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Posts Tagged ‘Amor’

Anis

A Anis (matilhalab), para mim, é uma comprovação do quão poderoso é o poder do amor. Quando ela chegou em nossa casa, ela não chegava perto de mim de jeito nenhum. Estava sempre apavorada e com o rabinho entre as pernas. Ela sofreu muitos maus-tratos e, por conta disso, tinha muito medo de homens. Até mesmo o cheiro de uma roupa minha fazia com que ela saísse correndo As primeiras tentativas de aproximação foram tentando dar pãezinhos. Mas era preciso que eu desse para a Fabi entregar pra ela. E mesmo assim, ela pegava desconfiada.

Mas a Fabi se tornou logo seu porto seguro e, com o tempo, ela foi reaprendendo a ser uma cachorrinha, a brincar, a ter curiosidade pelas coisas. Foi a partir da Anis, inclusive, que a Fabi se interessou por florais e acabou se tornando terapeuta floral. Isso porque após mais ou menos seis meses, a Fabi começou a dar um floral para a Anis, e rapidamente houve uma melhora geral. Não que quiséssemos que ela se tornasse isso ou aquilo. Apenas a queríamos bem.

Hoje, claro que a Anis é uma cachorrinha mais desconfiada e medrozinha. Pelos traumas e, talvez, pela própria personalidade — se em nós humanos às vezes é difícil distinguir essa linha, imagina em cachorros, que se expressam de outras formas. Especialmente no caso dela, a quem não conhecemos antes de ter sofrido os maus-tratos. Mas quando ela vem correndo para pegar um petisco, pula na cama para me cheirar quando eu chego ou quando acordo, ou quando olho para essas fotos que a Fabi (Laboratório dos sentidos) tirou no início do mês passado, minha alegria é sempre uma emoção do tamanho dessa história toda. Que me faz pensar que, provavelmente, para o amor não há defesas. Porque elas não são necessárias…

Anis

Anis

2015: A matilha.

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Acabo de ler admirado um artigo da Judith Butler sobre os acontecimentos em torno de sua vinda ao Brasil. Penso que se é possível discordar frontal ou parcialmente de sua leitura de mundo, pois, no olhar que lançamos à complexidade de tudo que há, estarão nossas certezas (ou incertezas) e nossos valores. Mesmo compreendendo discordâncias, tenho dificuldade de também compreender como se pode acusar de promover a pedofilia (aqui entendida como uma violência imensa contra alguém que, sendo criança, não é capaz de se defender), alguém que afirma o seguinte:

“Liberdade não é — nunca é — a liberdade de fazer o mal. Se uma ação faz mal a outra pessoa ou a priva de liberdade, essa ação não pode ser qualificada como livre — ela se torna uma ação lesiva.”

Acho que o que mais me admirou neste artigo foi o esforço de tentar compreender as razões e as consequências de uma violência sofrida por si própria. E, a partir disso, reafirmar seu compromisso e sua luta por um mundo com mais liberdade e mais alegria.

Destaco abaixo um dos trechos do artigo da Judith Butler, publicado neste domingo (19/11), que mais me chamaram a atenção. Mas a leitura do artigo todo, para mim, só aumenta a potência das palavras abaixo.

“Embora apenas minha efígie tenha sido queimada, e eu mesma tenha saído ilesa, fiquei horrorizada com a ação.

Nem tanto por interesse próprio, mas em solidariedade às corajosas feministas e pessoas queer no Brasil que estão batalhando por maior liberdade e igualdade, que buscam defender e realizar uma democracia na qual os direitos sexuais sejam afirmados e a violência contra minorias sexuais e de gênero seja abominada.

Aquele gesto simbólico de queimar minha imagem transmitiu uma mensagem aterrorizante e ameaçadora para todos que acreditam na igualdade das mulheres e no direito de mulheres, gays e lésbicas, pessoas trans e travestis serem protegidos contra violência e assassinato.

Pessoas que acreditam no direito dos jovens exercerem a liberdade de encontrar seu desejo e viverem num mundo que se recusa a ameaçar, criminalizar, patologizar ou matar aqueles cuja identidade de gênero ou forma de amar não fere ninguém.”

Para ler a íntegra do artigo, clique aqui.

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Em 2014, me lancei um desafio. Escrever periodicamente neste blog. Num primeiro momento, a ideia era fazer publicações semanais. Não tive fôlego para isso e, logo no início, alterei a periodicidade para quinzenal.

Esses três anos mantendo esse projeto revitalizaram meu blog, fazendo com que se ampliassem os acessos e as leituras. Basta constatar que entre 2014 e 2016, publiquei 106, dos 165 textos aqui publicados (contando este). Nesse período, terminei a escrita e lancei (em dezembro de 2015) o meu livro “Trítonos – intervalos do delírio“. Muitas das publicações feitas aqui entre fins de 2015 até dezembro do ano passado ecoam esse livro.

Os resultados dessas publicações periódicas já se evidenciaram em 2014. Foram 36 textos publicados, 1386 visitas e 2027 visualizações. Em 2015, os números foram ligeiramente mais modestos: 28 textos publicados, 1276 visitas e 1930 visualizações.

Em contrapartida, 2016 foi um ano talvez inigualável para esse modesto “lugar de ensaiar com as palavras”. No ano passado, eu fiz 42 publicações. O blog alcançou incríveis 1812 visitas e 2777 visualizações. Dezembro foi o mês com o maior número de visualizações (284) e o segundo maior número de visitas (195). O maior número de visitas no ano passado foi alcançado em setembro (198), que foi o segundo melhor em visualizações (282).

A resenha que fiz sobre o livro de contos “Olhos d´Água“, da Conceição Evaristo, publicada em abril, foi o texto mais acessado do ano passado. Com uma diferença de somente um acesso, o poema “Se eu acreditasse num deus“, publicado no fim de novembro, ficou em segundo lugar. Talvez pelo tema (questionamentos sobre o sagrado, a fé e a dúvida), ele acabou se tornando um fenômeno de acessos em pouco tempo.

O terceiro post mais acessado também foi um fenômeno de acessos em um prazo curto de tempo. Ele foi feito em comemoração a um ano de lançamento do meu livroTrítonos“, pela Editora Patuá. Lá, eu compartilho uma playlist de músicas tocadas pelo personagem Demian no conto “Gritos do açafrão” – conto que acabou me levando a encontrar o nome e a forma do livro, que estão interligadas.

Na sequência, temos um poema de amor escrito para minha esposa, Fabiana Turci, quando completamos cinco anos de casados (o “Cinco variações sobre um tema amoroso“), escrito em janeiro. Por fim, empatados na quinta colocação, se encontram um texto sobre os caminhos nebulosos da nossa política e da nossa democracia, escrito ainda março, quando um diálogo entre a então presidenta Dilma e o Lula foi divulgado de forma indevida (ou, no mínimo, questionável) pelo juiz Sérgio Moro (“O dia de hoje nos livros de História“), e um poema-resposta à leitura do último livro de Pedro Tostes (o post tem o mesmo nome do livro: “Jardim minado“).

Além desses seis textos mais acessados, há outros dois textos que merecem destaque. O primeiro é “Cisgeneridade: a suposta natureza é um silêncio“, que foi texto escrito em 2015 mais acessado naquele ano, foi o segundo texto não escrito em 2016 mais acessado do ano, ficando imediatamente atrás do “Cinco variações sobre um tema amoroso”. O segundo destaque tem relação direta com os primeiros dias de 2017. Todo ano, o texto mais acessado é sempre “O meu coração é um músculo involuntário e ele pulsa por você” (certamente por causa da música, de cujos versos retirei esse título), escrito em 2006 ainda no antigo blog, e posteriormente migrado para o blog atual. Em 2016 não foi diferente. Mas nos primeiros 28 dias de 2017, o texto até agora mais acessado foi “Fúria Travesti“, escrito ano passado após a morte da ativista argentina Lohana Berkins. Como amanhã (29 de janeiro) é o Dia da Visibibilidade Trans, não podia deixar de destacar esses dois textos. O primeiro deles, inclusive, foi especialmente escrito para ser publicado no Dia da Visibilidade Trans de 2015 (veja a mobilização desse ano em torno da #VisibilidadeTRANS no Youtube, no Facebook e no Twitter).

Em 2017, haverá uma mudança de rumos por aqui, afinal os caminhos aqui se inventam sob os pés que os percorrem. Não continuarei com as publicações quinzenais. Tenho projetos literários me esperando, dois livros que estão sendo escritos e outros projetos ainda em fase de primeiras notas. E para poder me dedicar mais a essa escrita, vou reduzir a frequência de textos no blog. Meu objetivo então será o de fazer, pelo menos, uma publicação por mês aqui no Ensaio Aberto. Isso porque alguns outros ensaios com as palavras não podem ser tão abertos assim…

2017criarocaminho

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Sabe aquela sensação de plenitude quando você se depara com algo imenso? É assim o último texto da minha amada Fabi Turci no seu Laboratório dos sentidos. Imenso, cheio de força e vida, sabor e nuances. Como a receita: um incrível espaguete de abobrinha e cenoura com molho de guacamole.

Ao ler hoje esse Manifesto ao ato de cozinhar e de inventar pela junção de sabores e aromas, cores e texturas, sensação que me deu foi de que esse projeto da Fabi vive uma espécie de ápice, desde a publicação da primeira receita há quase dois anos, em julho de 2014.

Mas talvez não seja verdade que seja propriamente um ápice. Já era imenso desde aquele primeiro bolo, condimentado com escrita, literatura, ideal e paixão. Mas hoje ele ganha uma nova dimensão, um novo começo. Esta é a primeira receita que se faz acompanhar de um vídeo. E assim nasce o canal do Laboratório dos sentidos no Youtube.

Para ler o Manifesto e a receita no Laboratório dos Sentidos, clique aqui. Já para acessar o Canal do Laboratórios no Youtube, clique aqui. E veja abaixo o vídeo que inaugura o canal. Sabores para ler, assistir e se deliciar!

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Leio em loop infinito os versos que recebi hoje de minha irmã. Releio-os numa felicidade de imensidões. Eu, que me sei poeta e escritor por sua influência. Por desejar também ter cadernos pautados para jogar com a linguagem. Numa desmedida de ternura, quando os todos caminhos parecem abertos e transitáveis. Se bem que já havia tendências nesse tempo, quando você tinha pouco mais do que nove anos e eu, quase doze. Você tinha a altura e a intensidade de uma linguagem esgarçada pelo trágico. Eu arquitetava formas, engendrava desgastadas rimas e me divertia em impor regras para constranger a liberdade absoluta do dizer. Se a poesia em você eram jorros de metáforas dilaceradas nas asas dos pássaros, para mim valia a diversão de pôr palavras num pilão e extrair-lhes os óleos do inabitual.

Que dizer desse caminhar que, ao mesmo tempo, é solidão e partilha? Ouvimos de Drummond um conselho sobre os poemas: “Espera que cada um se realize e consume / com seu poder de palavra / e seu poder de silêncio.” E o silêncio é um outro nome para a solidão. Por isso o poeta das sete faces nos diz também: “Penetra surdamente no reino das palavras.” No entanto, poetas tocam o incomunicável para voltear e dar a ver o lodo das palavras, essas metáforas gastas, repletas de histórias e corruptelas. Para sentar junto na fogueira dos tempos e cantar sobre essas descobertas. A solitária escrita deseja a leitura, almeja o encontro.

E nosso encontro precede à palavra. Nasce anterior ao verbo. Remete a signos ainda cindidos, significantes com cambiantes significados. O logos do afeto nos guiou os passos. E, por graça e obra da vida, caminhamos num mesmo sentido, mesmo que por caminhos diversos. E sob a égide dos versos, das metáforas e da poesia espargida, fizemos o pacto dessa fraternidade. Juntos seguimos. Sempre, sempre, sempre, e cada vez mais.

Com um amor que precede e transcende o verbo, te amo, minha irmã!

Betinha e uma caneta profética vaticinando uma vida entre palavras.

Betinha e uma caneta profética vaticinando uma vida entre palavras.

Irmão

A linguagem nele
irradiou nos seres e nos objetos
concebeu uma gramática
em mim, labiríntica.
Chamei-o estruturalista
porque vejo em modo macro
sondada por sensações.
Minha razão encadeando
elementos assombrados
meu irmão operando ideias
com lógica e afeto.
Razões obsedadas
uma tremenda ternura
capricorniana
confusa confusa
em viver de signos.
Versus
o canceriano imenso
que pensa desde a palavra:
penso desde a palavra.
O mundo fizemos
um pacto
desta fraternidade.

Roberta Tostes Daniel

 

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(para Fabiana Turci,
pelos cinco anos em que dividimos a cama e a vida)

I

É porque o amor é fogo
que precisamos manter
crepitante e em combustão
a chama desse braseiro.
Quero arder contigo a vida
inteira, dada no instante.
O que somos alimenta
o que arde sem se ver:
nossos corpos, nossas horas,
nossas vidas, nossas fomes –

material comburente
ou matéria desejante.

II

Com os tijolos dos dias
e a argamassa do afeto
engendramos a morada
desse fogo que acalenta
minha vida, nossas vidas.
Esse fogo que acalenta

recende em nossos olhos
nossas histórias mais íntimas
de leituras tão diversas
que fazemos nesse mundo.
Quero te dar minhas mãos

para afagar teu calor.

III

Nas avalanches do tempo,
inda engendramos mudanças
e descrevemos silêncios
de uma orquestra de papel.

Quando te despes de ti
teu mínimo eu emerge.
Teu mínimo, eu te amo.

Tateamos incertezas juntos,
pois essa vida é assombro
e espanto. E nos caminhos
da dúvida partilhada

nosso amor se fortalece.

IV

Abrimos as nossas portas
para entrarem as brisas
que afagam as nossas horas
Novos ventos descortinam
vocações adormecidas.

E no meio do caminho
dessa vida, sinto o tempo
quando meu corpo fraqueja.
Mas tuas mãos colhem flores
embriagadas de orvalhos.
Ouves segredos da terra

que nas tuas mãos germinam.

V

Quando o teu corpo fraqueja,
vamos ouvi-lo por dentro
para entender seus processos.
Enquanto isso, tu ouves
murmúrios de muitas flores
e eu escuto em folhas brancas
intervalos do delírio.

Porém, quando há desencontro
nos sons da polifonia
que nos chegam aos ouvidos

resgatamos o silêncio
para ouvirmos um ao outro.

Fabi & Teo

Fabi & Teo

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Em 2015 foram 28 publicações em meu blog Ensaio Aberto. Dentre todas, as de novembro anunciavam aquele que certamente foi o momento mais importante do ano, para mim: a publicação de meu livro Trítonos – intervalos do delírio, lançado no dia 2 de dezembro. O texto que escrevi sobre o livro pouco antes de seu lançamento, numa publicação do dia 22 de novembro, testemunha essa espera e foi a segunda que mais teve visualizações, entre as publicadas em 2015.

A frente dela, ficou apenas o texto “Cisgeneridade: a suposta natureza é um silêncio“, que publiquei no dia 29 de janeiro por ocasião do “Dia da Visibilidade Trans*“. Neste texto, no propósito de me unir às vozes e às pautas trans*, esbarrei numa questão: em que poderia eu, um homem cisgênero, casado com uma mulher também cisgênera, contribuir com a questão? E, sobretudo, o que poderia eu falar da condição transgênera? Temendo cair em abismos, pensei que talvez o melhor que eu poderia fazer seria falar sobre a cisgeneridade, que é o meu lugar de fala no mundo, e sobre o meu espanto ao descobrir que existe um desconforto de pessoas cis em serem identificadas como cisgêneras. Torço para que esse esforço tenha sido (ou ainda seja) de alguma valia.

A terceira publicação com mais visualizações em 2015, que está prestes a completar um ano no dia 5 de janeiro, celebra o amor. Foi um poema que escrevi para minha amada Fabiana Turci, para comemorar seus trinta anos de vida.

Poemas e artigos publicados aqui, com reflexões sobre temas diversos, não testemunham completamente minha escrita no ano de 2015. Mas eles dão a ver esse Ensaio Aberto que estabeleço com as palavras e seus eventuais leitores aqui neste blog. Sejam todos bem-vindos em 2016!

Clique aqui para ver o relatório estatístico completo.

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Colorir

Refratar a luz.
Decompor o branco,
extraindo um amplo
espectro de cores.

Reverenciar
o que é cada cor
— sua alteridade.
Por uma esperança,

louvar essa mística
que existe no número
de tons do arco-íris.

E por fim tingir-se,
querendo manchar
o mundo de amor.

The Newton's prism experiment

The Newton’s prism experiment

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(para Fabiana Turci)

Trinta fragmentos
De trinta estrelas
Dançam pelo céu
E o espaço-tempo
Vira um carrossel
(Flash e Sépia – Guinga/Aldir Blanc)

I

Antes da linguagem
já existe a memória
de ser.
Memória feita de névoa
e instintos.

O corpo
é diminuta amplidão,
latifúndio sem fronteiras
com o mundo.

II

Quando a linguagem
desponta na boca,
também se desenham as fronteiras
de si.
Nomear o mundo
é ato de espanto contínuo.

Saber-se
é a primeira lição de alteridade.

III

Brincar com o silêncio
é arriscar-se no abandono.
Desejar a quietude,
mais do que tudo,
ainda que te desejem
ruidosa.

Verter-se
para si mesma.

IV

Nomadismo é lição
aprendida logo
no amanhecer de si,
antes mesmo das primeiras letras.
Talvez para que a memória
tenha algo que escape
à palavra.

Talvez para escrever
no fundo de si
o signo da impermanência.

V

Apoderar-se da permanência
de cada palavra.
Grafar no papel
como quem escreve
na própria pele.

Iniciar um inventário
de todas as suas casas.

VI

Ter sonhos recorrentes,
conferindo antiguidade
ao que se inventa
sem total controle.
No mais, saciar-se
com as desrazões da lógica.

E ainda assim
preferir nomear o inconsciente
de segredo.

VII

Sentir-se responsável
por alguém que nasce.
Tecer com isso
um longo fio de cumplicidade
com a sua matriarca.

Depois inventar jogos
para continuar na infância
das coisas.

VIII

Testemunhar a cisão
inevitável
de sua casa.
Ruir e se refazer.

Caminhar na direção
do fora.

IX

Não apenas mudar,
mas desejar a alteridade.
Encontrar meios e razões,
inda que com parcos recursos,
para cambiar rumos.

Engendrar os fundamentos
das próprias forças
e da recusa à crueldade.

X

Compreender que a distância
às vezes é um artifício
necessário.
Cortar laços.

Erigir muros
contra aquilo que dói.

XI

Adolescer e se apoderar
de novas dimensões
do corpo.
Sentir intimamente
as urgências.

Às vezes, confundir
dor com intensidade.

XII

Mergulhar em sonhos
olímpicos e na poesia.
Comungar com a natureza
dos peixes e dos seres
aquáticos.

Competir consigo
e vencer-se.

XIII

Alegrar-se em percorrer ruas
como se suas fossem.
Inventar para si um lugar
e desejar ardentemente
uma página em branco.

Escutar o silêncio
como um preparo para receber
o outro.

XIV

Compreender que a palavra
é um poder.
Apoderar-se de todo
papel em branco.

Constatar que o verbo
se faz constantemente
carne.

XV

Compreender que a justiça
é um poder corruptível.
Jamais assinar nenhum
papel em branco.

Desconfiar de todo verbo
que pretenda ser
carne.

XVI

Compreender que o pensamento
é um poder insubjugável.
Apoderar-se de si
como de um papel em branco.

Constatar-se verbo
que faz ebuliente
a carne.

XVII

Percorrer uma vereda
para se libertar da herança
que pesa e imobiliza.
Matar simbolicamente
os pais.

Depois disso, mudar-se
para uma ilha.

XVIII

Em desterro, tornar
todas as ruas percorríveis.
Inventar caminhos
para se perder
sem necessidade de chegar.

Abrir-se ao encontro
e desejá-lo.

XXIX

Insistir em passos
que não são seus.
Ainda assim,
desconstruir ainda mais a herança,
por dentro.

A experiência também pode
ser uma forma de se afastar.

XX

Insistir em passos
que não são seus
é insustentável.
É hora de tornar-se
aquilo que se está sendo.

Escolher-se, mesmo que distante
dos sonhos alheios.

XXI

Assumir o descompasso
entre o desejo que se herda
e aquele que brota.
Assumir que se quer
o que não tem utilidade direta
no mundo.

Regressar, ciente
de que nunca se volta ao mesmo ponto.

XXII

Descobrir a solidão
como fundamento
da incomunicabilidade.
Aproximar-se
do futuro.

Encontrar-se naquilo
que ainda será.

XXIII

Foi neste ponto que te conheci,
dividindo poesias
e manhãs de sábado.
Neste tempo eu não te queria,
e a exaustão e o cansaço
de minhas escusas
te fizeram dizer adeus
no auge do outono.

Mas deixaste sinalizada a abertura
de tua casa e teu corpo.

XXIV

Ainda querias me contar
das belezas que viste no mundo
e por isso me escreveste.
Disseste ver, em minha imagem que guardavas,
uma felicidade possível.

A partir de então, compartimos
nosso tempo, nossas palavras
e outros desobjetos.

XXV

Como importa mais o corpo,
minhas recusas sinalizavam
nova exaustão tua.
Não sei se o desejo do encontro
sobreviveria a outro adeus,
mas neste ponto
talvez eu já não me soubesse
sem ti.

Essa é a parte dizível,
mas nunca completamente explicável,
da brotação do meu amor
por ti.

XXVI

Quando desejamos que o encontro
e os despudores de nossas urgências
fosse a própria vida,
foi preciso inventar um lugar
para chamar de nossa casa.
Designar como Nossa Biblioteca
o lugar em que o que era meu
e o que não era
se misturou, primeiro no chão,
depois nas estantes.

Nomear como nossa vida
ao existir.

XXVII

Houve um tempo
em que mandamos imprimir
as histórias que nos cercavam.
Fizemos o filme
das nossas histórias íntimas
de leitura.

Povoamos nossa casa de amigos,
de sonhos nossos
e alguns importados.

XXVIII

Houve um tempo outro,
e tão contínuo,
em que precisei te procurar ao meu lado,
para te saber.
Eu te reconhecia a mesma
e, ao mesmo tempo,
te desconhecia.

Ainda assim, segui amando
teu mínimo eu
que permanecia.

XXIX

Venceste a desesperança,
o sentir caótico, o perder-se
de si,
o cigarro, as cruezas dissimuladas
e aquilo que não cabe
num nome.
Abandonaste sonhos velhos
que não mais resplandeciam
e jaziam como um peso morto.

Fizeste ressonar a tua
orquestra de papel.

XXX

Amo cada um dos trinta anos
que conformaram teu rosto
e teu existir.
Desejo viver ao teu lado,
ao menos, os próximos trinta,
povoar o mundo com os sonhos
que tivermos e inventarmos,
e fartar nossa casa de corpóreas
venturas.

Ensaio uma síntese
das trinta razões para eu te amar.

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É urgente espalhar amor

Para calar canhões e metralhadoras,
conter a mão brutal
no momento de desferir o golpe;
para combater a cultura de pólvora e chumbo
que assola os quatro cantos do mundo,
opor-se a cada guerra
e a cada assassinato;
para impedir que o cinza dos asfaltos
continue a ser tingido
pelo sangue de culpados e inocentes

é urgente espalhar amor
com a sofreguidão de todas as sedes.

Porque são tempos miseráveis
aqueles em que o amor
é motivo de escândalo e perplexidade,
e o ódio,
aplaudido de pé,
se alastra como uma praga
na boca e nas mãos de tantos,
e na morte e no massacre
de quem ousa ser,
mesmo que involuntariamente,

o Outro.

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Na entranha da terra,
um raio de amor
por tudo se alastra.
Eu já posso ouvir
a sacra quentura
do fecundo chão

enchendo horizontes
de vivos tons verdes.
Vencendo o impossível
dos tempos cinzentos,
das eras sem luz,
o corpo floresce.

Por isso, os mistérios
de cada equinócio
foram celebrados
desde que a linguagem
fez sua morada
nas bocas humanas.

No ventre vermelho
de Gaia se gestam
as cores, as flores
que existem, resistem
e insistem tomar
seu quinhão de mundo.

E desta coragem
viva na semente
de tudo que somos,
ficamos sabendo:
a revolução
é na primavera.

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(para Fabiana Turci)

Foi assim:
a aspereza de abismos,
a maciez de rochas,
fervuras e geleiras
me ofertaram
o repertório poético da concretude,
ensinando a carne de minhas mãos
a te tocar.

Os cheiros de campos e asfaltos,
rosas e dejetos,
campas e corpos
adestraram-me
para os teus aromas.

Ervas, manjares e manás,
todas as fomes
e todos os banquetes
me permitiram sorver
a tua inteireza.

Meus absurdos azuis,
teus vermelhos participantes da ideia mesma,
as convulsões amarelas de Van Gogh,
as sombras de Caravaggio e os delírios de Bosch
prepararam-me para as tuas paisagens.

Timbres pungentes, vozes tangentes,
acordes perfeitos, trítonos, dissonâncias,
escalas e escolas,
melodias insuspeitas, ritmos insustentáveis
e o ruído branco
me ensinaram a ouvir
os teus silêncios…
Foi assim.

Detalhes de 'O Jardim das Delícias', de Hieronymus Bosch.

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Ao menos setecentos anos de tradição poética apontam que no domingo passado cheguei ao meio do caminho. Está lá, nos primeiros versos de A Divina Comédia: “Nel mezzo del cammin di nostra vita / mi retrovai per una selva oscura, / ché la diritta via era smarita.” O meio do caminho era a idade de 35 anos, que seria uma antiga metáfora para a meia idade, considerando uma vida potencial de 70.

Sendo o primeiro verso uma antiga metáfora, aos setecentos anos de tradição do poema de Dante se adicionam ainda os anos que dão antiguidade a ela. Como não tenho fôlego para retroceder tanto e encontrar salmos ou profetas que confirmem o arcaísmo dessa ideia, contento-me com a abertura da comédia dantesca. E aceito a noção nela encerrada de que chego ao ápice do arco da vida. Noção desconcertante, pois esse ápice é simplesmente minha vida toda, até aqui.

“Nel mezzo del cammin”, olho para os dois sentidos dessa estrada incerta. E dou graças pela metade que já pude viver. “Gracias a la vida, que me ha dado tanto”! Vejo-me como o resultado, a resultante desse caminho. Componho-me dos meus passos, dos meus afetos, das minhas experiências. Sou um desses bichos que deliram ser anjos, como sói acontecer a todos nós, demasiado humanos.

Se olho para trás grato, feliz com a memória que carrego, a outra metade do caminho intuo desejoso. Palmilhar o incerto não é tarefa das mais simples, mas é isso a existência. O que nem poderia ser, de repente é e se perpetua num tempo sem garantias. E nós nos fazemos, nos inventamos na tentativa de prover algum sentido a essa trajetória de absoluta gratuidade.

Em relação à segunda metade da vida — que é a trajetória descendente que me resta –, desejo especialmente três coisas. A primeira é que seja tão feliz e mais longa que a porção inicial. A segunda é que eu possa seguir ao lado da autora da foto abaixo — a mulher amada! — semeando alegrias, compartilhando sonhos e sorrisos. E, por fim, o terceiro desejo é que nessa segunda parte da jornada minha mente conserve seu poder de realização até o fim, mesmo quando o corpo já estiver fraquejando.

Esses são desejos absolutamente comuns, quase banais. Mas não é preciso ir além do homem para desejar o eterno retorno de cada alegria…

Eu, nel mezzo del cammin, em 22 de junho de 2014. | Foto: Fabiana Turci

Eu, nel mezzo del cammin, em 22 de junho de 2014. | Foto & Bolo: Fabiana Turci

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Calendários são convenções que determinam muitas coisas em nosso mundo. Não podemos prescindir deles e não deixamos de levá-los em consideração. De alguma forma, somos adestrados a eles desde cedo, quando aprendemos a distinguir o tempo do lazer — as férias — do tempo do dever. O adestramento às noções de tempo que o calendário cria em nossa vida alcança todo um conjunto de práticas da vida quotidiana. Talvez a divisão e disposição dos dias ao longo das semanas seja um dos mais evidentes para pessoas como eu, tão ligadas às rotinas.

Um desejo surgido no fim de 2013 esperou a transição dos calendários para ganhar corpo. Mais do que isso, seu corpo também está ligado à divisão do tempo em ciclos contínuos e constantes, embora em alguma medida arbitrários. Trata-se do desejo de dar a este blog uma nova dinâmica de atualização, conferindo constância à publicação de textos meus. Assim, me proponho a escrever sempre por aqui, mesmo em períodos em que minha escrita ainda não publicada nem pensada para esse espaço viva um período momentâneo de estiagem. Isso porque não pretendo extinguir a cisão existente entre os textos deste espaço e aqueles que, enquanto escrevo, me fazem pensar em livro. Livro impresso. Tinta manchando a alvura de papel. Evidentemente, no entanto, essa cisão é porosa e, vez ou outra, o universo do que escrevo com frágil desejo de permanência acaba emergindo por aqui. Contos e poemas aqui publicados confirmam isso.

Com essa proposta, dou início hoje à publicação do Semanário, que reunirá artigos, crônicas e, quiçá, poemas a serem publicados aqui todos os domingos. Eventualmente, pode acontecer de outros posts surgirem fora dessa periodicidade. Quando isso ocorrer, esses posts naturalmente não serão marcados na Categoria Semanário.

E o dia de hoje não poderia ser mais propício para começar esse projeto. Afinal de contas, calendários são convenções que determinam muitas coisas em nosso mundo. Neste dia 05 de janeiro, além de dar início ao Semanário, celebro o aniversário da minha Fabi, com quem, há quase três anos, compartilho os dias todos da vida.

Nós: Eu & Fabi

Fabi é mais do que minha musa inspiradora. É com ela que travo diálogo constatante, dividindo ideias, sensações, planos e sonhos. Dividindo palavra — essa matéria-prima e inteira do que fazemos. É quase sempre minha primeira leitora e primeira crítica. É quem me aponta, nos meus escritos, os abismos e alguns engenhos que para mim acabam desapercebidos. Esse diálogo começou em 2008, após uma oficina de poesia na Casa das Rosas. Em 2010, transformou-se em diálogo amoroso. E desde 2011, tornou-se dividir a cama e a vida inteira. A minha vida e a vida dela tornando-se nossa vida. Com o amor manchando as paredes da nossa casa. Um amor sem fim… E que está sempre além de qualquer palavra.

Fabi entre as musas do Teatro Heredia, em Cartagena das Índias (Col.) As Musas | Polímnia - Musa da Poesia Lírica, da Retórica e da Eloquência | Terpsícore - Musa da Dança e do Canto Coral | Fabiana - Minha Musa | Melpómene - Musa da Tragédia | Calíope - Musa da Poesia Épica e da Eloquência

Fabi entre as musas do Teatro Heredia, em Cartagena das Índias (Col.)
As Musas: Polímnia – Musa da Poesia Lírica, da Retórica e da Eloquência | Terpsícore – Musa da Dança e do Canto Coral | Fabiana – Minha Musa | Melpómene – Musa da Tragédia | Calíope – Musa da Poesia Épica e da Eloquência

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I – Partida

Vendo a vida das coisas embalada
em todas essas caixas, eu desejo
seu eterno retorno, sem perder
de vista o meus motivos de mudança.

Deixo felicidade povoando
paredes, pra ocupar espaços outros,
com nosso amor manchando o inabitado
branco da nova casa de corpóreo.

Sim, manchamos de corpo nossa casa.
E também seus espaços nos habitam
na diluída forma de memória.

Eu sei de cada rua em que morei
o nome, sem saber, no entanto, mais
o que hoje é cada rua em que morei…

_
II – Chegada

Suspenso o quotidiano:
não há café, nem talheres,
nem pratos, copos e ordens.
Improviso e caos se fundem.

Parece-me encaixotada
a própria vida. Vislumbro
a entrevisão de um lar
que virá após trabalhos

hercúleos. Como a promessa
de um paraíso perdido.
Mas no caos habitam sonhos…

Cada coisa em seu lugar
anverso. O amor, porém,
salvo na caixa do peito.

mudanca1

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(para meu avô Fernando Daniel)

Foi assim: sem nem adeus.
E o silêncio desses dias
cheios de pequenas coisas
agora fica pesando.

Isso demonstra que o tempo
não está ao meu dispor.
Isso comprova que urgente
é só o tempo do afeto.

Espero que esse silêncio
seja logo perdoado.
Não por ele. Mas por mim.
Ele aqui já não está.

Só sei que nesta manhã
ele se foi. Circunstâncias
ainda não me chegaram.
Foi assim: sem nem adeus.


————————–
Fernando Daniel

* 17/12/1923
+ 26/07/2012

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(para Fabi)

Acomodando o existir
no ventre do tempo,
a chuva,
o vento,
o mar
tocam leve a concretude
da rocha.

Desgastam seu corpo escuro,
extraindo poeira fecunda.
Espalham o verde da vida
ao longo de seu corpo de pedra
resfriado pelos milênios,
sob o azul anterior ao nome
dos céus de muitas eras.

Nossos corpos descendem
dessa vida ancestral.
E nomeiam
e adjetivam
e substantivam
e verbalizam
suas cores.

Nossos lábios fundadores de nomes
dizem do existir de coisas
que lhes são anteriores.
Nossos lábios inauguram o vermelho
quando se encontram.

Acomodando o existir
no ventre do tempo,
a chuva,
o vento,
o mar
e o amor
tocam leve a concretude
da rocha,
esculpindo a beleza inaudita
na dureza do monte.

E nós seguimos
sendo rochas

de carne.

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(para Fabiana Turci)

I

Quase toco tua ausência
ao meu lado.
O lugar está vazio.
Vazia está
a sala de concertos,
vazada por uns semitons.

Não comentamos a beleza
da decoração do hall de entrada.
Não viste suas flores
nem tua pele se iluminou
por suas velas.

Quando a última nota da sinfonia
soou,
não me olhaste
nem teus lábios me sorriram.

II

Não me iludo
com esse caminho de ausências.
Essa falta,
essa impossibilidade
e esse silêncio
alimentam o desejo do encontro.

Em nossas fronteiras
não nos confundimos.
Nós nos fundimos,

nos fodemos,
fecundos.

III

Em ti, aprendo
que em nós germinam mundos inteiros,
abertos às mil possibilidades
do tornar-se.

Entorno-me
dentro de ti.

IV

Gosto de ser teu homem
sem solenidades,
rituais
ou formalidades civis
exteriores a nós mesmos.

Gosto que sejas minha mulher
bastando, para isso, o teu querer
dar-se e dar a mim
na presença de nossos deuses.

“Eu vos declaro
homem e mulher”…

V

As portas de nossa casa
estão abertas ao acaso do mundo.

Eu me caso contigo
todo novo dia.
Celebro nossos ritos,
venero nossos mitos
em derredor do amor.


(Fotos: Luiz Henrique de Nadal)

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O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço.
(Os três mal-amados – João Cabral de Melo Neto)

Era uma mulher desejável antes mesmo de ser uma mulher. Quando ainda estava em vias de, mal saída da infância, já apetecia aos homens. Ariana poderia preencher o lugar da mulher da vida de qualquer um. Era bela, inteligente, vinha de uma família rica. Tinha muitos predicados.

Sempre namorou somente os mais desejáveis. Todos os namorados foram aprovados primeiro pelas amigas, depois pelos pais e familiares. Quando era a vez de ela prová-los, no entanto, o amor se esvaía. Teve os rapazes mais desejáveis de seu colégio e de seu círculo social. Todos belos, lindos, civilizados. Príncipes ou futuros gentlemen, herdeiros ou donos precoces de fortunas, que cheiravam a brilho e a cobre. Todos, modelos de beleza e sucesso. Não que o sucesso fosse lá muito importante, como havia sido para sua mãe, uma mulher de classe média que se casou com o empresário Aristarco do Albuquerque Prado. A mãe de Ariana mentiria se dissesse que a construtora, as fazendas de gado e soja, e os milhões em bancos no país e no exterior não conferiam um charme especial ao pai de sua única filha.

Ariana era filha de um amor de conveniência, mas não havia nascido para desejar o desejável. Havia um fôlego de égua selvagem em si – ainda ignorado – que não a permitiria jamais se contentar com o que todos aprovavam, com o que todos estabeleciam como os contornos precisos e saudáveis do querer. Seus quereres tinham um visgo insólito de insanidade que ainda se havia de descobrir.

Não conseguia ainda formular desse jeito, mas tinha em si uma certeza muda de que só poderia amar um homem que ela também fosse capaz de odiar. Essa certeza a habitava silente, inconfessável dentro de si mesma. E o primeiro passo para esse caminho, que fatalmente a conduziria a se tornar aquilo que era, passava pela solidão.

Quando se viu sozinha na faculdade, sem a influência das amigas, que sempre eram as vozes primeiras das escolhas que ela fazia, pareceu parar de desejar. Passou mais de um ano longe de flertes. E que alívio sentiu ao deixar de entregar seu corpo ao que não lhe despertava nenhum apetite. A solitude lhe deu a oportunidade de assenhorar-se de si e de seu corpo, que parecia, então, jamais ter sido verdadeiramente seu. Com o silêncio, passou a ouvir as urgências da própria carne, da própria pele. A voz material do corpo e dos instintos, sufocada desde cedo nas gentes.

Embora quisesse fazer belas-artes, deu início ao curso de arquitetura. Seu pai jamais lhe havia falado nada a esse respeito, mas não imaginava que ele quisesse uma filha artista. Mas com um ímpeto que era ainda tão desconhecido e lhe parecia estrangeiro, saltava as cercas da própria grade curricular para cursar, com frequência, disciplinas do curso de artes como matérias optativas.

Supunha que estava à beira de se tornar um ser assexuado, quando se inscreveu para fazer aulas com modelos vivos. Durante quase meio semestre, desenhou com esmero belos corpos desejáveis de homens e mulheres que não lhe apeteciam em absoluto. Olhava sem pudor e desenhava com paixão.

Num dia que tinha tudo para ser igual aos outros, entrou na sala em que fazia as aulas de desenho. Mas aquele dia não foi igual. Entre os modelos, já nus e dispostos nas mais diversas posições, estava: ele. Ariana o viu. Tudo ao redor desaparecera. Só restavam aquele homem e um dilúvio inaudito entre as pernas.

Passou duas horas e meia desenhando, com fúria, o próprio desejo incontido. Terminada a aula, fora falar com o estranho de traços indígenas e uma cicatriz no ventre.

– Oi.

– Olá – respondeu, com acentuado sotaque castelhano.

O estranho lhe ofereceu com um sorriso, incentivando que ela continuasse. Era o homem mais belo que já tinha visto na vida. Em seu rosto, se destacavam os fortes traços indígenas. Não parecia qualquer um dos meninos desejáveis com quem já havia ficado. Naquele instante, Ariana procurava palavra e refúgio.

– É que eu queria saber quanto você cobra. Eu não acabei de te desenhar.

Mostrou o desenho para o desconhecido. Um esboço rico em detalhes, ainda sem braços ou pernas. A cicatriz de facada no ventre e o sexo, no entanto, já estavam prontos.

– Eu não sei ainda quanto vou ganhar. Acho que vão me pagar setenta ou oitenta mangos. Foi um amigo que me arranjou esse trabalho. É a primeira vez que faço.

– E você tem tempo? Pago o triplo, se for preciso.

– Tenho todo tempo do mundo.

– Quando?

– Quando quiser.

– Agora?

– Pode ser.

– Então vamos. Eu te levo para meu estúdio – disse, puxando o desconhecido pela mão.

– Só preciso de dois minutos para me vestir. E de meia hora para eu receber o que vão me pagar.

– É verdade, você ainda nem se vestiu. Se sair assim na rua, pode acabar preso – disse tateando um gracejo. – Eu te espero na entrada da faculdade.

– Juan Luna – disse, estendendo a mão.

– Prazer! Ariana – disse-lhe dando dois beijos no rosto enquanto sentia o sexo de Juan roçar-lhe, leve, a coxa direita.

– Encantado!

Por mais óbvio que seja, não custa dizer que Ariana não desenhou nada naquela tarde. Levou Juan para seu pseudoescritório de arquitetura prematuramente montado pelo pai, numa ampla sala comercial perto de sua casa, nominado sacra e secretamente seu estúdio. Ela jamais se dera a ninguém da forma como o fez àquele desconhecido. E jamais gozou tanto na vida. Menos pelos méritos de Juan como amante, embora tivesse qualidades lúbricas, e mais por conta daquilo que descobrira ser capaz de forjar, engendrar, arquitetar nas próprias carnes desejantes.

Naquela mesma tarde, Ariana quis saber o que havia causado a cicatriz que Juan ostentava no ventre.

– Quase morri. Desde então, nunca mais subestimei uma fêmea – disse, ao iniciar o vago relato.

Sem dar muitos detalhes, Juan contou que levou uma facada de uma mulher em fúria, ao ser abandonada. Ele jamais havia suposto, antes, que uma mulher seria capaz de machucá-lo daquela forma.

Juan Luna também contou que descendia de uma nobre estirpe de guerreiros incas. Nascido em Cuzco, considerava-se filho, embora bastardo, do grande império chamado Tawantinsuyu.

– Eu nasci exatamente no umbigo do mundo – explicou, destilando depois palavras em sua estranha e sonora língua ancestral.

Entre os seus ascendentes, também havia, segundo contou, um africano e um espanhol. O africano foi levado à região do Caribe, mas fugiu, subindo a cordilheira, e se casou com a filha de um líder espiritual inca. Havia sido retirado da mesma região onde a mitologia afirma ser a pátria de Mêmnon, herói que era sobrinho de Príamo e filho da Aurora. Quanto ao espanhol, tratava-se de um conquistador que procurava prata na região e estuprou a filha de um guerreiro. Foi capturado e colocado, vivo, para assar. Sua carne foi comida pelos familiares da moça violada e seus ossos, abandonados na selva.

A mãe de Juan descendia dessa violência. Sem conseguir estancá-la, sofreu sem remissão nas mãos do marido violento e autoritário.

– A sorte de meu pai foi ter morrido antes de eu ter idade suficiente para matá-lo – disse, com uma ponta de ódio cortante no céu da boca.

Ariana se encantou com as palavras de Juan em defesa de sua mãe, sem se dar conta do quanto elas eram um eco da mesma violência. Ao fim daquela tarde, ela já sabia ao menos uma dezena de coisas sobre Juan. Mas parecia que quanto mais aquele homem se revelava, mais estranho ficava. Estranheza que culminou quando ele, antes de ir, resolveu cobrar o preço combinado para posar para ela, como se ela o tivesse ficado desenhando apenas.

A cobrança que ele fez havia deixado nela uma sensação incômoda. Tinha ido para casa com a razão extraviada pelo desejo. Sentia como se tivesse comprado o corpo daquele homem – ideia que lhe causava um misto de excitação e vergonha.

No segundo encontro, mais estranheza se acrescentou aos contornos de Juan. Descobriu que ele não era michê, tampouco modelo vivo. Aquela atividade de fachada era só um bom motivo para poder circular entre os estudantes sem levantar suspeitas. Não conseguiu descobrir, no entanto, por que no primeiro encontro ele havia cobrado o preço combinado para posar para ela.

O negócio do peruano era vender drogas no campus da universidade. E o sucesso do empreendimento era garantido, pois não lhe faltava mercado consumidor e a repressão era nenhuma. Aliás, nenhuma ali dentro, já que para chegar com a droga naquele lugar era preciso ter perícia. Entretanto, a partir dali, Ariana se tornara uma espécie de passaporte de Juan para onde ele quisesse ir.

Pouco a pouco, ela foi sendo enredada nos negócios de seu homem. Transportava drogas de todo tipo em seu carro, estocava entorpecentes e armas em seu estúdio. Chegou a viajar com ele para a Bolívia, durante as férias, trazendo drogas e subornando policiais rodoviários no caminho de volta. Quanto mais e mais intensamente amava aquele homem, mais sua relação com esse mundo marginal se estreitava.

O período imediatamente posterior à viagem para a Bolívia foi aquele em que Juan mais faturou. Revendia a droga que haviam trazido, o que elevava às alturas seus lucros. Alguns meses depois, no entanto, começou o período da crise. Nos negócios, não na relação. Em pleno milagre econômico, apreensões de drogas em todo o país fizeram faltar material no mercado. O que se conseguia era de má qualidade e rendia pouco. Além disso, a venda na universidade não estava fácil como antes, com milicos agora ostensivamente o tempo inteiro lá dentro.

– Em ocasiões como essas, é preciso diversificar – sentenciou Juan.

Tal diversificação consistia em agir onde havia brechas. Tinha bons contatos e uma mulher que não levantava suspeitas. Diante do quadro, o sequestro era a opção mais fácil e segura. O casal não atuaria no grupo de frente, que se arrisca para raptar a vítima. Simplesmente tomaria conta dos sequestrados. Com isso, aquela menina rica, nascida e criada numa mansão nos Jardins, passou a habitar barracos e cortiços de diversas periferias. Chegou a dormir em chão de terra batida, em cima de jornais velhos. E realizava fantasias em matagais, represas ou mesmo em chãos diversos. À família, disse simplesmente que passaria a morar em seu escritório, mas raramente era encontrada por lá.

– Essa juventude… – lamentava sua mãe, sem supor qualquer nada.

Até que um dia a polícia estourou o cativeiro de um sequestrado que ela e seu homem vigiavam. Algemada, no camburão, imaginava a proporção nacional do escândalo. “Princesa bandida” ou “patricinha pistoleira” poderiam ser dois epítetos seus a partir dali. Especialistas de toda sorte emitiriam juízos vazios, tentando explicar o incompreensível: como ela, a filha de Aristarco do Albuquerque Prado, pôde ter se envolvido com um bandido daquela laia.

Talvez estivesse chegando perto do momento em que começaria a odiar Juan Luna. Mas nada disso lhe importava agora. Carregava e alimentava em si um filho. Filho bastardo de Tawantinsuyu. E contra tudo – medidas, projetos, possibilidades, evidências, conveniências, conivências, projeções e estatísticas – ela amou. Amou. Amou desbragadamente. E quem ama não sabe calcular.

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Escrito para a Oficina Escrevivendo: Falas de Amor, ministrada por Fabiana Turci na Casa das Rosas
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Vozes do Silêncio


Certa vez ouvi de um físico que as ondas sonoras jamais se extinguem completamente. Vão perdendo intensidade, tornando-se infinitesimais, mas permanecem vagando imperceptíveis, nunca extintas.

Não sei a exatidão física e científica disso, que ouvi de um homem de ciências. Mas me espantam a força e a exatidão poética desta realidade que, mesmo irreal, merece existir ao menos nos devaneios e nas quimeras. E na minha mente. E no meu silêncio, povoado de versos arcaicos, sons primevos, melodias, canções, gritos e sussurros. Sim, por trás do silêncio oiço os sons que nunca se extinguem. Meu silêncio é e sempre foi povoado de sons.

Mesmo o meu silêncio de hoje, o não-dizer o que já se sabe, contém o que já foi dito. Mesmo na ausência de palavras de amor, retiro de ondas que não se extinguem os meus versos, molhados com palavras tão eternas, ditas, quiçá, pelos primeiros poetas anteriores à escrita.

Ante a eternidade de minhas palavras, que vagarão sem rumo no tempo sem fim do infinitesimal, é preciso ter cuidado. É preciso não dizer o que jamais desejaria assinar com a essência de minha carne, é preciso calar o que não deve ser tornado verbo. Por isso, extirpo de mim palavras letais e levianas; por isso amo as palavras poéticas e as persigo para persignar-me, incréu que sou, com aquilo que sei que sobreviverá a mim…

Retiro de trás do silêncio as vozes que ecoam em meu canto. E mesmo sem murmurar que te amo, vagam no espaço, eternas pelo tempo, as palavras de amor que nos dissemos e que nunca se extinguirão…

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