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Posts Tagged ‘Cibercultura’

Sempre gostei de trazer desafios arbitrários para minha escrita. Desafios formais ou temáticos sempre me interessaram. Lembro-me do espanto, quando li na infância — com sete ou oito anos –, num livrinho hoje tão perdido na memória que não lhe sei o nome nem o autor (1), um poema todo feito com palavras iniciadas pela letra “T” (2). Talvez essa — que julgo ser a minha primeira memória de leitura — tenha sido uma experiência fundante para mim como leitor, antecedente até mesmo à descoberta de que as palavras poderiam servir algo para além do dizer e que delas era possível extrair o gozo. Essa experiência não me trouxe o desejo de escrita. Dela, no entanto, me ficou o assombro e, muito possivelmente, alguma herança que acabou conformando meu êthos como escritor.

Esse poema primitivo me ecoava como lembrança desde que comecei a escrever os meus (nunca esqueci de como me soava o início do poema, embora nada lembrasse da forma como ele se dispunha em versos: “Tuca, Teresa, Toninha: três tias, todo tempo tricotando”). Sem ter mais o livro e ainda sem ter o recurso da internet, onde parece que tudo se deposita, ele me habitava como uma névoa. Mas essa névoa, que nada mais era do que uma apagada lembrança, me motivou a tentar recriá-la nas duas primeiras estrofes de um soneto que escrevi pouco mais de dez anos depois dessa leitura fundante.

Vórtices vértices virão, viajantes…
Vidas vivi; ouvi vibrantes vozes.
Velhas visões, volúpias vãs, velozes
Vagavam vivas em violões ventantes.

Véus… versos vêm vibrar, e vêm vazantes!
Vêm viscerais, vivazes feito vozes.
Violas vagam a vestir viscoses
Vestindo ouvidos com visões volantes.

(Do poema “Os Dias da Madredeus”)

Quando comecei a ler Ítalo Calvino, pela primeira vez ouvi dizer da chamada Oficina de Literatura Potencial (conhecida como OuLiPo). Embora não me enxergasse com tamanha obsessão pela criação de regras restritivas e arbitrárias — e por vezes absurdas, como a escrita de um livro inteiro suprimindo uma vogal –, identifiquei-me de imediato com sua proposta geral, de aumentar as potências expressivas da linguagem por meio de restrições.

Penso que até hoje o desejo de engendrar restrições me persegue. Este ano, a leitura de “Six Songs of Causality”, de Ricardo Domeneck, fez com que um poema ficasse me rondando por semanas. Primeiro como projeto, depois como lista de palavras e, por fim, como execução — construção de uma estrutura e permuta entre palavras. O poema de Domeneck era um jogo com uma série de palavras predeterminadas, permutadas em seis poemas, gerando seis diferentes possibilidades de sentido na relação sintática entre elas. As seis canções me pareceram fractais, e encontrar essa forma — que veio antes de qualquer conteúdo — me levou a escrever Seis fractais de casualidade. Num exemplo como esse, percebo que restrições realmente podem potencializar a capacidade expressiva da linguagem.

Percorro esse caminho sinuoso de lembranças, que talvez digam algo sobre minhas escolhas como escritor, para chegar ao cerne do que desejo abordar aqui. Em meu último texto do ano passado, faltou falar sobre o que passar a escrever com periodicidade para este blog acarretou para a própria escrita, ou na minha relação com ela. Foi minha amada musa e leitora primeira de tudo quanto escrevo quem me chamou atenção para isso. E, a partir de um comentário dela, comecei a pensar este, que seria o primeiro texto de 2015.

Há algo numa página em branco que o assemelha a um blog como este: Em ambos, tudo cabe e tudo pode. A própria escrita se conforma como esse terreno de absoluta liberdade. Talvez para fugir à paralisia que uma liberdade absoluta pode provocar, inventam-se restrições para a escrita — ao menos intuo que, para mim, funcione assim. Contra a abertura disforme de todas as possibilidades, sempre me fixei em projetos — mesmo que fosse para mudá-los, enquanto os executava — e aceitei normas autoimpostas.

Este blog, hoje chamado Ensaio Aberto, nunca foi propriamente um projeto. Sempre foi um lugar de escrita eventual. Escrever para ele tinha a ver com um desejo de encontro e interlocução. Esse desejo, no entanto, muitas vezes era obliterado pela força de projetos a que me lançava. Isso explica, por exemplo, as intermitências e os abandonos que ele sofreu desde 2004. Explica também anos inteiros com um ou dois posts publicados — que, por vezes, nem sequer eram textos, mas citações, vídeos, etc.

Um espaço onde afluíam tantas liberdades parecia não mais funcionar bem para mim. Permanecia o desejo de interlocução e de encontro com leitores, bem como de proximidade semântica que a internet me parece propiciar. Mas um espaço como esse, se não se alimenta sempre da escrita, também não consegue gerar o tipo de movimento que eu me queria.

Para lidar com o excesso de liberdade, que transformava esse blog quase num caderno em branco, com eventuais riscos e notas mais ou menos esparsas, criei uma regra simples: escrever sempre. Para isso, estabeleci uma periodicidade que “deveria” ser respeitada — um dever gratuito, como qualquer outra restrição que eu possa querer estabelecer para o que escrevo. Primeiro, estabeleci uma meta não realista, e que me exigiria sacrificar um tanto meus projetos de escrita para cumpri-lo. Depois, percebendo como e o que funcionaria, bastou ajustá-la.

A necessidade de escrever constantemente me levou não apenas a olhar todas as coisas como matéria-prima de escritura. Ela exigiu que eu, de fato, escrevesse sobre o que me despertava o interesse. Que eu transformasse em linguagem uma série de intuições, ideias e impressões que, em outras circunstâncias, certamente não virariam texto. E, como consequência, não só dirigiu o meu olhar de forma mais constante para o efêmero do mundo, como também me demandou interpretá-lo.

Sem a arbitrariedade autoimposta da constância, certamente eu não escreveria sobre tema como a tentativa de proibir os rolezinhos, as expectativas sombrias de aumento da repressão durante a Copa, os cinquenta anos do Golpe de 64, o encontro com um desconhecido falante no ônibus, a absurda decisão judicial que afirmou que os cultos afro-brasileiros não contêm traços de uma verdadeira religião e os resultados das eleições legislativas. Além disso, pode ser que alguns outros textos, cujos temas costumavam ser matéria de escrita nesse blog, não nascessem apenas por inércia.

Outro aspecto novo é a maior interlocução que minha poesia provocou. Desde o fim de agosto, a maior parte dos textos publicados foram poemas meus. Antes, minha poesia era exposta apenas circunstancialmente. Dos poemas que publiquei esse ano, somente uns dois ou três seriam certamente publicados sem o estabelecimento de um plano de publicação periódica. E talvez outros nem sequer nasceriam, já que alguns eu escrevi pensando na interlocução com os leitores — habituais ou eventuais — daqui. Não sei se os poemas sobre a garantia da ordem, a absurda violência policial, o desejo espalhar o amor como antídoto ao ódio que rege o mundo e a iminente morte de Manoel de Barros, escritos diretamente na plataforma do blog, teriam nascido se eu não estivesse habitando constantemente o terreno da escrita pública.

Inicio 2015 com o desejo de, ao menos, continuar a prática do ano que passou. Nele, escrever aqui constantemente foi uma experiência muito importante para mim, que me permitiu chegar a lugares aos quais eu não chegaria de outro modo. Mais do que divulgar alguns dos meus escritos, ela tem alterado positivamente os rumos da minha escrita. Isso não é pouco! Mas como não há experiência definitiva, pode ser que no futuro eu volte a abandonar esse espaço, ou mesmo que venha povoá-lo ainda mais. A vantagem de criar as próprias regras é poder burlá-las quando quiser.

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(1) Após o texto já ter sido publicado aqui e divulgado no Facebook, minha mãe publicou por lá o seguinte comentário:

“Filho, este livro que você menciona em seu texto foi utilizado, se não me engano, em sua primeira série no Instituto Nossa Senhora da Piedade. Chamava-se “A Canoa Virou” e reunia poemas para crianças. Lembro-me de você lendo os poemas e adorando aquele modo de dizer as coisas. 🙂 “

Na hora aquilo me ecooou. Era o nome do livro, perdido na memória. Provavelmente, algum apanhado de cantigas populares e poemas infantis, com ilustrações. Lembrei até de sua capa azul, com um menino naufragando numa canoa vermelha. Aliás, não sei se lembrei realmente, ou se invento. Mas, se eu inventei, agora é realidade. Com as facilidades de um blog, em vez de ter de mandar imprimir e encartar esse comentário, simplesmente o inseri aqui nesta nota.

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(2) Pesquisando pela internet, após me deparar com a lembrança evocada assim que comecei a escrever esse texto, encontrei o poema e descobri seu autor, Elias José, um escritor e professor mineiro, falecido em Santos em 2008. Eis o poema a que me refiro:

Três tias

Tuca
Teresa
Toninha
Três tias
Todo tempo tricotando
Tanto tempo
Tal tarefa
Tricô tanto

Tuca
Teresa
Toninha
Três tias tagarelas
Tudo tentam
Tudo temem
Tanto tango
Tais tragédias
Tais trejeitos
Tudo treme

Tuca
Teresa
Toninha
Três tias
Tão tiranas
Todavia três tias
Tão ternas.

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“… we are such stuff / As dreams are made on, and our little life / Is rounded with a sleep.”
William ShakespeareThe Tempest. Act IV, Scene 1

Grandes obras são feitas dessa mesma matéria de que são feitos os sonhos. Por isso têm início como névoa, germinam em dúvidas e descobertas, e palmilham incertezas. Ganham corpo assim, na impermanência. Dessa forma, elas se alimentam constantemente da mesma substância impalpável que erigem mundos, uma vez que o estofo dos sonhos é matéria desejante. Mesmo solidificadas num legado, precisam escorrer do corpo daqueles que as criam, como suor, sêmen, baba… Sem o extrato do corpo, se extinguem antes mesmo de nascerem.

O Núcleo Universitário de Ópera (NUO), criado pelo maestro Paulo Maron, é uma dessas grandes obras, nascida certamente da matéria de um sonho. Um sonho que se alimenta há mais de dez anos, e que hoje existe solidificada, como legado. Essa que é uma das poucas — se não a única — companhia de ópera estável no país levou aos palcos, desde 2004, cerca de vinte espetáculos, formando plateia e artistas. Sim, porque os atuadores do NUO não são somente cantores. São artistas que pesquisam, no vasto instrumento de trabalho que é o corpo, as possibilidades de criação dentro desse templo de Dionísio, chamado palco. Tornam-se múltiplos, para que a linguagem que desenvolvem — e que resulta de intensa e constante pesquisa — exista através deles.

imgsemanario0003Nessa condição de existir como grande obra e legado, o NUO se alimenta de sonhos. E hoje, com toda uma história e tendo atingido estabilidade como companhia e reconhecimento de seu público, o Núcleo está trabalhando para terminar a construção de uma sede própria.

Para viabilizar esse objetivo, o NUO criou no Catarse um projeto para financiar a construção de sua sede. O Catarse é uma ferramenta de financiamento coletivo na internet. Por meio dela, qualquer pessoa que queira pode contribuir — e ainda receber recompensas por isso! Dependendo do valor da contribuição, o grupo oferece em troca convites para recitais, DVDs de produções anteriores e até um Workshop de preparação corporal, em data a ser agendada, além, é claro, de agradecimento especial no blog do Núcleo e no programa de sua próxima produção.

Todo projeto selecionado pelo Catarse tem um prazo de arrecadação. O do NUO já está terminando. Ele se encerra em nove dias (dia 21/01/2014). Portanto, se você já conhece o NUO, não deixe de apoiá-lo. Se não conhece, permita-se encantar por ele. Clique aqui e apoie o projeto. Eu já apoiei.

Projeto NUO – Catarse from Pedro Ometto on Vimeo.

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Há dez anos, inaugurava o Tablo[i]g na blogosfera. Na época, embora os blogs fossem uma febre, eu optei por fazer um blog dentro de um site pessoal, todo construído em HTML. Tinha aprendido, não havia muito, a construir sites. Portanto, além do exercício de escrita, havia também o exercício da edição.

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Primeira versão do Tablo[i]g num antigo site pessoal

O nome, simplório, conquistou permanência. Junção das palavras Tabloide e Blog. Sua ideia era existir na fronteira das noções de um caderno de notas públicas e de um tabloide íntimo.

Hoje, olho para traz buscando tatear aquele que fui, e que deu início ao exercício público da escrita. Sou o mesmo e tão diverso do eu que era… Dez anos de vida é vida inteira. A gente é capaz de se recontruir incontáveis vezes num tempo assim tão dilatado. É capaz de se inventar novo de tempos em tempos, sem perceber que o novo guarda o mesmo que lhe deu origem. E que recolhe na memória alguns vestígios de história, a que se costuma chamar identidade.

Aquele que fui se rendeu às facilidades de uma plataforma para blog somente em 2005. Quando já habitava outra cidade. Era outro? Talvez fosse, na telúrica Minas. Passeei pelo novo blog, expondo textos e tateando incertezas, durante cinco anos.

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O Tablo[i]g enfim se rende à plataforma de blog em 2005

A internet era outra. E o eu, também outros — vezes tantas! Com as mudanças da internet, fui levado a inaugurar em 2010 meu blog atual. As ferramentas da nova plataforma me permitiram, além de continuar meu “caderno de notas públicas”, recolher e armazenar os textos antigos dos dois blogs anteriores. Foi o que fiz, reunindo essa dispersa história que, nesta sexta-feira 13, completa dez anos.

São dez anos de escrita pública aqui, nas infovias. E dez anos de outras escritas várias, em grande parte ainda não publicadas. Isso porque eu acabo sendo um tanto antiquado: em geral, quando escrevo, penso em livro. Livro impresso. Tinta em papel. Por isso, termino relegando ao blog o esporádico das palavras. Mais do que um caderno de notas públicas ou um tabloide íntimo, faço do meu blog um espaço de diálogo impermanente. Ou de ensaios de escrita. Ou de tudo quanto é vário e inacabado. Talvez aí resida a verdade de meu blog se anunciar como um caderno de notas públicas…

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Em 2010, na nova plataforma, o Tablo[i]g passa a não só cumprir sua função de “caderno de notas públicas”, mas também a reunir sua história, armazenando os posts dos dois blogs anteriores

Para 2014, pretendo dar ao Tablo[i]g uma nova dinâmica de atualização que dependa menos de eu querer publicar no ecrã algo daquilo que escrevo para manchar a brancura do papel. É o desejo de hoje. Tudo pode mudar até lá, embora estejamos às portas desse novo ano. Se é assim, que ele abra uma nova década aos meus escritos!

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Inauguro esse espaço, sem saber ao certo o porquê. Todos os lugares que construo nesta rede mundial chamada internet, todos os sítios ditos virtuais que forjo acabam por ficar meio abandonados. Minha escrita não costuma ser voltada para o chamado ciberespaço.

Não obstante, insisto. E, em meu desejo de permanência, quase não me mudo. Exceto quando as contingências assim o exigem. Tanto que meu ‘blog’ anterior tem quase cinco anos de idade. E 25 ‘posts’. O resto, é gestado no silêncio, é escrito para outro suporte. Tenho essa mania antiquada de pensar o que escrevo para livros. Coisa de quem não é muito ecológico, de quem quer gastar papel e arrancar árvores do solo.

Tenho declarada obsessão pelo impresso. Aliás, tenho uma certa ideia fixa em relação à permanência. Sempre desconfio, inclusive, que meus textos, se não estão no papel, podem sumir. Não bastam todos os back-ups do mundo. Preciso usar a impressora, ver as letras contra o branco de uma folha. O preto no branco.

Assim, mesmo sem saber ao certo o porquê, mudo de endereço virtual. É verdade que a mudança em si se deve às limitações do ‘Blogger’ e às vantagens do ‘WordPress’. Mas por que insito? Por que permaneço no mundo virtual? Talvez porque eu acredite que a escrita se dá pelo desejo do encontro. Um encontro que pode ser facilitado pela proximidade semântica promovida pela internet. Mesmo contra o desconcerto e o excesso de informação. Ainda que eu me perca pelas infovias, sempre aposto todas as minhas fichas no encontro. Ou no desejo de.

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Veja no endereço http://www.youtube.com/watch?v=QkP8zfKio-Y.

Violão & Voz – Teofilo Tostes Daniel
Bateria – Gianfranco Mastro

Dançapé é uma música de Mario Gil e Rodolfo Stroeter, que conheci na voz da grande cantora Mônica Salmaso no álbum Voadeira. Nesta apresentação, na II Mostra de Talentos da PRR-3, que aconteceu no dia 16 de outubro, eu canto e toco a música acompanhado pelo baterista Gian.

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Férias — alforria. Cada segundo de ócio pede intensidade na ação. Os projetos que ficaram no sem-tempo podem agora, tímidos ainda, requerer seus direitos. A finalização deste site é um bom exemplo. Há tempos nascituro, hoje recém-nascido, inaugurado graças ao tempo livre.

Quantos livros para ler, textos para compor, filmes para assistir, etc. me espreitam! Hoje são os anos 70, com seus lisérgicos contornos, que me visitam. ‘Secos & Molhados’ e aquelas músicas impossíveis, aqueles sons sem limites, aquelas incertezas no timbre da voz fazem a festa de meus ouvidos enquanto trabalho — ou me divirto — em meu site.

Inauguro este Tablo[i]g no tempo certo. Nada como um tempo de tranqüilidade para resgatar a escrita há muito pressentida nos calores calados do corpo, nas mãos doentes por palavras. Ansiava por este tempo, após um intenso período de dedicação às tarefas e ocupações da academia. Não que o prazer esteja distante dos meus estudos — mal sei fazer algo sem prazer. No entanto, era hora da poesia perdida em tantas análises conjunturais, imiscuída e disfarçada no rigor das citações e dos pensamentos sobre o contemporâneo.

O contemporâneo do homem é sempre o desejo. O homem que não deseja vegeta. Se esconde seu desejo, não importa. Deseja no grito mudo das paredes frias e nuas, na desfaçatez de uma razão imaginada, desejada, construída nos intestinos das paixões mais viscerais.

Desejava eu inaugurar este meu espaço. Agora percebo: desejava que ele não mais fosse apenas meu…

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