Feeds:
Posts
Comentários

Posts Tagged ‘Cabo Frio’

Desejo de estradas, de árvores e de matas do caminho. Sentido norte, às bordas de Minas. Na até pouco tempo desconhecida — para mim — São João da Boa Vista, esperava-nos uma experiência de êxtase. Assim queríamos, assim imaginávamos, assim vivíamos este domingo último, desde o despertar.

Claro que entre o vivido e o imaginado, há imensos descompassos. O que planejamos não consegue dar conta de tudo quanto é. Certa vez escrevi uma frase, num conto, que se inscreveu em mim, no meu êthos: O real é de um maravilhamento que desconcerta o imaginado.

O primeiro maravilhamento foi pegar a estrada. Eu e dois ciganos: Fabiana Turci e Marcelo Tosta. Tostes, Turci e Tosta têm o vício de se maravilharem com a amplidão azulada do céu, com a poeira vermelha levantada em estradas de terra, com o sol batendo verde na copa das árvores. E sob influência de determinadas músicas, os êxtases desses três seres que somos se intensificam.

Junto conosco, viajaram as paisagens sonoras de Madredeus, Trio Harel, Orquestra Popular de Câmara, Zeca Baleiro e suas dez cantoras das “Odes descontínuas”, Milton Nascimento e Gustav Mahler — este último, interdito. Não seria possível à condutora do carro manter-se na concretude da estrada com Mahler. Íamos nós e tudo quanto somos ao encontro da paisagem sonora de Yann Tiersen. Sim, esse ser que para nós se assemelha a um quase mito estaria em carne, osso e sons no Teatro de São João da Boa Vista, essa cidade até então desconhecida — para nós — às bordas das Gerais.

Já havíamos passado do meio do caminho, quando chegou a notícia pelo celular: acabaram os ingressos para o show. Eram 14h53 da tarde. Levamos alguns segundos para decidir que continuaríamos a viagem ainda assim e alguns minutos para nos refazermos da frustração trazida pela má notícia da “fortuna imperatrix mundi”. Não sei saber se foi pelo impacto da notícia, ou pelo alumbramento de ver uma lua imensa no azul do céu, que o caminho que seguimos a partir dessa hora tornou-se um desvio. Quase 90 quilômetros de desvio, por uma estrada que parecia voltar pelo avesso. Após nos certificarmos de que teríamos de pegar o primeiro retorno e, no Km 134 daquela estrada, seguir o caminho que leva a Mogi-mirim, lembramo-nos da importância do desvio para a tradição filosófica moderna. Era tarde. Chegaríamos depois de o show já ter começado. Mas, ainda assim, seguíamos, leves e corpóreos como as notas que soavam nossas canções de estrada.

Depois de percorrer mais chão do que havíamos imaginado, uma placa mandou que virássemos, indicando que aquela curva nos levaria a São João da Boa Vista. Encontramos no meio da estrada o limite entre a cidade que buscávamos e o município anterior. Um ponto melhor demarcado do que aquele em que o Trópico de Capricórnio corta uma das estradas que tomamos. Quero crer, porque a realidade poética é a que melhor me convém, que cruzamos o Trópico no exato ponto em que fizemos o retorno em nosso desvio.

O entorno foi deixando de ter aspecto de fazenda, sítio, zona rural; foi, pouco a pouco, revelando a cidade que nos recebia. Uma pequena e encantadora cidade que me fez recordar Cabo Frio. Sim, sempre que estou numa pequena cidade, lembro de Cabo Frio — ou, mais precisamente, da Cabo Frio em que morei. Mais do que isso, lembro do tempo em que lá vivi, quando o tempo parecia ter outro ritmo, quando as horas, os minutos, os segundos pareciam respeitar mais o instante do gozo e do aprendizado. Estar numa pequena cidade sempre me desperta essa nostalgia dos tempos que me formaram, que fizeram de mim o que sou.

Ainda pensava nisso, quando se tornou óbvia a necessidade de pedir informações. Onde ficaria o Theatro Municipal? Seguíamos quase como se conhecêssemos a cidade, mas era preciso certificarmo-nos. Paramos no ponto exato que impediu mais um desvio nosso do caminho — que seria o terceiro! Quando andamos tendo um norte onde chegar, o caminho sempre parece mais difícil; os perigos e desvios sempre mais constantes, e a gente não experimenta nunca a sensação do ‘perder-se’, mas somente a de ‘estar perdido’.

Uma única indicação nos bastou. Naquilo que devia ser o centro da cidade estavam incrustrados a Catedral, sua praça, e o Teatro Municipal, onde havia começado há pouco o show de Yann Tiersen. Na porta do teatro, uma pequena multidão se aglomerava, discutindo sobre a distribuição antecipada dos ingressos com quem deveria ser da organização da Virada Cultural na cidade. Foi divulgado que os ingressos começariam a ser distribuídos uma hora antes do show (previsto para 16h30), mas antes das 15h os ingressos já estavam esgotados. Os mais exaltados começaram a se dispersar, após muita reclamação. Permaneciam aqueles que simplesmente queriam ver o show, como o rapaz que trazia nas mãos uma foto impressa do músico e sua família.

Eu já estava descrente. Mas os ciganos que me acompanhavam traziam no rosto uma certeza de que em breve entraríamos no teatro. Certeza fundamentada no impalpável, é necessário dizer. Não sei exato quanto tempo esperamos. Sei que começaram a sair algumas pessoas do teatro — e o assombro de todos que estavam às portas do teatro, impedidos de entrar, era: como alguém sai no meio desse show? Isso renovou os protestos dos que remanesciam atados a uma esperança sem fundamentos. Talvez todos nós que não brigávamos, não nos exaltávamos, mas apenas esperávamos, estivéssemos fruindo o espetáculo pela dimensão da ausência. O que é uma entidade como Yann Tiersen senão uma manifestação corpórea do inatingível? Os ídolos são outra coisa além disso?

Não soube nem precisar essa pergunta. Mas a resposta nos chegou de repente. As portas se abriram e, com a anuência de alguém, entramos no teatro. Umas quinze pessoas que o fio do destino havia guiado até essa experiência de converter em êxtase a frustração. “Sur le fil” nos recebia. O violino do instrumentista francês parecia saudar nossa chegada. Delírio, alumbramento, gozo, êxtase.

Dali para frente, adentramos num território em que as palavras só podem falar da dimensão da ausência da possibilidade de dizer algo. Tateio as palavras, os fonemas. Reviro do avesso as frases. Mas nada consegue dizer com exatidão da alegria, do maravilhamento que era estar lá dentro, que era sermos recebidos por aquela música.

A plateia do teatro estava absolutamente fascinada. Nós, que não acompanhamos todo o espetáculo, também estávamos. O inaudito, o impossível transmutado em experiência nos desnorteava. A celebração daquele instante eram os sons que se ouviam. Música inclassificável, além de toda palavra. Som exprimindo o indizível das gentes, dos dentros mais fundos. Aquele conjunto de vibrações nos lembrava do milagre que é existir quando — e onde — nada poderia haver. Não é possível ouvir Yann Tiersen sem se sentir grato à vida por isso.

Tudo beirava o indizível, tocava regiões onde palavras são poucas para tanto sentir. No entanto, se tudo parecia ser o ápice, pouco depois éramos surpreendidos por regiões ainda mais altas, por voos sonoros ainda mais amplos, anchos, largos. Talvez por isso, terminado o bis protocolar e acesas as luzes do teatro, a plateia não quis se pôr à caminho, não desejou retornar para a dimensão cotidiana da vida. Como os aplausos não cessaram, houve um segundo bis, este provavemente imprevisto — da dimensão e do tamanho de nosso desvio, durante nossa viagem. Ali se fez uma música que não pedia que se suprimisse o cansaço. Ela sinalizava apenas o desejo de haver um lugar onde seja possível estar cansado. Música indescritível, sonora e visualmente. Mesmo eu, que a testemunhei, por vezes não acredito no efêmero existir daquela massa sonora. Massa sonora que se perpetuava, neutra, na dimensão da ausência. Os músicos deixavam seus instrumentos ainda soando no palco, quase como por mágica. Ligavam algum aparato, se despediam da plateia e iam embora. Por fim, o último músico deixou seu instrumento soando, circulou pelo palco vazio, mas ressoando ainda, até se aproximar da chave que, desligada, inaugurou o silêncio. Luzes se apagaram. A plateia, enlouquecida, aplaudia o silêncio e a ausência.

Não nos restou outra opção a não ser celebrarmos tudo quanto testemunhamos e nos colocarmos no caminho de volta, junto com os sons que trazíamos. Gratos à vida por morarmos em nós…

Anúncios

Read Full Post »

Q u a n d o   d e   m i n h a   v i a g e m   a   C a b o   F r i o

Cabo Frio de minhas adolescências permanece a mesma, não obstante as marcas da passagem do tempo. Há quanto tempo não pisava naquela plaga! E, principalmente, há quanto tempo eu não a sentia.

Cabo Frio de minhas certezas idas permanece lá. O tempo passou menos no rosto de um antigo professor do que naquela escola, cujas obras mudaram-lhe um pouco o aspecto e a disposição das coisas. Mais ainda atuou o tempo no rosto de minhas certezas e de meus projetos. Haverá rugas e cãs precoces dentro de mim?

Ainda no terminal rodoviário, esperando quem me haveria de buscar, contemplei o céu. Senti-o, como quem abre uma gaveta cheia de pó, que guarda uma fotografia bela, velha e empoeirada do que fomos.

Nas pouco mais de três horas que estive naquela cidade (não conto o tempo que passei no ônibus, pois quem está na estrada saiu e ainda não chegou, é apenas fluxo de espectativa), senti que ali estavam os meus mais profundos laços telúricos. Há um pouco daquela gente, daquele céu, daquelas ruas e daquelas águas espalhadas em mim. E, principalmente, acho que há algo que eu perdi em mim que talvez esteja lá, espalhado naquelas águas, naquelas ruas, naquele céu e naquela gente, sobretudo nos muitos amigos que não vi, na exigüidade daquelas poucas horas.

Acho que vi um pouco do meu rosto refletido no espelho daquela cidade…

Read Full Post »

É verdade que a nossa família sempre foi meio hippie. É verdade também que me aproprio (aliás, nos apropriamos) um tanto inadequadamente da palavra “luau”, que, segundo registra o Aurélio, é:

1. Festa havaiana com comidas e danças típicas.
2. P. ext. Festa em praia, inspirada no luau (1), com comidas, bebidas, música, e, às vezes, dança.

Não fomos ao Havaí passar o Natal, nem o passamos na praia. Acho que sequer havia lua neste Natal, o céu coberto de nuvens… Mas nos inspiramos no clima de um luau para montarmos a nossa ceia natalina, que foi também ceia de aniversário da Betinha, minha irmã.

Quase tudo de interessante que inventamos provém do enfrentamento das diversidades. Nosso luau não foi diferente. Aqui em nossa nova casa ainda não temos mesa (há somente uma escrivaninha em meu quarto, que é minha mesa de estudos). Fazer a ceia na escrivaninha não era uma idéia lá muito atraente, em primeiro lugar porque ela não é muito espaçosa e, depois, porque ela não poderia acolher-nos como faria uma mesa real, possuía apenas lugar para uma pessoa que teria de disputar um mísero espaço com as comidas (talvez com a farofa, ou com outro gênero qualquer).

Minha mãe inventou então (toda boa influência hippie em nossa família é responsabilidade dela) de colocar uma bela toalhinha vermelha no chão e fazer a ceia ali mesmo. Aí teria música, depois eu tocaria violão — como de fato se deu — e tudo o mais que uma tradicional ceia de Natal tem de ter (com direito a vinho e aquele negócio negro e gasoso: Coca-cola).

Foi uma ceia aconchegante e diferente, esta que passamos juntos. Há muito os Natais não eram passados nós três, em nossa casa, com a nossa ceia preparada pelas nossas próprias mãos e executadas ao nosso modo e tempo próprios. Tivemos outros belos Natais (sempre com um aniversário da Betinha servindo de prolegômenos) passados com toda família em Cabo Frio, em casa de meus avós maternos, ou em Belo Horizonte, junto aos meus avós paternos — este último acabava tendo um pouco mais cara de nosso, é verdade! Mas desta vez o fomos só nós três — busco na memória e julgo que nunca havíamos passado somente nós três um Natal.

Longe de nos entediarmos, como nos divertimos! Como apertamos os nossos laços — porque é preciso descobrir a especificidade de cada laço que nos liga a cada membro da família. Tiramos tantas fotos (que mais tem cara de fotos de aniversário do que de Natal). Desta vez, inclusive, acho que a comemoração natalina foi um epílogo ao aniversário da Beta e, pelas fotos (que, infelizmente, ainda não pude colocar aqui), ver-se-á que se tratou verdadeiramente de uma Betamania!

Read Full Post »

%d blogueiros gostam disto: