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Posts Tagged ‘Paulo Vaz’

I
Querer o mundo

Querer o mundo sem saber a forma
de o querer é querê-lo mesmo assim?
Bem sei que o meu desejo a si transforma,
mas qual a forma de o querer em mim?

Todo desejo sempre a si deforma
e adorna num desejo alterno afim.
Sei que todo querer não se conforma,
conformar-se é encontrar o próprio fim.

Às vezes meu querer, tão inconfesso,
se confunde com aquilo que é querido
e se confunde, enfim, com o próprio excesso

de mundo que os ouvidos meus escutam.
Eu tenho o mundo em tudo quanto é lido
e nisto os não-vividos se executam.

II
Pensar o mundo

É mais fácil viver num mundo cheio
de verdades vazias, ver o eterno
céu azul de uma infância sem recheio
de um real que também possui inverno.

Eu, quem quis o mundo, enfim achei-o
num ato tão contínuo quanto interno,
que só se justifica pelo meio
– é sem fim – e que em mim faz céu e inferno.

Pensar é padecer no paraíso!
Penso que pensa quem não tem juízo,
pois cultiva um prazer que é quase estoico.

Eu chego a acreditar na humanidade
e até que neste mundo há bondade.
Ao pensar eu me sinto paranoico!

III
Fazer o mundo

Somos todos uns loucos arquitetos
enchendo de futuros o universo.
O mais concreto dentre os meus concretos
às vezes faz tijolo de um meu verso.

Ao moldar meus objetos mais diretos
eu migro ao que é futuro e ao que é diverso.
Eu corro por alguns caminhos retos
à tangente presente do universo.

Tijolos de um futuro antecipado
e que pode jamais acontecer
eu utilizo no fazer o mundo.

E este mundo por mim mal tracejado,
que pode um sofisma vir a ser,
é aquilo que me resta de fecundo.

___
Do livro Poemas para serem encenados (2008).

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