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Posts Tagged ‘Memória’

“Tempo, tempo, tempo, tempo, / És um dos deuses mais lindos” – celebrar hoje quarenta anos me traz à mente esses versos de “Oração ao Tempo”. Tenho para mim que o tempo é a medida de nossas memórias. Olho para trás e vejo quarenta anos de histórias vívidas. E, navegando na nave do instante, chego a essa marca com a impressão de que olho o mundo a partir da mesma perspectiva do deslumbramento, desde que me entendo por ser no mundo.

Encaro esses vários “eus” que fui nas horas, dias, meses e anos que vivi, e sinto que essa sensação de continuidade tem muito a ver como essa perspectiva a partir da qual se olha. Isso a que chamamos interioridade, subjetividade, e que talvez responda pela forma como absorvemos, processamos e devolvemos ao mundo os estímulos que recebemos. Porque, de resto, somos a constante impermanência do vir a ser, incapazes de nos banharmos duas vezes nas águas do mesmo rio.

Fui acumulando – ou inventando – ferramentas e lentes que me ajudam a olhar para esse espanto que é o mundo, pois a imensidão da vida é maior até mesmo do que a do mar. Como o menino Diego, da bela história narrada por Galeano em “A função da arte”, que pede ao pai que o ajude a olhar a imensidão do mar, que ele avistava pela primeira vez. Ou como o menino Miguilim, que além das lentes corretivas, tentava levar em seus olhos a sagacidade do olhar de Dito, seu irmão morto, para desentender os mistérios da vida – no meu caso, levo a ausência do olhar de meu pai, que morreu na primeira década de minha vida.

Atingir quarenta anos é uma marca especial para quem foi batizado no segundo dia de vida, para não morrer pagão, e fez sete cirurgias antes dos três anos de idade. Hoje, na busca por firmar um acordo com o tempo, lembro o que ouço desde criança, que a vida começa aos quarenta, e peço no mínimo mais uns quarenta anos de caminhos, para continuar aprendendo a olhar, e uns vinte de bônus – a ideia de escrever até os cem anos é absolutamente fascinante. Quero que minhas palavras continuem a soar como vozes da própria memória. Cada vez mais rica e repleta. Enquanto isso, certamente, essa velha canção continuará ecoando em mim: “Tempo, tempo, tempo, tempo…”

___
ADENDO – dia 23/06/2019

Gosto muito de fazer aniversário. Não sou de arquitetar grandes festas ou grandes celebrações. Eu, que sou uma pessoa naturalmente extrovertida, tendo a certa introspecção nesse período. Desconfio que seja porque, a cada renovação de ciclo solar, uma espécie de festa interna acontece.

Gosto muito de fazer aniversário, porque é um tempo de grande fluxo de afeto – que vem de muitas formas. Cada abraço, cada palavra dita ou escrita, por todos os meios – que se multiplicam nesse tempo de vertigem de comunicação em que vivemos –, cada manifestação de carinho acende um sol dentro.

Obrigado a cada um por trazer um pouco de fogo para acender esse sol interno, por afluir afeto, por celebrar comigo esse marco que são os quarenta anos. Vou responder aos poucos a cada mensagem deixada em tantos lugares. Mas queria deixar desde já essa resposta, ampla e repleta de gratidão, ao universo múltiplo dos afetos afluentes que me rodeiam.

Gratidão infinita… ∞ ❤🧡💛💚💙💜

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Tenho para mim que o tempo é a medida de nossas histórias, a constante fundamental de nossa memória. Nestes últimos dias, tornou-se uma espécie de febre nas redes a comparação entre uma imagem atual e outra registrada há dez anos. Entro da dança com minha habitual fascinação pelo tempo, evocando os lodos primitivos de nossa individualidade, local onde surgem, como uma espécie de bolor vivo e úmido, as lembranças.

Deparo-me contigo com trinta recém-completos – a foto foi tirada em julho – e constato o quanto você viveu nessa década. Às vésperas de completar quarenta anos – o que ocorrerá em junho – sinto que muita vida pulsou, transbordante. Seus pés se fincaram por tantos caminhos. Sua voz ressonou por tantas paragens. Sua escrita encontrou novos leitores – menos do que gostaria de ainda conquistar, porém mais do que você supunha que teria ao longo desses dez anos.

Você viveu imensas alegrias nessa década. Encontrou um amor para a vida (a Fabi), casou, abriu e fechou uma editora (a Vagamundo), publicou seu primeiro livro de contos pela Editora Patuá. A literatura, aliás, te trouxe muitos amigos — sedimentando essa antiga noção de que o que te move à escrita é o desejo de encontro. A música, outros tantos. Você ainda abrigou três cachorrinhas (@ matilhalab) e em breve adotará um filho ou uma filha – o futuro é aberto!

Nesses dez anos, também viveu novos desafios, o corpo mudou e exigiu novos cuidados. O positivo efeito colateral disso é que esses desafios te obrigaram a se aceitar mais e se acolher nas necessidades de seu corpo. E todas essas experiências – e muitas outras – estão no cerne daquilo que te levou a escrever que “o rosto do real é sempre de um maravilhamento que desconcerta o imaginado.”

Dois eus deslocados no tempo.

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Extintas memórias

Extintas memórias de infância –
de tardes no museu –
ardem no fogo dos séculos.
Restam apenas jardins
ladeando cinzas.
E um rescaldo de vozes.
O tempo e as chamas
são implacáveis.

Naqueles salões, uma múmia
ou um fóssil humano
me revelou –

creio que antes mesmo
que eu conhecer a escrita –

como é funda a fria face
da morte.

Afora este horror primevo,
esqueletos de dinossauros e baleias
alimentavam a perplexidade
da curiosa mente infantil.

Via naquele meteoro,
que sobreviveu ao fogo do descaso
dos tempos presentes,

o que causou,
há sessenta e cinco milhões de anos,
a grande extinção do cretáceo-paleogeno.

A grande extinção do museu,
com duzentos anos
dois meses
e vinte e sete dias de vida,
é agora.

São Paulo, 3 de setembro de 2018

Museu Nacional em chamas (2/3 de setembro de 2018)

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Entrei nessa sexta-feira no último ano de minha década de 30 particular. Aniversários sempre me despertam memórias e me fazem olhar para trás. E essas memórias podem ter significados diversos e despertar emoções distintas. Há momentos em que resvalam em melancólica saudade, em nostalgia. Noutras, como agora, que me trazem uma alegria e uma gratidão imensas.

Desde que fiz trinta anos de vida, no agora longínquo mês de junho de 2009, tanta vida pulsou, transbordante. Meus pés se fincaram por tantos caminhos. Minha voz ressonou por tantas paragens. Minha escrita encontrou vários leitores – menos do que eu gostaria de ainda conquistar, porém mais do que supunha que teria ao longo desses nove anos.

Foi com trinta anos que lancei meu primeiro livro. Quando ele foi publicado, eu ainda tinha 29, mas levei mais de um ano para lançá-lo. Foi nessa mesma época que comecei a namorar a Fabi, minha esposa, com quem sou casado há sete anos.

Nessa década, tantas coisas aconteceram que seriam necessárias muitas e muitas páginas para dizer tudo. Fiz diversos amigos, assisti à Sagração da Primavera e o Café Miller pouco depois da morte da Pina Bausch, namorei e casei com minha esposa, me mudei de casa duas vezes, mudei meu blog para o lugar em que ele está há oito anos, lancei dois livros – o Trítonos – intervalos do delírio, lançado em 2015 pela Editora Patuá, foi o acontecimento literário da minha vida –, comecei a fazer aulas de canto, passei por quatro coros, abri e fechei uma editora, aprendi rudimentos de edição fazendo um documentário, viajei para alguns lugares, sonhei, esbocei projetos que me esperam pacientemente, realizei outros, descobri diversos autores, venci diversos desafios, senti meu corpo mudando, aprendi a dirigir e comprei um carro muito por causa disso, transformei minha casa numa matilha, “conheci” aquele que talvez seja um dos escritores vivos que mais me assombram – o Raduan Nassar –, comecei a tocar um repertório de música cigana que venho apresentando em saraus da vida, compus duas canções, tenho buscado olhar não para o que falta mas para o que sou, trabalhei – muito! –, escrevi, escrevi, escrevi, escrevi… e amei. Uau!!! E ainda me resta um ano inteirinho dessa década. E ontem combinei com a Fabi que esse seria o ano mais feliz da minha década de 30 – e, por que não?, da nossa vida até agora.

Neste dia em que se iniciou o novo ciclo solar que me levará aos quarenta anos, senti que celebrava a vida com todas as pessoas que me ligaram, escreveram, abraçaram, me deram parabéns ou desejaram felicidades, pessoalmente ou por escrito. Li cada uma das inúmeras mensagens que esperam resposta. E prometo respondê-las todas, aliás.

Envolvido nessa alegria, olhei para meus nove últimos anos tentando pensar o que eles foram. Busquei entender quem era aquele que chegou na casa dos trinta anos em 2009 e chegou agora aos 39 anos nesta sexta-feira. O que viveu esse que sou? Nessa viagem, acabei tentando selecionar dez fotos minhas representativas dessa trajetória – além de uma do dia de quase ontem. Muita coisa ficou de fora. Se fossem cem fotos, ainda faltaria espaço para tanta recordação bonita – vivemos numa era de abundância de imagens. Então nessa madrugada, após ter a linda surpresa da presença da minha mãe e da minha irmã – que agora dormem – aqui celebrando comigo, revisito algumas memórias registradas em fotos. E divido com cada um que, mesmo não estando nessas fotos, está comigo naquilo que estou sendo e tenho sido.

2018: 39 anos.

2009 ou 2010: Entre a publicação e o lançamento de “Poemas para serem encenados”

2011: Open House: Fabi&Teo

2011: Viagem de Lua de Mel – Cartagena das Índias

2011: Vernissage da exposição “Olhos d’Água e de Fogo”, do querido Marcelo Tosta

2012: Lançamento de História Íntima da Leitura na Casa das Rosas

2015: Lançamento de Trítonos – intervalos do delírio, na Casa das Rosas

2015: A matilha.

2017: No dia em que “conheci” Raduan Nassar

2017: No Rio de Janeiro, dissolvendo tabus.

2018: Música cigana no Espaço Núcleo

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(em diálogo com Priscilla Menezes)

Eu ouço a balbúrdia
de uma multidão
singrando veredas
com tochas nas mãos.

“Que queimem as bruxas!”
E sei que essa história
soa mais antiga
que a própria memória.

As férteis potências
medram muito os homens
e suas ciências.

Quem celebra a guerra
sempre irá temer
as bruxas e a terra.

 

Hans Baldung – O Sabá das Bruxas

Manifestantes queimam boneca com rosto de Judith Butler em frente ao Sesc Pompeia. Foto: Felipe Faverani.

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Leio em loop infinito os versos que recebi hoje de minha irmã. Releio-os numa felicidade de imensidões. Eu, que me sei poeta e escritor por sua influência. Por desejar também ter cadernos pautados para jogar com a linguagem. Numa desmedida de ternura, quando os todos caminhos parecem abertos e transitáveis. Se bem que já havia tendências nesse tempo, quando você tinha pouco mais do que nove anos e eu, quase doze. Você tinha a altura e a intensidade de uma linguagem esgarçada pelo trágico. Eu arquitetava formas, engendrava desgastadas rimas e me divertia em impor regras para constranger a liberdade absoluta do dizer. Se a poesia em você eram jorros de metáforas dilaceradas nas asas dos pássaros, para mim valia a diversão de pôr palavras num pilão e extrair-lhes os óleos do inabitual.

Que dizer desse caminhar que, ao mesmo tempo, é solidão e partilha? Ouvimos de Drummond um conselho sobre os poemas: “Espera que cada um se realize e consume / com seu poder de palavra / e seu poder de silêncio.” E o silêncio é um outro nome para a solidão. Por isso o poeta das sete faces nos diz também: “Penetra surdamente no reino das palavras.” No entanto, poetas tocam o incomunicável para voltear e dar a ver o lodo das palavras, essas metáforas gastas, repletas de histórias e corruptelas. Para sentar junto na fogueira dos tempos e cantar sobre essas descobertas. A solitária escrita deseja a leitura, almeja o encontro.

E nosso encontro precede à palavra. Nasce anterior ao verbo. Remete a signos ainda cindidos, significantes com cambiantes significados. O logos do afeto nos guiou os passos. E, por graça e obra da vida, caminhamos num mesmo sentido, mesmo que por caminhos diversos. E sob a égide dos versos, das metáforas e da poesia espargida, fizemos o pacto dessa fraternidade. Juntos seguimos. Sempre, sempre, sempre, e cada vez mais.

Com um amor que precede e transcende o verbo, te amo, minha irmã!

Betinha e uma caneta profética vaticinando uma vida entre palavras.

Betinha e uma caneta profética vaticinando uma vida entre palavras.

Irmão

A linguagem nele
irradiou nos seres e nos objetos
concebeu uma gramática
em mim, labiríntica.
Chamei-o estruturalista
porque vejo em modo macro
sondada por sensações.
Minha razão encadeando
elementos assombrados
meu irmão operando ideias
com lógica e afeto.
Razões obsedadas
uma tremenda ternura
capricorniana
confusa confusa
em viver de signos.
Versus
o canceriano imenso
que pensa desde a palavra:
penso desde a palavra.
O mundo fizemos
um pacto
desta fraternidade.

Roberta Tostes Daniel

 

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Panorámica de la Mano del Desierto - Desierto de Atacama (Chile)

Panorámica de la Mano del Desierto – Desierto de Atacama (Chile)

É preciso olhar lá fora. Há pólvora e palavras inflamáveis por todo lado. Uma dureza nos olhos dos passantes, um desejo inominado de vingança contra o que não tem rosto ou voz.

De onde vem tanta gente saudosa de disciplinar os corpos? Desejosa de impor suas normas? Empenhada em converter o mundo à sua moral? Uma moral que não acolhe, mas extirpa a diferença.

As feiticeiras continuam sendo assassinadas pela turba raivosa. Ainda que seus atos sejam boatos. As cicatrizes da História ainda estão expostas sobre a pele dos dias. Em tempos de fria desesperança, elas doem mais.

A humanidade olha para os lados, perdida. O pó das utopias é insuficiente. Não direciona os passos nem promete coisa alguma. Apenas testemunha o que ruiu.

Resta perguntar: para onde vamos? Com espanto, não com cinismo. Talvez da incerteza surja algum alento. Talvez nalgum asfalto brote uma flor. Talvez uma resposta poética desafie nossa era de eficácias momentâneas. Talvez, talvez, talvez.

É preciso olhar lá fora. Há pólvora e palavras inflamáveis por todo lado. Uma dureza nos olhos dos passantes, um desejo inominado de vingança contra o que não tem rosto ou voz. Mas há também enormes desertos nos entremeios do ódio, demandando os contrapontos da presença, do afeto e do acolhimento. Se bem que isso nunca deixou de ser.

Agora resta habitá-los.

Imagem alterada da contracapa do LP "A Rosa do Povo", de Martinho da Vila

Imagem alterada da contracapa do LP “A Rosa do Povo”, de Martinho da Vila

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Ouve a estrutura da palavra,
o antes e o porquê
de sua existência.
A palavra é pomo
do corpo.

Morde essa fruta.
Sente os significados
escorrendo da substância significante,
perpassando plurívocos pela língua
e expandindo pelo ar
tuas histórias, tuas mentiras,
teus segredos, tuas ideias,
tuas verdades, teus desejos
tuas gagueiras e tuas sinapses.

Celebra a palavra.
Ela é feita de teu sangue,
tua carne, tuas gosmas, tuas secreções
e de tudo o que te alimenta.
O verbo escapa das tuas entranhas,
é pedaço teu
como um coração, um fígado, um rim.
O logos testemunha teu desejo
imortal diante da finitude
de tua matéria
em combustão nos tempos.

Acende o corpo
na floração
do que gozas,
sentes,
ou enuncias.

Jules-Élie Delaunay - Sapho embrassant sa lyre

Jules-Élie Delaunay – Sapho embrassant sa lyre

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Manoel ouve a terra lhe chamar.
O silvo dos ventos
bagunçando a poeira morna
das tardes
convida-lhe a ser novamente
terra.
Ser novamente
pó e memória,
participando, com isso, da intimidade
da pequenez.

Como poeta, já cantou
o ínfimo.
Como mortal, seu futuro se aproxima —
o mesmo que o de qualquer um:
habitar um úmido silêncio escuro,
quando a vida estanca
e desorganiza o corpo.
Como ente, conheceu muitas infâncias,
gozosos alumbramentos,
sussurradas dores,
e a melancolia do declínio.

Toda estrela, quando apaga,
torna-se um buraco negro
— eis a vida agarrada, lugente,
aos luzentes calcanhares estelares!
Ele ensaiou isso a vida inteira:
no silêncio das coisas sozinhas
aprimorou-se em
árvore musgo cisco pássaro caracol sapo mijo…

Em seu crepúsculo inevitável
a poesia lhe carpe
e um poeta diminuto menor
atira-lhe, comovido,
um prévio e pegajoso epitáfio:

Na palavra, Manoel
jaz e já é.

Desorganizado poema-lamento-homenagem, escrito agora na sequência da leitura da matéria Manoel de Barros, o poeta das miudezas espera o infinito.

manoel_de_barros_extase

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Eu sou nutrido por terra,
por sol, por água e palavras.
No corpo o mundo se grava
e o outro dentro se encerra.

Devoro todo alimento:
carbono, hidrogênio, símbolos,
oxigênio, e outros mínimos
e essenciais elementos.

Cá no meu tempo eu me inundo.
Depois, tornarei ao mundo
e o que sou se espalhará.

O que faz minha memória
engendra também a história
de tudo aquilo que há.

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Felice: Mirco, você enxerga?
Mirco: Sim. E desde quando você é assim?
F: Desde que nasci. Como são as cores?
M: São lindas.
F: Qual é a sua predileta?
M: O azul.
F: Como é o azul?
M: É como quando anda de bicicleta e o vento bate na sua cara. Ou também é como o mar. O marrom… sinta isso. É como a casca desta árvore. Sente como é áspera?
F: Muito áspera. E o vermelho?
M: O vermelho é como o fogo. Como o céu no pôr-do-sol.
(Do filme “Vermelho como o céu”)

Estamos atentos aos detalhes todos do mundo que podemos perceber? A tudo que o mundo nos oferta? A tudo que ele pode nos dizer? Que lugar cada coisa, pessoa ou memória ocupa em nossos afetos e percepções? É difícil não se fazer essas perguntas depois de assistir a “Vermelho como o céu”. E, principalmente, é difícil não se arrebatar pelo filme de Cristiano Bortone, que conta a história de um menino que em 1970 perde a visão num acidente e, por falta de opção, já que as escolas italianas não aceitam cegos entre seus alunos (testemunho de que a educação inclusiva é recentíssima), acaba enviado para uma instituição de ensino “apropriada” em Gênova, longe de sua família e de sua cidade.

imgsemanario0005Inspirado na vida de Mirco Mencacci, editor de som do cinema italiano, o filme passa distante das edificantes e previsíveis histórias de superação. O espectador assiste a uma celebração da imaginação, dos sonhos e dos sentidos, enquanto acompanha as descobertas do pequeno Mirco em sua nova condição. E é provocado o tempo todo, seja pela grandiosidade da dimensão onírica — que ganha na tela traduções imagéticas, a partir dos sons de que o menino passa a se valer para dizer sobre o mundo –, seja pelas indagações ditas pelos próprios personagens, diante de suas dúvidas e abismos. Indagações sutis como a do professor que, ante a recusa de Mirco em aceitar que não mais enxerga e a participar de uma tarefa proposta em sala — tocar, cheirar e sentir objetos variados –, diz-lhe simplesmente:

— Eu também enxergo, mas não é suficiente. Quando vê uma flor, não quer cheirá-la? Ou quando neva, não quer andar sobre a neve branca? Tocá-la, senti-la derreter nas mãos? Vou lhe contar um segredo. Algo que notei vendo os músicos tocarem. Eles fecham os olhos. Sabe por quê? Para sentir a música mais intensamente. Pois a música se transforma, se torna maior, as notas ficam mais intensas. Como se a música fosse uma sensação física. Você tem cinco sentidos. Por que usar só um deles?

Ao se apropriar de um gravador, primeiramente surrupiado da sala dos professores — e depois veladamente ‘cedido’ por seu professor — Mirco passa a explorar a dimensão sonora de sua imaginação. Os resultados de suas investigações são de tal forma surpreendentes, que acabam por arregimentar os que estão ao seu redor.

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E neste aspecto “Vermelho como o céu” tem uma dimensão política irrefutável. Aliando doses suficientes de coragem e talento, Mirco, um menino que acabara de ficar cego e de chegar a um ambiente estranho — e por vezes hostil –, termina por promover mudanças na instituição antiquada e um tanto castradora que o recebera. Para além da fragilidade óbvia, uma força insuspeita irrompe deste personagem. Contagia a muitos. E promove mudanças. Como que a nos indagar se estamos prontos para sermos a mudança que queremos ver no mundo.

Não sei se, neste ponto, a história de Mirco Balleri, o personagem, se confunde com a história de Mirco Mencacci, a pessoa real em cuja história o filme se baseia. Mas os acontecimentos de “Vermelho como o céu” não precisam ser verdadeiros. Para que a história se sustente, basta que sejam verossímeis. E não é possível descrer da sucessão de eventos que leva a surpreendentes mudanças nos rumos daquele colégio, e de tantos personagens que trabalham nele, habitam-no e, com tijolos de si, constroem aquele lugar.

“Vermelho como o céu” foi uma surpresa do último domingo. Assisti-lhe sabendo apenas que era um filme sobre um menino que fica cego e enfrenta dificuldades para continuar estudando. De repente, ele tomou dimensão de deslumbramento. O filme leva às lágrimas, mas não pela constatação das durezas da condição humana. Chorei no final por um inominado sentimento de celebração e gratidão à vida. E a todas as suas potências criadoras.

Evoé!

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Deixo abaixo uma versão legendada de “Vermelho como o céu” que encontrei no youtube quando comecei a escrever sobre o filme:

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Só outro silêncio. O senhor sabe o que o silêncio é? É a gente mesmo, demais.
(Guimarães Rosa – Grande Sertão: Veredas)

Um caos de formas, cores, luzes e gentes. Vozes chamam incessantemente para um embarque imediato. Sentada naquele desconfortável banco metálico, olhando pousos e decolagens, ela simplesmente aguarda. Aguarda e observa. Ouve conversas, torrentes de palavras, que se desgarram de seus contextos para habitarem novos sentidos dados pela escuta flutuante daquela mulher, que olha contemplativa o ruidoso turbilhão.

Quem a olhasse hoje, diria que Anita era aquele tipo de pessoa que se destaca pelo silêncio. Conhecia bem a inutilidade do verbo diante de argumentos de força. Por essa razão, era lacônica e precisa, como um haikai.

Estava ali, a beber o mundo com os olhos, quando um homem lhe chamou a atenção. A familiaridade daquele rosto, perdido no tempo, seria certamente reconhecida em meio a qualquer multidão. Aqueles olhos… Num impulso, levantou-se e foi até ele.

– Com licença. Provavelmente você não me reconheça. Aliás, eu nem sei se você é você. Quero dizer, se você é quem eu estou pensando que é. Desculpe, mas qual o seu nome?

Disse tudo como uma tempestade. As palavras quase montavam umas sobre as outras, para sair mais céleres. Eram como animais acuados que, num repentino rompante, encontram um ponto de fuga.

– Ro…

Sim, era ele. Anita jamais esqueceria aqueles olhos do mais belo azul-turquesa que já tinha visto na vida. A medida de seu silêncio se ligava estreitamente àqueles olhos, que ela havia conhecido no início da adolescência, na escola. Estavam às vésperas da festa junina e ela dançaria com Rogério, o dono daquele azul.

A turma se via mergulhada nos ensaios da coreografia da quadrilha, com seus pulos, gritos e túneis, em que todos os pares seguiam os noivos. Anita chegou a ser cogitada para o papel da noiva, mas abdicou. O noivo já estava escolhido de antemão, e ela não queria dançar com aquele outro menino antipático e metido, dono de estúpidos olhos, verdes e demais convencidos de si.

Anita era só ânsia. Queria logo vestir-se de caipira e dançar, mergulhada naquela imensidão que sequer intuía, num azul que só parecia existir na intersecção entre céu e mar. E naqueles olhos… A roupa já estava escolhida. A maquiagem, de bochechas vermelhas, sardas e dente preto-faltante, era testada quase todo dia. Arriscava acabar com o estojo inteiro de maquiagem da mãe antes de chegar o dia da festa. E como demorava para chegar esse dia!

Por mais que uma iminência demore, no entanto, ela sempre chega. Porque os únicos tempos simbólicos são o futuro e o passado. O presente não se enxerga, nem se apercebe. Ninguém coloniza o hoje. O presente simplesmente é – ligação entre a memória e o sonho. E, gozosa ou desgraçadamente, é nele que se vive. Assim, a festa, que existia como futuro, de repente chegou defronte do portal do agora, pronta para habitar o passado. E foi no agora que tudo aconteceu. Mas Anita só se apercebeu de tudo quando a festa já era passado. Pretérito imperfeito: já era.

Pouco antes da apresentação da dança, quando estavam se alinhando os pares, a diretora da escola cismou que aquilo não estava direito. Como puderam deixar uma menina tão alta ensaiar esse tempo todo com um menino tão diminuto? Teriam que rearranjar os pares. A professora chegou a esboçar alguma defesa da desordem já estabelecida, mas não teve jeito. A diretora colocou Anita para dançar com um menino comprido e desengonçado, de olhos baços. Já Rogério deveria dançar com uma menininha ruiva e sardenta, de olhos muito grandes e negros, semelhantes a uma noite sem lua.

Indignada, Anita bradou contra aquela arbitrariedade. Apesar de sua pouca idade, sabia argumentar bem. Não se intimidava diante de autoridades que não se mostravam legítimas. Questionou de todas as formas possíveis a diretora. Indagou o porquê do império métrico criado para a apresentação, quando tudo sairia melhor se cada pessoa dançasse com quem tem afinidade. Além disso, mudanças naquele instante, quase na hora da apresentação, poderiam confundir a todos. Mas a diretora era irredutível. Não era estético combinar pares tão desproporcionais, como eles.

Enquanto discutia com a diretora, Anita procurava os olhos de Rogério. O menino diminuto permanecia com o rosto inclinado para o chão, mas a olhava, vez em quando. Seu olhar, quase súplice, parecia pedir que ela desistisse daqueles questionamentos todos, pois aquilo não daria em nada. Como quem falasse “deixa, deixa para lá…” – e ela não deixava.

Somente quando a diretora afirmou, quase aos berros, que era ela quem mandava ali e seria do jeito que ela determinasse, é que Anita percebeu que todas as suas palavras foram inúteis. Contra argumentos de força, de poder, as palavras valem nada. Intuiu isso e calou. Calou as palavras e a voz. Dançou com o menino alto, desengonçado e de olhos baços. Em silêncio. Só não calou as lágrimas. A maquiagem ia ficando cada vez mais borrada pelos caminhos abertos por esse choro silencioso, brotado quase à revelia da dona do pranto. Ao fim da dança, em silêncio, se retirou. Não havia mais festa. Nunca houve. Não para ela, que tanto a havia esperado.

No banheiro, lavou o rosto. Retirou toda aquela maquiagem sem sentido. Tinha vontade de trocar aquela roupa, aquele vestido florido, comprado especialmente para a festa que não houve. Com os olhos vermelhos e inchados, chegou séria perto da mãe. Disse que não queria mais estudar naquele colégio. A mãe quis saber por quê. Ao se ver defrontada com a necessidade de explicar o que houve, Anita chorou alto. Agarrou-se à mãe e pediu, por favor, que a trocasse de escola. E nunca mais pisou ali.

– …berto.

– Como?

– Roberto – repetiu.

Não era ele. Mas como podia ter aqueles olhos? Nunca havia visto olhos iguais, até aquele dia. Anita não sabia muito o que fazer com aquilo. Nem saberia o que fazer, caso realmente encontrasse com Rogério. Pensou que o verdadeiro dono daquele azul fosse ainda um menino, talvez. Um menino que ficou preso ao passado.

– Então você não é você. Digo, não é quem eu pensava que fosse.

Anita notou o semblante daquele Roberto. Parecia abatido. E ela parecia perder a eloquência, novamente. Mas ainda tentou se agarrar a um resto de palavras que lhe vinha.

– Desculpe, Roberto. Devo estar te aborrecendo com isso. Você está indo viajar e aparece uma louca…

– Imagine, é que estou um pouco atordoado. Na verdade, estou chegando de viagem. É a primeira vez que viajo de avião. Segunda, a primeira foi a ida. Fui buscar as cinzas do meu irmão, que eu mal cheguei a conhecer.

Acenou um adeus, mas não conseguiu dizê-lo. Não conseguiu, também, encontrar palavras para falar ao desconhecido, diante de tudo quanto ele havia dito. Mas quem consegue encontrar palavras diante da vida, do incomunicável, do desconhecido, da ausência, da morte?


Escrito para a Oficina Escrevivendo: Falas de Amor, ministrada por Fabiana Turci na Casa das Rosas.

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Desejo de estradas, de árvores e de matas do caminho. Sentido norte, às bordas de Minas. Na até pouco tempo desconhecida — para mim — São João da Boa Vista, esperava-nos uma experiência de êxtase. Assim queríamos, assim imaginávamos, assim vivíamos este domingo último, desde o despertar.

Claro que entre o vivido e o imaginado, há imensos descompassos. O que planejamos não consegue dar conta de tudo quanto é. Certa vez escrevi uma frase, num conto, que se inscreveu em mim, no meu êthos: O real é de um maravilhamento que desconcerta o imaginado.

O primeiro maravilhamento foi pegar a estrada. Eu e dois ciganos: Fabiana Turci e Marcelo Tosta. Tostes, Turci e Tosta têm o vício de se maravilharem com a amplidão azulada do céu, com a poeira vermelha levantada em estradas de terra, com o sol batendo verde na copa das árvores. E sob influência de determinadas músicas, os êxtases desses três seres que somos se intensificam.

Junto conosco, viajaram as paisagens sonoras de Madredeus, Trio Harel, Orquestra Popular de Câmara, Zeca Baleiro e suas dez cantoras das “Odes descontínuas”, Milton Nascimento e Gustav Mahler — este último, interdito. Não seria possível à condutora do carro manter-se na concretude da estrada com Mahler. Íamos nós e tudo quanto somos ao encontro da paisagem sonora de Yann Tiersen. Sim, esse ser que para nós se assemelha a um quase mito estaria em carne, osso e sons no Teatro de São João da Boa Vista, essa cidade até então desconhecida — para nós — às bordas das Gerais.

Já havíamos passado do meio do caminho, quando chegou a notícia pelo celular: acabaram os ingressos para o show. Eram 14h53 da tarde. Levamos alguns segundos para decidir que continuaríamos a viagem ainda assim e alguns minutos para nos refazermos da frustração trazida pela má notícia da “fortuna imperatrix mundi”. Não sei saber se foi pelo impacto da notícia, ou pelo alumbramento de ver uma lua imensa no azul do céu, que o caminho que seguimos a partir dessa hora tornou-se um desvio. Quase 90 quilômetros de desvio, por uma estrada que parecia voltar pelo avesso. Após nos certificarmos de que teríamos de pegar o primeiro retorno e, no Km 134 daquela estrada, seguir o caminho que leva a Mogi-mirim, lembramo-nos da importância do desvio para a tradição filosófica moderna. Era tarde. Chegaríamos depois de o show já ter começado. Mas, ainda assim, seguíamos, leves e corpóreos como as notas que soavam nossas canções de estrada.

Depois de percorrer mais chão do que havíamos imaginado, uma placa mandou que virássemos, indicando que aquela curva nos levaria a São João da Boa Vista. Encontramos no meio da estrada o limite entre a cidade que buscávamos e o município anterior. Um ponto melhor demarcado do que aquele em que o Trópico de Capricórnio corta uma das estradas que tomamos. Quero crer, porque a realidade poética é a que melhor me convém, que cruzamos o Trópico no exato ponto em que fizemos o retorno em nosso desvio.

O entorno foi deixando de ter aspecto de fazenda, sítio, zona rural; foi, pouco a pouco, revelando a cidade que nos recebia. Uma pequena e encantadora cidade que me fez recordar Cabo Frio. Sim, sempre que estou numa pequena cidade, lembro de Cabo Frio — ou, mais precisamente, da Cabo Frio em que morei. Mais do que isso, lembro do tempo em que lá vivi, quando o tempo parecia ter outro ritmo, quando as horas, os minutos, os segundos pareciam respeitar mais o instante do gozo e do aprendizado. Estar numa pequena cidade sempre me desperta essa nostalgia dos tempos que me formaram, que fizeram de mim o que sou.

Ainda pensava nisso, quando se tornou óbvia a necessidade de pedir informações. Onde ficaria o Theatro Municipal? Seguíamos quase como se conhecêssemos a cidade, mas era preciso certificarmo-nos. Paramos no ponto exato que impediu mais um desvio nosso do caminho — que seria o terceiro! Quando andamos tendo um norte onde chegar, o caminho sempre parece mais difícil; os perigos e desvios sempre mais constantes, e a gente não experimenta nunca a sensação do ‘perder-se’, mas somente a de ‘estar perdido’.

Uma única indicação nos bastou. Naquilo que devia ser o centro da cidade estavam incrustrados a Catedral, sua praça, e o Teatro Municipal, onde havia começado há pouco o show de Yann Tiersen. Na porta do teatro, uma pequena multidão se aglomerava, discutindo sobre a distribuição antecipada dos ingressos com quem deveria ser da organização da Virada Cultural na cidade. Foi divulgado que os ingressos começariam a ser distribuídos uma hora antes do show (previsto para 16h30), mas antes das 15h os ingressos já estavam esgotados. Os mais exaltados começaram a se dispersar, após muita reclamação. Permaneciam aqueles que simplesmente queriam ver o show, como o rapaz que trazia nas mãos uma foto impressa do músico e sua família.

Eu já estava descrente. Mas os ciganos que me acompanhavam traziam no rosto uma certeza de que em breve entraríamos no teatro. Certeza fundamentada no impalpável, é necessário dizer. Não sei exato quanto tempo esperamos. Sei que começaram a sair algumas pessoas do teatro — e o assombro de todos que estavam às portas do teatro, impedidos de entrar, era: como alguém sai no meio desse show? Isso renovou os protestos dos que remanesciam atados a uma esperança sem fundamentos. Talvez todos nós que não brigávamos, não nos exaltávamos, mas apenas esperávamos, estivéssemos fruindo o espetáculo pela dimensão da ausência. O que é uma entidade como Yann Tiersen senão uma manifestação corpórea do inatingível? Os ídolos são outra coisa além disso?

Não soube nem precisar essa pergunta. Mas a resposta nos chegou de repente. As portas se abriram e, com a anuência de alguém, entramos no teatro. Umas quinze pessoas que o fio do destino havia guiado até essa experiência de converter em êxtase a frustração. “Sur le fil” nos recebia. O violino do instrumentista francês parecia saudar nossa chegada. Delírio, alumbramento, gozo, êxtase.

Dali para frente, adentramos num território em que as palavras só podem falar da dimensão da ausência da possibilidade de dizer algo. Tateio as palavras, os fonemas. Reviro do avesso as frases. Mas nada consegue dizer com exatidão da alegria, do maravilhamento que era estar lá dentro, que era sermos recebidos por aquela música.

A plateia do teatro estava absolutamente fascinada. Nós, que não acompanhamos todo o espetáculo, também estávamos. O inaudito, o impossível transmutado em experiência nos desnorteava. A celebração daquele instante eram os sons que se ouviam. Música inclassificável, além de toda palavra. Som exprimindo o indizível das gentes, dos dentros mais fundos. Aquele conjunto de vibrações nos lembrava do milagre que é existir quando — e onde — nada poderia haver. Não é possível ouvir Yann Tiersen sem se sentir grato à vida por isso.

Tudo beirava o indizível, tocava regiões onde palavras são poucas para tanto sentir. No entanto, se tudo parecia ser o ápice, pouco depois éramos surpreendidos por regiões ainda mais altas, por voos sonoros ainda mais amplos, anchos, largos. Talvez por isso, terminado o bis protocolar e acesas as luzes do teatro, a plateia não quis se pôr à caminho, não desejou retornar para a dimensão cotidiana da vida. Como os aplausos não cessaram, houve um segundo bis, este provavemente imprevisto — da dimensão e do tamanho de nosso desvio, durante nossa viagem. Ali se fez uma música que não pedia que se suprimisse o cansaço. Ela sinalizava apenas o desejo de haver um lugar onde seja possível estar cansado. Música indescritível, sonora e visualmente. Mesmo eu, que a testemunhei, por vezes não acredito no efêmero existir daquela massa sonora. Massa sonora que se perpetuava, neutra, na dimensão da ausência. Os músicos deixavam seus instrumentos ainda soando no palco, quase como por mágica. Ligavam algum aparato, se despediam da plateia e iam embora. Por fim, o último músico deixou seu instrumento soando, circulou pelo palco vazio, mas ressoando ainda, até se aproximar da chave que, desligada, inaugurou o silêncio. Luzes se apagaram. A plateia, enlouquecida, aplaudia o silêncio e a ausência.

Não nos restou outra opção a não ser celebrarmos tudo quanto testemunhamos e nos colocarmos no caminho de volta, junto com os sons que trazíamos. Gratos à vida por morarmos em nós…

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Esperava o sushi na mesa quase do lado de fora do restaurante, um pequeno restaurante japonês no estacionamento de um hipermercado a poucos metros da Avenida Paulista. Estava de costas para o estacionamento e para rua. Os olhos estavam voltados para o interior do restaurante e seu movimento de pessoas apressadas. O olhar, no entanto, se mantinha voltado para dentro, mirando paragens, cartografias, tons e ruínas do íntimo.

Não pensava no trabalho — nem no realizado, nem naquele que me esperava. Acho que eu vagava entre desejos, esperanças e escombros. Estava tão dentro de mim, que não via o movimento, não notava a demora do sushi, nem a realidade à minha volta.

Súbito, a realidade toca em meu ombro direito e me chama:

— Tio, você tem um trocado pra me ajudar pra eu comprar (o que?) para o meu irmão?

A realidade era pequenina, como sua voz. Tinha o nariz sujo e uma espontaneidade na forma de pedir sem gaguejar. Falava baixo, como convinha a uma realidade pedinte, ainda mais sendo tão desprovida de tamanho. A realidade — um menino de pouco mais de seis anos, creio eu — não estava sozinha. Vinha acompanhada de outra realidade, provavelmente o irmão, igualmente com o nariz sujo, mas com o olhar assustado de quem certamente não saberia pedir sem gaguejar. Aquela realidade ainda menor, que não devia ter acompanhado mais do que quatro primaveras, segurava uma nota de um real, que às vezes era levada à boca.

O repentino encontro com aquelas realidadezinhas de narizes sujos me assustou. Elas chegaram silenciosas e sorrateiras e, com a voz mansa e macia, me arrancaram violentamente de meu mundo. O susto, que me fez retesar o corpo e empalidecer, chegou-me logo ao toque sutil da mãozinha da realidade em meu ombro. Naquele instante, conheci o pavor das feras despertadas de seus sonos pela iminência dos perigos selvagens.

Visivelmente confuso, gaguejando bastante, talvez reaprendendo ali mesmo, no improviso da hora inesperada, a encaixar na minha fala os eixos sintagmático e paradigmático da língua (onde estaria Barthes e seus elementos de semiologia?), respondi:

— Aqui comigo, eu não tenho nem dinheiro nenhum, não.

Aquela realidade diminuta sorriu, com olhos e lábios, achando graça do ocorrido, embora a muito custo tentasse demonstrar alguma seriedade. Aquele sorriso não era do pedinte, mas da criança que extrai graça a um acontecido. A realidade menorzinha não sorriu, parecia ainda mais assustada com meus olhos empalidecidos de susto. A essa altura, já recobrei a cor e imaginava que gosto teria aquela nota verde na boca da criancinha. O menino maior, que conduz seu irmão, ensaia entrar no restaurante. Percebe, no entanto, que logo será enxotado dali, afinal, clientes tão ocupados com suas próprias realidades objetivas, com seus trabalhos, seus negócios, seus laudos, números, sistemas e cifrões, não podem ser importunados por aquelas nanicas realidadezinhas pedintes. Talvez somente eu, que estava tão dentro de mim e tão fora do mundo, pudesse ser abordado àquela hora. Então, o menino perde o jeito sério de pedinte e põe molecagem infantil em seus olhinhos. Vira para mim já se rindo e me pergunta:

— Você levou o maior susto, né?

Sorrio, mas antes que eu responda uma voz donde emana autoridade e coerção aborda aqueles seres reais:

— Onde estão seus pais que não estão acompanhando vocês?

— Tá ali, ó — aponta o maior.

— Me leva lá pra eu poder conversar com eles.

É o segurança do estacionamento, creio eu. Tenta coibir a exploração infantil ao mesmo tempo em que impede que a realidade dos clientes do hipermercado, incluindo aí os clientes do restaurante que fica em suas dependências, seja disturbada por quaisquer realidades mendicantes. Talvez até conheça os pais daquelas crianças. O maior, com toda desenvoltura, ainda tenta contornar a situação. Os olhinhos do menor, no entanto, ficam ainda mais assustados e sua boquinha morde com sofreguidão a nota verdinha de um real que ele conserva em mãos. Certamente pela pressão dos que exploram a sujeira de seus narizes pedintes, mas também pela necessidade de sobreviver, aquele serzinho aprende, com lições duras e de sabor amargo, qual o valor do dinheiro.

Ainda meio atônito com a rapidez do ocorrido, não olho para trás. Apenas meus pensamentos se despedem daquelas realidades tão pequerruchas. Ou nem isso, pois meus pensamentos, antes alheios ao que me circundava, não conseguem se desvencilhar daquela súbita invasão da realidade. Não volto logo para dentro de mim, e mesmo quando o faço, não retorno mais aos pensamentos de desejos e ruínas que me alheavam e ensimesmavam. Em vez disso, começo a imaginar como seria um insólito convite àquelas realidades para que almoçassem comigo. Esse pensamento me chega junto com o meu sushi. Fico a imaginar como seria ensinar àqueles serezinhos a usar o hashi para pegar aquelas trouxinhas de salmão cru com arroz, para colocar o gengibre sobre os sushis e mergulhá-los no shoyu. Assim, compartilharíamos boas gargalhadas com as bagunças e as tentativas malogradas. Não… Isso não faz parte da realidade, concluo. É apenas um devaneio meu.

Queria, no entanto, ter ofertado algo mais do que o meu susto àquelas criaturazinhas. Não que o meu susto tenha sido oferta sem valor algum, já que despertou um pequeno riso. Sim, não foi pouco, pois involuntariamente eu ofertei um motivo para sorrir. E foi um riso gostoso de criança, espremido e sufocado diante do rito formal que a ocasião exigia — já que não é usual que sorriam os pedintes. Acho que fiquei até com saudades daqueles narizes sujinhos, das outras risadas que imaginei que poderíamos dar juntos, ante o afogamento de um sushi no shoyu.

Via-me envolto nestes pensamentos enquanto tentava conduzir um pouco do gengibre para cima de um sushi com o hashi. Mas não estava totalmente alheado da realidade circundante. Na mesa ao lado, duas mulheres falavam de negócios, números e contratos. O sushiman pegava mais uma posta de salmão para fatiar. Eu quase afoguei meu sushi outra vez…

Neste instante, reparo que outra realidade se aproxima. É uma menina de uns doze anos, idade de Otoyo, personagem de “O Barba Ruiva”, de Kurosawa, que protagoniza a mais bela cena que eu vi até hoje no cinema ao lado de seu novo amigo Chobo, de sete anos, em que este, em meio a um varal de roupas estendidas, dá-lhe pirulitos roubados por ela tê-lo deixado escapar quando ele roubara uma tigela de sopa de aveias da clínica Koshikawa. Esta Otoyo que se aproxima tem traços nordestinos e carrega nas costas uma sacola. Não tem nariz sujo como os daquelas duas realidadezinhas que me abordaram pouco antes, mas suas roupas estão um pouco sujas. Ela percebe que a olho e, não sei se pela proximidade ou se por eu ter sido o primeiro ali a notar-lhe a presença, ela, sem rodeios, pede-me para eu lhe pagar um refrigerante.

— Pode pedir lá dentro — respondo timidamente.

Ela entra, pede o que lhe apraz à dona do restaurante, que fica no caixa, e aponta para minha mesa. Aceno positivamente com a cabeça e com um sorriso. Não reparo com que refrigerante ela sai de dentro do restaurante. Ela sai apressada, como pressentindo que ali não é seu lugar e que somente o acaso a pôs ali dentro. Mas na saída, olha para mim e diz:

— Obrigada! Deus lhe pague!

Como resposta eu apenas sorrio. Os papéis, embora ninguém notasse, estavam invertidos. Era eu quem devia lhe agradecer, pois não é sempre que um raio de realidade cai duas vezes sobre o mesmo lugar e muito menos freqüente ainda é a materialização súbita de nossos devaneios. Penso nisso enquanto a Otoyo nordestina alcança uma saída lateral no estacionamento e some numa rua paralela à Avenida Paulista, a duas quadras do coração de São Paulo.

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Q u a n d o   d e   m i n h a   v i a g e m   a   C a b o   F r i o

Cabo Frio de minhas adolescências permanece a mesma, não obstante as marcas da passagem do tempo. Há quanto tempo não pisava naquela plaga! E, principalmente, há quanto tempo eu não a sentia.

Cabo Frio de minhas certezas idas permanece lá. O tempo passou menos no rosto de um antigo professor do que naquela escola, cujas obras mudaram-lhe um pouco o aspecto e a disposição das coisas. Mais ainda atuou o tempo no rosto de minhas certezas e de meus projetos. Haverá rugas e cãs precoces dentro de mim?

Ainda no terminal rodoviário, esperando quem me haveria de buscar, contemplei o céu. Senti-o, como quem abre uma gaveta cheia de pó, que guarda uma fotografia bela, velha e empoeirada do que fomos.

Nas pouco mais de três horas que estive naquela cidade (não conto o tempo que passei no ônibus, pois quem está na estrada saiu e ainda não chegou, é apenas fluxo de espectativa), senti que ali estavam os meus mais profundos laços telúricos. Há um pouco daquela gente, daquele céu, daquelas ruas e daquelas águas espalhadas em mim. E, principalmente, acho que há algo que eu perdi em mim que talvez esteja lá, espalhado naquelas águas, naquelas ruas, naquele céu e naquela gente, sobretudo nos muitos amigos que não vi, na exigüidade daquelas poucas horas.

Acho que vi um pouco do meu rosto refletido no espelho daquela cidade…

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