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Posts Tagged ‘Metalinguagem’

A matéria, reunida
na ampulheta do ano-luz,
aprende e se reproduz,
arquiteta, assim, a vida.

A vida, nalgum momento,
de chofre se vê dobrada.
No cérebro conectada
então cria o pensamento.

Não vejo mais os reflexos
da transcendência etérea
das crenças e das essências.

Pelos caminhos complexos,
eu ando a ler na matéria
o Livro das Imanências.

Nebulosa da Ampulheta (MyCn 18)

Nebulosa da Ampulheta (MyCn 18)

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(para Sândrio Cândido)

A voz do outro tomando
posse de minha poesia
me lembra que minha escrita
respira fora de mim.

Eu ouço nas entrelinhas
as pausas da alteridade
com distintas intenções
daquelas que eu possuía.

O olhar do outro me rasga,
extraindo um estrangeiro
dentro de minhas entranhas.

Ao me ouvir noutro andamento,
prefiro minhas palavras
quando se tornam estranhas.

quinzenario0028-leitor* Poema escrito após ouvir a leitura do meu poema “Sim, há poesia“, feita pelo amigo, poeta e leitor Sândrio Cândido.

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…pois até quando o homem derradeiro
ocupar, só com sua finitude,
sua individuada solitude
e sua língua, um átimo rasteiro

da Terra, então é certo que a poesia
também habitará esses espaços
e seguirá os vacilantes passos
do anti-Adão, que uma Lilith poderia

vir a ser, percebendo em si o fim,
e depois que o respiro humano enfim
desabitar o orbe do planeta,

tanto faz que poemas sejam fósseis,
ou que as palavras tenham sido dóceis
e hoje sejam poeira de um cometa…

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(para Helena Stewat)

Porque o verso mora na repetição
obsessiva dos poetas,
nessa mania, nessa vocação
de juntar as tranqueiras da estrada,
é preciso celebrá-lo
como quem celebra a vida;
exaltar a plenitude do verso
com a lágrima luxuriante do riso.

Porque a poesia enxerga que é mais belo
no mundo aquilo que não vemos,
é preciso lançá-la nas águas
correntes de todo rio.
Quem sabe ela não é o lenitivo
daqueles enfermos da alma,
a alma daqueles sem alma,
o céu daqueles sem deus?

Porque a poética é avalanche
de estímulos, de sentires,
as sinestesias voam lépidas.
Porque a poesia tem residido
no caminho entre o som e o sentido,
a razão é apenas parte
daquilo a que usualmente
chamamos compreensão.

O silêncio sem altura das pedras
é aprendido neles: poetas-versos-poemas,
com a mesma alegria nostálgica que medra
e desperta o aventureiro que não pude ser.
No lido os não vividos se executam,
pois no lido, nos livros, pude recolher
as vidas que sempre quis viver,
as máscaras que sobre mim labutam.

Nem sempre me olham aqueles
que dialogam comigo, distantes
de mim na dimensão ou no instante
(de versos suas falas são compostas!)
Olhos helênicos me enxergam
(menino torto e sem luz)?
Não sei saber bem ao certo a resposta
que o silêncio da pedra traduz.

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Panorámica de la Mano del Desierto - Desierto de Atacama (Chile)

Panorámica de la Mano del Desierto – Desierto de Atacama (Chile)

É preciso olhar lá fora. Há pólvora e palavras inflamáveis por todo lado. Uma dureza nos olhos dos passantes, um desejo inominado de vingança contra o que não tem rosto ou voz.

De onde vem tanta gente saudosa de disciplinar os corpos? Desejosa de impor suas normas? Empenhada em converter o mundo à sua moral? Uma moral que não acolhe, mas extirpa a diferença.

As feiticeiras continuam sendo assassinadas pela turba raivosa. Ainda que seus atos sejam boatos. As cicatrizes da História ainda estão expostas sobre a pele dos dias. Em tempos de fria desesperança, elas doem mais.

A humanidade olha para os lados, perdida. O pó das utopias é insuficiente. Não direciona os passos nem promete coisa alguma. Apenas testemunha o que ruiu.

Resta perguntar: para onde vamos? Com espanto, não com cinismo. Talvez da incerteza surja algum alento. Talvez nalgum asfalto brote uma flor. Talvez uma resposta poética desafie nossa era de eficácias momentâneas. Talvez, talvez, talvez.

É preciso olhar lá fora. Há pólvora e palavras inflamáveis por todo lado. Uma dureza nos olhos dos passantes, um desejo inominado de vingança contra o que não tem rosto ou voz. Mas há também enormes desertos nos entremeios do ódio, demandando os contrapontos da presença, do afeto e do acolhimento. Se bem que isso nunca deixou de ser.

Agora resta habitá-los.

Imagem alterada da contracapa do LP "A Rosa do Povo", de Martinho da Vila

Imagem alterada da contracapa do LP “A Rosa do Povo”, de Martinho da Vila

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Ouve a estrutura da palavra,
o antes e o porquê
de sua existência.
A palavra é pomo
do corpo.

Morde essa fruta.
Sente os significados
escorrendo da substância significante,
perpassando plurívocos pela língua
e expandindo pelo ar
tuas histórias, tuas mentiras,
teus segredos, tuas ideias,
tuas verdades, teus desejos
tuas gagueiras e tuas sinapses.

Celebra a palavra.
Ela é feita de teu sangue,
tua carne, tuas gosmas, tuas secreções
e de tudo o que te alimenta.
O verbo escapa das tuas entranhas,
é pedaço teu
como um coração, um fígado, um rim.
O logos testemunha teu desejo
imortal diante da finitude
de tua matéria
em combustão nos tempos.

Acende o corpo
na floração
do que gozas,
sentes,
ou enuncias.

Jules-Élie Delaunay - Sapho embrassant sa lyre

Jules-Élie Delaunay – Sapho embrassant sa lyre

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Sempre gostei de trazer desafios arbitrários para minha escrita. Desafios formais ou temáticos sempre me interessaram. Lembro-me do espanto, quando li na infância — com sete ou oito anos –, num livrinho hoje tão perdido na memória que não lhe sei o nome nem o autor (1), um poema todo feito com palavras iniciadas pela letra “T” (2). Talvez essa — que julgo ser a minha primeira memória de leitura — tenha sido uma experiência fundante para mim como leitor, antecedente até mesmo à descoberta de que as palavras poderiam servir algo para além do dizer e que delas era possível extrair o gozo. Essa experiência não me trouxe o desejo de escrita. Dela, no entanto, me ficou o assombro e, muito possivelmente, alguma herança que acabou conformando meu êthos como escritor.

Esse poema primitivo me ecoava como lembrança desde que comecei a escrever os meus (nunca esqueci de como me soava o início do poema, embora nada lembrasse da forma como ele se dispunha em versos: “Tuca, Teresa, Toninha: três tias, todo tempo tricotando”). Sem ter mais o livro e ainda sem ter o recurso da internet, onde parece que tudo se deposita, ele me habitava como uma névoa. Mas essa névoa, que nada mais era do que uma apagada lembrança, me motivou a tentar recriá-la nas duas primeiras estrofes de um soneto que escrevi pouco mais de dez anos depois dessa leitura fundante.

Vórtices vértices virão, viajantes…
Vidas vivi; ouvi vibrantes vozes.
Velhas visões, volúpias vãs, velozes
Vagavam vivas em violões ventantes.

Véus… versos vêm vibrar, e vêm vazantes!
Vêm viscerais, vivazes feito vozes.
Violas vagam a vestir viscoses
Vestindo ouvidos com visões volantes.

(Do poema “Os Dias da Madredeus”)

Quando comecei a ler Ítalo Calvino, pela primeira vez ouvi dizer da chamada Oficina de Literatura Potencial (conhecida como OuLiPo). Embora não me enxergasse com tamanha obsessão pela criação de regras restritivas e arbitrárias — e por vezes absurdas, como a escrita de um livro inteiro suprimindo uma vogal –, identifiquei-me de imediato com sua proposta geral, de aumentar as potências expressivas da linguagem por meio de restrições.

Penso que até hoje o desejo de engendrar restrições me persegue. Este ano, a leitura de “Six Songs of Causality”, de Ricardo Domeneck, fez com que um poema ficasse me rondando por semanas. Primeiro como projeto, depois como lista de palavras e, por fim, como execução — construção de uma estrutura e permuta entre palavras. O poema de Domeneck era um jogo com uma série de palavras predeterminadas, permutadas em seis poemas, gerando seis diferentes possibilidades de sentido na relação sintática entre elas. As seis canções me pareceram fractais, e encontrar essa forma — que veio antes de qualquer conteúdo — me levou a escrever Seis fractais de casualidade. Num exemplo como esse, percebo que restrições realmente podem potencializar a capacidade expressiva da linguagem.

Percorro esse caminho sinuoso de lembranças, que talvez digam algo sobre minhas escolhas como escritor, para chegar ao cerne do que desejo abordar aqui. Em meu último texto do ano passado, faltou falar sobre o que passar a escrever com periodicidade para este blog acarretou para a própria escrita, ou na minha relação com ela. Foi minha amada musa e leitora primeira de tudo quanto escrevo quem me chamou atenção para isso. E, a partir de um comentário dela, comecei a pensar este, que seria o primeiro texto de 2015.

Há algo numa página em branco que o assemelha a um blog como este: Em ambos, tudo cabe e tudo pode. A própria escrita se conforma como esse terreno de absoluta liberdade. Talvez para fugir à paralisia que uma liberdade absoluta pode provocar, inventam-se restrições para a escrita — ao menos intuo que, para mim, funcione assim. Contra a abertura disforme de todas as possibilidades, sempre me fixei em projetos — mesmo que fosse para mudá-los, enquanto os executava — e aceitei normas autoimpostas.

Este blog, hoje chamado Ensaio Aberto, nunca foi propriamente um projeto. Sempre foi um lugar de escrita eventual. Escrever para ele tinha a ver com um desejo de encontro e interlocução. Esse desejo, no entanto, muitas vezes era obliterado pela força de projetos a que me lançava. Isso explica, por exemplo, as intermitências e os abandonos que ele sofreu desde 2004. Explica também anos inteiros com um ou dois posts publicados — que, por vezes, nem sequer eram textos, mas citações, vídeos, etc.

Um espaço onde afluíam tantas liberdades parecia não mais funcionar bem para mim. Permanecia o desejo de interlocução e de encontro com leitores, bem como de proximidade semântica que a internet me parece propiciar. Mas um espaço como esse, se não se alimenta sempre da escrita, também não consegue gerar o tipo de movimento que eu me queria.

Para lidar com o excesso de liberdade, que transformava esse blog quase num caderno em branco, com eventuais riscos e notas mais ou menos esparsas, criei uma regra simples: escrever sempre. Para isso, estabeleci uma periodicidade que “deveria” ser respeitada — um dever gratuito, como qualquer outra restrição que eu possa querer estabelecer para o que escrevo. Primeiro, estabeleci uma meta não realista, e que me exigiria sacrificar um tanto meus projetos de escrita para cumpri-lo. Depois, percebendo como e o que funcionaria, bastou ajustá-la.

A necessidade de escrever constantemente me levou não apenas a olhar todas as coisas como matéria-prima de escritura. Ela exigiu que eu, de fato, escrevesse sobre o que me despertava o interesse. Que eu transformasse em linguagem uma série de intuições, ideias e impressões que, em outras circunstâncias, certamente não virariam texto. E, como consequência, não só dirigiu o meu olhar de forma mais constante para o efêmero do mundo, como também me demandou interpretá-lo.

Sem a arbitrariedade autoimposta da constância, certamente eu não escreveria sobre tema como a tentativa de proibir os rolezinhos, as expectativas sombrias de aumento da repressão durante a Copa, os cinquenta anos do Golpe de 64, o encontro com um desconhecido falante no ônibus, a absurda decisão judicial que afirmou que os cultos afro-brasileiros não contêm traços de uma verdadeira religião e os resultados das eleições legislativas. Além disso, pode ser que alguns outros textos, cujos temas costumavam ser matéria de escrita nesse blog, não nascessem apenas por inércia.

Outro aspecto novo é a maior interlocução que minha poesia provocou. Desde o fim de agosto, a maior parte dos textos publicados foram poemas meus. Antes, minha poesia era exposta apenas circunstancialmente. Dos poemas que publiquei esse ano, somente uns dois ou três seriam certamente publicados sem o estabelecimento de um plano de publicação periódica. E talvez outros nem sequer nasceriam, já que alguns eu escrevi pensando na interlocução com os leitores — habituais ou eventuais — daqui. Não sei se os poemas sobre a garantia da ordem, a absurda violência policial, o desejo espalhar o amor como antídoto ao ódio que rege o mundo e a iminente morte de Manoel de Barros, escritos diretamente na plataforma do blog, teriam nascido se eu não estivesse habitando constantemente o terreno da escrita pública.

Inicio 2015 com o desejo de, ao menos, continuar a prática do ano que passou. Nele, escrever aqui constantemente foi uma experiência muito importante para mim, que me permitiu chegar a lugares aos quais eu não chegaria de outro modo. Mais do que divulgar alguns dos meus escritos, ela tem alterado positivamente os rumos da minha escrita. Isso não é pouco! Mas como não há experiência definitiva, pode ser que no futuro eu volte a abandonar esse espaço, ou mesmo que venha povoá-lo ainda mais. A vantagem de criar as próprias regras é poder burlá-las quando quiser.

quinzenario0017-logopremioescriba

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(1) Após o texto já ter sido publicado aqui e divulgado no Facebook, minha mãe publicou por lá o seguinte comentário:

“Filho, este livro que você menciona em seu texto foi utilizado, se não me engano, em sua primeira série no Instituto Nossa Senhora da Piedade. Chamava-se “A Canoa Virou” e reunia poemas para crianças. Lembro-me de você lendo os poemas e adorando aquele modo de dizer as coisas. 🙂 “

Na hora aquilo me ecooou. Era o nome do livro, perdido na memória. Provavelmente, algum apanhado de cantigas populares e poemas infantis, com ilustrações. Lembrei até de sua capa azul, com um menino naufragando numa canoa vermelha. Aliás, não sei se lembrei realmente, ou se invento. Mas, se eu inventei, agora é realidade. Com as facilidades de um blog, em vez de ter de mandar imprimir e encartar esse comentário, simplesmente o inseri aqui nesta nota.

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(2) Pesquisando pela internet, após me deparar com a lembrança evocada assim que comecei a escrever esse texto, encontrei o poema e descobri seu autor, Elias José, um escritor e professor mineiro, falecido em Santos em 2008. Eis o poema a que me refiro:

Três tias

Tuca
Teresa
Toninha
Três tias
Todo tempo tricotando
Tanto tempo
Tal tarefa
Tricô tanto

Tuca
Teresa
Toninha
Três tias tagarelas
Tudo tentam
Tudo temem
Tanto tango
Tais tragédias
Tais trejeitos
Tudo treme

Tuca
Teresa
Toninha
Três tias
Tão tiranas
Todavia três tias
Tão ternas.

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