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Posts Tagged ‘Geruza Zelnys’

I

Costuro no ventre do tempo,
sob a forma de palavras,
o testemunho de como minha voz
adentrou no ouvido

da alteridade.

II

Gesto palavras que são afetos.
Palavras do Outro,
que me foram ofertadas
da leitura que fizeram

de mim.

III

Cada anotação que faço
é uma ultrassonografia do poema
que ainda vai nascer.
Cada afeto é uma ponte

que alimenta vindouros versos.

IV
Há fetos de afeto
em cada palavra gestada,
em cada ponte criada.
No solo fecundo e arcaico

do que me ultrapassa.

V

São olhos alheios
que desenham o esboço
de meu rosto.
Palavras que me antecedem

afluem para o que escrevo.

VI

As lembranças do Outro
fundam minha memória.
Com o afeto que recebo
é que aprendo

a sentir.

VII

Enterro palavras
nas entranhas daquilo
que tenho sido:
um corpo impermanente,

uma máquina desejante.

VIII

A sensibilidade da carne
é o que abre a vida
ao mundo das possibilidades.
Ela permite ao indivíduo

inventar-se no fora de si.

IX

Naquilo que sinto,
eu me torno múltiplo.
E assim, em nove movimentos,
estou prestes a parir

o poema recém-nascido.

Birth of Universe – Victoria Merki

Poema escrito durante a Oficina de Escrita Criativa “Entre Vodus e Ciborgues: a escrita como corpo e potência“, ministrada por Geruza Zelnys e Eduardo Guimarães.

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No próximo sábado (20 de janeiro), terei a alegria de participar do Sarau Hilda Hilst: Desejo e Cintilância. Organizado pela querida Geruza Zelnys, o sarau reúne os participantes de um curso que ela conduziu no fim do ano passado sobre a obra de Hilda. No sarau, vou apresentar uma série de dez poemas chamados “Ode fragmentária e pós-mítica para viola e cello, de Dionísio para Ariana”, feitos para minha amada Fabi Turci, que me apresentou, logo que nos conhecemos, a “Ode Descontínua e Remota para Flauta e Oboé – De Ariana para Dionísio“, obra a partir da qual eu conheci a poeta.

Vou ler os poemas de minha ode em resposta aos poemas da ode hilstiana, que serão apresentados pelas queridas Brunna Amicio e Fernanda de Paula. Além disso, poemas e texto de Hilda e outros inspirados em sua obra. Vai ser lindo!!!

Os dois primeiros poemas da ode hilstiana e da minha ode:

I

É bom que seja assim, Dionísio, que não venhas.
Voz e vento apenas
Das coisas do lá fora

E sozinha supor
Que se estivesses dentro

Essa voz importante e esse vento
Das ramagens de fora

Eu jamais ouviria. Atento
Meu ouvido escutaria
O sumo do teu canto. Que não venhas, Dionísio.
Porque é melhor sonhar tua rudeza
E sorver reconquista a cada noite
Pensando: amanhã sim, virá.
E o tempo de amanhã será riqueza:
A cada noite, eu Ariana, preparando
Aroma e corpo. E o verso a cada noite
Se fazendo de tua sábia ausência.

(Hilda Hilst)

I

“Apenas tu, Dionísio, é que recusas
Ariana suspensa nas tuas águas.”
(Hilda Hilst)

No tempo do mito, recusei
teus fluxos,
teus jorros.
No tempo em que me julgava um deus

e desconhecia
a minha própria divindade mortal.
E habitava a Terra

jogado no vento
que me espargia e fragmentava

no oco das coisas sozinhas.

Atado à vida, Dionísio é,
com cantos e sem tempos,
dos encantos de Ariana.

(Teofilo Tostes Daniel)

II

Porque tu sabes que é de poesia
Minha vida secreta. Tu sabes, Dionísio,
Que a teu lado te amando,
Antes de ser mulher sou inteira poeta.
E que o teu corpo existe porque o meu
Sempre existiu cantando. Meu corpo, Dionísio,
É que move o grande corpo teu

Ainda que tu me vejas extrema e suplicante
Quando amanhece e me dizes adeus.

(Hilda Hilst)

II

Tu conheces, Ariana, meu avesso,
meus silêncios,
meus outros.
Até mesmo a face
de Apolo

em mim, Dionísio, tu a conheces.

Sabes do fundo de ordem
no meu caos,
da seriedade dos meus dias de féria,
do meu mau humor sonolento tarde da noite
e da preguiça de minhas manhãs.
Sabes ainda que até quando durmo

te amo
e busco teu corpo como
um satélite.
E que mesmo antes dessa dádiva

já me habitava a tua poesia.

(Teofilo Tostes Daniel)

O sarau vai acontecer na Casa das Rosas, a partir das 19h de sábado (20/1). Estão todos convidados!

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