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Posts Tagged ‘Patriarcado’

Toda sociedade que se imaginou nova, se imaginou matriarcal.
Viviane Dias – Matriarcado de Pindorama

Na Poética, que trata especificamente da tragédia, mas cujas análises comumente são usadas em muitos outros tipos de arte, Aristóteles indica que o teatro (e talvez, por extensão, a arte) tem como função promover a purificação das emoções, por meio da catarse. Ao buscar demonstrar isso, Aristóteles deixa visível o rastro que liga o teatro grego que ele conheceu – e as grandes tragédias de seu tempo – com os ritos de purificação, não somente aqueles presentes nos grandes ritos cívicos celebrados na pólis, mas também nas celebrações de mistérios (órficos, báquicos, eleusinos). Aqui, vale lembrar que Téspis, conhecido como o primeiro ator e tido como inventor da tragédia, se apresentava em coros dedicados a cantos de ditirambos, que possuíam um caráter litúrgico em louvor a Dionísio, e não um caráter propriamente artístico. Portanto, a arte e a liturgia muito provavelmente nasceram indistintas na Grécia antiga.

Talvez seja possível hoje pensar que a arte atende a muitas necessidades. Ela celebra valores, deuses e a própria vida; estabelece conexões e laços de comunhão; engendra não apenas mecanismos de imitação e percepção da realidade, como também cria novas realidades potenciais; permite formas de expressão; faz denúncias e aponta riscos; promove prazer, diversão, riso ou gozo, etc. Olhando agora, passados alguns dias daquele alumbramento experimentado ao assistir à peça, penso que “Matriarcado de Pindorama”, encenada pela companhia Estelar de Teatro, acaba para mim atendendo um pouco a todas essas necessidades.

A encenação revisita a História do Brasil a partir do ponto de vista do protagonismo feminino. Revela histórias de resistência de personagens históricas, que cruzam com deusas e pombagiras. “Quando a nossa voz entra no mundo, todos os mapas se alteram. Porque a voz das mulheres é um rio caudaloso que abre caminho para muitas vozes”, anuncia o coro de mulheres.

Mas a peça faz mais do que revisitar a história. A plateia participa de um rito cênico, um ritual de pajelança em que uma mulher – Vera Brasilis – busca a cura de suas dores, que se originam de um mal presente desde o mais remoto passado, ou seja, desde a invasão desta terra há mais de 500 anos. O rito evoca toda uma ancestralidade que se manifesta bem diante de nossos olhos. “E neste espaço de possibilidades, rito-teatro, me permito o desejo-magia. Agora sou ponte-cabocla. Quantas mulheres cabem neste corpo?”, pergunta ao público uma das atrizes, ainda na rua, pouco antes de conduzi-lo a uma viagem pelas funduras do espaço cênico, onde muitas vozes se levantam.

Como provavelmente ocorria com o teatro em suas origens mais remotas na antiguidade, toda encenação é também um rito de purificação. Uma das personagem, porém, adverte: “Mas aqui, meu senhor e minha senhora, queremos apresentar uma atração inédita. Um mundo em vias de despatriarcalização. Se eu tive forças para cavar um passado inacreditável, neste rito-teatro inverto meu sentido e olho para frente, cavando um futuro que já se faz presente sim, mesmo se invisível para a maioria”.

A plateia é convidada a revisitar o passado para escrever um novo futuro, para ser mais um tijolo que construirá esse mundo em vias de despatriarcalização que está nas ruas, nas redes, na luta diária pela vida. Por todas as formas de vida, pois recontar a história do ponto de vista das mulheres também pode ser contar a história a partir do ponto de vista da exploração da natureza. E, prenunciando essa possibilidade, a índia Moema proclama: “sou parente da terra, também irmã da água, e sei ler os segredos do tempo. E eu sabia que esse fogo que você trouxe para cá não ia parar de queimar nem em quinhentos anos.”

Nesse trajeto, somos lembrados de que “o mundo nos ensina por todos os poros. Ainda que silenciados!” E a plateia segue, conduzida entre vertiginosos fragmentos sem fim de histórias. Todas, histórias de resistência e apagamento. Histórias que A HISTÓRIA não conta “O que acontece se apenas uma mulher contasse a verdade sobre sua vida?” Ao fim dessa mescla de manifesto e rito cênico catártico pela despatriarcalização do amanhã, presenciamos uma espécie de Sabbat de bruxas. Brasileiras e antropofágicas, cultuando o inapreensível ao som de batuques. “Somos bruxas e preparamos um caldeirão de imagens em ebulição”. Quem vem?

*Fotos: Tati Wexler
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Matriarcado de Pindorama é uma peça escrita por Viviane Dias, que também assina a direção, junto com Ismar Rachmann. No elenco, além de Viviane, estão Anderson Negreiro, Carla Raíza, Gabriel Moreira, Inês Soares Martins, Lucía Soledad Spívak, Nathalia Lorda, Regina Santos e Rico Marcondes. Vídeo projeções: Bianca Turner. O espetáculo está em cartaz sábados e domingos, até 28 de abril, na sede da companhia Estelar de Teatro, na Rua 13 de Maio, 120 (São Paulo).

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