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Posts Tagged ‘Amor’

Algumas notas sobre o texto anterior

“Consta nos astros, nos signos, nos búzios
Eu li num anúncio, eu vi no espelho, tá lá no evangelho, garantem os orixás
Serás o meu amor, serás a minha paz
Consta nos autos, nas bulas, nos dogmas
Eu fiz uma tese, eu li num tratado, está computado nos dados oficiais
Serás o meu amor, serás a minha paz
Mas se a ciência provar o contrário, e se o calendário nos contrariar
Mas se o destino insistir em nos separar
Danem-se os astros, os autos, os signos, os dogmas
Os búzios, as bulas, anúncios, tratados, ciganas, projetos
Profetas, sinopses, espelhos, conselhos
Se dane o evangelho e todos os orixás
Serás o meu amor, serás, amor, a minha paz
Consta na pauta, no Karma, na carne, passou na novela
Está no seguro, pixaram no muro, mandei fazer um cartaz
Serás o meu amor, serás a minha paz”
(Dueto — Chico Buarque de Hollanda)

(para quem sabe que este texto foi feito para si)
 

Uma pessoa a quem muito admiro, entre outras coisas por sua prodigiosa inteligência, me chamou a atenção para algumas falhas do meu texto anterior, aqui publicado no dia 03 de setembro. Nossa conversa sobre o meu texto anterior me deu azo de escrever este. Devo-lhe, se não lhe atribuir a co-autoria deste texto (até porque pode ser que o presente texto seja bem mais limitado do que suas capacidades e visões), pelo menos agradecer-lhe os argumentos, que são, em grade parte, desta pessoa.

A primeira falha do meu texto, que também foi apontada em um comentário pela minha amiga Mari Pepper, diz respeito à classificação do músculo cardíaco. Vão me perdoar os eventuais leitores de meu texto pela minha ignorância (que até pode ser justificada pelo fato de eu não ter estudado mais biologia desde 1998, há oito anos, portanto). Então, aproveito o ensejo para explicar que há dois tipos de músculos estriados. Os chamados músculos estriados esqueléticos (que são aqueles que envolvem nossa estrutura óssea e conferem movimento ao nosso corpo), cujas contrações são voluntárias, e o músculo estriado cardíaco, diferente do primeiro grupo, e cujas contrações são involuntárias. Portanto, mais do que uma exceção, o músculo cardíaco é um outro tipo de músculo, dentro do que seria uma classificação muscular geral (há também os músculos lisos, mas minha ignorância e meu esquecimento vão me fazer encerrar esta questão da classificação dos músculos aqui, questão esta que pode ser encontrada num bom livro — atualizado — de biologia ou de anatomia).

A segunda falha apontada em meu texto (que considero polêmica, não sei se pela minha ignorância ou por eu ser um nefelibata que vive no mundo das quimeras), diz respeito a uma afirmação sobre a natureza dos sentimentos (estou ainda no campo das falhas biológicas). Eu afirmo, quando comparo os sentimentos ao coração, que os sentimentos são involuntários, como as batidas deste músculo estriado cardíaco que nossa sociedade vê metaforicamente como a sede dos sentimentos. Segundo apurou esta querida pessoa que me apontou as falhas e me deu os argumentos para este texto, isso não pode ser afirmado, pois, biologicamente, os sentimentos são cerebrais, ou seja, são ligados a áreas do nosso cérebro, e tudo quanto é cerebral é voluntário. Não tenho conhecimento suficiente para contradizer esta informação, obtida com alguém que entende do assunto, mas mesmo assim ela me parece um tanto controversa. Se tudo quanto é cerebral é voluntário (e os sentimentos seriam voluntários porque são cerebrais), como explicar que, diante de uma situação de medo, o cérebro, malgrado nossa vontade, mande despejar adrenalina em nossa corrente sangüínea? Não me parece que tenhamos controle sobre isso, que é cerebral. Também é cerebral a sensação de saciedade que sentimos, após o cérebro ser informado de que já comemos. Se isso pudesse ser controlado pela vontade, fazer dieta seria muito fácil, bastando que a vontade mandasse o cérebro liberar as substâncias que costumeiramente causam saciedade depois de um farto almoço logo após se comer duas folhas de alface… Mas, como já disse, não tenho conhecimentos suficientes que possam me dar embasamento para discordar peremptoriamente de que os sentimentos, por serem cerebrais, são voluntários (o que significa que são coisas que podemos acionar de acordo com nossa vontade, como os músculos estriados esqueléticos). Estas são apenas questões que me surgiram e que me fazem ver com alguma descrença esta segunda informação.

A terceira falha, no meu entender a mais séria e que demandou uma grande sagacidade da pessoa que ma apontou — pessoa que, volto a dizê-lo, admiro demais, entre outras coisas por sua refinada inteligência –, é uma falha para a qual não tenho escusas, haja vista ser uma falha argumentativa. No meu texto anterior habita uma contradição que faz com que se perca todo o embasamento em que a tese de os sentimentos serem involuntários se sustentava. E essa contradição reside neste trecho: “Afinal somente um músculo involuntário poderia se entender com o que em nós também é tão involuntário quanto ele: o que sentimos. Podemos domar nossos sentimentos. Podemos lutar contra eles e caminhar em direção contrária à que eles nos apontam. Não fosse assim, seria impossível calar quando a vontade é de brigar, seria impossível manter-se longe de algo ou alguém de quem temos o desejo de estar perto. Lutamos e vencemos, todos os dias, pequenos ou grandes sentimentos. Mas não deixamos de senti-los.” Ora bolas, se os sentimentos são involuntários, como eu sustento durante todo o texto, como eles podem ser domados? Como podem se submeter à nossa vontade?

Ante esta contradição, indesculpável, posto que não se trata de uma ignorância científica mas de uma falha argumentativa, discursiva, lógica, fiquei a inquirir sobre que visão tenho eu, realmente, em relação à natureza dos sentimentos. Analisando meu discurso quase como um psicanalista ao seu paciente, penso que a emergência deste ato falho consiste num sintoma. Mas de quê? Que visões sobre os sentimentos perpassam meu discurso? Comecei a investigar isso, enquanto esboçava na minha mente a estrutura ou o roteiro do presente texto.

Pode-se ter uma visão essencial dos sentimentos, ou seja, considerá-los como entes que têm uma forma (ou essência) que lhes molda uma substância que subsiste aos acidentes. Ou, talvez com maior precisão, enxergar o homem dotado de uma forma (essência ou alma) que lhe conforma a substância para além do acidental. Esta forma, não sendo apenas física, mas também psíquica, determinaria as formas do nosso sentir. Partindo deste princípio (que vulgarmente é conhecido pelo ditado “pau que nasce torto nunca se endireita”), os sentimentos seriam moldados pela forma do nosso ente, sendo os homens bons, maus, apaixonados, indiferentes, irascíveis ou mansos por natureza. Dentro deste pensamento, cada homem traria em si o destino de seu sentir. Falar que os sentimentos que sentimos têm origem nas conjunções astrológicas ou nos insondáveis desígnios dos deuses são variações desta explicação.

Ainda que não sejamos tão rígidos nesta acepção da forma, podemos partir para uma visão em que os homens são dotados de uma espécie de essência maleável (a que se chamaria tendência), contra as quais tentariam lutar. Muitas doutrinas espiritualistas trabalham com essa idéia, ao afirmarem que os sentimentos preexistem à realidade física que os sente. Mesmo doutrinas não reencarnacionistas, como a católica, vêem no pecado original uma tendência humana a cultivar certos sentimentos ou certas paixões negativas, contra os quais se deve firmemente opor a vontade.

Uma variante menos metafísica desta visão seria afirmar que nossos sentimentos estão escritos, não nos astros nem nos desígnios divinos, menos ainda na essência que confere unidade à nossa substância para além dos acidentes, mas em nossas combinações genéticas. Já ouvi, aliás, de um professor que tive, que a genética é a versão contemporânea do destino dos gregos…

O extremo oposto desta visão seria um nominalismo absoluto “à Cazuza”, do tipo “O nosso amor a gente inventa”. Ou seja, dentro do extremo desta visão, os sentimentos são construções da vontade. Esta visão não difere muito da que se esboça quando se afirma que, sendo cerebrais, os sentimentos são voluntários. E se assim for, pode-se perguntar por que grande parte dos homens sofre por causa de sentimentos que poderia manipular ou construir de acordo com sua vontade. Qual a razão de tamanha “burrice sentimental”? Por que tantos se apaixonam pelos que não os querem e não amam aqueles que os amam? Não deve ser pela ação da vontade, provavelmente, ou teríamos uma população gigantesca de masoquistas.

Perdido entre estes dois opostos (meu texto anterior afirma que sentimos malgrado a nossa vontade, mas diz que podemos domar nossos sentimentos), questiono sobre o porquê de eu ver os sentimentos dentro deste paradoxo. Pois é um paradoxo haver algo involuntário que se pode domar. É um paradoxo cerzido nos fios desta contradição. A realidade dos sentimentos é este paradoxo?

Sinto os sentimentos como tendo a mesma gênese lingüística de nossos pensamentos. Razão e emoção apenas subsistem na linguagem e, por isso, são tão humanos, demasiado humanos. Oponho aqui, claro, sentimento e sensação. O sentimento me parece lingüístico, entrecortado por fluxos discursivos. Os gregos que, segundo ouvi de um teólogo, tinham três palavras diferentes para designar o amor (eros, ágape e filia), certamente tinham uma experiência do amor diversa da nossa. Viam-se, possivelmente, tão aturdidos por ele(s) quanto nós, no entanto. Já sensação é física, animal. Mas, se o fato de sentir o sentimento como uma realidade discursiva me parece levar a vê-lo como algo em que se opera a vontade, ao mesmo tempo percebo o que sinto também como involuntário, ou antes, como algo que escapa à minha vontade e ao meu controle. Como explicar, então, esse paradoxo dos sentimentos?

A resposta que tateio é aplicar ao que sentimos a teoria do caos. Afirma esta teoria, num fenômeno conhecido pelo nome “efeito borboleta”, que “o bater de asas de uma simples borboleta poderia influenciar o curso natural das coisas e, assim, talvez provocar um tufão do outro lado do mundo”. Acho que assim como se formam os tufões, quiçá as próprias galáxias, também se formam nossos pensamentos e sentimentos, tão irmanados em sua natureza discursiva. Para a formação do que sentimos, entram em curso tantas e tão inumerosas variáveis, que a nossa vontade, sendo uma delas, muitas vezes se sente impotente para deter-lhe ou determinar-lhe o curso. É muito improvável que consigamos, aliás, saber a influência exata de nossa vontade na intensidade e no sentido desses vetores sentimentais. Por isso sinto que, embora possam algumas vezes se sujeitar à nossa vontade, os sentimentos também lhe escapam noutras tantas, caindo no pantanoso terreno do involuntário. O paradoxo constitutivo dos sentimentos se explica (ou se complica) na teoria do caos.

Mas se a ciência provar o contrário, se o calendário nos contrariar e se o destino insistir em nos separar, danem-se os astros, os autos, os signos, os dogmas, os búzios, as bulas, anúncios, tratados, ciganas, projetos, profetas, sinopses, espelhos, conselhos, se dane o evangelho e todos os orixás… Serás o meu amor, serás, amor, a minha paz.

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“Onde já se viu o mar apaixonado por uma menina?
Quem já conseguiu dominar o amor?
Por que é que o mar não se apaixona por uma lagoa?
Porque a gente nunca sabe de quem vai gostar

Ana e o mar… mar e Ana
Historias que nos contam na cama
Antes da gente dormir

Ana e o mar… mar e Ana
Todo sopro que apaga uma chama
Reacende o que for pra ficar”
(Ana e o Mar — Fernando Anitelli)

Diz-se, se não me falha a memória, que o coração é o único músculo estriado cujo movimento é involuntário. O que significa que ele se contrai malgrado a nossa vontade. Ele pulsa sem que ordenemos e, na maior parte das vezes, sem até mesmo que o sintamos bater, no seu incessante trabalho de sístoles e diástoles.

Inda que eu esteja enganado e haja mais um músculo estriado de movimento involuntário (eu não lembro bem esse detalhe e não conheço anatomia o suficiente para fazer afirmações peremptórias neste sentido), indubitável é que o coração pertence ao rol de exceções do corpo humano. Isso porque os músculos estriados são aqueles cuja contração depende da vontade, da voluntas.

É aí que, ao figurar nesta lista de exceções, sendo um músculo involuntário, quando por suas características era de se esperar o contrário, parece o coração anunciar — com esse fato — sua destinação. Ou antes, anunciar num complexo sistema simbólico a realidade dos sentimentos que nos assaltam.

Pôs o homem simbolicamente no coração a sede dos sentimentos. Afinal somente um músculo involuntário poderia se entender com o que em nós também é tão involuntário quanto ele: o que sentimos. Podemos domar nossos sentimentos. Podemos lutar contra eles e caminhar em direção contrária à que eles nos apontam. Não fosse assim, seria impossível calar quando a vontade é de brigar, seria impossível manter-se longe de algo ou alguém de quem temos o desejo de estar perto. Lutamos e vencemos, todos os dias, pequenos ou grandes sentimentos. Mas não deixamos de senti-los. E, quando são demasiado intensos, às vezes se torna mesmo impossível não caminhar na direção em que nos apontam.

Assim, como no fragmento da música que abre este texto, pergunto: quem já conseguiu dominar o amor? Quem é capaz de dizer ao coração ‘ame’ ou ‘não ame’? O amor não conhece medidas nem conveniências, burla cálculos, inverte números e subverte fórmulas. O amor é a desmedida do humano. É o carro desgovernado em direção ao precipício. É o potro selvagem e indomável correndo em planícies arcaicas. O amor é o que não se define, mas que se conhece muito bem. É o solvente universal das almas.

O senhor de todos os mistérios — o tempo — pode operar transmutações em nosso sentir. Simpatias podem virar indiferença, tristezas podem virar alívio, aparentes incompatibilidades podem se tornar amizades… Dizem até que amor pode virar ódio, embora eu não creia na realidade desta suposição, não a entendo possível. Entendo até que é possível uma paixão se transformar em ódio, mas não o amor, que pode mudar de face, tornar-se fraterno, quando antes era erótico, por exemplo. Até suponho que o amor pode virar um não-amor, mas o ódio e o amor não me parecem semelhantes para se permitirem dissolver um nas fibras do outro. Porém, se sentimentos podem mudar com o tempo, o tempo daquilo que se sente é sempre o presente. Sobretudo em se tratando do amor. Não se ama ou deixa de amar com organogramas, ou por cartas precatórias, tratados, leis, decretos ou medidas provisórias. Não se ama pensando se no futuro o amor continuará. Ele não tem prazo de validade. O amor é válido enquanto durar o estoque. O amor só admite o presente em seu bojo. Em seu estojo, o único átimo que se guarda se chama agora.

Por isso, repetindo as palavras daquela canção de Marisa Monte, afirmo peremptoriamente que meu coração é um músculo involuntário e ele pulsa por você…

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O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.

O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.

O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.

O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.

Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.

O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.

O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.

O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.

O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.

O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.

O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.

(As falas do personagem Joaquim foram extraídas da poesia “Os Três Mal-Amados”, constante do livro “João Cabral de Melo Neto – Obras Completas”, Editora Nova Aguilar S.A. – Rio de Janeiro, 1994, pág.59.)

Porque há dias em que temos tanto a dizer e, ao mesmo tempo, tateamos em busca de palavras que teimam em não ser tão sublimes quanto o que queremos falar, pego emprestado este texto de João Cabral, já que nele há tudo quanto desejo expressar hoje.

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Como não te amar?

Como não te amar, se minha maior liberdade é estar preso em ti, a ti, nas celas e cancelas de teu coração, nas masmorras de tua alma, na tortura insana de teus dentes na minha carne, de teu cheiro no meu corpo, lacerando-me, unhando-me, sugando-me, mordendo-me até que eu morra de amor, num urro alto e sem fim? Como não te amar, se quero ler todos os teus textos: poemas e prosas? Como não te amar, se quero escrever minhas cartas de amor na tua pele, se quero grafar minha caligrafia em teu corpo, se quero marcar-te, indelevelmente, com meu ser? Como não te amar, se quero que sejas a minha rotina? Como não te amar, se é em tuas asas de manteiga que eu sei voar?

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A gente é arrancado de uma porção de coisas e está no mesmo lugar, diz Guimarães Rosa. Tal sentença, a que ele aplica ao personagem Miguilim, contém uma verdade que se verifica não apenas nas grandes tragédias, nas escolhas cruciais da vida, mas nas pequenas saudades e distâncias, nas mais corriqueiras situações.

Há dois dias atrás, aniversariou a mulher de minha vida. E como eu queria estar junto dela, celebrando os seus 26 anos, com a alegria e o maravilhamento pelo simples fato de sua existência, de sua vida pulsante, radiante, cintilante! Mas as contingências não me trouxeram no rastro, na sucessão da existência, esta oportunidade.

Por isso, envio meu abraço, meu beijo e meu melhor sorriso (juntamente com minha melhor roupa) codificada em bits e bytes, que poderão ser decodificados por qualquer computador em que ela estiver. Assim, ela poderá decodificar o meu amor!

Parabéns, minha amada Cynthia!!!

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O amor é fogo…

Parece-me difícil falar do amor que se sente. Como difícil é falar de tudo que é pleno em si, tudo que se traduz translúcido no cerne próprio da vida.

Quando se fala de amor, as palavras parecem arredias, pois não nos é dado aprisionar a riqueza do que sentimos na pobreza de sua expressão. Mesmo amando as palavras, o amor que sentimos parecem fugir à expressão inerente a elas.

O amor, que é tão arredio no reino das palavras, parece, no entanto, deixar-se aprisionar em sorrisos, em arrepios da pele e brilho dos olhos. Um soneto não fala da maciez dos lábios ou dos seios da amada. Apenas insinua; mas a experiência de senti-la, a expressão cuidadosa de nossas mãos ou lábios fruindo dessa lânguida experiência é algo insuperável, em sua eloqüência.

Camões mesmo, na lide para buscar exprimir o que seu peito sentia, luta quartetos e, no último terceto, querendo estar preso por vontade, como já expressara, pergunta “Mas como causar pode seu favor / nos corações humanos amizade, /se tão contrário a si é o mesmo Amor?” É contrário a si porque, por exemplo, buscando a própria saciedade, se dá ao outro, ao coração amado.

Minha humanidade, cheia de contradições, ama. Nos muitos lugares que ocupa, ama. Ama como filho, como irmão, como amigo. E ama como homem, ama com desejo, fervor e sofreguidão. E neste amor que deseja o corpo e a alma do objeto amado, que quer estar a ele preso por vontade, meu coração elegeu o compasso dum outro coração, que na diversidade rítmica do seu bater o enriquece de novas síncopes, novos contratempos, variações novas. A música complexa de nossos peitos forma uma música composta a dois, plena de paixão, desejo e cumplicidade.

Meu coração é de Cynthia… E com ele, nossos corações expressam o amor com a eloqüência que sói faltar nas palavras, porque nossa lavra de expressão é mais profunda.

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(para Cynthia S. Badaró)

Celebrar mais um ano que se inicia parece fornecer algum motivo para festa, embora não se alcance muito freqüentemente a frivolidade deste ato. O ano novo não renova a vida, não modifica ninguém, não tem porque trazer esperanças. Desentendo a alegria (que cada vez me parece mais desespero) que se sente quando os relógios marcam meia-noite. Seria mais fácil se todos rasgassem apenas as folhas dos calendários, sem o exagerado ruído dos fogos, numa festa em que não se festeja nada.

Se a vida continua a mesma, talvez se possa, ou se deva, ou se espere o desenvolvimento de um olhar novo sobre a vida. Quem sabe o homem não possa extrair dela um sentido mais edificante, não pela mudança da própria vida, mas pelo traslado da perspectiva com a qual a observa. Talvez esta lembrança se estenda até a primeira semana do novo janeiro, do novo calendário. Mas o tédio, ou a absoluta desmemoria lançam no olvido todas as promessas, as esperanças e as expectativas (de novo olhar ou até de nova vida) na morosidade de um ano que nasce já velho, já pré-fabricado pelos artífices dos fogos que estouram nas praias e enlouquecem os cães. Nem o vestido branco trouxe mais paz, nem a simpatia mais dinheiro, nem o olhar novo se sustentou para muito além da ressaca.

Embora o homem seja capaz de abstração, seus atos carecem de concretude para ganharem a conformação da existência, a qualidade de fenômeno. A própria filosofia ocidental, exercício de mais de dois mil e quinhentos anos de abstração, só é um fenômeno pela concretude das obras que trouxe ao mundo, pela pena de um Platão, pelas idéias impressas e libertárias de um Espinosa, pelos livros de um Nietzsche, ou de um santo Agostinho, ou as obras tardiamente achadas de um grande sistematizador como Aristóteles. O ano novo não ganha a qualidade de novo fenômeno pela repetição pré-fabricada do mesmo olhar, pelas escolhas que se impõem e tolhem a liberdade de criação e, sobretudo, porque são estéreis nas obras que supostamente deveriam fazer. O olhar novo não é um fenômeno concreto, nem uma esperança, mas uma repetição desta sociedade-standard que quer sempre que o novo se imponha, e faz da novidade uma necessidade velha e desgastada.

Por que, em lugar de buscar o novo no novo ano, tudo de novo, não volvemos os olhos para o que nos cerca e enxergamos a poesia do habitual e do quotidiano, daquilo que sempre está lá como num eterno e terno enleio de aurora? Por que não procurar celebrar o novo elegendo aquilo que gostaríamos de que estivesse mais uma vez e sempre conosco, em ato, palavra ou pensamento? Por que não pensar na mulher amada, não sussurrar ao pé do ouvido dela nosso amor — chama infinita enquanto dura? Por que não ouvir, em lugar da algaraviada dos fogos tão sem sutilezas, o coração da amada enquanto repousa sobre seu colo a cabeça?

Quando se tem a mulher amada ao lado, não se quer o novo. Quer-se o congelamento do instante, quer-se o instantâneo do tempo, quer-se o quebrar dos ponteiros que movem o mundo do passado para o futuro. Em síntese, o que se quer aos braços da amada é a eternidade. Como a eternidade da beleza destes olhos que miram a câmara escura que, por mágica, a flagra tão iluminada. E como não desejar que os olhos da amada não cintilem, que seus lábios não sejam sorrisos e beijos, que sua pele não seja fonte de aromas e relevos gráceis? E como não desejar o amor de Cynthia, o eterno retorno do mesmo amor?

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