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Posts Tagged ‘Poemas para serem encenados’

I
Querer o mundo

Querer o mundo sem saber a forma
de o querer é querê-lo mesmo assim?
Bem sei que o meu desejo a si transforma,
mas qual a forma de o querer em mim?

Todo desejo sempre a si deforma
e adorna num desejo alterno afim.
Sei que todo querer não se conforma,
conformar-se é encontrar o próprio fim.

Às vezes meu querer, tão inconfesso,
se confunde com aquilo que é querido
e se confunde, enfim, com o próprio excesso

de mundo que os ouvidos meus escutam.
Eu tenho o mundo em tudo quanto é lido
e nisto os não-vividos se executam.

II
Pensar o mundo

É mais fácil viver num mundo cheio
de verdades vazias, ver o eterno
céu azul de uma infância sem recheio
de um real que também possui inverno.

Eu, quem quis o mundo, enfim achei-o
num ato tão contínuo quanto interno,
que só se justifica pelo meio
– é sem fim – e que em mim faz céu e inferno.

Pensar é padecer no paraíso!
Penso que pensa quem não tem juízo,
pois cultiva um prazer que é quase estoico.

Eu chego a acreditar na humanidade
e até que neste mundo há bondade.
Ao pensar eu me sinto paranoico!

III
Fazer o mundo

Somos todos uns loucos arquitetos
enchendo de futuros o universo.
O mais concreto dentre os meus concretos
às vezes faz tijolo de um meu verso.

Ao moldar meus objetos mais diretos
eu migro ao que é futuro e ao que é diverso.
Eu corro por alguns caminhos retos
à tangente presente do universo.

Tijolos de um futuro antecipado
e que pode jamais acontecer
eu utilizo no fazer o mundo.

E este mundo por mim mal tracejado,
que pode um sofisma vir a ser,
é aquilo que me resta de fecundo.

___
Do livro Poemas para serem encenados (2008).

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(para Marcelo Tosta)

Tão doce é correr estrelas!
Doce é tocá-las, é vê-las
nos sonhos em profusão.
Todas elas, ao meu lado,
vêm-me trazer o pecado
na forma de contrição.

Doces são esses teus olhos
que vêm banhados com óleos
de sagrada inspiração.
Quero retirar das lavras
que são as tuas palavras
os sonhos que me virão.

Cada ato, cada cena
dessa vida é um poema
perdido na viração.
Desde o proscênio à ribalta
tua vida verde salta;
vermelhos, teus sonhos vão…

Das ostras que pelos mares
ou rios tu espalhares
(filhas de padre elas são!)
as histórias quero ouvir.
Com as ostras desejo ir
conduzido pela mão.

Ouvir tuas filhas nuas
segredando-me, nas ruas,
alguma suave canção
é ver que o teu vasto orgasmo
— e com isso é que eu me pasmo —
semeia a tua criação.

– 10 / XII / 1998

[Do livro “Poemas para serem encenados” (Casa do Novo Autor Editora, 2008).]

Marcelo Tosta: "Pedro febril"

Marcelo Tosta: “Pedro febril”

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Genealógico

Sou filho dos burgos
mas não sou burguês.
Meus cantos são lusos,
não sou português.

Meu povo me aponta
safaris no corpo,
contrastes, afrontas
e um velho índio morto.

Entre hóstias e hostes
cravaram-me um Tostes
de algum povo ao léu.

Fugindo com fome,
meu último nome
chamou Daniel.

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Há dois dias, a surpresa, inesperada para esse fim de ano, se anunciou. Primeiro, mandou ligarem para o meu celular e me perguntarem se eu ainda estava em São Paulo.

Eu, em minha mania de prosopopéias, estou sendo pouco preciso na descrição do que houve. Na verdade, enquanto eu estava no trabalho, sem que pudesse atender o celular, ele tocou duas vezes. Desliguei-o e, ao voltar para minha sala, liguei para aquele número que não conseguira identificar.

Era da ‘Casa do Novo Autor Editora’. Queriam saber se eu ainda estava em São Paulo, pois MEU LIVRO estava pronto. Já o havia recebido alguns meses antes, mas com um erro na paginação. Tiveram de consertar e imprimir novamente todo o miolo. E essa operação estava concluída naquele dia 23 de dezembro. Ligaram-me a poucas horas de minha ida ao Rio de Janeiro para me perguntar se poderiam enviar-me o livro para minha casa.

Quando cheguei, os exemplares estavam lá na portaria, a me esperar. Abri uns poucos, dez ou doze. Folheei dois. Coloquei-os, esses dez ou doze exemplares, na mala. Estavam perfeitos, exatos. Um livro que esperou uns sete ou oito anos para ser publicado. Poemas que esperaram até quatorze anos para mancharem de tinta as páginas de um livro. Um livro que em 1998 chegou a se chamar ‘Primeiras Tentativas Poéticas’.

Não, na verdade aquele era outro livro. Poemas escritos entre 1999 e 2001 vieram, outros saíram, para a inutilidade dos versos ruins ou para outro livro, que virá futuramente. E assim, o livro que me chegou há dois dias, e que, com uma revisão ou outra, espera há uns sete ou oito anos para ser publicado é intitulado ‘Poemas para serem encenados’. Faço deste meu primeiro livro de poemas uma grande dramaturgia composta de fragmentos de peças de teatro, de cenas, de falas de personagens. Nele, todos são poemas para serem encenados, mesmo quando lidos.

Aqueles que quiserem podem encomendar o livro me enviando um email. Nele, basta dizer a quantidade de livros desejada e o endereço para envio. Cada exemplar custa R$ 20,00 mais as taxas de correio. O pagamento deverá ser feito por meio de reembolso postal. Antes de mandar o(s) exemplar(es), enviarei um email dizendo quanto ficará tudo e esperarei a confirmação de que posso enviar pelo correio a encomenda solicitada. Os pedidos podem ser feitos pelos emails teofilotostes@yahoo.com ou teofilotostes@gmail.com.

Poemas para serem encenados
Teofilo Tostes Daniel.
Casa do Novo Autor Editora: São Paulo, 2008.
76 páginas. R$ 20,00.

Encomendas: enviar um email para teofilotostes@yahoo.com ou teofilotostes@gmail.com, com o endereço para envio e a quantidade desejada.

Leia abaixo alguns poemas do livro:


P r i m e i r a s   T e n t a t i v a s    P o é t i c a s

Duas rimas se encontram no caminho,
Se entreolham, se beijam… Bem no meio
De uma frase cochicham bem baixinho
Segredos já expostos ao passeio.

A linguagem humana forma um ninho
Que sempre expõe ao público recreio
As demonstrações várias de carinho
Das palavras e idéias que eu anseio.

O verbo, ao espalhar apoteoses,
Manifesta-se ávido aos ferozes
Olhos daqueles tidos por poetas.

A minha sina foi-me revelada:
Com versos devo andar por uma estrada;
Poesias devem ser as minhas metas.


G e n e a l ó g i c o

Sou filho dos burgos,
mas não sou burguês.
Meus cantos são lusos,
não sou português.

Meu povo me aponta
safáris no corpo,
contrastes, afrontas
e um velho índio morto.

Entre hóstias e hostes
cravaram-me um Tostes
de algum povo ao léu.

Fugindo com fome,
meu último nome
chamou Daniel.


O   p o e m a   d e   h o j e

Tua presença fez-se em minha mente;
Rompeu, inexorável, a barreira
Que arquitetara para que o afluente
De mim não desaguasse em cachoeira.

Meu olhar te mirara descontente
Porquanto te encontrou, bem verdadeira,
Negando um parco olhar a mim, doente,
Que, aflito, te buscara à Terra inteira.

Lugentes olhos cercam teu olhar;
Constantes eles são ao reclamar
A migalha do céu que tu ofertas.

Desisto vagamente de utopias,
De reter os risos que sorrias.
Eu sou daquelas almas já desertas.


A l i c e    A t r a v é s   d o   E s p e l h o

(ao Armazém Companhia de Teatro)

mote
Eu escrevo este poema
que me imortalizará
por um dia tê-la visto.

Ser o público e a cena
de seus sonhos me será
doce gozo que conquisto.

glosa
Em pensaventos lesmos e espelhares,
Alice alopra os alcalóides anos
nadinocentes, vivos, sempre insanos,
latentes como o brilho dos pulsares.

Volupiadas velhas, sorrateiras
aquecem a epiderme da menina,
da infante nada infântica que nina
os desejos matreiros das soleiras.

Nosso primeiro e estranho anfitrião,
Chapeluco Maleiro e já caduco,
pregado num relógio feito um cuco
ri o riso dos loucos com razão.

Tomo um xeque, um chá-mate e enfim adentro
no espelho-tobogã atrás de Alice,
alicerce dos sonhos, do que eu visse
neste mundo fantástico e epicentro.

Eu vejo um labirinto no armazém,
num impudico, lúdico vestido
em que, no olhar mais lúcido, elucido
todas transparessências que ele tem.

Um gato trapezista, num sorrir,
instaura nos sentidos todo absurdo
comportável no meu sentir já surdo,
pois os seus lábios deixam o rosto ir!

No tabuleiro, a injusticeira manda,
a Rainha das copas e das taras.
Ela corta cabeças pouco caras
nas horas que a demência faz-se branda.

No justíbulo faz-se o julgamento
que desnuda as segundas intenções.
No júri vejo os condes e os barões
feitos nobres num doido desmomento.

No final desta noite ou deste dia,
saciado de amor, eu durmo cedo
neste hospício que espalha todo o medo
da certeza que o mundo o imitaria.

(Aplausos!)

Todos os poemas © by Teofilo Tostes Daniel 

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