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Posts Tagged ‘Dor’

(in memoriam de Roberta Carmona)

Partir é sempre precoce.
O peso de uma ausência
dói nos ombros de todos que a suportam.
E quanto mais ombros,
mais a dor se alastra.

A dor partilhada pela palavra,
encharcada de Verbo,
move tudo junto.
Comove.

Mesmo se a presença
foi só potência,
uma ausência pode pesar.
Fica uma lacuna aberta
sobre o silêncio da impossibilidade.

Partir é sempre precoce.
Por isso agora, claudicante,
eu tateio palavras
sentindo que nenhuma me veste.

___
Não cheguei a conhecer pessoalmente a Roberta Carmona. Eu só a vi uma vez, no Patuscada, quando ela entrevistava algum escritor que não cheguei a ver quem era. Pretendia falar com ela, pois lhe havia enviado meu livro pouco tempo antes, mas acabei não tendo oportunidade para isso. Eu a conheci pelo Literatórios, e quando nos adicionamos ela logo me disse que queria ler meu Trítonos. Sempre que interagimos, foi pela palavra, tanto nas redes sociais quanto nos comentários aos seus vídeos.

Hoje, ao entrar neste espaço, vi muitos escritores amigos lamentando a sua perda. Nosso mundo sempre fica mais pobre quando alguém se vai. E hoje a literatura também. Pela simpatia a Roberta despertava em mim – e certamente em todos – fui imediatamente tocado por sua ausência. Tão tocado que não consegui deixar de escrever. Mesmo sentindo que “hoje nenhuma palavra me serve”, como a Paula Fábrio escreveu e de quem roubei a ideia da frase para fechar isso acima que escrevi e agora partilho em memória da Roberta.

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Quando o chão treme

Quando o chão em que a gente pisa treme, jogando abaixo ou fazendo ruir nossas construções, o que fazer? A quem apelar? Onde se agarrar?

Placas tectônicas partem ao meio vidas e esperanças. A morte chega igualmente para ricos e pobres. A penúria não, nem a fome, pouco as endemias. Mas sempre restará o lixo dos banquetes para alimentar os que têm fome, os remédios vencidos para tratar a doença de miseráveis que insistem em permanecer vivos. Sempre restarão sobras da fartura para a caridade.

Mas isso foi lá do outro lado do mundo, e ninguém sabe bem onde fica o Paquistão. Nem a Cachemira. Nem mesmo a Índia! São abstrações situadas, sitiadas na outra face da esfera planetária, com nomes incompreensíveis, saídos diretamente do Vedas ou do Corão. Mas mesmo assim, como o poeta que acordou pensando em uma pedra numa rua de Calcutá, penso também na criança abstrata, cuja vida desconheço, cujo nome ignoro, mas cujo olhar é de uma concreta interrogação pelo sentido da permanência no mundo que acabou de ruir. Que chão pode ter essa criança que, subitamente, encontra-o fendido pelo mover de suas próprias entranhas?

Embora à distância, seu sofrimento não me é indiferente. Nessa hora, a fragilidade da vida nos lembra que há universalidade na dor…

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