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Posts Tagged ‘Homo Ludens’

Tendo por detrás um mundo arrasado, ele segue adiante. Leva em si uma síntese de toda a humanidade, capitaneada por uma brincante esperança — crer no amanhã é um jogo de todos os dias.

A loucura estúpida da guerra transmutou em pó e ruínas o concreto de seus dias. O céu absurdamente azul agride o cinza fumegante dos escombros e a rubra ideia de vermelho do sangue derramado. Ainda assim, ele ostenta um frágil sorriso. E brinca com a leveza e o equilíbrio precário de um balão rosa jogado no ar.

Sua imagem me chegou sem aviso e exigiu de mim o silêncio que há em cada palavra. Pediu ainda o vazio do espaço não preenchido dentro e entre cada letra. E foi um silente pedido com urgências. Pedido perdido de assombro, de espanto. Do espanto que produz palavras que não logram alcançar a delicada dureza da imagem sobre a qual falam.

Quem é? Está sozinho? Tem nome? Tem sonhos? Não ouso sequer dar-lhe uma história. Suponho antes da palavra. Imagino que, talvez, a dele já lhe pese um tanto, como a de todos nós, que tateamos finitudes. E prefiro ficar com o instantâneo de sua alegria lúcida e de sua lúdica ação comum a todo infante — e que bem poderia também ser comum a todos nós, homines ludens: ganhar alturas com o arremesso de uma bola.

Foto: القدس - alquds (Periódico)

Foto: القدس – alquds (Periódico)

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Para ter a experiência primeva da chuva, talvez seja necessário esvaziá-la do nome. E apenas abandonar o corpo às águas que caem do alto do céu terrestre. Como bicho, dar-se à umidade do dia. Como infante, abrir os braços transido de encantamento e espanto.

Creio ser preciso ter passos vacilantes para viver a chuva. Não dizê-la: gritá-la. Não sabê-la: intuí-la. Não analisá-la: cantá-la em ritos pagãos. Diluir a água do próprio corpo nas águas vindas dos céus. Invocar seus pingos como se evocam deuses. Ou espíritos ancestrais. E dançar uma amplidão que se derrama em todo onde. Quiçá eu tenha aprendido isso quando fui chuva…

Não existem chuvas inocentes, no entanto. Elas são potências da natureza. São alento ou tempestade. Afetam-se pelo humano. E afetam o homem… Mas estão além de nossas forças para contê-la ou evocá-la. Carregam em si os gérmens da fecundidade e do terror. Aplacam sedes ancestrais, mas também arrasam casas. Fazem evolar a fertilidade da terra, mas também destroem plantações. Alimentam os corpos de toda vida, mas podem apodrecer raízes. E o humano intui isso antes do verbo, à maneira dos bichos.

Vivemos hoje, porém, um tempo que deseja ardentemente por chuva. Água se espalhando pelos desvãos da secura. Fecundando chãos e ideias. Alimentando raízes e horizontes. Creio que, por isso, toda chuva soe como dádiva. E todo encantamento do corpo ante o aquoso do mundo ressoe como êxtase.

Uns versos me revelam: “e quando faz sol — brilha / desejo de chuva”*. Neste momento, evoco-os como quem invoca, das nuvens, a água rara que transita pelos céus. Ou o deus dos sem deuses.

______

*Nydia Bonetti

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Felice: Mirco, você enxerga?
Mirco: Sim. E desde quando você é assim?
F: Desde que nasci. Como são as cores?
M: São lindas.
F: Qual é a sua predileta?
M: O azul.
F: Como é o azul?
M: É como quando anda de bicicleta e o vento bate na sua cara. Ou também é como o mar. O marrom… sinta isso. É como a casca desta árvore. Sente como é áspera?
F: Muito áspera. E o vermelho?
M: O vermelho é como o fogo. Como o céu no pôr-do-sol.
(Do filme “Vermelho como o céu”)

Estamos atentos aos detalhes todos do mundo que podemos perceber? A tudo que o mundo nos oferta? A tudo que ele pode nos dizer? Que lugar cada coisa, pessoa ou memória ocupa em nossos afetos e percepções? É difícil não se fazer essas perguntas depois de assistir a “Vermelho como o céu”. E, principalmente, é difícil não se arrebatar pelo filme de Cristiano Bortone, que conta a história de um menino que em 1970 perde a visão num acidente e, por falta de opção, já que as escolas italianas não aceitam cegos entre seus alunos (testemunho de que a educação inclusiva é recentíssima), acaba enviado para uma instituição de ensino “apropriada” em Gênova, longe de sua família e de sua cidade.

imgsemanario0005Inspirado na vida de Mirco Mencacci, editor de som do cinema italiano, o filme passa distante das edificantes e previsíveis histórias de superação. O espectador assiste a uma celebração da imaginação, dos sonhos e dos sentidos, enquanto acompanha as descobertas do pequeno Mirco em sua nova condição. E é provocado o tempo todo, seja pela grandiosidade da dimensão onírica — que ganha na tela traduções imagéticas, a partir dos sons de que o menino passa a se valer para dizer sobre o mundo –, seja pelas indagações ditas pelos próprios personagens, diante de suas dúvidas e abismos. Indagações sutis como a do professor que, ante a recusa de Mirco em aceitar que não mais enxerga e a participar de uma tarefa proposta em sala — tocar, cheirar e sentir objetos variados –, diz-lhe simplesmente:

— Eu também enxergo, mas não é suficiente. Quando vê uma flor, não quer cheirá-la? Ou quando neva, não quer andar sobre a neve branca? Tocá-la, senti-la derreter nas mãos? Vou lhe contar um segredo. Algo que notei vendo os músicos tocarem. Eles fecham os olhos. Sabe por quê? Para sentir a música mais intensamente. Pois a música se transforma, se torna maior, as notas ficam mais intensas. Como se a música fosse uma sensação física. Você tem cinco sentidos. Por que usar só um deles?

Ao se apropriar de um gravador, primeiramente surrupiado da sala dos professores — e depois veladamente ‘cedido’ por seu professor — Mirco passa a explorar a dimensão sonora de sua imaginação. Os resultados de suas investigações são de tal forma surpreendentes, que acabam por arregimentar os que estão ao seu redor.

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E neste aspecto “Vermelho como o céu” tem uma dimensão política irrefutável. Aliando doses suficientes de coragem e talento, Mirco, um menino que acabara de ficar cego e de chegar a um ambiente estranho — e por vezes hostil –, termina por promover mudanças na instituição antiquada e um tanto castradora que o recebera. Para além da fragilidade óbvia, uma força insuspeita irrompe deste personagem. Contagia a muitos. E promove mudanças. Como que a nos indagar se estamos prontos para sermos a mudança que queremos ver no mundo.

Não sei se, neste ponto, a história de Mirco Balleri, o personagem, se confunde com a história de Mirco Mencacci, a pessoa real em cuja história o filme se baseia. Mas os acontecimentos de “Vermelho como o céu” não precisam ser verdadeiros. Para que a história se sustente, basta que sejam verossímeis. E não é possível descrer da sucessão de eventos que leva a surpreendentes mudanças nos rumos daquele colégio, e de tantos personagens que trabalham nele, habitam-no e, com tijolos de si, constroem aquele lugar.

“Vermelho como o céu” foi uma surpresa do último domingo. Assisti-lhe sabendo apenas que era um filme sobre um menino que fica cego e enfrenta dificuldades para continuar estudando. De repente, ele tomou dimensão de deslumbramento. O filme leva às lágrimas, mas não pela constatação das durezas da condição humana. Chorei no final por um inominado sentimento de celebração e gratidão à vida. E a todas as suas potências criadoras.

Evoé!

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Deixo abaixo uma versão legendada de “Vermelho como o céu” que encontrei no youtube quando comecei a escrever sobre o filme:

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Tinha noção da desvalia de seu voto. Se com efeito escolhesse alguém, fatalmente se tornaria cúmplice de crimes que não conseguia sequer supor. Mas essa sensação era embaçada. Permanecia velada. Sombra assombrosa assombrando o não-pensar.

Na prática, tinha o claro desejo de não eleger ninguém. Sem, no entanto, anular o voto ou votar em branco. Puro capricho de quem não se sente, de fato, emanante do poder. Para isso, criou uma metodologia intrincada e de eficácia duvidosa. Dentre os candidatos para os cargos cujos números têm dois dígitos, votava sempre nos que estivessem menos bem colocados, de acordo com os institutos de pesquisa. Mesmo numa época em que tais estatísticas – e suas margens de erro – têm andado tão desacreditadas e incertas, a chance de seu voto para esses cargos eleger um candidato era bem remota, se não impossível. Quanto aos candidatos cujos números tinham três, quatro, ou cinco dígitos, só havia uma forma de decidir o voto: mesclando a sorte com a avaliação, o aleatório com a escolha.

Fizera isso nas três ou quatro eleições anteriores e teve a sorte de não eleger nenhum dos candidatos nos quais votou. Saia no dia da eleição a procurar no chão, entre os milhares de folhetos jogados, os candidatos nos quais votaria. Se simpatizasse com a figura, as cores e o número do candidato, o levaria consigo para a urna. Precisava, ainda, ser alguém que lhe fosse completamente desconhecido. Qualquer familiaridade no rosto da persona em questão, o candidato era prontamente descartado. Era uma escolha estética e empática. Das outras vezes havia dado certo – embora nas últimas eleições gerais quase tenha elegido um candidato de três dígitos. Para piorar a situação, dessa vez era ainda mais difícil. Tinha de escolher dois desses candidatos, quando da outra vez fora apenas um.

Lamentava essa extensa procura. Era tão mais fácil quando as eleições eram em ano de Olimpíadas. Tinha de votar em apenas dois candidatos. Em ano de Copa do Mundo, as coisas se complicavam muito. Tinha de escolher quatro ou cinco candidatos. Se bem que pior do que isso era quando havia o tal segundo turno. Seu voto sempre corria o risco iminente de ir para o candidato eleito. Ficava de olho em todas as pesquisas, até às vésperas do pleito. Em dúvidas muito cruciais, chegava a anular o voto – o que era contra seus métodos, mais do que contra seus princípios. Não se lembrava bem, mas tinha a impressão de que, na última vez em que votara com alguma esperança, o Brasil foi campeão mundial de futebol.

Naquele domingo, como em todas as últimas eleições, saiu já de manhã à procura de seus candidatos. Como eram escolhas aleatórias, estéticas e empáticas, havia necessidade de muito tempo para fazê-las. A combinação de cores do folheto, as expressões do rosto do candidato, tudo influenciava em sua decisão, que sempre trazia, no entanto, o risco quase certo de compactuar com algum crime, algum delito, algum embuste. Era assim que sentia. Era assim o seu temor.

Presto passou o dia. Eram mais de quatro horas da tarde e ainda estava à procura. Além dos últimos colocados nas pesquisas para os cargos de dois dígitos, já havia escolhido os dois candidatos para o cargo de três dígitos e um para o cargo de quatro. Todos absolutamente incógnitos – ao menos para si. Faltava ainda o candidato para o cargo de cinco dígitos. E como havia chovido, estava cada vez mais difícil encontrar folhetos apresentáveis. Uns estavam rasgados, outros desbotados. Muitos estampavam candidatos reles demais, conhecidos demais, familiares demais. Havia também diversos amálgamas desses chamados “santinhos”, numa indecifrável mixórdia de massas, cores, rostos e números.

Começou a se afligir. Em menos de uma hora se encerraria a votação. Não gostaria de se abster, bem como não gostaria de votar em branco ou anular seu voto. Puro capricho de quem não se sente, de fato, emanante do poder. Aquela chuva fora de hora parecia pôr fim a seu método, cultivado com tanto empenho, durante tantas eleições. Não se lembrava de ter votado num dia de chuva. Talvez, no ano em que o Brasil ganhou a Copa do Mundo. Quem sabe? Mas nesse ano, nessas eleições de agora, mais uma vez a seleção não havia ganhado nada. Não havia esperanças carmesins com que vencer os temores. Ao menos era assim que via as coisa. E elas se mostravam com um feitio seco, oco, fatigado.

Não havia jeito. Precisava se dirigir a sua seção eleitoral. Era urgente votar, mesmo faltando aqueles cinco dígitos. Os dígitos que abririam a votação. Começar votando assim era sinal de mau agouro. Era assim que estremecia diante do imprevisto.

Com passos irresolutos, se aproximava da escola em que votava. Não se sabe se por conta de um buraco na calçada, de seu próprio andar vacilante, ou da providência divina, tropeçou e caiu, estatelando-se na calçada. A rua, àquela hora deserta, não abrigava uma testemunha sequer daquela queda ridícula. Ralou um pouco mãos e joelhos. Mas não se importou. Não reclamou sequer. E nem teve tempo para isso. O “santinho” que lhe faltava estava na sua frente. Uma paleta de cores perfeita, um número digno de confiança e, principalmente, um candidato de rosto simpático.

No entanto, talvez pela perturbação da queda ou pela turbação da pressa, não percebeu que o “santinho” era mais um desses amálgamas forjados pelas águas de muita chuva. A metade do número era de um candidato e a outra metade, de um candidato outro. O nome e a foto, de um terceiro candidato não identificável. A paleta de cores era resultante da fusão dos três folhetos, impressos em papel de qualidade duvidosa.

Sem notar esses pormenores, o achado devolveu-lhe a confiança, a incisividade dos passos. Rapidamente chegou ao local de votação, já quase vazio. Em sua seção, além de si apenas dois eleitores – um deles já na urna – e os mesários. Esperou pouco menos do que cinco minutos. Na urna, o primeiro número que digitaria era aquele último, achado ao acaso há poucos minutos.

Concluídos os cinco dígitos que figuravam naquele folheto, a surpresa: o número não existia. O voto seria nulo, caso o confirmasse. Só então percebeu que o “santinho” que tinha em mãos era um mistifório forjado pela união de três ou mais folhetos fundidos pluviosamente num único e ilusório exemplar. Percebeu que a própria técnica de fugir ao logro que lhe parecia ser o processo eleitoral, com seu sistema proporcional temperado pelo voto obrigatório, lhe ludibriara.

Experimentou um sentimento contraditório, uma espécie de desespero agradável, ao se ver naquela situação sem saída. Era profundamente antagônico tudo quanto sentia ali, diante daquela urna que, eletronicamente, demandava um voto impossível. Uma desesperança sem medo se apossava de tudo. Foi quando imaginou que aquele seria o número do candidato no qual gostaria de votar. O candidato ideal. Irreal. Imaginou e confirmou. Cortando sempre os últimos dígitos, foi votando em outros candidatos daquele mesmo partido nulo. Inexistente.

Decidiu ali os votos daquela e, muito provavelmente, das próximas eleições. Nunca mais correria o risco de eleger alguém que não quisesse. Votaria sempre naquele partido fictício cujo número – sugestivo – é 69. Puro capricho de quem não se sente, de fato, emanante do poder.

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