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Posts Tagged ‘Finitude’

Vislumbres

Vem do fruto proibido
nossa herança original —
esse dom de presciência
da implacável finitude

contra a qual, porém, lutamos.
Se tudo são incertezas,
é demasiado humano
nossa luta por sentidos.

O corpo de nosso tempo
não está ao nosso alcance —
só se dá em perspectiva.

Caos são pequenos vislumbres
dessa máquina de instantes
que é o espírito do tempo.

quinzenario0047

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Um voo amplo tem início logo nas primeiras páginas. Casulo rompido, é hora de ganhar alturas e conhecer a vertigem do espanto. Violeta velha e outras flores (Editora Patuá, 2014), de Matheus Arcaro, lança logo o leitor, em seu primeiro conto, no olho do redemoinho, numa avalanche de sensações pequeninas – e incomensuráveis.

Esta narrativa me tocou como uma obra-prima a dizer do que o autor era capaz, acendendo em mim o desejo de seguir empós dessa prosa repleta de poesia.. Ali, a descrição inicial da estrada, numa viagem de carro em família, me remeteu inicialmente ao Caçador de vidro, conto de abertura de O volume do silêncio, de João Carrascoza. Mas as descobertas e epifanias na jornada do pequeno Lucas no decorrer da história me remeteram à poesia que encontrei nos olhos míopes de Miguilim. Este, porém, se revelou um Miguilim solitário, sem gozar de nenhuma cumplicidade com o irmão.

A intensidade da experiência de Lucas – e de sua comunhão com o mundo – provoca uma aterradora ternura. “Era como se sua alma se multiplicasse dentro do corpo.” Sim, é isso que nós, leitores, sentimos. Sentimos sua vertigem e seu alumbramento e sua dor, na descoberta da finitude – e também da solidão essencial. “E pela primeira vez Lucas chorou em silêncio.” Nós também choramos, mas sem a inocência da primeira vez.

Mas se Casulo rompido é o que primeiro me vem à cabeça, quando penso em Violeta velha – uma primeira impressão que ficou, de tão arrebatadora – o fato é que o livro vai muito além. São 22 contos que se dividem em seis conjuntos e exploram diversas formas de se narrar.

No primeiro conjunto, personagens simples são confrontados com a complexidade da vida: a criança de cinco anos se defronta com a imensidão do mundo, o indigente com os meandros da memória (no belíssimo O sonho), o mentalmente diverso com a rejeição e a própria fúria, o menino com um adeus, o garoto estranho e sua mãe aflita com a impossibilidade de se diagnosticar o extraordinário.

O segundo conjunto, composto por uma única história, descreve a experiência de ser atropelado pelo jorro incessante do quotidiano, cujas contingências desimportantes e cíclicas se sucedem feito enxurrada. Ou avalanche.

Um mergulho profundo no abismo de dentro de si me parece conectar as histórias do terceiro bloco. Desse mergulho, nem sempre é possível voltar (evoco aqui o pungente Ausência confirmada) ou encontrar o mundo da mesma forma (como em À beira do abismo, com seus ecos de surrealismo, absurdo ou realismo fantástico).

O quarto grupo de histórias funciona como um espécie de contraponto do segundo, com suas narrativas em que o estranhamento do quotidiano permite que se abram portas para fora da trivialidade de todo dia. As três histórias (Reencontro, Noite nua e Em nome do pai) são de uma beleza dorida e melancólica que me encheram de exclamações estupefatas. Talvez por ofertarem “Aos que transitam pela rua disseminando instintos e dissipando instantes, uma cara despida de esperança.” Ou talvez por mostrarem que mesmo a escuridão pode revelar e fortalecer outros sentidos do corpo. Seja como for, neste percurso a sensação que fica é o desejo de “acariciar cada vestígio do momento”.

As cinco histórias que compõem o quinto grupo exploram variações sobre o tema da degeneração, ou da destruição e da autodestruição. A iminência da morte, a violência, a velhice, o abandono, a doença, o vício, as sequelas do acaso que vitima o corpo e a morte são elementos presentes nessas narrativas. O horror instintivo de entregar-se “à sensação de não sentir” acompanha cada percurso aqui. Não sei se esses contos formam uma ode à vida, cantada às avessas, ou se apenas testemunham a inexorável finitude e a impermanência de todas as coisas.

Para além da morte, o conjunto derradeiro oferece ao leitor três histórias que abordam questões ligadas à construção da fé, à descrença, ao confronto entre ciência e religião e à experiência mística. Nesse conjunto primoroso, a diversidade de formas narrativas conduz o leitor, com ironia mordaz, pelas muitas moradas de um além que se espelha no mundo – ou que faz do mundo seu espelho (em Está tudo escrito), para depois assombrá-lo com o vislumbre de uma verossímil comprovação científica capaz de abalar os pilares da fé ocidental (Dois homens mortais).

Fechando este grupo – e toda o livro – Condenado à liberdade nos convida a voltar à própria obra, sugerindo a repetição cíclica de um eterno retorno. Por vezes, parece fletir-se e refletir sobre a própria linguagem: “Aqui consegui ouvir a vida gritando em meus pulsos, consegui apanhar a eternidade em cada átimo e soltá-la para que tudo não passe de possibilidades”. Penso que, nesse lugar, “o mundo é pequeno demais; eu só caibo nesta cela”, que pode ser a palavra, essa entidade que carrega em si o gérmen do incomunicável.

Violeta velha e outras histórias, de Matheus Arcaro (Editora Pautá, 2014)

Violeta velha e outras flores, de Matheus Arcaro (Editora Pautá, 2014)

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A matéria, reunida
na ampulheta do ano-luz,
aprende e se reproduz,
arquiteta, assim, a vida.

A vida, nalgum momento,
de chofre se vê dobrada.
No cérebro conectada
então cria o pensamento.

Não vejo mais os reflexos
da transcendência etérea
das crenças e das essências.

Pelos caminhos complexos,
eu ando a ler na matéria
o Livro das Imanências.

Nebulosa da Ampulheta (MyCn 18)

Nebulosa da Ampulheta (MyCn 18)

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…pois até quando o homem derradeiro
ocupar, só com sua finitude,
sua individuada solitude
e sua língua, um átimo rasteiro

da Terra, então é certo que a poesia
também habitará esses espaços
e seguirá os vacilantes passos
do anti-Adão, que uma Lilith poderia

vir a ser, percebendo em si o fim,
e depois que o respiro humano enfim
desabitar o orbe do planeta,

tanto faz que poemas sejam fósseis,
ou que as palavras tenham sido dóceis
e hoje sejam poeira de um cometa…

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Hoje leio preces
como se apenas poemas fossem,
poemas fósseis, latejantes
— mais poemas do que atos de fé!
(do meu poema Taxa de locação)

Beata Beatrix — Dante Gabriel Rossetti

Durante cinco meses e dezessete dias, atravessei um livro de poemas. Mas, da noção silente e imaginativa que trago da Liturgia das Horas, eu sei que um breviário não se cruza à galope, mas antes se navega no vagar dos dias e dos instantes, celebrando sem pressa as Laudes, as Meridianas, as Vésperas e as Completas.

O deus Insaciável do início do livro — que “sangra os passos da dúvida”, “eletrocuta a linguagem // diz o nosso nome / quando afundamos no mar” — já me havia demandado uma resposta poética. Invoquei, para isso, o meu sagrado sem nome, cujo altar é erguido sobre o corpo da dúvida. Já o poema inaugural do livro que atravessei — essa espécie de Gênesis — faz da divindade uma “enxada encostada no tempo”. Nele aprendi que “deus tem asas feridas / remendadas com o pano da terra”.

Essa foi minha primeira colheita do livro Epifania, de Sândrio Cândido. Depois dessas primícias, de Passagem, descubro que é “inútil dedilhar poentes /compor manhãs com os retratos desfigurados”. Na sequência, me deparo com uma ideia de oração que se irmana à minha própria. A incendiar essa noção, encontro versos me advertindo para “descalçar os passos da linguagem”, pois “é sagrado entrar no poema / galgar degraus oceânicos na palavra / dissecar o verbo”. Mas porque só tenho “a palavra suja de mundo” e tropeço com “a vida refugiada em goles de esperanças”, essa Oração revela em si a sua própria contradição, ao concluir, em seu último verso, que “é inútil erguer uma prece dentro do poema”.

Escrevi certa vez, noutro lugar, que a heresia é o que mantém viva a possibilidade de surgirem novas religiões, ou novas concepções místicas das que hoje vigoram. Não à toa, os místicos estiveram a um passo da heresia… O que gosto em geral nos místicos é que eles vivem uma experiência tão arrebatadora que acabam se afastando do dogmatismo de suas religiões. E flertam como os limiares da heresia. Mas, ao mesmo tempo, me parece que dificilmente eles — ou , ao menos, aqueles que escaparam das fogueiras e se tornaram santos — dão esse passo em direção ao rompimento. O que fazem é alargar os limiares de suas próprias fés. Penso em figuras como Francisco de Assis, Teresa d’Ávila, João da Cruz ou Rumi — exemplos que viveram esse limiar sem rompê-lo.

A filiação mística do livro Epifania (Editora Patuá, 2014), de Sândrio, se explicita já no quarto poema. Ali, aprendo que “os místicos embriagados de deus / devoram os nós” e me perco no labirinto do “tudo é tanto que não caibo em tudo”, mas sem saber quando “as canetas me escrevem no mundo”. Penso na Noche oscura del alma e já no poema seguinte colho, na conclusão, uma estrofe que diz: “esta noite sou incapaz de te escrever / dobro os joelhos sobre os vocábulos nascentes / peço-te: / — acolha o meu silêncio.”

Ecoando o bailar de Rumi — um antigo dervixe persa que para mim sempre pareceu ter sido mestre de Caeiro — Sândrio, “um verbo conjugado no encontro”, afirma que “em mim os deuses dançam / sentados à mesa da ausência”. Revolvendo a ancestralidade do mundo, constato ainda que “os astros pronunciam meu nome / me faço luz / irradio poeira cósmica” (e isso me evoca demais o poema de Rumi “Vem, / Te direi em segredo / Aonde leva esta dança. // Vê como as partículas do ar / E os grãos de areia do deserto / Giram desnorteados. // Cada átomo / Feliz ou miserável, / Gira apaixonado / Em torno do sol.”). No fim desse primeiro movimento com o poeta de Minas Novas, “regresso agora / trago o tempo enxugado, / alguns poemas. / o efêmero sentido de estar aqui // despenco dentro de outra solidão.”

Cruzando esse bloco, me deparo um poema que tem por epígrafe os versos “Buscamos na vida / a casa dos nossos nomes“, de minha irmã Roberta Tostes Daniel. Nesse poema de Sândrio (Nos meus olhos uma paisagem adormecida), “os telhados desabam nos alicerces do tempo”. Ali, encontro a mim mesmo, e de alguma forma a minha ancestralidade poética, espelhada na poesia de minha irmã caçula. Sigo para um Oásis em que “meu nome é uma canção pronunciada do outro lado”, onde “busco uma lamparina no ventre da morte.” Sigo célere o rastro dos místicos para contemplar o Crepúsculo nas varandas interiores, onde “quero entardecer rasgando miragens / descansar a sede em alguma fonte.” A Contemplação do crepúsculo revolve essa imagem do entardecer, lembrando que “os crepúsculos enfiam os dedos na minha garganta.”

A leitura é também um execício de esperança e espera no poder do que não é comunicável. Afinal “deve haver alguma luz nos escombros do amanhã”. Nesta paragem, contemplo “os templos sumindo dentro do mistério”. Ali me é soprado que também “sou uma igreja velando o horizonte: / minhas paredes murmuram canções arcaicas, / cacos umedecidos, mãos trituradas, incenso, / o perfume das velas. / tudo aponta para um jardim possível.” Na liturgia dessas horas de Epifania, “um monge queda de joelhos / sem conseguir se acasalar com o mistério.” Eu, que duvido dos absolutos da crença e do descrer, me vejo nele.

Ainda assim, em Comunhão, me encontro com “a voz possuída pela ancestralidade do canto / arranco pela raiz a erva solidão / acendo as palavras sobre o nada.” Eu, que “sou um rio escorrendo pelas pálpebras da terra”, sigo os rasgos dessa Claridade, em que “o silêncio é uma pedra tragada pela garganta das aves / um círio de arame aceso no coração do outono / uma varanda aberta no seio do pão.” Sei que “os calendários são ervas / crescem sobre a rosa do instante.” Ainda assim, me fixo neles. Ou por eles sou fixado, pois “o tempo tem fome do meu corpo”. Neste estado, “ergo-me / faço do corpo um monastério”. Ainda assim, “estou me habitando em estado de escavação”.

Isso me leva a pensar no porquê escrevo. Talvez porque Os amigos não cabem no silêncio. Sim, eles são “altares circundando o interior / casa acolhendo as ausências”. Eu escrevo porque “incrível é a graça de entrar em comunhão / estar no outro / contemplar a vida escorrer lentamente”. Ou nem por isso, já que É inútil acordar as palavras e quem escreve este poema, ecoando Cioran, me segreda: “eu, porém, fiquei / habitando o ventre do desespero”. Ele me interroga: “dizer para quê?”, pois “amanhã será inútil acordar as palavras / hoje também.”

Se a ele falta a esperança, a mim falta a fé e, por isso, sigo escrevendo minha dúvida. Divirto-me com ela, com a finitude do meu saber. Ainda assim, sigo e também “sonho uma casa no interior das romãs”. Vejo que “nos límpidos lagos do tempo / cardumes de crianças nadam / segurando a flor luminosa da infância.” Pelo delírio das imagens que a poesia espalha, percebo: também eu “preservo as crianças interiores / essa espécie em extinção!”  Compreendo bem o verso que suplica: “deixa eu me rasgar para a epifania das flores”. Nas palavras, procuro um Lar. Evoco-me como habitação, eu que sou basicamente memória e efemeridade. Acompanho o poeta e “entro pela porta da cozinha / contemplo a chaleira sobre o fogão à lenha, / a felicidade fervendo.” Por motivos oblíquos, lembro de uns versos de Drummond: “Minha vida, nossas vidas / formam um só diamante. / Aprendi novas palavras / e tornei outras mais belas.”

Da Canção Amiga de Drummond — que me habita inteira de cor —, salto para um poema de Sândrio que se abre anunciando que “há canções mortas grudadas no corpo”. Percorro uma Efêmera prece que me lembra que “escrevo para desabitar a solidão”. Nessa prece — poema fóssil? — o poeta suplica: “mas me deixa dizer meu nome em teu nome.” Encontro novamente, então, o nome da minha irmã, e versos dela evocando o navegar: “Desveladas / correntezas / para aportar“, ela me diz. Já Sândrio peregrina por sua travessia de palavras e celebra uma Liturgia do exílio, onde os homens “acendem um círio na eternidade”.

Estanco brevemente o fluxo de minhas palavras, esta circum-navegação em torno do lido, pensando neste meu itinerário de leitura. O que ele diz? E o que me diz o próprio Itinerário da obra de Sândrio, que me conta que alguém “cravou os dentes no útero / abortando a gestação dos passos”? Não sei dizer. Sei é que leitor e autor fazem a obra. Juntos, “somos a comunhão das estradas / conjugamos o infinito em um instante, / no vazio mergulhamos / plantamos os olhos na eternidade.” Essa Contemplação não salva, mas revela “alguma tarde escorrendo / entre os dedos mergulhados no tempo.” Sim, “dentro dos olhos tudo é miragem / silêncio”. A leitura é uma Liturgia do encontro, onde “o verbo espera dentro do forno”. Por ela, pelo lido — esse lugar em que os não-vividos se executam —, “tentei ouvir os gemidos da terra / o êxtase das gotas adentrando o solo.”

As portas da revelação se abrem. Se no princípio havia um deus-verbo Insaciável com o qual os místicos se embriagavam, agora o último poema dessa Epifania me traz o Apocalipse. Nele aprendo sobre a palavra — a que também se pode chamar de “deus”: “posso adormecer sem um amanhã / ser a lamparina acesa em teus lábios / encontrar em teu corpo o instante perdido / nunca mais existir em um tempo / a isto chamo salvação.”

A essas palavras digo muitos améns!

Epifania — Sândrio Cândido

Epifania — Sândrio Cândido

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Ouve a estrutura da palavra,
o antes e o porquê
de sua existência.
A palavra é pomo
do corpo.

Morde essa fruta.
Sente os significados
escorrendo da substância significante,
perpassando plurívocos pela língua
e expandindo pelo ar
tuas histórias, tuas mentiras,
teus segredos, tuas ideias,
tuas verdades, teus desejos
tuas gagueiras e tuas sinapses.

Celebra a palavra.
Ela é feita de teu sangue,
tua carne, tuas gosmas, tuas secreções
e de tudo o que te alimenta.
O verbo escapa das tuas entranhas,
é pedaço teu
como um coração, um fígado, um rim.
O logos testemunha teu desejo
imortal diante da finitude
de tua matéria
em combustão nos tempos.

Acende o corpo
na floração
do que gozas,
sentes,
ou enuncias.

Jules-Élie Delaunay - Sapho embrassant sa lyre

Jules-Élie Delaunay – Sapho embrassant sa lyre

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(para Sândrio Cândido)

Chamo a Deus
No semblante amorfo da música.
(Hirondina Joshua – “Ignoto Deo”)

Meu sagrado
não tem nome
nem forma,
desconhece teologias
e templos.
Seu altar é erguido sobre o corpo
da dúvida.

Invoco as incertezas
para louvar o que não sei.
Meus deuses se irmanam ao mistério
do impronunciável.
São fugazes como hipóteses e colcheias.
Ressoam na beleza, na dissonância
ou num acorde imperfeito e menor.

Minha divindade
é aquilo que sou:
um cosmo parido do caos.
Ela se alimenta à insaciedade
do que sinto e penso,
e goza os espasmos efêmeros
de nossa finitude.

Gozo santo
antes do silêncio
— ou simplesmente vida —
é um dos nomes disso
que adoro.
A fecundidade de cada palavra
ejacula a existência de um deus.

Encontro a transitoriedade do divino
no sorriso ou no abandono,
no júbilo ou na lágrima.
Acendo velas
e esboço litanias
para o que se esconde
atrás da amplidão do horizonte.

Cultua-se pela agnosia
essa divindade multiface,
engendrada plural e corpórea,
que faz dançar a poeira e o tempo.
Dela, só se aproximam,
por um impalpável êxtase,
os hesitantes.

Os impronunciáveis nomes do que venero
se afugentam de dogmas
e se velam
atrás de manhãs
ou de epifanias,
onde comungo meu culto incréu
com místicos e hereges.

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