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Posts Tagged ‘Cynthia Badaró’

A gente é arrancado de uma porção de coisas e está no mesmo lugar, diz Guimarães Rosa. Tal sentença, a que ele aplica ao personagem Miguilim, contém uma verdade que se verifica não apenas nas grandes tragédias, nas escolhas cruciais da vida, mas nas pequenas saudades e distâncias, nas mais corriqueiras situações.

Há dois dias atrás, aniversariou a mulher de minha vida. E como eu queria estar junto dela, celebrando os seus 26 anos, com a alegria e o maravilhamento pelo simples fato de sua existência, de sua vida pulsante, radiante, cintilante! Mas as contingências não me trouxeram no rastro, na sucessão da existência, esta oportunidade.

Por isso, envio meu abraço, meu beijo e meu melhor sorriso (juntamente com minha melhor roupa) codificada em bits e bytes, que poderão ser decodificados por qualquer computador em que ela estiver. Assim, ela poderá decodificar o meu amor!

Parabéns, minha amada Cynthia!!!

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O amor é fogo…

Parece-me difícil falar do amor que se sente. Como difícil é falar de tudo que é pleno em si, tudo que se traduz translúcido no cerne próprio da vida.

Quando se fala de amor, as palavras parecem arredias, pois não nos é dado aprisionar a riqueza do que sentimos na pobreza de sua expressão. Mesmo amando as palavras, o amor que sentimos parecem fugir à expressão inerente a elas.

O amor, que é tão arredio no reino das palavras, parece, no entanto, deixar-se aprisionar em sorrisos, em arrepios da pele e brilho dos olhos. Um soneto não fala da maciez dos lábios ou dos seios da amada. Apenas insinua; mas a experiência de senti-la, a expressão cuidadosa de nossas mãos ou lábios fruindo dessa lânguida experiência é algo insuperável, em sua eloqüência.

Camões mesmo, na lide para buscar exprimir o que seu peito sentia, luta quartetos e, no último terceto, querendo estar preso por vontade, como já expressara, pergunta “Mas como causar pode seu favor / nos corações humanos amizade, /se tão contrário a si é o mesmo Amor?” É contrário a si porque, por exemplo, buscando a própria saciedade, se dá ao outro, ao coração amado.

Minha humanidade, cheia de contradições, ama. Nos muitos lugares que ocupa, ama. Ama como filho, como irmão, como amigo. E ama como homem, ama com desejo, fervor e sofreguidão. E neste amor que deseja o corpo e a alma do objeto amado, que quer estar a ele preso por vontade, meu coração elegeu o compasso dum outro coração, que na diversidade rítmica do seu bater o enriquece de novas síncopes, novos contratempos, variações novas. A música complexa de nossos peitos forma uma música composta a dois, plena de paixão, desejo e cumplicidade.

Meu coração é de Cynthia… E com ele, nossos corações expressam o amor com a eloqüência que sói faltar nas palavras, porque nossa lavra de expressão é mais profunda.

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(para Cynthia S. Badaró)

Celebrar mais um ano que se inicia parece fornecer algum motivo para festa, embora não se alcance muito freqüentemente a frivolidade deste ato. O ano novo não renova a vida, não modifica ninguém, não tem porque trazer esperanças. Desentendo a alegria (que cada vez me parece mais desespero) que se sente quando os relógios marcam meia-noite. Seria mais fácil se todos rasgassem apenas as folhas dos calendários, sem o exagerado ruído dos fogos, numa festa em que não se festeja nada.

Se a vida continua a mesma, talvez se possa, ou se deva, ou se espere o desenvolvimento de um olhar novo sobre a vida. Quem sabe o homem não possa extrair dela um sentido mais edificante, não pela mudança da própria vida, mas pelo traslado da perspectiva com a qual a observa. Talvez esta lembrança se estenda até a primeira semana do novo janeiro, do novo calendário. Mas o tédio, ou a absoluta desmemoria lançam no olvido todas as promessas, as esperanças e as expectativas (de novo olhar ou até de nova vida) na morosidade de um ano que nasce já velho, já pré-fabricado pelos artífices dos fogos que estouram nas praias e enlouquecem os cães. Nem o vestido branco trouxe mais paz, nem a simpatia mais dinheiro, nem o olhar novo se sustentou para muito além da ressaca.

Embora o homem seja capaz de abstração, seus atos carecem de concretude para ganharem a conformação da existência, a qualidade de fenômeno. A própria filosofia ocidental, exercício de mais de dois mil e quinhentos anos de abstração, só é um fenômeno pela concretude das obras que trouxe ao mundo, pela pena de um Platão, pelas idéias impressas e libertárias de um Espinosa, pelos livros de um Nietzsche, ou de um santo Agostinho, ou as obras tardiamente achadas de um grande sistematizador como Aristóteles. O ano novo não ganha a qualidade de novo fenômeno pela repetição pré-fabricada do mesmo olhar, pelas escolhas que se impõem e tolhem a liberdade de criação e, sobretudo, porque são estéreis nas obras que supostamente deveriam fazer. O olhar novo não é um fenômeno concreto, nem uma esperança, mas uma repetição desta sociedade-standard que quer sempre que o novo se imponha, e faz da novidade uma necessidade velha e desgastada.

Por que, em lugar de buscar o novo no novo ano, tudo de novo, não volvemos os olhos para o que nos cerca e enxergamos a poesia do habitual e do quotidiano, daquilo que sempre está lá como num eterno e terno enleio de aurora? Por que não procurar celebrar o novo elegendo aquilo que gostaríamos de que estivesse mais uma vez e sempre conosco, em ato, palavra ou pensamento? Por que não pensar na mulher amada, não sussurrar ao pé do ouvido dela nosso amor — chama infinita enquanto dura? Por que não ouvir, em lugar da algaraviada dos fogos tão sem sutilezas, o coração da amada enquanto repousa sobre seu colo a cabeça?

Quando se tem a mulher amada ao lado, não se quer o novo. Quer-se o congelamento do instante, quer-se o instantâneo do tempo, quer-se o quebrar dos ponteiros que movem o mundo do passado para o futuro. Em síntese, o que se quer aos braços da amada é a eternidade. Como a eternidade da beleza destes olhos que miram a câmara escura que, por mágica, a flagra tão iluminada. E como não desejar que os olhos da amada não cintilem, que seus lábios não sejam sorrisos e beijos, que sua pele não seja fonte de aromas e relevos gráceis? E como não desejar o amor de Cynthia, o eterno retorno do mesmo amor?

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