Feeds:
Posts
Comentários

Posts Tagged ‘Escrita’

Pessoas vindas não se sabe donde
não podiam ficar perambulando,
sujando o espaço público. Também
deviam entender que elas não podem
ter filhos livremente, propagando
a inocentes, heranças de miséria.

Que treinemos então nossas milícias
para que nos defendam bem daqueles
que não querem servir, pois são culpados
enquanto não provarem o contrário.
Direitos se conquistam e não valem
aos que se atiram sem perdão no lixo.

Quem está condenado na existência
não deve ameaçar a segurança
dos que gozam as bênçãos de seus méritos.
Prendam mesmo as crianças e as grávidas.
Como somos de bem, porém, clamamos:
protejam fetos; domestiquem bichos!

Foto: Nilton Fukuda / Estadao

Foto: Nilton Fukuda / Estadão


(Triste poema do dia de hoje, em que a conhecida violência policial — contra os que não têm — continua sendo aplaudida. Versos tortos feitos a partir do seguinte e estarrecedor comentário deixado numa notícia intitulada “Polícia volta a atirar bombas para dispersar multidão no centro de SP”, publicada pelo maior Portal de Internet do Brasil:
“A verdade é que são pessoas vindas não se sabede onde que ficam perambulando pelo centro, sujando tudo. O centro de SP está irreconhecível. Piorou muito. Se os governantes não agem decentemente, com os impostos que eu pago, que a Justiça e a polícia ajam. Tem o meu apoio. Borracha nos baderneiros e desocupados. São dois focos a atingir:educação, para a pessoa entender que só podem ter filhos se tiver condições para tal e legal, não pode ocupar o que não é seu.Fora desocupados.SP não merece isso” (sic) — de um comentarista escondido sob o codinome de “Fundamental”.)

Read Full Post »

Íntimas paisagens

Viajo pelas íntimas paisagens
de minha alma exausta e maltrapilha.
Não soube de que deus a alma é filha
nem a vi nas edênicas paragens.

As coisas mais externas são bobagens;
a minha essência, nômade andarilha,
desnuda um deus qualquer enquanto trilha
os caminhos das íntimas viagens.

Sou singular em tudo quanto faço,
não há plural de mim no mundo inteiro,
ocupo muito mais que o meu espaço.

O olhar da divindade eu vejo enfim:
Quando me adentro feito um forasteiro
eu descubro o universo feito em mim.

Frida Kahlo - Raíces - 1943

Frida Kahlo – Raíces – 1943

Read Full Post »

Let me fashion
you a fable
or a borderline
(Ricardo Domeneck — Six Songs of Causality)

_
I

canto para meu sonho
narrando a pergunta
da fala
do acaso
assim eu rio
e a fé que alça
o grito escuro
da incerteza me chama
o sentido
sempre falo
ao futuro surdo
sobre o instante
do outro
indago à testemunha do azul
sobre a resposta
de um universo passado
leio no espanto
que planta mudas de loucura
sobre o caos desde o sétimo dia da criação

_
II

espanto para meu canto
narrando a criação
da chama
do azul
assim eu sonho
e a fé que testemunha
o instante futuro
da incerteza me planta
o outro
sempre grito
ao rio passado
sobre o escuro
do sentido
indago à fala do acaso
sobre a loucura
de um universo surdo
leio no falo
que alça mudas de pergunta
sobre o caos desde o sétimo dia da resposta

_
III

rio para meu falo
narrando a chama
da criação
do passado
assim eu grito
e a fé que planta
o surdo outro
da incerteza me pergunta
o instante
sempre espanto
ao escuro futuro
sobre o acaso
do canto
indago à loucura do sentido
sobre a alça
de um universo azul
leio no sonho
que testemunha mudas de resposta
sobre o caos desde o sétimo dia da fala

_
IV

grito para meu rio
narrando a resposta
da planta
do sentido
assim eu canto
e a fé que chama
o escuro azul
da incerteza me testemunha
o surdo
sempre sonho
ao instante futuro
sobre o falo
do acaso
indago à pergunta do espanto
sobre a alça
de um universo outro
leio no passado
que fala mudas de criação
sobre o caos desde o sétimo dia da loucura

_
V

falo para meu grito
narrando a alça
da loucura
do outro
assim eu espanto
e a fé que pergunta
o futuro sentido
da incerteza me fala
o rio
sempre canto
ao surdo azul
sobre o passado
do instante
indago à criação do sonho
sobre a testemunha
de um universo escuro
leio no acaso
que chama mudas de resposta
sobre o caos desde o sétimo dia da planta

_
VI

sonho para meu espanto
narrando a loucura
da resposta
do instante
assim eu falo
e a fé que fala
o acaso surdo
da incerteza me alça
o futuro
sempre rio
ao canto escuro
sobre o passado
do azul
indago à chama do outro
sobre a criação
de um universo sentido
leio no grito
que pergunta mudas de planta
sobre o caos desde o sétimo dia da testemunha

Read Full Post »

Tendo por detrás um mundo arrasado, ele segue adiante. Leva em si uma síntese de toda a humanidade, capitaneada por uma brincante esperança — crer no amanhã é um jogo de todos os dias.

A loucura estúpida da guerra transmutou em pó e ruínas o concreto de seus dias. O céu absurdamente azul agride o cinza fumegante dos escombros e a rubra ideia de vermelho do sangue derramado. Ainda assim, ele ostenta um frágil sorriso. E brinca com a leveza e o equilíbrio precário de um balão rosa jogado no ar.

Sua imagem me chegou sem aviso e exigiu de mim o silêncio que há em cada palavra. Pediu ainda o vazio do espaço não preenchido dentro e entre cada letra. E foi um silente pedido com urgências. Pedido perdido de assombro, de espanto. Do espanto que produz palavras que não logram alcançar a delicada dureza da imagem sobre a qual falam.

Quem é? Está sozinho? Tem nome? Tem sonhos? Não ouso sequer dar-lhe uma história. Suponho antes da palavra. Imagino que, talvez, a dele já lhe pese um tanto, como a de todos nós, que tateamos finitudes. E prefiro ficar com o instantâneo de sua alegria lúcida e de sua lúdica ação comum a todo infante — e que bem poderia também ser comum a todos nós, homines ludens: ganhar alturas com o arremesso de uma bola.

Foto: القدس - alquds (Periódico)

Foto: القدس – alquds (Periódico)

Read Full Post »

Aos deuses e às deusas de todas as crenças e incertezas eu invoco, para o caso de haver um ou mais que, eventualmente existindo, possam me ouvir.

Rogo-lhes que santifiquem minhas dúvidas, que multipliquem em meus olhos perguntas e questionamentos. E que a incerteza me livre de dizer como verdades perpétuas e imutáveis os seus incognoscíveis nomes, ou de tomar alguma explicação provisória como um absoluto.

Para isso, que minha fome de eternidade se aplaque com o efêmero da beleza, e não com o dogma de suas inexistências. Ou de suas presenças constantes ao redor do mundo, no fundamento mítico de toda cultura e de toda palavra.

Por amor a tudo quanto é sagrado e a tudo quanto é profano, que a frágil liberdade de ser me guie por todo onde. E que criemos tantas terras e tantos céus quantos nossa potência criadora, nossas linguagens e nossos verbos puderem fundar.

Possa eu sempre repartir liberdade e palavra como quem reparte o pão. Porque o corpóreo desejo de encontro pode criar conversas infinitas. Se hoje me engajo na conversa de tantos que já inexistem na carne, possa eu também semear uma precária eternidade pelo sopro de minhas palavras.

Que eu lute pelos meus princípios, e tenha a coragem de abandoná-los caso encontre outros que me pareçam melhores. Que eles me bastem enquanto me servirem ao íntimo. E que eu tenha a sorte de partilhá-los, nunca os infligir. Mas que minha ética jamais consinta em silenciamentos.

E peço que eu não seja submetido à tentação de achar que meus princípios devam mudar o mundo. Preservem-me desse engodo, deuses e deusas de toda descrença. Afastem-me ainda de todo dever-ser que eu possa tencionar impor a quem quer que seja.

Mas mesmo me mantendo longe do engodo de mudar o mundo, livrem-me também da indiferença e da apatia. Para que eu prossiga contando histórias buscando tocar, quiçá, alguns corações. E para que eu siga desejando, ardentemente, o impossível…

Amém!

Jean Benner (1836–1906) – Êxtase

Read Full Post »

É tempo de silenciar e viver
da falaciosa segurança que nos aprisiona
em nosso ódio,
em nossa impotência,
em nossa indiferença,

em nossos medos.

É tempo de mascar o ópio festivo
da ordem,
da normalidade,
do progresso,

da mediocridade do ouro.

É tempo de seguir a jurisprudência da desumanização
que permite a injustiça,
que garante o arbítrio da força,
que indefere a escrita

de um poema para nossos tempos.

É tempo de permitir, em nome da paz,
que atirem bombas em nossa rua,
que invadam nossa casa,
que sujem nossas mãos com as armas do crime,
que violem nossos corpos

para que se celebre a violência inominada
de nossa omissão.

Read Full Post »

“É assim que você gosta dos sons e sinais de uma língua: venenosos como escorpiões.”
(Ismail Kadaré – Concerto no fim do inverno)

No interior de cada palavra, não existem coisas. Há um agregado de noções e substâncias unificadas, evocadas numa nomeação. E mais a ausência da concretude, da coisa mesma e de suas particularidades singulares. Dessa forma, a língua envenena o mundo, ao construir e sedimentar uma forma abstrata de apreendê-lo, por meio de ausências. Dos silêncios por trás dos nomes.

Ouça o nome do vermelho. Por estar ligado à ideia de vermelhidão, é provável que esse conjunto de sons ou de sinais nos pareça tingido. Não há nada carmim nele, no entanto. Mas é difícil ver o neutro das palavras. Atingir o cerne dessa construção, desse artifício. Compreender o doce veneno dos signos enfeitiçando o mundo. O fetiche das línguas. Línguas que criam sempre um modo específico de apreensão do real.

Num livro de Borges, descobri a ideia de que cada palavra é uma metáfora morta. Em algum lugar, que em minha mente está mais obscuro que um labirinto borgeano, deparei-me ainda com a ideia um pouco menos inquietante de que mais ou menos três quartos de nossa linguagem são constituídos de metáforas desgastadas.

Nesse ponto, brota das pedras da linguagem cotidiana, esterilizada pela secura dos usos rotineiros e pelo esquecimento das metáforas, a louvação da poesia. Da linguagem poética, de que é capaz a literatura, e também outros saberes —  Zaratustra, aliás, é um livro de prosa poética, ou de filosofia? Ela desperta nossos olhos adormecido para as construções e potências das línguas. Ela desampara o homem de suas certezas estanques. Ela alimenta a peçonha de sons e sinais das línguas, tornando-as venenosas como escorpiões. Sedutoras como abismos…

quinzenario0006

Read Full Post »

I – Saudade

“Saudade é um mosaico
De tudo que eu deixo de mim,
Nada mais.”
(Edu Lobo / Paulo César Pinheiro)

Esparso, disperso,
procuro-me nos chãos que pisei:
eu sou feito desse caminhar.
Meu rosto invisível
Desenha-se nos sulcos das pedras
por sobre as quais passaram meus pés.

Não chego a saber
se o que de fato me constitui
é o pó que acumulo das estradas
ou é o que deixei
de mim. Se sou história ou lembrança.
Se saudade é o que falta ou o que levo.

___

II – Multidão

“Que a vida é pra se navegar
O que muda é o convés”
(Edu Lobo / Paulo César Pinheiro)

Em mim o mar é.
O meu sangue carrega o primevo
oceano, rubro como a cor
pouco antes do nome.
Eu mesmo sou barco e travessia;
borrasca, caos, cais e calmaria.

Corpo é multidão,
mesmo imerso em silêncio, e na noite.
O múltiplo me habita inclusive
quando estou sozinho.
Sei que quem canta na minha voz
e mais me sabe é o próprio universo.

___

Read Full Post »

Entro no ônibus praguejando contra quem o projetou. Além de não ser acessível – todos os que servem essa linha também não são –, este possui ainda mais um obstáculo: uma barra bem no meio do último degrau, parecida com essas de fazer pole dance. Aquele requinte de inacessibilidade já era capaz de atrapalhar quem estivesse entrando com uma mochila um pouquinho maior. Com muletas, então, subir no ônibus é uma batalha.

Vou me sentar na cadeira isolada antes da roleta e não tem como, pois simplesmente não há espaço. Olho o símbolo que diz que o assento é preferencial e quase gargalho com aquela mentira. Um pouco aturdido, volto para procurar um lugar vago nas poltronas duplas, enquanto desvio dos passageiros que seguem atrás de mim, para pagar ao cobrador a passagem. Demoro alguns instantes imprecisos a me habituar ao pequeno caos e finalmente vislumbro onde vou sentar. Noto haver um lugar vago ao corredor, na poltrona mais próxima. O senhor que está sentado à janela faz menção de se levantar, para me ceder o seu lugar. Incisivo, falo que não precisa, que prefiro mesmo um lugar ao corredor, e me sento.

Nem bem me acomodo e já percebo certa ansiedade do meu companheiro de trajeto. Agradeço-lhe a intenção de me ceder o lugar na janela, mas novamente lhe explico que no corredor é melhor para minhas pernas. Logo em seguida, ele me pergunta para onde vou. Desconfiado, menciono a avenida principal perto de casa, que é grande o suficiente para manter a inexatidão.

Constatando que vou descer antes, ele explica que vai para Santo Amaro e me indaga se eu sei se aquele ônibus passa numa rua que não conheço. Revelo minha ignorância sobre o itinerário posterior ao meu. Ele busca se acalmar, dizendo-me que se não passar, ele pode descer na Avenida. E logo me revela que está indo para uma clínica que faz um tal exame de sono.

Na sequência, comenta sobre um assunto incontornável em São Paulo: o trânsito. Lamenta que o trânsito esteja caótico – e, naquele dia em especial, agravado pela chuva que caíra pouco antes. Conta que saiu de casa às 17h, pegou um ônibus, metrô e depois aquele ônibus em que estamos, e está com receio de não chegar a tempo – seu horário na clínica é às 20h30. Diz que em 1959, quando fez dezoito anos e começou a dirigir como chofer de táxi, quase não havia carros nas ruas.

Teria a opção de ir de trem, mas naquele horário seria impraticável para ele fazer várias baldeações, já com 71 anos. E para qualquer pessoa com um pouco mais de dificuldades. Lembro-me de já ter estado, pouco antes das 18h, numa das linhas que ele teria de pegar para chegar ao seu destino e, na hora de descer, foi quase uma operação de guerra. Hoje, eu também não teria condições… Mal termino o pensamento, num átimo, e atino que meu companheiro agora lamenta que hoje não exista mais uma linha direta que servia à região onde ele mora.

– Sabe aquela música que fala “moro em Jaçanã”? Então, eu pegava esse trem. Moro ainda depois de Jaçanã.

Não sei por meio de que conexão, ele dá início a uma ode ao seu tempo, quando os filhos tinham “medo e respeito” pelos pais. Lamenta que hoje os pais não possam ser firmes, não possam mais bater e educar seus filhos. Reclama então de seu neto, que não tem compromisso com nada e é muito mimado. Abstenho-me, nesse ponto, de participar da conversa, limitando-me a vagos monossílabos. Em geral, tenho grande resistência a toda louvação de um tempo em que certamente eu não estaria vivo. Só posso existir hoje. É o tempo que tenho, e é dele que devo fazer, para mim, o melhor dos tempos.

Em seguida, me relatou que deixou o táxi, tornou-se caminhoneiro e depois marinheiro para, então, voltar a ser taxista, que foi como se aposentou. Só quando diz ter sido marinheiro é que reparo numa enorme tatuagem que cobre todo seu antebraço direito.

Talvez por se deparar com sua vida em perspectiva, estanca a fala, reflexivo, como que olhando para dentro. Após um fundo suspiro, sem qualquer sinal de pompa ou encenação, exclama:

– Eu tive uma vida muito boa!

Tocado mais pelo tom de sua voz, que conferia às palavras quase banais uma verdade palpável, fiquei um tempo em silêncio. Compartindo o silêncio do meu companheiro de trajeto. Não sei precisar como e quem o quebrou, mas aproveitei o interesse despertado por sua fala anterior, para mudar o rumo da prosa. Em vez de denegrir o presente em nome de um passado repleto apenas de laivos de duvidosas idealizações, interessavam-me suas memórias.

Perguntei-lhe algo sobre como era a vida de marinheiro. Ele contou que havia conhecido metade do mundo nesse período. Esteve em diversos portos na América, na Europa e em alguns no Oriente Médio. Revelou-me que tinha medo de ir para os lados do Vietnã, por causa da guerra. Ficou quatro anos embarcando e desembarcando mercadorias em Lloyds brasileiros. Deixou a marinha mercante após se casar. A dura vida de marinheiro e, em especial, o fato de passar três a quatro meses embarcado a cada viagem foram decisivos para que tomasse essa decisão.

Viramos na grande avenida que passa perto da minha casa. Ali, me mostrou que naquela transversal funcionava a Metalúrgica Barbará, que seria, na época, do genro de Jucelino. Ele, como caminhoneiro, carregava material de construção ali, para levar a Brasília – que, embora já inaugurada, ainda era um canteiro de obras. Segundo o meu companheiro de trajeto, o dinheiro que se desviou daquela construção teria dado para construir “dez Brasílias”. Exageros à parte, não deixo de crer naquela testemunha e sua verossímil história. Infelizmente, não há como supor que a corrupção endêmica do país seja uma invenção dos dias atuais.

Nem bem nos afastamos do cruzamento com a antiga metalúrgica, ele diz, quase surpreso de si mesmo:

– Eu não tenho dinheiro nenhum, que é coisa que fica para provocar briga depois que a gente vai, mas tenho muitas histórias. Minha vida daria um livro…

Pergunto se ele não teria vontade de escrever um livro com suas memórias. Ele me diz que seus filhos insistem para que o faça. Seu tom reticente, no entanto, me revela que não, ele prefere contá-las a ter de escrevê-las.

Só então me dou conta de que já estou quase chegando no meu destino. Levanto-me para passar o bilhete e rodar a roleta. O trânsito lento me dá ainda alguns minutos de conversa. De pé, detenho-me junto ao banco em que estava sentado.

– Você já deve estar cansado de tanto me ouvir falar, não?

– Imagina! Estou é lamentando ter que descer agora e interromper a conversa – respondo.

Seu sorriso me revela que ele captou a verdade do que lhe disse. Despedimo-nos. Por algum motivo, o motorista perde a entrada de seu trajeto habitual e acaba entrando na minha rua. Desço, contente com o erro, embora novamente me veja praguejando contra o projetista daquele ônibus e seus requintes de inacessibilidade.

Enquanto ando os poucos metros entre o ponto de ônibus e minha casa, me dou conta de que não perguntei o nome de meu companheiro de trajeto. Cogito tentar alcançar o ônibus, para perguntar-lhe da janela, mas a ideia vã desvanece quando vejo o ônibus dobrar a esquina. Apesar de inominados um para o outro, levo comigo algumas de suas histórias, a parcela de sua herança que ele deixou para mim…

quinzenario0005

Read Full Post »

O que somos é construído pelo sedimento de nossas experiências, em nossa viagem solitária pela vida. Se por um lado existe algo que pareça uno em nossa identidade, ao ponto de podermos dizer “eu” e sentirmos estar sendo o mesmo numa contínua progressão, por outro é fácil reconhecer que nunca somos fixamente esse mesmo, e que o outro nos habita e faz com que hoje sejamos diferentes do que já estivemos sendo.

Para quem, como eu, vive uma relação identitária esperada e naturalizada, não é comum que se questione sobre o outro que aflora em si. Dessa forma, quando me transformo e me modifico, seja porque amadureço, me amedronto, envelheço ou mudo um juízo sobre algo, sou ainda percebido como um contínuo. Há, no entanto, aqueles a quem sempre se pergunta quando foi que se tornaram o que são. Aqueles que têm suas identidades interditas, em algum grau, pelo confronto com o que nossa cultura estabeleceu como natural — embora não seja possível saber no humano aquilo que é natureza, pois somos demasiado humanos. Talvez pela patente e necessária luta por afirmar sua diferença e, em muitos casos, construir sua identidade, estes, a quem se pergunta tais questões ligadas ao devir, são vistos como não naturais. Como se pessoas com identidades ditas naturais — ou seja, naturalizadas pelas convenções aceitas pela sociedade — também não se inventassem a cada dia.

Embora eu me invente quotidianamente, já que sou, como todos, rondado pelo outro que me constitui, ninguém jamais me perguntou, por exemplo, quando foi que decidi permanecer cis ou me descobri hétero. E essas explicações, para mim, estariam na ordem do indizível, das coisas que não têm nome. Sou criado, porém, de uma forma a acreditar na ilusão de que essas características seriam uma espécie natureza, não levando em conta todas as construções simbólicas, de origens múltiplas, agregadas ao que venho sendo.

Na última semana de fevereiro concluí um livro que testemunha a história de alguém cuja identidade frequentemente é vista como um desvio do “natural”. A autobiografia de alguém a quem certamente sempre se pergunta como foi que se tornou aquilo que é. E que responde, em muitos sentidos, a essa pergunta que lhe deve ter sido lançada inúmeras vezes. Lendo sua história, numa narrativa impressionante, fluida, vertiginosa e envolvente, pude ver que ele é um homem como eu. Na narrativa de suas memórias estão inscritos também seus valores. Percebo então que partilhamos muitas de nossas visões de mundo, embora não nos conheçamos, tenhamos histórias de vida bem distintas e sejamos de gerações diferentes — ele é um pouco mais velho do que meu pai seria hoje, se estivesse vivo. Creio que essa identificação de valores e de concepções de mundo acentue ainda mais a visão que se forma: ele é um homem como eu.

Mas há nele algo, que é da ordem de sua história de vida, que nossa sociedade tende a enxergar como uma diferença de substância, uma outra natureza. Não é. Tanto a minha identidade quanto a dele são construídas nesse caldo simbólico chamado cultura. Mas como eu sou um homem cis, sou interpretado como natural. Já ele é um homem trans.

Ele é João W. Nery. E seu livro, Viagem solitária: memórias de um transexual trinta anos depois, é uma releitura de sua própria história. Uma releitura, pois é a segunda autobiografia que ele escreve. Em 1984 publicou o livro Erro de Pessoa: João ou Joana?, que narrava seu périplo da infância até a chamada cirurgia de redesignação sexual, a que se submeteu em 1977. Viagem solitária inclui também a narrativa de sua vida desde então.

João foi o primeiro trans-homem a se submeter a um procedimento desse tipo no Brasil, quando tais cirurgias eram consideradas ilegais. Tanto que o cirurgião Roberto Farina, que o operou, e que foi o primeiro médico brasileiro a operar uma transmulher em 1971, foi condenado por lesão corporal grave por conta de uma cirurgia feita em Waldirene Nogueira. Ela, cujo nome de batismo era Waldir Nogueira, foi operada por Farina e, após a operação, fez um pedido de retificação de seu registro civil na Justiça paulista em 1975, o que foi negado. O fato chamou atenção da opinião pública, uma vez que ela havia se submentido a um procedimento cirúrgico não previsto em lei como lícito.

“A ironia era precisar de um rótulo, do que todos tentam fugir”, escreve João. O leitor que acompanha as narrativas dessa viagem sente a angústia de alguém que se vê sem lugar no mundo, dessemelhante a todos que o circundam. Mas também se maravilha com a força desse mesmo alguém que, ante a premente necessidade de se reinventar, efetivamente se refaz.

“Iluminando o silêncio das coisas sem nome”, como diz o belo e preciso verso de um poema escrito pelo autor, Viagem solitária é a partilha de uma experiência, feita com grande coragem e generosidade por um homem de mente inquieta. Um homem que descobriu “que há várias masculinidades diferentes e que são construídas também pelas tecnologias da cultura dominante”. Alguém que abriu à força de muita luta veredas para transitar pelos papéis designados a um homem, que era o lugar em que sempre se viu. Que ainda luta contra a invisibilidade a que as pessoas trans são relegadas, nos mais diversos aspectos da vida — no plano legal, no plano social, no plano simbólico… E que, mesmo com todas as lutas empreendidas, fez questão de continuar dócil e afetivo, e de transmitir, como pai, essa doçura e essa afetividade a seu filho adotivo. Ao ponto de escrever, já no final da viagem pela qual conduz seus leitores, que sentiu que sua paternidade tinha valido a pena e, sobretudo, que seu filho se tornara o seu “acerto” na vida.

Vale para Viagem solitária o que Antônio Houaiss escreveu no prefácio do primeiro livro de João W. Nery, Erro de Pessoa: “é um livro imprescindível para a todos os que queiram ver melhor o espanto que é o ser humano”. Vale também a exortação que Houaiss deixa ao fim deste prefácio: “Leiam-no e humanizem-se”. João conta que perdeu o medo das palavras com o antropólogo Darcy Ribeiro, com quem costumava conversar na adolescência e que se tornara uma espécie de mentor intelectual. Ao viajar pelos sendeiros abertos por sua escrita, o leitor constata que ele aprendeu bem essa lição…

quinzenario0004

Read Full Post »

O Fortuna
Velut luna
Statu variabilis,
Semper crescis
Aut decrescis
(Carl Orff – Fortuna imperatrix mundi // de Carmina Burana)

Projetamos nossos desejos sobre o mundo para, então, aguardarmos o tempo da realização. A essas projeções, chamamos umas vezes de sonhos, outras de utopias, outras ainda de idealizações e, eventualmente, de planos.

Os planos pressupõem um método que leve o desejo e a projeção a ganharem corpo e se plasmarem na concretude das coisas palpáveis. Planos são como que cartografias do desejo. Para que se concretizem em colheita ou realização, há um sem número de variáveis envolvidas. As contingências dirigem os planos a lugares insuspeitos, por vezes superando o imaginado, noutras frustrando sua matéria desejante, esfriando a motivação. Ou revelando que motivação era o que não havia, mas apenas uma ideia vaga sobre o que seria desejável.

quinzenario0001

quinzenario0002A roda da fortuna é a imperatriz do mundo. A ela submetemos nossa finitude e nossas realizações. Sua impermanência deflagra o caráter provisório de tudo o que há. Haver no mundo é estar sendo. Tudo o que é sólido se desmancha no ar. No ar do tempo, que corre dentro das gentes e das coisas.

Em relação aos planos permanentes que eventualmente tenhamos, uma das contingências que podem determinar sua realização, mudança ou abandono é o fôlego para levá-los ou não adiante. No breve suspiro que é a vida, quantos brevíssimos suspiros de horas temos para oferecer permanentemente ao planejado? Fomos audaciosos demais no que pretendíamos? Ou faltou ousadia?

Quando os calendários inauguraram o novo ano, comecei a plasmar no palpável do (ciber)espaço um plano de escrita permanente e de atualização periódica deste blog. Assim surgiu o Semanário, que hoje tem publicado o nono texto em quase dois meses. O projeto de atualização semanal foi executado até aqui com folga. No entanto, ocupou, nas horas livres dos dias e nos dias livres da semana, mais tempo do que o previsto, roubando de outros projetos os escassos instantes.

Diante da ausência de tamanho fôlego para tantos projetos, e da necessidade de estabelecer prioridades, uma mudança de planos se torna um imperativo. Abandono, então, o plano inicial de escrever semanalmente no blog, para me dedicar a outras escritas. E estabeleço um novo compromisso de produção de texto, que será quinzenal — ou, mais precisamente, ‘quatorzenal’, já que as atualizações vão ocorrer a cada duas semanas.

quinzenario0003

No dia 16/03 volto à programação normal, com a publicação de algumas impressões sobre o livro Viagem solitária, de João W. Nery. O livro, que terminei nesta última semana, é uma releitura — devidamente atualizada — de sua obra anterior Erro de Pessoa, lançada 27 anos antes, em 1984. Vale para Viagem solitária o mesmo que Antônio Houaiss escreveu sobre Erro de Pessoa: “é um livro imprescindível a todos os que queiram ver melhor o espanto que é o ser humano”.

Até lá!

Read Full Post »

Li em algum lugar que “uma leitura que surpreende é aquela que nos faz ver o que estava posto, mas não sabíamos nomear”. Qualquer leitura, pois não lemos apenas textos. Lemos imagens, movimentos, sons, gestos. Lemos até sorrisos.

Particularmente, aprecio leituras que me desarticulam da palavra. Que me pedem silêncio para absorver o que dizem, pelo impacto sobre a sensibilidade, o intelecto, as emoções…

Gosto de leituras que me deixam a tatear imprecisões. Que trazem à boca uma palavra que ainda não tem nome. Ou umas tantas. Linhas que aquecem dúvidas, como um delírio de sol. Que expandem o que há dentro para dilatar os afetos, embora sem substância definível — afinal, onde é a sede dos sentimentos que nos acometem?

Persigo, no ato de ler, aquilo que apenas reverbera. Aquilo que se entreouve no incerto. Aquilo que escapa, a esperar o que não pode ter fim. E que saiba na boca como voo ou mergulho.

Sigo empós o desvelar das estruturas do silêncio. Sim, preciso de leituras que me encham de silêncio. Que me ensinem a ouvi-lo. Veredas lógicas que desvelem sons e sentidos. E que ressoem como a música de Pärt.

Preciso de leituras que me façam inconclusivo. Que agucem o desejo de ir. Além… Além de mim, além do homem. Procuro discursos que me provoquem. Desafiem-me. Enovelem-me, para que eu possa me entretecer em textos… Seguindo o fio de Ariadne, no percurso entre Cloto e Átropos.

Pawel Kuczynski - Book Jumping

Pawel Kuczynski – Book Jumping

Read Full Post »

Calendários são convenções que determinam muitas coisas em nosso mundo. Não podemos prescindir deles e não deixamos de levá-los em consideração. De alguma forma, somos adestrados a eles desde cedo, quando aprendemos a distinguir o tempo do lazer — as férias — do tempo do dever. O adestramento às noções de tempo que o calendário cria em nossa vida alcança todo um conjunto de práticas da vida quotidiana. Talvez a divisão e disposição dos dias ao longo das semanas seja um dos mais evidentes para pessoas como eu, tão ligadas às rotinas.

Um desejo surgido no fim de 2013 esperou a transição dos calendários para ganhar corpo. Mais do que isso, seu corpo também está ligado à divisão do tempo em ciclos contínuos e constantes, embora em alguma medida arbitrários. Trata-se do desejo de dar a este blog uma nova dinâmica de atualização, conferindo constância à publicação de textos meus. Assim, me proponho a escrever sempre por aqui, mesmo em períodos em que minha escrita ainda não publicada nem pensada para esse espaço viva um período momentâneo de estiagem. Isso porque não pretendo extinguir a cisão existente entre os textos deste espaço e aqueles que, enquanto escrevo, me fazem pensar em livro. Livro impresso. Tinta manchando a alvura de papel. Evidentemente, no entanto, essa cisão é porosa e, vez ou outra, o universo do que escrevo com frágil desejo de permanência acaba emergindo por aqui. Contos e poemas aqui publicados confirmam isso.

Com essa proposta, dou início hoje à publicação do Semanário, que reunirá artigos, crônicas e, quiçá, poemas a serem publicados aqui todos os domingos. Eventualmente, pode acontecer de outros posts surgirem fora dessa periodicidade. Quando isso ocorrer, esses posts naturalmente não serão marcados na Categoria Semanário.

E o dia de hoje não poderia ser mais propício para começar esse projeto. Afinal de contas, calendários são convenções que determinam muitas coisas em nosso mundo. Neste dia 05 de janeiro, além de dar início ao Semanário, celebro o aniversário da minha Fabi, com quem, há quase três anos, compartilho os dias todos da vida.

Nós: Eu & Fabi

Fabi é mais do que minha musa inspiradora. É com ela que travo diálogo constatante, dividindo ideias, sensações, planos e sonhos. Dividindo palavra — essa matéria-prima e inteira do que fazemos. É quase sempre minha primeira leitora e primeira crítica. É quem me aponta, nos meus escritos, os abismos e alguns engenhos que para mim acabam desapercebidos. Esse diálogo começou em 2008, após uma oficina de poesia na Casa das Rosas. Em 2010, transformou-se em diálogo amoroso. E desde 2011, tornou-se dividir a cama e a vida inteira. A minha vida e a vida dela tornando-se nossa vida. Com o amor manchando as paredes da nossa casa. Um amor sem fim… E que está sempre além de qualquer palavra.

Fabi entre as musas do Teatro Heredia, em Cartagena das Índias (Col.) As Musas | Polímnia - Musa da Poesia Lírica, da Retórica e da Eloquência | Terpsícore - Musa da Dança e do Canto Coral | Fabiana - Minha Musa | Melpómene - Musa da Tragédia | Calíope - Musa da Poesia Épica e da Eloquência

Fabi entre as musas do Teatro Heredia, em Cartagena das Índias (Col.)
As Musas: Polímnia – Musa da Poesia Lírica, da Retórica e da Eloquência | Terpsícore – Musa da Dança e do Canto Coral | Fabiana – Minha Musa | Melpómene – Musa da Tragédia | Calíope – Musa da Poesia Épica e da Eloquência

Read Full Post »

Há dez anos, inaugurava o Tablo[i]g na blogosfera. Na época, embora os blogs fossem uma febre, eu optei por fazer um blog dentro de um site pessoal, todo construído em HTML. Tinha aprendido, não havia muito, a construir sites. Portanto, além do exercício de escrita, havia também o exercício da edição.

tabloig1

Primeira versão do Tablo[i]g num antigo site pessoal

O nome, simplório, conquistou permanência. Junção das palavras Tabloide e Blog. Sua ideia era existir na fronteira das noções de um caderno de notas públicas e de um tabloide íntimo.

Hoje, olho para traz buscando tatear aquele que fui, e que deu início ao exercício público da escrita. Sou o mesmo e tão diverso do eu que era… Dez anos de vida é vida inteira. A gente é capaz de se recontruir incontáveis vezes num tempo assim tão dilatado. É capaz de se inventar novo de tempos em tempos, sem perceber que o novo guarda o mesmo que lhe deu origem. E que recolhe na memória alguns vestígios de história, a que se costuma chamar identidade.

Aquele que fui se rendeu às facilidades de uma plataforma para blog somente em 2005. Quando já habitava outra cidade. Era outro? Talvez fosse, na telúrica Minas. Passeei pelo novo blog, expondo textos e tateando incertezas, durante cinco anos.

tabloig2

O Tablo[i]g enfim se rende à plataforma de blog em 2005

A internet era outra. E o eu, também outros — vezes tantas! Com as mudanças da internet, fui levado a inaugurar em 2010 meu blog atual. As ferramentas da nova plataforma me permitiram, além de continuar meu “caderno de notas públicas”, recolher e armazenar os textos antigos dos dois blogs anteriores. Foi o que fiz, reunindo essa dispersa história que, nesta sexta-feira 13, completa dez anos.

São dez anos de escrita pública aqui, nas infovias. E dez anos de outras escritas várias, em grande parte ainda não publicadas. Isso porque eu acabo sendo um tanto antiquado: em geral, quando escrevo, penso em livro. Livro impresso. Tinta em papel. Por isso, termino relegando ao blog o esporádico das palavras. Mais do que um caderno de notas públicas ou um tabloide íntimo, faço do meu blog um espaço de diálogo impermanente. Ou de ensaios de escrita. Ou de tudo quanto é vário e inacabado. Talvez aí resida a verdade de meu blog se anunciar como um caderno de notas públicas…

tabloig3

Em 2010, na nova plataforma, o Tablo[i]g passa a não só cumprir sua função de “caderno de notas públicas”, mas também a reunir sua história, armazenando os posts dos dois blogs anteriores

Para 2014, pretendo dar ao Tablo[i]g uma nova dinâmica de atualização que dependa menos de eu querer publicar no ecrã algo daquilo que escrevo para manchar a brancura do papel. É o desejo de hoje. Tudo pode mudar até lá, embora estejamos às portas desse novo ano. Se é assim, que ele abra uma nova década aos meus escritos!

Read Full Post »

Dia a dia, são diásporas
que transmutam as entranhas
das cidades. Megalópoles
erigem distâncias tantas,
fundam tribos sem contato
e sem qualquer vizinhança.

A carne da multidão
se esvai em sangue no cinza
asfalto, donde não rompem
quaisquer flores improváveis.
Célere, transita a vida
sem chegar a não-lugares.

Faustos, beatos, pactários,
faunos, putas, cramulhões,
rábulas, cegos, senhores,
indigentes e doutores:
os frágeis pés dessas gentes
acumulam pós das ruas.

Os pés passam desfilando
o transitório das gentes
sobre o pó de todo espaço.
Público. Local de encontro,
concerto ou desacerto
de almas sempre sozinhas.

Solidão em SP - Foto: Frederico Antonio Ferreira
Solidão em SP
Foto: Frederico Antonio Ferreira

Read Full Post »

Dormimos enquanto passava algum jogo na televisão. Lembro de ter deixado o volume mais baixo, para que somente um lance de emoção, ou um gol, pudesse nos despertar eventualmente. Sim… Palmeiras e São Caetano teria sido capaz de nos fazer dormir. Mas, embora a tv estivesse ligada durante esse jogo, não tentamos assisti-lo. E adormecemos durante Ponte e Atlético Sorocaba.

Não sei exatamente a que horas, acordo com um grito de gol exaltado: “Gooooooooooooooooooool do São Paulo!” Logo em seguida mais um gol do São Paulo. Só então, compreendo que se trata de algum programa esportivo mostrando gols dos estaduais. Lembro então do meu Flamengo, que perdeu mais uma vez para o Resende (isso volta e meia acontece nos cariocas da vida) e, até as últimas notícias que eu tinha então, ainda estava sem técnico.

calvinflaO tempo de uma lembrança foi o lapso entre o segundo gol do São Paulo e o gol do Oeste. O narrador, quando o tricolor paulista sofreu o gol, fez seu trabalho de forma quase burocrática, não prolongando o grito, que não chegou a ser sequer um grito. Recordo então que a última vez em que soube desse jogo – quando a tv transmitia Palmeiras e São Caetano – ele estava exatamente 2×1. Teria o São Paulo empatado? Perdido? Ou assegurou a vitória e a sobrevida do atual técnico? Apuro ouvidos e atenção, mas não me mexo. Quero apenas saber do resultado, sem grandes esforços. Se fosse preciso levantar e buscar a informação, permaneceria ignorando. Mas aquela informação era ofertada assim: fácil e ao acaso.

Um novo grito no mesmo tom e na mesma intensidade daquele primeiro, que me despertou, se repete. O terceiro gol do São Paulo foi claramente comemorado pelo narrador, durante o jogo. Mas teve ainda um último gol. Nele o narrador se esforça e prolonga o grito. Mas ele está nitidamente num tom abaixo. Antes que a narração me confirme – já que eu não olho para a televisão no momento –, advinho: gol do Oeste.

Aquela diferença tonal me intrigou. Tentei manter na mente o remembramento daqueles dois últimos gritos. Tinha de levantar e, no mínimo, me preparar tudo para dormir. Em contraste com a preguiça geral e quase endêmica do fim de semana, era preciso despertar na hora certa nesta segunda. Portanto, não poderia prescindir de um despertador.

Levanto, mas vou direto para o teclado que jaz quase esquecido no quartinho. Minha impressão era a de que o narrador havia gritado o gol do São Paulo em fá sustenido, e o do Oeste em mi. Parecia-me que um tom – significativo e marcante – separava a celebração de um mal disfarçado lamento. Em relação ao gol do São Paulo, erro por pouco. Ele foi comemorado em fá. Ou, pelo menos, a minha lembrança me diz assim, com o teclado confirmando.

Como tenho a impressão de um tom de separação, tento o mi bemol. Baixo demais. Em relação ao gol do Oeste – ou, ao menos, em relação à minha lembrança, pois não tinha os áudios dos gols comigo, mas somente o eco ainda não longínquo ressonando como memória – eu havia acertado. Foi narrado em mi, num simulacro de comemoração que me soou como um lamento. Meio tom. Um deslize separando júbilo de… outra coisa qualquer que não fosse isso.

Volto para o quarto e a Fabi desperta, talvez com o som dos meus passos. Sorrio e conto a minha pequena descoberta, a história dos tons… Ela me sorri, lindamente perdida entre o sono e o júbilo. Ela, que começou a ver futebol por minha causa, hoje é mais entusiasta do que eu dos esportes. Acho que também por influência da conjugação de um ano olímpico com a ótima fase do seu Corinthians. Termino minha narrativa e logo o sono a vence. E eu fico ouvindo gritos de gol, aleatoriamente, na tv. Volto ao teclado e constato – ou invento, perdido entre memória e criação – que as vozes mais agudas costumam gritar gol entre fá e mi bemol – apenas o fá sendo verdadeiro grito de celebração. As vozes mais graves, ao que me parece, gritam em ré, narram gols sem envolvimento em dó sustenido e lamentam gols desfavoráveis entre dó e si (o si me soa como aqueles gols da Argentina sobre o Brasil).

tritonoCuriosamente, o espectro dos tons que constato ou crio para os gols vai de si a fá. Com os extremos formando um trítono. Esse fato me assombra e me faz desconfiar de que muito provavelmente eu invento praticamente tudo. Isso porque estou escrevendo uma história – algo entre um conto e uma pequena novela – que está num momento em que a percepção do trítono é algo de extrema importância. Isso depois de o personagem, que narra sua experiência, ter lido um pequeno tratado sobre o trítono. Portanto, andei lendo e escrevendo muito sobre trítonos ultimamente!

Sento-me para escrever esse breve relato e me recordo que o mesmo programa que me despertou e despertou em mim essas questões também me informou que o Flamengo já tem um novo técnico. Apesar disso, não consigo ver nesse momento mares melhores para ele. Talvez seja a saudade de ouvir mais gols do meu time comemorados com um sonoro grito sustentado em fá.

zico-flamengo

Read Full Post »

O lançamento do livro História Íntima da Leitura, que ocorrerá no dia 16 de setembro, das 14h às 18, na Casa das Rosas, marca a estreia da Editora Vagamundo no cenário editorial brasileiro – e na vida dos leitores e dos escritores. A obra, uma coletânea de textos ficcionais de 18 autores sobre as relações entre a leitura e a escrita, apresenta as propostas da nova editora: dar voz a autores contemporâneos nos mais variados gêneros literários e ser uma editora feita por leitores para leitores, apostando na criação de canais de comunicação com o leitor e na publicação de livros de qualidade a preços acessíveis.

O livro traz uma teia de narrativas que forja uma história da literatura a partir da leitura e coloca em tensão e diálogo os papéis de leitores, livros e personagens, enveredando pela construção de uma biblioteca que reinventa a noção de intimidade. História Íntima da Leitura convida também o leitor a deixar suas marcas e inserir-se no texto, reescrevendo, a cada leitura, uma nova história. Nesse ponto, a Editora Vagamundo inova, chamando cada leitor, na última página dessa espécie de livro infinito, a continuá-lo com suas próprias histórias, fazendo do ato da leitura o centro do processo. Para isso, a Vagamundo mantém em seu site o “Espaço do Leitor”, onde as histórias íntimas dos leitores serão publicadas.

Em parceria com a Levante Cultural, a Editora Vagamundo lançou ainda um documentário com os autores da História Íntima da Leitura. O vídeo, bem como a íntegra dos depoimentos dos autores, estão disponíveis no site da editora sob licença Creative Commons. Trata-se de mais um convite para que o leitor possa se inserir na construção de um trabalho colaborativo, legitimando o processo de significação de todo o ato de leitura. No “Espaço do Leitor”, a Vagamundo também vai publicar os trabalhos derivados, em qualquer formato, feitos a partir do material audiovisual relacionado ao projeto.

Lançamento

O evento de comemoração do lançamento da História Íntima da Leitura e da Editora Vagamundo será realizado no dia 16 de setembro, das 14h às 18h, na Casa das Rosas – Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura –, um importante espaço dedicado à literatura, situado na Avenida Paulista, 37.

O livro será vendido a R$ 23,00, valor abaixo da média do mercado, confirmando o compromisso da editora com os seus leitores. Quem quiser garantir seu exemplar durante o lançamento, poderá adquiri-lo mediante o pagamento em dinheiro ou cheque. Após o lançamento, o livro estará disponível no site da Editora Vagamundo, que aceita todos os cartões de crédito e tem como política permanente o envio gratuito para qualquer lugar do Brasil.

Serviço:
Lançamento do livro: História Íntima da Leitura
Quando: 16 de setembro de 2012, das 14h às 18h.
Local: Casa das Rosas – Avenida Paulista, 37 (próximo ao metrô Brigadeiro). Estacionamento pela Alameda Santos, 74.

Editora Vagamundo:
www.editoravagamundo.com.br

Read Full Post »

 

http://www.youtube.com/watch?v=k4NFOemJFuU

http://www.editoravagamundo.com.br | Vídeo sob licença Creative Commons
Documentário com os autores da coletânea “História Íntima da Leitura”.

realização

paulo mainhard
fabiana turci
teofilo tostes daniel

depoimentos

bruna nehring
carlos kiffer
daniel mendonça
fabiana turci
ingrid morandian
isabela michelan
ivan carlos regina
livia lima
luiz de nadal
marcelo tosta
marisa tostes daniel
paulo mainhard
roberta simoni
roberta tostes daniel
sandra schamas
teofilo tostes daniel

edição

fabiana turci
paulo mainhard
teofilo tostes daniel
roberta tostes daniel

câmera

paulo mainhard
teofilo tostes daniel

trilha sonora original

teofilo tostes daniel
fabiana turci
produzida no estúdio lá

São Paulo / Rio de Janeiro – 2012

www.editoravagamundo.com.br
www.levantecultural.com.br

Read Full Post »

 

http://www.youtube.com/watch?v=b_0zpJgvEZk

http://www.editoravagamundo.com.br | Vídeo sob licença Creative Commons
Vídeo com os autores da coletânea “História Íntima da Leitura”.

realização
paulo mainhard
fabiana turci
teofilo tostes daniel

edição
fabiana turci
paulo mainhard
teofilo tostes daniel
roberta tostes daniel

câmera
paulo mainhard
teofilo tostes daniel

trilha sonora original
teofilo tostes daniel
fabiana turci
produzida no estúdio lá

São Paulo / Rio de Janeiro – 2012

www.editoravagamundo.com.br
www.levantecultural.com.br

Read Full Post »

Há seis anos, pelo que se conta, surgiu aquele espaço que desejava reunir expressões coletivas, mensalmente, em torno das palavras e imagens. Não, não o conheci neste quando. Foi bem mais recentemente, por intermédio de minha irmã, que começou a fazer parte do corpo de palavras daquela revista virtual.

Demorou ainda um pouco para que eu acabasse figurando também por lá. E isso aconteceu pela indicação da minha Fabi. Agora sou mais um dos diversos afins que por lá se reúnem, entre caminhos e palavras. O meu conto “Ay, este azul” participa da 69ª Leva da Revista Diversos Afins. Na prosa, me acompanham José Geraldo Neres e Roberta Simoni. Nesta Leva, ainda estou cercado pelos versos de Mercedes Lorenzo, Clarissa Macedo, Marra Signoreli, Raquel Gaio e Helena Barbagelata. Tudo entremeado pelos traços de Rui Cavaleiro. Acabo de ler hoje, com deslumbramentos vários, todos os contos e poemas que seguem comigo nessa Leva que comemora os seis anos da Diversos Afins. E ainda há o que ler: os artigos de Hilton Valeriano, Sinvaldo Júnior (espécie de heterônimo do escritor Rogers Silva), Ivana Luckesi, Larissa Mendes e Fabrício Brandão, além da “pequena sabatina” à artista Daniela Galdino.

Obrigado à Leila Lopes de Andrade e Fabrício Brandão pelas levas mensais da Diversos Afins. E um agradecimento especial à Leila por ter me convidado a fazer parte da atual leva.

Ay, este azul

69ª Leva

Diversos Afins

Read Full Post »

« Newer Posts - Older Posts »

%d blogueiros gostam disto: