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Posts Tagged ‘Corpo’

“Corpo, cubismos, ventos metálicos, dialéticas pontuais. Ao teu aforismo solar anarquiza o meu desaforismo lunar.”
(Laysa Carolina Machado – A Morada Transitória)

Corpo em transe
não é corpo
errado,
pois não há outro eu
fora da carne.
Qualquer um procede
à constante transliteração
da pele que habita.

Corpo em trânsito
é o lugar
do ser no mundo.
Transitar pelo próprio
constructo corpóreo
é ato contínuo
de toda gente.

Corpo à margem
cumpre sentença
condenatória,
se for transtornado
de acordo com o juízo
dos contrassensos comuns.
Como se toda pessoa
não fosse transeunte.

Corpo transigente
ao que transborda
guarda em si
a herança
de seus muitos pretéritos.
Nele há rastos
de quilombos transeculares,
de povos em holocausto,
de bicho, de floras
e de rubros oceanos primevos.

Corpo transido
no traslado da vida
também vive —
palpitante.
O corpo é
morada
transitória
e única.

Corpo transformado
pelo tempo, pela ciência
ou pelas técnicas
arcaicas
do êxtase
é o que nos apresenta
ao mundo.
Somos somas.

Corpo é o transcurso
da identidade.


O título deste poema me chegou ao ver uma amiga do Facebook compartilhar uma notícia sobre o documentário A Morada Transitória (para assistir ao filme, clique aqui e digite a senha amoratrans), que aborda a história da atriz e professora Laysa Carolina Machado, primeira mulher transexual no País eleita para dirigir uma escola. Os muitos caminhos cibernéticos me levaram ainda ao vídeo de uma performance com trechos de um monólogo com o mesmo título, escrito e encenado por Laysa, de onde retirei a epígrafe do poema.

Esta publicação abre alas ao Dia da Visibilidade Trans*, celebrado no dia 29 de janeiro. A data alude ao lançamento pelo governo federal, em 29 de janeiro de 2004, da primeira campanha contra a transfobia no país: Travesti e respeito. Ela foi realizada em parceria com ativistas e organizações de pessoas trans* de todo país. Na ocasião, excepcionalmente, o quinzenário será antecipado, para falar do tema e lembra a data. Até lá!

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(para Fabiana Turci)

Trinta fragmentos
De trinta estrelas
Dançam pelo céu
E o espaço-tempo
Vira um carrossel
(Flash e Sépia – Guinga/Aldir Blanc)

I

Antes da linguagem
já existe a memória
de ser.
Memória feita de névoa
e instintos.

O corpo
é diminuta amplidão,
latifúndio sem fronteiras
com o mundo.

II

Quando a linguagem
desponta na boca,
também se desenham as fronteiras
de si.
Nomear o mundo
é ato de espanto contínuo.

Saber-se
é a primeira lição de alteridade.

III

Brincar com o silêncio
é arriscar-se no abandono.
Desejar a quietude,
mais do que tudo,
ainda que te desejem
ruidosa.

Verter-se
para si mesma.

IV

Nomadismo é lição
aprendida logo
no amanhecer de si,
antes mesmo das primeiras letras.
Talvez para que a memória
tenha algo que escape
à palavra.

Talvez para escrever
no fundo de si
o signo da impermanência.

V

Apoderar-se da permanência
de cada palavra.
Grafar no papel
como quem escreve
na própria pele.

Iniciar um inventário
de todas as suas casas.

VI

Ter sonhos recorrentes,
conferindo antiguidade
ao que se inventa
sem total controle.
No mais, saciar-se
com as desrazões da lógica.

E ainda assim
preferir nomear o inconsciente
de segredo.

VII

Sentir-se responsável
por alguém que nasce.
Tecer com isso
um longo fio de cumplicidade
com a sua matriarca.

Depois inventar jogos
para continuar na infância
das coisas.

VIII

Testemunhar a cisão
inevitável
de sua casa.
Ruir e se refazer.

Caminhar na direção
do fora.

IX

Não apenas mudar,
mas desejar a alteridade.
Encontrar meios e razões,
inda que com parcos recursos,
para cambiar rumos.

Engendrar os fundamentos
das próprias forças
e da recusa à crueldade.

X

Compreender que a distância
às vezes é um artifício
necessário.
Cortar laços.

Erigir muros
contra aquilo que dói.

XI

Adolescer e se apoderar
de novas dimensões
do corpo.
Sentir intimamente
as urgências.

Às vezes, confundir
dor com intensidade.

XII

Mergulhar em sonhos
olímpicos e na poesia.
Comungar com a natureza
dos peixes e dos seres
aquáticos.

Competir consigo
e vencer-se.

XIII

Alegrar-se em percorrer ruas
como se suas fossem.
Inventar para si um lugar
e desejar ardentemente
uma página em branco.

Escutar o silêncio
como um preparo para receber
o outro.

XIV

Compreender que a palavra
é um poder.
Apoderar-se de todo
papel em branco.

Constatar que o verbo
se faz constantemente
carne.

XV

Compreender que a justiça
é um poder corruptível.
Jamais assinar nenhum
papel em branco.

Desconfiar de todo verbo
que pretenda ser
carne.

XVI

Compreender que o pensamento
é um poder insubjugável.
Apoderar-se de si
como de um papel em branco.

Constatar-se verbo
que faz ebuliente
a carne.

XVII

Percorrer uma vereda
para se libertar da herança
que pesa e imobiliza.
Matar simbolicamente
os pais.

Depois disso, mudar-se
para uma ilha.

XVIII

Em desterro, tornar
todas as ruas percorríveis.
Inventar caminhos
para se perder
sem necessidade de chegar.

Abrir-se ao encontro
e desejá-lo.

XXIX

Insistir em passos
que não são seus.
Ainda assim,
desconstruir ainda mais a herança,
por dentro.

A experiência também pode
ser uma forma de se afastar.

XX

Insistir em passos
que não são seus
é insustentável.
É hora de tornar-se
aquilo que se está sendo.

Escolher-se, mesmo que distante
dos sonhos alheios.

XXI

Assumir o descompasso
entre o desejo que se herda
e aquele que brota.
Assumir que se quer
o que não tem utilidade direta
no mundo.

Regressar, ciente
de que nunca se volta ao mesmo ponto.

XXII

Descobrir a solidão
como fundamento
da incomunicabilidade.
Aproximar-se
do futuro.

Encontrar-se naquilo
que ainda será.

XXIII

Foi neste ponto que te conheci,
dividindo poesias
e manhãs de sábado.
Neste tempo eu não te queria,
e a exaustão e o cansaço
de minhas escusas
te fizeram dizer adeus
no auge do outono.

Mas deixaste sinalizada a abertura
de tua casa e teu corpo.

XXIV

Ainda querias me contar
das belezas que viste no mundo
e por isso me escreveste.
Disseste ver, em minha imagem que guardavas,
uma felicidade possível.

A partir de então, compartimos
nosso tempo, nossas palavras
e outros desobjetos.

XXV

Como importa mais o corpo,
minhas recusas sinalizavam
nova exaustão tua.
Não sei se o desejo do encontro
sobreviveria a outro adeus,
mas neste ponto
talvez eu já não me soubesse
sem ti.

Essa é a parte dizível,
mas nunca completamente explicável,
da brotação do meu amor
por ti.

XXVI

Quando desejamos que o encontro
e os despudores de nossas urgências
fosse a própria vida,
foi preciso inventar um lugar
para chamar de nossa casa.
Designar como Nossa Biblioteca
o lugar em que o que era meu
e o que não era
se misturou, primeiro no chão,
depois nas estantes.

Nomear como nossa vida
ao existir.

XXVII

Houve um tempo
em que mandamos imprimir
as histórias que nos cercavam.
Fizemos o filme
das nossas histórias íntimas
de leitura.

Povoamos nossa casa de amigos,
de sonhos nossos
e alguns importados.

XXVIII

Houve um tempo outro,
e tão contínuo,
em que precisei te procurar ao meu lado,
para te saber.
Eu te reconhecia a mesma
e, ao mesmo tempo,
te desconhecia.

Ainda assim, segui amando
teu mínimo eu
que permanecia.

XXIX

Venceste a desesperança,
o sentir caótico, o perder-se
de si,
o cigarro, as cruezas dissimuladas
e aquilo que não cabe
num nome.
Abandonaste sonhos velhos
que não mais resplandeciam
e jaziam como um peso morto.

Fizeste ressonar a tua
orquestra de papel.

XXX

Amo cada um dos trinta anos
que conformaram teu rosto
e teu existir.
Desejo viver ao teu lado,
ao menos, os próximos trinta,
povoar o mundo com os sonhos
que tivermos e inventarmos,
e fartar nossa casa de corpóreas
venturas.

Ensaio uma síntese
das trinta razões para eu te amar.

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Manoel ouve a terra lhe chamar.
O silvo dos ventos
bagunçando a poeira morna
das tardes
convida-lhe a ser novamente
terra.
Ser novamente
pó e memória,
participando, com isso, da intimidade
da pequenez.

Como poeta, já cantou
o ínfimo.
Como mortal, seu futuro se aproxima —
o mesmo que o de qualquer um:
habitar um úmido silêncio escuro,
quando a vida estanca
e desorganiza o corpo.
Como ente, conheceu muitas infâncias,
gozosos alumbramentos,
sussurradas dores,
e a melancolia do declínio.

Toda estrela, quando apaga,
torna-se um buraco negro
— eis a vida agarrada, lugente,
aos luzentes calcanhares estelares!
Ele ensaiou isso a vida inteira:
no silêncio das coisas sozinhas
aprimorou-se em
árvore musgo cisco pássaro caracol sapo mijo…

Em seu crepúsculo inevitável
a poesia lhe carpe
e um poeta diminuto menor
atira-lhe, comovido,
um prévio e pegajoso epitáfio:

Na palavra, Manoel
jaz e já é.

Desorganizado poema-lamento-homenagem, escrito agora na sequência da leitura da matéria Manoel de Barros, o poeta das miudezas espera o infinito.

manoel_de_barros_extase

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Eu sou nutrido por terra,
por sol, por água e palavras.
No corpo o mundo se grava
e o outro dentro se encerra.

Devoro todo alimento:
carbono, hidrogênio, símbolos,
oxigênio, e outros mínimos
e essenciais elementos.

Cá no meu tempo eu me inundo.
Depois, tornarei ao mundo
e o que sou se espalhará.

O que faz minha memória
engendra também a história
de tudo aquilo que há.

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Depois deste texto, não voltarei a escrever sobre eleições neste ano. Mesmo com o segundo turno da eleição presidencial em aberto, não me interessa explorar seus desdobramentos e as eventuais diferenças entre os dois candidatos que permanecem na disputa nacional. Digo apenas que não voto no PSDB de forma alguma — minto, votaria no Aécio em pavorosas e remotas hipóteses como, por exemplo, se ele estivesse no segundo turno com o Levy Fidélix ou com o Everaldo (Pastor).

Este ano, o que me moveu a escolher meus candidatos e me posicionar publicamente sobre minhas escolhas tem pouca relação com a eleição presidencial — que frequentemente ocupa a centralidade das preocupações de grande maioria, como se ao presidente fosse possível mudar todo o país, se quisesse. Minha preocupação principal estava voltada a que tipo de parlamento iria se formar, tendo em vista os posicionamentos extremamente reacionários que vejo ganhando cada vez mais força em nossa sociedade.

Buscarei externar minha perplexidade por ver uma significativa vitória, nas eleições proporcionais, de projetos aos quais me opus com os meus votos. Uma vitória que não sei sequer mensurar, tendo em vista que meu escopo de análise se firmou apenas nos cinco candidatos a deputado federal mais votados no Brasil, todos do eixo Rio-São Paulo. Foram eles, por ordem de votação:

1º Celso Russomanno (PRB-SP) – 1.524.361
2º Tiririca (PR-SP) – 1.016.796
3º Jair Bolsonaro (PP-RJ) – 464.572
4º Pastor Marco Feliciano (PSC-SP) – 398.087
5º Bruno Covas (PSDB-SP) – 352.708

Para mim, a grande surpresa foi a expressiva votação de Russomano. Minha dificuldade inicial de entender essa votação acabou se esvaindo, quando me dei conta de que ele teve uma boa exposição num programa da TV Record após as eleições de 2012, e que ele se elegeu pelo mesmo partido do Marcelo Crivella — sobrinho do Edir Macedo, senador pelo Rio de Janeiro que disputa o segundo turno para governador naquele Estado.

Por mais que se possa inferir algumas tendências parlamentares de Russomano, tendo em vista seu partido e o claro apoio que ele recebeu da Igreja Universal em 2012, eu não teria como dizer que seu discurso se afina no anverso exato das bandeiras dos direitos humanos e das minorias, que são as bandeiras em que votei. Pode ser que boa parte de seus mais de um milhão e meio de eleitores defenda, por exemplo, que direitos humanos são para humanos direitos e clame por um estado mais policialesco. É bem provável ainda que uma parcela deles se oponha a temas da ordem particular e que dizem respeito ao comportamento moral de cidadãos e cidadãs, como o casamento igualitário, a lei de identidade de gênero, a legalização do aborto e experiências de legalização das drogas. Mas não tenho hoje elementos irrefutáveis para associar todas essas opiniões ao candidato.

Dos cinco mais votados do país, porém, se pode saber, com exatidão, a pauta extremamente conservadora de dois deles: Bolsonaro e Feliciano. Juntos, os dois tiveram 862.659 votos. Além de levarem consigo outros parlamentares com algum tipo de afinidade por suas propostas, sei que a votação significativa dos dois certamente ecoa na eleição de outros políticos com pensamentos semelhantes, mas com votações menores.

Bolsonaro e Feliciano tiveram mais votos do que a soma dos cinco deputados eleitos pelo partido em que votei nas eleições proporcionais (730.097 votos). Veja a votação desses deputados federais abaixo:

Edmilson Rodrigues (PSOL-PA) – 170.604
Chico Alencar (PSOL-RJ) – 195.964
Jean Willys (PSOL-RJ) – 144.770
Cabo Daciolo (PSOL-RJ) – 49.831
Ivan Valente (PSOL-SP) – 168.928

Evidentemente, o PSOL não é o único partido que congrega candidatos que defendem essas pautas. Além disso, tenho grandes e fundadas dúvidas sobre se o deputado menos votado desse grupo se afina com as lutas dos demais eleitos. Mesmo assim, apenas a título de comparação, considerei a soma de voto dos cinco candidatos eleitos deputados federais pelo partido. Do mesmo modo, também é claro que não são apenas Bolsonaro e Feliciano que concentram o voto dos eleitores extremamente conservadores do país. Mas tanto os parâmetros de comparação superficiais que usei como o notório crescimento das bancadas de partidos, grupos e candidatos eleitos com pautas declaradamente reacionárias me assustam.

E por que me assustam? Acho que o temor com esses resultados vem de uma constatação inegável: ao contrário de uma possível alienação política visível em quem vota, por exemplo, num candidato como o Tiririca, os votos em favor da dupla Bolsonaro e Feliciano são conscientes. Eles dizem respeito a um tipo de sociedade que esses eleitores desejam construir. E não tenho como não lamentar essa escolha, tão antagônica à minha. Eu desejo construir uma sociedade que acolha a diversidade e se esforce por promover a justiça. Uma sociedade que entenda que o corpo e os aspectos particulares da vida de cada pessoa devem ser ingovernáveis, e que os conflitos advindos dos diversos desejos precisam ser resolvidos buscando promover o máximo de igualdade possível. Não quero, ainda, que os direitos que eu tenho sejam privilégios, negados a outros grupos ou pessoas. E não quero um Estado que me dite a moral e os bons costumes, como ousam defender alguns grupos.

Li numa rede social uma postagem de um colega dos tempos de colégio que fazia a comparação entre a votação de Bolsonaro e de Jean Willys (candidato em quem eu votaria, caso ainda morasse no Rio de Janeiro). Demorei um pouquinho para me dar conta de que a postagem não lamentava a alta votação de Bolsonaro, mas a celebrava. Diante do fato de o candidato do PP ter recebido três vezes mais votos do que o do PSOL, o autor dessa publicação comentava, sob a forma de pergunta: “E agora quem representa o pensamento da sociedade brasileira?”. Mesmo com o pequeno crescimento da bancada do PSOL, amargo a impressão de que o pensamento da sociedade brasileira parece estar mais próximo ao do Bolsonaro do que ao do Jean Willys.

Lamento sim, mas respeito as escolhas das quais discordo frontalmente. Sei que elas retratam o país em que vivemos. Continuarei, claro, me opondo a elas, tendo em vista que o processo democrático é construído dentro da diversidade e da pluralidade de opiniões, e tem como sua condição de possibilidade a não opressão às minorias . O processo democrático não se faz só pelo voto. Ele amadurece quando os eleitores cobram, fiscalizam, respeitam a pluralidade de visões e buscam interlocução com aqueles que receberam, pelo voto, um mandato para representar as bandeiras que defendem.

Mesmo pensando assim, assombra-me o abismo de minha própria perplexidade com os legislativos eleitos este ano. Segundo campanha veiculada pela Justiça Eleitoral, o domingo passado teria sido o dia da “Festa da Democracia”. Porém, diante da onda conservadora que vejo se alastrar pelas legislaturas estaduais e federal, o dia 5 de outubro de 2014 pode significar muitas coisas. Mas nenhum de seus significados está no mesmo campo semântico da noção que eu tenho de festa.

Textos referidos pelos links (por ordem de aparição):
» Meus candidatos e minhas candidatas defendem as famílias e a vida. E os seus? – Teofilo Tostes Daniel
» O Congresso não ficou pior. Apenas está mais parecido com o Brasil – Leonardo Sakamoto
» Congresso eleito é o mais conservador desde 1964, afirma Diap – Estadão / Política / Eleições 2014 (autor: João Carlos Magalhães)
» Mais conservadora, Câmara deve barrar ações liberalizantes – Folha de São Paulo / Eleições 2014 (autores: Nivaldo Souza e Bernardo Caram)

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Na entranha da terra,
um raio de amor
por tudo se alastra.
Eu já posso ouvir
a sacra quentura
do fecundo chão

enchendo horizontes
de vivos tons verdes.
Vencendo o impossível
dos tempos cinzentos,
das eras sem luz,
o corpo floresce.

Por isso, os mistérios
de cada equinócio
foram celebrados
desde que a linguagem
fez sua morada
nas bocas humanas.

No ventre vermelho
de Gaia se gestam
as cores, as flores
que existem, resistem
e insistem tomar
seu quinhão de mundo.

E desta coragem
viva na semente
de tudo que somos,
ficamos sabendo:
a revolução
é na primavera.

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É tempo de silenciar e viver
da falaciosa segurança que nos aprisiona
em nosso ódio,
em nossa impotência,
em nossa indiferença,

em nossos medos.

É tempo de mascar o ópio festivo
da ordem,
da normalidade,
do progresso,

da mediocridade do ouro.

É tempo de seguir a jurisprudência da desumanização
que permite a injustiça,
que garante o arbítrio da força,
que indefere a escrita

de um poema para nossos tempos.

É tempo de permitir, em nome da paz,
que atirem bombas em nossa rua,
que invadam nossa casa,
que sujem nossas mãos com as armas do crime,
que violem nossos corpos

para que se celebre a violência inominada
de nossa omissão.

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