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Posts Tagged ‘Dilma Rousseff’

Em 2014, me lancei um desafio. Escrever periodicamente neste blog. Num primeiro momento, a ideia era fazer publicações semanais. Não tive fôlego para isso e, logo no início, alterei a periodicidade para quinzenal.

Esses três anos mantendo esse projeto revitalizaram meu blog, fazendo com que se ampliassem os acessos e as leituras. Basta constatar que entre 2014 e 2016, publiquei 106, dos 165 textos aqui publicados (contando este). Nesse período, terminei a escrita e lancei (em dezembro de 2015) o meu livro “Trítonos – intervalos do delírio“. Muitas das publicações feitas aqui entre fins de 2015 até dezembro do ano passado ecoam esse livro.

Os resultados dessas publicações periódicas já se evidenciaram em 2014. Foram 36 textos publicados, 1386 visitas e 2027 visualizações. Em 2015, os números foram ligeiramente mais modestos: 28 textos publicados, 1276 visitas e 1930 visualizações.

Em contrapartida, 2016 foi um ano talvez inigualável para esse modesto “lugar de ensaiar com as palavras”. No ano passado, eu fiz 42 publicações. O blog alcançou incríveis 1812 visitas e 2777 visualizações. Dezembro foi o mês com o maior número de visualizações (284) e o segundo maior número de visitas (195). O maior número de visitas no ano passado foi alcançado em setembro (198), que foi o segundo melhor em visualizações (282).

A resenha que fiz sobre o livro de contos “Olhos d´Água“, da Conceição Evaristo, publicada em abril, foi o texto mais acessado do ano passado. Com uma diferença de somente um acesso, o poema “Se eu acreditasse num deus“, publicado no fim de novembro, ficou em segundo lugar. Talvez pelo tema (questionamentos sobre o sagrado, a fé e a dúvida), ele acabou se tornando um fenômeno de acessos em pouco tempo.

O terceiro post mais acessado também foi um fenômeno de acessos em um prazo curto de tempo. Ele foi feito em comemoração a um ano de lançamento do meu livroTrítonos“, pela Editora Patuá. Lá, eu compartilho uma playlist de músicas tocadas pelo personagem Demian no conto “Gritos do açafrão” – conto que acabou me levando a encontrar o nome e a forma do livro, que estão interligadas.

Na sequência, temos um poema de amor escrito para minha esposa, Fabiana Turci, quando completamos cinco anos de casados (o “Cinco variações sobre um tema amoroso“), escrito em janeiro. Por fim, empatados na quinta colocação, se encontram um texto sobre os caminhos nebulosos da nossa política e da nossa democracia, escrito ainda março, quando um diálogo entre a então presidenta Dilma e o Lula foi divulgado de forma indevida (ou, no mínimo, questionável) pelo juiz Sérgio Moro (“O dia de hoje nos livros de História“), e um poema-resposta à leitura do último livro de Pedro Tostes (o post tem o mesmo nome do livro: “Jardim minado“).

Além desses seis textos mais acessados, há outros dois textos que merecem destaque. O primeiro é “Cisgeneridade: a suposta natureza é um silêncio“, que foi texto escrito em 2015 mais acessado naquele ano, foi o segundo texto não escrito em 2016 mais acessado do ano, ficando imediatamente atrás do “Cinco variações sobre um tema amoroso”. O segundo destaque tem relação direta com os primeiros dias de 2017. Todo ano, o texto mais acessado é sempre “O meu coração é um músculo involuntário e ele pulsa por você” (certamente por causa da música, de cujos versos retirei esse título), escrito em 2006 ainda no antigo blog, e posteriormente migrado para o blog atual. Em 2016 não foi diferente. Mas nos primeiros 28 dias de 2017, o texto até agora mais acessado foi “Fúria Travesti“, escrito ano passado após a morte da ativista argentina Lohana Berkins. Como amanhã (29 de janeiro) é o Dia da Visibibilidade Trans, não podia deixar de destacar esses dois textos. O primeiro deles, inclusive, foi especialmente escrito para ser publicado no Dia da Visibilidade Trans de 2015 (veja a mobilização desse ano em torno da #VisibilidadeTRANS no Youtube, no Facebook e no Twitter).

Em 2017, haverá uma mudança de rumos por aqui, afinal os caminhos aqui se inventam sob os pés que os percorrem. Não continuarei com as publicações quinzenais. Tenho projetos literários me esperando, dois livros que estão sendo escritos e outros projetos ainda em fase de primeiras notas. E para poder me dedicar mais a essa escrita, vou reduzir a frequência de textos no blog. Meu objetivo então será o de fazer, pelo menos, uma publicação por mês aqui no Ensaio Aberto. Isso porque alguns outros ensaios com as palavras não podem ser tão abertos assim…

2017criarocaminho

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Agosto termina deixando um abismo de dúvidas e receios sobre os rumos do país. Abismos, aliás, que nunca se fecharam. Talvez por isso, o dia hoje tentou seguir a normalidade. Mulheres e homens saíram para trabalhar, crianças foram para as escolas, os ônibus circularam normalmente, lojas e restaurantes abriram. Mas uma tensão — presente nos ares do país durante todo esse ano — não se dissipava. A chuva que caia desde cedo na cidade em que habito não lavava a alma de ninguém. Talvez os céus apenas chorassem por essa herança de incertezas.

Mas o que vivemos hoje está longe de ser uma exceção em nossa história. Olhando para trás, é possível constatar que “o maior eixo de continuidade da história recente do Brasil é a instabilidade”. Se pensarmos a história recente do país a partir da chamada Era Vargas, vamos perceber que tivemos somente onze eleições diretas para presidente desde 1930. Por isso, temos hoje estranhas configurações de pais que votaram para presidente o mesmo número de vezes que seus filhos. Mesmo no meu caso, minha mãe só votou para presidente duas vezes a mais do que eu.

Dos oito presidentes eleitos nessas onze eleições que tivemos nos últimos 86 anos de nossa história, somente quatro conseguiram terminar seus mandatos. E em 127 anos de República, apenas 12 presidentes foram eleitos por voto direto, tomaram posse e governaram até o final, incluindo nesse cálculo a presidenta Dilma Rousseff no primeiro mandato. Constatar isso de forma quase didática é um pouco assustador… Ainda mais pelo fato de termos vivido os últimos vinte (e um?) anos com uma ilusão de estabilidade, derruída no decorrer de 2016. Realmente torço para que meus temores sejam exagerados, mas a história me mostra que a junção de um descrédito generalizado em relação à democracia com um crescimento preocupante de diversos discursos de ódio jamais produziu bons frutos.

Desde 1930 apenas quatro presidentes eleitos diretamente para exercer esse cargo conseguiram terminar seus mandatos. Apesar das diferentes conjunturas de cada um desses períodos históricos, podemos tirar algumas conclusões. Uma dela é que, Infelizmente, o maior eixo de continuidade da historia recente do Brasil é a instabilidade. - André Mendes Pini

Desde 1930 apenas quatro presidentes eleitos diretamente para exercer esse cargo conseguiram terminar seus mandatos. Apesar das diferentes conjunturas de cada um desses períodos históricos, podemos tirar algumas conclusões. Uma dela é que, Infelizmente, o maior eixo de continuidade da historia recente do Brasil é a instabilidade. – André Mendes Pini.

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Há onze dias, a ministra Cármen Lúcia foi eleita para assumir a presidência do Supremo Tribunal Federal. Naquela sessão de 10 de agosto, o atual presidente daquele Tribunal deixou no ar a pergunta se ela preferia ser chamada de presidente ou presidenta:

– Concedo a palavra à ministra Cármen Lúcia, nossa presidenta eleita… ou presidente?

Cármen Lúcia deu uma resposta em que era clara sua intenção de marcar distância da presidenta Dilma Rousseff.

– Eu fui estudante e eu sou amante da língua portuguesa. Acho que o cargo é de presidente, não é não?

A resposta da ministra, além de marcar esse distanciamento (político) da presidenta, hoje afastada por um processo de impeachment, usa uma crítica bastante comum desde que Dilma assumiu a presidência, em 2011, e optou por ser chamada de presidenta. Essa crítica busca associar a escolha da presidenta à ignorância, como se ela não tivesse sido estudante ou não tivesse apego à “Última flor do Lácio, inculta e bela”, como Olavo Bilac se refere num poema à língua portuguesa.

Pode-se, como a ministra Cármen Lúcia, preferir o uso de “presidente” também para mulheres. Pode-se tentar afirmar que o termo, por ser comum de dois gêneros, efetivamente alcançaria uma espécie de “neutralidade” (num país que ocupa o 121º lugar no ranking de participação feminina na política, de acordo com a ONU). Mas não é possível fazer dessa opção política (num tempo de polarização partidária) uma mera opção linguística, como tenta fazer a ministra do STF, e como fizeram muitos dos que criticaram a opção de Dilma pela forma feminina da palavra, como se essa opção fosse fruto da (suposta) ignorância ou falta de estudos da presidenta.

Parece que o grande argumento dos que não gostam da opção de Dilma (e que, curiosamente, também são muitos daqueles que não gostam dela políticamente) seria a inexistência da forma feminina em muitas palavras semelhantes a “presidente”. Em outras palavras, não existiria “presidenta” porque não há “adolescenta” ou “serventa”.

Esse tipo de argumento tenta mostrar os processos linguísticos como equações matemáticas, embora as línguas sejam pouco ou nada cartesianas. Palavras têm histórias que às vezes subvertem a lógica, novas línguas se formam do rompimento das regras de línguas mais velhas (o português nasce da “degeneração” de regras do latim, assim como o italiano, o francês e o espanhol). Talvez por isso mesmo o chamado príncipe dos poetas a chame de “inculta e bela”.

E por falar em “poeta”, é interessante notar que essa palavra acabou fazendo durante um tempo o caminho inverso à palavra “presidente”, sendo seu uso como substantivo de dois gêneros preferido à forma feminina poetisa. Talvez por isso mesmo, entre quem não gosta de “poetisa”, ninguém diga que a palavra não existe simplesmente por não existem “atletisa” ou “estetisa”.

Ao compreendermos que palavras têm história, podemos entender o porquê de certas escolhas. Enquanto a forma feminina “presidenta”, em lugar do comum de dois gêneros “presidente”, testemunha a urgência de se transformar a política num lugar que abrigue igualmente homens e mulheres, a palavra de dois gêneros “poeta”, em lugar de “poetisa”, talvez lembre que aquela que escreve versos não pode ser diminuída diante daquele que exerce  mesmo ofício. Em fins do século XIX e início do XX, tornaram-se populares tanto em Portugal quanto no Brasil saraus lítero-musicais de senhoras. Como nessa época, as leituras comumente recomendadas às mulheres eram a Bíblia, livros de receitas, revistas femininas e romances água-com-açúcar, eram raras as mulheres que fugiam a lugares-comuns nesses saraus. E o termo poetisa acabou muito associado a esses eventos e à poesia de qualidade ruim que comumente se produzia neles. E para fugir desse esteriótipo, era comum que escritoras em versos de grande fôlego preferissem ser apontadas como “poetas”, e não como “poetisas”.

Curiosamente, Florbela Espanca foi uma frequentadora desses saraus. Mas, diante da força de seus versos, o escritor António Ferro buscou distanciá-la do que ele chamava de “poetisas de colmeia”, e a “promoveu” num ensaio à categoria “poetisa-poeta”. E pelo que me parece, diante das grandes poetas (ou poetisas?), a crítica frequentemente se comportou assim, preferindo apagar o caráter feminino dessas autoras e afirmando que poetas não têm diferença de sexo. Evidentemente, em resposta a isso há também aquelas autoras que preferem se identificar como “poetisas”, e não como “poetas”.

Mas voltando ao tema desse texto, “presidenta” não foi uma invenção de Dilma ou do partido pelo qual ela se elegeu. Consta em minha edição do Houaiss, de 2009 – anterior à sua eleição, portanto. Tenho ainda uma edição do Aurélio tão velha que está sem imprenta, mas tenho razões para crer que é anterior à Constituição de 88. Nela também se lê a palavra “presidenta”. E Pasquale, num artigo recente escrito para a Folha de São Paulo, fala de um dicionário de 1913 que registra “presidenta”, então como um neologismo.

A ministra Cármen Lúcia, na presidência da mais alta corte do país, pode preferir ser chamada de “presidente”. Mas o cargo é “presidente” ou “presidenta”. Até mesmo Machado de Assis usou a palavra “presidenta” numa obra sua (portanto, em 1913, ela já era um neologismo um tanto velho!). E não foi numa obra qualquer de juventude, ou nalguma crônica mais descuidada de jornal. Como a ministra é amante da língua portuguesa, eu a convido a reler o capítulo LXXX de uma das principais obras machadianas, “Memórias Póstumas de Brás Cubas”. Neste capítulo, Brás Cubas se encontra como Lobo Neves, que acaba de ser nomeado presidente da província, e Virgília, grande amor de Cubas e esposa de Lobo Neves. O novo presidente da província oferece a Brás Cubas um cargo político de secretário. E lá no último parágrafo desse capítulo, lemos:

Meu espírito deu um salto para trás, como se descobrisse uma serpente diante de si. Encarei o Lobo Neves, fixamente, imperiosamente a ver se lhe apanhava algum pensamento oculto… Nem sombra disso; o olhar vinha direito e franco, a placidez do rosto era natural, não violenta, uma placidez salpicada de alegria. Respirei, e não tive ânimo de olhar para Virgília; senti por cima da página o olhar dela, que me pedia também a mesma coisa, e disse que sim, que iria. Na verdade, um presidente, uma presidenta, um secretário, era resolver as coisas de um modo administrativo.
(Machado de Assis. Memórias Póstumas de Brás Cubas. Rio de Janeiro: Livraria Garnier, 1988, p. 141.)

No entanto, a opção de Cármen Lúcia, evidentemente, é uma opção política. Certamente ela não ignora os registros da palavra “presidenta” nos dicionários. Mas a chamada norma culta é apenas um dos registros possíveis da língua. E quem está acostumado a ler a língua empoeirada escrita nos processos que correm pelos tribunais de todo país sabe bem o quanto todo juridiquês e seu latinório costumam andar propositalmente distantes desse organismo vivo.

Gosto de pensar nossa língua como o eu-lírico do poema “Evocação do Recife”, de Manuel Bandeira, quando diz: “A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros / Vinha da boca do povo na língua errada do povo / Língua certa do povo / Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil”. Isso porque palavras não passam a existir apenas quando estão em estado de dicionário. Elas são registradas nos dicionários porque existem, por serem usadas na língua viva do povo, por se encontrarem registros de seu uso. E essa luta por existência e legitimação não deixa de ser um ato político de certos grupos falantes. Assim como é um ato político que tenha sido necessária a eleição de uma mulher para a presidência do Brasil para fazer com que a palavra “presidenta”, presente até mesmo em Machado de Assis, mas que até então existia mais como uma possibilidade linguística, ganhasse a concretude das ruas na língua certa do povo.

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Os três parágrafos abaixo, escritos por João Paulo Cuenca, abordam de forma quase precisa a inquietação que os acontecimentos do dia de hoje me trouxeram. Por isso mesmo, não poderia me furtar a dividir, com uma tristeza perplexa, tais reflexões aqui. Vem-me à cabeça a indagação sobre como o dia de hoje será narrado nos livros de história daqui a vinte e poucos anos (espero que ainda haja livros, história e humanidade até lá!). Espero quase fervorosamente que não seja como o antecedente de um golpe que pôs fim ao mais longo período democrático do país.

Há algo em jogo para além das disputas partidárias ou do apoio e da queda de um governo: são os rumos da República, ou melhor, da própria democracia. E para mim a atitude do juiz alçado à condição de herói despreza esse valor, ao divulgar grampos avidamente, atropelando a justiça com fins partidários — e não com fins políticos, posto que essa crítica me parece imprecisa já que o Judiciário É POLÍTICO, pois é um dos poderes da República.

Pois bem, ao tornar pública a conversa da pessoa que ocupa a presidência da nação, o juiz federal Sergio Fernando Moro, pelo pouco que sei de direito como leigo, cometeu um ato ilegal (veja mais aqui sobre essa questão). Uma vez que na interceptação existe o envolvimento de uma pessoa com prerrogativa de foro, não caberia ao juiz suspender o sigilo das interceptações telefônicas, mas sim remetê-la ao tribunal competente — no caso, o Supremo Tribunal Federal. Não estou nem pensando na questão da ilegalidade da própria interceptação, caso ela tenha sido feita após a própria ordem de interrupção da medida. A parcialidade do juiz me parece evidente quando se constata que esse é provavelmente o último ato dele antes de remeter toda investigação ao Supremo, em razão da prerrogativa de foro que ganharia um dos investigados, ou talvez o principal deles, chamado Luiz Inácio Lula da Silva. E Moro decide — ao meu ver, além de parcial, ilegalmente, divulgar tudo, sabendo bem das consequências políticas e sociais dessa divulgação.

Sei que isso dificilmente me livraria de argumentos ad hominem contra minhas breves reflexões, mas mesmo assim não custa afirmar aqui que acho que o PT, para se manter no poder, tomou muitos rumos desastrosos. Alianças com antagonistas históricos (como Maluf e Collor), distanciamento de pautas histórias em favor dos direitos humanos, desastrosas políticas ambientais e indigenistas, e repressão violenta ao direito de manifestação são os pontos mais tristes desses rumos fronteiriços ao desastre.

Por João Paulo Cuenca

A questão agora não é estar ou não com o PT. Não é ser “fora Dilma” ou “fica Dilma”. Eu nunca votei na Dilma, por exemplo, e acho seu governo desastroso. E daí? Essa não é a questão agora. Já deixou de ser há meses e vocês ainda não entenderam.

A questão é que o Juiz Moro não é imparcial e atropela a justiça com fins políticos, numa operação conjunta à grande parte da imprensa, partidos políticos e corporações. A imprensa não pode ser um partido político. O Judiciário não pode ser um partido político.

Entendam: o que está em jogo é algo muito mais importante do que quem ocupará ou não a cadeira de Presidente da República do Brasil. O que está em jogo é a própria cadeira. E a República.

(Publicado originalmente aqui.)

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