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Posts Tagged ‘Amor’

Colorir

Refratar a luz.
Decompor o branco,
extraindo um amplo
espectro de cores.

Reverenciar
o que é cada cor
— sua alteridade.
Por uma esperança,

louvar essa mística
que existe no número
de tons do arco-íris.

E por fim tingir-se,
querendo manchar
o mundo de amor.

The Newton's prism experiment

The Newton’s prism experiment

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(para Fabiana Turci)

Trinta fragmentos
De trinta estrelas
Dançam pelo céu
E o espaço-tempo
Vira um carrossel
(Flash e Sépia – Guinga/Aldir Blanc)

I

Antes da linguagem
já existe a memória
de ser.
Memória feita de névoa
e instintos.

O corpo
é diminuta amplidão,
latifúndio sem fronteiras
com o mundo.

II

Quando a linguagem
desponta na boca,
também se desenham as fronteiras
de si.
Nomear o mundo
é ato de espanto contínuo.

Saber-se
é a primeira lição de alteridade.

III

Brincar com o silêncio
é arriscar-se no abandono.
Desejar a quietude,
mais do que tudo,
ainda que te desejem
ruidosa.

Verter-se
para si mesma.

IV

Nomadismo é lição
aprendida logo
no amanhecer de si,
antes mesmo das primeiras letras.
Talvez para que a memória
tenha algo que escape
à palavra.

Talvez para escrever
no fundo de si
o signo da impermanência.

V

Apoderar-se da permanência
de cada palavra.
Grafar no papel
como quem escreve
na própria pele.

Iniciar um inventário
de todas as suas casas.

VI

Ter sonhos recorrentes,
conferindo antiguidade
ao que se inventa
sem total controle.
No mais, saciar-se
com as desrazões da lógica.

E ainda assim
preferir nomear o inconsciente
de segredo.

VII

Sentir-se responsável
por alguém que nasce.
Tecer com isso
um longo fio de cumplicidade
com a sua matriarca.

Depois inventar jogos
para continuar na infância
das coisas.

VIII

Testemunhar a cisão
inevitável
de sua casa.
Ruir e se refazer.

Caminhar na direção
do fora.

IX

Não apenas mudar,
mas desejar a alteridade.
Encontrar meios e razões,
inda que com parcos recursos,
para cambiar rumos.

Engendrar os fundamentos
das próprias forças
e da recusa à crueldade.

X

Compreender que a distância
às vezes é um artifício
necessário.
Cortar laços.

Erigir muros
contra aquilo que dói.

XI

Adolescer e se apoderar
de novas dimensões
do corpo.
Sentir intimamente
as urgências.

Às vezes, confundir
dor com intensidade.

XII

Mergulhar em sonhos
olímpicos e na poesia.
Comungar com a natureza
dos peixes e dos seres
aquáticos.

Competir consigo
e vencer-se.

XIII

Alegrar-se em percorrer ruas
como se suas fossem.
Inventar para si um lugar
e desejar ardentemente
uma página em branco.

Escutar o silêncio
como um preparo para receber
o outro.

XIV

Compreender que a palavra
é um poder.
Apoderar-se de todo
papel em branco.

Constatar que o verbo
se faz constantemente
carne.

XV

Compreender que a justiça
é um poder corruptível.
Jamais assinar nenhum
papel em branco.

Desconfiar de todo verbo
que pretenda ser
carne.

XVI

Compreender que o pensamento
é um poder insubjugável.
Apoderar-se de si
como de um papel em branco.

Constatar-se verbo
que faz ebuliente
a carne.

XVII

Percorrer uma vereda
para se libertar da herança
que pesa e imobiliza.
Matar simbolicamente
os pais.

Depois disso, mudar-se
para uma ilha.

XVIII

Em desterro, tornar
todas as ruas percorríveis.
Inventar caminhos
para se perder
sem necessidade de chegar.

Abrir-se ao encontro
e desejá-lo.

XXIX

Insistir em passos
que não são seus.
Ainda assim,
desconstruir ainda mais a herança,
por dentro.

A experiência também pode
ser uma forma de se afastar.

XX

Insistir em passos
que não são seus
é insustentável.
É hora de tornar-se
aquilo que se está sendo.

Escolher-se, mesmo que distante
dos sonhos alheios.

XXI

Assumir o descompasso
entre o desejo que se herda
e aquele que brota.
Assumir que se quer
o que não tem utilidade direta
no mundo.

Regressar, ciente
de que nunca se volta ao mesmo ponto.

XXII

Descobrir a solidão
como fundamento
da incomunicabilidade.
Aproximar-se
do futuro.

Encontrar-se naquilo
que ainda será.

XXIII

Foi neste ponto que te conheci,
dividindo poesias
e manhãs de sábado.
Neste tempo eu não te queria,
e a exaustão e o cansaço
de minhas escusas
te fizeram dizer adeus
no auge do outono.

Mas deixaste sinalizada a abertura
de tua casa e teu corpo.

XXIV

Ainda querias me contar
das belezas que viste no mundo
e por isso me escreveste.
Disseste ver, em minha imagem que guardavas,
uma felicidade possível.

A partir de então, compartimos
nosso tempo, nossas palavras
e outros desobjetos.

XXV

Como importa mais o corpo,
minhas recusas sinalizavam
nova exaustão tua.
Não sei se o desejo do encontro
sobreviveria a outro adeus,
mas neste ponto
talvez eu já não me soubesse
sem ti.

Essa é a parte dizível,
mas nunca completamente explicável,
da brotação do meu amor
por ti.

XXVI

Quando desejamos que o encontro
e os despudores de nossas urgências
fosse a própria vida,
foi preciso inventar um lugar
para chamar de nossa casa.
Designar como Nossa Biblioteca
o lugar em que o que era meu
e o que não era
se misturou, primeiro no chão,
depois nas estantes.

Nomear como nossa vida
ao existir.

XXVII

Houve um tempo
em que mandamos imprimir
as histórias que nos cercavam.
Fizemos o filme
das nossas histórias íntimas
de leitura.

Povoamos nossa casa de amigos,
de sonhos nossos
e alguns importados.

XXVIII

Houve um tempo outro,
e tão contínuo,
em que precisei te procurar ao meu lado,
para te saber.
Eu te reconhecia a mesma
e, ao mesmo tempo,
te desconhecia.

Ainda assim, segui amando
teu mínimo eu
que permanecia.

XXIX

Venceste a desesperança,
o sentir caótico, o perder-se
de si,
o cigarro, as cruezas dissimuladas
e aquilo que não cabe
num nome.
Abandonaste sonhos velhos
que não mais resplandeciam
e jaziam como um peso morto.

Fizeste ressonar a tua
orquestra de papel.

XXX

Amo cada um dos trinta anos
que conformaram teu rosto
e teu existir.
Desejo viver ao teu lado,
ao menos, os próximos trinta,
povoar o mundo com os sonhos
que tivermos e inventarmos,
e fartar nossa casa de corpóreas
venturas.

Ensaio uma síntese
das trinta razões para eu te amar.

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É urgente espalhar amor

Para calar canhões e metralhadoras,
conter a mão brutal
no momento de desferir o golpe;
para combater a cultura de pólvora e chumbo
que assola os quatro cantos do mundo,
opor-se a cada guerra
e a cada assassinato;
para impedir que o cinza dos asfaltos
continue a ser tingido
pelo sangue de culpados e inocentes

é urgente espalhar amor
com a sofreguidão de todas as sedes.

Porque são tempos miseráveis
aqueles em que o amor
é motivo de escândalo e perplexidade,
e o ódio,
aplaudido de pé,
se alastra como uma praga
na boca e nas mãos de tantos,
e na morte e no massacre
de quem ousa ser,
mesmo que involuntariamente,

o Outro.

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Na entranha da terra,
um raio de amor
por tudo se alastra.
Eu já posso ouvir
a sacra quentura
do fecundo chão

enchendo horizontes
de vivos tons verdes.
Vencendo o impossível
dos tempos cinzentos,
das eras sem luz,
o corpo floresce.

Por isso, os mistérios
de cada equinócio
foram celebrados
desde que a linguagem
fez sua morada
nas bocas humanas.

No ventre vermelho
de Gaia se gestam
as cores, as flores
que existem, resistem
e insistem tomar
seu quinhão de mundo.

E desta coragem
viva na semente
de tudo que somos,
ficamos sabendo:
a revolução
é na primavera.

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(para Fabiana Turci)

Foi assim:
a aspereza de abismos,
a maciez de rochas,
fervuras e geleiras
me ofertaram
o repertório poético da concretude,
ensinando a carne de minhas mãos
a te tocar.

Os cheiros de campos e asfaltos,
rosas e dejetos,
campas e corpos
adestraram-me
para os teus aromas.

Ervas, manjares e manás,
todas as fomes
e todos os banquetes
me permitiram sorver
a tua inteireza.

Meus absurdos azuis,
teus vermelhos participantes da ideia mesma,
as convulsões amarelas de Van Gogh,
as sombras de Caravaggio e os delírios de Bosch
prepararam-me para as tuas paisagens.

Timbres pungentes, vozes tangentes,
acordes perfeitos, trítonos, dissonâncias,
escalas e escolas,
melodias insuspeitas, ritmos insustentáveis
e o ruído branco
me ensinaram a ouvir
os teus silêncios…
Foi assim.

Detalhes de 'O Jardim das Delícias', de Hieronymus Bosch.

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Ao menos setecentos anos de tradição poética apontam que no domingo passado cheguei ao meio do caminho. Está lá, nos primeiros versos de A Divina Comédia: “Nel mezzo del cammin di nostra vita / mi retrovai per una selva oscura, / ché la diritta via era smarita.” O meio do caminho era a idade de 35 anos, que seria uma antiga metáfora para a meia idade, considerando uma vida potencial de 70.

Sendo o primeiro verso uma antiga metáfora, aos setecentos anos de tradição do poema de Dante se adicionam ainda os anos que dão antiguidade a ela. Como não tenho fôlego para retroceder tanto e encontrar salmos ou profetas que confirmem o arcaísmo dessa ideia, contento-me com a abertura da comédia dantesca. E aceito a noção nela encerrada de que chego ao ápice do arco da vida. Noção desconcertante, pois esse ápice é simplesmente minha vida toda, até aqui.

“Nel mezzo del cammin”, olho para os dois sentidos dessa estrada incerta. E dou graças pela metade que já pude viver. “Gracias a la vida, que me ha dado tanto”! Vejo-me como o resultado, a resultante desse caminho. Componho-me dos meus passos, dos meus afetos, das minhas experiências. Sou um desses bichos que deliram ser anjos, como sói acontecer a todos nós, demasiado humanos.

Se olho para trás grato, feliz com a memória que carrego, a outra metade do caminho intuo desejoso. Palmilhar o incerto não é tarefa das mais simples, mas é isso a existência. O que nem poderia ser, de repente é e se perpetua num tempo sem garantias. E nós nos fazemos, nos inventamos na tentativa de prover algum sentido a essa trajetória de absoluta gratuidade.

Em relação à segunda metade da vida — que é a trajetória descendente que me resta –, desejo especialmente três coisas. A primeira é que seja tão feliz e mais longa que a porção inicial. A segunda é que eu possa seguir ao lado da autora da foto abaixo — a mulher amada! — semeando alegrias, compartilhando sonhos e sorrisos. E, por fim, o terceiro desejo é que nessa segunda parte da jornada minha mente conserve seu poder de realização até o fim, mesmo quando o corpo já estiver fraquejando.

Esses são desejos absolutamente comuns, quase banais. Mas não é preciso ir além do homem para desejar o eterno retorno de cada alegria…

Eu, nel mezzo del cammin, em 22 de junho de 2014. | Foto: Fabiana Turci

Eu, nel mezzo del cammin, em 22 de junho de 2014. | Foto & Bolo: Fabiana Turci

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Calendários são convenções que determinam muitas coisas em nosso mundo. Não podemos prescindir deles e não deixamos de levá-los em consideração. De alguma forma, somos adestrados a eles desde cedo, quando aprendemos a distinguir o tempo do lazer — as férias — do tempo do dever. O adestramento às noções de tempo que o calendário cria em nossa vida alcança todo um conjunto de práticas da vida quotidiana. Talvez a divisão e disposição dos dias ao longo das semanas seja um dos mais evidentes para pessoas como eu, tão ligadas às rotinas.

Um desejo surgido no fim de 2013 esperou a transição dos calendários para ganhar corpo. Mais do que isso, seu corpo também está ligado à divisão do tempo em ciclos contínuos e constantes, embora em alguma medida arbitrários. Trata-se do desejo de dar a este blog uma nova dinâmica de atualização, conferindo constância à publicação de textos meus. Assim, me proponho a escrever sempre por aqui, mesmo em períodos em que minha escrita ainda não publicada nem pensada para esse espaço viva um período momentâneo de estiagem. Isso porque não pretendo extinguir a cisão existente entre os textos deste espaço e aqueles que, enquanto escrevo, me fazem pensar em livro. Livro impresso. Tinta manchando a alvura de papel. Evidentemente, no entanto, essa cisão é porosa e, vez ou outra, o universo do que escrevo com frágil desejo de permanência acaba emergindo por aqui. Contos e poemas aqui publicados confirmam isso.

Com essa proposta, dou início hoje à publicação do Semanário, que reunirá artigos, crônicas e, quiçá, poemas a serem publicados aqui todos os domingos. Eventualmente, pode acontecer de outros posts surgirem fora dessa periodicidade. Quando isso ocorrer, esses posts naturalmente não serão marcados na Categoria Semanário.

E o dia de hoje não poderia ser mais propício para começar esse projeto. Afinal de contas, calendários são convenções que determinam muitas coisas em nosso mundo. Neste dia 05 de janeiro, além de dar início ao Semanário, celebro o aniversário da minha Fabi, com quem, há quase três anos, compartilho os dias todos da vida.

Nós: Eu & Fabi

Fabi é mais do que minha musa inspiradora. É com ela que travo diálogo constatante, dividindo ideias, sensações, planos e sonhos. Dividindo palavra — essa matéria-prima e inteira do que fazemos. É quase sempre minha primeira leitora e primeira crítica. É quem me aponta, nos meus escritos, os abismos e alguns engenhos que para mim acabam desapercebidos. Esse diálogo começou em 2008, após uma oficina de poesia na Casa das Rosas. Em 2010, transformou-se em diálogo amoroso. E desde 2011, tornou-se dividir a cama e a vida inteira. A minha vida e a vida dela tornando-se nossa vida. Com o amor manchando as paredes da nossa casa. Um amor sem fim… E que está sempre além de qualquer palavra.

Fabi entre as musas do Teatro Heredia, em Cartagena das Índias (Col.) As Musas | Polímnia - Musa da Poesia Lírica, da Retórica e da Eloquência | Terpsícore - Musa da Dança e do Canto Coral | Fabiana - Minha Musa | Melpómene - Musa da Tragédia | Calíope - Musa da Poesia Épica e da Eloquência

Fabi entre as musas do Teatro Heredia, em Cartagena das Índias (Col.)
As Musas: Polímnia – Musa da Poesia Lírica, da Retórica e da Eloquência | Terpsícore – Musa da Dança e do Canto Coral | Fabiana – Minha Musa | Melpómene – Musa da Tragédia | Calíope – Musa da Poesia Épica e da Eloquência

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