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Posts Tagged ‘Ítalo Calvino’

Ontem essa indagação não me saiu da cabeça: a mitificação de alguém é uma forma de desumanizá-lo? Que processos nos levam a apagar o lado humano de alguém que admiramos demais, para torná-lo uma espécie de semideus?

Anteontem à noite (25/5), fui ao lançamento do livro Estórias autênticas (Editora Patuá), do querido André Balbo, no Patuscada. Ainda não havia conseguido que o André autografasse o meu exemplar (sim, uma ótima notícia: o lançamento foi bem concorrido!), quando o Edu (Eduardo Lacerda) comenta comigo que haviam dito que o Raduan Nassar estava lá.

Meu primeiro sentimento foi um misto de incredulidade e espanto. O Raduan Nassar habita, ao lado de outros quatro escritores, uma parede da minha casa, dedicada às referências literárias mais importantes, comuns a mim e à minha esposa. Um conjunto pensado há sete anos, quando planejávamos os detalhes de como seria a nossa casa. Num tempo em que a matéria da vida quotidiana se modificava e ganhava novos significados projetados pelas emanações de sonhos em comum. Alguns dos cinco quadros que existiam originalmente na casa da Fabi emoldurariam novas fotos.

Foram conversas várias para que chegássemos a cinco nomes. Havia uma projeção de que novos quadros poderiam vir, aumentar esse conjunto, mas isso não ocorreu. Claro que certos autores já então cogitados se agigantaram ainda mais (como no caso de Ítalo Calvino) e outros surgiram assombrosamente (como Ismail Kadaré). Mas acredito que ali habitam a base do que me forma como leitor, e boa parte do que forma a Fabi (que vai muito além de mim) como leitora. Não consigo imaginar minhas palavras sem tê-los encontrado um dia. Estão lá Drummond, sentado modestamente no chão a folhear um livro próprio; Hilda Hilst abraçada com ternura a um cão; Borges com um olhar de tempestade, voltado para a incerteza; Guimarães Rosa acariciando um excêntrico rinoceronte. E, no centro, sentado numa cadeira sob uma árvore, talvez em sua mítica terra que o fez abandonar a escrita, Raduan Nassar.

Drummond, Hilda Hilst, Borges, Guimarães Rosa e Raduan Nassar habitam nossa cozinha, o lugar mais sagrado da casa.

Isso significa que aquela espécie de entidade que habita nossa cozinha, que é o lugar mais sagrado da casa, estava ali. Devo muito da minha linguagem à leitura dos livros de Raduan. Mas não teria como dizer isso a ele. Não teria como contar o alumbramento perplexo suas palavras me causaram. O quanto elas foram fundantes para o prosador que sou, e que desejo me tornar. Também não teria como dizer que a fala de um dos personagens do meu Trítonos tem toda fala construída como um fluxo, um jorro, como o vi fazendo em “Um Copo de Cólera”. E que nessa mesma fala há uma espécie de incorporação de uma trecho do “Lavoura Arcaica”, em que o personagem diz que será o profeta da própria história.

Quando fui buscar o autógrafo do meu exemplar do livro do André, numa sala mais reservada, aquela figura deixou de ser apenas um quadro na parede, e um nome na capa de livros essenciais. Diante de mim estava ele: Raduan! Desde então, fui meio que levado pelos acontecimentos. Ainda não acredito que autografei e dei um exemplar do meu Trítonos – intervalos do delírio para Raduan Nassar. Era como conhecer uma entidade mítica. E a perplexidade paralisa. Ao lado de Raduan, outra figura conhecida. Embora longe de ser mítica, é alguém que, em tempos de uma política desumana que a administração da cidade vem adotando, deixa saudoso o cidadão político que sou: Fernando Haddad.

No entanto, num primeiro momento, só consegui ver o escritor e mito. Em vão tentei balbuciar algo absolutamente banal, falando do quanto era difícil de acreditar naquele momento. Mas eu sabia que quaisquer palavras eram insuficientes. Voltei para casa eufórico, como se tivesse vivido uma experiência sobrenatural. Repleto de uma emoção difícil de explicar, mas plenamente possível de entender. Ao mesmo tempo, porém, pensava no quanto aquela euforia e aquele maravilhamento, que quase me emudeceram, nasciam da mitificação de um homem. Ao entrar naquela sala, vi um homem frágil, talvez um pouco menor que eu, feito de carne e osso, sentimentos e incertezas. Mas essa dimensão havia se apagado. Meus olhos viam apenas a figura mítica, o escritor desmedido e o personagem repleto de idiossincrasias, que largou a literatura para cuidar da terra e seus maravilhamentos. E essa figura me parecia desumanizar o Raduan homem.

Longe da emoção, penso que talvez eu devesse ter falado que sabia que toda aquela situação talvez fosse um pouco constrangedora para ele, mas que certamente ele também entendia que, como leitor, me era impossível não lhe dizer o quanto o admirava. Afinal, era ele: Raduan Nassar. Há seis anos ele habita o espaço mais sagrado da minha casa. Suas palavras me habitam há pelo menos uns quinze. E era lindo conhecê-lo ali na Patuscada, pois aquele lugar também é, um pouco, uma espécie de casa para mim…

Fernando Haddad, Raduan Nassar, Edson Valente, Eduardo Lacerda e eu.

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Sempre gostei de trazer desafios arbitrários para minha escrita. Desafios formais ou temáticos sempre me interessaram. Lembro-me do espanto, quando li na infância — com sete ou oito anos –, num livrinho hoje tão perdido na memória que não lhe sei o nome nem o autor (1), um poema todo feito com palavras iniciadas pela letra “T” (2). Talvez essa — que julgo ser a minha primeira memória de leitura — tenha sido uma experiência fundante para mim como leitor, antecedente até mesmo à descoberta de que as palavras poderiam servir algo para além do dizer e que delas era possível extrair o gozo. Essa experiência não me trouxe o desejo de escrita. Dela, no entanto, me ficou o assombro e, muito possivelmente, alguma herança que acabou conformando meu êthos como escritor.

Esse poema primitivo me ecoava como lembrança desde que comecei a escrever os meus (nunca esqueci de como me soava o início do poema, embora nada lembrasse da forma como ele se dispunha em versos: “Tuca, Teresa, Toninha: três tias, todo tempo tricotando”). Sem ter mais o livro e ainda sem ter o recurso da internet, onde parece que tudo se deposita, ele me habitava como uma névoa. Mas essa névoa, que nada mais era do que uma apagada lembrança, me motivou a tentar recriá-la nas duas primeiras estrofes de um soneto que escrevi pouco mais de dez anos depois dessa leitura fundante.

Vórtices vértices virão, viajantes…
Vidas vivi; ouvi vibrantes vozes.
Velhas visões, volúpias vãs, velozes
Vagavam vivas em violões ventantes.

Véus… versos vêm vibrar, e vêm vazantes!
Vêm viscerais, vivazes feito vozes.
Violas vagam a vestir viscoses
Vestindo ouvidos com visões volantes.

(Do poema “Os Dias da Madredeus”)

Quando comecei a ler Ítalo Calvino, pela primeira vez ouvi dizer da chamada Oficina de Literatura Potencial (conhecida como OuLiPo). Embora não me enxergasse com tamanha obsessão pela criação de regras restritivas e arbitrárias — e por vezes absurdas, como a escrita de um livro inteiro suprimindo uma vogal –, identifiquei-me de imediato com sua proposta geral, de aumentar as potências expressivas da linguagem por meio de restrições.

Penso que até hoje o desejo de engendrar restrições me persegue. Este ano, a leitura de “Six Songs of Causality”, de Ricardo Domeneck, fez com que um poema ficasse me rondando por semanas. Primeiro como projeto, depois como lista de palavras e, por fim, como execução — construção de uma estrutura e permuta entre palavras. O poema de Domeneck era um jogo com uma série de palavras predeterminadas, permutadas em seis poemas, gerando seis diferentes possibilidades de sentido na relação sintática entre elas. As seis canções me pareceram fractais, e encontrar essa forma — que veio antes de qualquer conteúdo — me levou a escrever Seis fractais de casualidade. Num exemplo como esse, percebo que restrições realmente podem potencializar a capacidade expressiva da linguagem.

Percorro esse caminho sinuoso de lembranças, que talvez digam algo sobre minhas escolhas como escritor, para chegar ao cerne do que desejo abordar aqui. Em meu último texto do ano passado, faltou falar sobre o que passar a escrever com periodicidade para este blog acarretou para a própria escrita, ou na minha relação com ela. Foi minha amada musa e leitora primeira de tudo quanto escrevo quem me chamou atenção para isso. E, a partir de um comentário dela, comecei a pensar este, que seria o primeiro texto de 2015.

Há algo numa página em branco que o assemelha a um blog como este: Em ambos, tudo cabe e tudo pode. A própria escrita se conforma como esse terreno de absoluta liberdade. Talvez para fugir à paralisia que uma liberdade absoluta pode provocar, inventam-se restrições para a escrita — ao menos intuo que, para mim, funcione assim. Contra a abertura disforme de todas as possibilidades, sempre me fixei em projetos — mesmo que fosse para mudá-los, enquanto os executava — e aceitei normas autoimpostas.

Este blog, hoje chamado Ensaio Aberto, nunca foi propriamente um projeto. Sempre foi um lugar de escrita eventual. Escrever para ele tinha a ver com um desejo de encontro e interlocução. Esse desejo, no entanto, muitas vezes era obliterado pela força de projetos a que me lançava. Isso explica, por exemplo, as intermitências e os abandonos que ele sofreu desde 2004. Explica também anos inteiros com um ou dois posts publicados — que, por vezes, nem sequer eram textos, mas citações, vídeos, etc.

Um espaço onde afluíam tantas liberdades parecia não mais funcionar bem para mim. Permanecia o desejo de interlocução e de encontro com leitores, bem como de proximidade semântica que a internet me parece propiciar. Mas um espaço como esse, se não se alimenta sempre da escrita, também não consegue gerar o tipo de movimento que eu me queria.

Para lidar com o excesso de liberdade, que transformava esse blog quase num caderno em branco, com eventuais riscos e notas mais ou menos esparsas, criei uma regra simples: escrever sempre. Para isso, estabeleci uma periodicidade que “deveria” ser respeitada — um dever gratuito, como qualquer outra restrição que eu possa querer estabelecer para o que escrevo. Primeiro, estabeleci uma meta não realista, e que me exigiria sacrificar um tanto meus projetos de escrita para cumpri-lo. Depois, percebendo como e o que funcionaria, bastou ajustá-la.

A necessidade de escrever constantemente me levou não apenas a olhar todas as coisas como matéria-prima de escritura. Ela exigiu que eu, de fato, escrevesse sobre o que me despertava o interesse. Que eu transformasse em linguagem uma série de intuições, ideias e impressões que, em outras circunstâncias, certamente não virariam texto. E, como consequência, não só dirigiu o meu olhar de forma mais constante para o efêmero do mundo, como também me demandou interpretá-lo.

Sem a arbitrariedade autoimposta da constância, certamente eu não escreveria sobre tema como a tentativa de proibir os rolezinhos, as expectativas sombrias de aumento da repressão durante a Copa, os cinquenta anos do Golpe de 64, o encontro com um desconhecido falante no ônibus, a absurda decisão judicial que afirmou que os cultos afro-brasileiros não contêm traços de uma verdadeira religião e os resultados das eleições legislativas. Além disso, pode ser que alguns outros textos, cujos temas costumavam ser matéria de escrita nesse blog, não nascessem apenas por inércia.

Outro aspecto novo é a maior interlocução que minha poesia provocou. Desde o fim de agosto, a maior parte dos textos publicados foram poemas meus. Antes, minha poesia era exposta apenas circunstancialmente. Dos poemas que publiquei esse ano, somente uns dois ou três seriam certamente publicados sem o estabelecimento de um plano de publicação periódica. E talvez outros nem sequer nasceriam, já que alguns eu escrevi pensando na interlocução com os leitores — habituais ou eventuais — daqui. Não sei se os poemas sobre a garantia da ordem, a absurda violência policial, o desejo espalhar o amor como antídoto ao ódio que rege o mundo e a iminente morte de Manoel de Barros, escritos diretamente na plataforma do blog, teriam nascido se eu não estivesse habitando constantemente o terreno da escrita pública.

Inicio 2015 com o desejo de, ao menos, continuar a prática do ano que passou. Nele, escrever aqui constantemente foi uma experiência muito importante para mim, que me permitiu chegar a lugares aos quais eu não chegaria de outro modo. Mais do que divulgar alguns dos meus escritos, ela tem alterado positivamente os rumos da minha escrita. Isso não é pouco! Mas como não há experiência definitiva, pode ser que no futuro eu volte a abandonar esse espaço, ou mesmo que venha povoá-lo ainda mais. A vantagem de criar as próprias regras é poder burlá-las quando quiser.

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(1) Após o texto já ter sido publicado aqui e divulgado no Facebook, minha mãe publicou por lá o seguinte comentário:

“Filho, este livro que você menciona em seu texto foi utilizado, se não me engano, em sua primeira série no Instituto Nossa Senhora da Piedade. Chamava-se “A Canoa Virou” e reunia poemas para crianças. Lembro-me de você lendo os poemas e adorando aquele modo de dizer as coisas. 🙂 “

Na hora aquilo me ecooou. Era o nome do livro, perdido na memória. Provavelmente, algum apanhado de cantigas populares e poemas infantis, com ilustrações. Lembrei até de sua capa azul, com um menino naufragando numa canoa vermelha. Aliás, não sei se lembrei realmente, ou se invento. Mas, se eu inventei, agora é realidade. Com as facilidades de um blog, em vez de ter de mandar imprimir e encartar esse comentário, simplesmente o inseri aqui nesta nota.

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(2) Pesquisando pela internet, após me deparar com a lembrança evocada assim que comecei a escrever esse texto, encontrei o poema e descobri seu autor, Elias José, um escritor e professor mineiro, falecido em Santos em 2008. Eis o poema a que me refiro:

Três tias

Tuca
Teresa
Toninha
Três tias
Todo tempo tricotando
Tanto tempo
Tal tarefa
Tricô tanto

Tuca
Teresa
Toninha
Três tias tagarelas
Tudo tentam
Tudo temem
Tanto tango
Tais tragédias
Tais trejeitos
Tudo treme

Tuca
Teresa
Toninha
Três tias
Tão tiranas
Todavia três tias
Tão ternas.

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