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Posts Tagged ‘Kayden’

Para ter a experiência primeva da chuva, talvez seja necessário esvaziá-la do nome. E apenas abandonar o corpo às águas que caem do alto do céu terrestre. Como bicho, dar-se à umidade do dia. Como infante, abrir os braços transido de encantamento e espanto.

Creio ser preciso ter passos vacilantes para viver a chuva. Não dizê-la: gritá-la. Não sabê-la: intuí-la. Não analisá-la: cantá-la em ritos pagãos. Diluir a água do próprio corpo nas águas vindas dos céus. Invocar seus pingos como se evocam deuses. Ou espíritos ancestrais. E dançar uma amplidão que se derrama em todo onde. Quiçá eu tenha aprendido isso quando fui chuva…

Não existem chuvas inocentes, no entanto. Elas são potências da natureza. São alento ou tempestade. Afetam-se pelo humano. E afetam o homem… Mas estão além de nossas forças para contê-la ou evocá-la. Carregam em si os gérmens da fecundidade e do terror. Aplacam sedes ancestrais, mas também arrasam casas. Fazem evolar a fertilidade da terra, mas também destroem plantações. Alimentam os corpos de toda vida, mas podem apodrecer raízes. E o humano intui isso antes do verbo, à maneira dos bichos.

Vivemos hoje, porém, um tempo que deseja ardentemente por chuva. Água se espalhando pelos desvãos da secura. Fecundando chãos e ideias. Alimentando raízes e horizontes. Creio que, por isso, toda chuva soe como dádiva. E todo encantamento do corpo ante o aquoso do mundo ressoe como êxtase.

Uns versos me revelam: “e quando faz sol — brilha / desejo de chuva”*. Neste momento, evoco-os como quem invoca, das nuvens, a água rara que transita pelos céus. Ou o deus dos sem deuses.

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*Nydia Bonetti

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