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Posts Tagged ‘Infância’

Leio em loop infinito os versos que recebi hoje de minha irmã. Releio-os numa felicidade de imensidões. Eu, que me sei poeta e escritor por sua influência. Por desejar também ter cadernos pautados para jogar com a linguagem. Numa desmedida de ternura, quando os todos caminhos parecem abertos e transitáveis. Se bem que já havia tendências nesse tempo, quando você tinha pouco mais do que nove anos e eu, quase doze. Você tinha a altura e a intensidade de uma linguagem esgarçada pelo trágico. Eu arquitetava formas, engendrava desgastadas rimas e me divertia em impor regras para constranger a liberdade absoluta do dizer. Se a poesia em você eram jorros de metáforas dilaceradas nas asas dos pássaros, para mim valia a diversão de pôr palavras num pilão e extrair-lhes os óleos do inabitual.

Que dizer desse caminhar que, ao mesmo tempo, é solidão e partilha? Ouvimos de Drummond um conselho sobre os poemas: “Espera que cada um se realize e consume / com seu poder de palavra / e seu poder de silêncio.” E o silêncio é um outro nome para a solidão. Por isso o poeta das sete faces nos diz também: “Penetra surdamente no reino das palavras.” No entanto, poetas tocam o incomunicável para voltear e dar a ver o lodo das palavras, essas metáforas gastas, repletas de histórias e corruptelas. Para sentar junto na fogueira dos tempos e cantar sobre essas descobertas. A solitária escrita deseja a leitura, almeja o encontro.

E nosso encontro precede à palavra. Nasce anterior ao verbo. Remete a signos ainda cindidos, significantes com cambiantes significados. O logos do afeto nos guiou os passos. E, por graça e obra da vida, caminhamos num mesmo sentido, mesmo que por caminhos diversos. E sob a égide dos versos, das metáforas e da poesia espargida, fizemos o pacto dessa fraternidade. Juntos seguimos. Sempre, sempre, sempre, e cada vez mais.

Com um amor que precede e transcende o verbo, te amo, minha irmã!

Betinha e uma caneta profética vaticinando uma vida entre palavras.

Betinha e uma caneta profética vaticinando uma vida entre palavras.

Irmão

A linguagem nele
irradiou nos seres e nos objetos
concebeu uma gramática
em mim, labiríntica.
Chamei-o estruturalista
porque vejo em modo macro
sondada por sensações.
Minha razão encadeando
elementos assombrados
meu irmão operando ideias
com lógica e afeto.
Razões obsedadas
uma tremenda ternura
capricorniana
confusa confusa
em viver de signos.
Versus
o canceriano imenso
que pensa desde a palavra:
penso desde a palavra.
O mundo fizemos
um pacto
desta fraternidade.

Roberta Tostes Daniel

 

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Tendo por detrás um mundo arrasado, ele segue adiante. Leva em si uma síntese de toda a humanidade, capitaneada por uma brincante esperança — crer no amanhã é um jogo de todos os dias.

A loucura estúpida da guerra transmutou em pó e ruínas o concreto de seus dias. O céu absurdamente azul agride o cinza fumegante dos escombros e a rubra ideia de vermelho do sangue derramado. Ainda assim, ele ostenta um frágil sorriso. E brinca com a leveza e o equilíbrio precário de um balão rosa jogado no ar.

Sua imagem me chegou sem aviso e exigiu de mim o silêncio que há em cada palavra. Pediu ainda o vazio do espaço não preenchido dentro e entre cada letra. E foi um silente pedido com urgências. Pedido perdido de assombro, de espanto. Do espanto que produz palavras que não logram alcançar a delicada dureza da imagem sobre a qual falam.

Quem é? Está sozinho? Tem nome? Tem sonhos? Não ouso sequer dar-lhe uma história. Suponho antes da palavra. Imagino que, talvez, a dele já lhe pese um tanto, como a de todos nós, que tateamos finitudes. E prefiro ficar com o instantâneo de sua alegria lúcida e de sua lúdica ação comum a todo infante — e que bem poderia também ser comum a todos nós, homines ludens: ganhar alturas com o arremesso de uma bola.

Foto: القدس - alquds (Periódico)

Foto: القدس – alquds (Periódico)

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Para ter a experiência primeva da chuva, talvez seja necessário esvaziá-la do nome. E apenas abandonar o corpo às águas que caem do alto do céu terrestre. Como bicho, dar-se à umidade do dia. Como infante, abrir os braços transido de encantamento e espanto.

Creio ser preciso ter passos vacilantes para viver a chuva. Não dizê-la: gritá-la. Não sabê-la: intuí-la. Não analisá-la: cantá-la em ritos pagãos. Diluir a água do próprio corpo nas águas vindas dos céus. Invocar seus pingos como se evocam deuses. Ou espíritos ancestrais. E dançar uma amplidão que se derrama em todo onde. Quiçá eu tenha aprendido isso quando fui chuva…

Não existem chuvas inocentes, no entanto. Elas são potências da natureza. São alento ou tempestade. Afetam-se pelo humano. E afetam o homem… Mas estão além de nossas forças para contê-la ou evocá-la. Carregam em si os gérmens da fecundidade e do terror. Aplacam sedes ancestrais, mas também arrasam casas. Fazem evolar a fertilidade da terra, mas também destroem plantações. Alimentam os corpos de toda vida, mas podem apodrecer raízes. E o humano intui isso antes do verbo, à maneira dos bichos.

Vivemos hoje, porém, um tempo que deseja ardentemente por chuva. Água se espalhando pelos desvãos da secura. Fecundando chãos e ideias. Alimentando raízes e horizontes. Creio que, por isso, toda chuva soe como dádiva. E todo encantamento do corpo ante o aquoso do mundo ressoe como êxtase.

Uns versos me revelam: “e quando faz sol — brilha / desejo de chuva”*. Neste momento, evoco-os como quem invoca, das nuvens, a água rara que transita pelos céus. Ou o deus dos sem deuses.

______

*Nydia Bonetti

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Felice: Mirco, você enxerga?
Mirco: Sim. E desde quando você é assim?
F: Desde que nasci. Como são as cores?
M: São lindas.
F: Qual é a sua predileta?
M: O azul.
F: Como é o azul?
M: É como quando anda de bicicleta e o vento bate na sua cara. Ou também é como o mar. O marrom… sinta isso. É como a casca desta árvore. Sente como é áspera?
F: Muito áspera. E o vermelho?
M: O vermelho é como o fogo. Como o céu no pôr-do-sol.
(Do filme “Vermelho como o céu”)

Estamos atentos aos detalhes todos do mundo que podemos perceber? A tudo que o mundo nos oferta? A tudo que ele pode nos dizer? Que lugar cada coisa, pessoa ou memória ocupa em nossos afetos e percepções? É difícil não se fazer essas perguntas depois de assistir a “Vermelho como o céu”. E, principalmente, é difícil não se arrebatar pelo filme de Cristiano Bortone, que conta a história de um menino que em 1970 perde a visão num acidente e, por falta de opção, já que as escolas italianas não aceitam cegos entre seus alunos (testemunho de que a educação inclusiva é recentíssima), acaba enviado para uma instituição de ensino “apropriada” em Gênova, longe de sua família e de sua cidade.

imgsemanario0005Inspirado na vida de Mirco Mencacci, editor de som do cinema italiano, o filme passa distante das edificantes e previsíveis histórias de superação. O espectador assiste a uma celebração da imaginação, dos sonhos e dos sentidos, enquanto acompanha as descobertas do pequeno Mirco em sua nova condição. E é provocado o tempo todo, seja pela grandiosidade da dimensão onírica — que ganha na tela traduções imagéticas, a partir dos sons de que o menino passa a se valer para dizer sobre o mundo –, seja pelas indagações ditas pelos próprios personagens, diante de suas dúvidas e abismos. Indagações sutis como a do professor que, ante a recusa de Mirco em aceitar que não mais enxerga e a participar de uma tarefa proposta em sala — tocar, cheirar e sentir objetos variados –, diz-lhe simplesmente:

— Eu também enxergo, mas não é suficiente. Quando vê uma flor, não quer cheirá-la? Ou quando neva, não quer andar sobre a neve branca? Tocá-la, senti-la derreter nas mãos? Vou lhe contar um segredo. Algo que notei vendo os músicos tocarem. Eles fecham os olhos. Sabe por quê? Para sentir a música mais intensamente. Pois a música se transforma, se torna maior, as notas ficam mais intensas. Como se a música fosse uma sensação física. Você tem cinco sentidos. Por que usar só um deles?

Ao se apropriar de um gravador, primeiramente surrupiado da sala dos professores — e depois veladamente ‘cedido’ por seu professor — Mirco passa a explorar a dimensão sonora de sua imaginação. Os resultados de suas investigações são de tal forma surpreendentes, que acabam por arregimentar os que estão ao seu redor.

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E neste aspecto “Vermelho como o céu” tem uma dimensão política irrefutável. Aliando doses suficientes de coragem e talento, Mirco, um menino que acabara de ficar cego e de chegar a um ambiente estranho — e por vezes hostil –, termina por promover mudanças na instituição antiquada e um tanto castradora que o recebera. Para além da fragilidade óbvia, uma força insuspeita irrompe deste personagem. Contagia a muitos. E promove mudanças. Como que a nos indagar se estamos prontos para sermos a mudança que queremos ver no mundo.

Não sei se, neste ponto, a história de Mirco Balleri, o personagem, se confunde com a história de Mirco Mencacci, a pessoa real em cuja história o filme se baseia. Mas os acontecimentos de “Vermelho como o céu” não precisam ser verdadeiros. Para que a história se sustente, basta que sejam verossímeis. E não é possível descrer da sucessão de eventos que leva a surpreendentes mudanças nos rumos daquele colégio, e de tantos personagens que trabalham nele, habitam-no e, com tijolos de si, constroem aquele lugar.

“Vermelho como o céu” foi uma surpresa do último domingo. Assisti-lhe sabendo apenas que era um filme sobre um menino que fica cego e enfrenta dificuldades para continuar estudando. De repente, ele tomou dimensão de deslumbramento. O filme leva às lágrimas, mas não pela constatação das durezas da condição humana. Chorei no final por um inominado sentimento de celebração e gratidão à vida. E a todas as suas potências criadoras.

Evoé!

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Deixo abaixo uma versão legendada de “Vermelho como o céu” que encontrei no youtube quando comecei a escrever sobre o filme:

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Gesú: Mãe, vamos no shopping tomar sorvete?

Maria: Minha Nossa Senhora! Ô Zuzinho, sossega. Vamos na sorveteria aqui da esquina, mesmo.

G: Mas tá quente, mãe. E no shopping tem arzinho gelado.

M: Não podemos, filho.

G: Ah! Por favor, mãe!

M: Um doutor proibiu. Agora, é mais fácil conseguir empréstimo em banco do que comprovar renda pra entrar em shopping.

G: Ah! Mas é rapidinho, mãe. A gente toma um sorvete, dá um rolezinho e volta.

M: Menino, não fale uma coisa dessas! Foi isso mesmo que o doutor proibiu: rolezinho no shopping.

G: Por quê?

M: Sei lá eu. Acho que tava dando confusão. Só sei é que a polícia agora fica lá pra vigiar e pegar o comprovante de renda de quem entra no shopping. Se não comprovar renda, é preso.

G: Mas a polícia pega de todo mundo que vai dar um rolezinho?

M: De todo mundo não. Só de quem tem cara de pobre. Se a polícia me pega e descobre que eu não tenho como comprovar renda, que eu faço faxina na casa dos outros… Melhor nem pensar nisso!

G: Mas como a polícia sabe quem tem cara de pobre? Como é cara de pobre, mãe?

M: Ai, como você é perguntador, menino. Não sei explicar essas coisas difíceis, não. Cara de pobre é uma cara assim, que nem a nossa.

G: E a gente nunca mais vai poder ir no shopping?

M: Só se a gente mudar de cara, moleque! (Risos. Depois, silêncio reflexivo.) Não, Zuzinho, só enquanto o pessoal tiver falando disso. Daqui a pouco, tudo volta ao normal, aí a gente vai poder ir no shopping de novo.

G: Ah! Mas quem tirou as coisas do normal justo no calor? Queria ir lá hoje tomar sorvete.

M: Filho, presta atenção numa coisa. Você é pequeno, mas é de pequenino que se torce o pepino. Então aprende que gente como a gente tem de saber o nosso lugar…

G: E qual é o nosso lugar, mãe?

M: Deixa de fazer perguntas difíceis, menino! Mas aprende isso: pobre que não sabe o seu lugar vira bandido. E eu não quero criar filho meu pra virar bandido, não, viu?

G: Vi, mãe!

M: Promete?

G: Prometo! (Silêncio.) Mas no próximo verão a gente vai poder ir no shopping tomar sorvete?

Observação: O diálogo acima pode ser inverossímil. Mas a realidade é bem mais (ver processo 1001597-90.2014.8.26.0100 e íntegra da decisão). E, por fim, não há como não lembrar do Gonzaguinha, numa hora dessas:

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Esperava o sushi na mesa quase do lado de fora do restaurante, um pequeno restaurante japonês no estacionamento de um hipermercado a poucos metros da Avenida Paulista. Estava de costas para o estacionamento e para rua. Os olhos estavam voltados para o interior do restaurante e seu movimento de pessoas apressadas. O olhar, no entanto, se mantinha voltado para dentro, mirando paragens, cartografias, tons e ruínas do íntimo.

Não pensava no trabalho — nem no realizado, nem naquele que me esperava. Acho que eu vagava entre desejos, esperanças e escombros. Estava tão dentro de mim, que não via o movimento, não notava a demora do sushi, nem a realidade à minha volta.

Súbito, a realidade toca em meu ombro direito e me chama:

— Tio, você tem um trocado pra me ajudar pra eu comprar (o que?) para o meu irmão?

A realidade era pequenina, como sua voz. Tinha o nariz sujo e uma espontaneidade na forma de pedir sem gaguejar. Falava baixo, como convinha a uma realidade pedinte, ainda mais sendo tão desprovida de tamanho. A realidade — um menino de pouco mais de seis anos, creio eu — não estava sozinha. Vinha acompanhada de outra realidade, provavelmente o irmão, igualmente com o nariz sujo, mas com o olhar assustado de quem certamente não saberia pedir sem gaguejar. Aquela realidade ainda menor, que não devia ter acompanhado mais do que quatro primaveras, segurava uma nota de um real, que às vezes era levada à boca.

O repentino encontro com aquelas realidadezinhas de narizes sujos me assustou. Elas chegaram silenciosas e sorrateiras e, com a voz mansa e macia, me arrancaram violentamente de meu mundo. O susto, que me fez retesar o corpo e empalidecer, chegou-me logo ao toque sutil da mãozinha da realidade em meu ombro. Naquele instante, conheci o pavor das feras despertadas de seus sonos pela iminência dos perigos selvagens.

Visivelmente confuso, gaguejando bastante, talvez reaprendendo ali mesmo, no improviso da hora inesperada, a encaixar na minha fala os eixos sintagmático e paradigmático da língua (onde estaria Barthes e seus elementos de semiologia?), respondi:

— Aqui comigo, eu não tenho nem dinheiro nenhum, não.

Aquela realidade diminuta sorriu, com olhos e lábios, achando graça do ocorrido, embora a muito custo tentasse demonstrar alguma seriedade. Aquele sorriso não era do pedinte, mas da criança que extrai graça a um acontecido. A realidade menorzinha não sorriu, parecia ainda mais assustada com meus olhos empalidecidos de susto. A essa altura, já recobrei a cor e imaginava que gosto teria aquela nota verde na boca da criancinha. O menino maior, que conduz seu irmão, ensaia entrar no restaurante. Percebe, no entanto, que logo será enxotado dali, afinal, clientes tão ocupados com suas próprias realidades objetivas, com seus trabalhos, seus negócios, seus laudos, números, sistemas e cifrões, não podem ser importunados por aquelas nanicas realidadezinhas pedintes. Talvez somente eu, que estava tão dentro de mim e tão fora do mundo, pudesse ser abordado àquela hora. Então, o menino perde o jeito sério de pedinte e põe molecagem infantil em seus olhinhos. Vira para mim já se rindo e me pergunta:

— Você levou o maior susto, né?

Sorrio, mas antes que eu responda uma voz donde emana autoridade e coerção aborda aqueles seres reais:

— Onde estão seus pais que não estão acompanhando vocês?

— Tá ali, ó — aponta o maior.

— Me leva lá pra eu poder conversar com eles.

É o segurança do estacionamento, creio eu. Tenta coibir a exploração infantil ao mesmo tempo em que impede que a realidade dos clientes do hipermercado, incluindo aí os clientes do restaurante que fica em suas dependências, seja disturbada por quaisquer realidades mendicantes. Talvez até conheça os pais daquelas crianças. O maior, com toda desenvoltura, ainda tenta contornar a situação. Os olhinhos do menor, no entanto, ficam ainda mais assustados e sua boquinha morde com sofreguidão a nota verdinha de um real que ele conserva em mãos. Certamente pela pressão dos que exploram a sujeira de seus narizes pedintes, mas também pela necessidade de sobreviver, aquele serzinho aprende, com lições duras e de sabor amargo, qual o valor do dinheiro.

Ainda meio atônito com a rapidez do ocorrido, não olho para trás. Apenas meus pensamentos se despedem daquelas realidades tão pequerruchas. Ou nem isso, pois meus pensamentos, antes alheios ao que me circundava, não conseguem se desvencilhar daquela súbita invasão da realidade. Não volto logo para dentro de mim, e mesmo quando o faço, não retorno mais aos pensamentos de desejos e ruínas que me alheavam e ensimesmavam. Em vez disso, começo a imaginar como seria um insólito convite àquelas realidades para que almoçassem comigo. Esse pensamento me chega junto com o meu sushi. Fico a imaginar como seria ensinar àqueles serezinhos a usar o hashi para pegar aquelas trouxinhas de salmão cru com arroz, para colocar o gengibre sobre os sushis e mergulhá-los no shoyu. Assim, compartilharíamos boas gargalhadas com as bagunças e as tentativas malogradas. Não… Isso não faz parte da realidade, concluo. É apenas um devaneio meu.

Queria, no entanto, ter ofertado algo mais do que o meu susto àquelas criaturazinhas. Não que o meu susto tenha sido oferta sem valor algum, já que despertou um pequeno riso. Sim, não foi pouco, pois involuntariamente eu ofertei um motivo para sorrir. E foi um riso gostoso de criança, espremido e sufocado diante do rito formal que a ocasião exigia — já que não é usual que sorriam os pedintes. Acho que fiquei até com saudades daqueles narizes sujinhos, das outras risadas que imaginei que poderíamos dar juntos, ante o afogamento de um sushi no shoyu.

Via-me envolto nestes pensamentos enquanto tentava conduzir um pouco do gengibre para cima de um sushi com o hashi. Mas não estava totalmente alheado da realidade circundante. Na mesa ao lado, duas mulheres falavam de negócios, números e contratos. O sushiman pegava mais uma posta de salmão para fatiar. Eu quase afoguei meu sushi outra vez…

Neste instante, reparo que outra realidade se aproxima. É uma menina de uns doze anos, idade de Otoyo, personagem de “O Barba Ruiva”, de Kurosawa, que protagoniza a mais bela cena que eu vi até hoje no cinema ao lado de seu novo amigo Chobo, de sete anos, em que este, em meio a um varal de roupas estendidas, dá-lhe pirulitos roubados por ela tê-lo deixado escapar quando ele roubara uma tigela de sopa de aveias da clínica Koshikawa. Esta Otoyo que se aproxima tem traços nordestinos e carrega nas costas uma sacola. Não tem nariz sujo como os daquelas duas realidadezinhas que me abordaram pouco antes, mas suas roupas estão um pouco sujas. Ela percebe que a olho e, não sei se pela proximidade ou se por eu ter sido o primeiro ali a notar-lhe a presença, ela, sem rodeios, pede-me para eu lhe pagar um refrigerante.

— Pode pedir lá dentro — respondo timidamente.

Ela entra, pede o que lhe apraz à dona do restaurante, que fica no caixa, e aponta para minha mesa. Aceno positivamente com a cabeça e com um sorriso. Não reparo com que refrigerante ela sai de dentro do restaurante. Ela sai apressada, como pressentindo que ali não é seu lugar e que somente o acaso a pôs ali dentro. Mas na saída, olha para mim e diz:

— Obrigada! Deus lhe pague!

Como resposta eu apenas sorrio. Os papéis, embora ninguém notasse, estavam invertidos. Era eu quem devia lhe agradecer, pois não é sempre que um raio de realidade cai duas vezes sobre o mesmo lugar e muito menos freqüente ainda é a materialização súbita de nossos devaneios. Penso nisso enquanto a Otoyo nordestina alcança uma saída lateral no estacionamento e some numa rua paralela à Avenida Paulista, a duas quadras do coração de São Paulo.

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