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Posts Tagged ‘Música’

Caminho e Canção

(Teofilo Tostes Daniel e Fabiana Turci)

Voz e Violão: Teofilo Tostes Daniel
Gravado durante o Sarau Virtual
da Cia Coral Mawaca
no dia 3 de junho de 2020

Música:
Teofilo Tostes Daniel e Fabiana Turci

Tom Em (com capotraste na 5ª casa, tornando Am)
Intro: Em Am D/B Bm7/11 D5/B B7 B7(13-) B7 Em

Em          Am     D/B           D5/B
Faço pra terra minha invocação,
B7                             B7(13-) B7 Em
que ela germine nas minhas mãos.
Em          Am            D/B Bm7/11 D5/B
Sopro no vento a minha oração,
B7                             B7(13-) B7 Em
que ela floresça meu coração.

Em                  Am
Que eu possa me espalhar
Em                 Am
que eu possa me perder
Em          Am
em tudo que brotar
Em                 Am
no que ainda vai nascer.
D              D4
O que frutifico
B7 B7(13-) B7 Em
eu vou colher.

Em                  Am
Que eu possa conceber
Em               Am
os sons que vou cantar,
Em                 Am
e aos poucos refazer
Em             Am
pés para então dançar.
D                  D4
Quero meus olhos
B7  B7(13-) B7 Em
no que eu amar.

Em              Am       D/B            D5/B
Meu corpo abre caminho e canção,
B7                       B7(13-) B7 Em
que ele receba sonho e pão.
Em          Am          D/B Bm7/11 D5/B
Faço pro tempo minha invocação.

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Sabe quando a música chega, chama, passa e você segue empós o rastro de uma melodia, para que ela não pare? Cantar na Cia Coral Mawaca é um pouco assim. Recebemos canções que vêm das esquinas dos tempos e juntos soamos para que elas sigam. Fazendo com que nossos corpos se transformem em condutores de sons ancestrais.

O grupo se formou no início desse ano, quando o Mawaca abriu a atividade em sua sede. E desde então, somos um único corpo que soa. E eu, mais uma voz-pessoa dentre todas, essenciais para que o canto-comunhão se faça.

Cantar é uma festa. E, na Cia Coral Mawaca, é ainda ser atravessado, em diáspora, pelo canto de tantos povos, por variados modos de escalar o som. Há dez dias, em nossa última apresentação, com a qual fechamos nosso primeiro ano de existência como grupo, levamos no corpo os sons e as canções que soaram. Quebramos a distinção dos gregos, que tinham uma musa para a música (Euterpe) e outra para a dança (Terpsícore). E nos unimos a certas culturas, para as quais a dança e a música são artes quase indistintas. Cantar e soar é também dançar, e tudo em grupo, em roda, em rito… Quase sempre, por lá, também é assim!

Nesse dia plateia nos seguiu e a música só acabou lá fora. Acabou? Não! Ecoa ainda como memória e desejo de seguir soando…


Vídeo sobre a Cia Coral Mawaca


Teaser do vídeo sobre a Cia Coral Mawaca

Cia Coral Mawaca

Cia Coral Mawaca

Cia Coral Mawaca

Cia Coral Mawaca

Cia Coral Mawaca

Cia Coral Mawaca

Cia Coral Mawaca

Cia Coral Mawaca

Cia Coral Mawaca

Cia Coral Mawaca

Apresentação da Cia Coral Mawaca no Estúdio Mawaca em 18 de dezembro de 2018. Direção Músical: Angélica Lewwiller, Cris Miguel, Magda Pucci, Rita Braga e Zuzu Leiva

 

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Ouvir Bach foi sempre um enlevo para mim. E talvez a ária Erbarme Dich seja uma das peças que mais ouvi dele, exatamente porque é das que mais me arrebatam. Por isso, em primeiro lugar quero registrar meu agradecimento ao André Estevez (meu professor de canto), à Camila Brioli e à Carolina Rosati Colepicolo, por terem tornado esse momento possível, contornando as inseguranças de um cantor amador como eu, que se aventura num desafio arriscado (agradeço também à minha amada Fabi Turci, pelo registro).

Bach é um compositor único. Ao ouvi-lo, ele me parece conduzir o fio de suas melodias de uma forma quase orgânica. Ao cantá-lo (ou executá-lo), no entanto, vejo claramente o quanto ele fazia música como um exercício inconsciente da matemática. Sua precisão é aterradora e, por isso, vozes que parecem passear livres se encontram e se enlaçam tanto e com tamanha harmonia. Fazer uma peça de Bach exige em primeiro lugar uma precisão e uma segurança rítmicas que me ultrapassam. Por isso, ao ensaiar a peça, saí com grande temor. Qualquer tropeço seria emaranhar-se num novelo do qual ficaria impossível sair e voltar ao fio da meada. Por isso, acabei estudando loucamente, cantando de forma quase exaustiva, aparando aresta, firmando entradas. E, além disso, contei com a generosidade e a competência de duas grandes musicistas, que fizeram de tudo para que eu me sentisse mais seguro.

Com isso, superei a parte de tornar possível esse grande desafio. Tenho consciência que agora é preciso trabalhar mais, para tornar o possível mais fácil e — por que não? — transformar facilidade em mais beleza e expressividade. É um longo caminho a trilhar. Mas ter cantado pela primeira vez essa ária desafiadora, que escuto há tantos anos, já foi uma alegria e um importante primeiro passo. Quero, talvez no ano que vem, tentar novamente essa música e vislumbrar uma evolução — e, me ouvindo, ouço claramente que há ainda bastante a progredir…

O Erbarme Dich é uma ária do oratório “A Paixão segundo São Mateus” (BVW 244), de Johann Sebastian Bach. Ela é cantada logo após o trecho que narra o momento em que Pedro nega Cristo por três vezes. A ária expressa a penitência, o choro de Pedro, ecoando como um pedido de misericórdia. O trecho do Evangelho que narra a negação de Pedro termina dizendo que Pedro, saindo, “chorou amargamente”. E é o choro de Pedro que a música ecoa: Schaue hier, Herz und Auge / weint vor dir bitterlich (Olhai aqui, olhos e coração / choram amargamente diante de vós).

Erbame Dich (do oratório “A Paixão segundo São Mateus”)
Johann Sebastian Bach

Barítono: Teofilo Tostes Daniel
Violino Barroco: Camila Rosati Colepicolo
Piano: Camila Brioli

Recital dos alunos de canto de
André Estevez e Angélica Menezes
16 de dezembro de 2017
Espaço Núcleo
Filmagem: Fabiana Turci

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Inundação a duas vozes

Entre piedras, cactus, abrazos y algodones
viene de tus pupilas pozo de agua infinito
hacia el plexo de mis adentros
donde duela nunca dudes, camino certo
(Perotá Chingó – Certo)

I

Doar a voz ao público.
Inundá-la de notas,
acordes quase abraços
e ritmos múltiplos.

Acender fagulhas
em todas as almas
apenas com o som.

II

Reverberam harmonias
que habitam essa forma
aquosa de música.
Um aguaceiro de lágrimas
apascenta o peito.

E assim ouvimos mergulhados
em lagunas amnióticas.

III

Milênios há
sob o chão dessas vozes donde
emanam sacras alegrias.
As sacerdotisas do som
evocam antepassados
e projetam

os olhos do amanhã.

IV

Fazer da voz a ferramenta.
Para avivar o fogo
não falta o ar,
assim como a água é vital
para fecundar a terra.

Isso é o que diz a vida,
esse infinito espelhado em mandalas.

V

Solares canções pequenas
reverdecem o dentro
de cada manhã.

E assim cantamos também,
dando graças
e pedindo à vida:
empresta-me teu sol!

VI

Lavra louca
trespassada por águas
que espelham o profundo –
essa é a matéria
que engendra nossa voz.

Assim se pode ouvi-la desde
as raízes de si.

VII

Silêncios também soam
com eloquência.
Fazem das gentes
ilhas num mar de encantos.

E se anuncia esse mistério
sob a forma úmida de um canto
desde a primeira chacarera.

Imagem do Show "Aguas" - Perotá Chingó - São Paulo, 13 de agosto de 2017

Show “Aguas” – Perotá Chingó – São Paulo, 13 de agosto de 2017

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(em comemoração conjunta dos meus 38 anos e dos 81 anos de Hermeto Pascoal)

I

Ele conhece a intimidade do som,
as frequências brincantes
de cada nota.

Quase posso tocar
no ar
a cadência hermética

do impossível.

São sons de se ouvir
com a nuca.

II

Ele pega um compasso
e divide
e distorce
e retorce.

Acelera, ralenta, breca
ad infinitum.

III

Ele sabe que é possível extrair
a magnitude de cada
objeto.

Afinar brinquedos,
ritmar tamancos,
descobrir a embocadura
de uma chaleira

e fazer de qualquer coisa
matéria de soar.

IV

Ele joga com as notas,
empilha várias delas
e dança com suas durações.

Em seus jogos herméticos,
a única verdade
do som é o corpo
que o produz

e determina

suas inúmeras qualidades
e efeitos.

V

Ele improvisa a chuva
que mareja os olhos
a partir dos ouvidos.

Diante do milagre
do som, compreendo
que música é coisa
de criança

eterna.

Toda brincadeira é imensa demais
para não ser levada a sério.

VI

Ele entende do trítono,
esse tão íntimo

intervalo do delírio.
Em suas mãos
nada desafina
e os semitons deslizam

caudalosos

como leitos de rio.

VII

Em consonância
estão também os nossos sóis.
E neste novo ciclo

que se inicia no céu
de nossa boca
(esse instrumento
de pulsos, tons e palavras),

celebro a viva certeza
de que há oitenta e um anos
(descontados os sons uterinos
e as composições placentárias)
ele se diverte

com notas
como eu

com palavras.

> São Paulo, 22/6/2017.

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Veredas do Tempo

(Teofilo Tostes Daniel)

Intro.: Am E7 (2x)

__ Am ______________ E7
Eu corro pelas veredas do tempo
__ Am _______________ A7
Tecendo caminhos com meus pés
Dm ____________ C C5+/7+
Eu que desenho as paisagens
_______ F _________________ E
Que transporto em minhas próprias viagens
_______ F ____________ E E7
Que transbordo em minhas marés

Am ____________ E7
Escrevo no ventre do vento
Am ____________ A7
Sussurros que fazem soar
Dm ___________ C C5+/7+
O que o silêncio me fala
______ F ________ E
Que não cala no peito e faz vibrar o ar
____ F _______________ E
E permite que eu construa em mim um lar

_ Am __ E7
O corpo é guardião da memória
_______ F ______ E
Em meus pés eu levo as estradas, trajetórias
_____ F ___________ E ___________ E7
E sob a pele habitam-me as canções e as histórias

__ Am _____________ E7
Percorro as incertezas do tempo
___ Am _____________ A7
Que trago sozinho em meu revés
Dm _____________ C C5+/7+
Eu que consinto em miragens
____ F _____________ E
E naufrago em meus personagens
_____ F __________________ E
Mas renasço em minhas próprias marés

_ Am __ E7
O corpo é celebração da minha história
_______ F _________ E
Em meus céus eu guardo as miradas, desmemórias
_____ F ________ E _____ E7
E sob a pele deliram sensações

Am

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A ideia primeira desse vídeo era apenas apresentar essa música para divulgar minha participação no último “Desconcertos de Poesia” de 2016 no dia 6 de dezembro, evento promovido pelo amigo, escritor e poeta Claudinei Vieira no Patuscada – Livraria, bar & café. Neste evento, para o qual tive a honra de ser convidado para mostrar um pouco da minha escrita e também um pouco de música, vou cantar algumas canções ciganas, entre as quais esta.

Mas ser casado com uma Youtuber abre possibilidades que para mim, menos habituado à linguagem audiovisual, são impensáveis. A partir das gravações feitas, minha amada Fabi Turci, autora do site (https://laboratoriodossentidos.com/) e do canal (https://www.youtube.com/c/laboratoriodossentidos) Laboratório dos sentidos editou esse vídeo incrível usando não só as gravações que ela fez comigo cantando, mas também com inserções de imagens tiradas dos documentários “Cobra Gypsies”, “Los olvidados – Palestina una historia de resistência” e “Al otro lado – la vida en palestina dividida por el muro israeli”, todos disponíveis aqui no Youtube.

‘Naci en Alamo’ é uma canção cigana, de autoria de Giorgos Katsaris e Dionisis Tsaknis, que descobri na voz de uma cantora de origem judaica (sefardita), chamada Yasmin Levy. Ela é um lamento de povos apátridas e/ou que têm experiências de um nomadismo forçado. Cabe hoje na voz e na história de ciganos, de palestinos, de curdos (especialmente os yazidis), de congoleses, de sírios etc, assim como também de judeus, sobretudo antes de 1948. Descobri a versão ‘Naci en Palestina’ na voz de uma excepcional cantora tunisiana que conheci recentemente, Emel Mathlouthi.

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Trítonos – intervalos do delírio“, cujo lançamento faz hoje um ano, começou a tomar sua forma definitiva enquanto seu segundo conto, “Gritos do açafrão”, era escrito. Nele, há um personagem que é pianista. As pesquisas sobre música que fiz por causa dele acabaram me fazendo encontrar a metáfora central desse livro: a vida como dissonância.

Encontrar conceito do trítono também me fez encontrar a forma do livro, com três grandes narrativas, dispostas como uma espécie de programa de concerto, intercalando dissonância e consonância. Um jogo que culmina no trítono – o intervalo mais dissonante, em música – para depois voltar ao tom inicial do livro-delírio.

Pensando na importância da música nesse livro, compartilho uma sequência narrativa/musical, com as peças tocadas por Demian, o pianista do segundo conto, e os trechos correspondentes aos instantes em que elas soam dentro do conto. Basta assistir à playlist abaixo, criada no Youtube, e ler o trecho selecionado.

O livro “Trítonos – intervalos do delírio” foi lançado em 2015 pela Editora Patuá e pode ser adquirido no endereço http://bit.ly/tritonos.

Saciados do comer e do beber, cada um segundo sua fome, a mulher, após agradecer-lhe, perguntou se ele poderia tocar um pouco para ela. Ele sorriu e perguntou de seus gostos. Mais uma vez ela se esquivou de dar direção a qualquer coisa que fosse. Disse que queria ouvir coisas às quais não estivesse habituada, quase como se desejasse, sem o saber, refundar seu campo da escuta.

Demian sentou-se ao piano. Anunciou que iria tocar duas músicas de Eric Satie. Começaria por uma chamada Gymnospédie n° 1, nome derivado de um antigo ritual grego ao deus Apolo, em que jovens dançavam nus ao som de flauta e lira. Ela esperava um som insano, como aquele que invadiu seus ouvidos enquanto escutava as músicas judaicas. No entanto, do piano de cauda saiu um som lento, grave, suave, quase doloroso. Mas também agradável como uma luz leitosa de fim de tarde. Enquanto ele tocava, ela fechou as cortinas da sala, até chegar na luminância que sua mente imaginou para a música. Lenta e grave, tirou toda a roupa e começou a dançar, completamente nua, sobre o suave tapete da sala, até deitar-se nele, para ouvir os últimos acordes de olhos fechados.

Ela não acreditava que estava ali deitada, nua, na sala de um estranho, ouvindo aquela música que a furtava do presente e remetia à eternidade. Após ouvir o último acorde, sentiu uma imensa vontade de chorar. Um choro sem nome, sem sentimento. Mas não teve tempo. Ainda de olhos fechados, ouviu um barulho inominado. Abriu os olhos e viu o tampo das cordas fechado. Demian já estava praticamente ao seu lado. Levantou-a em seus braços, enquanto dizia que ela teria uma experiência de audição diversa. A ideia lhe havia surgido graças ao nome da próxima música de Satie que ele tocaria: Gnossienne nº 1, palavra provavelmente derivada de gnosis, inventada pelo compositor para nomear uma sequência de sete peças.

E o que ela experimentou foi uma nova forma de conhecer. Aquele quase deus da música deitou-a com rara delicadeza sobre o piano, com a cabeça virada para as cordas graves. Estava deitada como um horizonte ofertado aos olhos do pianista. Ela olhou os ornamentos do teto e ruborizou pensando que ele iria divisar detalhes de seu corpo que ela mesma indistinguia. Com sua voz aveludada, como se acariciasse seus ouvidos com o silêncio que mora nas entranhas de cada som, Demian pediu que ela fechasse os olhos e apenas mirasse o dentro de si. E se deixasse levar pelo imaginado, pela trama sonora e abstrata das músicas que iria tocar.

Alguns breves instantes silentes se seguiram após a mulher do apartamento 11 ter fechado os olhos. Sentiu-se esvaziar de todo, estimulada pelo silêncio e pela escuridão de suas pálpebras. Antes que formulasse pensamento, sentiu a primeira nota grave da música ressonando em seu tronco. Os arpejos passeavam pela longitude de seu corpo. Sentia-se capaz de distinguir a complexa estrutura das ondas sonoras que vibravam, também dentro dela. Diferençava timbres e alturas, pulsos e amplitudes, harmonia e melodia. Estremeceu assim que um fortíssimo fez reverberar todo o seu ente. Foi invadida, penetrada pelo som. Seu ventre se contraiu ao sabor da imaginação. Sentiu-se tocada pela mão forte e macia daquele homem, que fazia vibrar o corpo de madeira do piano que percutia em seu corpo. Imaginava, excitava-se, exercitava-se em silêncios.

Não sabia mais onde estava, quando ouviu as últimas notas daquela música ressonando ao longe e dentro. Ouviu uma voz que parecia sussurrar o nome de Chopin, acompanhado das palavras Estudo, dó, menor, Révolutionnaire, Noturno, mi e bemol. Aquilo parecia alguma poesia mística, cujos sentidos exatos ela não compreendia. Súbito, foi percorrida dos pés à cabeça por escalas rápidas e voragens arpejadas no seu corpo pelo corpo vibrante do instrumento. Aos poucos, uma melodia começou a se destacar, repetindo-se num registro agudo e noutro mais grave, levando-a a sobrevoar um campo muito verde montada num cavalo negro. Não entendeu a imagem. Aquele verde absoluto, com um veio d’água ao centro, sendo visto de cima. Ela, quase tocando nuvens… Aos poucos, os caminhos foram escurecendo, assim como a música, que parecia morrer lentamente, até uma nova escala descendente fazê-la estremecer. Dois acordes finais, graves, vibraram em seu peito.

Em alguns instantes de silêncio, percebeu-se ofegante. Quis abrir os olhos. Mas antes que o fizesse, uma melodia muito triste a invadiu. Ela já a tinha ouvido, mas nunca havia sentido sua imensidão. Invadida por aquele Noturno, não conteve as lágrimas. Chorou a alegria triste trazida por aquele som. Aquilo era um sentimento bom e nostálgico. Sentia saudade de coisas que sequer supunha existir. Seu ventre ainda se contraía, mas não apenas por gozo. Era também o pranto trazido pela paisagem sonora que estava dentro de si. Pela primeira vez em sua vida ela entendeu que tudo o que há vibra, desde a mais densa matéria até os raios cósmicos mais imperceptíveis. Chorava a pequenez de sua existência, diante de tanta amplidão… Era o que sinalizavam os compassos finais daquele Noturno, que ela já tinha ouvido outras vezes várias, numa escuta indistinta, abafada em meio a tanto ruído.

O silêncio após aquele noturno foi um pouco maior. Atrás do silêncio, um tênue ruído branco, grávido das possibilidades do som, escapava de todos os cantos da vida. Ouvia os próprios soluços, a própria respiração ofegante, o ranger do banco em que Demian estava sentado, passos no apartamento vizinho, o elevador em movimento… Ruídos ainda mais débeis ela conseguia perceber, como o barulho da geladeira, que vinha da cozinha, ou um murmúrio indistinto, que vinha da rua.

Domando o caos sonoro em que estava imersa, a voz quase sussurrante daquele homem mil vezes desejável suspendeu o instante, pronunciando coisas meio indistintas, sem um sentido fixo. Variação 18, rapsódia, Paganini… ou seria Rachmaninov? Juntos? Sentiu um arpejado muito suave, pianíssimo, percorrer-lhe as vértebras. De repente… sim, conhecia aquela música. Num longo hausto, compreendeu a amplitude daquilo, como que intuindo a beleza reversa de uma melodia espelhada nas entranhas daquela que agora ouvia. Provavelmente, já fora tema de filme. Sim, em algum lugar, no passado, ouvira aquela melodia. Antes, parecia-lhe o extremo de uma tristeza. Agora não. Trazia-lhe uma bem-aventurança, uma bem-avinda plenitude. Aquilo se elevava, se elevava, se elevava… indefinidamente. Quando não cabia mais em si, a música fez um diminuendo e adentrou de novo na melodia, levemente modificada. E tudo isso se conduziu a um acorde final que ficou vibrando dentro dela durante o silêncio de alguns pulsos.

A voz daquele homem que não se cansava de extasiá-la anunciou então dois prelúdios de Chopin. Um, em mi menor; outro, em ré menor. Já nos primeiros compassos, um choro incontido brotou, fazendo cair grossas lágrimas no corpo de madeira daquele piano. Chopin novamente? Como era triste, como era doído esse piano de Chopin! De repente, a melodia pareceu sufocar. Sufocá-la. Sentiu-se a chama de uma vela que é tampada por um pote. Pouco a pouco, o oxigênio vai embora e seu brilho vai apagando, apagando, até, num suspiro sufocante… morrer.

Só nos breves segundos de silêncio ela percebeu haver perdido a respiração. De repente, sentiu como que um jorro de notas percorrer-lhe o corpo. Toda umidade existida nele pareceu evidenciar-se para ela. Só ali relembrou que estava nua. Sentia um frio delicioso, como se estivesse em meio a uma tempestade de sons e sentidos. Parecia correr numa floresta tropical. Desejava Demian perdido na umidade de suas matas. Aquele Chopin era violento e terminava violento. Os graves do piano ressonavam todos em suas costas. Abriu os olhos e viu o teto ornado de pássaros e notas. Olhou, rápida e fugaz, para o pianista que, de olhos fechados, sorvia o soar daquele último acorde, repetido uma segunda vez. Fechou novamente os olhos e mudou, ligeiramente, de posição. Já não sabia precisar se o frio ou o calor fazia seu corpo arrepiar-se. Ou se era o terceiro ressoar daquele acorde que concluía, como um trovão, a fúria de uma tempestade feita de notas jorradas dos dedos daquele homem.

Aqueles três acordes ainda ecoavam dentro de si, quando ouviu as palavras Bach, fuga, cromática, ré e menor. Uma melodia simples apareceu sobre a fusão que eram seu corpo e o corpo negro, de madeira, daquele piano. Soavam quase infantis aquelas notas. Tinham gosto de pão quente com manteiga, café com leite, bolo e entardecer. Ressonavam como o cheiro dos brinquedos de meninice. Saltitantes. Sem que se esperasse, aquela melodia mudava de lugar. Como numa brincadeira de pique, alternavam-se outras melodias, polifônicas. Não era possível distinguir figura melódica de fundo harmônico. Às vezes a melodia se escondia em outros recantos do som e voltava, travessa. Carrosséis, abraços de mãe e pequenos tesouros guardados num baú pareciam voltar, evocados por aquela fantasia de Bach. Vinham e se punham em fuga, para dar lugar a outras fantasias, outras lembranças.

Ela não sabia novamente onde estava. Sorria. Aos poucos, começou a se sentir adolescente. As brincadeiras evocadas foram perdendo a inocência. Lembrou-se de desejos e amores eternos que ficaram cristalizados no tempo. Sorria ainda mais, sem sentir nem saber onde o real habitava. Aquela sonoridade vibrando em seu corpo despertava muitas memórias, vividas e imaginadas. Quando o ritmo da música prenunciou o último arpejo e os últimos acordes, recobrou a consciência de quem realmente era. Era ainda aquela menina que fora, crescida e incrivelmente só. A solidão da última nota grave, soando vários tempos, falava-lhe que o sozinho de cada ser é o fundamento de seu sentir. Seu íntimo exultava por conhecer e reconhecer-se através da música.

Ao fim da reverberação da última nota, ecoando mais dentro de si e de seu corpo-piano do que no aéreo espaço das ondas sonoras, seguiu-se um hiato preenchido com imensos silêncios. Foi um tempo suficiente para manter suspensos os cinco sentidos daquela mulher, mas exíguo para exigir-lhe qualquer coisa além da fruição do instante. Bastava-lhe sorver a matéria-prima de todo som em reverência extática, estética, estésica ao som há pouco extinto. Bastava-lhe a recordação sonora em todas as instâncias de seu corpo, das profundas lembranças à epiderme.

(Do livro “Trítonos – intervalos do delírio“, páginas 62 a 67)

Capa do livro "Trítonos - intervalos do delírio"

Capa do livro “Trítonos – intervalos do delírio”, lançado em 2015 pela Editora Patuá

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Veja no endereço https://www.youtube.com/watch?v=4bT_X1RRO0w

Sobre Todas as Coisas
Voz: Teofilo Tostes Daniel | Piano: Camila Brioli

de O Grande Circo Místico
17 de julho de 2016 | Espaço Núcleo
Concepção: André Estevez & Angélica Menezes


Sobre Todas As Coisas
Chico Buarque & Edu Lobo

Pelo amor de Deus
Não vê que isso é pecado, desprezar quem lhe quer bem
Não vê que Deus até fica zangado vendo alguém
Abandonado pelo amor de Deus

Ao Nosso Senhor
Pergunte se Ele produziu nas trevas o esplendor
Se tudo foi criado – o macho, a fêmea, o bicho, a flor
Criado pra adorar o Criador

E se o Criador
Inventou a criatura por favor
Se do barro fez alguém com tanto amor
Para amar Nosso Senhor

Não, Nosso Senhor
Não há de ter lançado em movimento terra e céu
Estrelas percorrendo o firmamento em carrossel
Pra circular em torno ao Criador

Ou será que o Deus
Que criou nosso desejo é tão cruel
Mostra os vales onde jorra o leite e o mel
E esses vales são de Deus

Pelo amor de Deus
Não vê que isso é pecado, desprezar quem lhe quer bem
Não vê que Deus até fica zangado vendo alguém
Abandonado pelo amor de Deus

ograndecircomistico-cartaz

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Cantares

Canto cada
acaso,
cada canto
da casa.

Cada lágrima
que rio
me deságua
num canto.

Conto a vida
que canto
e o meu conto
é canto

diverso.
Quem versa
sobre o canto
encanta?

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(em conversa com Ricardo Escudeiro)

Nas vozes angelicais
ou nas gargalhadas de enxofre,
todas as doze notas
se encontram em rigorosa
correspondência.

O diabo em música
altera apenas
os intervalos.
Seu ludíbrio consiste
em descartar o que não é
inteiro.

A inteireza de três tons
parece desafinar
o mundo todo.
Soa como ruído.
Vida proscrita dos cantos
litúrgicos.

O corpo espera sôfrego
a resolução e repete,
com o ouvido:
trítonos são os intervalos
do delírio.

Hieronymus Bosch - Detalhe de O Inferno da obra Jardim das Delícias Terrenas

Hieronymus Bosch – Detalhe de O Inferno da obra Jardim das Delícias Terrenas

Escrito a partir do poema “quinta diminuta”, publicado em fevereiro deste ano na Mallarmagens — Revista de Poesia e Arte Contemporânea, numa série de três poemas de Ricardo Escudeiro. Faço dele ainda um primeiro chamamento para meu livro Trítonos — intervalos do delírio (Editora Patuá), a ser lançado em breve.

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Cortar a ideia de lua
com a lâmina da língua.
Dizer o mundo não míngua
porque sempre o perpetua.

Extrair da lua cheia
o sumo que não é dito.
Erigir um monolito
feito de sal, ar e areia.

E adorar, por fim, o pó
daquilo que, na linguagem,
me deixa um pouco mais só.

Se houver alguma poesia,
que a minha voz, em viagem,
leve sua melodia.

Matt Cardy - Supermoon

Matt Cardy – Supermoon

http://www.perotachingo.com.ar/

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Não quero competir com a folia que se alastra. As urgências do carnaval me deixariam algum leitor? Algum par de olhos desejoso de escritura e diálogo? Penso que é impossível querer disputar com essa torrente do século, essa efemeridade arrebatadoramente sôfrega, esses quatro dias de celebração do corpo.

Pieter Bruegel, o Velho - A Luta entre o Carnaval e a Quaresma

Pieter Bruegel, o Velho – A Luta entre o Carnaval e a Quaresma

Os tempos de carnaval sempre me lembram o dionisíaco personagem Mynheer Peeperkorn, de A Montanha Mágica. Apesar de seu discurso desarticulado e, muitas vezes, sem sentido, ele acaba se tornando um mestre para o personagem principal, Hans Castorp. Peeperkorn se situa além e fora dos debates travados entre o humanista Lodovico Settembrini e o jesuíta totalitário Leo Naphta.

Colocando-se acima dos discursos em choque — que representam uma espécie de síntese das forças políticas e ideológicas que disputam espaço e poder na sociedade europeia pouco antes da I Grande Guerra –, a personalidade de Peeperkorn faz com que tudo quanto ele diga não importe tanto quanto sua própria presença, já que tudo nele é fascínio. Seu carisma faz com que todos os que dele se aproximem acabem se transformando, de repente, em súditos, o que faz Castorp concluir que a civilização não é um mero produto do intelecto, mas que sua construção depende, antes, do entusiasmo e da embriaguez.

Associo Peeperkorn mais à minha ideia de carnaval do que ao carnaval em si. Diante disso, não desejo obrigar minha escrita a competir com as noções de folia que herdo, sobretudo, do êthos desse fascinante personagem e de músicas do meu repertório afetivo. Em razão dessa festa, que em mim é contemplação e serenidade, deixo para depois tudo o mais que eu poderia querer escrever neste espaço.


A Noite dos Mascarados – Chico Buarque & Elis Regina

 

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Li em algum lugar que “uma leitura que surpreende é aquela que nos faz ver o que estava posto, mas não sabíamos nomear”. Qualquer leitura, pois não lemos apenas textos. Lemos imagens, movimentos, sons, gestos. Lemos até sorrisos.

Particularmente, aprecio leituras que me desarticulam da palavra. Que me pedem silêncio para absorver o que dizem, pelo impacto sobre a sensibilidade, o intelecto, as emoções…

Gosto de leituras que me deixam a tatear imprecisões. Que trazem à boca uma palavra que ainda não tem nome. Ou umas tantas. Linhas que aquecem dúvidas, como um delírio de sol. Que expandem o que há dentro para dilatar os afetos, embora sem substância definível — afinal, onde é a sede dos sentimentos que nos acometem?

Persigo, no ato de ler, aquilo que apenas reverbera. Aquilo que se entreouve no incerto. Aquilo que escapa, a esperar o que não pode ter fim. E que saiba na boca como voo ou mergulho.

Sigo empós o desvelar das estruturas do silêncio. Sim, preciso de leituras que me encham de silêncio. Que me ensinem a ouvi-lo. Veredas lógicas que desvelem sons e sentidos. E que ressoem como a música de Pärt.

Preciso de leituras que me façam inconclusivo. Que agucem o desejo de ir. Além… Além de mim, além do homem. Procuro discursos que me provoquem. Desafiem-me. Enovelem-me, para que eu possa me entretecer em textos… Seguindo o fio de Ariadne, no percurso entre Cloto e Átropos.

Pawel Kuczynski - Book Jumping

Pawel Kuczynski – Book Jumping

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“… we are such stuff / As dreams are made on, and our little life / Is rounded with a sleep.”
William ShakespeareThe Tempest. Act IV, Scene 1

Grandes obras são feitas dessa mesma matéria de que são feitos os sonhos. Por isso têm início como névoa, germinam em dúvidas e descobertas, e palmilham incertezas. Ganham corpo assim, na impermanência. Dessa forma, elas se alimentam constantemente da mesma substância impalpável que erigem mundos, uma vez que o estofo dos sonhos é matéria desejante. Mesmo solidificadas num legado, precisam escorrer do corpo daqueles que as criam, como suor, sêmen, baba… Sem o extrato do corpo, se extinguem antes mesmo de nascerem.

O Núcleo Universitário de Ópera (NUO), criado pelo maestro Paulo Maron, é uma dessas grandes obras, nascida certamente da matéria de um sonho. Um sonho que se alimenta há mais de dez anos, e que hoje existe solidificada, como legado. Essa que é uma das poucas — se não a única — companhia de ópera estável no país levou aos palcos, desde 2004, cerca de vinte espetáculos, formando plateia e artistas. Sim, porque os atuadores do NUO não são somente cantores. São artistas que pesquisam, no vasto instrumento de trabalho que é o corpo, as possibilidades de criação dentro desse templo de Dionísio, chamado palco. Tornam-se múltiplos, para que a linguagem que desenvolvem — e que resulta de intensa e constante pesquisa — exista através deles.

imgsemanario0003Nessa condição de existir como grande obra e legado, o NUO se alimenta de sonhos. E hoje, com toda uma história e tendo atingido estabilidade como companhia e reconhecimento de seu público, o Núcleo está trabalhando para terminar a construção de uma sede própria.

Para viabilizar esse objetivo, o NUO criou no Catarse um projeto para financiar a construção de sua sede. O Catarse é uma ferramenta de financiamento coletivo na internet. Por meio dela, qualquer pessoa que queira pode contribuir — e ainda receber recompensas por isso! Dependendo do valor da contribuição, o grupo oferece em troca convites para recitais, DVDs de produções anteriores e até um Workshop de preparação corporal, em data a ser agendada, além, é claro, de agradecimento especial no blog do Núcleo e no programa de sua próxima produção.

Todo projeto selecionado pelo Catarse tem um prazo de arrecadação. O do NUO já está terminando. Ele se encerra em nove dias (dia 21/01/2014). Portanto, se você já conhece o NUO, não deixe de apoiá-lo. Se não conhece, permita-se encantar por ele. Clique aqui e apoie o projeto. Eu já apoiei.

Projeto NUO – Catarse from Pedro Ometto on Vimeo.

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Dormimos enquanto passava algum jogo na televisão. Lembro de ter deixado o volume mais baixo, para que somente um lance de emoção, ou um gol, pudesse nos despertar eventualmente. Sim… Palmeiras e São Caetano teria sido capaz de nos fazer dormir. Mas, embora a tv estivesse ligada durante esse jogo, não tentamos assisti-lo. E adormecemos durante Ponte e Atlético Sorocaba.

Não sei exatamente a que horas, acordo com um grito de gol exaltado: “Gooooooooooooooooooool do São Paulo!” Logo em seguida mais um gol do São Paulo. Só então, compreendo que se trata de algum programa esportivo mostrando gols dos estaduais. Lembro então do meu Flamengo, que perdeu mais uma vez para o Resende (isso volta e meia acontece nos cariocas da vida) e, até as últimas notícias que eu tinha então, ainda estava sem técnico.

calvinflaO tempo de uma lembrança foi o lapso entre o segundo gol do São Paulo e o gol do Oeste. O narrador, quando o tricolor paulista sofreu o gol, fez seu trabalho de forma quase burocrática, não prolongando o grito, que não chegou a ser sequer um grito. Recordo então que a última vez em que soube desse jogo – quando a tv transmitia Palmeiras e São Caetano – ele estava exatamente 2×1. Teria o São Paulo empatado? Perdido? Ou assegurou a vitória e a sobrevida do atual técnico? Apuro ouvidos e atenção, mas não me mexo. Quero apenas saber do resultado, sem grandes esforços. Se fosse preciso levantar e buscar a informação, permaneceria ignorando. Mas aquela informação era ofertada assim: fácil e ao acaso.

Um novo grito no mesmo tom e na mesma intensidade daquele primeiro, que me despertou, se repete. O terceiro gol do São Paulo foi claramente comemorado pelo narrador, durante o jogo. Mas teve ainda um último gol. Nele o narrador se esforça e prolonga o grito. Mas ele está nitidamente num tom abaixo. Antes que a narração me confirme – já que eu não olho para a televisão no momento –, advinho: gol do Oeste.

Aquela diferença tonal me intrigou. Tentei manter na mente o remembramento daqueles dois últimos gritos. Tinha de levantar e, no mínimo, me preparar tudo para dormir. Em contraste com a preguiça geral e quase endêmica do fim de semana, era preciso despertar na hora certa nesta segunda. Portanto, não poderia prescindir de um despertador.

Levanto, mas vou direto para o teclado que jaz quase esquecido no quartinho. Minha impressão era a de que o narrador havia gritado o gol do São Paulo em fá sustenido, e o do Oeste em mi. Parecia-me que um tom – significativo e marcante – separava a celebração de um mal disfarçado lamento. Em relação ao gol do São Paulo, erro por pouco. Ele foi comemorado em fá. Ou, pelo menos, a minha lembrança me diz assim, com o teclado confirmando.

Como tenho a impressão de um tom de separação, tento o mi bemol. Baixo demais. Em relação ao gol do Oeste – ou, ao menos, em relação à minha lembrança, pois não tinha os áudios dos gols comigo, mas somente o eco ainda não longínquo ressonando como memória – eu havia acertado. Foi narrado em mi, num simulacro de comemoração que me soou como um lamento. Meio tom. Um deslize separando júbilo de… outra coisa qualquer que não fosse isso.

Volto para o quarto e a Fabi desperta, talvez com o som dos meus passos. Sorrio e conto a minha pequena descoberta, a história dos tons… Ela me sorri, lindamente perdida entre o sono e o júbilo. Ela, que começou a ver futebol por minha causa, hoje é mais entusiasta do que eu dos esportes. Acho que também por influência da conjugação de um ano olímpico com a ótima fase do seu Corinthians. Termino minha narrativa e logo o sono a vence. E eu fico ouvindo gritos de gol, aleatoriamente, na tv. Volto ao teclado e constato – ou invento, perdido entre memória e criação – que as vozes mais agudas costumam gritar gol entre fá e mi bemol – apenas o fá sendo verdadeiro grito de celebração. As vozes mais graves, ao que me parece, gritam em ré, narram gols sem envolvimento em dó sustenido e lamentam gols desfavoráveis entre dó e si (o si me soa como aqueles gols da Argentina sobre o Brasil).

tritonoCuriosamente, o espectro dos tons que constato ou crio para os gols vai de si a fá. Com os extremos formando um trítono. Esse fato me assombra e me faz desconfiar de que muito provavelmente eu invento praticamente tudo. Isso porque estou escrevendo uma história – algo entre um conto e uma pequena novela – que está num momento em que a percepção do trítono é algo de extrema importância. Isso depois de o personagem, que narra sua experiência, ter lido um pequeno tratado sobre o trítono. Portanto, andei lendo e escrevendo muito sobre trítonos ultimamente!

Sento-me para escrever esse breve relato e me recordo que o mesmo programa que me despertou e despertou em mim essas questões também me informou que o Flamengo já tem um novo técnico. Apesar disso, não consigo ver nesse momento mares melhores para ele. Talvez seja a saudade de ouvir mais gols do meu time comemorados com um sonoro grito sustentado em fá.

zico-flamengo

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(para Fabiana Turci)

I

Quase toco tua ausência
ao meu lado.
O lugar está vazio.
Vazia está
a sala de concertos,
vazada por uns semitons.

Não comentamos a beleza
da decoração do hall de entrada.
Não viste suas flores
nem tua pele se iluminou
por suas velas.

Quando a última nota da sinfonia
soou,
não me olhaste
nem teus lábios me sorriram.

II

Não me iludo
com esse caminho de ausências.
Essa falta,
essa impossibilidade
e esse silêncio
alimentam o desejo do encontro.

Em nossas fronteiras
não nos confundimos.
Nós nos fundimos,

nos fodemos,
fecundos.

III

Em ti, aprendo
que em nós germinam mundos inteiros,
abertos às mil possibilidades
do tornar-se.

Entorno-me
dentro de ti.

IV

Gosto de ser teu homem
sem solenidades,
rituais
ou formalidades civis
exteriores a nós mesmos.

Gosto que sejas minha mulher
bastando, para isso, o teu querer
dar-se e dar a mim
na presença de nossos deuses.

“Eu vos declaro
homem e mulher”…

V

As portas de nossa casa
estão abertas ao acaso do mundo.

Eu me caso contigo
todo novo dia.
Celebro nossos ritos,
venero nossos mitos
em derredor do amor.


(Fotos: Luiz Henrique de Nadal)

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Aquela voz

(para Teresa Salgueiro)

Aquela voz
participou da conformação
de meus versos,
ressonou na formação
de meu afeto
e na saudade de tanto mar
não navegado.

Aquela voz
que vira do avesso
a carne do meu sentir
expõe as entranhas
do riso e do pranto,
da vida
do som.

Aquela voz
mítica
pareceu-me tão perto e palpável
que cri quase poder tocá-la
num abraço, grato
simplesmente
por seu existir.

Teresa Salgueiro

Acima, breves palavras que não comentam aquilo sobre o que não se pode falar: a emoção de ver cantar, tão perto, uma das vozes de minha adolescência: Teresa Salgueiro. Poema feito depois do show “Voltarei à minha terra”, no Teatro Alfa, no dia 27 de novembro. Abaixo, breves palavras de divulgação que não descrevem a experiência.

“Voltarei à minha Terra” é a nova viagem de Teresa Salgueiro através da memória coletiva da Música Portuguesa. Inspirada pelo som mágico da Guitarra Portuguesa, Teresa desliza entre paisagens brilhantes e infinitas, envolta pela luminosidade de uma voz cristalina, revelando-nos ecos distantes e os mistérios da Saudade.

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3 Laudate eum in sono tubæ; laudate eum in psalterio et cithara. 4 Laudate eum in tympano et choro; laudate eum in chordis et organo. 5 Laudate eum in cymbalis benesonantibus; laudate eum in cymbalis jubilationis.
(Psalmus CL, vv 3-5)

perfeito maior
acorde soando inaugura
a tonalidade
ou sua
relativa menor

modula o tom
e leva para outros
……………………………..cantos
outros cânticos

a música
é uma égua bravia
que se pode montar

melisma cromático
desliza sons

a voz do instrumento
…………………………………..de carne
…………………………………………………..madeira
…………………………………………………………………corda
……………………………………………………………………………ou metal
…………………………………………………………………………………………..arpeja
o tema
a coda
o trítono
a resolução

o resultado
em sua inapreensível fugacidade
percute um mistério

que silencia o dentro

se há um deus
ele soa
e só

_
Escrito para a Oficina Escrevivendo: Falas de Amor, ministrada por Fabiana Turci na Casa das Rosas
.

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Desejo de estradas, de árvores e de matas do caminho. Sentido norte, às bordas de Minas. Na até pouco tempo desconhecida — para mim — São João da Boa Vista, esperava-nos uma experiência de êxtase. Assim queríamos, assim imaginávamos, assim vivíamos este domingo último, desde o despertar.

Claro que entre o vivido e o imaginado, há imensos descompassos. O que planejamos não consegue dar conta de tudo quanto é. Certa vez escrevi uma frase, num conto, que se inscreveu em mim, no meu êthos: O real é de um maravilhamento que desconcerta o imaginado.

O primeiro maravilhamento foi pegar a estrada. Eu e dois ciganos: Fabiana Turci e Marcelo Tosta. Tostes, Turci e Tosta têm o vício de se maravilharem com a amplidão azulada do céu, com a poeira vermelha levantada em estradas de terra, com o sol batendo verde na copa das árvores. E sob influência de determinadas músicas, os êxtases desses três seres que somos se intensificam.

Junto conosco, viajaram as paisagens sonoras de Madredeus, Trio Harel, Orquestra Popular de Câmara, Zeca Baleiro e suas dez cantoras das “Odes descontínuas”, Milton Nascimento e Gustav Mahler — este último, interdito. Não seria possível à condutora do carro manter-se na concretude da estrada com Mahler. Íamos nós e tudo quanto somos ao encontro da paisagem sonora de Yann Tiersen. Sim, esse ser que para nós se assemelha a um quase mito estaria em carne, osso e sons no Teatro de São João da Boa Vista, essa cidade até então desconhecida — para nós — às bordas das Gerais.

Já havíamos passado do meio do caminho, quando chegou a notícia pelo celular: acabaram os ingressos para o show. Eram 14h53 da tarde. Levamos alguns segundos para decidir que continuaríamos a viagem ainda assim e alguns minutos para nos refazermos da frustração trazida pela má notícia da “fortuna imperatrix mundi”. Não sei saber se foi pelo impacto da notícia, ou pelo alumbramento de ver uma lua imensa no azul do céu, que o caminho que seguimos a partir dessa hora tornou-se um desvio. Quase 90 quilômetros de desvio, por uma estrada que parecia voltar pelo avesso. Após nos certificarmos de que teríamos de pegar o primeiro retorno e, no Km 134 daquela estrada, seguir o caminho que leva a Mogi-mirim, lembramo-nos da importância do desvio para a tradição filosófica moderna. Era tarde. Chegaríamos depois de o show já ter começado. Mas, ainda assim, seguíamos, leves e corpóreos como as notas que soavam nossas canções de estrada.

Depois de percorrer mais chão do que havíamos imaginado, uma placa mandou que virássemos, indicando que aquela curva nos levaria a São João da Boa Vista. Encontramos no meio da estrada o limite entre a cidade que buscávamos e o município anterior. Um ponto melhor demarcado do que aquele em que o Trópico de Capricórnio corta uma das estradas que tomamos. Quero crer, porque a realidade poética é a que melhor me convém, que cruzamos o Trópico no exato ponto em que fizemos o retorno em nosso desvio.

O entorno foi deixando de ter aspecto de fazenda, sítio, zona rural; foi, pouco a pouco, revelando a cidade que nos recebia. Uma pequena e encantadora cidade que me fez recordar Cabo Frio. Sim, sempre que estou numa pequena cidade, lembro de Cabo Frio — ou, mais precisamente, da Cabo Frio em que morei. Mais do que isso, lembro do tempo em que lá vivi, quando o tempo parecia ter outro ritmo, quando as horas, os minutos, os segundos pareciam respeitar mais o instante do gozo e do aprendizado. Estar numa pequena cidade sempre me desperta essa nostalgia dos tempos que me formaram, que fizeram de mim o que sou.

Ainda pensava nisso, quando se tornou óbvia a necessidade de pedir informações. Onde ficaria o Theatro Municipal? Seguíamos quase como se conhecêssemos a cidade, mas era preciso certificarmo-nos. Paramos no ponto exato que impediu mais um desvio nosso do caminho — que seria o terceiro! Quando andamos tendo um norte onde chegar, o caminho sempre parece mais difícil; os perigos e desvios sempre mais constantes, e a gente não experimenta nunca a sensação do ‘perder-se’, mas somente a de ‘estar perdido’.

Uma única indicação nos bastou. Naquilo que devia ser o centro da cidade estavam incrustrados a Catedral, sua praça, e o Teatro Municipal, onde havia começado há pouco o show de Yann Tiersen. Na porta do teatro, uma pequena multidão se aglomerava, discutindo sobre a distribuição antecipada dos ingressos com quem deveria ser da organização da Virada Cultural na cidade. Foi divulgado que os ingressos começariam a ser distribuídos uma hora antes do show (previsto para 16h30), mas antes das 15h os ingressos já estavam esgotados. Os mais exaltados começaram a se dispersar, após muita reclamação. Permaneciam aqueles que simplesmente queriam ver o show, como o rapaz que trazia nas mãos uma foto impressa do músico e sua família.

Eu já estava descrente. Mas os ciganos que me acompanhavam traziam no rosto uma certeza de que em breve entraríamos no teatro. Certeza fundamentada no impalpável, é necessário dizer. Não sei exato quanto tempo esperamos. Sei que começaram a sair algumas pessoas do teatro — e o assombro de todos que estavam às portas do teatro, impedidos de entrar, era: como alguém sai no meio desse show? Isso renovou os protestos dos que remanesciam atados a uma esperança sem fundamentos. Talvez todos nós que não brigávamos, não nos exaltávamos, mas apenas esperávamos, estivéssemos fruindo o espetáculo pela dimensão da ausência. O que é uma entidade como Yann Tiersen senão uma manifestação corpórea do inatingível? Os ídolos são outra coisa além disso?

Não soube nem precisar essa pergunta. Mas a resposta nos chegou de repente. As portas se abriram e, com a anuência de alguém, entramos no teatro. Umas quinze pessoas que o fio do destino havia guiado até essa experiência de converter em êxtase a frustração. “Sur le fil” nos recebia. O violino do instrumentista francês parecia saudar nossa chegada. Delírio, alumbramento, gozo, êxtase.

Dali para frente, adentramos num território em que as palavras só podem falar da dimensão da ausência da possibilidade de dizer algo. Tateio as palavras, os fonemas. Reviro do avesso as frases. Mas nada consegue dizer com exatidão da alegria, do maravilhamento que era estar lá dentro, que era sermos recebidos por aquela música.

A plateia do teatro estava absolutamente fascinada. Nós, que não acompanhamos todo o espetáculo, também estávamos. O inaudito, o impossível transmutado em experiência nos desnorteava. A celebração daquele instante eram os sons que se ouviam. Música inclassificável, além de toda palavra. Som exprimindo o indizível das gentes, dos dentros mais fundos. Aquele conjunto de vibrações nos lembrava do milagre que é existir quando — e onde — nada poderia haver. Não é possível ouvir Yann Tiersen sem se sentir grato à vida por isso.

Tudo beirava o indizível, tocava regiões onde palavras são poucas para tanto sentir. No entanto, se tudo parecia ser o ápice, pouco depois éramos surpreendidos por regiões ainda mais altas, por voos sonoros ainda mais amplos, anchos, largos. Talvez por isso, terminado o bis protocolar e acesas as luzes do teatro, a plateia não quis se pôr à caminho, não desejou retornar para a dimensão cotidiana da vida. Como os aplausos não cessaram, houve um segundo bis, este provavemente imprevisto — da dimensão e do tamanho de nosso desvio, durante nossa viagem. Ali se fez uma música que não pedia que se suprimisse o cansaço. Ela sinalizava apenas o desejo de haver um lugar onde seja possível estar cansado. Música indescritível, sonora e visualmente. Mesmo eu, que a testemunhei, por vezes não acredito no efêmero existir daquela massa sonora. Massa sonora que se perpetuava, neutra, na dimensão da ausência. Os músicos deixavam seus instrumentos ainda soando no palco, quase como por mágica. Ligavam algum aparato, se despediam da plateia e iam embora. Por fim, o último músico deixou seu instrumento soando, circulou pelo palco vazio, mas ressoando ainda, até se aproximar da chave que, desligada, inaugurou o silêncio. Luzes se apagaram. A plateia, enlouquecida, aplaudia o silêncio e a ausência.

Não nos restou outra opção a não ser celebrarmos tudo quanto testemunhamos e nos colocarmos no caminho de volta, junto com os sons que trazíamos. Gratos à vida por morarmos em nós…

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