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Posts Tagged ‘Leitura’

Li em algum lugar que “uma leitura que surpreende é aquela que nos faz ver o que estava posto, mas não sabíamos nomear”. Qualquer leitura, pois não lemos apenas textos. Lemos imagens, movimentos, sons, gestos. Lemos até sorrisos.

Particularmente, aprecio leituras que me desarticulam da palavra. Que me pedem silêncio para absorver o que dizem, pelo impacto sobre a sensibilidade, o intelecto, as emoções…

Gosto de leituras que me deixam a tatear imprecisões. Que trazem à boca uma palavra que ainda não tem nome. Ou umas tantas. Linhas que aquecem dúvidas, como um delírio de sol. Que expandem o que há dentro para dilatar os afetos, embora sem substância definível — afinal, onde é a sede dos sentimentos que nos acometem?

Persigo, no ato de ler, aquilo que apenas reverbera. Aquilo que se entreouve no incerto. Aquilo que escapa, a esperar o que não pode ter fim. E que saiba na boca como voo ou mergulho.

Sigo empós o desvelar das estruturas do silêncio. Sim, preciso de leituras que me encham de silêncio. Que me ensinem a ouvi-lo. Veredas lógicas que desvelem sons e sentidos. E que ressoem como a música de Pärt.

Preciso de leituras que me façam inconclusivo. Que agucem o desejo de ir. Além… Além de mim, além do homem. Procuro discursos que me provoquem. Desafiem-me. Enovelem-me, para que eu possa me entretecer em textos… Seguindo o fio de Ariadne, no percurso entre Cloto e Átropos.

Pawel Kuczynski - Book Jumping

Pawel Kuczynski – Book Jumping

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O lançamento do livro História Íntima da Leitura, que ocorrerá no dia 16 de setembro, das 14h às 18, na Casa das Rosas, marca a estreia da Editora Vagamundo no cenário editorial brasileiro – e na vida dos leitores e dos escritores. A obra, uma coletânea de textos ficcionais de 18 autores sobre as relações entre a leitura e a escrita, apresenta as propostas da nova editora: dar voz a autores contemporâneos nos mais variados gêneros literários e ser uma editora feita por leitores para leitores, apostando na criação de canais de comunicação com o leitor e na publicação de livros de qualidade a preços acessíveis.

O livro traz uma teia de narrativas que forja uma história da literatura a partir da leitura e coloca em tensão e diálogo os papéis de leitores, livros e personagens, enveredando pela construção de uma biblioteca que reinventa a noção de intimidade. História Íntima da Leitura convida também o leitor a deixar suas marcas e inserir-se no texto, reescrevendo, a cada leitura, uma nova história. Nesse ponto, a Editora Vagamundo inova, chamando cada leitor, na última página dessa espécie de livro infinito, a continuá-lo com suas próprias histórias, fazendo do ato da leitura o centro do processo. Para isso, a Vagamundo mantém em seu site o “Espaço do Leitor”, onde as histórias íntimas dos leitores serão publicadas.

Em parceria com a Levante Cultural, a Editora Vagamundo lançou ainda um documentário com os autores da História Íntima da Leitura. O vídeo, bem como a íntegra dos depoimentos dos autores, estão disponíveis no site da editora sob licença Creative Commons. Trata-se de mais um convite para que o leitor possa se inserir na construção de um trabalho colaborativo, legitimando o processo de significação de todo o ato de leitura. No “Espaço do Leitor”, a Vagamundo também vai publicar os trabalhos derivados, em qualquer formato, feitos a partir do material audiovisual relacionado ao projeto.

Lançamento

O evento de comemoração do lançamento da História Íntima da Leitura e da Editora Vagamundo será realizado no dia 16 de setembro, das 14h às 18h, na Casa das Rosas – Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura –, um importante espaço dedicado à literatura, situado na Avenida Paulista, 37.

O livro será vendido a R$ 23,00, valor abaixo da média do mercado, confirmando o compromisso da editora com os seus leitores. Quem quiser garantir seu exemplar durante o lançamento, poderá adquiri-lo mediante o pagamento em dinheiro ou cheque. Após o lançamento, o livro estará disponível no site da Editora Vagamundo, que aceita todos os cartões de crédito e tem como política permanente o envio gratuito para qualquer lugar do Brasil.

Serviço:
Lançamento do livro: História Íntima da Leitura
Quando: 16 de setembro de 2012, das 14h às 18h.
Local: Casa das Rosas – Avenida Paulista, 37 (próximo ao metrô Brigadeiro). Estacionamento pela Alameda Santos, 74.

Editora Vagamundo:
www.editoravagamundo.com.br

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http://www.youtube.com/watch?v=k4NFOemJFuU

http://www.editoravagamundo.com.br | Vídeo sob licença Creative Commons
Documentário com os autores da coletânea “História Íntima da Leitura”.

realização

paulo mainhard
fabiana turci
teofilo tostes daniel

depoimentos

bruna nehring
carlos kiffer
daniel mendonça
fabiana turci
ingrid morandian
isabela michelan
ivan carlos regina
livia lima
luiz de nadal
marcelo tosta
marisa tostes daniel
paulo mainhard
roberta simoni
roberta tostes daniel
sandra schamas
teofilo tostes daniel

edição

fabiana turci
paulo mainhard
teofilo tostes daniel
roberta tostes daniel

câmera

paulo mainhard
teofilo tostes daniel

trilha sonora original

teofilo tostes daniel
fabiana turci
produzida no estúdio lá

São Paulo / Rio de Janeiro – 2012

www.editoravagamundo.com.br
www.levantecultural.com.br

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http://www.youtube.com/watch?v=b_0zpJgvEZk

http://www.editoravagamundo.com.br | Vídeo sob licença Creative Commons
Vídeo com os autores da coletânea “História Íntima da Leitura”.

realização
paulo mainhard
fabiana turci
teofilo tostes daniel

edição
fabiana turci
paulo mainhard
teofilo tostes daniel
roberta tostes daniel

câmera
paulo mainhard
teofilo tostes daniel

trilha sonora original
teofilo tostes daniel
fabiana turci
produzida no estúdio lá

São Paulo / Rio de Janeiro – 2012

www.editoravagamundo.com.br
www.levantecultural.com.br

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“Será que um livro para quando é posto de lado, ou os livros são máquinas de moto-perpétuo, que funcionam sem necessidade de leitores?” (pág. 30)

“O silêncio que brota dos livros e nos envolve é um silêncio cheio de sons. Um silêncio que altera as coordenadas da eternidade”. (pág. 38)

“Não por acaso, penso, os livros são feitos com a carne das árvores, e as bibliotecas acabam se transformando em florestas petrificadas, com ramos e raízes que se entranham em nós e florescem na nossa imaginação.” (pág. 38)

“… talvez o estilo do escritor seja apenas o fantasma de suas carências mais do que a realidade de suas virtudes.” (págs. 436/437)

Os Jardins de Kensington, do escritor argentino Rodrigo Fresán, foi o último livro que terminei, ainda no mês passado. Altamente recomendável para quem é apaixonado por livros, por histórias, por ficção temperada com doses de realidade e fantasia, e pela escrita. Os registros que aqui reproduzo são alguns parcos trechos que anotei, entre muitas passagens memoráveis. A que compara bibliotecas a florestas petrificadas foi usada como epígrafe a um texto meu escrito recentemente, ainda inédito e demandando revisão, chamado “Bibliofilia”.

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As anotações abaixo foram feitas no blog antigo, entre os dias 7 e 12 de dezembro:

“Fé é o que abre no habitual da gente uma invenção, (…)” – Guimarães Rosa | Grande Gedeão (Tutaméia)

“(…) porque amar não é verbo; é luz lembrada.” – Guimarães Rosa | João Porém, o criador de perus (Tutaméia)

“Só o amor em linhas gerais infunde simpatia e sentido à história, sobre cujo fim vogam inexatidões, (…)” – Guimarães Rosa | Palhaço da boca verde (Tutaméia)

***

“(…) o mundo não dá a ninguém inocência nem garantia.”
“A gente quer mas não consegue furtar no peso da vida.”
“– Louvado seja tudo o que há!”

Todas as frases acima foram retiradas do conto ‘Rebimba, o bom’ (do livro Tutaméia), de Guimarães Rosa.

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Há dois dias, a surpresa, inesperada para esse fim de ano, se anunciou. Primeiro, mandou ligarem para o meu celular e me perguntarem se eu ainda estava em São Paulo.

Eu, em minha mania de prosopopéias, estou sendo pouco preciso na descrição do que houve. Na verdade, enquanto eu estava no trabalho, sem que pudesse atender o celular, ele tocou duas vezes. Desliguei-o e, ao voltar para minha sala, liguei para aquele número que não conseguira identificar.

Era da ‘Casa do Novo Autor Editora’. Queriam saber se eu ainda estava em São Paulo, pois MEU LIVRO estava pronto. Já o havia recebido alguns meses antes, mas com um erro na paginação. Tiveram de consertar e imprimir novamente todo o miolo. E essa operação estava concluída naquele dia 23 de dezembro. Ligaram-me a poucas horas de minha ida ao Rio de Janeiro para me perguntar se poderiam enviar-me o livro para minha casa.

Quando cheguei, os exemplares estavam lá na portaria, a me esperar. Abri uns poucos, dez ou doze. Folheei dois. Coloquei-os, esses dez ou doze exemplares, na mala. Estavam perfeitos, exatos. Um livro que esperou uns sete ou oito anos para ser publicado. Poemas que esperaram até quatorze anos para mancharem de tinta as páginas de um livro. Um livro que em 1998 chegou a se chamar ‘Primeiras Tentativas Poéticas’.

Não, na verdade aquele era outro livro. Poemas escritos entre 1999 e 2001 vieram, outros saíram, para a inutilidade dos versos ruins ou para outro livro, que virá futuramente. E assim, o livro que me chegou há dois dias, e que, com uma revisão ou outra, espera há uns sete ou oito anos para ser publicado é intitulado ‘Poemas para serem encenados’. Faço deste meu primeiro livro de poemas uma grande dramaturgia composta de fragmentos de peças de teatro, de cenas, de falas de personagens. Nele, todos são poemas para serem encenados, mesmo quando lidos.

Aqueles que quiserem podem encomendar o livro me enviando um email. Nele, basta dizer a quantidade de livros desejada e o endereço para envio. Cada exemplar custa R$ 20,00 mais as taxas de correio. O pagamento deverá ser feito por meio de reembolso postal. Antes de mandar o(s) exemplar(es), enviarei um email dizendo quanto ficará tudo e esperarei a confirmação de que posso enviar pelo correio a encomenda solicitada. Os pedidos podem ser feitos pelos emails teofilotostes@yahoo.com ou teofilotostes@gmail.com.

Poemas para serem encenados
Teofilo Tostes Daniel.
Casa do Novo Autor Editora: São Paulo, 2008.
76 páginas. R$ 20,00.

Encomendas: enviar um email para teofilotostes@yahoo.com ou teofilotostes@gmail.com, com o endereço para envio e a quantidade desejada.

Leia abaixo alguns poemas do livro:


P r i m e i r a s   T e n t a t i v a s    P o é t i c a s

Duas rimas se encontram no caminho,
Se entreolham, se beijam… Bem no meio
De uma frase cochicham bem baixinho
Segredos já expostos ao passeio.

A linguagem humana forma um ninho
Que sempre expõe ao público recreio
As demonstrações várias de carinho
Das palavras e idéias que eu anseio.

O verbo, ao espalhar apoteoses,
Manifesta-se ávido aos ferozes
Olhos daqueles tidos por poetas.

A minha sina foi-me revelada:
Com versos devo andar por uma estrada;
Poesias devem ser as minhas metas.


G e n e a l ó g i c o

Sou filho dos burgos,
mas não sou burguês.
Meus cantos são lusos,
não sou português.

Meu povo me aponta
safáris no corpo,
contrastes, afrontas
e um velho índio morto.

Entre hóstias e hostes
cravaram-me um Tostes
de algum povo ao léu.

Fugindo com fome,
meu último nome
chamou Daniel.


O   p o e m a   d e   h o j e

Tua presença fez-se em minha mente;
Rompeu, inexorável, a barreira
Que arquitetara para que o afluente
De mim não desaguasse em cachoeira.

Meu olhar te mirara descontente
Porquanto te encontrou, bem verdadeira,
Negando um parco olhar a mim, doente,
Que, aflito, te buscara à Terra inteira.

Lugentes olhos cercam teu olhar;
Constantes eles são ao reclamar
A migalha do céu que tu ofertas.

Desisto vagamente de utopias,
De reter os risos que sorrias.
Eu sou daquelas almas já desertas.


A l i c e    A t r a v é s   d o   E s p e l h o

(ao Armazém Companhia de Teatro)

mote
Eu escrevo este poema
que me imortalizará
por um dia tê-la visto.

Ser o público e a cena
de seus sonhos me será
doce gozo que conquisto.

glosa
Em pensaventos lesmos e espelhares,
Alice alopra os alcalóides anos
nadinocentes, vivos, sempre insanos,
latentes como o brilho dos pulsares.

Volupiadas velhas, sorrateiras
aquecem a epiderme da menina,
da infante nada infântica que nina
os desejos matreiros das soleiras.

Nosso primeiro e estranho anfitrião,
Chapeluco Maleiro e já caduco,
pregado num relógio feito um cuco
ri o riso dos loucos com razão.

Tomo um xeque, um chá-mate e enfim adentro
no espelho-tobogã atrás de Alice,
alicerce dos sonhos, do que eu visse
neste mundo fantástico e epicentro.

Eu vejo um labirinto no armazém,
num impudico, lúdico vestido
em que, no olhar mais lúcido, elucido
todas transparessências que ele tem.

Um gato trapezista, num sorrir,
instaura nos sentidos todo absurdo
comportável no meu sentir já surdo,
pois os seus lábios deixam o rosto ir!

No tabuleiro, a injusticeira manda,
a Rainha das copas e das taras.
Ela corta cabeças pouco caras
nas horas que a demência faz-se branda.

No justíbulo faz-se o julgamento
que desnuda as segundas intenções.
No júri vejo os condes e os barões
feitos nobres num doido desmomento.

No final desta noite ou deste dia,
saciado de amor, eu durmo cedo
neste hospício que espalha todo o medo
da certeza que o mundo o imitaria.

(Aplausos!)

Todos os poemas © by Teofilo Tostes Daniel 

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O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.

O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.

O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.

O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.

Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.

O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.

O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.

O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.

O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.

O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.

O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.

(As falas do personagem Joaquim foram extraídas da poesia “Os Três Mal-Amados”, constante do livro “João Cabral de Melo Neto – Obras Completas”, Editora Nova Aguilar S.A. – Rio de Janeiro, 1994, pág.59.)

Porque há dias em que temos tanto a dizer e, ao mesmo tempo, tateamos em busca de palavras que teimam em não ser tão sublimes quanto o que queremos falar, pego emprestado este texto de João Cabral, já que nele há tudo quanto desejo expressar hoje.

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