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Posts Tagged ‘Corpo’

Sabe quando a música chega, chama, passa e você segue empós o rastro de uma melodia, para que ela não pare? Cantar na Cia Coral Mawaca é um pouco assim. Recebemos canções que vêm das esquinas dos tempos e juntos soamos para que elas sigam. Fazendo com que nossos corpos se transformem em condutores de sons ancestrais.

O grupo se formou no início desse ano, quando o Mawaca abriu a atividade em sua sede. E desde então, somos um único corpo que soa. E eu, mais uma voz-pessoa dentre todas, essenciais para que o canto-comunhão se faça.

Cantar é uma festa. E, na Cia Coral Mawaca, é ainda ser atravessado, em diáspora, pelo canto de tantos povos, por variados modos de escalar o som. Há dez dias, em nossa última apresentação, com a qual fechamos nosso primeiro ano de existência como grupo, levamos no corpo os sons e as canções que soaram. Quebramos a distinção dos gregos, que tinham uma musa para a música (Euterpe) e outra para a dança (Terpsícore). E nos unimos a certas culturas, para as quais a dança e a música são artes quase indistintas. Cantar e soar é também dançar, e tudo em grupo, em roda, em rito… Quase sempre, por lá, também é assim!

Nesse dia plateia nos seguiu e a música só acabou lá fora. Acabou? Não! Ecoa ainda como memória e desejo de seguir soando…


Vídeo sobre a Cia Coral Mawaca


Teaser do vídeo sobre a Cia Coral Mawaca

Cia Coral Mawaca

Cia Coral Mawaca

Cia Coral Mawaca

Cia Coral Mawaca

Cia Coral Mawaca

Cia Coral Mawaca

Cia Coral Mawaca

Cia Coral Mawaca

Cia Coral Mawaca

Cia Coral Mawaca

Apresentação da Cia Coral Mawaca no Estúdio Mawaca em 18 de dezembro de 2018. Direção Músical: Angélica Lewwiller, Cris Miguel, Magda Pucci, Rita Braga e Zuzu Leiva

 

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(À Cia. Coral Mawaca)

I

Quando canto projeto no futuro
cada som que eu desejo permanente.
Mesmo lançando a voz num tempo obscuro,
já me sinto soando lá na frente.

Quando canto eu sei que me aventuro,
pois soando me ligo no presente
de modo mais inteiro e mais seguro.
É na voz que carrego o que é urgente.

Nesse espelho dos tempos que é a vida,
eu sou um eco vago que convida
o agora a se encontrar com o amanhã.

São urdidas num cântico voraz
as longínquas memórias lá de trás,
levadas pelos ventos de Iansã.

II

Quando cantamos, nunca estamos sós.
Na voz levamos nossos ancestrais
e as canções que trouxeram para nós.

Passageiros do ar, são pelos ventos
conduzidos os sons inaugurais,
espelhos de folias e lamentos.

Eu ouço sedimentos de memórias
ressonando em escalas. Ouço vidas
que nos contam e cantam as histórias
que movem nossas forças incontidas.

Meu corpo é instrumento em que se abriga
tudo o que invoco e sinto que é sagrado.
Celebro assim, numa canção antiga,
as vozes e os cantores do passado.


O meu sentimento é de gratidão por tudo o que foi na sexta-feira (6/7), na apresentação da Cia. Coral Mawaca. Pelas músicas que nos atravessaram, pela forma como soamos e pela alegria pulsante em nós.

Desejo agradecer por tanta coisa que é até difícil encontrar palavra para descrever esse tanto. Agradecer pela troca, pela alegria, pelo entusiasmo, pelos sons, pelas danças, pelos abraços, pelos sorrisos… e pelas palavras.

Queria ainda fazer um agradecimento especial à Angélica Leutwiller por suas palavras antes do concerto, que me levaram às lágrimas (e não só a mim). E, porque aprendi tanto com aqueles dizeres, agradeço também a todas as vozes ancestrais que trouxeram todas essas músicas até nós, o que de certa forma permitiu que esse grupo pudesse se encontrar. A partir dessa sexta, passarei sempre a pedir licença a todas essas vozes e povos que cantaram essas músicas, quando eu for cantar.

 

Primeira apresentação da Cia Coral Mawaca, em 6 de julho de 2018.

Primeira apresentação da Cia Coral Mawaca, em 6 de julho de 2018.

Primeira apresentação da Cia Coral Mawaca, em 6 de julho de 2018.

Primeira apresentação da Cia Coral Mawaca, em 6 de julho de 2018.

Primeira apresentação da Cia Coral Mawaca, em 6 de julho de 2018.

Primeira apresentação da Cia Coral Mawaca, em 6 de julho de 2018.

Primeira apresentação da Cia Coral Mawaca, em 6 de julho de 2018.

Primeira apresentação da Cia Coral Mawaca, em 6 de julho de 2018.

Primeira apresentação da Cia Coral Mawaca, em 6 de julho de 2018.

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I

Costuro no ventre do tempo,
sob a forma de palavras,
o testemunho de como minha voz
adentrou no ouvido

da alteridade.

II

Gesto palavras que são afetos.
Palavras do Outro,
que me foram ofertadas
da leitura que fizeram

de mim.

III

Cada anotação que faço
é uma ultrassonografia do poema
que ainda vai nascer.
Cada afeto é uma ponte

que alimenta vindouros versos.

IV
Há fetos de afeto
em cada palavra gestada,
em cada ponte criada.
No solo fecundo e arcaico

do que me ultrapassa.

V

São olhos alheios
que desenham o esboço
de meu rosto.
Palavras que me antecedem

afluem para o que escrevo.

VI

As lembranças do Outro
fundam minha memória.
Com o afeto que recebo
é que aprendo

a sentir.

VII

Enterro palavras
nas entranhas daquilo
que tenho sido:
um corpo impermanente,

uma máquina desejante.

VIII

A sensibilidade da carne
é o que abre a vida
ao mundo das possibilidades.
Ela permite ao indivíduo

inventar-se no fora de si.

IX

Naquilo que sinto,
eu me torno múltiplo.
E assim, em nove movimentos,
estou prestes a parir

o poema recém-nascido.

Birth of Universe – Victoria Merki

Poema escrito durante a Oficina de Escrita Criativa “Entre Vodus e Ciborgues: a escrita como corpo e potência“, ministrada por Geruza Zelnys e Eduardo Guimarães.

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Na festa que quatro anos da Editora Patuá (há pouco mais de um ano, portanto), voltei acompanhado por dez amuletos, além de duas garrafas de cerveja. Entre esses amuletos, estava Des. caminhos, o livro de Adri Aleixo. Nessa ocasião, ela me disse que seu livro era para se ler num único ato, numa tarde de sábado — imaginei uma tarde chuvosa, com cheiro de terra subindo e abraçando o olfato acostumado ao asfalto dessa selva de pedras a que hoje chamo de minha cidade, por adoção e no provisório de todo estar. Na primeira folha em branco do livro, sua caligrafia me faz “um convite para des. caminhar entre pétalas e estilhaços”.

Dos amuletos que vieram comigo após a festa de 4 anos da Editora Patuá, em 20 de fevereiro de 2015.

Dos amuletos que vieram comigo após a festa de 4 anos da Editora Patuá, em 20 de fevereiro de 2015.

Já faz algum tempo que respondi a esse convite e me coloquei, des. caminhante, nas estradas impressas dessas páginas. Em setembro terminei o livro e em outubro comecei a escrever esse texto, que acabou interrompido pelo incessante fluxo de dias corridos. Mas lembro bem que adentrei o livro como num orbe repleto de sonhos e quimeras, pétalas e estilhaços, delicadezas e rios… E, claro, de montes, desses típicos dos horizontes dessas Minas Gerais. Logo no início, uma revelação (ou uma re-lembrança)  me preparou para a natureza dos poemas que me esperavam: Poético é o Estado Físico da Matéria.

Os poemas ali devem ser lidos com todo o corpo, com “orvalho no olhar” e “os pés cheios de inundação”. Como leitor, ecoei a súplica desses versos: “me pegue e me leve / para um desses seus / poemas.” Mas a verdade é que eu já estava neles, des.caminhando com os olhos, atendo ao momento nos quais se “desprende um clarão / para sublimar insanos”.

Os versos de Adri me evocavam tardes chuvosas, nas quais a gente vai se “desconhecendo a partir do que falavam / ora pétala / ora erva”. Talvez porque seu livro inteiro me evoque aquela imagem que ela me ofereceu numa conversa: “um livro para se ler inteiro numa tarde de sábado (que imaginei chuvosa). Ainda que eu tenha me deslocado bastante, na ordem prática dos dias, desse ambiente de leitura, ele pulsa no livro inteiro. Encenei meu papel de leitor em três atos, quase cíclicos. O primeiro, numa noite, voltando do trabalho de ônibus. O segundo e maior, numa manhã quente de domingo, enquanto a casa ainda dormia. E o último ato, repetindo o primeiro, também dentro de um ônibus, mas com a leitura terminando antes que eu chegasse ao meu destino — e, com isso, me ficaram reverberando os poemas finais pelo resto do trajeto. No poema Des.caminhos, leio que “Foi refazendo caminhos que me permiti / necessária”. O poema seguiu “Adejando rios / Desfolhando noites.” Fiquei com essas imagens ressonantes, antes de me dirigir ao poema derradeiro, Des.caminhos II — “Coisa de rir e de sonhar”! Deixo-o inteiro aqui:

Na ida todo santo ajuda
mas na volta
houve tanto alumbramento
tanta iluminura.
Coisa de rir e de sonhar.

Esses versos são uma bela metáfora sobre a escrita. Aliás, são muitas as alusões à escrita, à leitura e a linguagem. Inda no primeiro ato de minha leitura, deparei-me com um poema que, sem pudores, ordena: “Tire sua roupa e leia este poema / você tirou os seus sapatos para empinar a pipa / Para que servem as máscaras”. No percurso desse poema, ainda me deparo com a seguinte preocupação: “não deixe amarelar as palavras como se amarelam as flores”. Mal saído desse alumbramento, sou tragado pelo início espantoso de Fonemas: “Ele inaugura linguagens / no percurso do meu corpo”. A poeta, que se diz “Vestida de chuva / e plena de encantos”, anuncia e partilha Do Verbo que se encarna em todo leitor e todo escriba:

A palavra estilhaçou meu peito
e o que pulso
É poesia.

É poesia, pulsante e em estado puro, o que encontrará todo leitor que se aventurar por esses Des. caminhos.

Des. caminhos, de Adri Aleixo (Patuá, 2014).

Des. caminhos, de Adri Aleixo (Patuá, 2014).

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(em conversa com Ricardo Escudeiro)

Nas vozes angelicais
ou nas gargalhadas de enxofre,
todas as doze notas
se encontram em rigorosa
correspondência.

O diabo em música
altera apenas
os intervalos.
Seu ludíbrio consiste
em descartar o que não é
inteiro.

A inteireza de três tons
parece desafinar
o mundo todo.
Soa como ruído.
Vida proscrita dos cantos
litúrgicos.

O corpo espera sôfrego
a resolução e repete,
com o ouvido:
trítonos são os intervalos
do delírio.

Hieronymus Bosch - Detalhe de O Inferno da obra Jardim das Delícias Terrenas

Hieronymus Bosch – Detalhe de O Inferno da obra Jardim das Delícias Terrenas

Escrito a partir do poema “quinta diminuta”, publicado em fevereiro deste ano na Mallarmagens — Revista de Poesia e Arte Contemporânea, numa série de três poemas de Ricardo Escudeiro. Faço dele ainda um primeiro chamamento para meu livro Trítonos — intervalos do delírio (Editora Patuá), a ser lançado em breve.

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Ouve a estrutura da palavra,
o antes e o porquê
de sua existência.
A palavra é pomo
do corpo.

Morde essa fruta.
Sente os significados
escorrendo da substância significante,
perpassando plurívocos pela língua
e expandindo pelo ar
tuas histórias, tuas mentiras,
teus segredos, tuas ideias,
tuas verdades, teus desejos
tuas gagueiras e tuas sinapses.

Celebra a palavra.
Ela é feita de teu sangue,
tua carne, tuas gosmas, tuas secreções
e de tudo o que te alimenta.
O verbo escapa das tuas entranhas,
é pedaço teu
como um coração, um fígado, um rim.
O logos testemunha teu desejo
imortal diante da finitude
de tua matéria
em combustão nos tempos.

Acende o corpo
na floração
do que gozas,
sentes,
ou enuncias.

Jules-Élie Delaunay - Sapho embrassant sa lyre

Jules-Élie Delaunay – Sapho embrassant sa lyre

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Não quero competir com a folia que se alastra. As urgências do carnaval me deixariam algum leitor? Algum par de olhos desejoso de escritura e diálogo? Penso que é impossível querer disputar com essa torrente do século, essa efemeridade arrebatadoramente sôfrega, esses quatro dias de celebração do corpo.

Pieter Bruegel, o Velho - A Luta entre o Carnaval e a Quaresma

Pieter Bruegel, o Velho – A Luta entre o Carnaval e a Quaresma

Os tempos de carnaval sempre me lembram o dionisíaco personagem Mynheer Peeperkorn, de A Montanha Mágica. Apesar de seu discurso desarticulado e, muitas vezes, sem sentido, ele acaba se tornando um mestre para o personagem principal, Hans Castorp. Peeperkorn se situa além e fora dos debates travados entre o humanista Lodovico Settembrini e o jesuíta totalitário Leo Naphta.

Colocando-se acima dos discursos em choque — que representam uma espécie de síntese das forças políticas e ideológicas que disputam espaço e poder na sociedade europeia pouco antes da I Grande Guerra –, a personalidade de Peeperkorn faz com que tudo quanto ele diga não importe tanto quanto sua própria presença, já que tudo nele é fascínio. Seu carisma faz com que todos os que dele se aproximem acabem se transformando, de repente, em súditos, o que faz Castorp concluir que a civilização não é um mero produto do intelecto, mas que sua construção depende, antes, do entusiasmo e da embriaguez.

Associo Peeperkorn mais à minha ideia de carnaval do que ao carnaval em si. Diante disso, não desejo obrigar minha escrita a competir com as noções de folia que herdo, sobretudo, do êthos desse fascinante personagem e de músicas do meu repertório afetivo. Em razão dessa festa, que em mim é contemplação e serenidade, deixo para depois tudo o mais que eu poderia querer escrever neste espaço.


A Noite dos Mascarados – Chico Buarque & Elis Regina

 

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“Corpo, cubismos, ventos metálicos, dialéticas pontuais. Ao teu aforismo solar anarquiza o meu desaforismo lunar.”
(Laysa Carolina Machado – A Morada Transitória)

Corpo em transe
não é corpo
errado,
pois não há outro eu
fora da carne.
Qualquer um procede
à constante transliteração
da pele que habita.

Corpo em trânsito
é o lugar
do ser no mundo.
Transitar pelo próprio
constructo corpóreo
é ato contínuo
de toda gente.

Corpo à margem
cumpre sentença
condenatória,
se for transtornado
de acordo com o juízo
dos contrassensos comuns.
Como se toda pessoa
não fosse transeunte.

Corpo transigente
ao que transborda
guarda em si
a herança
de seus muitos pretéritos.
Nele há rastos
de quilombos transeculares,
de povos em holocausto,
de bicho, de floras
e de rubros oceanos primevos.

Corpo transido
no traslado da vida
também vive —
palpitante.
O corpo é
morada
transitória
e única.

Corpo transformado
pelo tempo, pela ciência
ou pelas técnicas
arcaicas
do êxtase
é o que nos apresenta
ao mundo.
Somos somas.

Corpo é o transcurso
da identidade.


O título deste poema me chegou ao ver uma amiga do Facebook compartilhar uma notícia sobre o documentário A Morada Transitória (para assistir ao filme, clique aqui e digite a senha amoratrans), que aborda a história da atriz e professora Laysa Carolina Machado, primeira mulher transexual no País eleita para dirigir uma escola. Os muitos caminhos cibernéticos me levaram ainda ao vídeo de uma performance com trechos de um monólogo com o mesmo título, escrito e encenado por Laysa, de onde retirei a epígrafe do poema.

Esta publicação abre alas ao Dia da Visibilidade Trans*, celebrado no dia 29 de janeiro. A data alude ao lançamento pelo governo federal, em 29 de janeiro de 2004, da primeira campanha contra a transfobia no país: Travesti e respeito. Ela foi realizada em parceria com ativistas e organizações de pessoas trans* de todo país. Na ocasião, excepcionalmente, o quinzenário será antecipado, para falar do tema e lembra a data. Até lá!

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(para Fabiana Turci)

Trinta fragmentos
De trinta estrelas
Dançam pelo céu
E o espaço-tempo
Vira um carrossel
(Flash e Sépia – Guinga/Aldir Blanc)

I

Antes da linguagem
já existe a memória
de ser.
Memória feita de névoa
e instintos.

O corpo
é diminuta amplidão,
latifúndio sem fronteiras
com o mundo.

II

Quando a linguagem
desponta na boca,
também se desenham as fronteiras
de si.
Nomear o mundo
é ato de espanto contínuo.

Saber-se
é a primeira lição de alteridade.

III

Brincar com o silêncio
é arriscar-se no abandono.
Desejar a quietude,
mais do que tudo,
ainda que te desejem
ruidosa.

Verter-se
para si mesma.

IV

Nomadismo é lição
aprendida logo
no amanhecer de si,
antes mesmo das primeiras letras.
Talvez para que a memória
tenha algo que escape
à palavra.

Talvez para escrever
no fundo de si
o signo da impermanência.

V

Apoderar-se da permanência
de cada palavra.
Grafar no papel
como quem escreve
na própria pele.

Iniciar um inventário
de todas as suas casas.

VI

Ter sonhos recorrentes,
conferindo antiguidade
ao que se inventa
sem total controle.
No mais, saciar-se
com as desrazões da lógica.

E ainda assim
preferir nomear o inconsciente
de segredo.

VII

Sentir-se responsável
por alguém que nasce.
Tecer com isso
um longo fio de cumplicidade
com a sua matriarca.

Depois inventar jogos
para continuar na infância
das coisas.

VIII

Testemunhar a cisão
inevitável
de sua casa.
Ruir e se refazer.

Caminhar na direção
do fora.

IX

Não apenas mudar,
mas desejar a alteridade.
Encontrar meios e razões,
inda que com parcos recursos,
para cambiar rumos.

Engendrar os fundamentos
das próprias forças
e da recusa à crueldade.

X

Compreender que a distância
às vezes é um artifício
necessário.
Cortar laços.

Erigir muros
contra aquilo que dói.

XI

Adolescer e se apoderar
de novas dimensões
do corpo.
Sentir intimamente
as urgências.

Às vezes, confundir
dor com intensidade.

XII

Mergulhar em sonhos
olímpicos e na poesia.
Comungar com a natureza
dos peixes e dos seres
aquáticos.

Competir consigo
e vencer-se.

XIII

Alegrar-se em percorrer ruas
como se suas fossem.
Inventar para si um lugar
e desejar ardentemente
uma página em branco.

Escutar o silêncio
como um preparo para receber
o outro.

XIV

Compreender que a palavra
é um poder.
Apoderar-se de todo
papel em branco.

Constatar que o verbo
se faz constantemente
carne.

XV

Compreender que a justiça
é um poder corruptível.
Jamais assinar nenhum
papel em branco.

Desconfiar de todo verbo
que pretenda ser
carne.

XVI

Compreender que o pensamento
é um poder insubjugável.
Apoderar-se de si
como de um papel em branco.

Constatar-se verbo
que faz ebuliente
a carne.

XVII

Percorrer uma vereda
para se libertar da herança
que pesa e imobiliza.
Matar simbolicamente
os pais.

Depois disso, mudar-se
para uma ilha.

XVIII

Em desterro, tornar
todas as ruas percorríveis.
Inventar caminhos
para se perder
sem necessidade de chegar.

Abrir-se ao encontro
e desejá-lo.

XXIX

Insistir em passos
que não são seus.
Ainda assim,
desconstruir ainda mais a herança,
por dentro.

A experiência também pode
ser uma forma de se afastar.

XX

Insistir em passos
que não são seus
é insustentável.
É hora de tornar-se
aquilo que se está sendo.

Escolher-se, mesmo que distante
dos sonhos alheios.

XXI

Assumir o descompasso
entre o desejo que se herda
e aquele que brota.
Assumir que se quer
o que não tem utilidade direta
no mundo.

Regressar, ciente
de que nunca se volta ao mesmo ponto.

XXII

Descobrir a solidão
como fundamento
da incomunicabilidade.
Aproximar-se
do futuro.

Encontrar-se naquilo
que ainda será.

XXIII

Foi neste ponto que te conheci,
dividindo poesias
e manhãs de sábado.
Neste tempo eu não te queria,
e a exaustão e o cansaço
de minhas escusas
te fizeram dizer adeus
no auge do outono.

Mas deixaste sinalizada a abertura
de tua casa e teu corpo.

XXIV

Ainda querias me contar
das belezas que viste no mundo
e por isso me escreveste.
Disseste ver, em minha imagem que guardavas,
uma felicidade possível.

A partir de então, compartimos
nosso tempo, nossas palavras
e outros desobjetos.

XXV

Como importa mais o corpo,
minhas recusas sinalizavam
nova exaustão tua.
Não sei se o desejo do encontro
sobreviveria a outro adeus,
mas neste ponto
talvez eu já não me soubesse
sem ti.

Essa é a parte dizível,
mas nunca completamente explicável,
da brotação do meu amor
por ti.

XXVI

Quando desejamos que o encontro
e os despudores de nossas urgências
fosse a própria vida,
foi preciso inventar um lugar
para chamar de nossa casa.
Designar como Nossa Biblioteca
o lugar em que o que era meu
e o que não era
se misturou, primeiro no chão,
depois nas estantes.

Nomear como nossa vida
ao existir.

XXVII

Houve um tempo
em que mandamos imprimir
as histórias que nos cercavam.
Fizemos o filme
das nossas histórias íntimas
de leitura.

Povoamos nossa casa de amigos,
de sonhos nossos
e alguns importados.

XXVIII

Houve um tempo outro,
e tão contínuo,
em que precisei te procurar ao meu lado,
para te saber.
Eu te reconhecia a mesma
e, ao mesmo tempo,
te desconhecia.

Ainda assim, segui amando
teu mínimo eu
que permanecia.

XXIX

Venceste a desesperança,
o sentir caótico, o perder-se
de si,
o cigarro, as cruezas dissimuladas
e aquilo que não cabe
num nome.
Abandonaste sonhos velhos
que não mais resplandeciam
e jaziam como um peso morto.

Fizeste ressonar a tua
orquestra de papel.

XXX

Amo cada um dos trinta anos
que conformaram teu rosto
e teu existir.
Desejo viver ao teu lado,
ao menos, os próximos trinta,
povoar o mundo com os sonhos
que tivermos e inventarmos,
e fartar nossa casa de corpóreas
venturas.

Ensaio uma síntese
das trinta razões para eu te amar.

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Manoel ouve a terra lhe chamar.
O silvo dos ventos
bagunçando a poeira morna
das tardes
convida-lhe a ser novamente
terra.
Ser novamente
pó e memória,
participando, com isso, da intimidade
da pequenez.

Como poeta, já cantou
o ínfimo.
Como mortal, seu futuro se aproxima —
o mesmo que o de qualquer um:
habitar um úmido silêncio escuro,
quando a vida estanca
e desorganiza o corpo.
Como ente, conheceu muitas infâncias,
gozosos alumbramentos,
sussurradas dores,
e a melancolia do declínio.

Toda estrela, quando apaga,
torna-se um buraco negro
— eis a vida agarrada, lugente,
aos luzentes calcanhares estelares!
Ele ensaiou isso a vida inteira:
no silêncio das coisas sozinhas
aprimorou-se em
árvore musgo cisco pássaro caracol sapo mijo…

Em seu crepúsculo inevitável
a poesia lhe carpe
e um poeta diminuto menor
atira-lhe, comovido,
um prévio e pegajoso epitáfio:

Na palavra, Manoel
jaz e já é.

Desorganizado poema-lamento-homenagem, escrito agora na sequência da leitura da matéria Manoel de Barros, o poeta das miudezas espera o infinito.

manoel_de_barros_extase

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Eu sou nutrido por terra,
por sol, por água e palavras.
No corpo o mundo se grava
e o outro dentro se encerra.

Devoro todo alimento:
carbono, hidrogênio, símbolos,
oxigênio, e outros mínimos
e essenciais elementos.

Cá no meu tempo eu me inundo.
Depois, tornarei ao mundo
e o que sou se espalhará.

O que faz minha memória
engendra também a história
de tudo aquilo que há.

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Depois deste texto, não voltarei a escrever sobre eleições neste ano. Mesmo com o segundo turno da eleição presidencial em aberto, não me interessa explorar seus desdobramentos e as eventuais diferenças entre os dois candidatos que permanecem na disputa nacional. Digo apenas que não voto no PSDB de forma alguma — minto, votaria no Aécio em pavorosas e remotas hipóteses como, por exemplo, se ele estivesse no segundo turno com o Levy Fidélix ou com o Everaldo (Pastor).

Este ano, o que me moveu a escolher meus candidatos e me posicionar publicamente sobre minhas escolhas tem pouca relação com a eleição presidencial — que frequentemente ocupa a centralidade das preocupações de grande maioria, como se ao presidente fosse possível mudar todo o país, se quisesse. Minha preocupação principal estava voltada a que tipo de parlamento iria se formar, tendo em vista os posicionamentos extremamente reacionários que vejo ganhando cada vez mais força em nossa sociedade.

Buscarei externar minha perplexidade por ver uma significativa vitória, nas eleições proporcionais, de projetos aos quais me opus com os meus votos. Uma vitória que não sei sequer mensurar, tendo em vista que meu escopo de análise se firmou apenas nos cinco candidatos a deputado federal mais votados no Brasil, todos do eixo Rio-São Paulo. Foram eles, por ordem de votação:

1º Celso Russomanno (PRB-SP) – 1.524.361
2º Tiririca (PR-SP) – 1.016.796
3º Jair Bolsonaro (PP-RJ) – 464.572
4º Pastor Marco Feliciano (PSC-SP) – 398.087
5º Bruno Covas (PSDB-SP) – 352.708

Para mim, a grande surpresa foi a expressiva votação de Russomano. Minha dificuldade inicial de entender essa votação acabou se esvaindo, quando me dei conta de que ele teve uma boa exposição num programa da TV Record após as eleições de 2012, e que ele se elegeu pelo mesmo partido do Marcelo Crivella — sobrinho do Edir Macedo, senador pelo Rio de Janeiro que disputa o segundo turno para governador naquele Estado.

Por mais que se possa inferir algumas tendências parlamentares de Russomano, tendo em vista seu partido e o claro apoio que ele recebeu da Igreja Universal em 2012, eu não teria como dizer que seu discurso se afina no anverso exato das bandeiras dos direitos humanos e das minorias, que são as bandeiras em que votei. Pode ser que boa parte de seus mais de um milhão e meio de eleitores defenda, por exemplo, que direitos humanos são para humanos direitos e clame por um estado mais policialesco. É bem provável ainda que uma parcela deles se oponha a temas da ordem particular e que dizem respeito ao comportamento moral de cidadãos e cidadãs, como o casamento igualitário, a lei de identidade de gênero, a legalização do aborto e experiências de legalização das drogas. Mas não tenho hoje elementos irrefutáveis para associar todas essas opiniões ao candidato.

Dos cinco mais votados do país, porém, se pode saber, com exatidão, a pauta extremamente conservadora de dois deles: Bolsonaro e Feliciano. Juntos, os dois tiveram 862.659 votos. Além de levarem consigo outros parlamentares com algum tipo de afinidade por suas propostas, sei que a votação significativa dos dois certamente ecoa na eleição de outros políticos com pensamentos semelhantes, mas com votações menores.

Bolsonaro e Feliciano tiveram mais votos do que a soma dos cinco deputados eleitos pelo partido em que votei nas eleições proporcionais (730.097 votos). Veja a votação desses deputados federais abaixo:

Edmilson Rodrigues (PSOL-PA) – 170.604
Chico Alencar (PSOL-RJ) – 195.964
Jean Willys (PSOL-RJ) – 144.770
Cabo Daciolo (PSOL-RJ) – 49.831
Ivan Valente (PSOL-SP) – 168.928

Evidentemente, o PSOL não é o único partido que congrega candidatos que defendem essas pautas. Além disso, tenho grandes e fundadas dúvidas sobre se o deputado menos votado desse grupo se afina com as lutas dos demais eleitos. Mesmo assim, apenas a título de comparação, considerei a soma de voto dos cinco candidatos eleitos deputados federais pelo partido. Do mesmo modo, também é claro que não são apenas Bolsonaro e Feliciano que concentram o voto dos eleitores extremamente conservadores do país. Mas tanto os parâmetros de comparação superficiais que usei como o notório crescimento das bancadas de partidos, grupos e candidatos eleitos com pautas declaradamente reacionárias me assustam.

E por que me assustam? Acho que o temor com esses resultados vem de uma constatação inegável: ao contrário de uma possível alienação política visível em quem vota, por exemplo, num candidato como o Tiririca, os votos em favor da dupla Bolsonaro e Feliciano são conscientes. Eles dizem respeito a um tipo de sociedade que esses eleitores desejam construir. E não tenho como não lamentar essa escolha, tão antagônica à minha. Eu desejo construir uma sociedade que acolha a diversidade e se esforce por promover a justiça. Uma sociedade que entenda que o corpo e os aspectos particulares da vida de cada pessoa devem ser ingovernáveis, e que os conflitos advindos dos diversos desejos precisam ser resolvidos buscando promover o máximo de igualdade possível. Não quero, ainda, que os direitos que eu tenho sejam privilégios, negados a outros grupos ou pessoas. E não quero um Estado que me dite a moral e os bons costumes, como ousam defender alguns grupos.

Li numa rede social uma postagem de um colega dos tempos de colégio que fazia a comparação entre a votação de Bolsonaro e de Jean Willys (candidato em quem eu votaria, caso ainda morasse no Rio de Janeiro). Demorei um pouquinho para me dar conta de que a postagem não lamentava a alta votação de Bolsonaro, mas a celebrava. Diante do fato de o candidato do PP ter recebido três vezes mais votos do que o do PSOL, o autor dessa publicação comentava, sob a forma de pergunta: “E agora quem representa o pensamento da sociedade brasileira?”. Mesmo com o pequeno crescimento da bancada do PSOL, amargo a impressão de que o pensamento da sociedade brasileira parece estar mais próximo ao do Bolsonaro do que ao do Jean Willys.

Lamento sim, mas respeito as escolhas das quais discordo frontalmente. Sei que elas retratam o país em que vivemos. Continuarei, claro, me opondo a elas, tendo em vista que o processo democrático é construído dentro da diversidade e da pluralidade de opiniões, e tem como sua condição de possibilidade a não opressão às minorias . O processo democrático não se faz só pelo voto. Ele amadurece quando os eleitores cobram, fiscalizam, respeitam a pluralidade de visões e buscam interlocução com aqueles que receberam, pelo voto, um mandato para representar as bandeiras que defendem.

Mesmo pensando assim, assombra-me o abismo de minha própria perplexidade com os legislativos eleitos este ano. Segundo campanha veiculada pela Justiça Eleitoral, o domingo passado teria sido o dia da “Festa da Democracia”. Porém, diante da onda conservadora que vejo se alastrar pelas legislaturas estaduais e federal, o dia 5 de outubro de 2014 pode significar muitas coisas. Mas nenhum de seus significados está no mesmo campo semântico da noção que eu tenho de festa.

Textos referidos pelos links (por ordem de aparição):
» Meus candidatos e minhas candidatas defendem as famílias e a vida. E os seus? – Teofilo Tostes Daniel
» O Congresso não ficou pior. Apenas está mais parecido com o Brasil – Leonardo Sakamoto
» Congresso eleito é o mais conservador desde 1964, afirma Diap – Estadão / Política / Eleições 2014 (autor: João Carlos Magalhães)
» Mais conservadora, Câmara deve barrar ações liberalizantes – Folha de São Paulo / Eleições 2014 (autores: Nivaldo Souza e Bernardo Caram)

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Na entranha da terra,
um raio de amor
por tudo se alastra.
Eu já posso ouvir
a sacra quentura
do fecundo chão

enchendo horizontes
de vivos tons verdes.
Vencendo o impossível
dos tempos cinzentos,
das eras sem luz,
o corpo floresce.

Por isso, os mistérios
de cada equinócio
foram celebrados
desde que a linguagem
fez sua morada
nas bocas humanas.

No ventre vermelho
de Gaia se gestam
as cores, as flores
que existem, resistem
e insistem tomar
seu quinhão de mundo.

E desta coragem
viva na semente
de tudo que somos,
ficamos sabendo:
a revolução
é na primavera.

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É tempo de silenciar e viver
da falaciosa segurança que nos aprisiona
em nosso ódio,
em nossa impotência,
em nossa indiferença,

em nossos medos.

É tempo de mascar o ópio festivo
da ordem,
da normalidade,
do progresso,

da mediocridade do ouro.

É tempo de seguir a jurisprudência da desumanização
que permite a injustiça,
que garante o arbítrio da força,
que indefere a escrita

de um poema para nossos tempos.

É tempo de permitir, em nome da paz,
que atirem bombas em nossa rua,
que invadam nossa casa,
que sujem nossas mãos com as armas do crime,
que violem nossos corpos

para que se celebre a violência inominada
de nossa omissão.

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(para Fabiana Turci)

Foi assim:
a aspereza de abismos,
a maciez de rochas,
fervuras e geleiras
me ofertaram
o repertório poético da concretude,
ensinando a carne de minhas mãos
a te tocar.

Os cheiros de campos e asfaltos,
rosas e dejetos,
campas e corpos
adestraram-me
para os teus aromas.

Ervas, manjares e manás,
todas as fomes
e todos os banquetes
me permitiram sorver
a tua inteireza.

Meus absurdos azuis,
teus vermelhos participantes da ideia mesma,
as convulsões amarelas de Van Gogh,
as sombras de Caravaggio e os delírios de Bosch
prepararam-me para as tuas paisagens.

Timbres pungentes, vozes tangentes,
acordes perfeitos, trítonos, dissonâncias,
escalas e escolas,
melodias insuspeitas, ritmos insustentáveis
e o ruído branco
me ensinaram a ouvir
os teus silêncios…
Foi assim.

Detalhes de 'O Jardim das Delícias', de Hieronymus Bosch.

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Ao menos setecentos anos de tradição poética apontam que no domingo passado cheguei ao meio do caminho. Está lá, nos primeiros versos de A Divina Comédia: “Nel mezzo del cammin di nostra vita / mi retrovai per una selva oscura, / ché la diritta via era smarita.” O meio do caminho era a idade de 35 anos, que seria uma antiga metáfora para a meia idade, considerando uma vida potencial de 70.

Sendo o primeiro verso uma antiga metáfora, aos setecentos anos de tradição do poema de Dante se adicionam ainda os anos que dão antiguidade a ela. Como não tenho fôlego para retroceder tanto e encontrar salmos ou profetas que confirmem o arcaísmo dessa ideia, contento-me com a abertura da comédia dantesca. E aceito a noção nela encerrada de que chego ao ápice do arco da vida. Noção desconcertante, pois esse ápice é simplesmente minha vida toda, até aqui.

“Nel mezzo del cammin”, olho para os dois sentidos dessa estrada incerta. E dou graças pela metade que já pude viver. “Gracias a la vida, que me ha dado tanto”! Vejo-me como o resultado, a resultante desse caminho. Componho-me dos meus passos, dos meus afetos, das minhas experiências. Sou um desses bichos que deliram ser anjos, como sói acontecer a todos nós, demasiado humanos.

Se olho para trás grato, feliz com a memória que carrego, a outra metade do caminho intuo desejoso. Palmilhar o incerto não é tarefa das mais simples, mas é isso a existência. O que nem poderia ser, de repente é e se perpetua num tempo sem garantias. E nós nos fazemos, nos inventamos na tentativa de prover algum sentido a essa trajetória de absoluta gratuidade.

Em relação à segunda metade da vida — que é a trajetória descendente que me resta –, desejo especialmente três coisas. A primeira é que seja tão feliz e mais longa que a porção inicial. A segunda é que eu possa seguir ao lado da autora da foto abaixo — a mulher amada! — semeando alegrias, compartilhando sonhos e sorrisos. E, por fim, o terceiro desejo é que nessa segunda parte da jornada minha mente conserve seu poder de realização até o fim, mesmo quando o corpo já estiver fraquejando.

Esses são desejos absolutamente comuns, quase banais. Mas não é preciso ir além do homem para desejar o eterno retorno de cada alegria…

Eu, nel mezzo del cammin, em 22 de junho de 2014. | Foto: Fabiana Turci

Eu, nel mezzo del cammin, em 22 de junho de 2014. | Foto & Bolo: Fabiana Turci

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I – Saudade

“Saudade é um mosaico
De tudo que eu deixo de mim,
Nada mais.”
(Edu Lobo / Paulo César Pinheiro)

Esparso, disperso,
procuro-me nos chãos que pisei:
eu sou feito desse caminhar.
Meu rosto invisível
Desenha-se nos sulcos das pedras
por sobre as quais passaram meus pés.

Não chego a saber
se o que de fato me constitui
é o pó que acumulo das estradas
ou é o que deixei
de mim. Se sou história ou lembrança.
Se saudade é o que falta ou o que levo.

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II – Multidão

“Que a vida é pra se navegar
O que muda é o convés”
(Edu Lobo / Paulo César Pinheiro)

Em mim o mar é.
O meu sangue carrega o primevo
oceano, rubro como a cor
pouco antes do nome.
Eu mesmo sou barco e travessia;
borrasca, caos, cais e calmaria.

Corpo é multidão,
mesmo imerso em silêncio, e na noite.
O múltiplo me habita inclusive
quando estou sozinho.
Sei que quem canta na minha voz
e mais me sabe é o próprio universo.

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O que somos é construído pelo sedimento de nossas experiências, em nossa viagem solitária pela vida. Se por um lado existe algo que pareça uno em nossa identidade, ao ponto de podermos dizer “eu” e sentirmos estar sendo o mesmo numa contínua progressão, por outro é fácil reconhecer que nunca somos fixamente esse mesmo, e que o outro nos habita e faz com que hoje sejamos diferentes do que já estivemos sendo.

Para quem, como eu, vive uma relação identitária esperada e naturalizada, não é comum que se questione sobre o outro que aflora em si. Dessa forma, quando me transformo e me modifico, seja porque amadureço, me amedronto, envelheço ou mudo um juízo sobre algo, sou ainda percebido como um contínuo. Há, no entanto, aqueles a quem sempre se pergunta quando foi que se tornaram o que são. Aqueles que têm suas identidades interditas, em algum grau, pelo confronto com o que nossa cultura estabeleceu como natural — embora não seja possível saber no humano aquilo que é natureza, pois somos demasiado humanos. Talvez pela patente e necessária luta por afirmar sua diferença e, em muitos casos, construir sua identidade, estes, a quem se pergunta tais questões ligadas ao devir, são vistos como não naturais. Como se pessoas com identidades ditas naturais — ou seja, naturalizadas pelas convenções aceitas pela sociedade — também não se inventassem a cada dia.

Embora eu me invente quotidianamente, já que sou, como todos, rondado pelo outro que me constitui, ninguém jamais me perguntou, por exemplo, quando foi que decidi permanecer cis ou me descobri hétero. E essas explicações, para mim, estariam na ordem do indizível, das coisas que não têm nome. Sou criado, porém, de uma forma a acreditar na ilusão de que essas características seriam uma espécie natureza, não levando em conta todas as construções simbólicas, de origens múltiplas, agregadas ao que venho sendo.

Na última semana de fevereiro concluí um livro que testemunha a história de alguém cuja identidade frequentemente é vista como um desvio do “natural”. A autobiografia de alguém a quem certamente sempre se pergunta como foi que se tornou aquilo que é. E que responde, em muitos sentidos, a essa pergunta que lhe deve ter sido lançada inúmeras vezes. Lendo sua história, numa narrativa impressionante, fluida, vertiginosa e envolvente, pude ver que ele é um homem como eu. Na narrativa de suas memórias estão inscritos também seus valores. Percebo então que partilhamos muitas de nossas visões de mundo, embora não nos conheçamos, tenhamos histórias de vida bem distintas e sejamos de gerações diferentes — ele é um pouco mais velho do que meu pai seria hoje, se estivesse vivo. Creio que essa identificação de valores e de concepções de mundo acentue ainda mais a visão que se forma: ele é um homem como eu.

Mas há nele algo, que é da ordem de sua história de vida, que nossa sociedade tende a enxergar como uma diferença de substância, uma outra natureza. Não é. Tanto a minha identidade quanto a dele são construídas nesse caldo simbólico chamado cultura. Mas como eu sou um homem cis, sou interpretado como natural. Já ele é um homem trans.

Ele é João W. Nery. E seu livro, Viagem solitária: memórias de um transexual trinta anos depois, é uma releitura de sua própria história. Uma releitura, pois é a segunda autobiografia que ele escreve. Em 1984 publicou o livro Erro de Pessoa: João ou Joana?, que narrava seu périplo da infância até a chamada cirurgia de redesignação sexual, a que se submeteu em 1977. Viagem solitária inclui também a narrativa de sua vida desde então.

João foi o primeiro trans-homem a se submeter a um procedimento desse tipo no Brasil, quando tais cirurgias eram consideradas ilegais. Tanto que o cirurgião Roberto Farina, que o operou, e que foi o primeiro médico brasileiro a operar uma transmulher em 1971, foi condenado por lesão corporal grave por conta de uma cirurgia feita em Waldirene Nogueira. Ela, cujo nome de batismo era Waldir Nogueira, foi operada por Farina e, após a operação, fez um pedido de retificação de seu registro civil na Justiça paulista em 1975, o que foi negado. O fato chamou atenção da opinião pública, uma vez que ela havia se submentido a um procedimento cirúrgico não previsto em lei como lícito.

“A ironia era precisar de um rótulo, do que todos tentam fugir”, escreve João. O leitor que acompanha as narrativas dessa viagem sente a angústia de alguém que se vê sem lugar no mundo, dessemelhante a todos que o circundam. Mas também se maravilha com a força desse mesmo alguém que, ante a premente necessidade de se reinventar, efetivamente se refaz.

“Iluminando o silêncio das coisas sem nome”, como diz o belo e preciso verso de um poema escrito pelo autor, Viagem solitária é a partilha de uma experiência, feita com grande coragem e generosidade por um homem de mente inquieta. Um homem que descobriu “que há várias masculinidades diferentes e que são construídas também pelas tecnologias da cultura dominante”. Alguém que abriu à força de muita luta veredas para transitar pelos papéis designados a um homem, que era o lugar em que sempre se viu. Que ainda luta contra a invisibilidade a que as pessoas trans são relegadas, nos mais diversos aspectos da vida — no plano legal, no plano social, no plano simbólico… E que, mesmo com todas as lutas empreendidas, fez questão de continuar dócil e afetivo, e de transmitir, como pai, essa doçura e essa afetividade a seu filho adotivo. Ao ponto de escrever, já no final da viagem pela qual conduz seus leitores, que sentiu que sua paternidade tinha valido a pena e, sobretudo, que seu filho se tornara o seu “acerto” na vida.

Vale para Viagem solitária o que Antônio Houaiss escreveu no prefácio do primeiro livro de João W. Nery, Erro de Pessoa: “é um livro imprescindível para a todos os que queiram ver melhor o espanto que é o ser humano”. Vale também a exortação que Houaiss deixa ao fim deste prefácio: “Leiam-no e humanizem-se”. João conta que perdeu o medo das palavras com o antropólogo Darcy Ribeiro, com quem costumava conversar na adolescência e que se tornara uma espécie de mentor intelectual. Ao viajar pelos sendeiros abertos por sua escrita, o leitor constata que ele aprendeu bem essa lição…

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Para ter a experiência primeva da chuva, talvez seja necessário esvaziá-la do nome. E apenas abandonar o corpo às águas que caem do alto do céu terrestre. Como bicho, dar-se à umidade do dia. Como infante, abrir os braços transido de encantamento e espanto.

Creio ser preciso ter passos vacilantes para viver a chuva. Não dizê-la: gritá-la. Não sabê-la: intuí-la. Não analisá-la: cantá-la em ritos pagãos. Diluir a água do próprio corpo nas águas vindas dos céus. Invocar seus pingos como se evocam deuses. Ou espíritos ancestrais. E dançar uma amplidão que se derrama em todo onde. Quiçá eu tenha aprendido isso quando fui chuva…

Não existem chuvas inocentes, no entanto. Elas são potências da natureza. São alento ou tempestade. Afetam-se pelo humano. E afetam o homem… Mas estão além de nossas forças para contê-la ou evocá-la. Carregam em si os gérmens da fecundidade e do terror. Aplacam sedes ancestrais, mas também arrasam casas. Fazem evolar a fertilidade da terra, mas também destroem plantações. Alimentam os corpos de toda vida, mas podem apodrecer raízes. E o humano intui isso antes do verbo, à maneira dos bichos.

Vivemos hoje, porém, um tempo que deseja ardentemente por chuva. Água se espalhando pelos desvãos da secura. Fecundando chãos e ideias. Alimentando raízes e horizontes. Creio que, por isso, toda chuva soe como dádiva. E todo encantamento do corpo ante o aquoso do mundo ressoe como êxtase.

Uns versos me revelam: “e quando faz sol — brilha / desejo de chuva”*. Neste momento, evoco-os como quem invoca, das nuvens, a água rara que transita pelos céus. Ou o deus dos sem deuses.

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*Nydia Bonetti

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“… we are such stuff / As dreams are made on, and our little life / Is rounded with a sleep.”
William ShakespeareThe Tempest. Act IV, Scene 1

Grandes obras são feitas dessa mesma matéria de que são feitos os sonhos. Por isso têm início como névoa, germinam em dúvidas e descobertas, e palmilham incertezas. Ganham corpo assim, na impermanência. Dessa forma, elas se alimentam constantemente da mesma substância impalpável que erigem mundos, uma vez que o estofo dos sonhos é matéria desejante. Mesmo solidificadas num legado, precisam escorrer do corpo daqueles que as criam, como suor, sêmen, baba… Sem o extrato do corpo, se extinguem antes mesmo de nascerem.

O Núcleo Universitário de Ópera (NUO), criado pelo maestro Paulo Maron, é uma dessas grandes obras, nascida certamente da matéria de um sonho. Um sonho que se alimenta há mais de dez anos, e que hoje existe solidificada, como legado. Essa que é uma das poucas — se não a única — companhia de ópera estável no país levou aos palcos, desde 2004, cerca de vinte espetáculos, formando plateia e artistas. Sim, porque os atuadores do NUO não são somente cantores. São artistas que pesquisam, no vasto instrumento de trabalho que é o corpo, as possibilidades de criação dentro desse templo de Dionísio, chamado palco. Tornam-se múltiplos, para que a linguagem que desenvolvem — e que resulta de intensa e constante pesquisa — exista através deles.

imgsemanario0003Nessa condição de existir como grande obra e legado, o NUO se alimenta de sonhos. E hoje, com toda uma história e tendo atingido estabilidade como companhia e reconhecimento de seu público, o Núcleo está trabalhando para terminar a construção de uma sede própria.

Para viabilizar esse objetivo, o NUO criou no Catarse um projeto para financiar a construção de sua sede. O Catarse é uma ferramenta de financiamento coletivo na internet. Por meio dela, qualquer pessoa que queira pode contribuir — e ainda receber recompensas por isso! Dependendo do valor da contribuição, o grupo oferece em troca convites para recitais, DVDs de produções anteriores e até um Workshop de preparação corporal, em data a ser agendada, além, é claro, de agradecimento especial no blog do Núcleo e no programa de sua próxima produção.

Todo projeto selecionado pelo Catarse tem um prazo de arrecadação. O do NUO já está terminando. Ele se encerra em nove dias (dia 21/01/2014). Portanto, se você já conhece o NUO, não deixe de apoiá-lo. Se não conhece, permita-se encantar por ele. Clique aqui e apoie o projeto. Eu já apoiei.

Projeto NUO – Catarse from Pedro Ometto on Vimeo.

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