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Posts Tagged ‘Machado de Assis’

Há onze dias, a ministra Cármen Lúcia foi eleita para assumir a presidência do Supremo Tribunal Federal. Naquela sessão de 10 de agosto, o atual presidente daquele Tribunal deixou no ar a pergunta se ela preferia ser chamada de presidente ou presidenta:

– Concedo a palavra à ministra Cármen Lúcia, nossa presidenta eleita… ou presidente?

Cármen Lúcia deu uma resposta em que era clara sua intenção de marcar distância da presidenta Dilma Rousseff.

– Eu fui estudante e eu sou amante da língua portuguesa. Acho que o cargo é de presidente, não é não?

A resposta da ministra, além de marcar esse distanciamento (político) da presidenta, hoje afastada por um processo de impeachment, usa uma crítica bastante comum desde que Dilma assumiu a presidência, em 2011, e optou por ser chamada de presidenta. Essa crítica busca associar a escolha da presidenta à ignorância, como se ela não tivesse sido estudante ou não tivesse apego à “Última flor do Lácio, inculta e bela”, como Olavo Bilac se refere num poema à língua portuguesa.

Pode-se, como a ministra Cármen Lúcia, preferir o uso de “presidente” também para mulheres. Pode-se tentar afirmar que o termo, por ser comum de dois gêneros, efetivamente alcançaria uma espécie de “neutralidade” (num país que ocupa o 121º lugar no ranking de participação feminina na política, de acordo com a ONU). Mas não é possível fazer dessa opção política (num tempo de polarização partidária) uma mera opção linguística, como tenta fazer a ministra do STF, e como fizeram muitos dos que criticaram a opção de Dilma pela forma feminina da palavra, como se essa opção fosse fruto da (suposta) ignorância ou falta de estudos da presidenta.

Parece que o grande argumento dos que não gostam da opção de Dilma (e que, curiosamente, também são muitos daqueles que não gostam dela políticamente) seria a inexistência da forma feminina em muitas palavras semelhantes a “presidente”. Em outras palavras, não existiria “presidenta” porque não há “adolescenta” ou “serventa”.

Esse tipo de argumento tenta mostrar os processos linguísticos como equações matemáticas, embora as línguas sejam pouco ou nada cartesianas. Palavras têm histórias que às vezes subvertem a lógica, novas línguas se formam do rompimento das regras de línguas mais velhas (o português nasce da “degeneração” de regras do latim, assim como o italiano, o francês e o espanhol). Talvez por isso mesmo o chamado príncipe dos poetas a chame de “inculta e bela”.

E por falar em “poeta”, é interessante notar que essa palavra acabou fazendo durante um tempo o caminho inverso à palavra “presidente”, sendo seu uso como substantivo de dois gêneros preferido à forma feminina poetisa. Talvez por isso mesmo, entre quem não gosta de “poetisa”, ninguém diga que a palavra não existe simplesmente por não existem “atletisa” ou “estetisa”.

Ao compreendermos que palavras têm história, podemos entender o porquê de certas escolhas. Enquanto a forma feminina “presidenta”, em lugar do comum de dois gêneros “presidente”, testemunha a urgência de se transformar a política num lugar que abrigue igualmente homens e mulheres, a palavra de dois gêneros “poeta”, em lugar de “poetisa”, talvez lembre que aquela que escreve versos não pode ser diminuída diante daquele que exerce  mesmo ofício. Em fins do século XIX e início do XX, tornaram-se populares tanto em Portugal quanto no Brasil saraus lítero-musicais de senhoras. Como nessa época, as leituras comumente recomendadas às mulheres eram a Bíblia, livros de receitas, revistas femininas e romances água-com-açúcar, eram raras as mulheres que fugiam a lugares-comuns nesses saraus. E o termo poetisa acabou muito associado a esses eventos e à poesia de qualidade ruim que comumente se produzia neles. E para fugir desse esteriótipo, era comum que escritoras em versos de grande fôlego preferissem ser apontadas como “poetas”, e não como “poetisas”.

Curiosamente, Florbela Espanca foi uma frequentadora desses saraus. Mas, diante da força de seus versos, o escritor António Ferro buscou distanciá-la do que ele chamava de “poetisas de colmeia”, e a “promoveu” num ensaio à categoria “poetisa-poeta”. E pelo que me parece, diante das grandes poetas (ou poetisas?), a crítica frequentemente se comportou assim, preferindo apagar o caráter feminino dessas autoras e afirmando que poetas não têm diferença de sexo. Evidentemente, em resposta a isso há também aquelas autoras que preferem se identificar como “poetisas”, e não como “poetas”.

Mas voltando ao tema desse texto, “presidenta” não foi uma invenção de Dilma ou do partido pelo qual ela se elegeu. Consta em minha edição do Houaiss, de 2009 – anterior à sua eleição, portanto. Tenho ainda uma edição do Aurélio tão velha que está sem imprenta, mas tenho razões para crer que é anterior à Constituição de 88. Nela também se lê a palavra “presidenta”. E Pasquale, num artigo recente escrito para a Folha de São Paulo, fala de um dicionário de 1913 que registra “presidenta”, então como um neologismo.

A ministra Cármen Lúcia, na presidência da mais alta corte do país, pode preferir ser chamada de “presidente”. Mas o cargo é “presidente” ou “presidenta”. Até mesmo Machado de Assis usou a palavra “presidenta” numa obra sua (portanto, em 1913, ela já era um neologismo um tanto velho!). E não foi numa obra qualquer de juventude, ou nalguma crônica mais descuidada de jornal. Como a ministra é amante da língua portuguesa, eu a convido a reler o capítulo LXXX de uma das principais obras machadianas, “Memórias Póstumas de Brás Cubas”. Neste capítulo, Brás Cubas se encontra como Lobo Neves, que acaba de ser nomeado presidente da província, e Virgília, grande amor de Cubas e esposa de Lobo Neves. O novo presidente da província oferece a Brás Cubas um cargo político de secretário. E lá no último parágrafo desse capítulo, lemos:

Meu espírito deu um salto para trás, como se descobrisse uma serpente diante de si. Encarei o Lobo Neves, fixamente, imperiosamente a ver se lhe apanhava algum pensamento oculto… Nem sombra disso; o olhar vinha direito e franco, a placidez do rosto era natural, não violenta, uma placidez salpicada de alegria. Respirei, e não tive ânimo de olhar para Virgília; senti por cima da página o olhar dela, que me pedia também a mesma coisa, e disse que sim, que iria. Na verdade, um presidente, uma presidenta, um secretário, era resolver as coisas de um modo administrativo.
(Machado de Assis. Memórias Póstumas de Brás Cubas. Rio de Janeiro: Livraria Garnier, 1988, p. 141.)

No entanto, a opção de Cármen Lúcia, evidentemente, é uma opção política. Certamente ela não ignora os registros da palavra “presidenta” nos dicionários. Mas a chamada norma culta é apenas um dos registros possíveis da língua. E quem está acostumado a ler a língua empoeirada escrita nos processos que correm pelos tribunais de todo país sabe bem o quanto todo juridiquês e seu latinório costumam andar propositalmente distantes desse organismo vivo.

Gosto de pensar nossa língua como o eu-lírico do poema “Evocação do Recife”, de Manuel Bandeira, quando diz: “A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros / Vinha da boca do povo na língua errada do povo / Língua certa do povo / Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil”. Isso porque palavras não passam a existir apenas quando estão em estado de dicionário. Elas são registradas nos dicionários porque existem, por serem usadas na língua viva do povo, por se encontrarem registros de seu uso. E essa luta por existência e legitimação não deixa de ser um ato político de certos grupos falantes. Assim como é um ato político que tenha sido necessária a eleição de uma mulher para a presidência do Brasil para fazer com que a palavra “presidenta”, presente até mesmo em Machado de Assis, mas que até então existia mais como uma possibilidade linguística, ganhasse a concretude das ruas na língua certa do povo.

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Lançar um livro depois de oito anos me dedicando a escrevê-lo foi algo transformador. Por isso, não consigo ser o mesmo depois de ter lançado Trítonos – intervalos do delírio. Olho para os meus locais de escrita e noto que eles hoje estão esperando para serem povoados por novas obsessões, novos projetos, novas histórias. É nesse estado de espera que me encontro um pouco desde o lançamento, como se eu ainda estivesse me despindo de meu livro.

Hoje, “Trítonos – intervalos do delírio” é uma linda marca em mim, em minha vida, em minha história… Agradeço demais à Editora Patuá, e ao querido editor e amigo Eduardo Lacerda por isso. Agradeço também à minha amada Fabiana Turci que, como leitora primeira, modificou tantas vezes e tão essencialmente os rumos de minha prosa nesse projeto. E à minha irmã Roberta Tostes Daniel, poeta de grandes alturas que me ofereceu o testemunho poético de sua leitura na linda orelha escrita para meu livro.

Meu livro também se tornou uma linda marca na parede de minha casa. O querido Leonardo MAthias presenteou “Trítonos” com uma capa simplesmente fantástica. Lembro do deslumbramento ao vê-la pela primeira vez. Era diferente de tudo quanto eu havia pensado, em termos de referências visuais. Era uma nova leitura e uma recriação do meu livro, com a distância de um leitor — algo que me era impossível fazer como autor. E, por isso mesmo, era maior do que a minha imaginação poderia projetar. Sim, nesse caso, o real foi de um maravilhamento que desconcertou o imaginado.

Quando adquiri a arte original de minha capa, descobri que o Leo fizera um trabalho incrivelmente plural. Na verdade, são duas imagens distintas, que mudam conforme o lado a partir do qual a obra é observada. Descobri poder usá-la de modos diferentes, se desejo evocar a visão interna de uma sacerdotisa ou as amplas asas de uma harpia. Estava devendo essas fotos para o querido Leo MAthias. Com uma alegria imensa, divido-a com ele e com todos meus amigos. Dividir alegrias e belezas é, na verdade, multiplicá-las. A arte não se cansa de me ensinar isso.

E meu livro está à venda no site da Editora Patuá (acesse aqui). E está muito bem acompanhado, com cerca de 350 títulos de autores contemporâneos. Vale muito explorar seu catálogo!

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Minto um pouco quando falo que não gosto de televisão. Ou talvez haja, de fato, uma inexatidão em minhas palavras. Porque se é verdade que havia pelo menos uns dois meses eu não ligava a TV aqui em casa, também é verdade que nesta semana a liguei de quarta a sábado.

E que extraordinário motivo me levou a fazê-lo? Capitu. Perdi o primeiro capítulo na terça, que acabei vendo pela internet na quarta-feira de manhã, antes de ir para o trabalho.

Desde o filme ‘Lavoura Arcaica’, acompanho o trabalho de Luiz Fernando Carvalho. Na verdade, os primeiros capítulos de uma novela do início da década de 90, chamada ‘Renascer’, já me foram arrebatadores. A minissérie ‘Os Maias’ — a que acabei não assistindo inteira, apenas por contingências, não por falta de interesse — também foi irretocável. Mas é a partir de seu longa que conheço e acompanho o trabalho desse diretor, que atualmente tem enveredado, na TV, por uma linguagem própria desde a microssérie ‘Hoje é Dia de Maria’.

Depois de alguns problemas na execução de ‘A Pedra do Reino’, que achei hermética demais para quem não lera o livro de intrincado enredo de Ariano Suassuna, embora tenha sido uma encantadora explosão de sensações que o livro provoca a quem o lê, veio Capitu. Portanto, se em ‘A Pedra do Reino’ Luiz Fernando Carvalho acabou fazendo uma alegoria do livro, quase como uma pintura que tenta sintetizar uma história cheia de peripécias; uma pintura bela, mas cujo significado, cujo entendimento se guarda a poucos, em Capitu ele conseguiu uma adaptação perfeita. Talvez o próprio livro tenha ajudado, já que ‘O Romance d’A Pedra do Reino’ tem um enredo muito complexo, e pouco foi o tempo destinado a ele na TV.

Agora, em ‘Capitu’… Deparei-me com as mesmas impressões de quando li ‘Dom Casmurro’, aliás, devorei-o em quatro dias, há pouco mais de dez anos, no início de 1998. Em quatro dias li o livro. Em cinco Luiz Fernando Carvalho o reconta na TV. A microssérie, no início, traz a mesma pulsação juvenil do início do livro, alternando outra pulsação, outro ritmo, quando no terço final da história ocorrem os fatos pelos quais o livro é famoso. Minto, os fatos não ocorrem. Bentinho não os narra. Ele nos apresenta a sua dúvida. Mas não sem nos fazer apaixonar pela sua Capitu, sobretudo a menina, com a qual ele crescera junto.

Mais uma vez o diretor lança mão de sua linguagem, personalíssima, que faz a televisão ser outra coisa daquilo que geralmente é. Assistir às suas obras nos últimos anos tem sido assemelhado à experiência de ir ao teatro, exceto pelo fato de não haver proximidade com os atores. Aqui também minto um pouco. Na verdade, assemelha-se à experiência de assistir a algumas peças específicas. E, principalmente, aproxima-se de modo colossal da experiência que é conviver com o processo de criação de um autor/diretor/ator ainda desconhecido das grandes platéias, mas rico em imagens e poesia.

E eu tive a honra de trabalhar com ele, com esse ainda desconhecido das grandes platéias, durante muito tempo. Tive a honra de ter sido um dos fundadores de sua companhia e um dos primeiros co-investigadores do seu método. Em ‘Esquadros ou O Paraíso’ usamos Madredeus antes de ‘Os Maias’, Quinteto Armorial antes de ‘A Pedra do Reino’ e o teatro dança, muito semelhante àquela dança que Escobar faz sobre a mesa do seminário. Digo isso para mostrar o paralelo desses dois universos “extasiantes”. E digo mais: quem assistir a esta Capitu jovem de Luiz Fernando Carvalho e porventura conheça a obra desse autor, logo se lembrará de uma personagem como Rosália, de ‘Hóstia e Absinto’.

Por isso, a beleza deste e de outros trabalhos de Luiz Fernando Carvalho, para mim, confirmam todo talento que há quase quinze anos eu enxergo num outro autor/ator/diretor, que também é, para minha felicidade, um grande amigo, irmão e companheiro. E este se chama Marcelo Tosta. Um talento com o qual já trabalhei diversas vezes e cujo processo de criação conheço muito bem, por já ter criado tantas e tantas vezes junto com ele, mais extasiado como platéia e escriba, do que propriamente como criador.

Capitu é a segunda das quatro obras previstas para serem adaptadas no Projeto Quadrante. As outras duas obras não as li. E essas duas primeiras (‘O Romance d’A Pedra do Reino’ e ‘Dom Casmurro’), coincidentemente, li na mesma época, no já um pouco longínquo ano de 1998.

Certamente, todos que assistiram à microssérie Capitu ficarão saudosos daqueles olhos de ressaca (ou seriam olhos de cigana oblíqua e dissimulada(?)?) de Letícia Persiles e de Maria Fernanda Cândido.

Site da Microssérie Capitu
http://capitu.globo.com/
Site do Projeto Quadrante
http://quadrante.globo.com/Quadrante/0,,8624,00.html

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