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Posts Tagged ‘Identidade’

Diante da força de um escrito, em algumas condições nos esquecemos de que quem escreve o faz a partir do lugar que ocupa no mundo. A aristocracia periférica de um Jorge Luis (Borges), escritor ao mesmo tempo europeu e argentino; o provincianismo de um menino de Cordisburgo chamado João (Guimarães Rosa), capaz de colocar muita filosofia na boca de seus personagens sertanejos; e a origem negra de um certo Joaquim Maria (Machado de Assis), cuja cor foi desbotada nos livros de história da literatura, importam menos, quando eles são lidos, do que a chamada “grandeza universal” de suas obras. Mesmo quando elas têm cores essencialmente regionais.

O mesmo não ocorre com quem não pode ter seus traços tão facilmente apagados na estrutura da sociedade. A cor de um Afonso Henrique (de Lima Barreto), a sexualidade de um Caio (Fernando Abreu), o gênero de uma Cecília (Meireles) ensejam muito frequentemente debates sobre o lugar que ocupam e a partir do qual escrevem. Por quê?

Parece-me muito evidente que a literatura escrita por homens cisgêneros, brancos (ou embranquecidos) e heterossexuais é recebida como literatura universal. E o que é escrito por mulheres, por transexuais, por gays ou por negros, o que seria? Se, por um lado, a análise a partir do lugar de enunciação de quem escreve só costuma valer para quem ocupa lugares periféricos na própria periferia do capitalismo que é o nosso país, por outro marca um ato de resistência, ao demonstrar que a humanidade se engendra, complexa e plural, em todos, e que existem vozes imensas relegadas a um absurdo silêncio.

O livro “Olhos d’Água”, de Conceição Evaristo, pode ser visto como uma realização estética dessa resistência, ao ressoar a voz de uma multidão habitualmente silenciada. Uma multidão de mulheres negras e de filhos dessas mulheres. O que ouvimos é a sua humanidade, e não a voz de um esteriótipo engessado, de um personagem-tipo cobaia de teses sociológicas.

Antes que o leitor enverede por qualquer história, a primeira frase da Introdução à obra, escrita por Jurema Werneck, já adverte que “A mulher negra tem muitas formas de estar no mundo (todos têm).” Parece óbvio, mas alguns de nós temos o privilégio de nos esquecemos disso com assustadora frequência, porque podemos apagar a própria existência dessas mulheres. No entanto, a literatura de Conceição Evaristo é um grito de resistência que nos recorda desse fato e dessas vidas.

Com um realismo complexo e repleto de poesia, mas às vezes narrando alegorias míticas, nos encontramos com um enorme caleidoscópio de mulheres de todas as idades: Ana, Duzu, Maria, Natalina, Salinda, Luamanda, Cida, Zaíta, Bica. Enquanto algumas dessas mulheres morrem de balas achadas ou perdidas, outras fazem cooper em Copacabana antes do trabalho. Há as que choram seus maridos mortos, as que são linchadas e as que amam — seus homens ou suas mulheres. Uma aborta e depois aluga seu ventre. Outra realiza uma viagem em busca da lembrança da cor dos olhos de suas mães…

conceicao-evaristoCuriosamente não tem nome a mulher que faz essa viagem, ao mesmo tempo íntima e mensurável em quilômetros, de retorno a Minas, após acordar bruscamente se perguntando de que cor eram os olhos de sua mãe, no belíssimo primeiro conto que nomeia o livro. Talvez o nome dessa personagem seja Conceição. Pelo menos, na minha liberdade leitora, foi assim que a chamei, lutando, no entanto, para não confundir a personagem com sua criadora. Isso porque Conceição Evaristo, a autora, reside hoje no Rio, onde se formou em Letras pela UFRJ e se tornou mestra e doutora em Literatura, mas nasceu e cresceu numa favela em Belo Horizonte.

Seu “Olhos d’Água” traz múltiplas histórias, repletas de intensidades por vezes brutais e doridas, protagonizadas por mulheres negras, como a autora, numa feliz conjunção entre o lugar de enunciação e a voz que artisticamente se produz. Não cabe a mim validar qualquer experiência. Na posição de leitor, o que desejo aqui é dizer como me chegaram os ecos das histórias desse livro, histórias que precisam ser lidas, pois certamente necessitavam ser escritas e, no conjunto, testemunham que cada mulher negra, sobre quem geralmente não se fala e a quem raramente se dá voz, carrega em si um universo, um infinito particular. Isso é óbvio, mas nem sempre é fácil enxergar o óbvio. Ainda mais quando ele é esmaecido pela naturalização do silêncio sobre muitas vidas.

Termino esse pequeno itinerário de leitura partilhando o assombro e o alumbramento que me trouxe o final do conto “A gente combinamos de não morrer”, por sua belíssima ode à palavra, afirmando que a escrita também pode ser um lugar.

E fui escrevendo mais e mais. (…) Na verdade, naquele momento, eu já estava arrependida e queria voltar para o meu lugar. Se é que tenho algum. Mas escrever funciona para mim como uma febre incontrolável, que arde, arde, arde… (…) Gosto de escrever palavras inteiras, cortadas, compostas, frases, não frases. Gosto de ver as palavras plenas de sentido ou carregadas de vazio dependuradas no varal da linha. Palavras caídas, apanhadas, surgidas, inventadas na corda bamba da vida. Outro dia, tarde da noite, ouvi um escritor dizer que ficava perplexo diante da fome do mundo. Perplexo! Eu pedi para ele ter a bondade, a caridade cristã e que incluísse ali todos os tipos de fome, inclusive a minha, que pode ser diferente da fome dos meus.

(…)

Minha mãe sempre costurou a vida com fios de ferro. Tenho fome, outra fome. Meu leite jorra para o alimento de meu filho e de filhos alheios. Quero contagiar de esperanças outras bocas. (…) Lá fora a sonata seca continua explodindo balas. Neste momento, corpos caídos no chão, devem estar esvaindo em sangue. Eu aqui escrevo e relembro um verso que li um dia. “Escrever é uma maneira de sangrar”. Acrescento: e de muito sangrar, muito e muito…

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O homem que diz “sou” não é
Porque quem é mesmo é “não sou”
(Vinicius de Moraes / Baden Powell – Canto de Ossanha)

Fabrico coletivamente um
indivíduo.
Importo peças do outro
lado múltiplo do ego.

Escolho ou subverto
predefinições.
Enquanto o tempo corporalmente escorre,
crio-me e retalho-me;

logos sou.
Laboro-me e me elaboro
pela tão íntima
palavra pública.

Torno-me
torno-me
entorno-me
sem nunca

no entanto vir a ser.

Pintura em Tela - Magda Colares

Magda Colares – Pintura em Tela

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Neste dia 29 de janeiro, quero me juntar a vozes quotidianamente caladas que pedem ouvidos que ouçam. Vozes de pessoas que passam invisíveis por nós, sem que tenhamos olhos de vê-las. Gostaria que este texto conseguisse propagar, por transdução, esse grito contido — levando adiante a força e a emissão dessas vozes sem alterá-las.

Hoje, celebra-se o Dia da Visibilidade Trans*, data que alude ao lançamento da primeira campanha contra a transfobia no país. Aproximei-me das pautas de pessoas trangêneras ao começar a pesquisar sobre o tema, por causa de um projeto literário. Mas conhecer as questões ligadas às chamadas identidades trans* é — que bom! — um caminho sem retorno. Em primeiro lugar, por ser impossível a indiferença ao conhecermos a urgência de suas pautas e a negação sistemática (ou, melhor dizendo, “cistemática”) de quase todos os aspectos ligados à sua cidadania. Em segundo lugar, por tornar-se impossível aceitar como natureza os diversos elementos que engendram nossa identidade e nosso ser no mundo.

No propósito de me unir às vozes e às pautas trans*, esbarrei numa questão: em que poderia eu, um homem cisgênero, casado com uma mulher também cisgênera, contribuir com a questão? E, sobretudo, o que poderia eu falar da condição transgênera? Temendo cair em abismos, pensei que talvez o melhor que eu poderia fazer seria falar sobre a cisgeneridade, que é o meu lugar de fala no mundo, e sobre o meu espanto ao descobrir que existe um desconforto de pessoas cis em serem identificadas como cisgêneras.

Até há bem pouco tempo, eu não me sabia um homem cisgênero. Como a maior parte das pessoas cis, eu simplesmente ignorava esse termo. Isso equivale a dizer que, aos meus olhos, a minha identidade era experimentada como uma espécie de natureza. Isso não quer, no entanto, dizer que eu ignorasse que houvesse homens e mulheres trans*.

Para mim, reconhecer a cisgeneridade é um ato político. É compreender, em primeiro lugar, que eu ocupo um lugar específico no mundo, que tenho privilégios específicos por conta disso e que é a partir desse lugar discursivo que meu olhar se conforma. É, ainda, não aceitar como uma natureza a construção de minha identidade. E é, também, reconhecer minha liberdade para me determinar perante o mundo.

Eu sou alguém a quem todos sempre identificaram como pertencente ao gênero masculino e me identifico dessa forma. Mas, ao reconhecer que isso é uma construção, ganho ferramentas para questionar certos papéis que me são atribuídos pelo simples fato de eu ser homem cisgênero e heterossexual. Papéis esses que fazem com que alguns direitos que tenho, e que deveriam ser comuns a toda e qualquer pessoa, sejam, na verdade, privilégios.

Para mulheres ligadas às pautas feministas, esses questionamentos não são uma novidade, uma vez que o feminismo também questiona a suposta natureza feminina e os papéis de gênero designados a homens e mulheres. Essa, inclusive, não é uma discussão nova no feminismo. Logo no início de “O Segundo Sexo”, Simone de Beauvoir já aborda questão:

“Se a função de fêmea não basta para definir a mulher, se nos recusamos também a explicá-la pelo “eterno feminino” e se, no entanto, admitimos, ainda que provisoriamente, que há mulheres na terra, teremos que formular a pergunta: o que é uma mulher?”

O mesmo também me parece valer para o movimento gay. A homossexualidade já foi considerada um crime e isso se refletia na linguagem. O mundo que via a prática homossexual como delito costumava se referir a ela pelo termo pederastia. Como homossexualismo, figurou na Classificação Internacional de Doenças (CID) da Organização Mundial de Saúde, sob o número 320.0, até 1990, ou seja, até há muito pouco tempo. E o desejo por alguém do mesmo gênero não seria um comportamento esperado, pelos papéis heteronormativos destinados a homens e mulheres. Contra a naturalização da heteronormatividade se insurge o movimento gay.

É neste ponto que o meu espanto pela oposição ao termo cisgênero se dá. Existe um discurso dominante transfóbico que desconsidera a existência de homens e mulheres trans*. Essa lógica, espalhada e naturalizada pelo senso comum, considera que homens trans* seriam falsos homens, assim como mulheres trans* seriam falsas mulheres. Esse tipo de pensamento está impregnado na fala quotidiana. Mas também, de forma mais sutil, está presente no discurso médico cissexista, que designa como doente mental ou transtornada a pessoa que apresenta uma identidade transgênera — ou seja, uma identidade desconforme com o gênero que lhe foi atribuído ao nascer.

Vejo o uso do termo cisgênero, que teve início no interior da comunidade trans*, como um fenômeno linguístico que abre a possibilidade de contestação da normatividade cisgênera — ou cisnormatividade. E os diversos modos de tentar silenciar esse uso contribuem para a oposição de pessoas transgêneras a pessoas normais. Por isso, não consigo entender que pessoas cisgêneras, aparentemente inseridas em lutas a favor de grupos oprimidos, recusem o termo cisgênero como se ele fosse um absurdo, ou até uma ofensa, sem atentar para as consequências disso. Deslegitimar o termo cisgeneridade é continuar aceitando que existam as pessoas trans* e as… biológicas! Uma outra forma de dizer normais, opondo a suposta “natureza” da pessoa cisgênera a uma espécie de engodo ou artificialidade dos corpos das pessoas trans.

Quando não aceitamos a cisgeneridade, reafirmamos discursivamente que pessoas trans* são anormais, doentes. Ou ainda, lhes negamos mais uma vez o direito à existência. Aliás, existe toda uma construção social que aceita a cisgeneridade (essa coisa sobre a qual não se deve falar!) como uma norma compulsória — ou um “cistema”, como dizem as pessoas ligadas ao movimento trans*. Esse mesmo cistema que aceita como evidência natural a cisgeneridade compulsória designa as identidades trans* como uma doença. Sim, a transexualidade (designada patologicamente como transexualismo) é ainda considerada um transtorno mental e tem um número na atual Classificação Internacional de Doenças (CID-10): F64.0.

Quem argumenta que o termo cisgênero engendra um novo par opositivo (cisgênero/transgênero), construído de forma hierárquica e dicotômica, ou então que não seria possível designar a pessoa cisgênera como aquela que se adéqua às suas expectativas de gênero porque ninguém se encaixa totalmente a elas — como se o termo cisgênero significasse isso — me parece ignorar tanto onde se irrompe a noção de cisgeneridade quanto seu significado usual. Essa noção se movimenta dentro de discursos que consideram fluidas as categorias de gênero e que reconhecem a autodeterminação como um direito humano.

O termo cisgênero simplesmente designa o sujeito que se identifica como pertencente ao gênero que lhe foi designado ao nascer. Ele circuscreve a alteridade para o transgênero. Define o “Outro” e, por oposição, o próprio sujeito que fala. E, o que é mais importante, ele sinaliza que as pessoas trangêneras são sujeitos do discurso sobre si mesmas, e não objetos de análise definidos de fora de suas vivências.

Além disso, diferente do que algumas críticas costumam afirmar, a cisgeneridade não se refere a pessoas que se adequam à expectativa de seu gênero. Até porque o discurso de onde essa palavra emerge compreende o gênero como uma construção. Ele é, portanto, amplo e plural para sujeitos cisgêneros, trangêneros ou não-binários. O que frequentemente ocorre, porém, é que nós nos esquecemos de que nossa identidade nunca é fixa, que se trata sim de uma construção contínua, o que é válido tanto para pessoas cis como para trans*. Mas as pessoas que têm formas de proceder ou identidades esperadas e naturalizadas não são questionadas sobre quando se perceberam ou se tornaram aquilo que são.

Site Transfeminismo.com

Site Transfeminismo.com

Não vejo como é possível conceber e aceitar como naturais a exclusão e a invisibilidade das identidades trans*. E, para mim, o silêncio em torno da cisgeneridade está intimamente ligado a isso. Como aponta a Bia Bagagli num texto intitulado Cisgeneridade e Silêncio, “podemos entender que o silêncio funda a cisgeneridade”. “Esse silêncio”, ela aponta, “se dá ao mesmo tempo em que produz coerências e inteligibilidades às identidades dos sujeitos cisgêneros e interdições à plena identificação de gênero aos sujeitos transgêneros”.

Conhecer minimamente a transfobia generalizada em nossa sociedade me impele à luta pela quebra desse silêncio. Por essa razão, me uno hoje à blogagem coletiva pela visibilidade trans*, convocada pelo site Transfeminismo. Porque reconheço os privilégios advindos de minha posição de homem cisgênero heterossexual e sei da exclusão e da violência diariamente enfrentadas por pessoas transgêneras, julgo que não tenho o direito de lavar as minhas mãos e contribuir com a perpetuação desse silêncio…

Chamada de uma blogagem coletiva pela visibilidade trans*, feita pelo site Transfeminismo.com

Veja a chamada para uma blogagem coletiva pela visibilidade trans*, feita pelo site Transfeminismo.com


Nota: Reconheço aqui minha dívida, durante a escritura deste texto, à leitura ou à releitura de alguns escritos da Bia Pagliarini Bagagli, da Hailey Kaas e da Viviane V., no site Transferminismo.com, e da Leila Dumaresq no blog Transliteração, que abordam o tema da cisgeneridade. Muito obrigado a elas e a tantas outras pessoas que tenho lido ultimamente e que me dão a oportunidade de compreender um pouco melhor sobre as vivências trans*.

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Recorro ao silêncio
sempre que busco a palavra
exata que fale do que sinto.
Nele
cabem todas
as possibilidades do sentir,
as perplexidades da existência,
as plenitudes do prazer,
os pesares do quotidiano.

As palavras brotam
depois que a líquida sensação
evapora e, cíclica,
se precipita no meu
solo.
Assim se renova
o húmus daquilo
que me concede
estar sendo Eu.

Minha tristeza
tem um filtro de nostalgia
colorindo suas paragens.
Minha alegria
tem um tom de inteireza
temperando sua afinação.

Assim eu sinto
o sabor das coisas longínquas,
o amargor dos finais
e o olor das manhãs
me fazendo outro

e o mesmo de mim.

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Íntimas paisagens

Viajo pelas íntimas paisagens
de minha alma exausta e maltrapilha.
Não soube de que deus a alma é filha
nem a vi nas edênicas paragens.

As coisas mais externas são bobagens;
a minha essência, nômade andarilha,
desnuda um deus qualquer enquanto trilha
os caminhos das íntimas viagens.

Sou singular em tudo quanto faço,
não há plural de mim no mundo inteiro,
ocupo muito mais que o meu espaço.

O olhar da divindade eu vejo enfim:
Quando me adentro feito um forasteiro
eu descubro o universo feito em mim.

Frida Kahlo - Raíces - 1943

Frida Kahlo – Raíces – 1943

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(em diálogo com Beatriz Pagliarini Bagagli)

Habitar com o corpo
uma falha discursiva
e resistir

mesmo que tudo diga que assim
não pode, não deve
existir.

Manter-se na pólis,
ainda que tacitamente
decretos de exílio

estejam publicados
na boca do povo,
na voz de um deus.

Lutar contra o controle
da singularidade dos sujeitos
sujeitando corpos – indóceis? –  a padrões

e domando a política dos quereres.
Permanecer atento para escutar
o que costura as bordas do Fora.

Opor-se ao arbítrio de normas,
interdições e regramentos
que não digam respeito às margens
de convívio com os outros.
Estar no Outro,

no diverso e no estranho.
Ser o provisório
universo do desejo,
o verso vermelho de carne
que sangra palavras.

Apropriar-se de si.

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Tendo por detrás um mundo arrasado, ele segue adiante. Leva em si uma síntese de toda a humanidade, capitaneada por uma brincante esperança — crer no amanhã é um jogo de todos os dias.

A loucura estúpida da guerra transmutou em pó e ruínas o concreto de seus dias. O céu absurdamente azul agride o cinza fumegante dos escombros e a rubra ideia de vermelho do sangue derramado. Ainda assim, ele ostenta um frágil sorriso. E brinca com a leveza e o equilíbrio precário de um balão rosa jogado no ar.

Sua imagem me chegou sem aviso e exigiu de mim o silêncio que há em cada palavra. Pediu ainda o vazio do espaço não preenchido dentro e entre cada letra. E foi um silente pedido com urgências. Pedido perdido de assombro, de espanto. Do espanto que produz palavras que não logram alcançar a delicada dureza da imagem sobre a qual falam.

Quem é? Está sozinho? Tem nome? Tem sonhos? Não ouso sequer dar-lhe uma história. Suponho antes da palavra. Imagino que, talvez, a dele já lhe pese um tanto, como a de todos nós, que tateamos finitudes. E prefiro ficar com o instantâneo de sua alegria lúcida e de sua lúdica ação comum a todo infante — e que bem poderia também ser comum a todos nós, homines ludens: ganhar alturas com o arremesso de uma bola.

Foto: القدس - alquds (Periódico)

Foto: القدس – alquds (Periódico)

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Publicado originalmente no Transfeminismo.com.

Quem acompanha o blog já deve ter percebido como a questão da linguagem para nós não é secundária. Desnaturalizar a transfobia significa questionar certos efeitos de sentidos que tomamos como evidência: sobre homens, mulheres e “os trans”. E toda vez que questionamos certos sentidos já dados sobre essas categorias (ou poderia dizer, identidades) a questão da língua entra inevitavelmente. E isso não significa que estamos falando sobre algum sentido sobre as palavras que estaria escondido que seria em última instância verdadeiro, e que a língua portanto seria uma abstração virtual que comportaria esse sentido unívoco para a prática política. Ao contrário, a política se dá na exata medida em que a língua é capaz de falhas. O que significa também entender que a prática política – assim como o discurso – é um processo sem começo nem fim pré-determinados.

Decidi que seria interessante publicar dois comentários que Teofilo Tostes Daniel fez em uma publicação pública no facebook de Daniela Andrade em uma discussão sobre a imagem da página Era de Cisperar. Apaguei algumas marcas de interlocução (os seus nomes) no texto a quem Teofilo estava se dirigindo, já que ele estava dialogando com outras pessoas no post. Mesmo assim, como podem ver, trata-se de um texto que merecia ser publicado para além dos efêmeros comentários do facebook.

Bia Pagliarini Bagagli

***

Retirado da página "Era de Cisperar"

Retirado da página “Era de Cisperar”

Minha leitura dessa imagem não me remete a possíveis erros, que certamente ocorrem, causados por desconhecimento — embora a língua não seja neutra e ela também guarda, em sua estrutura, os preconceitos da sociedade (basta lembrar que palavras como ídolo e gênio não têm feminino, e que, ao nos referirmos a um coletivo com pessoas variadas, utilizamos sempre marcas linguísticas no masculino). Eu sou uma pessoa cisgênera. Mesmo não estando no lugar de quem pode falar com alguma autoridade — pois não tenho a vivência transgênera, ou entre-gêneros –, vejo muitos estudos acadêmicos, supostamente sérios, reproduzindo… a ignorância.

Vale lembrar que as pessoas transgêneras sofrem de uma permanente invisibilidade em relação a vários aspectos da vida quotidiana. Aspectos que a nós, cisgêneros, parecem ‘normais’, como o fato de ninguém estranhar que meu nome na identidade difere da imagem que eu tenho e passo às pessoas no convívio social. Aliás, para ser o que sou não preciso de um atestado médico falando… que eu tenho um transtorno psiquiátrico!

E no caso da figura, há um agravante: a exclusão de pessoas trans* do espectro de homens e mulheres. Homens trans* são homens e mulheres trans* são mulheres. Parece tautológico ter de repetir isso, mas no atual estado de coisas, não é ainda. Claro, há também pessoas não-binárias. Mas trans* não são, necessariamente, uma categoria, ou um outro gênero, fora do gênero masculino ou feminino. Agora, se alguém “foi lá falar sobre gênero” — e eu leio esse lá da figura como o lugar do “legítimo” saber, do poder de dizer da taxonomia do mundo, lugar esse que comumente é ocupado por pessoas cisgêneras –, talvez fosse de “cisperar” que essa pessoa ao menos não reproduzisse o preconceito do senso-comum.

Além disso, a língua é uma construção, ela não muda por decreto. Muitas vezes alternativas irrompem para responder a um silêncio, a uma não-nomeação de algo que demanda um nome. Por exemplo, o termo cisgênero. Eu aprendi pela linguagem que tinha à época — cresci nos anos oitenta — que a oposição às pessoas transgêneras — que eu basicamente identificava como travestis — eram as pessoas… normais. Particularmente, eu não achava as travestis anormais. Mas minha estrutura de pensamento não dispunha senão do repertório linguístico que reproduzia a ideia de que as travestis — e, na verdade, qualquer pessoa transgênera — não era normal. Faltava-me exatamente a palavra cisgênero! Aliás, é sintomático que o corretor ortográfico automático do meu Google Chrome grife como errada a palavra cisgênero e não aponte erro na palavra transgênero. Tocando essa questão, vale muito a leitura desse texto magnífico, que mostra a relação entre o irrompimento da noção de cisgeneridade e a possibilidade (política) de contestação da normatividade cisgênera.

No caso dessa imagem do post: Por que alguém que vai falar sobre gênero não poderia dizer, por exemplo, “os homens, as mulheres e as pessoas não-binárias”? Simples, direto, inclusivo e, me parece, mais respeitoso com o estar-sendo de cada um.

Longe de mim dizer o que é certo e errado, sobretudo no campo da linguagem. Em especial no que deve ser ou não dito para se referir a pessoas trangêneras, tendo em vista que eu sou uma pessoa cisgênera e o que me cabe nesse campo, se eu quiser respeitar as pessoas trans* — e minha opção é sempre pelo respeito –, é estar atento a como as pessoas pedem que eu me refira a elas.

Vamos voltar um pouco no tempo, num tempo em que eu não era sequer nascido. No tempo dos meus avós, quando era comum pais esconderem em casa filhos deficientes — sobretudo com deficiência mental ou graves problemas físicos. Nesse tempo, era “aceitável” se referir a deficientes físicos como aleijados, coxos, mancos, aleijões, etc. E a deficientes mentais como retardados, mongóis, débeis, entre outras coisas.

Eu sou deficiente físico. Como cresci nos anos oitenta, só se referiam a mim como aleijado quando queriam me xingar — e há crueldade também entre as crianças. No entanto, não era sequer aceitável que numa conversa educada, alguém falasse de mim como “aquele aleijado”, ou “aquele coxo”. Mas nesse tempo, ainda não era tão incomum as pessoas se referirem, em conversas normais, a um deficiente mental como “mongol”, “débil” e até “retardado”. Hoje isso não é aceitável, e o comum é falar que alguém tem “deficiência mental”, ou designando pelo tipo de deficiência, como “down”, etc. Lendo o livro Holocausto Brasileiro, que conta a história do manicômio de Barbacena, o maior hospício do país no Século XX, onde mais de 60 mil internos morreram das formas mais horríveis — frio, fome, choque, etc. — é possível intuir sobre o porquê esse estigma perdurou mais.

Coincidentemente, com a mudança no uso quotidiano das palavras, vemos o crescimento da preocupação com a acessibilidade e com a educação inclusiva. E mesmo que estejamos muito longe de estarmos num mundo acessível, é nítido que as pessoas se constrangem quando se defrontam com a inacessibilidade dentro de seus próprios espaços — lojas, supermercados, etc.

Agora vamos pensar na forma de nos referirmos à homossexualidade. Esse paralelo que traço é para pensar grupos que sofrem com estigmas. Nos anos 80, era bem comum dizer que fulano era bicha, por exemplo. E também gay — que é uma palavra aceita, leve e que não tem um sentido de xingamento. Lésbicas eram invisíveis — conheci pessoas que sustentavam seriamente que não existiam lésbicas, e era só um “homem de verdade” chegar nelas, que elas “cederiam”.

Em contrapartida, a dicotomia não era entre os gays/bichas e os héteros, mas entre os gays e os normais. Lembro que em meados dos anos 90 é que os termos homo e heterossexuais passaram a ser mais usados. A primeira vez que eu ouvi o termo homofobia, por exemplo, deve ter sido lá para 96 e 97 — não estou falando do seu surgimento, claro, que eu nem sequer sei como foi. E é claro que, sendo hétero, provavelmente eu deva ter conhecido esse termo depois dos meus amigos gays.

Obviamente, ainda existe muito preconceito contra os homossexuais, que só recentemente vêm tendo alguma paridade (ainda precária) de direitos, em suas uniões, com relação às uniões heterossexuais. Mas é de se notar que a popularização dos termos hétero e homossexuais se deu de forma mais ou menos concomitante com o crescimento do movimento que ainda em meados dos anos 2000 eu conhecia como GLS, que não só lutou contra a homofobia, mas também pela conquista de uma série de direitos negados. Essa popularização levou, inclusive, a setores mais conservadores da sociedade a inventarem a bizarrice do “orgulho hétero”, algo que seria impensável nos anos 80 porque os gays, na fala popular, não estavam em dicotomia com os héteros, mas com os “normais”.

Adentrando agora ao campo da transgeneridade — ou da cisgeneridade compulsória, sempre invisível e condenando pessoas transgêneras a serem opostas conceitualmente às pessoas “normais”: Além de a conquista de direitos estar ainda engatinhando — e não existir uma lei que permita e simplifique a mudança de nome é um índice do quanto os direitos básicos são negados a essa parcela da população –, as referências desrespeitosas às pessoas transgêneras ainda são socialmente aceitas. Não raro se fala “as travas”, “os travecos”, “as/os trans”, “o transexual” (quando se trata de uma mulher trans), etc.

E sobre a questão que a Daniela levantou, de que ela não é uma trans, isso faz muito sentido. A Daniela realmente não é uma trans, mas sim uma mulher. Uma mulher trans. Quando alguém se refere a ela como uma trans, há o apagamento do fato de ela ser uma mulher e, eu arriscaria até, o apagamento de que ela é uma pessoa. Metonimicamente, ela se torna apenas algo que a caracteriza, que a constitui. Deixa de ser um todo e se torna uma parte. E, “coincidentemente”, a parte considerada pela sociedade como “abjeta”. Em contraposição, eu jamais serei o cis — e nem qualquer mulher cisgênera será a cis. Quem se referir a mim, falará “daquele homem”. Sim, é verdade que há uma elipse quando nos referimos a alguém como “a trans”, mas existe uma construção social que leva a essa elipse que reforça preconceitos. E eu arriscaria dizer, mesmo sendo uma pessoa cis e não tendo a vivência da experiência transgênera, que essa elipse tende a significar o apagamento ou a desumanização da pessoa trans. A elipse de seu ser no mundo.

E os exemplos que ela usa são ótimos. Alguém fala que “a cis foi à praia”? É tão nonsense, que não dá sequer para imaginar isso. No entanto, com mulheres trans, isso deveria ser aceitável? Por quê? Aliás, a maior parte das pessoas cisgêneras nem sabem o que isso significa. E há também quem, sabendo o que é, se recusa a aceitar essa categorização, como se ela fosse um absurdo, ou até uma ofensa. Afinal, haveria, por exemplo, as mulheres trans e as… biológicas? Uma nova forma de dizer normais, opondo a suposta “natureza” da pessoa cisgênera a uma espécie de engodo ou artificialidade dos corpos das pessoas trans? Isso não se parece, inclusive, com um discurso religioso fundamentalista?

Bom, eu acho que não dá para ignorar o poder das palavras e da nominação do mundo. Poder dizer o que as coisas são é uma forma de poder. Por isso, existem disputas de nomenclaturas. Existe o esforço de precisão ou rejeição de termos. Não fossem as palavras tão importantes, no distópico 1984 George Orwell não conceberia um mundo capaz de criar a novilíngua — e muito menos pensar no que politicamente isso significa. Essa minha visão, porém, pode ser um defeito do olhar de quem trabalha com palavras…

Transfeminismo

Quem acompanha o blog já deve ter percebido como a questão da linguagem para nós não é secundária. Desnaturalizar a transfobia significa questionar certos efeitos de sentidos que tomamos como evidência: sobre homens, mulheres e “os trans”. E toda vez que questionamos certos sentidos já dados sobre essas categorias (ou poderia dizer, identidades) a questão da língua entra inevitavelmente. E isso não significa que estamos falando sobre algum sentido sobre as palavras que estaria escondido que seria em última instância verdadeiro, e que a língua portanto seria uma abstração virtual que comportaria esse sentido unívoco para a prática política. Ao contrário, a política se dá na exata medida em que a língua é capaz de falhas. O que significa também entender que a prática política – assim como o discurso – é um processo sem começo nem fim pré-determinados.

Decidi que seria interessante publicar dois comentários que Teofilo Tostes Daniel…

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Ao menos setecentos anos de tradição poética apontam que no domingo passado cheguei ao meio do caminho. Está lá, nos primeiros versos de A Divina Comédia: “Nel mezzo del cammin di nostra vita / mi retrovai per una selva oscura, / ché la diritta via era smarita.” O meio do caminho era a idade de 35 anos, que seria uma antiga metáfora para a meia idade, considerando uma vida potencial de 70.

Sendo o primeiro verso uma antiga metáfora, aos setecentos anos de tradição do poema de Dante se adicionam ainda os anos que dão antiguidade a ela. Como não tenho fôlego para retroceder tanto e encontrar salmos ou profetas que confirmem o arcaísmo dessa ideia, contento-me com a abertura da comédia dantesca. E aceito a noção nela encerrada de que chego ao ápice do arco da vida. Noção desconcertante, pois esse ápice é simplesmente minha vida toda, até aqui.

“Nel mezzo del cammin”, olho para os dois sentidos dessa estrada incerta. E dou graças pela metade que já pude viver. “Gracias a la vida, que me ha dado tanto”! Vejo-me como o resultado, a resultante desse caminho. Componho-me dos meus passos, dos meus afetos, das minhas experiências. Sou um desses bichos que deliram ser anjos, como sói acontecer a todos nós, demasiado humanos.

Se olho para trás grato, feliz com a memória que carrego, a outra metade do caminho intuo desejoso. Palmilhar o incerto não é tarefa das mais simples, mas é isso a existência. O que nem poderia ser, de repente é e se perpetua num tempo sem garantias. E nós nos fazemos, nos inventamos na tentativa de prover algum sentido a essa trajetória de absoluta gratuidade.

Em relação à segunda metade da vida — que é a trajetória descendente que me resta –, desejo especialmente três coisas. A primeira é que seja tão feliz e mais longa que a porção inicial. A segunda é que eu possa seguir ao lado da autora da foto abaixo — a mulher amada! — semeando alegrias, compartilhando sonhos e sorrisos. E, por fim, o terceiro desejo é que nessa segunda parte da jornada minha mente conserve seu poder de realização até o fim, mesmo quando o corpo já estiver fraquejando.

Esses são desejos absolutamente comuns, quase banais. Mas não é preciso ir além do homem para desejar o eterno retorno de cada alegria…

Eu, nel mezzo del cammin, em 22 de junho de 2014. | Foto: Fabiana Turci

Eu, nel mezzo del cammin, em 22 de junho de 2014. | Foto & Bolo: Fabiana Turci

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I – Saudade

“Saudade é um mosaico
De tudo que eu deixo de mim,
Nada mais.”
(Edu Lobo / Paulo César Pinheiro)

Esparso, disperso,
procuro-me nos chãos que pisei:
eu sou feito desse caminhar.
Meu rosto invisível
Desenha-se nos sulcos das pedras
por sobre as quais passaram meus pés.

Não chego a saber
se o que de fato me constitui
é o pó que acumulo das estradas
ou é o que deixei
de mim. Se sou história ou lembrança.
Se saudade é o que falta ou o que levo.

___

II – Multidão

“Que a vida é pra se navegar
O que muda é o convés”
(Edu Lobo / Paulo César Pinheiro)

Em mim o mar é.
O meu sangue carrega o primevo
oceano, rubro como a cor
pouco antes do nome.
Eu mesmo sou barco e travessia;
borrasca, caos, cais e calmaria.

Corpo é multidão,
mesmo imerso em silêncio, e na noite.
O múltiplo me habita inclusive
quando estou sozinho.
Sei que quem canta na minha voz
e mais me sabe é o próprio universo.

___

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Entro no ônibus praguejando contra quem o projetou. Além de não ser acessível – todos os que servem essa linha também não são –, este possui ainda mais um obstáculo: uma barra bem no meio do último degrau, parecida com essas de fazer pole dance. Aquele requinte de inacessibilidade já era capaz de atrapalhar quem estivesse entrando com uma mochila um pouquinho maior. Com muletas, então, subir no ônibus é uma batalha.

Vou me sentar na cadeira isolada antes da roleta e não tem como, pois simplesmente não há espaço. Olho o símbolo que diz que o assento é preferencial e quase gargalho com aquela mentira. Um pouco aturdido, volto para procurar um lugar vago nas poltronas duplas, enquanto desvio dos passageiros que seguem atrás de mim, para pagar ao cobrador a passagem. Demoro alguns instantes imprecisos a me habituar ao pequeno caos e finalmente vislumbro onde vou sentar. Noto haver um lugar vago ao corredor, na poltrona mais próxima. O senhor que está sentado à janela faz menção de se levantar, para me ceder o seu lugar. Incisivo, falo que não precisa, que prefiro mesmo um lugar ao corredor, e me sento.

Nem bem me acomodo e já percebo certa ansiedade do meu companheiro de trajeto. Agradeço-lhe a intenção de me ceder o lugar na janela, mas novamente lhe explico que no corredor é melhor para minhas pernas. Logo em seguida, ele me pergunta para onde vou. Desconfiado, menciono a avenida principal perto de casa, que é grande o suficiente para manter a inexatidão.

Constatando que vou descer antes, ele explica que vai para Santo Amaro e me indaga se eu sei se aquele ônibus passa numa rua que não conheço. Revelo minha ignorância sobre o itinerário posterior ao meu. Ele busca se acalmar, dizendo-me que se não passar, ele pode descer na Avenida. E logo me revela que está indo para uma clínica que faz um tal exame de sono.

Na sequência, comenta sobre um assunto incontornável em São Paulo: o trânsito. Lamenta que o trânsito esteja caótico – e, naquele dia em especial, agravado pela chuva que caíra pouco antes. Conta que saiu de casa às 17h, pegou um ônibus, metrô e depois aquele ônibus em que estamos, e está com receio de não chegar a tempo – seu horário na clínica é às 20h30. Diz que em 1959, quando fez dezoito anos e começou a dirigir como chofer de táxi, quase não havia carros nas ruas.

Teria a opção de ir de trem, mas naquele horário seria impraticável para ele fazer várias baldeações, já com 71 anos. E para qualquer pessoa com um pouco mais de dificuldades. Lembro-me de já ter estado, pouco antes das 18h, numa das linhas que ele teria de pegar para chegar ao seu destino e, na hora de descer, foi quase uma operação de guerra. Hoje, eu também não teria condições… Mal termino o pensamento, num átimo, e atino que meu companheiro agora lamenta que hoje não exista mais uma linha direta que servia à região onde ele mora.

– Sabe aquela música que fala “moro em Jaçanã”? Então, eu pegava esse trem. Moro ainda depois de Jaçanã.

Não sei por meio de que conexão, ele dá início a uma ode ao seu tempo, quando os filhos tinham “medo e respeito” pelos pais. Lamenta que hoje os pais não possam ser firmes, não possam mais bater e educar seus filhos. Reclama então de seu neto, que não tem compromisso com nada e é muito mimado. Abstenho-me, nesse ponto, de participar da conversa, limitando-me a vagos monossílabos. Em geral, tenho grande resistência a toda louvação de um tempo em que certamente eu não estaria vivo. Só posso existir hoje. É o tempo que tenho, e é dele que devo fazer, para mim, o melhor dos tempos.

Em seguida, me relatou que deixou o táxi, tornou-se caminhoneiro e depois marinheiro para, então, voltar a ser taxista, que foi como se aposentou. Só quando diz ter sido marinheiro é que reparo numa enorme tatuagem que cobre todo seu antebraço direito.

Talvez por se deparar com sua vida em perspectiva, estanca a fala, reflexivo, como que olhando para dentro. Após um fundo suspiro, sem qualquer sinal de pompa ou encenação, exclama:

– Eu tive uma vida muito boa!

Tocado mais pelo tom de sua voz, que conferia às palavras quase banais uma verdade palpável, fiquei um tempo em silêncio. Compartindo o silêncio do meu companheiro de trajeto. Não sei precisar como e quem o quebrou, mas aproveitei o interesse despertado por sua fala anterior, para mudar o rumo da prosa. Em vez de denegrir o presente em nome de um passado repleto apenas de laivos de duvidosas idealizações, interessavam-me suas memórias.

Perguntei-lhe algo sobre como era a vida de marinheiro. Ele contou que havia conhecido metade do mundo nesse período. Esteve em diversos portos na América, na Europa e em alguns no Oriente Médio. Revelou-me que tinha medo de ir para os lados do Vietnã, por causa da guerra. Ficou quatro anos embarcando e desembarcando mercadorias em Lloyds brasileiros. Deixou a marinha mercante após se casar. A dura vida de marinheiro e, em especial, o fato de passar três a quatro meses embarcado a cada viagem foram decisivos para que tomasse essa decisão.

Viramos na grande avenida que passa perto da minha casa. Ali, me mostrou que naquela transversal funcionava a Metalúrgica Barbará, que seria, na época, do genro de Jucelino. Ele, como caminhoneiro, carregava material de construção ali, para levar a Brasília – que, embora já inaugurada, ainda era um canteiro de obras. Segundo o meu companheiro de trajeto, o dinheiro que se desviou daquela construção teria dado para construir “dez Brasílias”. Exageros à parte, não deixo de crer naquela testemunha e sua verossímil história. Infelizmente, não há como supor que a corrupção endêmica do país seja uma invenção dos dias atuais.

Nem bem nos afastamos do cruzamento com a antiga metalúrgica, ele diz, quase surpreso de si mesmo:

– Eu não tenho dinheiro nenhum, que é coisa que fica para provocar briga depois que a gente vai, mas tenho muitas histórias. Minha vida daria um livro…

Pergunto se ele não teria vontade de escrever um livro com suas memórias. Ele me diz que seus filhos insistem para que o faça. Seu tom reticente, no entanto, me revela que não, ele prefere contá-las a ter de escrevê-las.

Só então me dou conta de que já estou quase chegando no meu destino. Levanto-me para passar o bilhete e rodar a roleta. O trânsito lento me dá ainda alguns minutos de conversa. De pé, detenho-me junto ao banco em que estava sentado.

– Você já deve estar cansado de tanto me ouvir falar, não?

– Imagina! Estou é lamentando ter que descer agora e interromper a conversa – respondo.

Seu sorriso me revela que ele captou a verdade do que lhe disse. Despedimo-nos. Por algum motivo, o motorista perde a entrada de seu trajeto habitual e acaba entrando na minha rua. Desço, contente com o erro, embora novamente me veja praguejando contra o projetista daquele ônibus e seus requintes de inacessibilidade.

Enquanto ando os poucos metros entre o ponto de ônibus e minha casa, me dou conta de que não perguntei o nome de meu companheiro de trajeto. Cogito tentar alcançar o ônibus, para perguntar-lhe da janela, mas a ideia vã desvanece quando vejo o ônibus dobrar a esquina. Apesar de inominados um para o outro, levo comigo algumas de suas histórias, a parcela de sua herança que ele deixou para mim…

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O que somos é construído pelo sedimento de nossas experiências, em nossa viagem solitária pela vida. Se por um lado existe algo que pareça uno em nossa identidade, ao ponto de podermos dizer “eu” e sentirmos estar sendo o mesmo numa contínua progressão, por outro é fácil reconhecer que nunca somos fixamente esse mesmo, e que o outro nos habita e faz com que hoje sejamos diferentes do que já estivemos sendo.

Para quem, como eu, vive uma relação identitária esperada e naturalizada, não é comum que se questione sobre o outro que aflora em si. Dessa forma, quando me transformo e me modifico, seja porque amadureço, me amedronto, envelheço ou mudo um juízo sobre algo, sou ainda percebido como um contínuo. Há, no entanto, aqueles a quem sempre se pergunta quando foi que se tornaram o que são. Aqueles que têm suas identidades interditas, em algum grau, pelo confronto com o que nossa cultura estabeleceu como natural — embora não seja possível saber no humano aquilo que é natureza, pois somos demasiado humanos. Talvez pela patente e necessária luta por afirmar sua diferença e, em muitos casos, construir sua identidade, estes, a quem se pergunta tais questões ligadas ao devir, são vistos como não naturais. Como se pessoas com identidades ditas naturais — ou seja, naturalizadas pelas convenções aceitas pela sociedade — também não se inventassem a cada dia.

Embora eu me invente quotidianamente, já que sou, como todos, rondado pelo outro que me constitui, ninguém jamais me perguntou, por exemplo, quando foi que decidi permanecer cis ou me descobri hétero. E essas explicações, para mim, estariam na ordem do indizível, das coisas que não têm nome. Sou criado, porém, de uma forma a acreditar na ilusão de que essas características seriam uma espécie natureza, não levando em conta todas as construções simbólicas, de origens múltiplas, agregadas ao que venho sendo.

Na última semana de fevereiro concluí um livro que testemunha a história de alguém cuja identidade frequentemente é vista como um desvio do “natural”. A autobiografia de alguém a quem certamente sempre se pergunta como foi que se tornou aquilo que é. E que responde, em muitos sentidos, a essa pergunta que lhe deve ter sido lançada inúmeras vezes. Lendo sua história, numa narrativa impressionante, fluida, vertiginosa e envolvente, pude ver que ele é um homem como eu. Na narrativa de suas memórias estão inscritos também seus valores. Percebo então que partilhamos muitas de nossas visões de mundo, embora não nos conheçamos, tenhamos histórias de vida bem distintas e sejamos de gerações diferentes — ele é um pouco mais velho do que meu pai seria hoje, se estivesse vivo. Creio que essa identificação de valores e de concepções de mundo acentue ainda mais a visão que se forma: ele é um homem como eu.

Mas há nele algo, que é da ordem de sua história de vida, que nossa sociedade tende a enxergar como uma diferença de substância, uma outra natureza. Não é. Tanto a minha identidade quanto a dele são construídas nesse caldo simbólico chamado cultura. Mas como eu sou um homem cis, sou interpretado como natural. Já ele é um homem trans.

Ele é João W. Nery. E seu livro, Viagem solitária: memórias de um transexual trinta anos depois, é uma releitura de sua própria história. Uma releitura, pois é a segunda autobiografia que ele escreve. Em 1984 publicou o livro Erro de Pessoa: João ou Joana?, que narrava seu périplo da infância até a chamada cirurgia de redesignação sexual, a que se submeteu em 1977. Viagem solitária inclui também a narrativa de sua vida desde então.

João foi o primeiro trans-homem a se submeter a um procedimento desse tipo no Brasil, quando tais cirurgias eram consideradas ilegais. Tanto que o cirurgião Roberto Farina, que o operou, e que foi o primeiro médico brasileiro a operar uma transmulher em 1971, foi condenado por lesão corporal grave por conta de uma cirurgia feita em Waldirene Nogueira. Ela, cujo nome de batismo era Waldir Nogueira, foi operada por Farina e, após a operação, fez um pedido de retificação de seu registro civil na Justiça paulista em 1975, o que foi negado. O fato chamou atenção da opinião pública, uma vez que ela havia se submentido a um procedimento cirúrgico não previsto em lei como lícito.

“A ironia era precisar de um rótulo, do que todos tentam fugir”, escreve João. O leitor que acompanha as narrativas dessa viagem sente a angústia de alguém que se vê sem lugar no mundo, dessemelhante a todos que o circundam. Mas também se maravilha com a força desse mesmo alguém que, ante a premente necessidade de se reinventar, efetivamente se refaz.

“Iluminando o silêncio das coisas sem nome”, como diz o belo e preciso verso de um poema escrito pelo autor, Viagem solitária é a partilha de uma experiência, feita com grande coragem e generosidade por um homem de mente inquieta. Um homem que descobriu “que há várias masculinidades diferentes e que são construídas também pelas tecnologias da cultura dominante”. Alguém que abriu à força de muita luta veredas para transitar pelos papéis designados a um homem, que era o lugar em que sempre se viu. Que ainda luta contra a invisibilidade a que as pessoas trans são relegadas, nos mais diversos aspectos da vida — no plano legal, no plano social, no plano simbólico… E que, mesmo com todas as lutas empreendidas, fez questão de continuar dócil e afetivo, e de transmitir, como pai, essa doçura e essa afetividade a seu filho adotivo. Ao ponto de escrever, já no final da viagem pela qual conduz seus leitores, que sentiu que sua paternidade tinha valido a pena e, sobretudo, que seu filho se tornara o seu “acerto” na vida.

Vale para Viagem solitária o que Antônio Houaiss escreveu no prefácio do primeiro livro de João W. Nery, Erro de Pessoa: “é um livro imprescindível para a todos os que queiram ver melhor o espanto que é o ser humano”. Vale também a exortação que Houaiss deixa ao fim deste prefácio: “Leiam-no e humanizem-se”. João conta que perdeu o medo das palavras com o antropólogo Darcy Ribeiro, com quem costumava conversar na adolescência e que se tornara uma espécie de mentor intelectual. Ao viajar pelos sendeiros abertos por sua escrita, o leitor constata que ele aprendeu bem essa lição…

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Gesú: Mãe, vamos no shopping tomar sorvete?

Maria: Minha Nossa Senhora! Ô Zuzinho, sossega. Vamos na sorveteria aqui da esquina, mesmo.

G: Mas tá quente, mãe. E no shopping tem arzinho gelado.

M: Não podemos, filho.

G: Ah! Por favor, mãe!

M: Um doutor proibiu. Agora, é mais fácil conseguir empréstimo em banco do que comprovar renda pra entrar em shopping.

G: Ah! Mas é rapidinho, mãe. A gente toma um sorvete, dá um rolezinho e volta.

M: Menino, não fale uma coisa dessas! Foi isso mesmo que o doutor proibiu: rolezinho no shopping.

G: Por quê?

M: Sei lá eu. Acho que tava dando confusão. Só sei é que a polícia agora fica lá pra vigiar e pegar o comprovante de renda de quem entra no shopping. Se não comprovar renda, é preso.

G: Mas a polícia pega de todo mundo que vai dar um rolezinho?

M: De todo mundo não. Só de quem tem cara de pobre. Se a polícia me pega e descobre que eu não tenho como comprovar renda, que eu faço faxina na casa dos outros… Melhor nem pensar nisso!

G: Mas como a polícia sabe quem tem cara de pobre? Como é cara de pobre, mãe?

M: Ai, como você é perguntador, menino. Não sei explicar essas coisas difíceis, não. Cara de pobre é uma cara assim, que nem a nossa.

G: E a gente nunca mais vai poder ir no shopping?

M: Só se a gente mudar de cara, moleque! (Risos. Depois, silêncio reflexivo.) Não, Zuzinho, só enquanto o pessoal tiver falando disso. Daqui a pouco, tudo volta ao normal, aí a gente vai poder ir no shopping de novo.

G: Ah! Mas quem tirou as coisas do normal justo no calor? Queria ir lá hoje tomar sorvete.

M: Filho, presta atenção numa coisa. Você é pequeno, mas é de pequenino que se torce o pepino. Então aprende que gente como a gente tem de saber o nosso lugar…

G: E qual é o nosso lugar, mãe?

M: Deixa de fazer perguntas difíceis, menino! Mas aprende isso: pobre que não sabe o seu lugar vira bandido. E eu não quero criar filho meu pra virar bandido, não, viu?

G: Vi, mãe!

M: Promete?

G: Prometo! (Silêncio.) Mas no próximo verão a gente vai poder ir no shopping tomar sorvete?

Observação: O diálogo acima pode ser inverossímil. Mas a realidade é bem mais (ver processo 1001597-90.2014.8.26.0100 e íntegra da decisão). E, por fim, não há como não lembrar do Gonzaguinha, numa hora dessas:

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Há dez anos, inaugurava o Tablo[i]g na blogosfera. Na época, embora os blogs fossem uma febre, eu optei por fazer um blog dentro de um site pessoal, todo construído em HTML. Tinha aprendido, não havia muito, a construir sites. Portanto, além do exercício de escrita, havia também o exercício da edição.

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Primeira versão do Tablo[i]g num antigo site pessoal

O nome, simplório, conquistou permanência. Junção das palavras Tabloide e Blog. Sua ideia era existir na fronteira das noções de um caderno de notas públicas e de um tabloide íntimo.

Hoje, olho para traz buscando tatear aquele que fui, e que deu início ao exercício público da escrita. Sou o mesmo e tão diverso do eu que era… Dez anos de vida é vida inteira. A gente é capaz de se recontruir incontáveis vezes num tempo assim tão dilatado. É capaz de se inventar novo de tempos em tempos, sem perceber que o novo guarda o mesmo que lhe deu origem. E que recolhe na memória alguns vestígios de história, a que se costuma chamar identidade.

Aquele que fui se rendeu às facilidades de uma plataforma para blog somente em 2005. Quando já habitava outra cidade. Era outro? Talvez fosse, na telúrica Minas. Passeei pelo novo blog, expondo textos e tateando incertezas, durante cinco anos.

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O Tablo[i]g enfim se rende à plataforma de blog em 2005

A internet era outra. E o eu, também outros — vezes tantas! Com as mudanças da internet, fui levado a inaugurar em 2010 meu blog atual. As ferramentas da nova plataforma me permitiram, além de continuar meu “caderno de notas públicas”, recolher e armazenar os textos antigos dos dois blogs anteriores. Foi o que fiz, reunindo essa dispersa história que, nesta sexta-feira 13, completa dez anos.

São dez anos de escrita pública aqui, nas infovias. E dez anos de outras escritas várias, em grande parte ainda não publicadas. Isso porque eu acabo sendo um tanto antiquado: em geral, quando escrevo, penso em livro. Livro impresso. Tinta em papel. Por isso, termino relegando ao blog o esporádico das palavras. Mais do que um caderno de notas públicas ou um tabloide íntimo, faço do meu blog um espaço de diálogo impermanente. Ou de ensaios de escrita. Ou de tudo quanto é vário e inacabado. Talvez aí resida a verdade de meu blog se anunciar como um caderno de notas públicas…

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Em 2010, na nova plataforma, o Tablo[i]g passa a não só cumprir sua função de “caderno de notas públicas”, mas também a reunir sua história, armazenando os posts dos dois blogs anteriores

Para 2014, pretendo dar ao Tablo[i]g uma nova dinâmica de atualização que dependa menos de eu querer publicar no ecrã algo daquilo que escrevo para manchar a brancura do papel. É o desejo de hoje. Tudo pode mudar até lá, embora estejamos às portas desse novo ano. Se é assim, que ele abra uma nova década aos meus escritos!

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Genealógico

Sou filho dos burgos
mas não sou burguês.
Meus cantos são lusos,
não sou português.

Meu povo me aponta
safaris no corpo,
contrastes, afrontas
e um velho índio morto.

Entre hóstias e hostes
cravaram-me um Tostes
de algum povo ao léu.

Fugindo com fome,
meu último nome
chamou Daniel.

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Palavras da moça com um girassol por dentro

“O moço é ator, cantor, escritor, poeta, amigo. Sua habilidade com as palavras cativa e desperta admiradores, dentre os quais me encontro (e encanto).

Tem lá no fundo o sonho secreto (ou já declarado) de voar, e se não o faz literalmente, o faz na leveza das palavras saídas de sua caneta — ou pena.

É o moço da poesia e da prosa poética — traz a poesia no sangue.

É um artista em todas as dimensões possíveis e imagináveis.

É o querido Theo Tostes.”

Quem me escreveu estas palavras — e o fez com tanto carinho que, colocando-as aqui, desejo homenageá-la mais do que a mim, que quiçá não seja merecedor de todas elas –, foi uma moça com um girassol por dentro, como as palavras exatas de minha fofíssima irmã a definem!

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