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Posts Tagged ‘Casa das Rosas’

O lançamento do livro História Íntima da Leitura, que ocorrerá no dia 16 de setembro, das 14h às 18, na Casa das Rosas, marca a estreia da Editora Vagamundo no cenário editorial brasileiro – e na vida dos leitores e dos escritores. A obra, uma coletânea de textos ficcionais de 18 autores sobre as relações entre a leitura e a escrita, apresenta as propostas da nova editora: dar voz a autores contemporâneos nos mais variados gêneros literários e ser uma editora feita por leitores para leitores, apostando na criação de canais de comunicação com o leitor e na publicação de livros de qualidade a preços acessíveis.

O livro traz uma teia de narrativas que forja uma história da literatura a partir da leitura e coloca em tensão e diálogo os papéis de leitores, livros e personagens, enveredando pela construção de uma biblioteca que reinventa a noção de intimidade. História Íntima da Leitura convida também o leitor a deixar suas marcas e inserir-se no texto, reescrevendo, a cada leitura, uma nova história. Nesse ponto, a Editora Vagamundo inova, chamando cada leitor, na última página dessa espécie de livro infinito, a continuá-lo com suas próprias histórias, fazendo do ato da leitura o centro do processo. Para isso, a Vagamundo mantém em seu site o “Espaço do Leitor”, onde as histórias íntimas dos leitores serão publicadas.

Em parceria com a Levante Cultural, a Editora Vagamundo lançou ainda um documentário com os autores da História Íntima da Leitura. O vídeo, bem como a íntegra dos depoimentos dos autores, estão disponíveis no site da editora sob licença Creative Commons. Trata-se de mais um convite para que o leitor possa se inserir na construção de um trabalho colaborativo, legitimando o processo de significação de todo o ato de leitura. No “Espaço do Leitor”, a Vagamundo também vai publicar os trabalhos derivados, em qualquer formato, feitos a partir do material audiovisual relacionado ao projeto.

Lançamento

O evento de comemoração do lançamento da História Íntima da Leitura e da Editora Vagamundo será realizado no dia 16 de setembro, das 14h às 18h, na Casa das Rosas – Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura –, um importante espaço dedicado à literatura, situado na Avenida Paulista, 37.

O livro será vendido a R$ 23,00, valor abaixo da média do mercado, confirmando o compromisso da editora com os seus leitores. Quem quiser garantir seu exemplar durante o lançamento, poderá adquiri-lo mediante o pagamento em dinheiro ou cheque. Após o lançamento, o livro estará disponível no site da Editora Vagamundo, que aceita todos os cartões de crédito e tem como política permanente o envio gratuito para qualquer lugar do Brasil.

Serviço:
Lançamento do livro: História Íntima da Leitura
Quando: 16 de setembro de 2012, das 14h às 18h.
Local: Casa das Rosas – Avenida Paulista, 37 (próximo ao metrô Brigadeiro). Estacionamento pela Alameda Santos, 74.

Editora Vagamundo:
www.editoravagamundo.com.br

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Só outro silêncio. O senhor sabe o que o silêncio é? É a gente mesmo, demais.
(Guimarães Rosa – Grande Sertão: Veredas)

Um caos de formas, cores, luzes e gentes. Vozes chamam incessantemente para um embarque imediato. Sentada naquele desconfortável banco metálico, olhando pousos e decolagens, ela simplesmente aguarda. Aguarda e observa. Ouve conversas, torrentes de palavras, que se desgarram de seus contextos para habitarem novos sentidos dados pela escuta flutuante daquela mulher, que olha contemplativa o ruidoso turbilhão.

Quem a olhasse hoje, diria que Anita era aquele tipo de pessoa que se destaca pelo silêncio. Conhecia bem a inutilidade do verbo diante de argumentos de força. Por essa razão, era lacônica e precisa, como um haikai.

Estava ali, a beber o mundo com os olhos, quando um homem lhe chamou a atenção. A familiaridade daquele rosto, perdido no tempo, seria certamente reconhecida em meio a qualquer multidão. Aqueles olhos… Num impulso, levantou-se e foi até ele.

– Com licença. Provavelmente você não me reconheça. Aliás, eu nem sei se você é você. Quero dizer, se você é quem eu estou pensando que é. Desculpe, mas qual o seu nome?

Disse tudo como uma tempestade. As palavras quase montavam umas sobre as outras, para sair mais céleres. Eram como animais acuados que, num repentino rompante, encontram um ponto de fuga.

– Ro…

Sim, era ele. Anita jamais esqueceria aqueles olhos do mais belo azul-turquesa que já tinha visto na vida. A medida de seu silêncio se ligava estreitamente àqueles olhos, que ela havia conhecido no início da adolescência, na escola. Estavam às vésperas da festa junina e ela dançaria com Rogério, o dono daquele azul.

A turma se via mergulhada nos ensaios da coreografia da quadrilha, com seus pulos, gritos e túneis, em que todos os pares seguiam os noivos. Anita chegou a ser cogitada para o papel da noiva, mas abdicou. O noivo já estava escolhido de antemão, e ela não queria dançar com aquele outro menino antipático e metido, dono de estúpidos olhos, verdes e demais convencidos de si.

Anita era só ânsia. Queria logo vestir-se de caipira e dançar, mergulhada naquela imensidão que sequer intuía, num azul que só parecia existir na intersecção entre céu e mar. E naqueles olhos… A roupa já estava escolhida. A maquiagem, de bochechas vermelhas, sardas e dente preto-faltante, era testada quase todo dia. Arriscava acabar com o estojo inteiro de maquiagem da mãe antes de chegar o dia da festa. E como demorava para chegar esse dia!

Por mais que uma iminência demore, no entanto, ela sempre chega. Porque os únicos tempos simbólicos são o futuro e o passado. O presente não se enxerga, nem se apercebe. Ninguém coloniza o hoje. O presente simplesmente é – ligação entre a memória e o sonho. E, gozosa ou desgraçadamente, é nele que se vive. Assim, a festa, que existia como futuro, de repente chegou defronte do portal do agora, pronta para habitar o passado. E foi no agora que tudo aconteceu. Mas Anita só se apercebeu de tudo quando a festa já era passado. Pretérito imperfeito: já era.

Pouco antes da apresentação da dança, quando estavam se alinhando os pares, a diretora da escola cismou que aquilo não estava direito. Como puderam deixar uma menina tão alta ensaiar esse tempo todo com um menino tão diminuto? Teriam que rearranjar os pares. A professora chegou a esboçar alguma defesa da desordem já estabelecida, mas não teve jeito. A diretora colocou Anita para dançar com um menino comprido e desengonçado, de olhos baços. Já Rogério deveria dançar com uma menininha ruiva e sardenta, de olhos muito grandes e negros, semelhantes a uma noite sem lua.

Indignada, Anita bradou contra aquela arbitrariedade. Apesar de sua pouca idade, sabia argumentar bem. Não se intimidava diante de autoridades que não se mostravam legítimas. Questionou de todas as formas possíveis a diretora. Indagou o porquê do império métrico criado para a apresentação, quando tudo sairia melhor se cada pessoa dançasse com quem tem afinidade. Além disso, mudanças naquele instante, quase na hora da apresentação, poderiam confundir a todos. Mas a diretora era irredutível. Não era estético combinar pares tão desproporcionais, como eles.

Enquanto discutia com a diretora, Anita procurava os olhos de Rogério. O menino diminuto permanecia com o rosto inclinado para o chão, mas a olhava, vez em quando. Seu olhar, quase súplice, parecia pedir que ela desistisse daqueles questionamentos todos, pois aquilo não daria em nada. Como quem falasse “deixa, deixa para lá…” – e ela não deixava.

Somente quando a diretora afirmou, quase aos berros, que era ela quem mandava ali e seria do jeito que ela determinasse, é que Anita percebeu que todas as suas palavras foram inúteis. Contra argumentos de força, de poder, as palavras valem nada. Intuiu isso e calou. Calou as palavras e a voz. Dançou com o menino alto, desengonçado e de olhos baços. Em silêncio. Só não calou as lágrimas. A maquiagem ia ficando cada vez mais borrada pelos caminhos abertos por esse choro silencioso, brotado quase à revelia da dona do pranto. Ao fim da dança, em silêncio, se retirou. Não havia mais festa. Nunca houve. Não para ela, que tanto a havia esperado.

No banheiro, lavou o rosto. Retirou toda aquela maquiagem sem sentido. Tinha vontade de trocar aquela roupa, aquele vestido florido, comprado especialmente para a festa que não houve. Com os olhos vermelhos e inchados, chegou séria perto da mãe. Disse que não queria mais estudar naquele colégio. A mãe quis saber por quê. Ao se ver defrontada com a necessidade de explicar o que houve, Anita chorou alto. Agarrou-se à mãe e pediu, por favor, que a trocasse de escola. E nunca mais pisou ali.

– …berto.

– Como?

– Roberto – repetiu.

Não era ele. Mas como podia ter aqueles olhos? Nunca havia visto olhos iguais, até aquele dia. Anita não sabia muito o que fazer com aquilo. Nem saberia o que fazer, caso realmente encontrasse com Rogério. Pensou que o verdadeiro dono daquele azul fosse ainda um menino, talvez. Um menino que ficou preso ao passado.

– Então você não é você. Digo, não é quem eu pensava que fosse.

Anita notou o semblante daquele Roberto. Parecia abatido. E ela parecia perder a eloquência, novamente. Mas ainda tentou se agarrar a um resto de palavras que lhe vinha.

– Desculpe, Roberto. Devo estar te aborrecendo com isso. Você está indo viajar e aparece uma louca…

– Imagine, é que estou um pouco atordoado. Na verdade, estou chegando de viagem. É a primeira vez que viajo de avião. Segunda, a primeira foi a ida. Fui buscar as cinzas do meu irmão, que eu mal cheguei a conhecer.

Acenou um adeus, mas não conseguiu dizê-lo. Não conseguiu, também, encontrar palavras para falar ao desconhecido, diante de tudo quanto ele havia dito. Mas quem consegue encontrar palavras diante da vida, do incomunicável, do desconhecido, da ausência, da morte?


Escrito para a Oficina Escrevivendo: Falas de Amor, ministrada por Fabiana Turci na Casa das Rosas.

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3 Laudate eum in sono tubæ; laudate eum in psalterio et cithara. 4 Laudate eum in tympano et choro; laudate eum in chordis et organo. 5 Laudate eum in cymbalis benesonantibus; laudate eum in cymbalis jubilationis.
(Psalmus CL, vv 3-5)

perfeito maior
acorde soando inaugura
a tonalidade
ou sua
relativa menor

modula o tom
e leva para outros
……………………………..cantos
outros cânticos

a música
é uma égua bravia
que se pode montar

melisma cromático
desliza sons

a voz do instrumento
…………………………………..de carne
…………………………………………………..madeira
…………………………………………………………………corda
……………………………………………………………………………ou metal
…………………………………………………………………………………………..arpeja
o tema
a coda
o trítono
a resolução

o resultado
em sua inapreensível fugacidade
percute um mistério

que silencia o dentro

se há um deus
ele soa
e só

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Escrito para a Oficina Escrevivendo: Falas de Amor, ministrada por Fabiana Turci na Casa das Rosas
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O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço.
(Os três mal-amados – João Cabral de Melo Neto)

Era uma mulher desejável antes mesmo de ser uma mulher. Quando ainda estava em vias de, mal saída da infância, já apetecia aos homens. Ariana poderia preencher o lugar da mulher da vida de qualquer um. Era bela, inteligente, vinha de uma família rica. Tinha muitos predicados.

Sempre namorou somente os mais desejáveis. Todos os namorados foram aprovados primeiro pelas amigas, depois pelos pais e familiares. Quando era a vez de ela prová-los, no entanto, o amor se esvaía. Teve os rapazes mais desejáveis de seu colégio e de seu círculo social. Todos belos, lindos, civilizados. Príncipes ou futuros gentlemen, herdeiros ou donos precoces de fortunas, que cheiravam a brilho e a cobre. Todos, modelos de beleza e sucesso. Não que o sucesso fosse lá muito importante, como havia sido para sua mãe, uma mulher de classe média que se casou com o empresário Aristarco do Albuquerque Prado. A mãe de Ariana mentiria se dissesse que a construtora, as fazendas de gado e soja, e os milhões em bancos no país e no exterior não conferiam um charme especial ao pai de sua única filha.

Ariana era filha de um amor de conveniência, mas não havia nascido para desejar o desejável. Havia um fôlego de égua selvagem em si – ainda ignorado – que não a permitiria jamais se contentar com o que todos aprovavam, com o que todos estabeleciam como os contornos precisos e saudáveis do querer. Seus quereres tinham um visgo insólito de insanidade que ainda se havia de descobrir.

Não conseguia ainda formular desse jeito, mas tinha em si uma certeza muda de que só poderia amar um homem que ela também fosse capaz de odiar. Essa certeza a habitava silente, inconfessável dentro de si mesma. E o primeiro passo para esse caminho, que fatalmente a conduziria a se tornar aquilo que era, passava pela solidão.

Quando se viu sozinha na faculdade, sem a influência das amigas, que sempre eram as vozes primeiras das escolhas que ela fazia, pareceu parar de desejar. Passou mais de um ano longe de flertes. E que alívio sentiu ao deixar de entregar seu corpo ao que não lhe despertava nenhum apetite. A solitude lhe deu a oportunidade de assenhorar-se de si e de seu corpo, que parecia, então, jamais ter sido verdadeiramente seu. Com o silêncio, passou a ouvir as urgências da própria carne, da própria pele. A voz material do corpo e dos instintos, sufocada desde cedo nas gentes.

Embora quisesse fazer belas-artes, deu início ao curso de arquitetura. Seu pai jamais lhe havia falado nada a esse respeito, mas não imaginava que ele quisesse uma filha artista. Mas com um ímpeto que era ainda tão desconhecido e lhe parecia estrangeiro, saltava as cercas da própria grade curricular para cursar, com frequência, disciplinas do curso de artes como matérias optativas.

Supunha que estava à beira de se tornar um ser assexuado, quando se inscreveu para fazer aulas com modelos vivos. Durante quase meio semestre, desenhou com esmero belos corpos desejáveis de homens e mulheres que não lhe apeteciam em absoluto. Olhava sem pudor e desenhava com paixão.

Num dia que tinha tudo para ser igual aos outros, entrou na sala em que fazia as aulas de desenho. Mas aquele dia não foi igual. Entre os modelos, já nus e dispostos nas mais diversas posições, estava: ele. Ariana o viu. Tudo ao redor desaparecera. Só restavam aquele homem e um dilúvio inaudito entre as pernas.

Passou duas horas e meia desenhando, com fúria, o próprio desejo incontido. Terminada a aula, fora falar com o estranho de traços indígenas e uma cicatriz no ventre.

– Oi.

– Olá – respondeu, com acentuado sotaque castelhano.

O estranho lhe ofereceu com um sorriso, incentivando que ela continuasse. Era o homem mais belo que já tinha visto na vida. Em seu rosto, se destacavam os fortes traços indígenas. Não parecia qualquer um dos meninos desejáveis com quem já havia ficado. Naquele instante, Ariana procurava palavra e refúgio.

– É que eu queria saber quanto você cobra. Eu não acabei de te desenhar.

Mostrou o desenho para o desconhecido. Um esboço rico em detalhes, ainda sem braços ou pernas. A cicatriz de facada no ventre e o sexo, no entanto, já estavam prontos.

– Eu não sei ainda quanto vou ganhar. Acho que vão me pagar setenta ou oitenta mangos. Foi um amigo que me arranjou esse trabalho. É a primeira vez que faço.

– E você tem tempo? Pago o triplo, se for preciso.

– Tenho todo tempo do mundo.

– Quando?

– Quando quiser.

– Agora?

– Pode ser.

– Então vamos. Eu te levo para meu estúdio – disse, puxando o desconhecido pela mão.

– Só preciso de dois minutos para me vestir. E de meia hora para eu receber o que vão me pagar.

– É verdade, você ainda nem se vestiu. Se sair assim na rua, pode acabar preso – disse tateando um gracejo. – Eu te espero na entrada da faculdade.

– Juan Luna – disse, estendendo a mão.

– Prazer! Ariana – disse-lhe dando dois beijos no rosto enquanto sentia o sexo de Juan roçar-lhe, leve, a coxa direita.

– Encantado!

Por mais óbvio que seja, não custa dizer que Ariana não desenhou nada naquela tarde. Levou Juan para seu pseudoescritório de arquitetura prematuramente montado pelo pai, numa ampla sala comercial perto de sua casa, nominado sacra e secretamente seu estúdio. Ela jamais se dera a ninguém da forma como o fez àquele desconhecido. E jamais gozou tanto na vida. Menos pelos méritos de Juan como amante, embora tivesse qualidades lúbricas, e mais por conta daquilo que descobrira ser capaz de forjar, engendrar, arquitetar nas próprias carnes desejantes.

Naquela mesma tarde, Ariana quis saber o que havia causado a cicatriz que Juan ostentava no ventre.

– Quase morri. Desde então, nunca mais subestimei uma fêmea – disse, ao iniciar o vago relato.

Sem dar muitos detalhes, Juan contou que levou uma facada de uma mulher em fúria, ao ser abandonada. Ele jamais havia suposto, antes, que uma mulher seria capaz de machucá-lo daquela forma.

Juan Luna também contou que descendia de uma nobre estirpe de guerreiros incas. Nascido em Cuzco, considerava-se filho, embora bastardo, do grande império chamado Tawantinsuyu.

– Eu nasci exatamente no umbigo do mundo – explicou, destilando depois palavras em sua estranha e sonora língua ancestral.

Entre os seus ascendentes, também havia, segundo contou, um africano e um espanhol. O africano foi levado à região do Caribe, mas fugiu, subindo a cordilheira, e se casou com a filha de um líder espiritual inca. Havia sido retirado da mesma região onde a mitologia afirma ser a pátria de Mêmnon, herói que era sobrinho de Príamo e filho da Aurora. Quanto ao espanhol, tratava-se de um conquistador que procurava prata na região e estuprou a filha de um guerreiro. Foi capturado e colocado, vivo, para assar. Sua carne foi comida pelos familiares da moça violada e seus ossos, abandonados na selva.

A mãe de Juan descendia dessa violência. Sem conseguir estancá-la, sofreu sem remissão nas mãos do marido violento e autoritário.

– A sorte de meu pai foi ter morrido antes de eu ter idade suficiente para matá-lo – disse, com uma ponta de ódio cortante no céu da boca.

Ariana se encantou com as palavras de Juan em defesa de sua mãe, sem se dar conta do quanto elas eram um eco da mesma violência. Ao fim daquela tarde, ela já sabia ao menos uma dezena de coisas sobre Juan. Mas parecia que quanto mais aquele homem se revelava, mais estranho ficava. Estranheza que culminou quando ele, antes de ir, resolveu cobrar o preço combinado para posar para ela, como se ela o tivesse ficado desenhando apenas.

A cobrança que ele fez havia deixado nela uma sensação incômoda. Tinha ido para casa com a razão extraviada pelo desejo. Sentia como se tivesse comprado o corpo daquele homem – ideia que lhe causava um misto de excitação e vergonha.

No segundo encontro, mais estranheza se acrescentou aos contornos de Juan. Descobriu que ele não era michê, tampouco modelo vivo. Aquela atividade de fachada era só um bom motivo para poder circular entre os estudantes sem levantar suspeitas. Não conseguiu descobrir, no entanto, por que no primeiro encontro ele havia cobrado o preço combinado para posar para ela.

O negócio do peruano era vender drogas no campus da universidade. E o sucesso do empreendimento era garantido, pois não lhe faltava mercado consumidor e a repressão era nenhuma. Aliás, nenhuma ali dentro, já que para chegar com a droga naquele lugar era preciso ter perícia. Entretanto, a partir dali, Ariana se tornara uma espécie de passaporte de Juan para onde ele quisesse ir.

Pouco a pouco, ela foi sendo enredada nos negócios de seu homem. Transportava drogas de todo tipo em seu carro, estocava entorpecentes e armas em seu estúdio. Chegou a viajar com ele para a Bolívia, durante as férias, trazendo drogas e subornando policiais rodoviários no caminho de volta. Quanto mais e mais intensamente amava aquele homem, mais sua relação com esse mundo marginal se estreitava.

O período imediatamente posterior à viagem para a Bolívia foi aquele em que Juan mais faturou. Revendia a droga que haviam trazido, o que elevava às alturas seus lucros. Alguns meses depois, no entanto, começou o período da crise. Nos negócios, não na relação. Em pleno milagre econômico, apreensões de drogas em todo o país fizeram faltar material no mercado. O que se conseguia era de má qualidade e rendia pouco. Além disso, a venda na universidade não estava fácil como antes, com milicos agora ostensivamente o tempo inteiro lá dentro.

– Em ocasiões como essas, é preciso diversificar – sentenciou Juan.

Tal diversificação consistia em agir onde havia brechas. Tinha bons contatos e uma mulher que não levantava suspeitas. Diante do quadro, o sequestro era a opção mais fácil e segura. O casal não atuaria no grupo de frente, que se arrisca para raptar a vítima. Simplesmente tomaria conta dos sequestrados. Com isso, aquela menina rica, nascida e criada numa mansão nos Jardins, passou a habitar barracos e cortiços de diversas periferias. Chegou a dormir em chão de terra batida, em cima de jornais velhos. E realizava fantasias em matagais, represas ou mesmo em chãos diversos. À família, disse simplesmente que passaria a morar em seu escritório, mas raramente era encontrada por lá.

– Essa juventude… – lamentava sua mãe, sem supor qualquer nada.

Até que um dia a polícia estourou o cativeiro de um sequestrado que ela e seu homem vigiavam. Algemada, no camburão, imaginava a proporção nacional do escândalo. “Princesa bandida” ou “patricinha pistoleira” poderiam ser dois epítetos seus a partir dali. Especialistas de toda sorte emitiriam juízos vazios, tentando explicar o incompreensível: como ela, a filha de Aristarco do Albuquerque Prado, pôde ter se envolvido com um bandido daquela laia.

Talvez estivesse chegando perto do momento em que começaria a odiar Juan Luna. Mas nada disso lhe importava agora. Carregava e alimentava em si um filho. Filho bastardo de Tawantinsuyu. E contra tudo – medidas, projetos, possibilidades, evidências, conveniências, conivências, projeções e estatísticas – ela amou. Amou. Amou desbragadamente. E quem ama não sabe calcular.

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Escrito para a Oficina Escrevivendo: Falas de Amor, ministrada por Fabiana Turci na Casa das Rosas
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Mistura bem na caldeira
em que se fervem palavras
toda quentura de lavas
com o frio das geleiras.
Esgarça as próprias fronteiras
sem a força que escalavra.

Salpica algum lirismo
em postas de sentimentos.
Acrescenta fingimento
e pitadas de abismo.
Tempera com algum cinismo
e sincero enfrentamento.

Acresce nessa mistura
o esperma tinto de um deus,
confissões de alheios eus
e vozes bem mais obscuras
do interior da estrutura
do que se chama de teu.

Mais uma porção de sonho,
duas e meia de rua,
a face avessa da lua,
o inefável e o medonho;
assim surge, seminua,
a poesia no entressonho.

Elimina o preterível.
Ao excessivo põe veto,
deixando o que sobra quieto.
Fala bem alto o indizível
e faze silêncio audível
para o feitiço completo.

*

Escrito para a Oficina Escrevivendo: Poesia, ministrada por Fabiana Turci na Casa das Rosas.

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E as vinte palavras recolhidas
nas águas salgadas do poeta
e de que se servirá o poeta
em sua máquina útil.

Vinte palavras sempre as mesmas
de que conhece o funcionamento,
a evaporação, a densidade
menor que a do ar.
(João Cabral de Melo Neto – A Lição de Poesia)

(…)

borboleta
Ente híbrido, entre animal e papiro, em cujas asas estão inscritas respostas para perguntas que nunca foram feitas. Trata-se de um palimpsesto que testemunhou a escritura de todos os absolutos e traz, em diversas camadas, a grafia do indizível. Ao experimentar o estado de solidão existencial, conhece a intimidade da impermanência, caminhando em direção ao outro da forma. Ela não nasce ente híbrido, mas aprende a tornar-se aquilo que se é. Sua existência é também o seu devir. Certo sábio urbano, disfarçado de criança, ao visitar o campo e vê-la pela primeira vez, definiu-a como uma cor voando.

(…)

flor
Ente vegetal que é, na verdade, uma borboleta imóvel e fixa. É frequentemente descrita como um códice cujas folhas acabaram de encarar as mil e uma faces noturnas do silêncio. Nascida do cruzamento entre o encanto e a finitude, tornou-se um tipo de lugar-comum poético, como a lua e o amor. Mesmo assim, certos poetas contemporâneos ainda recorrem a ela. Um poeta gauche certa vez descreveu uma estranha espécie nascida no asfalto. Sim, ela é dividida em várias espécies. Uma delas, habitualmente sacrificada e ofertada às dúzias num ritual em favor de amantes ou amadas, teve seus cinco motivos cantados por uma poetisa moderna e atemporal. Outra, imponente e xântica, conserva ainda algo de borboleta, por se mover no sentido da luz, e aparece convulsa e obsessivamente nas telas de um atormentado pintor que se matou quase dois anos depois de cortar a própria orelha para oferecê-la de presente a uma prostituta.

(…)

história
Ente conceitual formado por um encadeamento de instantes ordenados de modo a constituir uma narrativa. Quando escrita com inicial maiúscula, trata de realidades ou instantes pretéritos pretensamente acontecidos, o que faz com que seja considerada verdadeira. Os supersticiosos costumam atribuir sua autoria à irmandade formada pela solidão, a serenidade e o silêncio.

(…)

Paracoccidioides brasiliensis

Poetas são, às vezes, arbitrários.
Elegem sem motivo certos seres
e os enchem de poéticos poderes,
inscrevendo-os em raros relicários.

Porém, uma cientista que também
é poeta não pode distinguir
dos entes de poético existir
um certo fungo conhecido bem.

Bem conhecido dela, pois poetas
se consideram sempre bons estetas.
Preferem borboletas e condores.

Mesmo por males têm predileções.
Sabem tudo das próprias depressões,
mas nada dos imunodepressores.

(…)

solidão
Ente sentimental que o senso comum associa a tristeza, amargura, angústia e outros entes sentimentais negativos. Ela, no entanto, é uma condição da existência, formando com a serenidade e o silêncio uma antiga irmandade que regia a destinação de deuses, homens e outros entes. Entre os antigos, foi identificada como Cloto, a fiandeira. Os demais entes dessa irmandade também conheceram outras nominações: Láquesis era aquela que mansamente enovelava o fio para sortear o nome de quem teria o silente encontro com Átropos, a quem cabia cortar, inflexível, o fio tecido por Cloto. Há quem sustente que o sozinho de cada ser seja o fundamento de seu sentir.

(…)

verdade
Ente conceitual constituído a partir de uma narrativa pela qual as pessoas podem jurar.

(…)  

*

Escrito para a Oficina Escrevivendo: Poesia, ministrada por Fabiana Turci na Casa das Rosas.

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Meus pulmões sorvem ar cotidiano,
mas algo já parece diferente.
Sequer sei precisar: por mais que tente,
eu não explico o instante soberano.

O que, intocável, faz que brilhem sóis
sem ter havido nada de sublime?
O que, sem nome ou fato, é que se exprime
na exatidão em que se faz a voz?

Não sei supor com que eu me assereno.
Será que é parte em mim que ao fim ecoa
ou é, talvez, a imperfeição de um tom?

Se ar cotidiano faz-me pleno
e enfim me iguala a tudo quanto soa,
passo a existir exato como som.

Poema escrito para a Oficina Escrevivendo: Poesia, ministrada por Fabiana Turci na Casa das Rosas.

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