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Posts Tagged ‘Fabiana Turci’

No próximo sábado (20 de janeiro), terei a alegria de participar do Sarau Hilda Hilst: Desejo e Cintilância. Organizado pela querida Geruza Zelnys, o sarau reúne os participantes de um curso que ela conduziu no fim do ano passado sobre a obra de Hilda. No sarau, vou apresentar uma série de dez poemas chamados “Ode fragmentária e pós-mítica para viola e cello, de Dionísio para Ariana”, feitos para minha amada Fabi Turci, que me apresentou, logo que nos conhecemos, a “Ode Descontínua e Remota para Flauta e Oboé – De Ariana para Dionísio“, obra a partir da qual eu conheci a poeta.

Vou ler os poemas de minha ode em resposta aos poemas da ode hilstiana, que serão apresentados pelas queridas Brunna Amicio e Fernanda de Paula. Além disso, poemas e texto de Hilda e outros inspirados em sua obra. Vai ser lindo!!!

Os dois primeiros poemas da ode hilstiana e da minha ode:

I

É bom que seja assim, Dionísio, que não venhas.
Voz e vento apenas
Das coisas do lá fora

E sozinha supor
Que se estivesses dentro

Essa voz importante e esse vento
Das ramagens de fora

Eu jamais ouviria. Atento
Meu ouvido escutaria
O sumo do teu canto. Que não venhas, Dionísio.
Porque é melhor sonhar tua rudeza
E sorver reconquista a cada noite
Pensando: amanhã sim, virá.
E o tempo de amanhã será riqueza:
A cada noite, eu Ariana, preparando
Aroma e corpo. E o verso a cada noite
Se fazendo de tua sábia ausência.

(Hilda Hilst)

I

“Apenas tu, Dionísio, é que recusas
Ariana suspensa nas tuas águas.”
(Hilda Hilst)

No tempo do mito, recusei
teus fluxos,
teus jorros.
No tempo em que me julgava um deus

e desconhecia
a minha própria divindade mortal.
E habitava a Terra

jogado no vento
que me espargia e fragmentava

no oco das coisas sozinhas.

Atado à vida, Dionísio é,
com cantos e sem tempos,
dos encantos de Ariana.

(Teofilo Tostes Daniel)

II

Porque tu sabes que é de poesia
Minha vida secreta. Tu sabes, Dionísio,
Que a teu lado te amando,
Antes de ser mulher sou inteira poeta.
E que o teu corpo existe porque o meu
Sempre existiu cantando. Meu corpo, Dionísio,
É que move o grande corpo teu

Ainda que tu me vejas extrema e suplicante
Quando amanhece e me dizes adeus.

(Hilda Hilst)

II

Tu conheces, Ariana, meu avesso,
meus silêncios,
meus outros.
Até mesmo a face
de Apolo

em mim, Dionísio, tu a conheces.

Sabes do fundo de ordem
no meu caos,
da seriedade dos meus dias de féria,
do meu mau humor sonolento tarde da noite
e da preguiça de minhas manhãs.
Sabes ainda que até quando durmo

te amo
e busco teu corpo como
um satélite.
E que mesmo antes dessa dádiva

já me habitava a tua poesia.

(Teofilo Tostes Daniel)

O sarau vai acontecer na Casa das Rosas, a partir das 19h de sábado (20/1). Estão todos convidados!

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Todo ano, gosto de escrever alguma mensagem a todos que me rodeiam, com a ternura nostálgica dos dias que se acumularam nas páginas do calendário que se encerra, e os desejos de vida e sonho para o novo ciclo solar que terá início. Hoje, no entanto, porque “um ano pode ser bem menor / que o calendário / e bem maior”, nada poderia dizer com mais exatidão tudo o que eu gostaria de exprimir do que algumas palavras que não são minhas. Mas que o amor permite que delas eu me aproprie e espalhe, como desejos também meus, ditos de forma perfeita e precisa pela voz e pela poesia de minha amada Fabi Turci.

http://bit.ly/anonovolab

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Neste, que será o último texto do ano aqui em meu espaço de ensaiar com palavras, vou falar sobre algo que me acompanha constantemente: a música. Se for revisitar minhas memórias, talvez eu tenha aprendido a cantar cedo. Ou melhor, aprendido o prazer de cantar. Quando criança, por conta de várias cirurgias que fiz, aprendi a andar tarde. Isso acabou me fazendo aprender a falar muito cedo. Essas não são memórias que propriamente eu tenho. Elas me vieram como uma espécie de herança, já que foram contadas pela minha mãe.

É curioso que as poucas e esparsas lembranças que eu tenho dessa época em que eu não andava estão ligadas à diversão. Lembro de uma espécie de mesinha toda decorada que minha mãe fez para que eu brincasse. Lembro de brincar com carrinhos sobre ela. Lembro de uma imensa caixa de lápis-de-cor de 36 cores, mas desconfio que essa minha lembrança seja de um tempo em que eu já andava. Mas minha mãe conta que com um ano, eu já conhecia todas aquelas cores, e que na minha festinha de um ano (será?) eu elogiei um vestido verde-água de uma tia, que combinava com os olhos dela. Lembro também de ouvir e cantar muito as músicas de uma fita que eu tinha, que eram as músicas da Arca de Noé, feitas pelo Toquinho a partir de poemas infantis do Vinícius de Moraes, e gravadas pelos maiores nomes da MPB na época. E também me recordo vagamente de gravar muitas coisas, inclusive coisas que eu e minha mãe cantávamos, num rádio preto, que tinha um gravador diferente. Ele dava para distorcer a fita durante o processo de gravação.

Quando eu já andava (e provavelmente também antes), minha mãe contava várias historinhas para mim e para minha irmã. Boa parte delas (ou talvez as que eu mais gostasse) eram historinhas cantadas. Talvez minha afinação tenha se aprimorado bastante nesse tempo.

Minhas memórias primeiras de música na escola, além de uma das minhas primeiras memórias políticas, estão relacionadas a músicas do Milton Nascimento. Eu achava que as principais músicas dele, que tocavam muito na época (Maria Maria, Canção da América e Coração de Estudante) eram tipo músicas folclóricas, que sempre haviam existido. Não conseguia imaginar um momento em que não houvesse essas músicas. Em relação a Coração de Estudante, foi exaustivamente tocada na época da morte do Tancredo Neves. Lembro de ter me assombrado com a tristeza da minha mãe diante daquela morte de alguém que a gente não conhecia. Lembro da minha mãe ter dito que com ele as coisas iam mudar, e eu lembro que a minha preocupação, de quem não entendia nada da conjuntura política com cinco para seis anos, era saber se ele havia contado para o vice dele — o Sarney! rs — o que iria fazer.

Músicas me acompanharam sempre. Na segunda metade dos oitenta, ouvi muito Cazuza, Legião Urbana, Lobão, Paralamas do Sucesso. No início dos 90, Dire Straits, Rod Stewart, Guns N’Roses, Queen (e sobretudo Fred Mercury), ACDC, Roxette, Pavarotti, Carreras, Domingos, Ketelbey, Peer Gynt, Tchaikovsky, Mozart (entre outros!) Fagner, Caetano Veloso, Elis Regina e Milton Nascimento (que passei a ouvir muito, invadindo a segunda metade). Na segunda metade, além de Milton, Flávio Venturini, Beto Guedes, Boca Livre, MPB4, Marisa Monte, Cássia Eller, Ney Matogrosso, Chico Buarque, Bach (e toda galera da música barroca, pela qual me encantei) e Madredeus. Foi nessa época em que aprendi a tocar violão e que comecei a cantar no coral da Faculdade de Cabo Frio, a Ferlagos. Começar a cantar num coral descortinou um mundo para mim. Não só por conhecer novas músicas, como por aprender realmente a cantar.

Na verdade, aprender a cantar nunca é definitivo. Antes de entrar para o coral, tentava aprender a cantar acompanhando Milton Nascimento e Flávio Venturini. Se eram registros inapropriados para a minha voz, acabei desenvolvendo bem a chamada voz de cabeça, mesclada com o falsete. Esse, claro, foi um desenvolvimento intuitivo.

Descobrir novas músicas, novas sonoridades, e novas formas de cantas sempre me estimulou (tanto que não falei aqui de tipos de música (cigana, judaica, antiga), de compositores essenciais descobertos depois, como Arvo Pärt e Monteverdi, nem de músicos como Jordi Savall e Hermeto Pascoal, de bandas como Beatles, Secos e Molhados, Mawaca e Perotá Chingó, ou de cantores e compositores populares como Lenine, Mônica Salmaso, Renato Braz, Osvaldo Montenegro, Mercedes Sosa, entre outros, descobertos — ou redescobertos — depois dos anos 2000). Quando me mudei para São Paulo, comecei a cantar em dois corais com repertórios bem distintos. Um que fazia primordialmente MPB (embora eu já tenha cantado outras coisas nele, sobretudo no início com a regente anterior) e outro que cantava essencialmente música sacra, chamado Vox AEterna.

Foi logo que entrei no Vox AEterna que conheci o hoje meu amigo e professor de canto André Estevez. Ele tinha sido chamado pela regente do coro, a querida Muriel Waldman, para reforçar os tenores, que tinham muitos solos na música que o coro estava ensaiando: o belíssimo Requiem de Fauré. Na época, eu cantava nos dois coros como tenor (e acho que até hoje eu preferiria cantar assim em coral, por ter mais facilidade com os agudos do que com os graves).

Em 2010, comecei a fazer aula de canto com o André, e isso vem me mostrando que aprender a cantar nunca é definitivo. Sou, claro, um cantor amador, então o progresso é lento, o tempo de estudo é mínimo. Mas se eu olhar o cantor que fez as primeiras aulas e o cantor que sou hoje, a diferença é gritante. Comecei como tenor, mas me redescobri barítono, fazendo às pazes com os registros graves que haviam ficados esquecidos (embora eu tenha cantado como baixo no primeiro coro de que participei). Apesar disso, hoje tenho mais facilidade de fazer um sol ou até mesmo um lá agudo do que na época em que estudava como tenor.

Aliás, uma pequena digressão. Nesses dias, minha mãe lembrou de uma pequena história minha ligada a um importante barítono brasileiro. Uma história que mostra que talvez cantar, para mim, sempre esteve muito ligado à diversão. Reproduzo aqui a lembrança escrita pela minha mãe:

O pequeno Téo, no início nos anos 80, antes mesmo de aprender a falar, já cantava. Um exemplo: havia na tv uma campanha para incentivar a arrecadação de impostos através da emissão de NF, onde o também barítono Paulo Fortes surgia como um garçom que ao ouvir “garçom, a nota!”, erguia o braço e soltava um potente “dóóóóóóóóóó”! Ao iniciar a propaganda o Téo já erguia o bracinho e emitia o seu “dózinho”, achando muita graça.

Voltando da digressão, há algum tempo, o André faz concertos com seus alunos. Acho que o primeiro de que me lembro foi um pouco antes da inauguração do Espaço Núcleo, a sede do Núcleo Universitário de Ópera (NUO). Fizemos uma apresentação no salão de ensaios, num espaço ainda em construção — e que estava sendo construído para abrigar óperas e outros espetáculos artísticos e, sobretudo, musicais. De uns três anos pra cá, mais ou menos, esses concertos passaram a ser com alunos do André e da Angélica Menezes, também cantora do NUO e professora de canto. Foram dois concertos temáticos, antes desse último, livre.

O último concerto de alunos ocorreu a exatamente doze dias. No início da noite de 16 de dezembro, o Espaço Núcleo recebeu diversos alunos, que apresentaram repertórios e formas de cantar variados. O que mostra mesmo que aprender a cantar nunca é definitivo. E ensinar a cantar também não, pois é sempre um novo desafio, a cada novo aluno que chega. Esse é o relato do André, e ouvir seus alunos me dá muito a dimensão disso.

No concerto, eu iria cantar três músicas e tocar violão para acompanhar outra cantora em duas. Cantora que, por motivo de trabalho, acabou não podendo ir. As músicas que eu cantei são do repertório mais antigo. Duas músicas barrocas e uma do período clássico. A primeira foi “Rosa del Ciel”, ária de uma das primeiras óperas de que se tem registro: Orfeo, do Monteverdi. A segunda, dando um salto no tempo, também foi uma ária de ópera. “Se vuol ballare”, da ópera As Bodas de Fígaro, de Mozart. E para fechar, o meu grande desafio pessoal do concerto, sobre o qual escrevi no texto passado: “Erbarme Dich”, ária da Paixão Segundo São Mateus, de Bach. Deixo aqui as três músicas, nessa exata sequência — que foi a sequência em que foram apresentadas.
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Barítono: Teofilo Tostes Daniel
Violino Barroco: Camila Rosati Colepicolo
Piano: Camila Brioli

Recital dos alunos de canto de André Estevez e Angélica Menezes
16 de dezembro de 2017
Espaço Núcleo

Filmagem: Fabiana Turci

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Capa do livro “Trítonos – intervalos do delírio” (Editora Patuá, 2015)

Faz exatamente dois anos do lançamento de “Trítonos – intervalos do delírio“. Era uma quarta-feira, 2 de dezembro de 2015. Eu estava de férias. O lançamento havia começado às 19h e seguiu até 22h na Casa das Rosas (e até mais tarde em casa, com a família e amigos. Essa é uma data que celebro muito. E que celebrarei sempre, não tenho dúvidas. Ter publicado “Trítonos” foi o acontecimento literário mais importante na minha vida até hoje.

Exatamente no dia de hoje, recebi da querida Tamy, do canal LiteraTamy, dois presentes muito especiais. O primeiro foi uma resenha muito generosa no site dela, que foi um verdadeiro mergulho em meu livro. Um mergulho capaz de trazer a tona muitas camadas do livro e de cozer sentidos a partir do lido — afinal, quem sempre tem a palavra (ou o silêncio, pois na minha experiência de leitor, há leituras que me calam) final é o leitor.

O outro presente foi um vídeo-entrevista, publicado hoje em seu canal no Youtube. O vídeo é resultado de uma conversa deliciosa que tivemos no dia 17 de novembro. E como forma de retribuir a todos os leitores (que já me leram ou me lerão), dei ao canal um exemplar para ser sorteado a quem tiver interesse em ganhá-lo. Para participar do sorteio, basta ser inscrito no canal e dizer nos comentários que deseja participar.

Deixo o meu muito obrigado à Tamy. Pela leitura generosa, que se transformaram nos presentes que me deu nesse dia!

Fiquei muito feliz com essa conversa. Mas gostaria muito de ter falado duas coisas durante ela, que acabei não dizendo. Por isso, uso a palavra escrita — que costumo manejar um pouco melhor do que a fala — para fazer isso.

A primeira delas não é algo essencial. Mas há um determinado momento em que a Tamy me pergunta, além de Guimarães Rosa, que outros autores foram importantes para mim, como autor de um modo geral, mas principalmente para o livro, e até que ponto eles me influenciaram. Eu falei de Jorge Luis Borges e Ítalo Calvino. Mas faltou dizer que omiti dois essenciais: Raduan Nassar e Ismail Kadaré. Há “apropriações” de trechos tanto do “Lavoura Arcaica” quanto do “Abril Despedaçado” na fala do personagem Marco Ukaçjerra. Aliás, a forma da fala desse personagem, num fluxo contínuo sem pontuação, é inspirada no início da novela “Um copo de cólera” do Raduan. Já o nome do personagem é apenas forma aportuguesada de Mark Ukaçjerra, nome do feitor de sangue do kanun do “Abril Despedaçado”.

A segunda omissão que há no vídeo é bem mais essencial em tudo. Isso porque acabei não dizendo em nenhum momento da importância que a minha esposa, a Fabi, teve para o livro. Já escrevi em outro texto que, como leitora primeira, modificou muitas vezes e essencialmente os rumos de minha prosa nesse projeto. E isso ocorre em praticamente tudo que escrevo, desde que nos conhecemos. E, sobretudo, desde que começamos a namorar, quando a Fabi se tornou a primeira leitora e, de alguma maneira, destinatária de tudo que escrevo. E esse processo começou antes mesmo do nosso namoro, quando seus comentários ao conto “Gritos do Açafrão” permitiram que ele se transformasse naquilo que ele se tornou. Foi assim em todo o “Trítonos”. E tem sido assim em todos os meus escritos. No livro, seu nome aparece como revisora (além da parte da dedicatória). Mas sua importância não tem nem um nome apropriado, pois ela participa, amplia e torna mais bonito tudo o que consigo fazer durante meu processo de escritura. Devo a ela muitas ideias, muitas indicações (como a do livro do José Miguel Wisnik, indicação que eu não cito no vídeo-entrevista, embora já tenha escrito sobre ela). Além disso, lhe devo também muitos sorrisos e alegrias, mas isso não é o terreno da literatura (embora a literatura esteja sempre imbricada na vida).

“Trítonos — intervalos do delírio”, no LiteraTamy

 

Foto: Tamy Ghannam – Instagram do Blog e Canal LiteraTamy (Divulgação)

 

Foto: Tamy Ghannam – Instagram do Blog e Canal LiteraTamy (Divulgação)

Atualização em 18/12: Na semana passada, foi feito pela Tamy o sorteio de um exemplar de Trítonos, que vai encontrar um leitor do Rio Grande do Sul!

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Acolher talvez seja o ato político que nos resta. Perceber que, assim como eu, o Outro também vive a perplexidade de habitar um mundo impossível de compreender. A frustração de ter demandas urgentes que não são atendidas. E o medo decorrente do incerto. Essa foi a constatação que minha esposa, a Fabi, dividiu ontem comigo. Uma constatação precisa, quando olhamos os fluxos discursivos que nos cercam.

Pensei em como venho lidando com as diferenças que se evidenciam cada vez mais nos dias de hoje. Tenho buscado identificar o que há de comum para, então, oferecer meu ponto de vista em contraponto. Uma herança da ideia de alteridade evidenciada no diálogo, em que se movem pontos de vista e visões de mundo distintos. Mas a Fabi me apontou que iniciar um diálogo a partir das semelhanças para depois pontuar as diferenças ainda é uma busca por convencer o Outro. E é sobre a falência dessa pretensão que ela estava falando.

Ela me questionava qual era o resultado efetivo de tentar demover alguém de uma ideia, de um valor, de uma convicção? O que foi possível construir por meio desse tipo de prática? Que tipo de mundo e de sociedade é possível se criar quando alguém, do alto de seu saber verdadeiro, busca convencer o Outro do equívoco de seus valores? E eu não tenho respostas para essas questões.

Evidentemente, eu tenho meus valores, minhas convicções. Mas durante a conversa com minha esposa, o que ressoou fundo foi que talvez eu precise de esforço para compreender que eles não são universais – por mais que eu pudesse desejar que o fossem. Há muitas pessoas que se pautam por valores distintos, que têm demandas e projetos diferentes, visões de mundo e de sociedade, por vezes, contrárias. Se minha primeira reação, quase instintiva, é a de dizer que isso não me demoverá dos meus valores, por que posso julgar correta minha pretensão de demover o outro dos valores que lhes são caros?

Toda conversa de ontem me sinalizou que talvez o projeto político do esclarecimento não tenha dado certo exatamente porque pressupõe que haja uma visão correta de mundo que deva ser propagada. O embate dialético em busca do bem comum não me parece ter resistido à multiplicidade de desejos distintos, que não foram atendidos. E hoje o que acabamos testemunhando é um mundo em que muitos gritam e ninguém (se) ouve.

Reproduzo as ideias desse diálogo e divido essas percepções, não com a pretensão de quem afirma uma verdade categórica. São apenas impressões colhidas no instante. Reverberam uma forma nova como consigo ler o mundo de hoje, a partir do atravessamento das ideias trazidas pela Fabi. E só podemos pautar nossa ética em nossa forma de ler, ouvir e compreender o mundo ao redor. Assim como cada uma dos bilhões e bilhões de pessoas que habitam esse vasto e diverso mundo.

Essa nova percepção de nossos tempos me faz abrir mão de pretender convencer qualquer pessoa de qualquer coisa que seja. Porque não importam muito meus valores, minhas escolhas, minhas opiniões. Isso jamais será capaz de me aproximar do Outro. E quando me refiro ao Outro, falo daquele que pensa, age e se conduz no mundo de forma bastante distinta da minha. Porque aqueles com quem partilho valores, experiências e opiniões já fazem parte de um grupo que eu poderia chamar de Comuns. Com esses, eu comungo do mesmo corpus, e essa comunhão forja o conceito de comunidade – e há comunidades geográficas ou imaginadas, há vizinhanças físicas ou semânticas.

O que desejamos formular a partir daqui é uma ideia sobre como nos portar diante do Outro. Daquele que, quando ouvimos, pensamos que ele não deveria pensar como pensa nem agir como age. Teríamos o direito de também julgar que ele não deveria sentir como sente? Insistir com esse Outro que ele está errado e nós (supostamente) certos o fará pensar como pensamos? O estado de coisas ao redor parece sinalizar que não.

Love - Alexander Milov

Love – Alexander Milov

Percebi ontem que o maior desafio para aqueles que, como eu, defendem que a alteridade e a diversidade devem ser respeitadas e protegidas é abrir-se para verdadeiramente ouvir o Outro, aquele que tem valores opostos. Escutar suas demandas, seus medos, seus sonhos, seus desejos e ver a legitimidade de tudo isso. Porque são essas coisas que fundamentam aquilo que o Outro defende. Ouvir sem tentar demovê-lo de suas ideias. Mas também sem anuir com comportamentos e ações que firam meus princípios. Equilibrar-se nessa difícil corda bamba da alteridade parece urgente. Porque, como sociedade, estamos todos repletos de raiva e ódio. E, como a Fabi me disse, essa raiva, esse ódio não têm espaço de acolhimento nos imperativos do nosso mundo, pois não há espaços para acolher o que o Outro sente. Em geral, a raiva e o ódio são insuflados pela suposta confirmação das razões pelas quais se odeia, dada tanto por quem aplaude quanto por quem argumenta contra o que o Outro diz.

A nossa aposta é que pela escuta empática, por esse ato raro num mundo de ouvidos moucos, recuperemos nossa capacidade humana de conexão com o Outro, que anda perdida nos campos de batalha da vida. E assim substituir a política do convencimento por uma política do afeto, em que levar o Outro à (nossa) verdade dê lugar a acolher o Outro em seus sentimentos. Minha incapacidade para manejar as armas do ódio quer crer que, quando o Outro for acolhido por quem tem princípios e valores diferentes, talvez ele deixe de ver a diferença como um inimigo a se combater e destruir.

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Se perguntássemos a cem escritores o porquê de escreverem, certamente obteríamos cem respostas diferentes. Mas posso dizer que uma das razões que me levam à escrita é o desejo de encontro e de diálogo que a leitura propicia. Um evento como o de sábado é uma excelente oportunidade de exercício desse diálogo a partir da escrita, mas que se estende com a presença física, repleta de expressões, tons de vozes e sorrisos.

Fiquei feliz com cada abraço, cada dedo de prosa trocada, ainda que brevemente (era grande o desejo que o tempo não passasse e fosse possível conversar detidamente com todos). Fiquei muito feliz pelo interesse de muitos dos autores que me fazem companhia nesta coletânea tiveram em meu livro, lançado há um ano e meio pela Editora Patuá (saí com cinco novos potenciais leitores de meu Trítonos – intervalos do delírio!).

Compartilho aqui algumas lembranças fotográficas do lançamento pela Editora Oito e Meio da coletânea de contos Tabu (clique aqui para mais informações), da qual faço parte. O livro foi organizado pela Flávia Iriarte com integrantes do curso de escrita criativa do Carreira Literária.

Além das fotos, a Fabi (que, por ser a fotógrafa, acabou não saindo em nenhuma foto comigo) fez um vídeo lindo, para o canal do Laboratório dos Sentidos, sobre nossa viagem para o Rio de Janeiro. Deixo aqui também:

Lançamento do coletânea "Tabu" - 15 de julho de 2017.

Lançamento do coletânea “Tabu” – 15 de julho de 2017.

Lançamento do coletânea “Tabu” – 15 de julho de 2017.

Lançamento do coletânea “Tabu” – 15 de julho de 2017.

Lançamento do coletânea “Tabu” – 15 de julho de 2017.

Lançamento do coletânea “Tabu” – 15 de julho de 2017.

Lançamento do coletânea “Tabu”, com Marisa Tostes Daniel (mamãe) – 15 de julho de 2017.

Lançamento do coletânea “Tabu” – 15 de julho de 2017.

Lançamento do coletânea “Tabu” – 15 de julho de 2017.

Lançamento do coletânea “Tabu” – 15 de julho de 2017.

Lançamento do coletânea “Tabu” – 15 de julho de 2017.

Lançamento do coletânea “Tabu” – 15 de julho de 2017.

Lançamento do coletânea “Tabu” – 15 de julho de 2017.

Lançamento do coletânea “Tabu” – 15 de julho de 2017.

Lançamento do coletânea “Tabu”, com André Balbo – 15 de julho de 2017.

Lançamento do coletânea “Tabu”, com André Balbo e Samir Oliveira Ramos – 15 de julho de 2017.

Lançamento do coletânea “Tabu, com Samir Oliveira Ramos” – 15 de julho de 2017.

Lançamento do coletânea “Tabu”, com Paula Giannini e Táscia Souza – 15 de julho de 2017.

Lançamento do coletânea “Tabu” – 15 de julho de 2017.

Lançamento do coletânea “Tabu” – 15 de julho de 2017.

Lançamento do coletânea “Tabu”, com Nuno Rau – 15 de julho de 2017.

Lançamento do coletânea “Tabu”, com Fernando Sousa Andrade e Nuno Rau – 15 de julho de 2017.

Lançamento do coletânea “Tabu”, com Nuno Rau – 15 de julho de 2017.

Lançamento do coletânea “Tabu” – 15 de julho de 2017.

Lançamento do coletânea “Tabu” – 15 de julho de 2017.

Lançamento do coletânea “Tabu” – 15 de julho de 2017.

Lançamento do coletânea “Tabu” – 15 de julho de 2017.

Lançamento do coletânea “Tabu” – 15 de julho de 2017.

Lançamento do coletânea “Tabu” – 15 de julho de 2017.

Lançamento do coletânea “Tabu” – 15 de julho de 2017.

Lançamento do coletânea “Tabu” – 15 de julho de 2017.

Lançamento do coletânea “Tabu” – 15 de julho de 2017.

Lançamento do livro "Tabu" no sábado (15/7), na sede da Editora Oito e Meio.

Lançamento do livro “Tabu” no sábado (15/7), na sede da Editora Oito e Meio.

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trabalho blog além
forma delírio escrita primeiro
intervalos dessa amada leitura
hoje espécie livro
meio poema alegria
anos projeto poesia

leitor ainda

fazer trítonos exatamente palavras
patuá desse ontem
conto vida
publiquei sentidos

editora laboratório

(com Roberta Tostes Daniel, Fabiana Turci, Laboratório dos sentidos, Trítonos – intervalos do delírio e Editora Patuá)

Essas são as palavras que mais uso no Facebook. Quais são as suas?

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