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Posts Tagged ‘Carlos Drummond de Andrade’

Ontem essa indagação não me saiu da cabeça: a mitificação de alguém é uma forma de desumanizá-lo? Que processos nos levam a apagar o lado humano de alguém que admiramos demais, para torná-lo uma espécie de semideus?

Anteontem à noite (25/5), fui ao lançamento do livro Estórias autênticas (Editora Patuá), do querido André Balbo, no Patuscada. Ainda não havia conseguido que o André autografasse o meu exemplar (sim, uma ótima notícia: o lançamento foi bem concorrido!), quando o Edu (Eduardo Lacerda) comenta comigo que haviam dito que o Raduan Nassar estava lá.

Meu primeiro sentimento foi um misto de incredulidade e espanto. O Raduan Nassar habita, ao lado de outros quatro escritores, uma parede da minha casa, dedicada às referências literárias mais importantes, comuns a mim e à minha esposa. Um conjunto pensado há sete anos, quando planejávamos os detalhes de como seria a nossa casa. Num tempo em que a matéria da vida quotidiana se modificava e ganhava novos significados projetados pelas emanações de sonhos em comum. Alguns dos cinco quadros que existiam originalmente na casa da Fabi emoldurariam novas fotos.

Foram conversas várias para que chegássemos a cinco nomes. Havia uma projeção de que novos quadros poderiam vir, aumentar esse conjunto, mas isso não ocorreu. Claro que certos autores já então cogitados se agigantaram ainda mais (como no caso de Ítalo Calvino) e outros surgiram assombrosamente (como Ismail Kadaré). Mas acredito que ali habitam a base do que me forma como leitor, e boa parte do que forma a Fabi (que vai muito além de mim) como leitora. Não consigo imaginar minhas palavras sem tê-los encontrado um dia. Estão lá Drummond, sentado modestamente no chão a folhear um livro próprio; Hilda Hilst abraçada com ternura a um cão; Borges com um olhar de tempestade, voltado para a incerteza; Guimarães Rosa acariciando um excêntrico rinoceronte. E, no centro, sentado numa cadeira sob uma árvore, talvez em sua mítica terra que o fez abandonar a escrita, Raduan Nassar.

Drummond, Hilda Hilst, Borges, Guimarães Rosa e Raduan Nassar habitam nossa cozinha, o lugar mais sagrado da casa.

Isso significa que aquela espécie de entidade que habita nossa cozinha, que é o lugar mais sagrado da casa, estava ali. Devo muito da minha linguagem à leitura dos livros de Raduan. Mas não teria como dizer isso a ele. Não teria como contar o alumbramento perplexo suas palavras me causaram. O quanto elas foram fundantes para o prosador que sou, e que desejo me tornar. Também não teria como dizer que a fala de um dos personagens do meu Trítonos tem toda fala construída como um fluxo, um jorro, como o vi fazendo em “Um Copo de Cólera”. E que nessa mesma fala há uma espécie de incorporação de uma trecho do “Lavoura Arcaica”, em que o personagem diz que será o profeta da própria história.

Quando fui buscar o autógrafo do meu exemplar do livro do André, numa sala mais reservada, aquela figura deixou de ser apenas um quadro na parede, e um nome na capa de livros essenciais. Diante de mim estava ele: Raduan! Desde então, fui meio que levado pelos acontecimentos. Ainda não acredito que autografei e dei um exemplar do meu Trítonos – intervalos do delírio para Raduan Nassar. Era como conhecer uma entidade mítica. E a perplexidade paralisa. Ao lado de Raduan, outra figura conhecida. Embora longe de ser mítica, é alguém que, em tempos de uma política desumana que a administração da cidade vem adotando, deixa saudoso o cidadão político que sou: Fernando Haddad.

No entanto, num primeiro momento, só consegui ver o escritor e mito. Em vão tentei balbuciar algo absolutamente banal, falando do quanto era difícil de acreditar naquele momento. Mas eu sabia que quaisquer palavras eram insuficientes. Voltei para casa eufórico, como se tivesse vivido uma experiência sobrenatural. Repleto de uma emoção difícil de explicar, mas plenamente possível de entender. Ao mesmo tempo, porém, pensava no quanto aquela euforia e aquele maravilhamento, que quase me emudeceram, nasciam da mitificação de um homem. Ao entrar naquela sala, vi um homem frágil, talvez um pouco menor que eu, feito de carne e osso, sentimentos e incertezas. Mas essa dimensão havia se apagado. Meus olhos viam apenas a figura mítica, o escritor desmedido e o personagem repleto de idiossincrasias, que largou a literatura para cuidar da terra e seus maravilhamentos. E essa figura me parecia desumanizar o Raduan homem.

Longe da emoção, penso que talvez eu devesse ter falado que sabia que toda aquela situação talvez fosse um pouco constrangedora para ele, mas que certamente ele também entendia que, como leitor, me era impossível não lhe dizer o quanto o admirava. Afinal, era ele: Raduan Nassar. Há seis anos ele habita o espaço mais sagrado da minha casa. Suas palavras me habitam há pelo menos uns quinze. E era lindo conhecê-lo ali na Patuscada, pois aquele lugar também é, um pouco, uma espécie de casa para mim…

Fernando Haddad, Raduan Nassar, Edson Valente, Eduardo Lacerda e eu.

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Hoje leio preces
como se apenas poemas fossem,
poemas fósseis, latejantes
— mais poemas do que atos de fé!
(do meu poema Taxa de locação)

Beata Beatrix — Dante Gabriel Rossetti

Durante cinco meses e dezessete dias, atravessei um livro de poemas. Mas, da noção silente e imaginativa que trago da Liturgia das Horas, eu sei que um breviário não se cruza à galope, mas antes se navega no vagar dos dias e dos instantes, celebrando sem pressa as Laudes, as Meridianas, as Vésperas e as Completas.

O deus Insaciável do início do livro — que “sangra os passos da dúvida”, “eletrocuta a linguagem // diz o nosso nome / quando afundamos no mar” — já me havia demandado uma resposta poética. Invoquei, para isso, o meu sagrado sem nome, cujo altar é erguido sobre o corpo da dúvida. Já o poema inaugural do livro que atravessei — essa espécie de Gênesis — faz da divindade uma “enxada encostada no tempo”. Nele aprendi que “deus tem asas feridas / remendadas com o pano da terra”.

Essa foi minha primeira colheita do livro Epifania, de Sândrio Cândido. Depois dessas primícias, de Passagem, descubro que é “inútil dedilhar poentes /compor manhãs com os retratos desfigurados”. Na sequência, me deparo com uma ideia de oração que se irmana à minha própria. A incendiar essa noção, encontro versos me advertindo para “descalçar os passos da linguagem”, pois “é sagrado entrar no poema / galgar degraus oceânicos na palavra / dissecar o verbo”. Mas porque só tenho “a palavra suja de mundo” e tropeço com “a vida refugiada em goles de esperanças”, essa Oração revela em si a sua própria contradição, ao concluir, em seu último verso, que “é inútil erguer uma prece dentro do poema”.

Escrevi certa vez, noutro lugar, que a heresia é o que mantém viva a possibilidade de surgirem novas religiões, ou novas concepções místicas das que hoje vigoram. Não à toa, os místicos estiveram a um passo da heresia… O que gosto em geral nos místicos é que eles vivem uma experiência tão arrebatadora que acabam se afastando do dogmatismo de suas religiões. E flertam como os limiares da heresia. Mas, ao mesmo tempo, me parece que dificilmente eles — ou , ao menos, aqueles que escaparam das fogueiras e se tornaram santos — dão esse passo em direção ao rompimento. O que fazem é alargar os limiares de suas próprias fés. Penso em figuras como Francisco de Assis, Teresa d’Ávila, João da Cruz ou Rumi — exemplos que viveram esse limiar sem rompê-lo.

A filiação mística do livro Epifania (Editora Patuá, 2014), de Sândrio, se explicita já no quarto poema. Ali, aprendo que “os místicos embriagados de deus / devoram os nós” e me perco no labirinto do “tudo é tanto que não caibo em tudo”, mas sem saber quando “as canetas me escrevem no mundo”. Penso na Noche oscura del alma e já no poema seguinte colho, na conclusão, uma estrofe que diz: “esta noite sou incapaz de te escrever / dobro os joelhos sobre os vocábulos nascentes / peço-te: / — acolha o meu silêncio.”

Ecoando o bailar de Rumi — um antigo dervixe persa que para mim sempre pareceu ter sido mestre de Caeiro — Sândrio, “um verbo conjugado no encontro”, afirma que “em mim os deuses dançam / sentados à mesa da ausência”. Revolvendo a ancestralidade do mundo, constato ainda que “os astros pronunciam meu nome / me faço luz / irradio poeira cósmica” (e isso me evoca demais o poema de Rumi “Vem, / Te direi em segredo / Aonde leva esta dança. // Vê como as partículas do ar / E os grãos de areia do deserto / Giram desnorteados. // Cada átomo / Feliz ou miserável, / Gira apaixonado / Em torno do sol.”). No fim desse primeiro movimento com o poeta de Minas Novas, “regresso agora / trago o tempo enxugado, / alguns poemas. / o efêmero sentido de estar aqui // despenco dentro de outra solidão.”

Cruzando esse bloco, me deparo um poema que tem por epígrafe os versos “Buscamos na vida / a casa dos nossos nomes“, de minha irmã Roberta Tostes Daniel. Nesse poema de Sândrio (Nos meus olhos uma paisagem adormecida), “os telhados desabam nos alicerces do tempo”. Ali, encontro a mim mesmo, e de alguma forma a minha ancestralidade poética, espelhada na poesia de minha irmã caçula. Sigo para um Oásis em que “meu nome é uma canção pronunciada do outro lado”, onde “busco uma lamparina no ventre da morte.” Sigo célere o rastro dos místicos para contemplar o Crepúsculo nas varandas interiores, onde “quero entardecer rasgando miragens / descansar a sede em alguma fonte.” A Contemplação do crepúsculo revolve essa imagem do entardecer, lembrando que “os crepúsculos enfiam os dedos na minha garganta.”

A leitura é também um execício de esperança e espera no poder do que não é comunicável. Afinal “deve haver alguma luz nos escombros do amanhã”. Nesta paragem, contemplo “os templos sumindo dentro do mistério”. Ali me é soprado que também “sou uma igreja velando o horizonte: / minhas paredes murmuram canções arcaicas, / cacos umedecidos, mãos trituradas, incenso, / o perfume das velas. / tudo aponta para um jardim possível.” Na liturgia dessas horas de Epifania, “um monge queda de joelhos / sem conseguir se acasalar com o mistério.” Eu, que duvido dos absolutos da crença e do descrer, me vejo nele.

Ainda assim, em Comunhão, me encontro com “a voz possuída pela ancestralidade do canto / arranco pela raiz a erva solidão / acendo as palavras sobre o nada.” Eu, que “sou um rio escorrendo pelas pálpebras da terra”, sigo os rasgos dessa Claridade, em que “o silêncio é uma pedra tragada pela garganta das aves / um círio de arame aceso no coração do outono / uma varanda aberta no seio do pão.” Sei que “os calendários são ervas / crescem sobre a rosa do instante.” Ainda assim, me fixo neles. Ou por eles sou fixado, pois “o tempo tem fome do meu corpo”. Neste estado, “ergo-me / faço do corpo um monastério”. Ainda assim, “estou me habitando em estado de escavação”.

Isso me leva a pensar no porquê escrevo. Talvez porque Os amigos não cabem no silêncio. Sim, eles são “altares circundando o interior / casa acolhendo as ausências”. Eu escrevo porque “incrível é a graça de entrar em comunhão / estar no outro / contemplar a vida escorrer lentamente”. Ou nem por isso, já que É inútil acordar as palavras e quem escreve este poema, ecoando Cioran, me segreda: “eu, porém, fiquei / habitando o ventre do desespero”. Ele me interroga: “dizer para quê?”, pois “amanhã será inútil acordar as palavras / hoje também.”

Se a ele falta a esperança, a mim falta a fé e, por isso, sigo escrevendo minha dúvida. Divirto-me com ela, com a finitude do meu saber. Ainda assim, sigo e também “sonho uma casa no interior das romãs”. Vejo que “nos límpidos lagos do tempo / cardumes de crianças nadam / segurando a flor luminosa da infância.” Pelo delírio das imagens que a poesia espalha, percebo: também eu “preservo as crianças interiores / essa espécie em extinção!”  Compreendo bem o verso que suplica: “deixa eu me rasgar para a epifania das flores”. Nas palavras, procuro um Lar. Evoco-me como habitação, eu que sou basicamente memória e efemeridade. Acompanho o poeta e “entro pela porta da cozinha / contemplo a chaleira sobre o fogão à lenha, / a felicidade fervendo.” Por motivos oblíquos, lembro de uns versos de Drummond: “Minha vida, nossas vidas / formam um só diamante. / Aprendi novas palavras / e tornei outras mais belas.”

Da Canção Amiga de Drummond — que me habita inteira de cor —, salto para um poema de Sândrio que se abre anunciando que “há canções mortas grudadas no corpo”. Percorro uma Efêmera prece que me lembra que “escrevo para desabitar a solidão”. Nessa prece — poema fóssil? — o poeta suplica: “mas me deixa dizer meu nome em teu nome.” Encontro novamente, então, o nome da minha irmã, e versos dela evocando o navegar: “Desveladas / correntezas / para aportar“, ela me diz. Já Sândrio peregrina por sua travessia de palavras e celebra uma Liturgia do exílio, onde os homens “acendem um círio na eternidade”.

Estanco brevemente o fluxo de minhas palavras, esta circum-navegação em torno do lido, pensando neste meu itinerário de leitura. O que ele diz? E o que me diz o próprio Itinerário da obra de Sândrio, que me conta que alguém “cravou os dentes no útero / abortando a gestação dos passos”? Não sei dizer. Sei é que leitor e autor fazem a obra. Juntos, “somos a comunhão das estradas / conjugamos o infinito em um instante, / no vazio mergulhamos / plantamos os olhos na eternidade.” Essa Contemplação não salva, mas revela “alguma tarde escorrendo / entre os dedos mergulhados no tempo.” Sim, “dentro dos olhos tudo é miragem / silêncio”. A leitura é uma Liturgia do encontro, onde “o verbo espera dentro do forno”. Por ela, pelo lido — esse lugar em que os não-vividos se executam —, “tentei ouvir os gemidos da terra / o êxtase das gotas adentrando o solo.”

As portas da revelação se abrem. Se no princípio havia um deus-verbo Insaciável com o qual os místicos se embriagavam, agora o último poema dessa Epifania me traz o Apocalipse. Nele aprendo sobre a palavra — a que também se pode chamar de “deus”: “posso adormecer sem um amanhã / ser a lamparina acesa em teus lábios / encontrar em teu corpo o instante perdido / nunca mais existir em um tempo / a isto chamo salvação.”

A essas palavras digo muitos améns!

Epifania — Sândrio Cândido

Epifania — Sândrio Cândido

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