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Posts Tagged ‘Palavra’

(in memoriam de Roberta Carmona)

Partir é sempre precoce.
O peso de uma ausência
dói nos ombros de todos que a suportam.
E quanto mais ombros,
mais a dor se alastra.

A dor partilhada pela palavra,
encharcada de Verbo,
move tudo junto.
Comove.

Mesmo se a presença
foi só potência,
uma ausência pode pesar.
Fica uma lacuna aberta
sobre o silêncio da impossibilidade.

Partir é sempre precoce.
Por isso agora, claudicante,
eu tateio palavras
sentindo que nenhuma me veste.

___
Não cheguei a conhecer pessoalmente a Roberta Carmona. Eu só a vi uma vez, no Patuscada, quando ela entrevistava algum escritor que não cheguei a ver quem era. Pretendia falar com ela, pois lhe havia enviado meu livro pouco tempo antes, mas acabei não tendo oportunidade para isso. Eu a conheci pelo Literatórios, e quando nos adicionamos ela logo me disse que queria ler meu Trítonos. Sempre que interagimos, foi pela palavra, tanto nas redes sociais quanto nos comentários aos seus vídeos.

Hoje, ao entrar neste espaço, vi muitos escritores amigos lamentando a sua perda. Nosso mundo sempre fica mais pobre quando alguém se vai. E hoje a literatura também. Pela simpatia a Roberta despertava em mim – e certamente em todos – fui imediatamente tocado por sua ausência. Tão tocado que não consegui deixar de escrever. Mesmo sentindo que “hoje nenhuma palavra me serve”, como a Paula Fábrio escreveu e de quem roubei a ideia da frase para fechar isso acima que escrevi e agora partilho em memória da Roberta.

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(À Cia. Coral Mawaca)

I

Quando canto projeto no futuro
cada som que eu desejo permanente.
Mesmo lançando a voz num tempo obscuro,
já me sinto soando lá na frente.

Quando canto eu sei que me aventuro,
pois soando me ligo no presente
de modo mais inteiro e mais seguro.
É na voz que carrego o que é urgente.

Nesse espelho dos tempos que é a vida,
eu sou um eco vago que convida
o agora a se encontrar com o amanhã.

São urdidas num cântico voraz
as longínquas memórias lá de trás,
levadas pelos ventos de Iansã.

II

Quando cantamos, nunca estamos sós.
Na voz levamos nossos ancestrais
e as canções que trouxeram para nós.

Passageiros do ar, são pelos ventos
conduzidos os sons inaugurais,
espelhos de folias e lamentos.

Eu ouço sedimentos de memórias
ressonando em escalas. Ouço vidas
que nos contam e cantam as histórias
que movem nossas forças incontidas.

Meu corpo é instrumento em que se abriga
tudo o que invoco e sinto que é sagrado.
Celebro assim, numa canção antiga,
as vozes e os cantores do passado.


O meu sentimento é de gratidão por tudo o que foi na sexta-feira (6/7), na apresentação da Cia. Coral Mawaca. Pelas músicas que nos atravessaram, pela forma como soamos e pela alegria pulsante em nós.

Desejo agradecer por tanta coisa que é até difícil encontrar palavra para descrever esse tanto. Agradecer pela troca, pela alegria, pelo entusiasmo, pelos sons, pelas danças, pelos abraços, pelos sorrisos… e pelas palavras.

Queria ainda fazer um agradecimento especial à Angélica Leutwiller por suas palavras antes do concerto, que me levaram às lágrimas (e não só a mim). E, porque aprendi tanto com aqueles dizeres, agradeço também a todas as vozes ancestrais que trouxeram todas essas músicas até nós, o que de certa forma permitiu que esse grupo pudesse se encontrar. A partir dessa sexta, passarei sempre a pedir licença a todas essas vozes e povos que cantaram essas músicas, quando eu for cantar.

 

Primeira apresentação da Cia Coral Mawaca, em 6 de julho de 2018.

Primeira apresentação da Cia Coral Mawaca, em 6 de julho de 2018.

Primeira apresentação da Cia Coral Mawaca, em 6 de julho de 2018.

Primeira apresentação da Cia Coral Mawaca, em 6 de julho de 2018.

Primeira apresentação da Cia Coral Mawaca, em 6 de julho de 2018.

Primeira apresentação da Cia Coral Mawaca, em 6 de julho de 2018.

Primeira apresentação da Cia Coral Mawaca, em 6 de julho de 2018.

Primeira apresentação da Cia Coral Mawaca, em 6 de julho de 2018.

Primeira apresentação da Cia Coral Mawaca, em 6 de julho de 2018.

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I

Costuro no ventre do tempo,
sob a forma de palavras,
o testemunho de como minha voz
adentrou no ouvido

da alteridade.

II

Gesto palavras que são afetos.
Palavras do Outro,
que me foram ofertadas
da leitura que fizeram

de mim.

III

Cada anotação que faço
é uma ultrassonografia do poema
que ainda vai nascer.
Cada afeto é uma ponte

que alimenta vindouros versos.

IV
Há fetos de afeto
em cada palavra gestada,
em cada ponte criada.
No solo fecundo e arcaico

do que me ultrapassa.

V

São olhos alheios
que desenham o esboço
de meu rosto.
Palavras que me antecedem

afluem para o que escrevo.

VI

As lembranças do Outro
fundam minha memória.
Com o afeto que recebo
é que aprendo

a sentir.

VII

Enterro palavras
nas entranhas daquilo
que tenho sido:
um corpo impermanente,

uma máquina desejante.

VIII

A sensibilidade da carne
é o que abre a vida
ao mundo das possibilidades.
Ela permite ao indivíduo

inventar-se no fora de si.

IX

Naquilo que sinto,
eu me torno múltiplo.
E assim, em nove movimentos,
estou prestes a parir

o poema recém-nascido.

Birth of Universe – Victoria Merki

Poema escrito durante a Oficina de Escrita Criativa “Entre Vodus e Ciborgues: a escrita como corpo e potência“, ministrada por Geruza Zelnys e Eduardo Guimarães.

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(em comemoração conjunta dos meus 38 anos e dos 81 anos de Hermeto Pascoal)

I

Ele conhece a intimidade do som,
as frequências brincantes
de cada nota.

Quase posso tocar
no ar
a cadência hermética

do impossível.

São sons de se ouvir
com a nuca.

II

Ele pega um compasso
e divide
e distorce
e retorce.

Acelera, ralenta, breca
ad infinitum.

III

Ele sabe que é possível extrair
a magnitude de cada
objeto.

Afinar brinquedos,
ritmar tamancos,
descobrir a embocadura
de uma chaleira

e fazer de qualquer coisa
matéria de soar.

IV

Ele joga com as notas,
empilha várias delas
e dança com suas durações.

Em seus jogos herméticos,
a única verdade
do som é o corpo
que o produz

e determina

suas inúmeras qualidades
e efeitos.

V

Ele improvisa a chuva
que mareja os olhos
a partir dos ouvidos.

Diante do milagre
do som, compreendo
que música é coisa
de criança

eterna.

Toda brincadeira é imensa demais
para não ser levada a sério.

VI

Ele entende do trítono,
esse tão íntimo

intervalo do delírio.
Em suas mãos
nada desafina
e os semitons deslizam

caudalosos

como leitos de rio.

VII

Em consonância
estão também os nossos sóis.
E neste novo ciclo

que se inicia no céu
de nossa boca
(esse instrumento
de pulsos, tons e palavras),

celebro a viva certeza
de que há oitenta e um anos
(descontados os sons uterinos
e as composições placentárias)
ele se diverte

com notas
como eu

com palavras.

> São Paulo, 22/6/2017.

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ei, poeta! me conte sobre suas certezas, suas convicções poéticas?
(Carla Diacov)

 

Repara no corpo
das palavras empilhadas
verso a verso,
estrofe a estrofe –

ali dentro reside
o avesso de um aedo órfico.

Poesia é a dança
de um deus niilista
despindo-se da (in)utilidade
das palavras dos homens.

Para o movimento, os sons
delineiam sentidos.

Ouve a melodia silente
ressoando nas formas das letras
e nos entres das linhas.
Ela te convoca

para uma contradança
de fremir as carnes.

Poesia é o cosmo
que se engendra quando
aquele que será
diz: “faça-se”!

E na lucilação da palavra
o corpo se a(s)cende.

Poesia é atirar-se no abismo,
aceitando esta ética do acaso
a tecer um caos de formas.
Ao erguer e desmanchar paradoxos,

a criação vive
a incerteza da página em branco.

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Há onze dias, a ministra Cármen Lúcia foi eleita para assumir a presidência do Supremo Tribunal Federal. Naquela sessão de 10 de agosto, o atual presidente daquele Tribunal deixou no ar a pergunta se ela preferia ser chamada de presidente ou presidenta:

– Concedo a palavra à ministra Cármen Lúcia, nossa presidenta eleita… ou presidente?

Cármen Lúcia deu uma resposta em que era clara sua intenção de marcar distância da presidenta Dilma Rousseff.

– Eu fui estudante e eu sou amante da língua portuguesa. Acho que o cargo é de presidente, não é não?

A resposta da ministra, além de marcar esse distanciamento (político) da presidenta, hoje afastada por um processo de impeachment, usa uma crítica bastante comum desde que Dilma assumiu a presidência, em 2011, e optou por ser chamada de presidenta. Essa crítica busca associar a escolha da presidenta à ignorância, como se ela não tivesse sido estudante ou não tivesse apego à “Última flor do Lácio, inculta e bela”, como Olavo Bilac se refere num poema à língua portuguesa.

Pode-se, como a ministra Cármen Lúcia, preferir o uso de “presidente” também para mulheres. Pode-se tentar afirmar que o termo, por ser comum de dois gêneros, efetivamente alcançaria uma espécie de “neutralidade” (num país que ocupa o 121º lugar no ranking de participação feminina na política, de acordo com a ONU). Mas não é possível fazer dessa opção política (num tempo de polarização partidária) uma mera opção linguística, como tenta fazer a ministra do STF, e como fizeram muitos dos que criticaram a opção de Dilma pela forma feminina da palavra, como se essa opção fosse fruto da (suposta) ignorância ou falta de estudos da presidenta.

Parece que o grande argumento dos que não gostam da opção de Dilma (e que, curiosamente, também são muitos daqueles que não gostam dela políticamente) seria a inexistência da forma feminina em muitas palavras semelhantes a “presidente”. Em outras palavras, não existiria “presidenta” porque não há “adolescenta” ou “serventa”.

Esse tipo de argumento tenta mostrar os processos linguísticos como equações matemáticas, embora as línguas sejam pouco ou nada cartesianas. Palavras têm histórias que às vezes subvertem a lógica, novas línguas se formam do rompimento das regras de línguas mais velhas (o português nasce da “degeneração” de regras do latim, assim como o italiano, o francês e o espanhol). Talvez por isso mesmo o chamado príncipe dos poetas a chame de “inculta e bela”.

E por falar em “poeta”, é interessante notar que essa palavra acabou fazendo durante um tempo o caminho inverso à palavra “presidente”, sendo seu uso como substantivo de dois gêneros preferido à forma feminina poetisa. Talvez por isso mesmo, entre quem não gosta de “poetisa”, ninguém diga que a palavra não existe simplesmente por não existem “atletisa” ou “estetisa”.

Ao compreendermos que palavras têm história, podemos entender o porquê de certas escolhas. Enquanto a forma feminina “presidenta”, em lugar do comum de dois gêneros “presidente”, testemunha a urgência de se transformar a política num lugar que abrigue igualmente homens e mulheres, a palavra de dois gêneros “poeta”, em lugar de “poetisa”, talvez lembre que aquela que escreve versos não pode ser diminuída diante daquele que exerce  mesmo ofício. Em fins do século XIX e início do XX, tornaram-se populares tanto em Portugal quanto no Brasil saraus lítero-musicais de senhoras. Como nessa época, as leituras comumente recomendadas às mulheres eram a Bíblia, livros de receitas, revistas femininas e romances água-com-açúcar, eram raras as mulheres que fugiam a lugares-comuns nesses saraus. E o termo poetisa acabou muito associado a esses eventos e à poesia de qualidade ruim que comumente se produzia neles. E para fugir desse esteriótipo, era comum que escritoras em versos de grande fôlego preferissem ser apontadas como “poetas”, e não como “poetisas”.

Curiosamente, Florbela Espanca foi uma frequentadora desses saraus. Mas, diante da força de seus versos, o escritor António Ferro buscou distanciá-la do que ele chamava de “poetisas de colmeia”, e a “promoveu” num ensaio à categoria “poetisa-poeta”. E pelo que me parece, diante das grandes poetas (ou poetisas?), a crítica frequentemente se comportou assim, preferindo apagar o caráter feminino dessas autoras e afirmando que poetas não têm diferença de sexo. Evidentemente, em resposta a isso há também aquelas autoras que preferem se identificar como “poetisas”, e não como “poetas”.

Mas voltando ao tema desse texto, “presidenta” não foi uma invenção de Dilma ou do partido pelo qual ela se elegeu. Consta em minha edição do Houaiss, de 2009 – anterior à sua eleição, portanto. Tenho ainda uma edição do Aurélio tão velha que está sem imprenta, mas tenho razões para crer que é anterior à Constituição de 88. Nela também se lê a palavra “presidenta”. E Pasquale, num artigo recente escrito para a Folha de São Paulo, fala de um dicionário de 1913 que registra “presidenta”, então como um neologismo.

A ministra Cármen Lúcia, na presidência da mais alta corte do país, pode preferir ser chamada de “presidente”. Mas o cargo é “presidente” ou “presidenta”. Até mesmo Machado de Assis usou a palavra “presidenta” numa obra sua (portanto, em 1913, ela já era um neologismo um tanto velho!). E não foi numa obra qualquer de juventude, ou nalguma crônica mais descuidada de jornal. Como a ministra é amante da língua portuguesa, eu a convido a reler o capítulo LXXX de uma das principais obras machadianas, “Memórias Póstumas de Brás Cubas”. Neste capítulo, Brás Cubas se encontra como Lobo Neves, que acaba de ser nomeado presidente da província, e Virgília, grande amor de Cubas e esposa de Lobo Neves. O novo presidente da província oferece a Brás Cubas um cargo político de secretário. E lá no último parágrafo desse capítulo, lemos:

Meu espírito deu um salto para trás, como se descobrisse uma serpente diante de si. Encarei o Lobo Neves, fixamente, imperiosamente a ver se lhe apanhava algum pensamento oculto… Nem sombra disso; o olhar vinha direito e franco, a placidez do rosto era natural, não violenta, uma placidez salpicada de alegria. Respirei, e não tive ânimo de olhar para Virgília; senti por cima da página o olhar dela, que me pedia também a mesma coisa, e disse que sim, que iria. Na verdade, um presidente, uma presidenta, um secretário, era resolver as coisas de um modo administrativo.
(Machado de Assis. Memórias Póstumas de Brás Cubas. Rio de Janeiro: Livraria Garnier, 1988, p. 141.)

No entanto, a opção de Cármen Lúcia, evidentemente, é uma opção política. Certamente ela não ignora os registros da palavra “presidenta” nos dicionários. Mas a chamada norma culta é apenas um dos registros possíveis da língua. E quem está acostumado a ler a língua empoeirada escrita nos processos que correm pelos tribunais de todo país sabe bem o quanto todo juridiquês e seu latinório costumam andar propositalmente distantes desse organismo vivo.

Gosto de pensar nossa língua como o eu-lírico do poema “Evocação do Recife”, de Manuel Bandeira, quando diz: “A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros / Vinha da boca do povo na língua errada do povo / Língua certa do povo / Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil”. Isso porque palavras não passam a existir apenas quando estão em estado de dicionário. Elas são registradas nos dicionários porque existem, por serem usadas na língua viva do povo, por se encontrarem registros de seu uso. E essa luta por existência e legitimação não deixa de ser um ato político de certos grupos falantes. Assim como é um ato político que tenha sido necessária a eleição de uma mulher para a presidência do Brasil para fazer com que a palavra “presidenta”, presente até mesmo em Machado de Assis, mas que até então existia mais como uma possibilidade linguística, ganhasse a concretude das ruas na língua certa do povo.

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O dia de hoje é cinza.
Assim se tingiram
os céus da cidade
que ontem festejou
com fogos de artifício
artifícios discursivos
– o que há para comemorar?
Indiferente à perplexidade
ante os duros golpes
dos tempos, segue
a luta.

A luta da mulher
que acorda de madrugada
para cruzar a cidade
e garantir seu lugar
à sombra dos patrões,
e depois levar para casa
a comida pouca,
que cozerá com seu cansaço
para alimentar o crescimento
das crianças.

A luta de quem mora
longe – inda que perto de nós –,
onde o estado de
exceção é regra,
e o Estado, uma exceção.
A luta das pessoas
que são governadas,
das que são despojadas
de palavras,
das que não sabem
quanto custa o dólar,
mas contam cada centavo
do trigo.

Há muito foi exilada
a esperança.
Ouço gritos, que ainda
parecem longínquos,
pedindo cárcere de quem
luta por mais do que circo
e pão.

Agora, parece que vão banir
o vermelho das ruas
– quem sangra,
que fique em casa!
O dia de hoje é cinza.

São Paulo, 12 de maio de 2016.

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