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Posts Tagged ‘Gente de Palavra’

No dia 29 de março, o sarau do coletivo Gente de Palavra homenageará o poeta e editor Eduardo Lacerda, num evento organizado pelos poetas Davi Kinski e Rubens Jardim. Como editor, são dez anos de trabalho dedicado a novos autores (e especialmente a novos poetas), entre fanzines, revistas, jornais e livros. Cinco destes à frente da Editora Patuá, uma das mais importantes editoras independentes do cenário brasileiro, destacada por apostar em novos autores e que hoje possui mais de 300 livros em seu catálogo. Uma editora que festeja a poesia e o desejo de encontro que mora em cada escritura, e que acaba de inaugurar ontem (26/03) a Livraria & Café Patuscada (cujo próprio nome sugere, é um lugar de festa ou de farra).

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Por vezes, o editor Eduardo Lacerda, esse que celebra tantos novos autores, dando-lhes vez e voz, esconde o poeta Eduardo Lacerda que talvez seja um tanto tímido e injustificadamente reticente em relação à própria poesia. Quando soube da iminente homenagem, pensei especialmente nesse autor escondido, o que me fez resgatar algumas impressões de seu até agora único livro, Outro dia de folia, que tive o prazer de ler em junho de 2014. Evidentemente, após esse hiato, a memória latejante de seus versos já arrefeceu. Ainda assim, busco tracejar um itinerário de leitura e lembrança desbotada dessa obra.

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Ainda que eu esteja distante do tempo da leitura, ainda consigo tatear algumas coisas de que especialmente gostei naquelas páginas. A primeira, por mais evidente, é o signo de melancolia por trás de toda festa. Segui empós essa chave de leitura, até chegar no poema “Candelabro”, onde encontrei um contracanto, uma segunda voz que me foi muito cara: a presença de uma espécie de culto primitivo retirado do banal da vida. Ali, naquele menino que não acendia velas até que a solidão o levou a evocar seus fantasmas para lhe fazer companhia, deparei-me com mais uma inesperada chave de leitura. Festa e misticismo, nostalgia e solidão… E uma inadequação muda no aceno que encolhe o gesto, no abraço perverso de um inflado sussurro, no balão/grito calado a evocar o céu.

Fui avançando nas páginas e encontrando minha própria antologia, até chegar num poema escuro e misterioso, intitulado “Nunca entendi”, que me ofereceu um imenso alumbramento. Ainda hoje desejo roubar uns versos dele como epígrafe para algo meu, apenas para minha escrita ficar mais bonita, testemunhando que “as frestas das cortinas / ejaculavam sol e / silêncio”.

Mal pude me refazer desse poema e já dei com o patíbulo onde estava “O falso enforcado”, esse arcano em seu próprio jogo e destino, esse poeta maldito e tantas vezes subversivo que canta, mesmo morto, a carta da morte. E, nesse ponto, a sensação que me invadia era a de que o livro crescia. A cada outro dia de folia, ele ganhava amplidões.

Caminhando pelas veredas do livro, me deparei com uma terceira voz. Ela, na verdade, sempre esteve presente, mas se mostrou clara no poema “Ao escuro”: a memória da infância. Neste poema, que me ecoou o dorido “Recordo ainda” do Quintana (em especial o terceto final: “Eu quero os meus brinquedos novamente! / Sou um pobre menino…acreditai… / Que envelheceu, um dia, de repente!…”), o menino melancólico e brincante da capa do livro parecia ganhar corpo e história. Um menino alumbrado e repleto de patuás, editor de seu canto ejaculado de sol e silêncio, equilibrista sobre a carta da morte. Tudo seguia como uma composição a três vozes, ritmada pelo som de livro sendo lido.

Mas o percurso dessas três vozes me conduziram até o momento em que um som de atabaques e uma voz de ogã passou a conduzir o ritual, aberto por Iansã — orixá que hoje habita a estante de livros de minha casa, certamente para ventar ideias. As três vozes não se calaram. Somaram-se a esta quarta voz, forte e ancestral, que incorporou, sob o signo do vento fêmea, todo um chão de signos colhidos até ali. Nesses cantos, “a vida é febre, e também / gelo, espelho / e trevo, / dos comuns”. Os despachos finais me chegaram como a coroação de uma grande obra. Uma festa. Mas não uma “Monofesta”. Um festejo surpreendentemente aberto a outras palavras partícipes. Toda escrita ali desejando diálogo, celebração e reunião.

Tomo parte nessa festa para agradecer pelos versos espraiados em cada página. Para testemunhar a aventura de ser leitor, na melancólica folia dessa obra primeira e ímpar. E para esperar por um Outro dia de folia.

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