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Posts Tagged ‘Fé’

Mercado de verdades

Sussurram e gritam tantas verdades, que este mundo parece incréu. À rua, pululam certezas, salvações e anátemas. E a mesma questão que me coloco, permanece silente, pendurada no pêndulo das antinomias: Há universal?

O que se pode afirmar com alguma certeza neste mundo, senão que a nossa passagem por aqui é célere? Que haja uma ética universal, que haja valores ou vetores universais, que haja beleza ou padrões estéticos capazes de julgá-la, de nada disso sei. Às vezes, creio que sim. Mas, noutras horas, tenho a impressão de que em cada cabeça assiste uma sentença, ao menos uma!

Assim, experimento o que é ser no mundo. Ser no mundo é finitude, é a experiência da radical finitude. A finitude que é certeza da própria morte e a finitude que é o peso da própria ignorância acerca do sentido das coisas talvez sejam os primeiros (ou únicos) universais que se podem admitir.

Tudo o mais quiçá não passem de mercadorias expostas ao gosto do freguês no mercado de verdades e de respostas que tornam mais suave o mundo.

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Sobre fé

Alhures escreveu Rousseau — e já tomei nota de suas palavras — compreender “porque os que moram em cidades, e só vêem paredes, ruas e crimes, têm pouca fé (ROUSSEAU, J. J. As Confissões. Livro XII, p. 582). Tais palavras muito me impressionaram e julgo cada vez mais ter a nítida percepção do seu sentido.

A fé evaporara no seio de uma grande metrópole, entre paredes, asfalto e concreto. A fé esmoreceu ao sentir a frieza das pessoas, a distância mantida fechada atrás das portas dos apartamentos; ao ver o céu entrecortado de janelas dos edifícios e pouco da amplidão azul para ser admirada.

Não tenho certeza se o concreto dos edifícios, a artificialidade da orla aterrada, tão simétrica, tão geométrica, tão distante de suas naturais sinuosidades, são responsáveis por essa descrença adquirida no livro das imanências, essa desconfiança, essa incerteza até em relação às coisas que podem ser vistas e tocadas, que são sólidas, mas se desmancham no ar das desilusões. Não sei se, quando o olhar está imerso somente no universo humano, na materialidade dos problemas estruturais, das descrições físicas, biológicas, sociológicas das massas (de matéria, de células e das gentes), o olho perde a capacidade de perguntar às coisas sobre o Criador, “consisitindo a pergunta em contemplá-las e a resposta em sua beleza” (AGOSTINHO, St. Confissões. Livro X Cap. 6). Isso porque contemplar a cidade não é contemplar só a genialidade do gênero humano, mas também a utilitária forma das coisas, onde nem sempre assiste a beleza, posto não haver beleza utilitária, uma vez que a beleza se dá gratuitamente à contemplação dos sentidos dispostos a contemplá-la.

Não sei se o fato de meus pés já há muito desconhecerem a textura de um chão de — terra ou areia –, só experimentarem a lisa indiferenciação de pavimentos e não poderem se sentir raízes para penetrarem e se irmanarem à terra contribui para a descrença. Quem não tem raízes pode também não ter certezas.

Onde minhas certezas telúricas?

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