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Posts Tagged ‘Desejo’

Depois deste texto, não voltarei a escrever sobre eleições neste ano. Mesmo com o segundo turno da eleição presidencial em aberto, não me interessa explorar seus desdobramentos e as eventuais diferenças entre os dois candidatos que permanecem na disputa nacional. Digo apenas que não voto no PSDB de forma alguma — minto, votaria no Aécio em pavorosas e remotas hipóteses como, por exemplo, se ele estivesse no segundo turno com o Levy Fidélix ou com o Everaldo (Pastor).

Este ano, o que me moveu a escolher meus candidatos e me posicionar publicamente sobre minhas escolhas tem pouca relação com a eleição presidencial — que frequentemente ocupa a centralidade das preocupações de grande maioria, como se ao presidente fosse possível mudar todo o país, se quisesse. Minha preocupação principal estava voltada a que tipo de parlamento iria se formar, tendo em vista os posicionamentos extremamente reacionários que vejo ganhando cada vez mais força em nossa sociedade.

Buscarei externar minha perplexidade por ver uma significativa vitória, nas eleições proporcionais, de projetos aos quais me opus com os meus votos. Uma vitória que não sei sequer mensurar, tendo em vista que meu escopo de análise se firmou apenas nos cinco candidatos a deputado federal mais votados no Brasil, todos do eixo Rio-São Paulo. Foram eles, por ordem de votação:

1º Celso Russomanno (PRB-SP) – 1.524.361
2º Tiririca (PR-SP) – 1.016.796
3º Jair Bolsonaro (PP-RJ) – 464.572
4º Pastor Marco Feliciano (PSC-SP) – 398.087
5º Bruno Covas (PSDB-SP) – 352.708

Para mim, a grande surpresa foi a expressiva votação de Russomano. Minha dificuldade inicial de entender essa votação acabou se esvaindo, quando me dei conta de que ele teve uma boa exposição num programa da TV Record após as eleições de 2012, e que ele se elegeu pelo mesmo partido do Marcelo Crivella — sobrinho do Edir Macedo, senador pelo Rio de Janeiro que disputa o segundo turno para governador naquele Estado.

Por mais que se possa inferir algumas tendências parlamentares de Russomano, tendo em vista seu partido e o claro apoio que ele recebeu da Igreja Universal em 2012, eu não teria como dizer que seu discurso se afina no anverso exato das bandeiras dos direitos humanos e das minorias, que são as bandeiras em que votei. Pode ser que boa parte de seus mais de um milhão e meio de eleitores defenda, por exemplo, que direitos humanos são para humanos direitos e clame por um estado mais policialesco. É bem provável ainda que uma parcela deles se oponha a temas da ordem particular e que dizem respeito ao comportamento moral de cidadãos e cidadãs, como o casamento igualitário, a lei de identidade de gênero, a legalização do aborto e experiências de legalização das drogas. Mas não tenho hoje elementos irrefutáveis para associar todas essas opiniões ao candidato.

Dos cinco mais votados do país, porém, se pode saber, com exatidão, a pauta extremamente conservadora de dois deles: Bolsonaro e Feliciano. Juntos, os dois tiveram 862.659 votos. Além de levarem consigo outros parlamentares com algum tipo de afinidade por suas propostas, sei que a votação significativa dos dois certamente ecoa na eleição de outros políticos com pensamentos semelhantes, mas com votações menores.

Bolsonaro e Feliciano tiveram mais votos do que a soma dos cinco deputados eleitos pelo partido em que votei nas eleições proporcionais (730.097 votos). Veja a votação desses deputados federais abaixo:

Edmilson Rodrigues (PSOL-PA) – 170.604
Chico Alencar (PSOL-RJ) – 195.964
Jean Willys (PSOL-RJ) – 144.770
Cabo Daciolo (PSOL-RJ) – 49.831
Ivan Valente (PSOL-SP) – 168.928

Evidentemente, o PSOL não é o único partido que congrega candidatos que defendem essas pautas. Além disso, tenho grandes e fundadas dúvidas sobre se o deputado menos votado desse grupo se afina com as lutas dos demais eleitos. Mesmo assim, apenas a título de comparação, considerei a soma de voto dos cinco candidatos eleitos deputados federais pelo partido. Do mesmo modo, também é claro que não são apenas Bolsonaro e Feliciano que concentram o voto dos eleitores extremamente conservadores do país. Mas tanto os parâmetros de comparação superficiais que usei como o notório crescimento das bancadas de partidos, grupos e candidatos eleitos com pautas declaradamente reacionárias me assustam.

E por que me assustam? Acho que o temor com esses resultados vem de uma constatação inegável: ao contrário de uma possível alienação política visível em quem vota, por exemplo, num candidato como o Tiririca, os votos em favor da dupla Bolsonaro e Feliciano são conscientes. Eles dizem respeito a um tipo de sociedade que esses eleitores desejam construir. E não tenho como não lamentar essa escolha, tão antagônica à minha. Eu desejo construir uma sociedade que acolha a diversidade e se esforce por promover a justiça. Uma sociedade que entenda que o corpo e os aspectos particulares da vida de cada pessoa devem ser ingovernáveis, e que os conflitos advindos dos diversos desejos precisam ser resolvidos buscando promover o máximo de igualdade possível. Não quero, ainda, que os direitos que eu tenho sejam privilégios, negados a outros grupos ou pessoas. E não quero um Estado que me dite a moral e os bons costumes, como ousam defender alguns grupos.

Li numa rede social uma postagem de um colega dos tempos de colégio que fazia a comparação entre a votação de Bolsonaro e de Jean Willys (candidato em quem eu votaria, caso ainda morasse no Rio de Janeiro). Demorei um pouquinho para me dar conta de que a postagem não lamentava a alta votação de Bolsonaro, mas a celebrava. Diante do fato de o candidato do PP ter recebido três vezes mais votos do que o do PSOL, o autor dessa publicação comentava, sob a forma de pergunta: “E agora quem representa o pensamento da sociedade brasileira?”. Mesmo com o pequeno crescimento da bancada do PSOL, amargo a impressão de que o pensamento da sociedade brasileira parece estar mais próximo ao do Bolsonaro do que ao do Jean Willys.

Lamento sim, mas respeito as escolhas das quais discordo frontalmente. Sei que elas retratam o país em que vivemos. Continuarei, claro, me opondo a elas, tendo em vista que o processo democrático é construído dentro da diversidade e da pluralidade de opiniões, e tem como sua condição de possibilidade a não opressão às minorias . O processo democrático não se faz só pelo voto. Ele amadurece quando os eleitores cobram, fiscalizam, respeitam a pluralidade de visões e buscam interlocução com aqueles que receberam, pelo voto, um mandato para representar as bandeiras que defendem.

Mesmo pensando assim, assombra-me o abismo de minha própria perplexidade com os legislativos eleitos este ano. Segundo campanha veiculada pela Justiça Eleitoral, o domingo passado teria sido o dia da “Festa da Democracia”. Porém, diante da onda conservadora que vejo se alastrar pelas legislaturas estaduais e federal, o dia 5 de outubro de 2014 pode significar muitas coisas. Mas nenhum de seus significados está no mesmo campo semântico da noção que eu tenho de festa.

Textos referidos pelos links (por ordem de aparição):
» Meus candidatos e minhas candidatas defendem as famílias e a vida. E os seus? – Teofilo Tostes Daniel
» O Congresso não ficou pior. Apenas está mais parecido com o Brasil – Leonardo Sakamoto
» Congresso eleito é o mais conservador desde 1964, afirma Diap – Estadão / Política / Eleições 2014 (autor: João Carlos Magalhães)
» Mais conservadora, Câmara deve barrar ações liberalizantes – Folha de São Paulo / Eleições 2014 (autores: Nivaldo Souza e Bernardo Caram)

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Ao menos setecentos anos de tradição poética apontam que no domingo passado cheguei ao meio do caminho. Está lá, nos primeiros versos de A Divina Comédia: “Nel mezzo del cammin di nostra vita / mi retrovai per una selva oscura, / ché la diritta via era smarita.” O meio do caminho era a idade de 35 anos, que seria uma antiga metáfora para a meia idade, considerando uma vida potencial de 70.

Sendo o primeiro verso uma antiga metáfora, aos setecentos anos de tradição do poema de Dante se adicionam ainda os anos que dão antiguidade a ela. Como não tenho fôlego para retroceder tanto e encontrar salmos ou profetas que confirmem o arcaísmo dessa ideia, contento-me com a abertura da comédia dantesca. E aceito a noção nela encerrada de que chego ao ápice do arco da vida. Noção desconcertante, pois esse ápice é simplesmente minha vida toda, até aqui.

“Nel mezzo del cammin”, olho para os dois sentidos dessa estrada incerta. E dou graças pela metade que já pude viver. “Gracias a la vida, que me ha dado tanto”! Vejo-me como o resultado, a resultante desse caminho. Componho-me dos meus passos, dos meus afetos, das minhas experiências. Sou um desses bichos que deliram ser anjos, como sói acontecer a todos nós, demasiado humanos.

Se olho para trás grato, feliz com a memória que carrego, a outra metade do caminho intuo desejoso. Palmilhar o incerto não é tarefa das mais simples, mas é isso a existência. O que nem poderia ser, de repente é e se perpetua num tempo sem garantias. E nós nos fazemos, nos inventamos na tentativa de prover algum sentido a essa trajetória de absoluta gratuidade.

Em relação à segunda metade da vida — que é a trajetória descendente que me resta –, desejo especialmente três coisas. A primeira é que seja tão feliz e mais longa que a porção inicial. A segunda é que eu possa seguir ao lado da autora da foto abaixo — a mulher amada! — semeando alegrias, compartilhando sonhos e sorrisos. E, por fim, o terceiro desejo é que nessa segunda parte da jornada minha mente conserve seu poder de realização até o fim, mesmo quando o corpo já estiver fraquejando.

Esses são desejos absolutamente comuns, quase banais. Mas não é preciso ir além do homem para desejar o eterno retorno de cada alegria…

Eu, nel mezzo del cammin, em 22 de junho de 2014. | Foto: Fabiana Turci

Eu, nel mezzo del cammin, em 22 de junho de 2014. | Foto & Bolo: Fabiana Turci

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O Fortuna
Velut luna
Statu variabilis,
Semper crescis
Aut decrescis
(Carl Orff – Fortuna imperatrix mundi // de Carmina Burana)

Projetamos nossos desejos sobre o mundo para, então, aguardarmos o tempo da realização. A essas projeções, chamamos umas vezes de sonhos, outras de utopias, outras ainda de idealizações e, eventualmente, de planos.

Os planos pressupõem um método que leve o desejo e a projeção a ganharem corpo e se plasmarem na concretude das coisas palpáveis. Planos são como que cartografias do desejo. Para que se concretizem em colheita ou realização, há um sem número de variáveis envolvidas. As contingências dirigem os planos a lugares insuspeitos, por vezes superando o imaginado, noutras frustrando sua matéria desejante, esfriando a motivação. Ou revelando que motivação era o que não havia, mas apenas uma ideia vaga sobre o que seria desejável.

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quinzenario0002A roda da fortuna é a imperatriz do mundo. A ela submetemos nossa finitude e nossas realizações. Sua impermanência deflagra o caráter provisório de tudo o que há. Haver no mundo é estar sendo. Tudo o que é sólido se desmancha no ar. No ar do tempo, que corre dentro das gentes e das coisas.

Em relação aos planos permanentes que eventualmente tenhamos, uma das contingências que podem determinar sua realização, mudança ou abandono é o fôlego para levá-los ou não adiante. No breve suspiro que é a vida, quantos brevíssimos suspiros de horas temos para oferecer permanentemente ao planejado? Fomos audaciosos demais no que pretendíamos? Ou faltou ousadia?

Quando os calendários inauguraram o novo ano, comecei a plasmar no palpável do (ciber)espaço um plano de escrita permanente e de atualização periódica deste blog. Assim surgiu o Semanário, que hoje tem publicado o nono texto em quase dois meses. O projeto de atualização semanal foi executado até aqui com folga. No entanto, ocupou, nas horas livres dos dias e nos dias livres da semana, mais tempo do que o previsto, roubando de outros projetos os escassos instantes.

Diante da ausência de tamanho fôlego para tantos projetos, e da necessidade de estabelecer prioridades, uma mudança de planos se torna um imperativo. Abandono, então, o plano inicial de escrever semanalmente no blog, para me dedicar a outras escritas. E estabeleço um novo compromisso de produção de texto, que será quinzenal — ou, mais precisamente, ‘quatorzenal’, já que as atualizações vão ocorrer a cada duas semanas.

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No dia 16/03 volto à programação normal, com a publicação de algumas impressões sobre o livro Viagem solitária, de João W. Nery. O livro, que terminei nesta última semana, é uma releitura — devidamente atualizada — de sua obra anterior Erro de Pessoa, lançada 27 anos antes, em 1984. Vale para Viagem solitária o mesmo que Antônio Houaiss escreveu sobre Erro de Pessoa: “é um livro imprescindível a todos os que queiram ver melhor o espanto que é o ser humano”.

Até lá!

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O primeiro mês de 2014 mal se esvai, e os comentários sobre a passagem do tempo parecem um eterno dejá vu: “O ano nem começou e janeiro já foi embora!”, “O ano só começa depois do Carnaval”.

Neste ano, no entanto, é comum ouvir desde o início que o ano só começará depois da Copa. O que significa que seis meses de 2014 seriam apenas de espera. Pelo quê? Godot? Se uma Copa do Mundo já altera a agenda brasileira, uma Copa no Brasil talvez seja capaz de instaurar um caos ainda maior nos calendários da nação. Mas o impacto, sobre a economia brasileira, dos dias em que o Brasil parar para ver os jogos da seleção, assunto sempre explorado por algum tipo de especialista, certamente ficará diluído, neste ano, pelo assunto geral do impacto econômico da Copa de 2014.

Como ocorre desde 1994, para completar a incompletude dos anos de Copa do Mundo, alguns meses após a competição ainda haverá eleições gerais. Com isso, um novo estado de espera se instaura. Uma espera de outra natureza que, por incrível que seja, parece mover menos os cidadãos. Talvez porque a crescente descrença adquirida não autorize hoje qualquer esperança vencendo o medo. Mas é fato que as políticas públicas — e os noticiários políticos — viverão uma espécie de suspensão, no aguardo dos próximos mandatários.

E nossas eleições têm essa característica estranha: parecem incapazes de mobilizar os cidadãos — ao contrário da Copa. Aparentemente, ao menos são descoladas do que acontece nos campos de futebol, já que desde a retomada da democracia, os reveses da seleção foram sucedidos por vitória do grupo que já estava no poder, e a vitória da seleção em 2002 antecedeu uma ruptura. A única exceção foi o ano de 1994, justamente quando se inaugurou a era de Copas do Mundo somadas a Eleições Gerais.

Outra característica de nossas eleições é a primazia da atenção para os cargos executivos — talvez na espera de algum herói que mude a realidade, embora a figura do herói que arrebanha esperanças me pareça ter esmaecido imensamente após 2002, ou seja, não me parece hoje viável. Esquecemo-nos sempre, entretanto, de quem faz as leis. E nesse terreno, na verdade, não temos qualquer controle sobre quem elegemos. Por mais que escolhamos o menos pior, ou até, com alguma sorte, um bom candidato, não temos verdadeiramente como votar nele. Votamos necessariamente no partido.

Nas eleições de 2010, por exemplo, apenas 35 dos 513 deputados foram eleitos com os próprios votos, ou seja, alcançaram individualmente o quociente eleitoral em seus estados, sem precisarem dos votos de suas coligações. Se ainda sei alguma coisa de matemática, isso representa 6,8% dos deputados que foram para o Congresso. Os outros 93,2% foram eleitos “indiretamente”. Esse fator, conjugado à crise na noção da representação política e ao voto obrigatório, engendra um sistema feito para perpetuar essa indiferença e essa invisibilidade relacionada às eleições legislativas. Mas como os que fazem as leis se beneficiam desse sistema, resta pouca esperança de que qualquer reforma política séria seja feita.

E, após as eleições, já nos encaminharemos, consumindo os dias e consumidos por eles, para o fim de um ano que talvez nem mesmo tenha começado. Pelo menos para quem deposita fora de si o tempo de qualquer realização. Mas para quem não alheia o próprio desejo, a própria vontade, sempre é o tempo. “Os dias nunca são iguais / quando a inocência se desfaz”…

Pawel Kuczynski - Calendar

Pawel Kuczynski – Calendar

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