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Posts Tagged ‘Beatriz Pagliarini Bagagli’

Neste dia 29 de janeiro, quero me juntar a vozes quotidianamente caladas que pedem ouvidos que ouçam. Vozes de pessoas que passam invisíveis por nós, sem que tenhamos olhos de vê-las. Gostaria que este texto conseguisse propagar, por transdução, esse grito contido — levando adiante a força e a emissão dessas vozes sem alterá-las.

Hoje, celebra-se o Dia da Visibilidade Trans*, data que alude ao lançamento da primeira campanha contra a transfobia no país. Aproximei-me das pautas de pessoas trangêneras ao começar a pesquisar sobre o tema, por causa de um projeto literário. Mas conhecer as questões ligadas às chamadas identidades trans* é — que bom! — um caminho sem retorno. Em primeiro lugar, por ser impossível a indiferença ao conhecermos a urgência de suas pautas e a negação sistemática (ou, melhor dizendo, “cistemática”) de quase todos os aspectos ligados à sua cidadania. Em segundo lugar, por tornar-se impossível aceitar como natureza os diversos elementos que engendram nossa identidade e nosso ser no mundo.

No propósito de me unir às vozes e às pautas trans*, esbarrei numa questão: em que poderia eu, um homem cisgênero, casado com uma mulher também cisgênera, contribuir com a questão? E, sobretudo, o que poderia eu falar da condição transgênera? Temendo cair em abismos, pensei que talvez o melhor que eu poderia fazer seria falar sobre a cisgeneridade, que é o meu lugar de fala no mundo, e sobre o meu espanto ao descobrir que existe um desconforto de pessoas cis em serem identificadas como cisgêneras.

Até há bem pouco tempo, eu não me sabia um homem cisgênero. Como a maior parte das pessoas cis, eu simplesmente ignorava esse termo. Isso equivale a dizer que, aos meus olhos, a minha identidade era experimentada como uma espécie de natureza. Isso não quer, no entanto, dizer que eu ignorasse que houvesse homens e mulheres trans*.

Para mim, reconhecer a cisgeneridade é um ato político. É compreender, em primeiro lugar, que eu ocupo um lugar específico no mundo, que tenho privilégios específicos por conta disso e que é a partir desse lugar discursivo que meu olhar se conforma. É, ainda, não aceitar como uma natureza a construção de minha identidade. E é, também, reconhecer minha liberdade para me determinar perante o mundo.

Eu sou alguém a quem todos sempre identificaram como pertencente ao gênero masculino e me identifico dessa forma. Mas, ao reconhecer que isso é uma construção, ganho ferramentas para questionar certos papéis que me são atribuídos pelo simples fato de eu ser homem cisgênero e heterossexual. Papéis esses que fazem com que alguns direitos que tenho, e que deveriam ser comuns a toda e qualquer pessoa, sejam, na verdade, privilégios.

Para mulheres ligadas às pautas feministas, esses questionamentos não são uma novidade, uma vez que o feminismo também questiona a suposta natureza feminina e os papéis de gênero designados a homens e mulheres. Essa, inclusive, não é uma discussão nova no feminismo. Logo no início de “O Segundo Sexo”, Simone de Beauvoir já aborda questão:

“Se a função de fêmea não basta para definir a mulher, se nos recusamos também a explicá-la pelo “eterno feminino” e se, no entanto, admitimos, ainda que provisoriamente, que há mulheres na terra, teremos que formular a pergunta: o que é uma mulher?”

O mesmo também me parece valer para o movimento gay. A homossexualidade já foi considerada um crime e isso se refletia na linguagem. O mundo que via a prática homossexual como delito costumava se referir a ela pelo termo pederastia. Como homossexualismo, figurou na Classificação Internacional de Doenças (CID) da Organização Mundial de Saúde, sob o número 320.0, até 1990, ou seja, até há muito pouco tempo. E o desejo por alguém do mesmo gênero não seria um comportamento esperado, pelos papéis heteronormativos destinados a homens e mulheres. Contra a naturalização da heteronormatividade se insurge o movimento gay.

É neste ponto que o meu espanto pela oposição ao termo cisgênero se dá. Existe um discurso dominante transfóbico que desconsidera a existência de homens e mulheres trans*. Essa lógica, espalhada e naturalizada pelo senso comum, considera que homens trans* seriam falsos homens, assim como mulheres trans* seriam falsas mulheres. Esse tipo de pensamento está impregnado na fala quotidiana. Mas também, de forma mais sutil, está presente no discurso médico cissexista, que designa como doente mental ou transtornada a pessoa que apresenta uma identidade transgênera — ou seja, uma identidade desconforme com o gênero que lhe foi atribuído ao nascer.

Vejo o uso do termo cisgênero, que teve início no interior da comunidade trans*, como um fenômeno linguístico que abre a possibilidade de contestação da normatividade cisgênera — ou cisnormatividade. E os diversos modos de tentar silenciar esse uso contribuem para a oposição de pessoas transgêneras a pessoas normais. Por isso, não consigo entender que pessoas cisgêneras, aparentemente inseridas em lutas a favor de grupos oprimidos, recusem o termo cisgênero como se ele fosse um absurdo, ou até uma ofensa, sem atentar para as consequências disso. Deslegitimar o termo cisgeneridade é continuar aceitando que existam as pessoas trans* e as… biológicas! Uma outra forma de dizer normais, opondo a suposta “natureza” da pessoa cisgênera a uma espécie de engodo ou artificialidade dos corpos das pessoas trans.

Quando não aceitamos a cisgeneridade, reafirmamos discursivamente que pessoas trans* são anormais, doentes. Ou ainda, lhes negamos mais uma vez o direito à existência. Aliás, existe toda uma construção social que aceita a cisgeneridade (essa coisa sobre a qual não se deve falar!) como uma norma compulsória — ou um “cistema”, como dizem as pessoas ligadas ao movimento trans*. Esse mesmo cistema que aceita como evidência natural a cisgeneridade compulsória designa as identidades trans* como uma doença. Sim, a transexualidade (designada patologicamente como transexualismo) é ainda considerada um transtorno mental e tem um número na atual Classificação Internacional de Doenças (CID-10): F64.0.

Quem argumenta que o termo cisgênero engendra um novo par opositivo (cisgênero/transgênero), construído de forma hierárquica e dicotômica, ou então que não seria possível designar a pessoa cisgênera como aquela que se adéqua às suas expectativas de gênero porque ninguém se encaixa totalmente a elas — como se o termo cisgênero significasse isso — me parece ignorar tanto onde se irrompe a noção de cisgeneridade quanto seu significado usual. Essa noção se movimenta dentro de discursos que consideram fluidas as categorias de gênero e que reconhecem a autodeterminação como um direito humano.

O termo cisgênero simplesmente designa o sujeito que se identifica como pertencente ao gênero que lhe foi designado ao nascer. Ele circuscreve a alteridade para o transgênero. Define o “Outro” e, por oposição, o próprio sujeito que fala. E, o que é mais importante, ele sinaliza que as pessoas trangêneras são sujeitos do discurso sobre si mesmas, e não objetos de análise definidos de fora de suas vivências.

Além disso, diferente do que algumas críticas costumam afirmar, a cisgeneridade não se refere a pessoas que se adequam à expectativa de seu gênero. Até porque o discurso de onde essa palavra emerge compreende o gênero como uma construção. Ele é, portanto, amplo e plural para sujeitos cisgêneros, trangêneros ou não-binários. O que frequentemente ocorre, porém, é que nós nos esquecemos de que nossa identidade nunca é fixa, que se trata sim de uma construção contínua, o que é válido tanto para pessoas cis como para trans*. Mas as pessoas que têm formas de proceder ou identidades esperadas e naturalizadas não são questionadas sobre quando se perceberam ou se tornaram aquilo que são.

Site Transfeminismo.com

Site Transfeminismo.com

Não vejo como é possível conceber e aceitar como naturais a exclusão e a invisibilidade das identidades trans*. E, para mim, o silêncio em torno da cisgeneridade está intimamente ligado a isso. Como aponta a Bia Bagagli num texto intitulado Cisgeneridade e Silêncio, “podemos entender que o silêncio funda a cisgeneridade”. “Esse silêncio”, ela aponta, “se dá ao mesmo tempo em que produz coerências e inteligibilidades às identidades dos sujeitos cisgêneros e interdições à plena identificação de gênero aos sujeitos transgêneros”.

Conhecer minimamente a transfobia generalizada em nossa sociedade me impele à luta pela quebra desse silêncio. Por essa razão, me uno hoje à blogagem coletiva pela visibilidade trans*, convocada pelo site Transfeminismo. Porque reconheço os privilégios advindos de minha posição de homem cisgênero heterossexual e sei da exclusão e da violência diariamente enfrentadas por pessoas transgêneras, julgo que não tenho o direito de lavar as minhas mãos e contribuir com a perpetuação desse silêncio…

Chamada de uma blogagem coletiva pela visibilidade trans*, feita pelo site Transfeminismo.com

Veja a chamada para uma blogagem coletiva pela visibilidade trans*, feita pelo site Transfeminismo.com


Nota: Reconheço aqui minha dívida, durante a escritura deste texto, à leitura ou à releitura de alguns escritos da Bia Pagliarini Bagagli, da Hailey Kaas e da Viviane V., no site Transferminismo.com, e da Leila Dumaresq no blog Transliteração, que abordam o tema da cisgeneridade. Muito obrigado a elas e a tantas outras pessoas que tenho lido ultimamente e que me dão a oportunidade de compreender um pouco melhor sobre as vivências trans*.

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(para Beatriz Pagliarini Bagagli)

Habitar com o corpo
uma falha discursiva
e resistir

mesmo que tudo diga que assim
não pode, não deve
existir.

Manter-se na pólis,
ainda que tacitamente
decretos de exílio

estejam publicados
na boca do povo,
na voz de um deus.

Lutar contra o controle
da singularidade dos sujeitos
sujeitando corpos – indóceis? –  a padrões

e domando a política dos quereres.
Permanecer atento para escutar
o que costura as bordas do Fora.

Opor-se ao arbítrio de normas,
interdições e regramentos
que não digam respeito às margens
de convívio com os outros.
Estar no Outro,

no diverso e no estranho.
Ser o provisório
universo do desejo,
o verso vermelho de carne
que sangra palavras.

Apropriar-se de si.

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Publicado originalmente no Transfeminismo.com.

Quem acompanha o blog já deve ter percebido como a questão da linguagem para nós não é secundária. Desnaturalizar a transfobia significa questionar certos efeitos de sentidos que tomamos como evidência: sobre homens, mulheres e “os trans”. E toda vez que questionamos certos sentidos já dados sobre essas categorias (ou poderia dizer, identidades) a questão da língua entra inevitavelmente. E isso não significa que estamos falando sobre algum sentido sobre as palavras que estaria escondido que seria em última instância verdadeiro, e que a língua portanto seria uma abstração virtual que comportaria esse sentido unívoco para a prática política. Ao contrário, a política se dá na exata medida em que a língua é capaz de falhas. O que significa também entender que a prática política – assim como o discurso – é um processo sem começo nem fim pré-determinados.

Decidi que seria interessante publicar dois comentários que Teofilo Tostes Daniel fez em uma publicação pública no facebook de Daniela Andrade em uma discussão sobre a imagem da página Era de Cisperar. Apaguei algumas marcas de interlocução (os seus nomes) no texto a quem Teofilo estava se dirigindo, já que ele estava dialogando com outras pessoas no post. Mesmo assim, como podem ver, trata-se de um texto que merecia ser publicado para além dos efêmeros comentários do facebook.

Bia Pagliarini Bagagli

***

Retirado da página "Era de Cisperar"

Retirado da página “Era de Cisperar”

Minha leitura dessa imagem não me remete a possíveis erros, que certamente ocorrem, causados por desconhecimento — embora a língua não seja neutra e ela também guarda, em sua estrutura, os preconceitos da sociedade (basta lembrar que palavras como ídolo e gênio não têm feminino, e que, ao nos referirmos a um coletivo com pessoas variadas, utilizamos sempre marcas linguísticas no masculino). Eu sou uma pessoa cisgênera. Mesmo não estando no lugar de quem pode falar com alguma autoridade — pois não tenho a vivência transgênera, ou entre-gêneros –, vejo muitos estudos acadêmicos, supostamente sérios, reproduzindo… a ignorância.

Vale lembrar que as pessoas transgêneras sofrem de uma permanente invisibilidade em relação a vários aspectos da vida quotidiana. Aspectos que a nós, cisgêneros, parecem ‘normais’, como o fato de ninguém estranhar que meu nome na identidade difere da imagem que eu tenho e passo às pessoas no convívio social. Aliás, para ser o que sou não preciso de um atestado médico falando… que eu tenho um transtorno psiquiátrico!

E no caso da figura, há um agravante: a exclusão de pessoas trans* do espectro de homens e mulheres. Homens trans* são homens e mulheres trans* são mulheres. Parece tautológico ter de repetir isso, mas no atual estado de coisas, não é ainda. Claro, há também pessoas não-binárias. Mas trans* não são, necessariamente, uma categoria, ou um outro gênero, fora do gênero masculino ou feminino. Agora, se alguém “foi lá falar sobre gênero” — e eu leio esse lá da figura como o lugar do “legítimo” saber, do poder de dizer da taxonomia do mundo, lugar esse que comumente é ocupado por pessoas cisgêneras –, talvez fosse de “cisperar” que essa pessoa ao menos não reproduzisse o preconceito do senso-comum.

Além disso, a língua é uma construção, ela não muda por decreto. Muitas vezes alternativas irrompem para responder a um silêncio, a uma não-nomeação de algo que demanda um nome. Por exemplo, o termo cisgênero. Eu aprendi pela linguagem que tinha à época — cresci nos anos oitenta — que a oposição às pessoas transgêneras — que eu basicamente identificava como travestis — eram as pessoas… normais. Particularmente, eu não achava as travestis anormais. Mas minha estrutura de pensamento não dispunha senão do repertório linguístico que reproduzia a ideia de que as travestis — e, na verdade, qualquer pessoa transgênera — não era normal. Faltava-me exatamente a palavra cisgênero! Aliás, é sintomático que o corretor ortográfico automático do meu Google Chrome grife como errada a palavra cisgênero e não aponte erro na palavra transgênero. Tocando essa questão, vale muito a leitura desse texto magnífico, que mostra a relação entre o irrompimento da noção de cisgeneridade e a possibilidade (política) de contestação da normatividade cisgênera.

No caso dessa imagem do post: Por que alguém que vai falar sobre gênero não poderia dizer, por exemplo, “os homens, as mulheres e as pessoas não-binárias”? Simples, direto, inclusivo e, me parece, mais respeitoso com o estar-sendo de cada um.

Longe de mim dizer o que é certo e errado, sobretudo no campo da linguagem. Em especial no que deve ser ou não dito para se referir a pessoas trangêneras, tendo em vista que eu sou uma pessoa cisgênera e o que me cabe nesse campo, se eu quiser respeitar as pessoas trans* — e minha opção é sempre pelo respeito –, é estar atento a como as pessoas pedem que eu me refira a elas.

Vamos voltar um pouco no tempo, num tempo em que eu não era sequer nascido. No tempo dos meus avós, quando era comum pais esconderem em casa filhos deficientes — sobretudo com deficiência mental ou graves problemas físicos. Nesse tempo, era “aceitável” se referir a deficientes físicos como aleijados, coxos, mancos, aleijões, etc. E a deficientes mentais como retardados, mongóis, débeis, entre outras coisas.

Eu sou deficiente físico. Como cresci nos anos oitenta, só se referiam a mim como aleijado quando queriam me xingar — e há crueldade também entre as crianças. No entanto, não era sequer aceitável que numa conversa educada, alguém falasse de mim como “aquele aleijado”, ou “aquele coxo”. Mas nesse tempo, ainda não era tão incomum as pessoas se referirem, em conversas normais, a um deficiente mental como “mongol”, “débil” e até “retardado”. Hoje isso não é aceitável, e o comum é falar que alguém tem “deficiência mental”, ou designando pelo tipo de deficiência, como “down”, etc. Lendo o livro Holocausto Brasileiro, que conta a história do manicômio de Barbacena, o maior hospício do país no Século XX, onde mais de 60 mil internos morreram das formas mais horríveis — frio, fome, choque, etc. — é possível intuir sobre o porquê esse estigma perdurou mais.

Coincidentemente, com a mudança no uso quotidiano das palavras, vemos o crescimento da preocupação com a acessibilidade e com a educação inclusiva. E mesmo que estejamos muito longe de estarmos num mundo acessível, é nítido que as pessoas se constrangem quando se defrontam com a inacessibilidade dentro de seus próprios espaços — lojas, supermercados, etc.

Agora vamos pensar na forma de nos referirmos à homossexualidade. Esse paralelo que traço é para pensar grupos que sofrem com estigmas. Nos anos 80, era bem comum dizer que fulano era bicha, por exemplo. E também gay — que é uma palavra aceita, leve e que não tem um sentido de xingamento. Lésbicas eram invisíveis — conheci pessoas que sustentavam seriamente que não existiam lésbicas, e era só um “homem de verdade” chegar nelas, que elas “cederiam”.

Em contrapartida, a dicotomia não era entre os gays/bichas e os héteros, mas entre os gays e os normais. Lembro que em meados dos anos 90 é que os termos homo e heterossexuais passaram a ser mais usados. A primeira vez que eu ouvi o termo homofobia, por exemplo, deve ter sido lá para 96 e 97 — não estou falando do seu surgimento, claro, que eu nem sequer sei como foi. E é claro que, sendo hétero, provavelmente eu deva ter conhecido esse termo depois dos meus amigos gays.

Obviamente, ainda existe muito preconceito contra os homossexuais, que só recentemente vêm tendo alguma paridade (ainda precária) de direitos, em suas uniões, com relação às uniões heterossexuais. Mas é de se notar que a popularização dos termos hétero e homossexuais se deu de forma mais ou menos concomitante com o crescimento do movimento que ainda em meados dos anos 2000 eu conhecia como GLS, que não só lutou contra a homofobia, mas também pela conquista de uma série de direitos negados. Essa popularização levou, inclusive, a setores mais conservadores da sociedade a inventarem a bizarrice do “orgulho hétero”, algo que seria impensável nos anos 80 porque os gays, na fala popular, não estavam em dicotomia com os héteros, mas com os “normais”.

Adentrando agora ao campo da transgeneridade — ou da cisgeneridade compulsória, sempre invisível e condenando pessoas transgêneras a serem opostas conceitualmente às pessoas “normais”: Além de a conquista de direitos estar ainda engatinhando — e não existir uma lei que permita e simplifique a mudança de nome é um índice do quanto os direitos básicos são negados a essa parcela da população –, as referências desrespeitosas às pessoas transgêneras ainda são socialmente aceitas. Não raro se fala “as travas”, “os travecos”, “as/os trans”, “o transexual” (quando se trata de uma mulher trans), etc.

E sobre a questão que a Daniela levantou, de que ela não é uma trans, isso faz muito sentido. A Daniela realmente não é uma trans, mas sim uma mulher. Uma mulher trans. Quando alguém se refere a ela como uma trans, há o apagamento do fato de ela ser uma mulher e, eu arriscaria até, o apagamento de que ela é uma pessoa. Metonimicamente, ela se torna apenas algo que a caracteriza, que a constitui. Deixa de ser um todo e se torna uma parte. E, “coincidentemente”, a parte considerada pela sociedade como “abjeta”. Em contraposição, eu jamais serei o cis — e nem qualquer mulher cisgênera será a cis. Quem se referir a mim, falará “daquele homem”. Sim, é verdade que há uma elipse quando nos referimos a alguém como “a trans”, mas existe uma construção social que leva a essa elipse que reforça preconceitos. E eu arriscaria dizer, mesmo sendo uma pessoa cis e não tendo a vivência da experiência transgênera, que essa elipse tende a significar o apagamento ou a desumanização da pessoa trans. A elipse de seu ser no mundo.

E os exemplos que ela usa são ótimos. Alguém fala que “a cis foi à praia”? É tão nonsense, que não dá sequer para imaginar isso. No entanto, com mulheres trans, isso deveria ser aceitável? Por quê? Aliás, a maior parte das pessoas cisgêneras nem sabem o que isso significa. E há também quem, sabendo o que é, se recusa a aceitar essa categorização, como se ela fosse um absurdo, ou até uma ofensa. Afinal, haveria, por exemplo, as mulheres trans e as… biológicas? Uma nova forma de dizer normais, opondo a suposta “natureza” da pessoa cisgênera a uma espécie de engodo ou artificialidade dos corpos das pessoas trans? Isso não se parece, inclusive, com um discurso religioso fundamentalista?

Bom, eu acho que não dá para ignorar o poder das palavras e da nominação do mundo. Poder dizer o que as coisas são é uma forma de poder. Por isso, existem disputas de nomenclaturas. Existe o esforço de precisão ou rejeição de termos. Não fossem as palavras tão importantes, no distópico 1984 George Orwell não conceberia um mundo capaz de criar a novilíngua — e muito menos pensar no que politicamente isso significa. Essa minha visão, porém, pode ser um defeito do olhar de quem trabalha com palavras…

Transfeminismo

Quem acompanha o blog já deve ter percebido como a questão da linguagem para nós não é secundária. Desnaturalizar a transfobia significa questionar certos efeitos de sentidos que tomamos como evidência: sobre homens, mulheres e “os trans”. E toda vez que questionamos certos sentidos já dados sobre essas categorias (ou poderia dizer, identidades) a questão da língua entra inevitavelmente. E isso não significa que estamos falando sobre algum sentido sobre as palavras que estaria escondido que seria em última instância verdadeiro, e que a língua portanto seria uma abstração virtual que comportaria esse sentido unívoco para a prática política. Ao contrário, a política se dá na exata medida em que a língua é capaz de falhas. O que significa também entender que a prática política – assim como o discurso – é um processo sem começo nem fim pré-determinados.

Decidi que seria interessante publicar dois comentários que Teofilo Tostes Daniel…

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