das coisas do lá fora

E sozinha supor
Que se estivesses dentro

Essa voz importante e esse vento
Das ramagens de fora

Eu jamais ouviria. Atento
Meu ouvido escutaria
O sumo do teu canto. Que não venhas, Dionísio.
Porque é melhor sonhar tua rudeza
E sorver reconquista a cada noite
Pensando: amanhã sim, virá.
E o tempo de amanhã será riqueza:
A cada noite, eu Ariana, preparando
Aroma e corpo. E o verso a cada noite
Se fazendo de tua sábia ausência.

(Hilda Hilst)

I

“Apenas tu, Dionísio, é que recusas
Ariana suspensa nas tuas águas.”
(Hilda Hilst)

No tempo do mito, recusei
teus fluxos,
teus jorros.
No tempo em que me julgava um deus

e desconhecia
a minha própria divindade mortal.
E habitava a Terra

jogado no vento
que me espargia e fragmentava

no oco das coisas sozinhas.

Atado à vida, Dionísio é,
com cantos e sem tempos,
dos encantos de Ariana.

(Teofilo Tostes Daniel)

II

Porque tu sabes que é de poesia
Minha vida secreta. Tu sabes, Dionísio,
Que a teu lado te amando,
Antes de ser mulher sou inteira poeta.
E que o teu corpo existe porque o meu
Sempre existiu cantando. Meu corpo, Dionísio,
É que move o grande corpo teu

Ainda que tu me vejas extrema e suplicante
Quando amanhece e me dizes adeus.

(Hilda Hilst)

II

Tu conheces, Ariana, meu avesso,
meus silêncios,
meus outros.
Até mesmo a face
de Apolo

em mim, Dionísio, tu a conheces.

Sabes do fundo de ordem
no meu caos,
da seriedade dos meus dias de féria,
do meu mau humor sonolento tarde da noite
e da preguiça de minhas manhãs.
Sabes ainda que até quando durmo

te amo
e busco teu corpo como
um satélite.
E que mesmo antes dessa dádiva

já me habitava a tua poesia.

(Teofilo Tostes Daniel)

O sarau vai acontecer na Casa das Rosas, a partir das 19h de sábado (20/1). Estão todos convidados!

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Todo ano, gosto de escrever alguma mensagem a todos que me rodeiam, com a ternura nostálgica dos dias que se acumularam nas páginas do calendário que se encerra, e os desejos de vida e sonho para o novo ciclo solar que terá início. Hoje, no entanto, porque “um ano pode ser bem menor / que o calendário / e bem maior”, nada poderia dizer com mais exatidão tudo o que eu gostaria de exprimir do que algumas palavras que não são minhas. Mas que o amor permite que delas eu me aproprie e espalhe, como desejos também meus, ditos de forma perfeita e precisa pela voz e pela poesia de minha amada Fabi Turci.

http://bit.ly/anonovolab

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(em diálogo com Priscilla Menezes)

Eu ouço a balbúrdia
de uma multidão
singrando veredas
com tochas nas mãos.

“Que queimem as bruxas!”
E sei que essa história
soa mais antiga
que a própria memória.

As férteis potências
medram muito os homens
e suas ciências.

Quem celebra a guerra
sempre irá temer
as bruxas e a terra.

 

Hans Baldung – O Sabá das Bruxas

Manifestantes queimam boneca com rosto de Judith Butler em frente ao Sesc Pompeia. Foto: Felipe Faverani.

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Inundação a duas vozes

Entre piedras, cactus, abrazos y algodones
viene de tus pupilas pozo de agua infinito
hacia el plexo de mis adentros
donde duela nunca dudes, camino certo
(Perotá Chingó – Certo)

I

Doar a voz ao público.
Inundá-la de notas,
acordes quase abraços
e ritmos múltiplos.

Acender fagulhas
em todas as almas
apenas com o som.

II

Reverberam harmonias
que habitam essa forma
aquosa de música.
Um aguaceiro de lágrimas
apascenta o peito.

E assim ouvimos mergulhados
em lagunas amnióticas.

III

Milênios há
sob o chão dessas vozes donde
emanam sacras alegrias.
As sacerdotisas do som
evocam antepassados
e projetam

os olhos do amanhã.

IV

Fazer da voz a ferramenta.
Para avivar o fogo
não falta o ar,
assim como a água é vital
para fecundar a terra.

Isso é o que diz a vida,
esse infinito espelhado em mandalas.

V

Solares canções pequenas
reverdecem o dentro
de cada manhã.

E assim cantamos também,
dando graças
e pedindo à vida:
empresta-me teu sol!

VI

Lavra louca
trespassada por águas
que espelham o profundo –
essa é a matéria
que engendra nossa voz.

Assim se pode ouvi-la desde
as raízes de si.

VII

Silêncios também soam
com eloquência.
Fazem das gentes
ilhas num mar de encantos.

E se anuncia esse mistério
sob a forma úmida de um canto
desde a primeira chacarera.

Imagem do Show "Aguas" - Perotá Chingó - São Paulo, 13 de agosto de 2017

Show “Aguas” – Perotá Chingó – São Paulo, 13 de agosto de 2017

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