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Posts Tagged ‘Marcelo Tosta’

(para Marcelo Tosta)

Tão doce é correr estrelas!
Doce é tocá-las, é vê-las
nos sonhos em profusão.
Todas elas, ao meu lado,
vêm-me trazer o pecado
na forma de contrição.

Doces são esses teus olhos
que vêm banhados com óleos
de sagrada inspiração.
Quero retirar das lavras
que são as tuas palavras
os sonhos que me virão.

Cada ato, cada cena
dessa vida é um poema
perdido na viração.
Desde o proscênio à ribalta
tua vida verde salta;
vermelhos, teus sonhos vão…

Das ostras que pelos mares
ou rios tu espalhares
(filhas de padre elas são!)
as histórias quero ouvir.
Com as ostras desejo ir
conduzido pela mão.

Ouvir tuas filhas nuas
segredando-me, nas ruas,
alguma suave canção
é ver que o teu vasto orgasmo
— e com isso é que eu me pasmo —
semeia a tua criação.

– 10 / XII / 1998

[Do livro “Poemas para serem encenados” (Casa do Novo Autor Editora, 2008).]

Marcelo Tosta: "Pedro febril"

Marcelo Tosta: “Pedro febril”

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A dez dias do lançamento de meu livro “Trítonos – intervalos do delírio” (Patuá, 2015), além de sentir uma ansiedade boa por ver o corpo do livro feito de celulose e tinta, palavras e espaços vazios para o leitor, é inevitável olhar para trás e me assombrar com a constatação de que esse livro condensa e testemunha oito anos de minha escrita. Não que eu tenha me dedicado exclusivamente, durante todo esse tempo, ao livro que nasce. Nesse período, publiquei “Poemas para serem encenados”, participei da coletânea “História Íntima da Leitura”, escrevi poesia e prosa neste blog – ao qual imprimi uma periodicidade de publicação desde o ano passado – e participei de algumas oficinas de escrita. Além disso, escrevi e tenho escrito coisas inéditas, para projetos futuros. Mas desde 2007 que as três principais histórias desse livro me acompanham. E a partir do dia 2 de dezembro, esse livro deixará de ser exclusivamente meu – e eventualmente das pessoas próximas com quem tenho a alegria de compartilhar meus processos de escritura – para ser do mundo. “Porque a gente desaparece maravilhosamente entre as palavras”, diria um querido amigo que está intimamente ligado ao nascimento das duas primeiras histórias de “Trítonos”.

tritonos-convite

Foi na casa em que Marcelo Tosta morava, no centro de São Pedro d’Aldeia, que sugiram os primeiros esboços de “Menina de Aruanda”. Foi lá que li os textos que habitavam o caderno verde de Micheli Coutinho – que hoje é fotógrafa e também mora em São Paulo – de quem roubei o nome e um pouco do êthos de minha personagem principal no primeiro conto deste livro. E numa de minhas idas a São Pedro, no segundo semestre de 2007, fui levado a uma gira num terreiro que funcionava em ermo local no distrito da Cruz – área rural daquela pequena cidade na Região dos Lagos do Rio de Janeiro. Todo esse conjunto de impressões fermentou minha escrita nos meses seguintes, até que eu terminasse a primeira história do livro. O livro, no entanto, ainda não existia. Não da mesma forma, pelo menos. Minha ideia na época era reunir contos que falassem de arte, talvez cada um focado numa das seis artes do mundo clássico (música, artes cênicas, pintura, arquitetura, escultura e literatura).

Ainda envolto nessa ideia primeira para um livro de contos, comecei a segunda história, concebida meio ao acaso a partir de um evento curioso ocorrido em minha casa. Num período em que o Marcelo e uma outra amiga estavam hospedados por lá – essa distância no corpo da escrita diz que não é a mesma casa de hoje –, eu acordo no meio da madrugada com um barulho muito alto – qualquer coisa caindo no chão. Saio do quarto e encontro os dois sentados, um pouco sem jeito. Marcelo me explica que o porteiro havia acabado de interfonar, pois um vizinho havia reclamado – do barulho, penso eu – do cheiro da comida que ele estava fazendo. Ainda com sono, dou uma pequena bronca, mais por causa de ter acordado com a conversa alta e os barulhos que eles estavam fazendo. Vou deitar e penso que aquilo é um ótimo argumento para uma história. Segundo o relato do Marcelo e da Karine, minutos depois eu volto com uma cara de alucinado e anuncio o destino literário daquele fato anedótico. Pego papel e caneta e volto para o quarto, que agora fica com a luz acesa por alguns minutos. Ali começara a nascer “Gritos do Açafrão”. Por alguns meses, escrevi metade da história, mas ela ficou em suspenso por quase um ano porque me faltavam os elementos musicais – já que o personagem principal era um pianista. Foi depois da leitura de “O som e o sentido”, de José Miguel Wisnik, que consegui terminar o conto. O livro me fora apresentado e emprestado pela minha amada Fabiana Turci, antes mesmo de começarmos a namorar. Ainda antes de namorarmos, ela foi a primeira leitora crítica – e, para minha alegria, entusiasta – desse conto.

A última história foi a que conduziu o livro a tornar-se o que hoje ele é. Intui sua ideia inicial após visitar a Oficina Brennand no Recife, em 2009, levado pela querida amiga Marina Barreto Gama e sua irmã Raquel. Mas só três anos depois comecei a escrevê-la. “Paisagens de sal”, o maior dos três grandes contos do livro, consumiu, até sua conclusão, três anos de escrita e pesquisas constantes, além de um mergulho no universo da loucura e o desenvolvimento de um olhar desconfiado em relação às certezas provisórias do discurso psiquiátrico. Por trabalhar com o tema das artes plásticas, mergulhei no universo da arte contemporânea, sobretudo a partir do surrealismo, o que me permitia traçar uma linha de contato com Hieronymus Bosch e suas representações da loucura – especialmente em pinturas como “A extração da pedra da loucura”, “A Nave dos loucos” e, no que diz respeito às angústias e ao delírio, “As Tentações de Santo Antão”, de onde, aliás, extraí a figura do demônio que tortura uma orquestra inteira sob a égide dos trítonos. Mas não bastava uma arte que desse voz ao inconsciente, pois o universo do conto era traçado a partir das narrativas de loucos. Foi inevitável, portanto, me deparar com a figura de Arthur Bispo do Rosário e, a partir dela, conhecer as histórias e mazelas da psiquiatria no Século XX. Como ocorre com meu personagem principal – um psiquiatra – também eu passei, no decorrer do desenvolvimento dessa última história, a desacreditar dos diagnósticos e das profilaxias psiquiátricas. Se os meus motivos interessam menos, os motivos do meu personagem foram alimentados sobretudo com as narrativas dos horrores cometidos no manicômio de Barbacena, narrados em pormenores por Daniela Arbex no livro Holocausto Brasileiro.

Com as três histórias concluídas, a obra me parecia pronta. No entanto, minha amada Fabi ainda me sugeriu acrescentar algo que conduzisse e interligasse os três contos a partir de uma voz que trabalhasse o aspecto feminino evocado nas três histórias. Não dei gênero algum a essa voz, para que qualquer pessoa pudesse se inserir nesse lugar. Pessoalmente, inclusive, não sei sequer apontar quem seria a persona por trás dessa voz – deixo ao leitor trabalhar essas hipóteses. Mas submeti a figura que narra a uma força e uma autoridade, ao mesmo tempo, mística e feminina, permitindo que às experiências dos três contos fossem aderidas novas camadas de significação a partir de uma noção de empoderamento do feminino, num mundo ainda submetido – e desgastado – pela violência da dominância masculina. Faltavam, portanto, serem escritas as quatro narrativas de interlúdio. E só soube definitivamente dessa necessidade quando ficaram prontas. Três delas estão publicadas na Mallarmagens revista de poesia e arte contemporânea. Já a quarta, que fecha o livro, assim como os três grandes contos, estão aguardando os leitores dentro da obra, que será lançada no dia 2 de dezembro, na Casa das Rosas, a partir das 19h. Todos estão convidados a mergulhar nesse labirinto de delírios sussurrados pelo ruído branco a que habitualmente chamamos silêncio.

Divido, por fim, a belíssima orelha do livro, escrita pela minha amada irmã e grande poeta Roberta Tostes Daniel:

“Trítonos – intervalos do delírio” desenha um mapa alucinatório, ponto por ponto, qual partitura, sobrepondo quaisquer linguagens aos ditames da experiência. Segue, ao longo de suas três histórias, um código denso e virulento, insólito e perigoso, expondo traços e máscaras do humano. A vilania incrustada nos despojos da civilização e em arraigados hábitos circunavega a inocência primordial da infância, os cumes da fantasia musical e dos labirintos da loucura, liberando a sordidez da dita normalidade, dos claustros de uma consciência socialmente martirizada. Sua escala chega ao trítono, som impossível porque persecutório, onde só é possível enfrentar a dissonância, e a cada leitor desnudar a obra “para descobri-la em seus próprios termos, sendo que nessa leitura final estará sozinho”. Após a tríade dessas geografias que se entretecem com meticulosidade de aranha, a solidão é uma instância-ritual. Referências se encontram escalavradas, rosários imiscuídos a tradições e povos margeados. A música tenta soar como silêncio ou como fogo? O que é ruído branco? Sendas de impossíveis transcendências de sangue e paisagens de sal. A palavra atenta à ira e à profecia, vacante e grávida de sentido. Levante de desejos plasmados por cheiros e volúpias indizíveis. Um livro dos desatinos, um lugar: corpo, palavra, prosódia. Num ritmo lento ou vertiginoso, sem jamais perder de vista a profundidade do rasgo da pele. Os nomes dos personagens são pistas, talvez falsas. A precisão das informações pode estar chagada pela invenção. A linguagem como o panteão do (im)possível.

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Trítonos – intervalos do delírio
Teofilo Tostes Daniel
Contos
São Paulo: Patuá, 2015
168 p.
Formato: 14×21.
ISBN: 978-85-8297-255-7
Preço: R$ 38,00 + frete
Venda no site da Editora Patuá.

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O lançamento do livro História Íntima da Leitura, que ocorrerá no dia 16 de setembro, das 14h às 18, na Casa das Rosas, marca a estreia da Editora Vagamundo no cenário editorial brasileiro – e na vida dos leitores e dos escritores. A obra, uma coletânea de textos ficcionais de 18 autores sobre as relações entre a leitura e a escrita, apresenta as propostas da nova editora: dar voz a autores contemporâneos nos mais variados gêneros literários e ser uma editora feita por leitores para leitores, apostando na criação de canais de comunicação com o leitor e na publicação de livros de qualidade a preços acessíveis.

O livro traz uma teia de narrativas que forja uma história da literatura a partir da leitura e coloca em tensão e diálogo os papéis de leitores, livros e personagens, enveredando pela construção de uma biblioteca que reinventa a noção de intimidade. História Íntima da Leitura convida também o leitor a deixar suas marcas e inserir-se no texto, reescrevendo, a cada leitura, uma nova história. Nesse ponto, a Editora Vagamundo inova, chamando cada leitor, na última página dessa espécie de livro infinito, a continuá-lo com suas próprias histórias, fazendo do ato da leitura o centro do processo. Para isso, a Vagamundo mantém em seu site o “Espaço do Leitor”, onde as histórias íntimas dos leitores serão publicadas.

Em parceria com a Levante Cultural, a Editora Vagamundo lançou ainda um documentário com os autores da História Íntima da Leitura. O vídeo, bem como a íntegra dos depoimentos dos autores, estão disponíveis no site da editora sob licença Creative Commons. Trata-se de mais um convite para que o leitor possa se inserir na construção de um trabalho colaborativo, legitimando o processo de significação de todo o ato de leitura. No “Espaço do Leitor”, a Vagamundo também vai publicar os trabalhos derivados, em qualquer formato, feitos a partir do material audiovisual relacionado ao projeto.

Lançamento

O evento de comemoração do lançamento da História Íntima da Leitura e da Editora Vagamundo será realizado no dia 16 de setembro, das 14h às 18h, na Casa das Rosas – Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura –, um importante espaço dedicado à literatura, situado na Avenida Paulista, 37.

O livro será vendido a R$ 23,00, valor abaixo da média do mercado, confirmando o compromisso da editora com os seus leitores. Quem quiser garantir seu exemplar durante o lançamento, poderá adquiri-lo mediante o pagamento em dinheiro ou cheque. Após o lançamento, o livro estará disponível no site da Editora Vagamundo, que aceita todos os cartões de crédito e tem como política permanente o envio gratuito para qualquer lugar do Brasil.

Serviço:
Lançamento do livro: História Íntima da Leitura
Quando: 16 de setembro de 2012, das 14h às 18h.
Local: Casa das Rosas – Avenida Paulista, 37 (próximo ao metrô Brigadeiro). Estacionamento pela Alameda Santos, 74.

Editora Vagamundo:
www.editoravagamundo.com.br

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http://www.youtube.com/watch?v=k4NFOemJFuU

http://www.editoravagamundo.com.br | Vídeo sob licença Creative Commons
Documentário com os autores da coletânea “História Íntima da Leitura”.

realização

paulo mainhard
fabiana turci
teofilo tostes daniel

depoimentos

bruna nehring
carlos kiffer
daniel mendonça
fabiana turci
ingrid morandian
isabela michelan
ivan carlos regina
livia lima
luiz de nadal
marcelo tosta
marisa tostes daniel
paulo mainhard
roberta simoni
roberta tostes daniel
sandra schamas
teofilo tostes daniel

edição

fabiana turci
paulo mainhard
teofilo tostes daniel
roberta tostes daniel

câmera

paulo mainhard
teofilo tostes daniel

trilha sonora original

teofilo tostes daniel
fabiana turci
produzida no estúdio lá

São Paulo / Rio de Janeiro – 2012

www.editoravagamundo.com.br
www.levantecultural.com.br

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Banner da Exposição. Tela utilizada: Amores Siameses

Olhos d’Água e de Fogo é uma exposição de 17 telas (óleo, pastel e técnicas mistas) e 7 desenhos (óleo sobre papel) do artista plástico Marcelo Tosta. Nesta exposição inaugural, o artista apresenta seu universo marcadamente dramático, povoado de figuras hipnóticas, repletas de expressividade, de paixão, dor e êxtase.

Da Meia Noite

Suas obras – de cores fortes, traços rústicos e frenéticos – apresentam um imaginário que se distingue pelo misticismo sincrético e pelas referências nômades, fragmentadas, andarilhas, quase ciganas. É o caso de telas como Maria Padilha, O Exu de Coração Negro e Seu Sete Flechas, fortemente impregnadas desses elementos, com representações de entidades tomadas da umbanda.

Maria Padilha

Muito além de uma pintura de evocação do sagrado, Marcelo Tosta consegue, em suas telas, inventar genealogias possíveis, sugerir as histórias (supostas ou inventadas) dessas entidades que evoca, como acontece em Vovó Putinha, A noiva do Zé Pilintra ou A Jovem Maria do Congo.

Vovó Putinha

Esse poder de sugerir histórias, certamente advindo de sua experiência como dramaturgo, é outra qualidade bem definida das pinturas do artista. As figuras que ele retrata são personagens, colocados em cena por seus traços e cores. A presença de elementos teatrais e circenses parece confirmar essa vocação cênica de suas pinturas, como é possível notar em Florações do Palhaço, Meu amor é do signo de peixes e Da Meia Noite, trazendo está última, segundo o artista, os traços da própria mãe.

A Floração do Palhaço

Comum a todos os trabalhos é sua carga dramática e expressiva, bem como a presença dos elementos de um misticismo nada dogmático, mas refeito e repensado num caráter todo pessoal, como se pode atestar em telas como Sóis Ciganos e Ovulação ou O Ciclo da Lua Vermelha. Isso ocorre mesmo quando o objeto retratado parece retirado do quotidiano, como em Nanete, Amores Siameses ou, mais marcadamente, no Auto-retrato do artista. Do quotidiano? Não. Trata-se da vida reinventada pela poesia de formas e cores.

Sóis Ciganos

Teofilo Tostes Daniel

O artista

Auto Retrato

Marcelo Tosta é ator, diretor, dramaturgo, professor de interpretação e artista plástico. Formado na Escola Estadual de Teatro Martins Penna, já foi premiado como ator em festivais como Prêmio Trianon (Campos/RJ), o Festival de Teatro Amador do Estado do Rio de Janeiro e Festival de Teatro de Macaé.

Como diretor, fundou a Companhia de Estudos Teatrais Religare, com a qual montou diversos espetáculos, trabalhando como ator, diretor e autor. Em sua Companhia, dedicou-se à investigação da linguagem corporal, da imagem e da vertigem, desenvolvendo método de interpretação próprio, a que batizou de “Fetiche”.

Sua experiência como artista plástico acompanha seu vasto percurso no teatro – seus primeiros trabalhos como ator remontam o ano de 1994, quando também produz seus primeiros desenhos, sempre marcados pela presença do sagrado e do profano, pelo erotismo e pelo universo onírico. Há cerca de quatro anos, diante da necessidade de expandir suas possibilidades de criação nas artes plásticas, começa a enveredar pela pintura, usando óleo sobre tela, pastel e outras técnicas mistas, desenvolvidas entre o acaso e a necessidade.

Nascido em Cabo Frio (RJ), cresceu e formou seu universo mítico e poético nos campos e matos de São Pedro d’Aldeia (RJ), mais precisamente na Rua do Fogo. De lá, há tempos, ganhou estradas.

A Noiva de Eduardo

Niño de Artes Luiz Mendonça

A casa Niño de Artes Luiz Mendoça é um espaço cultural mantido na região da Lapa (Rio de Janeiro) pela atriz Ilva Niño. O nome da casa rende uma homenagem ao falecido marido da atriz, o dramaturgo Luiz Mendonça. Desde sua fundação, em 2003, o Niño de Artes vem apresentando peças teatrais, grupos musicais e abrindo espaço para novos artistas.

Vídeo

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Desejo de estradas, de árvores e de matas do caminho. Sentido norte, às bordas de Minas. Na até pouco tempo desconhecida — para mim — São João da Boa Vista, esperava-nos uma experiência de êxtase. Assim queríamos, assim imaginávamos, assim vivíamos este domingo último, desde o despertar.

Claro que entre o vivido e o imaginado, há imensos descompassos. O que planejamos não consegue dar conta de tudo quanto é. Certa vez escrevi uma frase, num conto, que se inscreveu em mim, no meu êthos: O real é de um maravilhamento que desconcerta o imaginado.

O primeiro maravilhamento foi pegar a estrada. Eu e dois ciganos: Fabiana Turci e Marcelo Tosta. Tostes, Turci e Tosta têm o vício de se maravilharem com a amplidão azulada do céu, com a poeira vermelha levantada em estradas de terra, com o sol batendo verde na copa das árvores. E sob influência de determinadas músicas, os êxtases desses três seres que somos se intensificam.

Junto conosco, viajaram as paisagens sonoras de Madredeus, Trio Harel, Orquestra Popular de Câmara, Zeca Baleiro e suas dez cantoras das “Odes descontínuas”, Milton Nascimento e Gustav Mahler — este último, interdito. Não seria possível à condutora do carro manter-se na concretude da estrada com Mahler. Íamos nós e tudo quanto somos ao encontro da paisagem sonora de Yann Tiersen. Sim, esse ser que para nós se assemelha a um quase mito estaria em carne, osso e sons no Teatro de São João da Boa Vista, essa cidade até então desconhecida — para nós — às bordas das Gerais.

Já havíamos passado do meio do caminho, quando chegou a notícia pelo celular: acabaram os ingressos para o show. Eram 14h53 da tarde. Levamos alguns segundos para decidir que continuaríamos a viagem ainda assim e alguns minutos para nos refazermos da frustração trazida pela má notícia da “fortuna imperatrix mundi”. Não sei saber se foi pelo impacto da notícia, ou pelo alumbramento de ver uma lua imensa no azul do céu, que o caminho que seguimos a partir dessa hora tornou-se um desvio. Quase 90 quilômetros de desvio, por uma estrada que parecia voltar pelo avesso. Após nos certificarmos de que teríamos de pegar o primeiro retorno e, no Km 134 daquela estrada, seguir o caminho que leva a Mogi-mirim, lembramo-nos da importância do desvio para a tradição filosófica moderna. Era tarde. Chegaríamos depois de o show já ter começado. Mas, ainda assim, seguíamos, leves e corpóreos como as notas que soavam nossas canções de estrada.

Depois de percorrer mais chão do que havíamos imaginado, uma placa mandou que virássemos, indicando que aquela curva nos levaria a São João da Boa Vista. Encontramos no meio da estrada o limite entre a cidade que buscávamos e o município anterior. Um ponto melhor demarcado do que aquele em que o Trópico de Capricórnio corta uma das estradas que tomamos. Quero crer, porque a realidade poética é a que melhor me convém, que cruzamos o Trópico no exato ponto em que fizemos o retorno em nosso desvio.

O entorno foi deixando de ter aspecto de fazenda, sítio, zona rural; foi, pouco a pouco, revelando a cidade que nos recebia. Uma pequena e encantadora cidade que me fez recordar Cabo Frio. Sim, sempre que estou numa pequena cidade, lembro de Cabo Frio — ou, mais precisamente, da Cabo Frio em que morei. Mais do que isso, lembro do tempo em que lá vivi, quando o tempo parecia ter outro ritmo, quando as horas, os minutos, os segundos pareciam respeitar mais o instante do gozo e do aprendizado. Estar numa pequena cidade sempre me desperta essa nostalgia dos tempos que me formaram, que fizeram de mim o que sou.

Ainda pensava nisso, quando se tornou óbvia a necessidade de pedir informações. Onde ficaria o Theatro Municipal? Seguíamos quase como se conhecêssemos a cidade, mas era preciso certificarmo-nos. Paramos no ponto exato que impediu mais um desvio nosso do caminho — que seria o terceiro! Quando andamos tendo um norte onde chegar, o caminho sempre parece mais difícil; os perigos e desvios sempre mais constantes, e a gente não experimenta nunca a sensação do ‘perder-se’, mas somente a de ‘estar perdido’.

Uma única indicação nos bastou. Naquilo que devia ser o centro da cidade estavam incrustrados a Catedral, sua praça, e o Teatro Municipal, onde havia começado há pouco o show de Yann Tiersen. Na porta do teatro, uma pequena multidão se aglomerava, discutindo sobre a distribuição antecipada dos ingressos com quem deveria ser da organização da Virada Cultural na cidade. Foi divulgado que os ingressos começariam a ser distribuídos uma hora antes do show (previsto para 16h30), mas antes das 15h os ingressos já estavam esgotados. Os mais exaltados começaram a se dispersar, após muita reclamação. Permaneciam aqueles que simplesmente queriam ver o show, como o rapaz que trazia nas mãos uma foto impressa do músico e sua família.

Eu já estava descrente. Mas os ciganos que me acompanhavam traziam no rosto uma certeza de que em breve entraríamos no teatro. Certeza fundamentada no impalpável, é necessário dizer. Não sei exato quanto tempo esperamos. Sei que começaram a sair algumas pessoas do teatro — e o assombro de todos que estavam às portas do teatro, impedidos de entrar, era: como alguém sai no meio desse show? Isso renovou os protestos dos que remanesciam atados a uma esperança sem fundamentos. Talvez todos nós que não brigávamos, não nos exaltávamos, mas apenas esperávamos, estivéssemos fruindo o espetáculo pela dimensão da ausência. O que é uma entidade como Yann Tiersen senão uma manifestação corpórea do inatingível? Os ídolos são outra coisa além disso?

Não soube nem precisar essa pergunta. Mas a resposta nos chegou de repente. As portas se abriram e, com a anuência de alguém, entramos no teatro. Umas quinze pessoas que o fio do destino havia guiado até essa experiência de converter em êxtase a frustração. “Sur le fil” nos recebia. O violino do instrumentista francês parecia saudar nossa chegada. Delírio, alumbramento, gozo, êxtase.

Dali para frente, adentramos num território em que as palavras só podem falar da dimensão da ausência da possibilidade de dizer algo. Tateio as palavras, os fonemas. Reviro do avesso as frases. Mas nada consegue dizer com exatidão da alegria, do maravilhamento que era estar lá dentro, que era sermos recebidos por aquela música.

A plateia do teatro estava absolutamente fascinada. Nós, que não acompanhamos todo o espetáculo, também estávamos. O inaudito, o impossível transmutado em experiência nos desnorteava. A celebração daquele instante eram os sons que se ouviam. Música inclassificável, além de toda palavra. Som exprimindo o indizível das gentes, dos dentros mais fundos. Aquele conjunto de vibrações nos lembrava do milagre que é existir quando — e onde — nada poderia haver. Não é possível ouvir Yann Tiersen sem se sentir grato à vida por isso.

Tudo beirava o indizível, tocava regiões onde palavras são poucas para tanto sentir. No entanto, se tudo parecia ser o ápice, pouco depois éramos surpreendidos por regiões ainda mais altas, por voos sonoros ainda mais amplos, anchos, largos. Talvez por isso, terminado o bis protocolar e acesas as luzes do teatro, a plateia não quis se pôr à caminho, não desejou retornar para a dimensão cotidiana da vida. Como os aplausos não cessaram, houve um segundo bis, este provavemente imprevisto — da dimensão e do tamanho de nosso desvio, durante nossa viagem. Ali se fez uma música que não pedia que se suprimisse o cansaço. Ela sinalizava apenas o desejo de haver um lugar onde seja possível estar cansado. Música indescritível, sonora e visualmente. Mesmo eu, que a testemunhei, por vezes não acredito no efêmero existir daquela massa sonora. Massa sonora que se perpetuava, neutra, na dimensão da ausência. Os músicos deixavam seus instrumentos ainda soando no palco, quase como por mágica. Ligavam algum aparato, se despediam da plateia e iam embora. Por fim, o último músico deixou seu instrumento soando, circulou pelo palco vazio, mas ressoando ainda, até se aproximar da chave que, desligada, inaugurou o silêncio. Luzes se apagaram. A plateia, enlouquecida, aplaudia o silêncio e a ausência.

Não nos restou outra opção a não ser celebrarmos tudo quanto testemunhamos e nos colocarmos no caminho de volta, junto com os sons que trazíamos. Gratos à vida por morarmos em nós…

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Minto um pouco quando falo que não gosto de televisão. Ou talvez haja, de fato, uma inexatidão em minhas palavras. Porque se é verdade que havia pelo menos uns dois meses eu não ligava a TV aqui em casa, também é verdade que nesta semana a liguei de quarta a sábado.

E que extraordinário motivo me levou a fazê-lo? Capitu. Perdi o primeiro capítulo na terça, que acabei vendo pela internet na quarta-feira de manhã, antes de ir para o trabalho.

Desde o filme ‘Lavoura Arcaica’, acompanho o trabalho de Luiz Fernando Carvalho. Na verdade, os primeiros capítulos de uma novela do início da década de 90, chamada ‘Renascer’, já me foram arrebatadores. A minissérie ‘Os Maias’ — a que acabei não assistindo inteira, apenas por contingências, não por falta de interesse — também foi irretocável. Mas é a partir de seu longa que conheço e acompanho o trabalho desse diretor, que atualmente tem enveredado, na TV, por uma linguagem própria desde a microssérie ‘Hoje é Dia de Maria’.

Depois de alguns problemas na execução de ‘A Pedra do Reino’, que achei hermética demais para quem não lera o livro de intrincado enredo de Ariano Suassuna, embora tenha sido uma encantadora explosão de sensações que o livro provoca a quem o lê, veio Capitu. Portanto, se em ‘A Pedra do Reino’ Luiz Fernando Carvalho acabou fazendo uma alegoria do livro, quase como uma pintura que tenta sintetizar uma história cheia de peripécias; uma pintura bela, mas cujo significado, cujo entendimento se guarda a poucos, em Capitu ele conseguiu uma adaptação perfeita. Talvez o próprio livro tenha ajudado, já que ‘O Romance d’A Pedra do Reino’ tem um enredo muito complexo, e pouco foi o tempo destinado a ele na TV.

Agora, em ‘Capitu’… Deparei-me com as mesmas impressões de quando li ‘Dom Casmurro’, aliás, devorei-o em quatro dias, há pouco mais de dez anos, no início de 1998. Em quatro dias li o livro. Em cinco Luiz Fernando Carvalho o reconta na TV. A microssérie, no início, traz a mesma pulsação juvenil do início do livro, alternando outra pulsação, outro ritmo, quando no terço final da história ocorrem os fatos pelos quais o livro é famoso. Minto, os fatos não ocorrem. Bentinho não os narra. Ele nos apresenta a sua dúvida. Mas não sem nos fazer apaixonar pela sua Capitu, sobretudo a menina, com a qual ele crescera junto.

Mais uma vez o diretor lança mão de sua linguagem, personalíssima, que faz a televisão ser outra coisa daquilo que geralmente é. Assistir às suas obras nos últimos anos tem sido assemelhado à experiência de ir ao teatro, exceto pelo fato de não haver proximidade com os atores. Aqui também minto um pouco. Na verdade, assemelha-se à experiência de assistir a algumas peças específicas. E, principalmente, aproxima-se de modo colossal da experiência que é conviver com o processo de criação de um autor/diretor/ator ainda desconhecido das grandes platéias, mas rico em imagens e poesia.

E eu tive a honra de trabalhar com ele, com esse ainda desconhecido das grandes platéias, durante muito tempo. Tive a honra de ter sido um dos fundadores de sua companhia e um dos primeiros co-investigadores do seu método. Em ‘Esquadros ou O Paraíso’ usamos Madredeus antes de ‘Os Maias’, Quinteto Armorial antes de ‘A Pedra do Reino’ e o teatro dança, muito semelhante àquela dança que Escobar faz sobre a mesa do seminário. Digo isso para mostrar o paralelo desses dois universos “extasiantes”. E digo mais: quem assistir a esta Capitu jovem de Luiz Fernando Carvalho e porventura conheça a obra desse autor, logo se lembrará de uma personagem como Rosália, de ‘Hóstia e Absinto’.

Por isso, a beleza deste e de outros trabalhos de Luiz Fernando Carvalho, para mim, confirmam todo talento que há quase quinze anos eu enxergo num outro autor/ator/diretor, que também é, para minha felicidade, um grande amigo, irmão e companheiro. E este se chama Marcelo Tosta. Um talento com o qual já trabalhei diversas vezes e cujo processo de criação conheço muito bem, por já ter criado tantas e tantas vezes junto com ele, mais extasiado como platéia e escriba, do que propriamente como criador.

Capitu é a segunda das quatro obras previstas para serem adaptadas no Projeto Quadrante. As outras duas obras não as li. E essas duas primeiras (‘O Romance d’A Pedra do Reino’ e ‘Dom Casmurro’), coincidentemente, li na mesma época, no já um pouco longínquo ano de 1998.

Certamente, todos que assistiram à microssérie Capitu ficarão saudosos daqueles olhos de ressaca (ou seriam olhos de cigana oblíqua e dissimulada(?)?) de Letícia Persiles e de Maria Fernanda Cândido.

Site da Microssérie Capitu
http://capitu.globo.com/
Site do Projeto Quadrante
http://quadrante.globo.com/Quadrante/0,,8624,00.html

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