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Posts Tagged ‘Daniela Andrade’

Uma das primeiras notícias que me chegou no sábado de carnaval antecipava as cinzas da então distante e futura quarta-feira. No dia anterior (5 de fevereiro), morria Lohana Berkins, uma das principais referências do movimento de travestis e transexuais na Argentina. A informação me chegou por um texto da Daniela Andrade.

Ao saber do ocorrido, lembrei do assombro e da admiração que senti quando li pela primeira vez sobre Lohana. Era uma reportagem sobre a Escola Cooperativa Têxtil Nadia Echazú, fundada por ela, repleta de análises contundentes sobre preconceito e exclusão da população trans*. No entanto, com mensagens capazes de aflorar esperança e desejo de lutar por uma outra realidade possível.

Lohana Berkins, fundadora da Escola Cooperativa Têxtil Nadia Echazú, para Travestis e Transexuais

Lohana Berkins, fundadora da Escola Cooperativa Têxtil Nadia Echazú, para Travestis e Transexuais.

Tomar ciência de sua morte acabou me dando o ensejo, no entanto, de conhecer um pouco mais da história, das ideias e do legado dessa travesti que foi expulsa de casa e, com isso, obrigada a se prostituir a partir dos treze anos de idade para sobreviver. Mesmo com uma trajetória de luta e rebeldia, Lohana foi ainda a primeira travesti a se tornar funcionária do Estado, na assembleia de Buenos Aires, ao ser contratada pelo então legislador portenho Patricio Echegaray.

Sua trajetória incomum, capaz de agregar apoio de tantas pessoas em torno de uma causa, já é motivo de admiração. Mas a leitura de algumas palavras de Lohana Berkins me impeliu a dar início às publicações quinzenais de 2016 com este texto, neste meu “lugar de ensaiar com as palavras”. Meu objetivo aqui é celebrar sua memória de luta e resistência, e fazer com que pessoas que eventualmente leem o que escrevo e não ouviram falar dela, quando ainda era viva, possam conhecê-la.

“Si pudiera nacer de nuevo y elegir, elegiría ser travesti” – A militância de Lohana tem destaque desde pelo menos 1994, quando fundou a Associação de Luta pela Identidade Travesti e Transexual (ALITT). Foi a partir dessa organização que a questão do direito à identidade de gênero começou a ganhar visibilidade na Argentina.

Em 2000, sua notoriedade alcançou uma esfera além do movimento trans*, quando enviou uma carta à então secretária de Promoção Social do governo da cidade de Buenos Aires, solicitando uma audiência. O presidente argentino na época, Fernando de la Rúa, havia dito que queria acabar com a prostituição nas ruas da cidade. Lohana viu nessa afirmação um excelente motivo para exigir trabalho e dar visibilidade à discriminação contra as travestis no mercado de trabalho formal.

A carta enviada por Lohana contou com assinatura de apoio de mais de duzentas pessoas, entre as quais Nora Cortiña, cofundadora e hoje atual presidenta da Associação Mães da Praça de Maio, o escritor David Viñas e o artista plástico León Ferrari. Nela, Lohana ressaltava que

El motivo de mi carta responde a que jamás pude acceder a un trabajo. Posiblemente, esta misma le resulte familiar como todas las que usted recibe a diario. Pero yo me atrevería a decirle que no. Mi situación de no ocupada no radica tan sólo en la falta de trabajo, sino que por mi condición de travesti me veo obligada a ejercer la prostitución callejera… (1)

Em uma entrevista posterior ao diário Página 12, ela disse estar convencida de que o Estado legitima a discriminação contra a população trans. Tanto que era possível um político prometer, em campanha eleitoral, “uma cidade sem travestis”, ao mesmo tempo em que os meios de comunicação incitavam as pessoas a se organizarem para varrer mulheres e pessoas trans que exerciam a prostituição em determinados bairros de Buenos Aires.

Nadie hace el mínimo intento por ocultar su travestofobia. (…). Si un cartel dijera por una ciudad sin judíos, sin discapacitados, o sin mujeres, ¿cuántos hubiesen saltado a repeler la barbarie? (2)

Nesse mesmo ano, ao ser entrevistada pelo jornal do Partido dos Trabalhadores Socialistas, Lohana fez um comovente balanço de sua vida de lutas:

Mi vida fue muy dura pero, a pesar de todo esto, si pudiera nacer de nuevo y elegir, elegiría ser travesti. Sería travesti, negra, boliviana, judía, la que se hizo abortos, la mujer golpeada, asesinada por el policía, la que encarcelaron. Elegiría todo eso de nuevo. Porque el triunfo más grande que voy a tener al final de mi vida es que voy a tener la seguridad de que jamás, mientras fui consciente, soporté una discriminación, una exclusión, ni en público ni en privado. Me rebelo a todo esto. Contra la discriminación, la exclusión, la represión seguiré luchando el resto de mi vida… (3)

Após toda projeção de suas reivindicações, Lohana foi contratada como assessora do legislador portenho Patricio Echegaray, tendo trabalhado nessa função até 2002. Nesse ano, foi aprovada, mas impedida de se inscrever, com seu nome social, para ser professora em uma escola pública. Isso lhe deu ensejo para que fizesse uma denúncia à Defensoria Pública de Buenos Aires, que conseguiu uma ordem para que as autoridades respeitassem sua identidade de gênero.

Lohana Berkins morreu, mas sua fúria travesti segue viva.

Lohana Berkins morreu, mas sua fúria travesti segue viva.

“Somos traidoras del patriarcado” – Com um forte discurso feminista, Lohana provocava as estruturas da sociedade ao analisar as condições de vida das travestis e mulheres transexuais, frequentemente vítimas de exclusão e de constantes agressões, vivendo à margem da sociedade, impelidas à prostituição e com baixíssima expectativa de vida.

Somos traidoras del patriarcado y muchas veces pagamos esto con nuestra vida. Brevemente dicho, las travestis sufrimos dos tipos de opresión. Por un lado, la opresión social basada en el imaginario colectivo de lo que es una travesti: misterio, ocultamiento, perversión, contagio, etc. El patriarcado nos castiga por “renegar” de los privilegios de la dominación que nos adjudican los genitales con los cuales nacemos. (4)

Mesmo tendo vivido boa parte de sua vida à margem da sociedade, jamais desistiu de exigir do Estado o reconhecimento de sua existência e de sua identidade. Em 2010, foi uma das importantes lideranças da Frente Nacional pela Lei de Identidade de Gênero, uma aliança de diversas organizações que impulsionou a aprovação da Lei de Identidade de Gênero da Argentina, uma das mais avançadas do mundo, aprovada pelo parlamento em maio de 2012.

Lançamento da Frente Nacional pela Lei de Identidade de Gênero, em 2010.

Lançamento da Frente Nacional pela Lei de Identidade de Gênero, em 2010.

“El motor de cambio es el amor” – Lohana Berkins esteve internada durante várias semanas numa clínica de Buenos Aires, antes de seu falecimento. Diante do agravamento de seu quadro de saúde, ela divulgou uma carta, por meio de uma companheira de militância. Como Lohana morreria no dia seguinte, aquelas foram suas últimas palavras. Deixo-as ecoando, à espera do tempo da revolução – que é agora –, também convencido de que o motor da mudança é o amor:

Queridas compañeras, mi estado de salud es muy crítico y no me permite reunirme personalmente con ustedes. Por eso quiero agradecerles sus muestras de cariño y transmitirles unas palabras por medio de la compañera Marlene Wayar, a quien lego esta posta. Muchos son los triunfos que obtuvimos en estos años. Ahora es tiempo de resistir, de luchar por su continuidad. El tiempo de la revolución es ahora, porque a la cárcel no volvemos nunca más. Estoy convencida de que el motor de cambio es el amor. El amor que nos negaron es nuestro impulso para cambiar el mundo. Todos los golpes y el desprecio que sufrí, no se comparan con el amor infinito que me rodea en estos momentos. Furia Travesti Siempre. Un abrazo. (5)

"Hay que tener mucho coraje", desenho de Andrea D’Atri.

“Hay que tener mucho coraje”, desenho de Andrea D’Atri.

Notas
_____

(1)
La Izquierda Diario: Lohana Berkins: “Si pudiera nacer de nuevo, elegiría ser travesti”. 6 de febrero de 2016. Disponível em http://laizquierdadiario.com/Lohana-Berkins-Si-pudiera-nacer-de-nuevo-elegiria-ser-travesti/.

(2)
Página 12: El drama de buscar vida nueva. 23 de abril de 2000. Disponível em: http://www.pagina12.com.ar/2000/00-04/00-04-23/pag22.htm.

(3)
La Izquierda Diario: “¿No es una obscenidad una Constitución que defiende la propiedad privada antes que la vida?”. Reprodución de la entrevista de Lohana Berkins publicada en La Verdad Obrera Nº 64, la prensa partidaria del Partido de los Trabajadores Socialistas, del 17 de mayo del 2000. 6 de febrero de 2016. Disponível em  http://laizquierdadiario.com/No-es-una-obscenidad-una-Constitucion-que-defiende-la-propiedad-privada-antes-que-la-vida.

(4)
Lohana Berkins. Un itinerario político del travestismo. In: Diana Maffía (compiladora): Sexualidades migrantes – Género y transgénero. Páginas 127 a 137. 2003. Disponível em: http://dianamaffia.com.ar/archivos/sexualidadesmigrantesdm.pdf.

(5)
La Nacion: Murió la activista trans Lohana Berkins. 5 de febrero de 2016. Disponível em: http://www.lanacion.com.ar/1868550-murio-la-activista-trans-lohana-berkins.

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Publicado originalmente no Transfeminismo.com.

Quem acompanha o blog já deve ter percebido como a questão da linguagem para nós não é secundária. Desnaturalizar a transfobia significa questionar certos efeitos de sentidos que tomamos como evidência: sobre homens, mulheres e “os trans”. E toda vez que questionamos certos sentidos já dados sobre essas categorias (ou poderia dizer, identidades) a questão da língua entra inevitavelmente. E isso não significa que estamos falando sobre algum sentido sobre as palavras que estaria escondido que seria em última instância verdadeiro, e que a língua portanto seria uma abstração virtual que comportaria esse sentido unívoco para a prática política. Ao contrário, a política se dá na exata medida em que a língua é capaz de falhas. O que significa também entender que a prática política – assim como o discurso – é um processo sem começo nem fim pré-determinados.

Decidi que seria interessante publicar dois comentários que Teofilo Tostes Daniel fez em uma publicação pública no facebook de Daniela Andrade em uma discussão sobre a imagem da página Era de Cisperar. Apaguei algumas marcas de interlocução (os seus nomes) no texto a quem Teofilo estava se dirigindo, já que ele estava dialogando com outras pessoas no post. Mesmo assim, como podem ver, trata-se de um texto que merecia ser publicado para além dos efêmeros comentários do facebook.

Bia Pagliarini Bagagli

***

Retirado da página "Era de Cisperar"

Retirado da página “Era de Cisperar”

Minha leitura dessa imagem não me remete a possíveis erros, que certamente ocorrem, causados por desconhecimento — embora a língua não seja neutra e ela também guarda, em sua estrutura, os preconceitos da sociedade (basta lembrar que palavras como ídolo e gênio não têm feminino, e que, ao nos referirmos a um coletivo com pessoas variadas, utilizamos sempre marcas linguísticas no masculino). Eu sou uma pessoa cisgênera. Mesmo não estando no lugar de quem pode falar com alguma autoridade — pois não tenho a vivência transgênera, ou entre-gêneros –, vejo muitos estudos acadêmicos, supostamente sérios, reproduzindo… a ignorância.

Vale lembrar que as pessoas transgêneras sofrem de uma permanente invisibilidade em relação a vários aspectos da vida quotidiana. Aspectos que a nós, cisgêneros, parecem ‘normais’, como o fato de ninguém estranhar que meu nome na identidade difere da imagem que eu tenho e passo às pessoas no convívio social. Aliás, para ser o que sou não preciso de um atestado médico falando… que eu tenho um transtorno psiquiátrico!

E no caso da figura, há um agravante: a exclusão de pessoas trans* do espectro de homens e mulheres. Homens trans* são homens e mulheres trans* são mulheres. Parece tautológico ter de repetir isso, mas no atual estado de coisas, não é ainda. Claro, há também pessoas não-binárias. Mas trans* não são, necessariamente, uma categoria, ou um outro gênero, fora do gênero masculino ou feminino. Agora, se alguém “foi lá falar sobre gênero” — e eu leio esse lá da figura como o lugar do “legítimo” saber, do poder de dizer da taxonomia do mundo, lugar esse que comumente é ocupado por pessoas cisgêneras –, talvez fosse de “cisperar” que essa pessoa ao menos não reproduzisse o preconceito do senso-comum.

Além disso, a língua é uma construção, ela não muda por decreto. Muitas vezes alternativas irrompem para responder a um silêncio, a uma não-nomeação de algo que demanda um nome. Por exemplo, o termo cisgênero. Eu aprendi pela linguagem que tinha à época — cresci nos anos oitenta — que a oposição às pessoas transgêneras — que eu basicamente identificava como travestis — eram as pessoas… normais. Particularmente, eu não achava as travestis anormais. Mas minha estrutura de pensamento não dispunha senão do repertório linguístico que reproduzia a ideia de que as travestis — e, na verdade, qualquer pessoa transgênera — não era normal. Faltava-me exatamente a palavra cisgênero! Aliás, é sintomático que o corretor ortográfico automático do meu Google Chrome grife como errada a palavra cisgênero e não aponte erro na palavra transgênero. Tocando essa questão, vale muito a leitura desse texto magnífico, que mostra a relação entre o irrompimento da noção de cisgeneridade e a possibilidade (política) de contestação da normatividade cisgênera.

No caso dessa imagem do post: Por que alguém que vai falar sobre gênero não poderia dizer, por exemplo, “os homens, as mulheres e as pessoas não-binárias”? Simples, direto, inclusivo e, me parece, mais respeitoso com o estar-sendo de cada um.

Longe de mim dizer o que é certo e errado, sobretudo no campo da linguagem. Em especial no que deve ser ou não dito para se referir a pessoas trangêneras, tendo em vista que eu sou uma pessoa cisgênera e o que me cabe nesse campo, se eu quiser respeitar as pessoas trans* — e minha opção é sempre pelo respeito –, é estar atento a como as pessoas pedem que eu me refira a elas.

Vamos voltar um pouco no tempo, num tempo em que eu não era sequer nascido. No tempo dos meus avós, quando era comum pais esconderem em casa filhos deficientes — sobretudo com deficiência mental ou graves problemas físicos. Nesse tempo, era “aceitável” se referir a deficientes físicos como aleijados, coxos, mancos, aleijões, etc. E a deficientes mentais como retardados, mongóis, débeis, entre outras coisas.

Eu sou deficiente físico. Como cresci nos anos oitenta, só se referiam a mim como aleijado quando queriam me xingar — e há crueldade também entre as crianças. No entanto, não era sequer aceitável que numa conversa educada, alguém falasse de mim como “aquele aleijado”, ou “aquele coxo”. Mas nesse tempo, ainda não era tão incomum as pessoas se referirem, em conversas normais, a um deficiente mental como “mongol”, “débil” e até “retardado”. Hoje isso não é aceitável, e o comum é falar que alguém tem “deficiência mental”, ou designando pelo tipo de deficiência, como “down”, etc. Lendo o livro Holocausto Brasileiro, que conta a história do manicômio de Barbacena, o maior hospício do país no Século XX, onde mais de 60 mil internos morreram das formas mais horríveis — frio, fome, choque, etc. — é possível intuir sobre o porquê esse estigma perdurou mais.

Coincidentemente, com a mudança no uso quotidiano das palavras, vemos o crescimento da preocupação com a acessibilidade e com a educação inclusiva. E mesmo que estejamos muito longe de estarmos num mundo acessível, é nítido que as pessoas se constrangem quando se defrontam com a inacessibilidade dentro de seus próprios espaços — lojas, supermercados, etc.

Agora vamos pensar na forma de nos referirmos à homossexualidade. Esse paralelo que traço é para pensar grupos que sofrem com estigmas. Nos anos 80, era bem comum dizer que fulano era bicha, por exemplo. E também gay — que é uma palavra aceita, leve e que não tem um sentido de xingamento. Lésbicas eram invisíveis — conheci pessoas que sustentavam seriamente que não existiam lésbicas, e era só um “homem de verdade” chegar nelas, que elas “cederiam”.

Em contrapartida, a dicotomia não era entre os gays/bichas e os héteros, mas entre os gays e os normais. Lembro que em meados dos anos 90 é que os termos homo e heterossexuais passaram a ser mais usados. A primeira vez que eu ouvi o termo homofobia, por exemplo, deve ter sido lá para 96 e 97 — não estou falando do seu surgimento, claro, que eu nem sequer sei como foi. E é claro que, sendo hétero, provavelmente eu deva ter conhecido esse termo depois dos meus amigos gays.

Obviamente, ainda existe muito preconceito contra os homossexuais, que só recentemente vêm tendo alguma paridade (ainda precária) de direitos, em suas uniões, com relação às uniões heterossexuais. Mas é de se notar que a popularização dos termos hétero e homossexuais se deu de forma mais ou menos concomitante com o crescimento do movimento que ainda em meados dos anos 2000 eu conhecia como GLS, que não só lutou contra a homofobia, mas também pela conquista de uma série de direitos negados. Essa popularização levou, inclusive, a setores mais conservadores da sociedade a inventarem a bizarrice do “orgulho hétero”, algo que seria impensável nos anos 80 porque os gays, na fala popular, não estavam em dicotomia com os héteros, mas com os “normais”.

Adentrando agora ao campo da transgeneridade — ou da cisgeneridade compulsória, sempre invisível e condenando pessoas transgêneras a serem opostas conceitualmente às pessoas “normais”: Além de a conquista de direitos estar ainda engatinhando — e não existir uma lei que permita e simplifique a mudança de nome é um índice do quanto os direitos básicos são negados a essa parcela da população –, as referências desrespeitosas às pessoas transgêneras ainda são socialmente aceitas. Não raro se fala “as travas”, “os travecos”, “as/os trans”, “o transexual” (quando se trata de uma mulher trans), etc.

E sobre a questão que a Daniela levantou, de que ela não é uma trans, isso faz muito sentido. A Daniela realmente não é uma trans, mas sim uma mulher. Uma mulher trans. Quando alguém se refere a ela como uma trans, há o apagamento do fato de ela ser uma mulher e, eu arriscaria até, o apagamento de que ela é uma pessoa. Metonimicamente, ela se torna apenas algo que a caracteriza, que a constitui. Deixa de ser um todo e se torna uma parte. E, “coincidentemente”, a parte considerada pela sociedade como “abjeta”. Em contraposição, eu jamais serei o cis — e nem qualquer mulher cisgênera será a cis. Quem se referir a mim, falará “daquele homem”. Sim, é verdade que há uma elipse quando nos referimos a alguém como “a trans”, mas existe uma construção social que leva a essa elipse que reforça preconceitos. E eu arriscaria dizer, mesmo sendo uma pessoa cis e não tendo a vivência da experiência transgênera, que essa elipse tende a significar o apagamento ou a desumanização da pessoa trans. A elipse de seu ser no mundo.

E os exemplos que ela usa são ótimos. Alguém fala que “a cis foi à praia”? É tão nonsense, que não dá sequer para imaginar isso. No entanto, com mulheres trans, isso deveria ser aceitável? Por quê? Aliás, a maior parte das pessoas cisgêneras nem sabem o que isso significa. E há também quem, sabendo o que é, se recusa a aceitar essa categorização, como se ela fosse um absurdo, ou até uma ofensa. Afinal, haveria, por exemplo, as mulheres trans e as… biológicas? Uma nova forma de dizer normais, opondo a suposta “natureza” da pessoa cisgênera a uma espécie de engodo ou artificialidade dos corpos das pessoas trans? Isso não se parece, inclusive, com um discurso religioso fundamentalista?

Bom, eu acho que não dá para ignorar o poder das palavras e da nominação do mundo. Poder dizer o que as coisas são é uma forma de poder. Por isso, existem disputas de nomenclaturas. Existe o esforço de precisão ou rejeição de termos. Não fossem as palavras tão importantes, no distópico 1984 George Orwell não conceberia um mundo capaz de criar a novilíngua — e muito menos pensar no que politicamente isso significa. Essa minha visão, porém, pode ser um defeito do olhar de quem trabalha com palavras…

Transfeminismo

Quem acompanha o blog já deve ter percebido como a questão da linguagem para nós não é secundária. Desnaturalizar a transfobia significa questionar certos efeitos de sentidos que tomamos como evidência: sobre homens, mulheres e “os trans”. E toda vez que questionamos certos sentidos já dados sobre essas categorias (ou poderia dizer, identidades) a questão da língua entra inevitavelmente. E isso não significa que estamos falando sobre algum sentido sobre as palavras que estaria escondido que seria em última instância verdadeiro, e que a língua portanto seria uma abstração virtual que comportaria esse sentido unívoco para a prática política. Ao contrário, a política se dá na exata medida em que a língua é capaz de falhas. O que significa também entender que a prática política – assim como o discurso – é um processo sem começo nem fim pré-determinados.

Decidi que seria interessante publicar dois comentários que Teofilo Tostes Daniel…

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